O promotor, a camareira e os peões de Silvianópolis

Se fosse hoje a camareira seria processada por racismo!

O prédio do Fórum Homero Brasil é o mesmo… mas naquela época não havia grades em volta!

Durante as obras do asfaltamento da estrada que liga o município de Silvianópolis ao vizinho município de Turvolândia, no final da década de 1980, os funcionários da empreiteira ficaram hospedados na Pousada do Tanque, uma das duas pensões da cidade, – a outra estava em reforma – bem perto do famoso Tanque da velha Santana do Sapucaí.

Naquele mesmo ano um jovem promotor de justiça, cuja cor da pele nos remete a afrodescendentes, foi designado para trabalhar no fórum local. Enquanto não se mudava para a Comarca, o promotor também se instalou na pensão, única disponível. E se arrependeu!

Sem opções de lazer na velha e pequenina Santana do Sapucaí, e habituado aos estudos, depois do expediente no fórum, o promotor gastava seu tempo debruçado sobre os livros em busca de mais conhecimentos. Mas só depois que os peões dormiam…!

Já os ‘peões’, depois de um dia inteiro de trabalho pesado, procuravam relaxar nos braços de Severina do Popote e jogar conversa fora na pensão até a hora de dormir. Quando se levantavam de manhazinha, ninguém mais dormia na pensão, tamanha era a balburdia que faziam na hora do café da manhã.

O jovem, introspectivo e sisudo promotor, que só pegaria no expediente no fórum depois do meio dia, não se levantava, mas ficava rolando na cama até que os peões saíssem para o trabalho. Só então voltava para os braços de Morfeu, para completar o sono. Por conta disso, o mui digno guardião das leis, chegara a cogitar a possibilidade de uma transferência para outra Comarca, antes mesmo de criar raízes na velha Santana.

Um fato banal, porém hilário, veio corroborar sua decisão!…

Numa bela manhã veio trabalhar na pensão uma nova camareira. Apesar de prestimosa em lavar pratos e talheres e experiente em trocar fronhas e esticar lençóis, ela não conhecia todos os hospedes! Depois de servir o café da manhã para a peonada e lavar os ‘trem’ do café, Jurema foi arrumar os quartos. De repente deu de cara com o promotor enrolado nos seus lençóis, nos braços de Morfeu. Simples como ela só, e querendo ajudar o hospede que supunha retardatário, sacudiu os lençóis, bateu no ombro do promotor e foi dizendo:

– Acorda negão!!! A sua turma já foi p’ra estrada faz tempo!!!

… Ele acordou mesmo! Acordou pela ultima vez naquela pensão…

Aquele foi seu terceiro e último dia de trabalho em Silvianópolis. O fórum da comarca abriu vacância e ficou várias semanas sem um mui digno RMP, até que um novo fosse designado para substituir o promotor que fora confundido com os peões da obra da estrada de Turvolândia!

Tempos bons aqueles da década de 80, quando o cidadão tinha liberdade de expressão, sem frescura! Tempos em que “Negão” era apenas uma forma carinhosa de se dirigir ou se referir a uma pessoa querida ou conhecida. Nos dias atuais, regidos pelo – pseudo – politicamente correto, a espevitada, inocente e bem-humorada camareira seria chamada na chincha… – coitada! Se não conseguisse dobrar a serra do cajuru, receberia pulseiras de prata e seria levada no táxi do contribuinte para sentar-se ao piano do paladino da lei na DP! … E depois seria levada às barras dos tribunais e enquadrada no crime de racismo!

Saudades de Santana … Saudades dos anos 80!

Pessoas que deixaram rastros na minha terra!

Filomena…

Segunda casa da Filomena no bairro dos Coutinhos… também de pau-a-pique, (Foto de 1990, cedida por Hilário Coutinho).

Filomena morava com os irmãos ‘Zelino’ e Messias… Nenhum dos três se casou. Eram muito queridos e respeitados no bairro, mas eram de pouca prosa. O mais comunicativo era o caçula Messias… ele era surdo-mudo! Toda vez que se aproximava de alguém na estrada, emitia sons, gesticulava e sorria. Nunca consegui entender um gesto ou palavra sequer… mas eu tinha certeza que ele estava feliz em conversar com alguém.

Sua casa foi a última de pau-a-pique e ser demolida no bairro. Era amarela, grande, baixa, rente ao chão, cheia de janelas de madeira, coberta de telhas de bica como todas as casas da roça. Em seu lugar foi construída outra, também de pau-a-pique… Agora branca. Tinha um pequeno terreiro em volta. Algumas flores nativas. Logo em seguida começavam as plantações, uns dois hectares de terra roxa, plana. As vezes plantavam mandioca, outras vezes milho, feijão… Certa vez plantaram batata-doce, roxa. Quando plantavam milho a casa de pau-a-pique desaparecia atras do milharal. Como não usavam adubo, de vez em quando precisavam descansar a terra… aí simplesmente não plantavam nada e deixavam a soqueira de milho virar pasto, para arrendo. Animais na casa e no seu entorno, além de tatus e pacas que viviam do outro lado do ribeirão e frequentemente vinham comer milho no quintal, apenas galinhas e um gato preguiçoso. Ah, tinha também alguns lagartos do tamanho de jacarés, que vinham comer tenros pintinhos amarelinhos ainda em penugem na beira do terreiro! É dela uma frase que era contada em toda roda de contadores de causos do bairro… Nos seus afazeres domésticos um gato gordo e preguiçoso vivia se esfregando na barra do seu vestido, enquanto pedia comida. No mesmo ritmo enfadonho do gato ela teria dito:

– Chiiiiiiipa gaaaato, ôh amolaaaaannnnntttteeee…

Filomena tinha dois hábitos marcantes… Um, era não ir às casa das pessoas. Não que fosse antissocial, pois conversava muito bem com as pessoas quando as encontrava na estrada. E também recebia com cortesia as que a visitavam. Falava do tempo, reclamava da poeira, da falta de chuva, da falta de sol, da colheita que estava próxima… O outro hábito era ir à missa na igreja matriz de Congonhal, religiosamente, nos dois sentidos, todo domingo. Na capelinha do bairro ela ia uma vez por mês, pois o padre só vinha pastorear seu rebanho uma vez na ultima semana de cada mês! Chegava cedo. Se a missa era às sete da noite, muito antes de o sol recolher os bigodes ela já estava sentada num dos bancos ou na frente da capelinha na beira da estrada, no centro do bairro dos Coutinhos. Vinha devagar, caminhando ao lado do inquieto Messias – quando a capelinha ficou pronta, Zelino já havia partido – Se sabia que estava adiantada para a missa, vinha ainda mais devagar.

O passar dos anos promoveu muitas mudanças, muitas transformações sociais no país. Inclusive no bairro dos Coutinhos. Uma das mudanças diz respeito ao número de veículos existentes no bairro. A outra reporta ao hábito de oferecer carona. Há poucas décadas, ninguém passava de carro pela estrada sem oferecer carona para quem estivesse caminhando, fosse conhecido ou não. Porém, décadas atrás havia pouquíssimos veículos circulando ali. Durante muito tempo o único veículo, além da bicicleta, do cavalo ou do carro de boi, que levantou poeira na estrada do bairro dos Coutinhos, foi o Jipe com capota e janelas de lona do Abrão Venâncio! Hoje dezenas de carros, de todas as marcas e modelos, trafegam quase dia e noite! Mas ninguém oferece carona a ninguém! Até porque, ninguém conhece ninguém!

Essa transformação, da qual os irmãos “Lino” assistiram boa parte, não mudou uma vírgula as suas vidas. Os seis quilômetros que separavam sua casa de pau-a-pique amarela na Vargem do Coqueiro, da igreja Matriz de São José em Congonhal para a missa dominical, continuaram sendo percorridos com o mesmo motor… à pé! Iam sempre à ‘missa de cedo’, a das oito da manhã. Depois da missa faziam o mercado semanal no armazém do ‘Zé Véio’, distribuíam em três sacos de sal, jogavam nas costas e voltavam passo-a-passo para casa. Quem fosse à ‘missa do dia’, às dez da manhã, podia cruzar com os três irmãos ao longo da rodovia… Zelino, Filomena e Messias, em fila indiana, sempre nessa ordem, voltando lentamente para casa. Ela, na maioria das vezes, debaixo de um guarda sol preto.

A casa de pau-a-pique da Filomena era a mais próxima da minha, menos de duzentos metros, na direção da ‘civilização’. Bastava sair à janela da sala da nossa casa alta para avistar o telhado da casa dela. No entanto só fui lá uma vez, salvo engano, em 1987, velar o octogenário corpo do Zelino. A ausência do irmão mais velho mudou uma única coisa na vida de Filomena… Agora ela era vista na estrada do bairro, a caminho da missa em Congonhal, na companhia ‘apenas’ do irmão surdo-mudo e sorridente!

Seis anos mais tarde, aos 78 anos, o sorridente Messias calou de vez sua voz, tirou seus passos da estradinha poeirenta do bairro, e foi morar com o irmão no andar de cima!

A ausência do irmão caçula e silencioso, mais uma vez não alterou os hábitos de Filomena. Uma vez por mês ela beijava a ponta dos dedos e depositava o beijo na imagem do Menino Jesus de Praga, padroeiro da capelinha do bairro dos Coutinhos. A ‘missa de cedo’ aos domingos, continuou levando Filomena à igreja matriz de Congonhal… agora sozinha!

Certa manhã de domingo, em meados dos anos 90, depois da missa de cedo, demorei-me alguns minutos num mercadinho. Quando peguei a estrada alcancei Filomena. Sua figura era inconfundível, desde longe. Debaixo do velho chapéu de sol preto, ela seguia, como sempre passo a passo à margem da rodovia. Usava a costumeira saia grande quase arrastando pelo chão, uma discreta blusinha clara, um crucifixo de madeira pendurado no peito e o lenço bege cobrindo o coque de cabelos cinzas. Parei meu Escort prata alguns metros à sua frente e quando ela passou, ofereci carona!

– Não… Eu vou à pé mesmo! – respondeu ela, quase no mesmo ritmo em que falava com seu gato… e continuou andando.

Mais tarde comentei o fato na cozinha enfumaçada do meu tio …

– Ela escuta pouco e tem a vista ruim… Decerto ela não reconheceu você! – respondeu o ‘filósofo’ Antonio Paula.

O relógio de Filomena e dos irmãos sempre fora o sol, a lua e… o galo! Quando o sol se deitava, era hora de dormir. Quando o galo cantava, era hora de se levantar. Agora, octogenária, sem os irmãos para cuidar, sem o gato modorrento e amolaaaaaaannnnteeee se esfregando na barra da sua saia cinza na cozinha da sua casa -agora branca -, com a vista cansada e os ouvidos menos apurados, Filomena começou a confundir as horas do dia… e da noite! Como conservava o hábito de ir à missa na capelinha do bairro e à missa de cedo – e como mineiro, ainda mais Coutinho! não perde a hora – Filomena chegava sempre muito adiantada às solenidades religiosas. Se o ‘Pequeno Príncipe’ de Saint Exupery já estava à postos meia hora antes do encontro, Filomena se preparava muito melhor… Se a missa no bairro era às seis e meia da tarde, ela chegava com o sol alto… antes das cinco! Essa falta de noção das horas não acarretava prejuízo a ninguém… mas causava cenas ao menos curiosas! Bem curiosas…

Já debilitada pela idade e precisando de mais tempo para percorrer os seis quilômetros de estrada que a levariam à tradicional missa de cedo em Congonhal, Filomena saia de casa muuuuuito cedo… antes de o galo cantar! E muitas vezes chegava à igreja muitas horas antes de o educado e cortês sacristão Zé Olimpio abrir as portas. Tornou-se comum ver a velhinha solitária, sentada ao pé da pilastra da torre da matriz, ainda de madrugada, esperando o dia amanhecer! Se essa cena era comum, inusitado era cruzar com ela usando uma blusinha parda sobre o indefectível vestido cinza – o de ir à missa! – com a barra roçando a ponta da guanxuma, caminhando lentamente à margem da rodovia deserta, sob o plácido luar da lua cheia, no meio da madrugada!

Esta cena me remete à “Maria… 90 anos de solidão”, história da velhinha também octogenária que saiu para catar gravetos no pasto perto da sua casa à meia noite de lua cheia! A historia de Maria está no livro “Quem Matou o Suicida”!

Quem presenciou esta cena – uma velhinha caminhando solitária pela estrada de madrugada, iluminada pela lua cheia – com certeza, não parou para oferecer carona!

Se estivesse entre nós, hoje, em dias de Covid, Filomena não teria dificuldade de distanciamento. Era totalmente avessa a aglomerações. Alguns diziam que ela também não gostava de ser fotografada. Filmada então, nem pensar! Certa tarde fresca de meados dos anos 90, consegui filmar Filomena há cerca de cinquenta metros. Era um sábado, dia de missa na capelinha do bairro…

Filomena vinha lentamente pela estrada poeirenta, sem pressa de chegar. Quando eu a vi, a pretexto de filmar a casa da Catarina, posicionei a filmadora e fui captando uma panorâmica, lentamente, passando pela estrada por onde ela vinha. Demorei um pouco mais na figura octogenária, aproximei a imagem e segui filmando até a torre da igreja. Alguém que me viu filmando sutilmente a velhinha com fama de pouca prosa, falou:

– Se ela souber que você a filmou, ela vai te xingar!

… Acho que, de fato, ao menos de longe, Filomena não tinha vista muito boa!… rsrsrsrs.

Essa foi a última vez que vi Filomena caminhando. Em 2001, já sob os cuidados e o carinho dos funcionários do Asilo de Congonhal, Filomena foi se juntar aos irmãos Zelino e Messias… e, quem sabe, ao seu gato amolannnnte.

‘Filomena do Lino’ foi uma destas pessoas que exigiam pouco da vida… das pessoas, mas teve presença marcante na vida de várias gerações do bairro dos Coutinhos! Lembra um pouco, ao menos o título, do clássico de Erico Veríssimo inspirado nos ensinamentos bíblicos… “Olhai os Lírios do Campo”…

Poucas pessoas deixaram tantos rastros, – literalmente –, como Filomena, na minha terra!

 

*** Um velho hospede do Hotel do Juquinha acaba de tropeçar e cair nas malhas da lei.

Breve você vai saber, aqui no blog, quem é ele e os detalhes da sua prisão.

Uma dica: ele tem nome de cantor!

Assalto ao Baronesa…

… E o dilema do detetive endividado!

Ferreira era um daqueles raros policiais que viviam exclusivamente do salário recebido do Estado. A maioria dos seus colegas tinham uma atividade paralela: uns faziam ‘bicos’ como segurança, outros tinham um comercio, alguns tinham rendas digamos…‘não declaráveis’!

Ferreira bem que tentou descolar uma renda extra. Iniciou uma granja de codornas, tentou criar galinhas entrou no ramo de mascate de roupas, foi cobrador de dívidas, foi cartola de futebol amador, enveredou-se pelo jornalismo e pelas ondas do rádio… mas nada disso rendia dim-dim! Há anos vivia no vermelho. Nos últimos anos, quando os dois filhos foram para a faculdade a situação… piorou! Pagava a faculdade dos garotos uma vez por ano, sempre em janeiro… Senão não renovava a matrícula!

Certa madrugada o detetive Ferreira teve a oportunidade de colocar as finanças em dia…

Primeiros minutos de uma madrugada fresca de segunda feira. O plantão na velha delegacia de polícia da Silvestre Ferraz estava um marasmo só. Os aviõezinhos e formiguinhas haviam distribuído toda a ‘farinha’ da cidade na madrugada anterior; os pés de cana já haviam ido dormir; os guampudos que, por qualquer motivo, costumam descer o borralho na cara-metade, também já estavam nos braços de Morfeu…  E a DP estava entregue às moscas. Até que, um telefonema da PM solicitou a presença do Perito Criminal a um local de roubo! Uma quadrilha havia feito uma limpeza no cofre do Baronesa!

Não é comum o detetive de plantão acompanhar o perito a locais de crime. Menos ainda o Ferreira, pois ele trabalhava na DH e, além de gostar, tinha mais experiência na investigação de homicídios. No entanto, quando o perito passou pelo hall com sua maleta e o convidou para acompanhá-lo ao local do roubo, ele topou. Afinal, além de quebrar a rotina, dois policiais teriam mais chances de encontrar as pistas que levariam aos assaltantes. Mal sabia o detetive que aquela seria uma das madrugadas mais “conflituosas” da sua carreira!

Os bandidos haviam entrado pelos fundos do hipermercado e após render o segurança, foram direto para o escritório. Embora tivessem completo domínio da situação e um pouquinho de perspicácia… Para evitar chamar a atenção de outros seguranças e da vizinhança no início da madrugada, eles não acenderam as luzes. Usaram lanternas para iluminar o caminho e o local do ‘pote de ouro’. Mas tinham pressa, muita pressa… e pouca habilidade e delicadeza! Após encheram os malotes com tudo que podiam carregar saíram correndo no escuro… E foram deixando os vestígios do crime pelo caminho.

Comunicado o roubo, a PM naturalmente foi a primeira a chegar ao local do sinistro… e não tocou nos ‘vestígios’!

Quando o detetive Ferreira e o perito chegaram ao local, depararam com uma cena inusitada! Ao longo da rampa de acesso ao escritório havia dezenas de pacotes de dinheiro amarradinhos com elásticos, espalhados pelo chão! Foi aí que começou o dilema do detetive Ferreira!

Com a aposentadoria quase batendo à porta, e as contas vencidas quase chegando ao pescoço, de repente ele viu a oportunidade de sair do atoleiro de dívidas. A solução estava a seus pés! Literalmente a seus pés! Bastava abaixar-se e pegar um pacotinho. Um mísero pacotinho resolveria todos seus problemas. Não precisava ficar rico. Bastava apenas pagar as contas.

Todos os pacotinhos de dinheiro espalhados, desde o escritório até ao longo da rampa, continham cem notas. As de R$ 50 somavam, portanto, cinco mil reais. As de R$100 somavam dez mil. Um pacotinho daqueles de notas de cinquenta daria para pagar todas as dívidas da faculdade dos meninos e talvez sobrasse para comer uma pizza no Pier! Se pegasse um pacotinho de notas de cem, daria para colocar e manter suas contas no verde por muito tempo. Quem sabe até passar um final de semana num hotelzinho duas estrelas em São Lourenço ou Caxambu! Precisava ser rápido e sutil! Lá atrás o gerente, ou talvez o dono do hipermercado, conversava com o oficial da PM. O perito ao seu lado estava absorto tirando fotos. Não podia escolher… Tinha que abaixar-se rapidamente e pegar o pacotinho que estivesse ao alcance da mão.

Pegar ou não pegar o pacotinho de dinheiro? This is the question!

Enquanto desciam lentamente a rampa registrando cada detalhe que pudesse identificar os assaltantes, Ferreira travou sua mais notória batalha entre o bem e o mal. Precisava pegar aquele dinheiro para pagar suas contas… Mas não podia fazê-lo! Era contra seus princípios! Além do mais, embora vivesse sempre no vermelho… andava de cabeça erguida!

“Você viveu até aqui sem pegar o que é dos outros. Esse não é seu. Não é certo”, dizia um anjinho de braços cruzados, com uma coroa dourada sobre a cabeça, à sua direita.

“Deixa de se tolo! Não tem ninguém vendo! Vai ficar na conta dos assaltantes mesmo”, dizia um chifrudinho sacudindo um tridente em brasa!

O dilema vivido pelo velho detetive naquela madrugada lembra a piada do Papa Paulo VI quando da visita de Sofia Loren – dona do mais belo par de seios de meados do século passado, ao Vaticano. Dizem que quando ela se inclinou para beijar-lhe a mão, os voluptuosos e rosados seios quase saltaram para fora do decote! Diante de tão sublime visão, o santo papa engoliu em seco e não conseguiu desviar os olhos. Ao perceber o ligeiro devaneio do papa, o anjinho à sua direita teria exclamado com os olhos arregalados:

“Papa Paaaaauuuulo”!!!

Já o ‘chifrudinho’ da esquerda teria encorajado o santo – assanhado – papa, mudando apenas a interjeição…

“‘papa’, Paulo, ‘papa’…”

 

Mas o detetive Ferreira não ‘papou’!

Seu anjinho de aureola dourada venceu a batalha!

Os pacotinhos de notas de cinquenta e de cem continuaram espalhados na rampa do escritório do Baronesa à disposição do seu dono.

De volta à delegacia Ferreira gastou o resto da madrugada para fazer o relatório do caso e de outros em investigação. De manhã, quando chegou em casa, dormiu o sono dos justos. À mesa do almoço contou o fato à família. Os filhos ouviram em silencio. Se limitaram a pousar cada um a mão no seu ombro. Um breve afago… um afago que não tem pacotes de notas de cem que pague!

Nos anos seguintes, com a promoção por antiguidade e o consequente aumento de salário, e o término da faculdade do filho mais velho, Ferreira começou equilibrar as finanças. Três anos mais tarde, ao aposentar-se, finalmente zerou as contas. Apesar de ter vivido muitos anos no vermelho, Ferreira sempre teve sinal verde por onde passou… e sempre pode encostar a cabeça no travesseiro e entregar-se imediatamente às caricias de Morfeu!

Anos atrás, durante um encontro casual com o perito, Ferreira relembrou o fato e disse que estava pensando em contar nas redes sociais o dilema vivido naquela madrugada.

“Eu não faria isso… Pode parecer demagogia”! – disse o cético perito.

Hoje Ferreira finalmente resolveu contar o dilema daquela noite.

“Julguem como quiserem” – disse ele.

“Como cuidar de um familiar com Covid em casa!”

Mensagens da Internet – Utilidade Publica

(Imagem ilustrativa)

“Vejo muitos “posts” aterrorizando as pessoas sobre o número de MORTES… mas não vejo autoridades orientando familiares e amigos das pessoas contaminadas pelo CORONAVÍRUS.

 

Repassando orientações aos leitores!

 

1) não tenha “medo” da pessoa que você vai cuidar, ela precisa da sua ajuda.

 

2) ela precisa ficar “isolada”, então, deixe-a num quarto, numa sala, numa área de pouca passagem para as outras pessoas.

 

3) se você tiver um banheiro separado, tipo um “quarto de hóspedes” é lá que essa pessoa deve ficar, sem sair…se você não tem um lugar assim, deixe a pessoa numa sala arejada, ela deve estar todo o tempo de máscara, deve higienizar as mãos sempre e, não sair daquele local… (só sai pra tomar banho e usar o banheiro).

 

4) se o banheiro for de uso comum, tudo bem… não se desespere… após a pessoa tomar banho, fazer necessidades, ela mesma pode pegar um pano com álcool a 70% ou solução de água sanitária 50 ml + 950 ml de água e passar na tampa do vaso sanitário, no chão do banheiro, nas torneiras, na pia, na maçaneta da porta… se a pessoa for idosa, você coloca luvas, máscaras, prende seu cabelo e vai lá passar essa solução em tudo!

 

5) em todas as portas da casa você deve colocar um pano úmido com água sanitária especialmente naquele ambiente em que a pessoa está.

 

6) se você puder comprar copos, garfos, facas e colheres descartáveis será melhor…, mas… se não puder, deixe uma bacia com água e água sanitária para a pessoa colocar os talheres, copos e pratos “de molho” nesta mistura… e você pegará essa bacia 1x por dia, com luvas e lavará os objetos 1x por dia… a pessoa infectada não vai tocar na bacia… vai apenas depositar os objetos na solução. Marque os talheres com esmalte para unha(vermelho)… assim você tem certeza de que não vai misturá-los… Marque os copos e pratos, também com as iniciais do nome da pessoa.

 

7) cobertores, lençóis, fronhas, cobertas, travesseiros devem ficar isolados, até que a pessoa se recupere… não lave-os junto com as roupas da casa… (se for lavar e reutilizar, use uma mistura com água e um pouco de água sanitária pra deixar de molho antes de lavar!)

 

8) Ofereça os remédios sempre em copos descartáveis…ou num guardanapo de papel.

 

9) você, que é “cuidador” e seus familiares, que estão na casa, devem manter distância dessa pessoa e devem USAR MÁSCARAS TAMBÉM.

 

10) Devem manter distância mas… “cobri-la” com AMOR e RESPEITO!

 

Lembre-se… MANTENHA A CALMA!

Essa pessoa precisará muito mais de você do que você jamais precisou de alguém!

 

Se achou essa postagem muito importante copie e cole na sua linha do tempo. Isto é UTILIDADE PÚBLICA! Pratique o bem! Ele, no final, sempre vence!! Seja generoso, empático e respeitoso. Logo… logo, pousaremos em solo seguro com nossas mentes mais maduras e coração mais amoroso! #empatiaaoproximo

Pedalar na Lagoa… um aprendizado para a vida!

Quem conseguir não xingar e nem ser xingado… pode pegar a ‘carteirinha’!

     O movimento começa cedo, de manhãzinha, e não tem hora para acabar. Durante todo o dia, até a noite, são centenas de pessoas pedalando em torno da lagoa. Alguns indo para o trabalho – à tarde voltando -, alguns fazendo entregas, muitos treinando para competições e a maioria apenas fazendo turismo ou cuidando da saúde física e mental.

Essa é a Sapucaia, que equivocadamente deu nome a varias cidades e rios do Sul de Minas…

     Durante todo o percurso da Avenida Negrão de Lima, numa extensão de 20 quilômetros, há uma ciclofaixa, lenta, no elevado do canteiro, reservada aos bikers. Mas nem todos pedalam em segurança. Ao longo de todo o percurso há placas de alerta aos motoristas:

“Cuidado: Ciclistas em Treinamento”!

     No entorno da lagoa pedalam homens, mulheres e crianças de todas as idades, dos 7 aos 70 anos. Aliás, há muitos baby-bikers de 4 ou 5 anos pedalando por ali. E tem também senhores com mais de oitenta primaveras!

Impossível não parar para as selfies e ‘conversar’ com JK, Niemeyer, Burle Max e Portinari…

     Nos finais de semanas ensolarados, a faixa de 1,80m fica pequena para tanta gente. É aí que mora o perigo!

É aí que começa o “aprendizado para a vida”… Aprendizado de paciência, de tolerância, de educação, de respeito ao próximo e, principalmente… de controle dos próprios sentimentos e emoções!

Nem todos seguem as normas:

– pedalar sempre à direita da faixa;

– não invadir a esquerda sem olhar;

– não parar na faixa;

– não pedalar em dupla paralelo ao amigo ou à namorada;

Paralela à ciclofaixa há outra faixa pavimentada de igual tamanho… Essa é exclusiva para pedestres, que correm ou que caminham.

– Não pedalar na faixa de pedestres…

E a recíproca é verdadeira:

– Não caminhar na ciclofaixa!

Apesar de tudo isso, tem gente que trafega aqui ou acolá até com as mãos fora do guidom!

A inobservância destas normas de segurança e bem viver, durante a semana, pode provocar expressões do tipo:

– Desculpe… foi mal…

E reações do tipo:

– ‘Belê’… tranquilo…

Já nos finais de semana o caldo engrossa. As expressões mais comuns são:

– ‘Prestenção’ mané… Tem mais gente na pista… Não sabe andar, fica em casa… Jumento… chifrudo… (e tem coisa pior).

Durante a semana, com pouco movimento, os ciclistas, quando se aproximam de um distraído, pedem passagem com um bem humorado cumprimento:

– Bom diiiiia, boa taaarde… – e o distraído responde acanhado:

– desculpe!…

No domingo, com a faixa disputada por centenas de ciclistas, – e pedestres – distraídos, especialmente o turista ou o domingueiro fazendo selfie enquanto pedala, o linguajar perde um pouco do ‘romantismo’! De longe os incomodados já vão vociferando com rispidez:

– Direita, direita, olha a frente, direiiiita… ‘baraaaaalho’!

E quando passam, além da comunicação expressa no rosto e no olhar, se comunicam também com o braço… e não raro também com o ‘dedo médio’!

Praça do Museu de Arte, o ponto mais movimentado da lagoa. Ninguém passa por aqui sem levar muitas… fotografias!

    Enfim… pedalar na lagoa; curtir o ar puro; o frescor das arvores – ali tem uma fileira de Sapucaia, arvore que dá nome a rios e cidades no Sul de Minas – contemplar o visual dos diversos tons da agua, nem sempre limpa; os pescadores que banham minhocas diariamente por ali e de vez em quando fisgam uma tilápia ‘emperreada’, rsrsrsr; as academias ao ar livre; os trechos sombrios e desabitados da avenida; os pontos turísticos tais como a Casa do Baile, a Capela de São Francisco, o Mirante com as estátuas de JK, Niemeyer, Burle Max e Portinari defronte a ‘Casa Kubitschek’,  o Museu de Arte, cenário de infindáveis selfies e vídeos de noivas ou mulheres gravidas; a barragem da Av. Antonio Carlos, ponto final e cenário para mais fotografias, e finalmente a Praça de Yemanjá a Rainha da “Lagoa”, para curtir o por do sol!… É um aprendizado e tanto!

Praça de Yemanjá…  O passeio só fica completo quando se chega aqui. Melhor ainda se for no final da tarde…

 

     Depois de muito treinamento, depois de conviver com essa diversidade de comportamentos, de perfis tão diferentes, cada um se achando no direito disso e daquilo e um pouco dono de tudo… se você conseguir pedalar durante dez dias seguidos pelo orla da lagoa da Pampulha:

– Sem atrapalhar ninguém!

– Sem ser atrapalhado por ninguém!

– Sem dizer um palavrão…

– … e sem ser xingado por ninguém!

Então você aprendeu…  você cresceu…  você evoluiu…

Então você ‘pode passar no escritório’ e pegar sua ‘carteirinha’!

Você está preparado para viver em sociedade!

Médica legista de Pouso Alegre é agraciada na capital

Tatiana Telles e Koeler de Matos, foi agraciada com o troféu “O Tira”. O troféu é uma distinção a um seleto grupo de policiais civis que fazem diferença na sua carreira.

Formada pela Acadepol em 2014, Tatiana sempre esteve presente nos sinistros mais marcantes do sul de minas, realizando um trabalho de destaque na medicina legal. Ela usou argúcia e perspicácia para identificar os dois casais que morreram no acidente com o avião em Bueno Brandão em 2015. Naquele mesmo ano exumou e descobriu que Silvio Santos havia sido envenenado e enterrado ainda vivo em São Gonçalo do Sapucaí. Ainda no final de 2015 desceu um abismo para encontrar o corpo sem vida da jovem Larissa, sequestrada em Extrema. Em junho de 2018, esteve na cena da queda do helicóptero que matou um empresário e o piloto na serra de Espírito Santo do Dourado. No final daquele mesmo ano, após incansável procura, descobriu quem era a dona da perna encontrada em São João da Mata. Na mesma madrugada desenterrou o corpo da filhinha dela, e prendeu o esquartejador de Silvianópolis.

A investigação precisa destes e de outros crimes que abalaram a região nos últimos anos, colocaram a jovem e intrépida médica legista no radar da chefia da Superintendência de Polícia Técnico Científica da Polícia Civil.

No início deste ano Tatiana foi convidada a assumir a chefia da Medicina Legal no interior do Estado, e desde março trabalha na capital. No começo deste mês, tão logo tomou conhecimento do trágico acidente de ônibus que vitimou 19 pessoas em João Monlevade, a chefe do interior voou para o local e coordenou todo o trabalho médico legal envolvendo as vítimas, transferindo os corpos para a capital, visando uma melhor acolhida aos familiares vindo de Alagoas.

Estas e outras atuações da policial de ‘jaleco branco’, zelando sempre pela ética profissional, sem esquecer o espírito humanitário que deve nortear toda e qualquer atuação que envolve sentimentos íntimos das pessoas, credenciaram a jovem medica legista a receber o cobiçado e importante título.

O troféu “O Tira” é uma homenagem a quem faz da carreira policial um sacerdócio… Parabéns a todos os agraciados.

Parabéns doutora Tatiana T.K. Matos.

Aniversario de Evanildo Alves…

… o soldado que nasceu no dia 31 de novembro!

às vésperas de completar 18 anos, ele descobriu que nasceu em um dia que não existe…

Eram exatamente treze horas da tarde ensolarada e quente de novembro. Os setenta e dois soldados da Bateria Comando estavam simetricamente enfileirados por colunas sob a cobertura ao lado da Bateria, quando o grandalhão oficial Vargas, recentemente promovido a Capitão recebeu o comando do cabo-de-dia. Após dar a ordem costumeira.
-Descaaaaasarrrrrr…
Passou a fazer uma chamada aleatória;

– Três vinte e quatro …

– Rabelo – Respondeu com voz grave o refratário de 22 anos, de Machado.
– Três trinta…

– Héééélio – respondeu o mecânico de Santa Rita esticando o ‘é´’.

-Tres zero quatro …

– Máts – respondi, apimentando o ‘a’ e engolindo o ‘o’, como de praxe.

– Três quarenta e nove …

– Evaniuuuuudo – respondeu o soldado, prolongando o som do ‘u’, em tom grave.

Quem apenas ouvisse a voz, acharia que era um homenzarrão de 1,87mts, quase do tamanho do ‘Vargão”! Mas era um baixinho marrudo que fazia flexão com um braço só todo dia e não media mais do que 1,68mts. Foi campeão do Pentatlo militar naquele ano, mas foi reprovado no PELOPES, por falta de altura! Eu por que era muito franzino…

O comandante deu três passos lentos na direção do soldado, parou na frente dele, de braços cruzados nas cotas e repetiu, como se estivesse do outro do prédio;

– Soldado 349?…

Evanildo desfez a posição de sentido, afastou as mãos das coxas, afastou a perna direita e voltou a juntá-la batendo o salto do coturno brilhoso no calcanhar esquerdo ao mesmo tempo que batia as mãos espalmadas nas coxas, emitindo um único som, no mesmo segundo em que repetia no mesmo tom do capitão…

– Evaniiiiuuuuuudo… Senhooor…!

O capitão grandalhão soltou os imensos braços ao longo do corpo e ficou alguns segundos parado à frente do soldado, olhando para baixo tentando encontrar seus olhos protegidos pela aba do quepe, até que disse;

– Sabe o que eu vou fazer agora, Baixinho ?? – Por ser atleta, Evanildo era seu ‘peixe’… isso lhe permitia essa ‘intimidade’! – Vou te dar um tabefe no pé da orelha, que você vai sair ‘catando cavaco’!…

Sentimos o sangue acelerar em nossas veias!

Que comportamento era aquele do Capitão?

Estávamos acostumados a receber ordens, receber castigos físicos, do tipo “caia de boca” e pague 50 ‘pulinho de galo’, ou 20 flexões. Ou então ofensas quase gratuitas do tipo “acerta o passo ‘Mocorongo’”…

Mas ameaça, não. Ameaça era uma coisa muito pessoal. Não fazia parte da ‘hierarquia e disciplina’!
E o capitão, que na verdade era simpático e bem-humorado, emendou;

– Vou te dar um murro tão forte na cabeça que vai afundá-lo nesse piso de concreto…

A coisa era séria! – Pensamos.

Evanildo, o “Baixinho”, “peixe” do comandante, nem piscava! Devia ter feito alguma coisa muito grave! A tensão era grande. O silencio gritava…! E o capitão soltou a pergunta que os 72 soldados já não aguentavam mais conter:

– Sabe por quê???… Porque você não existe, Baixinho!!!

Como?
Passamos da perplexidade à confusão mental. Será que o capitão estava bem? De repente o comandante dá dois passos atrás, solta um braço das costas, vira-se para o restante da bateria e pergunta?

– Bateria… vocês conhecem alguém que tenha nascido no dia 31 de novembro!!!???

É claro que ninguém ousou abrir a boca. Nem mesmo o Silvestre 367, de Cambuí, que tinha um parafuso meio solto. Até porque, a maioria daqueles soldados ‘voadores’, mal saídos da adolescência – inclusive eu – nunca havia reparado que o mês de novembro tem apenas 30 dias.
E o Capitão Vargas, sul-mato-grossense, de Dourados, voltou ao seu ‘normal’ comentando e ordenando;

– Só mesmo em Espírito Santo do Dourado para ter mês de novembro de 31 dias!!!

Baixinho… Fora de forma. Você está dispensado do expediente da tarde. Vá à sua cidade consertar essa ‘titica’! Esteja aqui para o expediente amanhã de manhã… Se não quiser tomar o tabefe no pé da orelha!

 

Jose Evanildo Alves, o Baixinho ‘três quarenta e nove’, ‘peixe’ do Capitão Vargas na turma de 77; meu companheiro de ‘voação’ na biblioteca durante a faxina; cumplice nos furtos de abacate no quartel; depois colega de teatro amador e contemporâneo no ensino médio no Colégio Comercial São Jose, teve um pouco de dificuldade para ‘renascer’, aos 18 anos, em um dia que faça parte do calendário. A escrivã Iêdis, titular do único cartório da cidade de Espírito Santo do Dourado, reparou seu próprio lapso e o deixou um dia mais novo!
Hoje, 30 de novembro meu amigo e parceiro de tantas histórias está completando 62 anos.
Parabéns “Baixinho”… Que Deus o abençoe sempre!!!

E o livre das iras do Capitão Vargas…

 

* Essa crônica já foi publicada anteriormente. No entanto, republicá-la foi a maneira que encontrei para homenagear meu amigo Jose Evanildo – ‘menino que vi crescer’, do bem –  que há tempos não vejo, mas sei que continua morando na mesma casa gostosa dessa foto no bairro Belo Horizonte em Pouso Alegre.

Visitei a mulher do Zorro…

     Além de ‘justiceiro’, o marido dela foi um ‘bom malandro’!

Zorro ou não, Moacyr Bocudo resgata um trecho valoroso da nossa história através do seu livro “Memórias de um Bom Malandro”.

Semana passada, durante minha estadia em Pouso Alegre, estive visitando a sra. Creusa Vilas-Boas. Ela é uma daquelas ávidas leitoras de tudo que eu escrevo. “Eu sigo você, Chips, desde os tempos do Plantão Policial na Rádio Clube (inicio dos anos 80), disse ela”. Creusa foi uma das primeiras a comprar – e ler – o livro “Quem matou o suicida”. Faltava o autografo, por isso eu fui visita-la!

A visita teve um motivo especial. Creusa é viúva do sr. Moacyr Honorato dos Reis, conhecido pela alcunha de “Moacir Bocudo”, barbeiro, aventureiro e escritor autodidata – como ele mesmo se definiu – e ainda por cima… ‘justiceiro’ nas horas vagas!

Nunca fui próximo de Moacyr Bocudo, mas convivi com ele, fugi dele e ele de mim durante muitos anos! – Controverso, ele era amigo próximo de alguns policiais e persona ‘non grata’ para outros. Apesar disso, nunca tive nenhum atrito com ele e sempre nos respeitamos. Passei a respeitá-lo ainda mais quando ele publicou seu livro “Memórias de um Bom Malandro”, em 1996.

Prefaciado pelo saudoso Urias de Andrade, que, mal comparando, diz “Tal qual Jean Jaques Rousseau, Moacyr também se propôs colocar diante de seus semelhantes a verdade por inteira da natureza do homem que ele é…”. E diz adiante: “Moacyr soube tirar proveito do curso – e do decurso – que fez na universidade da vida…”.

Sem viajar nos livros escolares além do quarto ano primário, Moacyr viajou muito, nos dois sentidos. No literal geograficamente e no figurativo, nas narrativas de suas aventuras… rsrsrs! Mas adquiriu muita vivência e cultura – e, talvez por isso mesmo não teve tempo de estudar. E deixou uma obra bem interessante.

Apesar da pobreza de vocabulário, Moacir Bocudo conseguiu pintar muito bem os traços e costumes da época! Quando ele chegou à juventude, Pouso Alegre tinha cerca de vinte mil habitantes. Como registro histórico de uma bucólica e romântica época, “Memórias de um Bom Malandro” é de um valor inestimável!

Memórias de um bom malandro não foi o único feito histórico de Moacyr Bocudo… Ele incorporou também um famoso e lendário herói! Nada menos do que o justiceiro mascarado conhecido pela alcunha de “Zorro”! segundo ele próprio admite e confessa, vinte anos depois que o ‘Sargento Garcia’ e seus soldados pararam de caçá-lo ali nas bandas do “Quatro Cantos”!

Nos anos 70 um mascarado misterioso cortou na guasca muitos maridos infiéis que frequentavam a Zona Boêmia da David Campista, em Pouso Alegre. Na época, a pedido de alguns figurões da sociedade que costumavam frequentar a zona do baixo meretrício e chegavam em casa com o lombo ardendo, a policia civil passou a dar plantão na Zona para prendê-lo. Mas, como todo malandro que conhece a policia, Zorro, então na pele de ‘Dom Diego’, conhecia os policiais e portanto, saiu de cena.

A sra. Creusa pode se gabar de ter sido casada com o Zorro e com um “bom malandro”!

Muitos anos e muitas aventuras depois, passada a caçada ao ‘justiceiro mascarado’ da rua David Campista – que poderia render-lhe diversos processos por lesões corporais – Moacyr reivindicou o título de “Zorro da Zona Boemia”.

Segundo minhas investigações, há controvérsias!

Infelizmente nosso controverso herói nos deixou em 2007, antes de sentar-se ao meu piano e tentar me convencer da veracidade da sua confissão pública.

Zorro ou não, Moacyr Bocudo resgata um trecho valoroso da nossa história através do seu livro “Memórias de um Bom Malandro”.

 

Ah, a costumeira foto da sra. Creusa com meu livro autografado?

Fico devendo!… Ela, ao contrário do saudoso marido, é avessa às fotografias. Mas o carinho com o qual ela me recebeu em sua casa – muito próximo do palco das aventuras aqui citadas – ficou emoldurado na minha memória e no meu coração.

A “Lenda do Zorro da Zona Boemia” começa na página 303 do livro “Quem matou o suicida”…

 

“Quem matou o suicida”

O crime que deu titulo ao livro…

O pescador pedalava lentamente sua bicicleta pela trilha batida que saía na estrada, quando sentiu necessidade de fazer xixi. Passara as primeiras horas da manhã dando banho na minhoca na beira do rio e mal pescara meia dúzia de mandis. Na verdade, ele sabia que seria assim. As águas do Rio Lambari estavam muito sujas para pescar alguma coisa além de mandi. Só foi para a beira do rio por dois motivos: para manter o hábito… e para ficar longe da mulher! Encostou a velha bicicleta roxa com cesto na traseira e as varas de pesca amarradas ao quadro, em um arbusto na beira da trilha, entrou no mato e foi logo abrindo a braguilha.

Enquanto a bexiga lentamente esvaziava, deixando aquela sensação de alívio, deixou os olhos divagarem para o interior da mata. Observou os galhos, os cipós, um pássaro marrom de calda longa… – dizem que é alma-de-gato! De repente seus olhos pararam em um vulto pendurado num galho. Antes mesmo de fechar a braguilha inclinou o corpo tentando ver melhor o vulto. Sentiu um calafrio. Deu dois passos à direita, levantou um galho que dificultava a visão e… Arregalou bem os olhos!

Era mesmo uma pessoa!

A cena era macabra!

O corpo rijo pendurado na forquilha da árvore, com os pés a menos de um metro do chão, parecia balançar suavemente, não tanto pela brisa suave que penetrava através da folhagem, mas pela nuvem de mosquitos que se deliciava com o corpo em putrefação.

Martim Pescador, 55 anos, já vira pessoas mortas, inclusive por causas externas, mas a visão o deixou impressionado. Ainda com os pés fincados no chão, percorreu os arredores num raio de cento e oitenta graus procurando alguém com os olhos. Não viu ninguém e o silêncio confirmou: estavam sozinhos! Deu alguns passos à frente e foi circulando o palco, até ficar de frente para o pendurado…

– “Meu Deus! É o Jacinto…

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Um corpo inerte e sem vida pendurado na ponta de uma corda, no galho de uma árvore no meio do mato, acima de um banquinho jogado de lado, certamente encerra a história do enforcado! Mas pode começar uma intrigante história de mistério, de amor, de paixão, de dinheiro… – ou falta dele!

O que, aos olhos dos familiares, dos amigos, dos curiosos e até da polícia – aquela que se limita a cumprir o ‘horário de expediente’ – parece um típico suicídio, para um policial de verdade, aquele que ama o que faz e busca esclarecer os fatos e colocá-los na mesa do Homem da Capa Preta, pode ser um crime! Um crime covarde, tramado e executado pelo vizinho do lado, por um desconhecido ou até pelo amigo de baladas!

      No controverso título “quem matou o suicida”, mais importante do que saber quem é o assassino, é perceber a fragilidade da investigação policial que, por isso mesmo, na maioria das vezes deixa o assassino impune. O tino policial, a argúcia do velho detetive e o desfecho da história de “Quem matou o suicida”, no entanto, ‘pagam o ingresso’!

     “Quem matou o suicida” é apenas uma das histórias deste livro, que desnuda o heroísmo do policial, que o exibe como um mortal comum, sujeito a erros, medos, deslizes profissionais e… traições. “O último dia do policial”; “Por que os cães não atacavam Fernando da Gata?”; “O batateiro do bigode falho”; “Os fantasmas do velho hotel da Silvestre Ferraz”. Histórias macabras como “O esquartejador de Silvianópolis”; “O assassinato de Silvio Santos”; “Larissa de Extrema”; “Larissa de Pouso Alegre” são uma amostra disso.

      E tem muito mais.

      Além dos casos policiais, vivenciados ou investigados pelo autor, o livro traz histórias de vida tais como: “Maria, 90 anos de solidão”, “Guermina e o Catre”, “O menino que dormia sobre as caixas de maçã”…

      É impossível não se emocionar com o drama vivido por “Paulinho & Mariana, os pais do nóia JC”. Ou não ligar o sinal de alerta com a precocidade com que os adolescentes iniciam nas drogas, e seus riscos, em: “Tragicomédia no Hospital Frei Caetano”.

      Traz também histórias hilárias como “A múmia de Bueno Brandão e os Três ossos pequenos”; “O louco e a cascavel” …

      O bucolismo, o saudosismo e a transformação sociocultural de Pouso Alegre no último meio século pode se ‘pegar com a mão’ nas histórias “Ribeirões da minha infância”; “A lenda do Zorro da Zona Boêmia”; “O mistério do Corpo Seco” – que misteriosamente ‘sumiu’ do primeiro livro do autor – e; “Anos 70, a década de ouro da humanidade”.

     Enfim, uma obra para matar a saudade dos tempos idos, desnudar a alma do ser humano, e constatar que ainda existem profissionais que amam o que fazem – profissionais capazes de levar uma “Mensagem à Garcia” -, mas estão cada vez mais escassos!

     Tudo isso narrado com bom humor e de um jeito gostoso de ler, por alguém que viveu a vida toda em contato com as pessoas, nas ruas, há décadas contando casos policiais na imprensa de Pouso Alegre.

     Boa leitura!

     Airton Chips

* Para continuar a ler e saber “Quem matou o suicida”, adquira seu livro físico numas das livrarias ou bancas de jornais de Pouso Alegre, ou através da nossa loja virtual. Você pode ler também ‘online’, na Amazon.com.br

Larissa…

Estuprada, assassinada e jogada na lata de lixo!

O assassino se inspirou no clássico da literatura russa para cometer o crime.

Nove da manhã do dia 11 de outubro…

A costureira Joana arrumou o quarto, varreu a casa, arrumou a cozinha, juntou o lixo e foi levar ao coletor na rua, na extremidade da pracinha. Quando levantou a tampa do coletor laranja para colocar o lixo, o saco escorregou de suas mãos! O que viu fê-la perder as forças… As pernas bambearam! O queixo caiu! Demorou alguns segundos para recuperar o fôlego e soltar o primeiro grito! Dentro do coletor de lixo havia um corpo… Um corpo de mulher, ensanguentado… Sem vida!

No IML de Pouso Alegre, o médico legista contou 59 ferimentos à faca. E viu também vestígios de estupro. Depois da necropsia o corpo recebeu a etiqueta: “desconhecido”, e foi colocado na geladeira. Na tarde do mesmo dia o corpo frio e maltratado ganhou um nome:

“Larissa”

Depois de procurar na casa de amigos, de parentes, de um possível namorado, no hospital, e todos os cantos mais, a família foi à delegacia registrar o desaparecimento… E encontrou o corpo da menina no IML!

Larissa era apenas uma menina alegre, vivaz, sonhadora, ingênua… como a maioria da sua idade. Não tinha envolvimento com drogas e nem com qualquer tipo de crime. Não era sequestrável e nem ‘assassinável’. Seu bárbaro assassinato era um mistério.

Os detetives varreram as imediações da pracinha, sacudiram metade dos colegas, funcionários e professores da E.E.M. Jose Paulino, onde ela estudava, mas tudo foi em vão… não encontraram motivos para o bárbaro crime e nem o assassino!

Embora não houvesse muitos crimes na cidade na ocasião, a policia esqueceu do caso. Por falta do fio da meada para prosseguir a investigação, o caso Larissa – estuprada, assassinada e jogada na caçamba de lixo – foi para o freezer…

Só os parentes continuaram cultivando seu sorriso nas fotos, e alimentando a saudade…

O crime é cercado de mistérios e nuances de coisas do além, coisas que ficam escondidas nas esquinas da psique humana; que ora torce para a pessoa se dar bem… E a protege! Ora torce para ela se dar mal… E a delata!

O assassino inspirou-se em um clássico romance da literatura russa para matar a garotinha. Ele queria fazer melhor que Raskólnikov… Ele queria cometer o crime e ficar impune!

Será que ficou?

 

  • Essa macabra história – real – começa na pagina 271 do livro “Quem matou o suicida”.

O livro está à venda…