Peregrino solitário…

Cento e sessenta quilômetros de solidão, sol, chuva, dores e medo… em busca de paz!

(Imagem ilustrativa)

O homem alto, forte, de meia idade, estava caminhando há pouco mais de quatro horas, sem parar. O sol de meados de primavera castigava as costas, os cabelos por baixo do boné… Os pés pareciam arder em fogo. As pernas agradeceriam se parassem de se mover e esticassem, de preferência com os pés para cima. Já havia experimentado vários tipos de pisos na caminhada. Nos primeiros dez ou doze quilômetros pisara no asfalto morno e duro, porém plano. Outros dez quilômetros andara no cascalho duro, irregular, às vezes escorregadio… Às vezes pisava sem querer em uma saliência ou protuberância da estrada cascalhada e sentia o pedregulho penetrar na sola do pé como se estivesse descalço! Agora andava por uma estradinha vicinal de terra arenosa, macia, desviando das poças d’água ou do barro… – Havia chovido a noite toda e naquele trecho plano de estrada deserta a água ainda não havia secado. Tinha que dosar as energias pois a caminhada estava apenas no começo… e já sentia o cansaço. Precisava parar. Mas não adiantaria parar debaixo do sol escaldante da manhã, sem um local onde pudesse ao menos sentar-se. De repente, além da curva, surgiu uma capelinha na beira da estrada. Aprumou o corpo e firmou o passo. O sol já ia alto, ainda assim a torre da capelinha propiciava uma aconchegante sombra. Sentou-se na sombra. Retirou o tênis, as meias. Afagou os pés. Que alívio! Suas mãos nunca foram tão macias! Usou a mochila que levava nas costas como travesseiro e estendeu o corpo no cimento rústico da porta da capelinha. Mudou de ideia, inverteu… colocou a mochila debaixo das panturrilhas!… assim poderia manter os pés acima do nível do corpo. Saboreou o prazer de descansar as pernas, os pés, o corpo suado e dolorido, mesmo no cimento duro da porta da igreja. Ironia ou coincidência: À caminho do Santuário de Aparecida, a primeira parada do peregrino para descansar e refletir, foi justamente na sombra mansa e acolhedora de uma capelinha! O destino estava longe dali, muito longe. Não precisava e nem podia correr. Podia descansar uns quinze ou vinte minutos. Fechou os olhos e olhou para trás, para o caminho que percorrera até chegar ali.

O peregrino solitário fora muitas vezes à ‘Casa da Mãezinha’. De carro ou de ônibus, em romaria. Mas a pé era a primeira vez. Sozinho era a primeira vez. Sempre quisera fazer essa caminhada. Conhecia amigos que faziam, mas a oportunidade nunca chegava. Agora chegou. E chegou como necessidade. Precisava ir à Aparecida… precisava buscar algumas respostas! Passara o dia inteiro anterior pensando naquela viagem… até que decidiu pegar a estrada. As cinco da tarde entrou no gabinete do chefe e disse que precisaria se ausentar do trabalho por três ou quatro dias… Precisava fazer essa viagem. Sairia nessa mesma noite. O pedido foi tão contundente que o chefe nem objetou! Simplesmente disse: “pode ir”. Descontaria aqueles dias de ausência nas férias seguintes. Saiu do gabinete, pegou o carro, foi até um bambuzeiro na beira da estrada na entrada do Cajuru e cortou um bambu de cana-da-índia. Aquele pequeno cajado verde seria sua arma e sua única companhia na viagem! Foi para casa e preparou a mochila: um par de chinelos, três mudas de roupas, um lanche para o primeiro trecho, uma garrafa d’água, alimentou o espírito e esperou a hora da partida. Sairia às dez da noite… Ouvira dizer que os romeiros caminhavam quase sempre à noite e descansavam durante o dia. Às oito da noite São Pedro abriu as torneiras… e esqueceu de fechar! Às dez horas chovia forte em toda a cidade. Mudança de plano. “Vou esperar a chuva passar e saio à meia noite”, pensou. À meia noite a chuva continuava a cair, intensa. “E agora?”, perguntou-se. O bom senso sugeriu adiar. Foi dormir… mas manteve acordada a decisão de fazer a viagem. As seis da manhã em ponto fechou o portão de casa atrás de si e pegou a estrada. Ainda chovia fino, mas eram as primeiras “chuvas de verão”… não durariam muito. Atravessou decidido a cidade, entrou na estrada cascalhada em direção à Cachoeira de Minas e seguiu resoluto em frente. Naquele momento da vida tinha muitas perguntas a fazer… Precisava de respostas!

A primeira resposta ‘chegou à cavalo’… Na verdade chegou puxada por um cavalo! Os leves solavancos dos latões de leite vazios sobre a carroça puxada por um cavalo tordilho passando defronte a capelinha despertaram o peregrino. Sucumbido às poucas horas dormidas durante a noite e ao cansaço da caminhada de pouco mais de vinte quilômetros, o peregrino havia dormido no chão duro da porta da capelinha. Pouco mais de quinze minutos haviam se passado. Despertou sem susto com o breve rumor da carroça. Apesar do pequeno cochilo, acordou ligeiramente renovado! Espreguiçou-se, calçou as meias, o tênis, levantou-se, tomou mais um gole de água, jogou a mochila nas costas e retomou a longa caminhada pela estradinha estreita e deserta. Logo adiante chegou ao pé de um morro que parecia não ter fim. “Parece tão longo e íngreme… será que leva ao céu?”, pensou. Chegou ofegante ao topo. De lá avistou as fraldas de Conceição dos Ouros. Apesar de ser morro abaixo, os santos não ajudaram. A descida foi lenta e cautelosa… quase interminável!

Um homem caminhando, ainda que sozinho e numa hora impropria, com uma mochila nas costas e um cajado na mão, não precisa de palavras para dizer aonde está indo! Sua figura já diz o seu destino. Na entrada da cidade dois homens que trabalhavam numa obra aprumaram o corpo para saudar o peregrino.

– “… indo para Aparecida?”, perguntou o pedreiro.

A um aceno do homem de boné, mochila e cajado, o servente emendou:

– “Nossa Senhora te acompanhe!”

Poucos metros adiante, numa esquina, uma singela padaria. Comeu seu salgado predileto: coxinha! trocou a garrafinha d’água vazia por uma cheia e seguiu viagem. Cortou o centro da cidade. Olhou para a igreja de N.S. da Conceição, de portas fechadas, e sem parar fez uma breve prece silenciosa. Poucos minutos depois passou pelos quebra-molas do outro lado da cidade e se viu novamente sozinho da estrada quase deserta. Eram quase duas da tarde quando entrou na lanchonete Peixe-boi… Não tinha fome, mas tinha muita sede. Não tinha pressa, mas não queria perder tempo. Dentre tantas lembranças, pessoas, fatos, imagens que desfilavam na sua mente, sempre surgia a imponente basílica… as vezes deserta como já vira algumas vezes, às vezes lotada, de um jeito ou de outro carregada de energias, de sonhos, de santidade… As vezes a basílica parecia tão distante, às vezes tão próxima! Se fechasse os olhos e tornasse a abri-los parecia que no próximo passo já pisaria nos seus degraus. Precisava chegar ali… Seu espírito não descansaria enquanto não subisse aqueles degraus, enquanto não pousasse seus olhos marejados na imagem da Santa!

O calor causticante do meio da tarde de outubro judiava. Os pés pegavam fogo. Algumas bolhas nos dedos já haviam estourado. As virilhas dentro da calça folgada de moletom ardiam… Faltavam cerca de cinco quilômetros para chegar à Paraisópolis, menos de um terço da caminhada. Antes de começar a última subida parou para recompor as energias. Deitou-se na grama verde e tenra na sombra dos ciprestes… apoiou as pernas na mochila… no minuto seguinte estava dormindo. A proximidade da pista, a um metro do acostamento, não permitiu um sono sereno como o da porta da capelinha deserta. Despertou dez minutos depois com a buzina de um caminhão. Retomou a caminhada. Subiu o morro e desceu já no perímetro urbano de “Ventania”. Apesar do cansaço, dos calos e assaduras, estava bem-disposto e decidido a caminhar. Fechando os olhos se via dobrando a serra a sessenta quilômetros dali, descendo a serra, virando no trevo de Pinda… Dali por diante seria caminho desconhecido. Mas era o caminho que o levaria ao seu destino. Apesar das dores do corpo, sentia-se animado para aliviar as dores da alma. Olhou no relógio. O sol de outubro reluzia baixo por entre os galhos dos eucaliptos na beira da estrada… faltavam alguns minutos para cinco da tarde. Havia planejado dormir umas horas em Paraisópolis. Mudou de ideia.

– “Ainda está cedo. Vou passar reto… vou seguir até São Bento… Consigo chegar lá pouco depois das oito da noite, assim fico perto da metade do caminho”, pensou o peregrino. E começou a fazer as intermináveis curvas que antecedem Paraíso até que… sentiu uma leve vertigem!

– “Deve ser o cansaço e o sono”, concluiu o peregrino piscando com energia os olhos e sacudindo a cabeça.

Continuou a caminhada solitária. Alguns metros adiante uma cortina negra e disforme desfilou na sua frente… Abriu bem os olhos… as curvas da estrada e os carros se misturaram… o chão sumiu!… O alambrado de uma casa na beira da pista evitou que ele se estatelasse no chão. Sentiu que ia desmaiar. Sentou-se ali mesmo. Estendeu o corpo no cimento morno da calçada ao lado de um portão. Dessa vez usou o alambrado para apoiar os pés e manter as pernas para cima, e a mochila como travesseiro. Só então se lembrou de que a última coisa sólida que havia mastigado fora uma coxinha na padaria de esquina em Conceição dos Ouros, no final da manhã. Enquanto pensava no ‘descuido’, uma senhorinha, moradora da casa em frente, a qual vira a inusitada cena, chegou indagando e oferecendo ajuda.

– “Estou caminhando desde cedo quase sem parar… deve ser o cansaço”, explicou o peregrino, ainda de costas com as pernas apoiadas no alambrado. “Mas aceito um copo d’água”, completou.

O segundo salgado do dia deglutiu duzentos metros adiante, na pequena padaria depois da curva da igreja, antes do posto do Pituta. Recuperou parte das energias, mas refez os planos. Aliás, voltou ao plano original. Às seis da tarde entrou no hotel Central na praça de Paraisópolis. Precisava chegar ao seu destino, mas para isso precisava descansar para repor as energias. Tinha que dormir! E dormiu mesmo, antes da hora. Mal entrou no quartinho simples lá no fundo, longe da rua, colocou a mochila sobre uma cadeira, retirou o tênis e a meia, soltou o corpo fatigado sobre a cama e… apagou! Acordou duas horas depois, sacudido por pernilongos que entravam pela janela aberta!

Depois de um demorado e lento banho, atravessou a praça São José e foi jantar no restaurante do outro lado. Eram oito e meia da noite. Foi sua primeira refeição do dia. De volta ao velho hotel pediu ao septuagenário recepcionista, magrinho e grisalho, para acordá-lo à meia noite. Saciada a fome do corpo, faltava agora saciar a fome da alma. Isso, no entanto não o impediu de dormir. Estendido de costas na singela cama sem desfazer, com as pernas e os braços abertos, não precisou da ajuda dos ‘carneirinhos’… antes mesmo de terminar o tete-a-tete com a Mãezinha, já estava nos braços de Morfeu!

Não ouviu as doze badaladas do sino da matriz de São João a poucos metros do hotel. Mas despertou com o ritmado ‘toc toc toc’ na porta do quarto. O recepcionista de cabelos lisos e escorridos foi tão pontual quanto Alfred ou o Big Ben numa noite de inverno. Antes de o ponteiro escorregar para meia noite e um, ele estava batendo à porta. Vestir e se preparar para sair foi fácil e rápido. Bastou vestir uma camiseta limpa, a calça de moletom surrada, calçar o tênis e jogar a mochila nas costas. Ao calçar o tênis sentiu que o pé direito estava ligeiramente apertado. Só então percebeu que o tornozelo estava começando a inchar. Isso, no entanto não o impediria de retomar a caminhada rumo à Aparecida. Comeu metade de um pão da tarde, uma chávena de café e dirigiu-se à portaria. O recepcionista magrinho e calado cochilava num sofá velho diante de uma tv sonolenta. Saiu à porta. Antes de pôr os pés na rua olhou à sua volta. Dois ou três cachorros de rua cochilavam no jardim próximo aos trailers de lanches. Lá no fundo, um quarteirão depois da igreja, dois homens e uma moto parada. Um montado nela, o outro ao lado. Pareciam estar conspirando contra ele. Era por ali que ele teria que passar. Sentiu medo. A cidade estava deserta. Um vento suave sacudia levemente as arvores sombrias do jardim. Parecia uma cidade fantasma! Pela primeira vez na viagem sentiu medo. Observou o corpo… os pés estavam doloridos… as juntas das pernas doíam aos primeiros movimentos… as virilhas, embora arranhadas, não reclamavam desde que não fossem tocadas. Teve dúvidas se deveria continuar. Sabia que não desistiria da viagem… tinha de fazê-la, mas talvez devesse esperar o amanhecer! Estacado na porta do hotel, pensou… pensou, pensou, tornou a olhar para a direção dos rapazes da moto. Ainda estavam lá. Parecia que o estavam esperando… Repensou. Voltou para o quarto. Tirou apenas a mochila e deitou-se de costas na cama. Desta vez não adormeceu. Pensava nos motivos que o trouxera até ali. Nos motivos que o levariam até a casa da Mãezinha. Precisava continuar. Precisava buscar respostas. Além do mais, desistir seria uma derrota, um fracasso … não poderia olhar para si. Levantou-se. Andou pelo minúsculo e singelo quartinho. Havia caminhado menos de cinquenta quilômetros… Teria que caminhar ainda mais de cem! Agora, além das dores do corpo teria que enfrentar também as dores do medo, da incerteza, da serra fria e deserta durante toda a madrugada. Orou e pediu luz… pediu luz para a Mãezinha. Afinal, era para ‘vê-la’ de perto, para conversar ‘pessoalmente’ com ela que estava caminhando! Decidiu. Colocou a mochila nas costas e foi para porta novamente. A tv da recepção estava em silencio. A poltrona do velhinho magricela estava vazia. Abriu a porta e tornou a perscrutar a praça da matriz. A moto e os dois homens não estavam mais lá atrás da igreja. Só os cães de rua cochilavam em rosquinha na beira do jardim. Era uma hora da manhã. Puxou a porta atrás de si e reiniciou a caminhada. Resoluto, mas lento, pois as juntas da cintura para baixo precisariam de alguns minutos para aquecer e desatar.

Os primeiros minutos de caminhada renderam. Como não tinha com quem dividir o espaço da longa rua de traçado e piso irregular da centenária cidade, o peregrino podia andar pelo meio da rua, onde o piso maltratava menos a planta dos pés. Assim, debaixo das luzes amarelas e bucólicas da madrugada, ele chegou rapidamente à saída da cidade. A partir do trevo, seriam apenas ele, seus medos, e as sombras da madrugada. Para testar sua coragem o vento, muito comum naquele trecho nas escarpas da serra da Mantiqueira, resolveu sacudir a ponta dos ciprestes na beira da estrada. Nada que uma Ave Maria não pudesse resolver…

Apesar de ser início de outubro… e de primavera, a madrugada estava fria, escura e silenciosa. Podia-se ouvir o farfalhar das folhas das arvores com o balanço do vento, o coaxar de um sapo num brejo qualquer e até a sinfonia dos grilos na beira da estrada. De vez em quando a escuridão era inundada pelos faróis de um carro que passava rompendo também o silencio. Foi num desses momentos que a coragem e a fé do peregrino foram colocadas à prova. Acompanhando as luzes vermelhas de um carro que passava, a poucos metros à sua frente o peregrino avistou um vulto na beira da estrada. Podia ser um toco de arvore, uma pedra ou até mesmo um arbusto… mas o vulto tinha olhos! Olhos que brilharam por alguns segundos diante dos faróis do carro, que logo sumiu na curva deixando um breu atrás de si. Suspense! Apreensão! Medo! O peregrino solitário estacou!

– “E agora? O que será aquilo? É um animal, com certeza! Um cavalo, uma vaca? Não. É muito pequeno para ser um inofensivo cavalo ou uma fugidia vaca em busca de capim fresco. Um cachorro, uma paca, um tatu, um ouriço? Não. É muito grande para ser um bicho desses. Mas então que bicho será? Uma onça? Um lobo?”, perguntou a si mesmo o peregrino, conferindo o tamanho e o peso do cajado de bambu verde que levava. Contra um cachorro de pequeno porte o cajadinho seria útil… No entanto, contra garras e dentes afiados de uma onça parda ou um lobo, o porretinho não faria nem cócegas!

Estacado na beira da estrada a poucos metros do vulto de olhos brilhantes, o peregrino viveu seu pior momento da caminhada solitária. Por alguns instantes esqueceu as dores nas pernas, as dores nas virilhas, as dores nas juntas das pernas, o cansaço… esqueceu até os motivos que o colocaram na estrada. Nada disso teria importância se tivesse que lutar com uma onça parda usando apenas um cajadinho de bambu verde de pouco mais de um metro. Tinha uma segunda opção… voltar de fasto, lentamente, até sumir na curva, torcendo para o bicho não tivesse sentido seu cheiro, e voltar para Paraisópolis! Descartou imediatamente a opção! Não viera até ali para desistir! Além do mais, podia ser mesmo apenas uma pedra grande desgarrada do barranco acima da estrada. E os olhos brilhantes? Poderiam ter sido colocados ali na pedra pelo cansaço, pelo medo, pela insegurança… pela falta de fé!

– “É isso mesmo! Onde está minha fé? Minha confiança na proteção divina! Que tipo de peregrino sou eu que tem medo de uma suposta oncinha na beira da estrada”, perguntou a si mesmo o peregrino, apertando com força a medalhinha prateada que levava pendente do cordão de ouro junto ao peito. Retirou a medalhinha de dentro da camiseta suada, levou aos lábios, deu-lhe um beijo, apertou firme, tornou a guardá-la, chamou todos os anjos de plantão e seguiu em frente.

A curta conversa silenciosa com a Mãezinha no meio da madrugada não passou de um monólogo… não teve resposta. Mas o peregrino sentiu confiança. Até porque, não tinha opção. Mas tomou algumas cautelas. Até então caminhava – erradamente – à direita da estrada. A partir desse momento, atravessou a pista e seguiu pela esquerda, assim passaria a dez metros mais longe do inimigo. Parou de apoiar o cajado no chão ou de brandi-lo, e retomou a caminhada solitária, resoluto, tentando parecer invisível. À medida que se aproximava do vulto, mais se encolhia! Parecia que todo seu corpo se resumia a seu coração… o qual tentava saltar do peito! Os poucos mais de cem metros que o separavam do vulto foram percorridos em menos de três minutos, mas pareceram uma eternidade! Nesse ínterim, desde que o último carro passara inundando a estrada de claridade, os olhos foram se acostumando com a escuridão da madrugada. Ainda assim não era possível distinguir o vulto feroz. E o vulto continuava lá, indefinido, sem brilho, amedrontador … imóvel! Alguns metros depois da passagem incólume pelo ‘felino’, com o coração batendo ainda a cento e vinte por minuto, surgiu na curva o clarão dos faróis de um carro. Sem parar de caminhar o peregrino ficou olhando para trás, na tentativa de identificar o perigo do qual escapara. Quando o carro passou por ele o peregrino conseguiu, enfim, distingui-lo. O ‘vulto da madrugada’ era uma… vaca malhada! A pacata ruminante com certeza havia se empanturrado de capim tenro na beira da estrada e resolvera se deitar ali mesmo, para ruminar… e assustar peregrinos solitários!

O alívio deu novas energias ao peregrino. Mesmo cansado e cheio de perrengues, ele apertou o passo. Duas horas depois avistou as primeiras luzes de São Bento do Sapucaí. Ao se aproximar do primeiro pontilhão de acesso à cidade da Pedra do Bau, foi surpreendido por uma algazarra… de pássaros! Eram garças. Numa restinga de Pinus à direita do pontilhão havia centenas delas dormindo. Passava pouco de cinco da manhã. A algazarra das garças era porque o céu, ainda cinza e carrancudo, dava os primeiros sinais do novo dia! Era hora de alçar novos voos e procurar comida nas margens do rio Sapucaí Mirim. Do acesso norte até a entrada principal de São Bento são pouco mais de mil e quinhentos metros. No entanto, quando o peregrino chegou ali, o dia já havia mostrado suas cores. Cores turvas, cores que prenunciavam chuva. Naquele trecho de serra seria uma manhã ao menos emburrada! Foi ali na entrada da cidade, na grama esmeralda verde e fofa que o peregrino jogou seu corpo. Era a cama ideal. Até porque, com o medo do ‘vulto da madrugada’ e os dezessete quilômetros que separam o Hotel Central de Paraisópolis dali, ele havia esgotado todas suas forças. Teria que tirar os pés do chão por alguns minutos… ou então pegar o Mercedes da Gardênia e voltar para casa. Dormiu na grama úmida pelo sereno. Dormiu estendido de costas cerca de quinze minutos. E não dormiu mais porque o corpo esfriou… e no bonito canteiro de grama do trevo de São Bento do Sapucaí, embora macio, não havia cobertores!

Parou, deitou, descansou, dormiu e… se arrependeu! Não era apenas a temperatura da serra que baixara. O corpo havia esfriado. Ao se levantar para retomar a caminhada o peregrino se deu conta de que estava travado! A vontade, o propósito o impulsionava para frente… mas as pernas não obedeciam. E se obedeciam, reclamavam. Reclamavam muito. Doíam desde a ponta do pé até as juntas do quadril. Doía o corpo todo. O lado direito um pouco mais. Só não doía o coração… Só não fraquejava a vontade de chegar à Basílica. E o peregrino seguiu… apoiado no seu cajado de cana da índia cortado no final da tarde de segunda-feira, na entrada do Cajuru, há oitenta quilômetros dali. De um trevo ao outro de São Bento, cerca de um quilometro, o peregrino não andou… arrastou-se à margem da via, com as pernas abertas, até o corpo se aquecer. Estava ficando cada vez mais difícil… e era só metade do caminho! À medida em que foi se aquecendo as pernas foram desatando. O movimento de pessoas chegando à cidade ou saindo dela para trabalhar ou simplesmente cruzando a estrada, o chilrear dos pássaros, o cacarejo de galinhas e o mugido do gado nas proximidades da estrada ajudaram a distrair o peregrino. Quando se deu conta, a cidade e uma extensa e leve subida haviam ficado para trás. Ainda no município de São Bento parou novamente para dar novo descanso às pernas. Deitou-se com as pernas suspensas e acabou cochilando por cerca de cinco minutos. Sua cama desta vez foi uma gigantesca pedra plana à margem esquerda da estrada ao pé de um barranco. Teve o cuidado de não parar muito tempo para não esfriar demais o corpo, mesmo que o descanso não fosse satisfatório. No futuro passaria por ali dezenas de vezes e se lembraria deste fato. A partir de então o ritmo da caminhada tornou-se mais lento… e sonolento! Em determinado trecho da estrada se pegou dormindo. Estava descendo um leve declive próximo ao Posto Barracão quando uma buzina zuniu nos seus ouvidos. Despertou a tempo de ver um caminhão baú passar muito perto. Olhou para a frente e não viu mais o posto. Olhou para trás e lá estava ele… Constatou então que havia caminhado mais de cem metros dormindo. E era uma curva! O susto afugentou o sono. Poucos metros adiante retornou ao Estado de Minas e cruzou a velha Sapucaí Mirim cercada de serras, onde tomou café da manhã. Estava num dos trechos mais bonitos da viagem, cercado de matas por todo lado e alguns riachos que desaguavam no infante Rio Sapucaí Mirim. Apesar de belo, fresco e romântico, o trecho era também o mais perigoso! A estrada é estreita, cheia de curvas e sem acostamento! Quando sentou-se diante da tv para assistir ao seu programa esportivo favorito – que começa às 12:40h – no primeiro restaurante que avistou em Santo Antônio do Pinhal, o apresentador já estava se despedindo. Completamente ignorante das necessidades nutricionais de situações como essa, comeu macarronada, o que deixou a caminhada inicialmente ainda mais lenta. Demorou bem mais de uma hora para romper os quatro quilômetros serra acima até a Estação Lefreve. O sol escaldante de outubro, que o acompanhara durante a leve subida, deu uma trégua… e o peregrino solitário jogou seu corpo cansado aos pés da gigante imagem de N.S. Auxiliadora. Sob a proteção da santa que, emoldurada na cor da pureza contempla o imponente Vale do Paraíba, peregrino solitário mais uma vez se entregou às caricias de Morfeu.

“Pra descer todo santo ajuda”. Ainda bem que o velho ditado é verdadeiro, pois o peregrino solitário precisaria de ajuda. Apesar de estar devidamente alimentado e parcialmente descansado, as dores do corpo haviam aumentado. As virilhas ardiam e provocavam careta cada vez que uma perna tocava na outra. Os calos nos dedos e plantas dos pés também ardiam. O tornozelo direito parecia dois. O pé direito quase não entrava mais no tênis… Os oito quilômetros de serra abaixo em intermináveis curvas precisaram de mais de duas horas para serem arrastados. Passava de cinco da tarde quando o peregrino sentou-se na varanda do posto da PRE, a poucos metros do trevo de Pinda. O céu estava turvo. O tempo prometia chuva. A partir dali seria caminho desconhecido. Todas as vezes que descera a serra até então, seguira direto para Tremembé ou Taubaté. No entanto sabia, por mapa, que a estrada à esquerda o levaria ao seu destino. Só não sabia quantos passos ainda teria que dar. O primeiro foi perguntar ao soldado na ponta da varanda, embora a resposta não interferisse na sua obstinação.

– “Sabe a distância daqui à Aparecida?” – perguntou.

Encostado na coluna no canto da varanda do posto policial, o soldado jovem, alto, dentro de uma farda chumbo muito justa realçando o corpo atlético, demorou mais de dez segundos para desviar o olhar do celular e olhar para ele. Olhou, mas nada disse. Voltou os olhos para o celular e continuou mudo por mais alguns segundos até que…

– “Daqui a dez minutos passa aqui um ônibus que vai para Aparecida”! – disse finalmente o policial, com indiferença e desdém. E continuou a viajar no celular.

Agora foi o peregrino que demorou alguns segundos para processar a resposta. Sentiu um ligeiro calor subir ao rosto. Teve um breve ímpeto de responder à altura do pouco caso do policial, ou ao menos algo do tipo:

– “Eu gosto de caminhar! Só queria saber a distancia…”.

O ímpeto, no entanto, durou um segundo ou dois. O peregrino solitário já estava entrando naquela idade em que dá prazer ouvir o silencio falar por mil palavras. Naquela idade em que é prazeroso ver a pessoa mastigar e engolir sozinha a própria arrogância. Além do mais, nada do que dissesse ou ouvisse do jovem e arrogante policial iria somar alguma coisa à conjuntura. Nada iria estreitar aquela empatia natimorta. Fechou o olhar no teto da varanda e olhou para a imponente Basílica de tijolos à vista que o esperava no dia seguinte. Chegaria lá de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde, sem precisar da informação do agente da lei. Ao sentir um leve torpor, sentou-se. Não queria dormir um minuto sequer ali no posto policial. Corria o risco de ser enxotado. Levantou-se e retomou a caminhada, lentamente, com as pernas abertas, parecendo um sapo atropelado, sob o olhar confuso do policial que permanecia encostado na coluna do posto com o celular na mão. Minutos depois virou à esquerda no trevo, deixou a movimentada estrada que descia de Campos do Jordão e seguiu pela estradinha estreita e deserta, desconhecida. Raspava seis da tarde de início de primavera, mas o céu estava da cor da farda do policial… mais escuro que do que sua educação.

Na sua cidade o peregrino conhecia um grupo de romeiros que todo ano fazia aquele trajeto. Sabia, portanto, que naquele trecho, entre o pé da serra e a cidade de Pinda, na baixada, havia uma pousada defronte uma igrejinha. Pretendia parar ali para refazer as energias. O ponteiro da hora se aproximava do número oito no relógio quando avistou as primeiras luzes da pequena vila. Pelo que contavam os romeiros seus conterrâneos, era ali a pousada. Bem na hora. A chuva, que desde as cinco da tarde prometia cair, finalmente cumpriu a promessa, mas felizmente caiu à prestação. Permitiu que o peregrino chegasse à pousada.

A “Pousada dos Romeiros”, no bairro Bom Sucesso, em frente a igrejinha de Santa Rita, é só um arremedo de pousada. A pequena e simplória casa composta de uma sala, dois banheiros com chuveiros e vários quartos pequenos, cercada de alambrado na beira da estrada, pelada por dentro e por fora, é só isso mesmo, mais nada, ou quase. Na sala tem um sofá velho com a napa rasgada e o estofado furado! É o quanto basta. O romeiro que levar colchão e cansaço poderá dormir abrigado do vento ou da chuva. Comida e bebida têm no botequinho do outro lado da rua. Na porta da velha pousada o romeiro que chega encontra um aviso: “A chave fica no bar em frente”. Foi lá que, em meio à balburdia de torcedores que assistiam um jogo de futebol do campeonato brasileiro, o peregrino solitário jantou pão com mortadela, pagou adiantado os cinco reais pela “diária”, pegou a chave e foi dormir. Antes de pegar no sono teve que travar duas batalhas: uma com os ratos que dormiam no estofado furado do sofá e outra com os pernilongos que desceram das paredes em busca de sangue doce e fresco. Expulsou todos eles. Os ratos, covardes por natureza, não voltaram. Já os pernilongos, inteligentes e dissimulados, se esquivavam dos tapas e se afastavam, mas voltavam de mansinho, uns em silencio e outros, por vingança, tocando pagode nos seus ouvidos. Para dormir precisou cobrir a cabeça. Teve a seu favor dois grandes aliados: o cansaço de dezenove horas de caminhada desde a praça São José em Paraisópolis e a chuva que batia suavemente no telhado sem forro da velha pousada. Tão logo o peregrino se recolheu depois da ‘lauta’ refeição de pão com mortadela no barzinho, São Pedro abriu de vez as comportas.

À meia noite em ponto o peregrino solitário foi sacudido pelo silencio da noite. Acordou lentamente, calmamente, ligeiramente desnorteado… Demorou para perceber se de fato estava acordado ou se estava sonhando… se estava vivo! Sim, havia acordado e estava vivo. A madeira dura e seca do sofá velho espremendo seu quadril disse exatamente onde ele estava. Consultou o relógio… Meia noite. Havia parado de chover. Silencio total no botequinho em frente a pousada. Era o momento de recomeçar a caminhada. Foi rápido… não precisou refazer a cama e nem arrumar a mala. Bastou jogar a mochila nas costas, apagar a luz e fechar a porta. A chave ficou do lado de dentro da fechadura. No minuto seguinte já estava na estrada. Fez o sinal da cruz, pediu proteção à Santa Rita defronte sua igrejinha e saiu caminhando, lentamente, com as pernas afastadas uma da outra, apoiado no pequeno cajado de bambu. À medida que foi se afastando da pequena vila marginal da estrada, as casas foram raleando. Mesmo assim, ao longo de quase todo o percurso dali até a cidade havia casas… e seus vigias. Fiéis vigias, desconfiados vigias, valentes vigias, barulhentos vigias. Todos avisando que estavam atentos, e ameaçando morder suas canelas – ou panturrilhas – se ele se aproximasse. Nunca o peregrino havia ouvido tanto latido de cachorro. Os mais estridentes e valentes não se contentavam em latir intramuros… saiam à estrada para impor seu território. Em um poste ao lado do cruzamento da linha férrea havia uma plaquinha com os dizeres: “Caminho da Fé”.

– Deve passar muitos romeiros por aqui durante a madrugada… como os moradores conseguem dormir com seus cães latindo desse jeito? – perguntou o peregrino ao seu mudo cajado de bambu.

A retomada da caminhada de um peregrino depois de apenas algumas horas de descanso, tempo insuficiente para curar as feridas, é sempre lenta. Só deslancha um tempo depois, quando o corpo aquece. Mas, depois que a dores se vão, o cansaço vem… e a caminhada volta a ser lenta, e demorada. Os doze quilômetros que separam Bom Sucesso de Pinda ficaram mais longos. Eram mais de três da manhã quando o peregrino cruzou o Rio Paraíba do Sul. Parou sobre a ponte e ficou por breves minutos contemplando as sombras e ouvindo o leve murmúrio das águas batendo nas pilastras lá embaixo. Pensamentos sombrios sobrevoaram sua mente. Bastaria soltar o corpo do parapeito!… Daria descanso ao corpo… e a alma! Quais teorias a polícia alimentaria quando encontrassem seu corpo boiando rio abaixo dias depois? Acidente? Assassinato? Suicídio? Desviou os olhos das águas sombrias lá embaixo. O peregrino solitário era um contador de histórias… “A minha história eu mesmo vou contar”, disse ele para o rio, e acabou de atravessar a ponte! Duzentos metros adiante, à esquerda da avenida dividida por um canteiro salpicado de palmeiras, havia um campo de futebol Society circundado por bancos de alvenaria. Um destes banco serviu de cama para o peregrino. Usando como sempre a mochila como travesseiro, estendeu-se no cimento duro. No minuto seguinte estava dormindo na beira do campo deserto. Não dormiu mais porque o frio, acentuado pela proximidade do rio, não deixou. Levantou ainda mais lento e seguiu em frente. Estava tão dolorido e sonolento que não percebeu a plaquinha pregada no poste na esquina da padaria – ainda fechada – poucos metros adiante. “Aparecida” indicava a plaquinha. Vinte minutos depois se viu no centro da cidade silenciosa. Seguia por uma avenida deserta até que, na esquina do quarteirão da frente percebeu uma confusão. Na porta do que parecia ser um barzinho, ou quem sabe um trailer de lanches, várias pessoas trocavam socos e pontapés! Podia ser uma briga, podia ser um assalto… E agora? Enquanto pensava no que fazer, de repente, do nada, brotou uma farmácia 24horas à sua esquerda. Entrou rapidamente e fingiu comprar alguma coisa. De fato, precisava de água. Por entre os galhos das arvores de uma pequena pracinha pode ver que o conflito no quarteirão adiante continuava. Pagou a garrafinha d’água, saiu pela porta lateral e se afastou dali o mais rápido que pode. Por alguns minutos esqueceu as dores nas virilhas, nas juntas, os calos dos pés! Seguiu rumo norte por dois ou três quarteirões e quando se sentiu em segurança, virou à direita e rumou para o leste. Um tempo depois avistou a saída da cidade. Desta vez, numa esquina, viu a plaquinha indicando “Aparecida”. Era por ali que deveria ter vindo, pensou. Perdera mais de meia hora andando a esmo pelo centro de Pinda, aumentando o cansaço, as dores e… passando medo!

Mas nem tudo eram dores e cansaço na caminhada. Era prazeroso testar os limites, sentir a satisfação de superar desafios. A solidão servia para refletir sobre os erros e acertos do passado… e havia a melhor parte: curtir a viagem propriamente dita. Havia muita coisa interessante à margem da via; as pessoas com suas características, comportamentos e culturas de cada lugar; animais agrupados ou dispersos nos pastos e a própria natureza que, sozinha, já proporcionava um espetáculo! Ver o sol se despedir, e a noite cair mansamente até dominar o céu. Sentir a brisa fresca e o sereno suave da noite. Ouvir o canto dos pássaros ou o silencio deles à noite! Enfim… viajar à pé tem uma série de vantagens impossíveis de serem percebidas quando se viaja de carro. Viajar de carro e curtir a natureza em volta é como o garoto gaguinho que tenta mostrar o submarino aos pais… Diz ele: “Olha lá o su… su… su… su… suuu… miuuu!!!

De carro, um percurso de cem metros se percorre em menos de trinta segundos… Se alguém te mostra um colorido tucano que passa batendo asas no céu, quando você olha, ele já passou! A pé, a mesma distância precisa de ao menos três minutos para ser percorrida. Se você ouve o canto de um Bem-te-vi, sem interromper a caminhada você o localiza no topo de um jacarandá ou de um cedro na beira do pasto, curte sua música até o fim e no final da curva pode vê-lo cruzar a estrada para cantar em outros prados. Esse contato real com a vida, usando as energias do próprio corpo para se locomover, era como balsamo para as dores, e enchia a alma do peregrino.

Quando o peregrino passou solitário pelo primeiro posto de combustíveis à esquerda da via, deixando o perímetro urbano de Pinda, a madrugada colocou no céu os primeiros sinais de palidez, indicando que iria desmaiar e sair de cena… dar lugar a um novo dia. Não demorou os primeiros raios do sol surgiram por entre os eucaliptos na beira da estrada. Surgiram tímidos, ressabiados, como quem pede licença para entrar na nossa casa. Mas não tardou se revelou ardido, quente, implacável … um visitante quase cruel! Faltavam ainda quase vinte quilômetros para chegar ao seu destino. Por conta dos perrengues, seriam os vinte quilômetros mais lentos da caminhada do peregrino. Depois do café na pequena Moreira Cesar, já com o sol escaldante, a primeira parada foi – que ironia! – na sombra suave de uma capelinha na beira da estrada, logo depois da histórica figueira velha. Dali até o trevo de Roseira, o peregrino estenderia seu corpo ao longo da via em qualquer espaço que não atrapalhasse o transito de veículos. Gramados, canteiros de trevinhos, beiras de pasto… qualquer lugar virava cama para o peregrino! Sentava, deitava e se passasse de cinco minutos, dormia. A mente estava sã, intacta, cada vez mais saudável, mas o corpo estava depauperado! A partir do trevinho a caminhada ficou ainda mais difícil, mais cansativa, mais dolorida. O corpo exigia descanso. O descanso, no entanto, estava longe, a nove quilômetros dali… nos bancos duros e lisos, porém frescos da suntuosa Basílica. O sol que no dia anterior havia percorrido o espaço entre nuvens, agora dominava o céu, brilhava como nunca. Brilhava e aquecia, e sufocava, e queimava… O asfalto parecia tremer de tão quente, parecia que iria derreter. O capim e os pequenos arbustos na beira da estrada pareciam estar cozinhando. Debaixo do sol escaldante de outubro o peregrino solitário caminhava trôpego apoiado no cajadinho de bambu. Às vezes parecia que iria se desmanchar, se esbodegar no chão… Às vezes parecia dormente, parecia que iria levitar! Dali a uma ou duas semanas, talvez, ao sentar-se na sombra da mangueira para recordar sozinho a viagem iria reclamar para Deus:

“Nem sei como consegui fazer aquele último trajeto… As dores no corpo eram tantas… Pedi tanto Seu apoio e o Senhor não apareceu! Era tanto cansaço que acho que dormi, desmaiei, perdi os sentidos… quando percebi estava entrando na Basílica”.

Uma leve brisa irá farfalhar as folhas da mangueira para dizer:

“… Neste momento, meu filho… eu te carreguei no colo”!

Sim. Muitas vezes durante a caminhada solitária o peregrino foi carregado no colo!

Mas foram seus pés feridos e cansados que subiram as escadas da Basílica de Aparecida no final da manhã daquela quinta-feira. Subiram lentamente, mas resolutos. Quase não sentiam dores. Agora quem estava inebriado, afogados, eram seus olhos… pareciam uma represa prestes a se romper! Era exatamente meio-dia quando ele parou diante da imagem de Nossa Senhora. A represa se rompeu! Uma cachoeira desceu dos seus olhos. Não sabe quanto tempo ficou assim, parado, olhando para a Santa… chorando! Os olhos estavam ali, grudados na imagem, mas viajavam ao passado. Ao passado distante. Ao passado recente. Ao passado das últimas cinquenta e quatro horas desde que saíra de casa na manhã de terça-feira debaixo de uma chuva fina. Sentiu os ligeiros esbarrões de romeiros que passavam ao seu lado, mas continuou ali, contemplando a Mãezinha. Passara frio, fome, sede, calor, medos, dores … para chegar ali! Ficou assim uma eternidade, em silencio olhando para Mãezinha. Aos poucos as lágrimas foram secando… e um sorriso sereno veio iluminar seu rosto.

Três horas depois embarcou no Mercedes da Pássaro Marrom e dobrou a serra da Mantiqueira. Até então nunca havia percebido o quanto era confortável uma poltrona de ônibus! Alimentado, limpo – de corpo e alma – e sem precisar mover as pernas e os pés e sem esfregar as virilhas feridas uma na outra, entregou-se às caricias de Morfeu. Acordou em Itajubá para trocar o Pássaro Marrom pelo Gardênia.

     Enquanto esperava o ônibus no terminal rodoviário, peregrino – agora não mais solitário – se pôs a pensar sobre os motivos daquela viagem insólita! Só então se deu conta de que percorrera todo aquele caminho, a pé, sozinho, sem conforto, sem apoio, em buscas de respostas para as dúvidas que o afligiam, mas… Sequer fizera as perguntas! No entanto, sentia-se leve, sereno, tranquilo, como se não tivesse mais dúvidas!

Ao longo da caminhada, o tempo todo a Mãezinha esteve ao lado do peregrino solitário, afagou seus cabelos, beijou-lhe a testa, secou suas lágrimas. Durante aqueles cento e cinquenta quilômetros, quando a fé foi colocada em xeque, seu Filho amparou o peregrino. Quando suas forças se esvaíram, seu Filho carregou o peregrino no colo… – ele não percebeu!

Quando finalmente chegou ao destino, cansado, ferido, emocionado bastou olhar nos olhos da mãezinha para esquecer tudo. Estava feliz por estar ali, diante da mãezinha. Esqueceu o que fora fazer ali… esqueceu de fazer as perguntas… apenas chorou! Deixou as lágrimas lavarem seu rosto, sua alma… Sentiu o olhar suave da Mãe e, sem perceber sentiu a leveza do corpo, a leveza do ser… Ah, seus problemas eram tão pequenos diante do amor filial da mãezinha!

Não se lembrou das perguntas que faria, das respostas que fora buscar… Mas encontrou algo muito maior… Paz!

Paz para encarar os desafios, para esclarecer as dúvidas… e superar os obstáculos que o atormentavam!

Em paz, percebeu então que… As respostas foram dadas a cada passo, ao longo da caminhada!

 

Uma semana depois conseguiu calçar o sapato no pé direito…

Ernane Wood está de volta…

Ele e o sócio Mauricio reabriram a banca “Central” na Galeria Portal

“Não é a mesma coisa, pois estamos afastados da rua. Mas é o que dá para fazer. Trinta e oito anos trabalhando na mesma banca, no mesmo lugar… é a única coisa que eu sei fazer. E não dá para ficar parado”, diz Ernane, mais conhecido do que nota de dez na cidade.

Era eu ainda um garoto branquelo de calça curta quando passei pela primeira vez na Pç. Senador José Bento em Pouso Alegre e lá já estava a “Banca Central”! Era bem menor, proporcional ao tamanho da cidade que em 1969 tinha cerca de 40 mil habitantes. O dono era o Sr. Dirceu! Sujeito magro, miúdo, cabelos já grisalhos, lisos e bem cortados. Vestia-se com elegância, calça e camisa social. Entre uma tragada e outra do seu inseparável cigarro Minister, conversava com a clientela e com todos que passavam entre a banca e as “Casas Pernambucanas”. Nos anos seguintes, ainda molecão de cabelos compridos, entreguei muitos botijões de gás na sua casa na Rua das Papoulas no Jardim Yara e vinha cobrar a ‘notinha’ na banca. Tempos depois, quando Dirceu morreu, seu filho Juarez tentou tocar a banca, mas a profissão de funileiro falou mais alto.

Foi assim que Ernane Faria Wood assumiu a Banca Central e tocou o comercio de beira de calçada, com o sócio Mauricio, por mais de três décadas… e viu outras bancas de calçada surgirem pela cidade.

Em 2004, quando lancei meu jornal impresso FOLHA de Pouso Alegre, a cidade tinha 13 bancas de jornais. Seis delas num raio de menos de cem metros, no coração de Pouso Alegre. A mais antiga era a do Ernane na praça Senador José Bento. Ainda na praça, na outra extremidade, ficava a banca da Rita e logo adiante atrás da catedral, a banca da Ligia. Mais acima em frente a antiga Caixa ficava a banca do Sergio. No inicio da Duque de Caxias uma de cada lado: Saulo à direita e Toninho à esquerda. A banca do Chico reinou durante décadas no final da Dr. Lisboa em frente o Bradesco. Na Vicente Simões havia duas bancas, a do Carlinhos em frente o Alvoradão e outra na pracinha do Semáforo do Santa Lucia. Madalena tocou sua banca durante um tempo na porta da Univas. Defronte o Posto Pantanal havia a banca do Fernando. Rubens Gomes vendeu milhares de Figurinhas da Copa na sua banca na porta da Medicina.  Cristina, minha ex-colega do ensino fundamental, tem sua banca no interior do Baronesa. O velho Claret – e depois Andreia – vendia de tudo e um pouco mais numa banca no terminal rodoviário.

As bancas nasceram para atender a demanda das pessoas que liam “jornais e revistas”. Sim, houve um tempo em que as pessoas liam jornais e revistas impressas, rsrsrsrs! Com isso s bancas viviam abarrotadas de revistas semanais tais como IstoÉ, Exame, Veja, Placar, Contigo, Tititi, Caras, e outras de vida efêmera…

Havia também os jornais diários, de circulação nacional: Estado de Minas, Folha de São Paulo, O Globo… e os jornais semanais de Pouso Alegre. Na década de 90, a cidade teve oito jornais circulando regularmente – escrevi notícias policiais e esportivas em quatro deles (Sul das Geraes, Jornal do Estado, Diário de Pouso Alegre e Folha do Vale). Hoje apenas dois, tropegamente, conseguem sobreviver!

Com a mudança de habito do brasileiro e consequente decadência dos jornais e revistas, os comerciantes migraram para outros produtos. Visando a própria sobrevivência e as necessidades da clientela, hoje as bancas de jornais e revistas vendem brinquedos, souvenirs, isqueiros, recarga de celular, cigarros, ‘zona azul’ (quando funciona), chaveiros, posters do Galo campeão, rsrsrsrs, games, de quatro em quatro anos Figurinhas da Copa, bolinhas de gude, máscaras contra covid, balas, chicletes, e se um ribeirão passasse perto venderia também varas, anzóis e minhoca para pescar!

Vende até livros!

Em 2014, quando lancei meu primeiro livro, espalhei “Meninos que vi crescer” por todas as bancas da cidade. Ano passado “Quem matou o suicida” também foi parar nas gôndolas das bancas.

“Quem matou o suicida” e “Meninos que vi crescer” estão na Banca Central, na galeria Portal, ao lado do Teatro Municipal.

O golpe de misericórdia nas “bancas de jornais & revistas” de Pouso Alegre, foi dado pela prefeitura em meados deste ano. A pretexto de ‘revitalizar’ o centro a cidade, as bancas estão sendo retiradas, fechadas. A própria prefeitura se encarregou de ‘guinchar’ as bancas, como vimos nas imagens que circularam pela internet. Sergio, Rita, Carlinhos, Ernane se aposentaram ‘compulsoriamente’ … sem proventos. Perderam o ganha-pão…

Um destes comerciantes há anos entrincheirado na sua banca no centro, desesperado com o fim do seu ganha-pão, esteve muito perto do fim da vida!

Ernane deu a volta por cima. Depois de quase três meses sem trabalho e sem ver a cor do dim-dim que pingava todo dia, desde que sua banca foi fechada, ele o sócio Mauricio enfim reabriram a tradicional Banca Central. Desde o ultimo final de semana eles estão atendendo a clientela na Galeria Portal, na Dr. Lisboa.

“Não é a mesma coisa, pois estamos afastados da rua. Mas é o que dá para fazer. Trinta e oito anos trabalhando na mesma banca, no mesmo lugar… é a única coisa que eu sei fazer. E não dá para ficar parado”, diz Ernane, mais conhecido do que nota de dez na cidade.

Para atrair novamente a clientela, Ernane passa boa parte do dia na porta da galeria, ao lado do Teatro Municipal.

Boa sorte Ernane e Mauricio… Boa sorte órfãos de Bancas de Jornais & Revistas.

A Vendinha do “Vilino”

Deixou ‘rastros’ na minha terra.

Nasceu pequenina – uma porta e duas janelinhas – na beira da estrada. Viveu mais de quatro décadas… e morreu pequenina, na beira da estrada, com uma porta e duas janelinhas! Mas deixou histórias para contar…
Ao longo de mais de quarenta anos a vendinha do Vilino mudou três vezes de endereço, mas sempre na beira da estrada principal do bairro dos Coutinhos. A primeira foi construída entre a casa da “Lôrdes” e a casa do “Câindo”. Casinha de madeira com uma janelinha lateral, para que o vendeiro pudesse ver de longe quem se aproximava pela estrada poeirenta, outra janelinha para olhar quem passava em frente, e uma portinha no centro. No seu interior cabiam seis ou sete pessoas sentadas nos dois bancos, um grande e outro pequeno.
Ali se vendia pão com mortadela, guaraná Tubaína, paçoquinha, pirulitos e bala Chita de várias cores. O produto mais vendido, no entanto, razão de ser das vendinhas de roça, era… suco de gerereba! Tatuzinho, democrata, Moreninha, Amélia… de garrafa ou de garrafão. Por isso mesmo a vendinha não era socialmente bem-vista. Seus frequentadores ou eram jovens pouco afeitos às responsabilidades do dia seguinte, ou pouco afeitos aos hábitos caseiros. Ou então eram cidadãos menos sisudos, mais liberais…
Os conservadores não punham os pés na vendinha nem para buscar remédios! Se precisassem passar defronte a vendinha durante a noite, passavam do outro lado da estrada. Se por acaso estivessem usando lanterna, tocha de bambu ou tição de fogo para iluminar a estrada, apagavam, para não serem vistos e não ter que cumprimentar quem estivesse na janelinha da venda.
Além do secular suco de gerereba, descoberto casualmente pelos escravos de engenho séculos antes, a vendinha vendia também vinho suave e a tradicional loira gelada. A energia elétrica só chegaria ao bairro uma década e meia depois. Por isso, a cerveja era mantida em uma caixa de isopor em meio às pedras de gelo. O doce guaraná Tubaína e outros refrigerantes eram mantidos em contato com a terra, num buraco feito no barranco do lado de dentro da vendinha. Luz? Lampião à querosene!
Com raras exceções, a vendinha do Vilino foi um divisor social! Seus frequentadores quase sempre trabalhavam de camaradas para terceiros … Por isso mesmo, os conservadores, geralmente patrões, quando precisavam de um camarada para o dia seguinte, para a colheita ou plantio, para roçar pasto, para mutirão, etc… buscavam empregados – desocupados ou descompromissados – na vendinha do Vilino. A vendinha, única no bairro, era ‘ponto de encontro’ dos homens… servia de ‘agência’ de empregos. Servia também para se negociar excedente de produção agrícola, animais…
A segunda vendinha foi construída na curva da Porteira do Buraco, encostada no barranco da estrada, ao pé do terreno do ‘Tio Lilo’, duzentos metros distante da primeira. A venda cresceu. Ali cabiam sentadas encostadas na parede, quase dez pessoas. Por isso ganhou mais duas janelinhas, uma de frente para a estrada e outra na lateral. Alguns frequentadores vinham do bairro vizinho, o Canta Galo. Aos domingos, o entorno da vendinha ao pé do campo de futebol, fervia de gente. Ao lado da vendinha havia um banquinho – uma única tábua de madeira apoiada em três tocos fincados no chão – para acolher os frequentadores durante o dia. À noite não tinha utilidade, pois as pessoas não podiam ‘pegar’ sereno…
Quase tudo que vendia na sua pequenina vendinha, Vilino trazia do Bar do Nezinho em Congonhal. Inicialmente na garupa da sua bicicleta e depois no bagageiro do ônibus da Gardenia até o ‘ponto’ na beira do asfalto.
A terceira vendinha nasceu da necessidade de ‘barrar a concorrência’, já que estava localizada na beira do campo de futebol! Para isso Vilino comprou um bico de terreno do pretenso concorrente, a poucos metros da segunda, mais perto do ribeirão. Essa foi feita de alvenaria e abrigava até uma mesa de bilhar.
Vilino, desde pequeno trabalhava na roça. Por isso, excetuando os sábados e domingos, a vendinha abria sempre no finalzinho da tarde ou no crepúsculo, e fechava por volta de nove da noite. A rotina cansou o vendeiro. Depois de quase uma década na dupla atividade laborativa, Vilino vendeu a terceira vendinha para o “Tonho Dorvá”… e foi trabalhar na cidade.
A história da Vendinha do Vilino, no entanto, não se restringe à necessidade de ampliar a fonte de renda ou ao mero tino comercial. Vilino, que não se tem notícia de que tenha ostentado um único diploma escolar, era homem culto, politizado e bem informado. Ouvia diariamente, no seu radinho à pilha, “A Voz do Brasil” – programa popularmente tachado de enfadonho, no entanto mais barato, mais informativo e mais honesto do que qualquer outro programa radiofônico e ou televisivo hoje em dia.
Vilino era uma daquelas pessoas à frente do seu tempo. Ele queria propiciar informação às pessoas… ele queria estar em contato com as pessoas, ainda que fosse na sua singela vendinha de beira de estrada. Por isso, pouco tempo depois, retomou a antiga rotina. Agora, casado com ‘Marirene’, construiu sua vendinha no terreno do sogro Ovidio, na mesma curva da Porteira do Buraco, no lado oposto às duas vendinhas anteriores. Essa também, como mostram as fotos que ilustram essa crônica, era tão pequenina quanto as duas primeiras. Também tinha uma porta e duas janelinhas. E Vilino voltou a estreitar o convívio com os moradores do bairro… quase todos conterrâneos e parentes.
Da leitura dessa crônica se depreende que Vilino era um desses baixinhos tagarelas que vivem roubando a cena com causos pitorescos, piadas e palavrórios acima de cem decibéis … Ledo engano! Vilino era alto, forte, moreno e… calado. Roubava a cena sim, pois quando falava, todos se calavam para escutá-lo. Era o típico mineiro, daqueles que observam muito, que escutam muito, e só falam quando tem certeza… e só falam o suficiente!
Nos seus mais de quarenta anos de vendeiro, Vilino atendeu muitos clientes com garrucha de dois canos na algibeira; com faca na cinta; presenciou muito pé de briga; muita discussão, mas nenhuma delas passou das vias de fato. Quando ele intervia… os ânimos serenavam!
Durante décadas a pequenina Vendinha do Vilino viu na sua janelinha, nos seus banquinhos de madeira, homens sisudos… e homens hilários! Ouviu muitos casos… e causos! Ouviu muito riso… e também choro! Ouviu estórias… e histórias! Viu muitos meninos crescerem… e algumas pessoas partirem!
Avelino Augusto Coutinho, o ‘nosso’ Vilino, tocou sua vendinha de 1969 a 2011. Há poucos meses, aos 81 anos, ele voltou para os braços do Criador… Deixando rastros na minha terra!

Ontem foi o dia dela… da ‘marvada’ cachaça!

‘Severina do Popote’ está completando quase quinhentos anos!

Produzida no Brasil desde que o país era criança em fraldas, – 1530 – a cachaça é a única bebida genuinamente brasileira! E desde aquela época, sempre teve vocação para estrela… tornou-se símbolo da resistência ao colonialismo de Portugal. Mais tarde no Império, virou símbolo da Independência do Brasil. Hoje é vedete em Bruxelas!

Ao longo da sua história, a cachaça passou por vários status sociais. Dos escravos, aos senhores de engenho; do proletariado, à burguesia; do balcão dos botecos, às reuniões de família!

Apreciada pela elite dominante do século dezenove, a cachacinha brasileira frequentou e desfilou bela e faceira pelo palácio real enquanto ele resistiu. Mas perdeu o trono… Com a Proclamação da República em 1889, perdeu duplamente a nobreza! A partir de então, chic era beber vinho, champanhe e whisky importados. E a velha cachacinha virou “bebida de pobre”, vendida e consumida em balcões de botecos!…

E assim ficou marginalizada durante quase um século!

A partir de 1980 a bebida feita do caldo destilado de cana, começou a dar a volta por cima, começou a reconquistar seu espaço. Hoje só no município de Salinas, no nordeste de Minas, existe cerca de 60 alambiques. Todos tentando seguir os passos da septuagenária conterrânea Havana, que não se encontra em lugar nenhum a menos de R$ 550 a garrafa. Se estiver numa prateleira de boteco, com o rotulo antigo, encardido e empoeirado há várias décadas, ninguém leva para casa por menos de oito mil reais!

Em 1995, com a estabilização do Real, aposentados e pessoas que tinham uma reserva na Poupança, sacaram as economias e foram buscar “Seleta” e “Lua Cheia” em Salinas, para vender no Sul de Minas a R$ 4 a garrafa de 600ml. Na ocasião, as tradicionais “Velho Barreiro”,  “51”, Amélia ou Democrata, custavam cerca de R$1,70 o litro! Hoje a mesma Lua Cheia custa no mercado em média R$ 80. E nem desfila entre as estrelas!

A famosa Havana, de historia controversa, a qual chegou a ser usada como moeda para pagamento semanal dos funcionários do alambique do velho Anísio Santiago, ainda joga no teatro de elite. No entanto, tem que dividir o palco com outras tantas cachacinhas que surgiram depois e investiram em qualidade e marketing. Várias delas produzidas em solos gaúcho e catarinense.

A guinada na performance da cachaça foi o armazenamento da bebida em barris de madeira. Além do acentuado sabor do Carvalho, da Umburana, do Ipê, do Balsamo… a madeira dá cor e sabor especial à bebida.

O preço médio de uma boa cachaça ouro, envelhecida cinco anos em barris de madeira, oscila em torno de R$200. – O mesmo preço de um whisky importado, da mesma idade.

Nossa cachacinha mudou a cor, mudou a qualidade, mudou o preço e mudou o jeito de beber! Não se bebe mais cachaça em copos lavrados. A cachacinha brasileira agora é servida em mini copos e até em taças de cristal! Não se bebe mais para ficar ‘tonto’. Bebe-se para relaxar!

Desde 1999 a tradicional bebida destilada brasileira, descoberta casualmente pelos escravos de engenho, tem desfilado bela e formosa nos salões dos concursos de Bruxelas na Europa e arrebatado dezenas de medalhas.

Se o consumo da ‘marvada’ se expandiu, a produção também ultrapassou as fronteiras estaduais e se espalhou Brasil afora. É raro encontrar um município brasileiro que não possua ao menos um alambique artesanal.

Ontem, 13 de setembro, foi o Dia Nacional da Cachaça! Coincidentemente a data ‘caiu’ numa segunda-feira, meu ‘dia nacional de abstinência’! – Não que eu beba todo dia, mas na segunda-feira, destilado ou fermentado, não bebo nem para remédio!

No entanto, curioso e apreciador de uma boa cachacinha, eu não poderia deixar de prestar uma singela homenagem à nossa bebida nacional, à nossa fogosa e estonteante “Severina do Popote”!

Tereza Vanilda quer ouvir sua voz!

Mas não consegue… A Covid afetou sua audição!

Você pode ajudá-la a ouvir novamente!

      A sra. Tereza Vanilda,56 anos, moradora da rua Padre Natalino na Baixada do Mandú, é mais uma das milhares de pessoas que contraíram covid19 em Pouso Alegre. No dia 08 de abril ela foi internada no HRSL com o bichinho chinês. Chegou a ser entubada e durante mais de 50 dias lutou pela vida. E venceu! No dia 30 de julho ela teve alta hospitalar e voltou para casa.

Mas ficou com sequelas.

Saiu debilitada do hospital, está acamada e precisa de cuidados especiais. Embora tenha sobrevivido, Tereza teve, além da dificuldade de locomoção, uma perda significativa da audição. Agora ela depende de um aparelho auditivo para ouvir sua voz! O custo do aparelho, para ela, é alto… R$ 7.000.

A família fez uma “Vaquinha virtual” para arrecadar essa quantia.

Eu não conheço a Tereza Vanilda, mas conheço seu vizinho Henrique Claro, do qual recebi esse pedido. E confio nele.

Se você puder ajudar essa guerreira a ouvir novamente, tenha certeza que Deus irá ‘ouvir’ sua generosidade!

Deus te abençoe!

OBS:  O site da vaquinha não permite depósitos inferiores a R$25,00. Portanto, caso você queira ajudar com qualquer valor abaixo de R$25,00, poderá fazê-lo através do PIX: 07606430675, que irá direto para a conta do Leônidas, filho dela. 

 

Pessoas que deixaram rastros na minha terra…

ANSELMO COUTINHO

        À primeira vista, de longe, parecia uma cena corriqueira na roça: uma pessoa parcialmente debruçada sobre um pequeno córrego, bebendo água. À medida que foi se aproximando, no entanto, o retireiro foi ficando preocupado com a inércia do vulto com as pernas estendidas na beira da estrada. Quando chegou um pouco mais perto, percebeu que a pessoa não se mexia! Desceu ligeiramente tenso da bagageira e se aproximou. Ressabiado, torcia para estar enganado, mas já antevia o pior. Sim!… o homem estava sem vida! Metade do corpo, da cintura para baixo, estava estendida na estradinha roxa, dura, salpicada de cascalho. A outra metade do corpo estava imersa numa poça de água e lodo. Muito antes de o perito criminal da polícia civil chegar ao funesto local o retireiro tirou suas conclusões…

     “Ele deve ter se debruçado para beber água no arroio, e colocou o corpo um pouco para frente. Ao tentar se equilibrar com as mãos, elas afundaram no lodo e o corpo sem apoio se inclinou na pequena poça d’água… E ele se afogou em menos de um palmo de água e lodo”!

     Mais tarde o médico legista do IML de Pouso Alegre encontrou terra e areia na traqueia do morto e confirmou o ‘laudo’ do retireiro. O eremita havia, de fato, morrido asfixiado… por afogamento, numa poça d’água de menos de um palmo de profundidade!

     O pequeno arroio nasce no meio da serra, poucos metros acima da estrada, entre pedras e arvores e desce calma e pacientemente o terreno acidentado, serpenteando a restinga. Na beira da estrada, junto à cerca de arame farpado, há uma discreta barragem para evitar que a lâmina d’água atravesse provoque lama ou erosão no leito carroçável. Por ali passam diariamente uma bagageira transportando leite, e o gado durante o manejo, além de uma ou outra caminhonete que eventualmente vai à fazenda encravada ao pé da grota alguns metros adiante. Junto à minúscula barragem a água fria e cristalina se acumula formando um poço de pouco mais de um metro de diâmetro e menos de um palmo de profundidade, até escoar por um cano que passa por baixo da estrada, sem danificá-la. As escassas pessoas que passam por ali, se por acaso tiver um copo, ou mesmo com as mãos em concha, podem usufruir do precioso líquido para saciar a sede. Se não tiver a vasilha, a pessoa pode inclinar-se na borda da barragem e, bem ao gosto do homem do campo, beber direto no pequeno poço. Mas isso nem sempre é possível! É que, por se tratar da parte baixa do pasto e trilha natural do gado que desce a encosta, ao passar pelo pequeno poço, os cascos corroem o fundo, provocam lodo e sujam a água tornando-a temporariamente impropria para consumo.

      Esse lodo foi traiçoeiro… 

      Apesar de um amor platônico não correspondido, sequer revelado, Anselmo era uma pessoa feliz, de bem com a vida. Querido e respeitado por todos no bairro, ele esbanjava e irradiava alegria aonde chegava. Contador de causos, arrancava risos até dos mais sisudos sessentões de barbas longas da época. Nas carpinas de roça, nas roçadas de pasto ou nas tardinhas na “Arvinha”, nos idos de 1950, 60 e 70 – essa é outra história que daria um livro! – Anselmo roubava os holofotes com seu causos! 

     Com fala mansa e respeitosa, e forte sotaque português – característica marcante dos Coutinhos até a geração anterior à sua – escondia muito bem sua desilusão amorosa. E fez, para si mesmo, o clássico juramento de jamais levar alguém ao altar. Prometeu e cumpriu. Apesar da alegria que espalhou à sua volta durante os setenta e poucos anos, às vezes se permitia filosofar com o próprio destino num tom ligeiramente triste:

“Todos nós temos o direito de ter uma ilusão”!

     Anselmo Coutinho conheceu a orfandade de pai ainda jovem. Isso certamente consolidou sua promessa de não se casar. Como bom filho que era, dedicou-se a cuidar da mãe. Quando a queridíssima ‘tia’ “Bida” desencarnou, Anselmo viu-se completamente livre, sem amarras e sem ‘um passarinho para tratar’! E deu uma guinada na vida. Deixou a gostosa casa à beira da estrada, no centro do bairro dos Coutinhos, onde se costumava rezar terços comunitários, e mudou-se para a serra. Foi viver sozinho, cercado apenas de bois de corte, vacas crioulas que lactavam apenas para amamentar os filhotes, lobos, onças jaguatiricas, quatis, tatus, cascavéis e jararacas! Não é exagero. A fazenda do Maurinho fica a cerca de cinco quilômetros do centro do bairro, em um vale deserto – que se assemelha a uma bacia – no alto da serra junto às nascentes do Ribeirão Santo Antonio. A tarefa do Anselmo não era produzir… Era apenas manter os pastos limpos e cuidar do gado. E o alegre, extrovertido e boa prosa Anselmo Coutinho, por escolha, virou eremita! Viveu anos numa tapera de porte médio, da qual usava apenas dois cômodos: a minúscula cozinha – com um fogãozinho à lenha logo na entrada, tendo como moveis apenas uma prateleira rústica de madeira, feira por ele mesmo – e um quartinho, cujos moveis se resumiam a um varal de bambu onde pendurava suas roupas e um colchão estendido no chão. E viveu em paz, feliz. 

    Nós que amávamos Anselmo e apreciávamos sua companhia, nos preocupávamos com ele.

“Se acontecer um acidente com ele, se for atacado por um animal ou por uma cobra, ele não terá ninguém para socorrê-lo” – dizia um.

“Deus me livre! Se acontecer uma coisa dessas, quando a gente ficar sabendo, só vamos achar os ossos”! – dizia outro.

     Mas nada podíamos fazer. Era a escolha do Anselmo. E ele era muito feliz vivendo sozinho na serra longe de tudo.

     A desilusão amorosa de Anselmo – pela linda Clarice, do bairro vizinho – da qual menos de meia dúzia de pessoas sabiam, não mudou em nada sua índole ou seu comportamento. Anselmo ‘viveu a vida toda de bem com a vida’. Para isso ele contou com sua ‘outra’ paixão – paixão da maioria dos brasileiros! – … ‘Severina do Popote’! Nos finais de semana, ou prestes a saborear um torresminho ou virado de frango, ele abraçava com prazer a sedutora e estonteante… água que passarinho não bebe! rsrsrsrs… 

     Malungo e criado a poucos metros da casa do meu avô, Anselmo era amigo próximo do meu amado e saudoso pai. Não eram raras suas visitas à meu pai, tanto na roça quanto na cidade, apenas para contar causos, jogar conversa fora e alimentar a amizade.

    A fazenda na qual Anselmo viveu muitos anos – feliz – como eremita, ficava no caminho das mangueiras – ah, as famosas mangueiras… essa é outra história! À caminho das mangueiras, passei algumas vezes pelo rancho do Anselmo no alto da serra. Sabedor da sua paixão por Severina do Popote, algumas vezes levei a ‘estonteante’ para ele. Em nenhuma das vezes o encontrei nas imediações do rancho. Por isso eu sempre deixei as garrafas, envelhecidas em sassafrás, sob a taipa do fogão da sua cozinha – a porta do rancho, como quase todas as casas da roça, não possuía fechadura por fora. A porta ficava amarrada por um barbante ou tira de couro cru pelo lado de fora. Não tive oportunidade de conversar com ele sobre os ‘presentes misteriosos’ que às vezes apareciam na taipa do fogãozinho preto da sua cozinha.

      Duas vezes por mês, sempre aos sábados, Anselmo descia a serra para visitar amigos e parentes no bairro. Na volta, já no final da tarde, parava na vendinha do ‘Vilino’. O cavalinho castanho, tão pacato quanto seu dono, ficava parado defronte a venda na beira da estrada. Nem era preciso amarrá-lo. Bastava soltar as rédeas no chão. Essa era a senha para o simplório animal… O cavalinho sabia que seu dono estava por perto e que era preciso esperá-lo. E o pacato e cordato quadrúpede ficava ali, cabisbaixo, quase cochilando, ouvindo a conversa alta que geralmente sai das vendinhas nos fins de tarde. De vez em quando sacudia o rabo ou balançava a crina para espantar os mosquitos, enquanto esperava pacientemente seu dono…

     Ao pé da noite, depois de entornar algumas doses da cangibrina, com fatias de mortadela como tira-gosto, Anselmo montava o castanho e seguia passo a passo de volta para casa, para a serra, levando pendurado no ombro o embornal com meia dúzia de pães murchos, uma rodilha de linguiça de porco curada e uma garrafa de suco de gerereba…

     Presenciei estas cenas muitas vezes, quando jogava futebol no campo do Sergio, ao lado da vendinha do Vilino, na segunda metade dos anos 1990.

     Estas foram as últimas imagens que guardei do meu conterrâneo e saudoso amigo Anselmo Coutinho.

     Na manhã do dia 19 de março de 2.000 – dia de São José – um palmo de água cristalina, que descia brincando a serra, interrompeu a vida leve, livre e solta do eremita Anselmo Coutinho. Pessoa simples e nobre… que deixou rastros na minha terra!

A Despedida do Chiquinho…

Depois de três meses ouvindo rezas e ritos do padre Cintra na fazenda do Portuga, o Coisa Ruim da Borda decidiu ir embora! Mas prometeu que quando o ‘padre chato’ morresse, ele voltaria para buscar sua prometida!

A historia completa do “Coisa Ruim da Borda” e outras 49 cronicas investigadas pelo detetive estão neste livro.

Eram menos de dez da manhã de meados do mês de fevereiro quando o fazendeiro recolheu algumas rezes no curral, chamou a filha mais velha e disse-lhe:

– Mocinha, sua mãe vai me ajudar a curar bernes do gado… Vá você para a cozinha preparar o almoço!

A bela garota de 13 anos, prendada e obediente como todas de sua idade naquela época, simplesmente anuiu e foi cumprir a ordem do pai. Ao entrar na cozinha do casarão assobradado, na encosta de um pasto no alto da colina, estacou assustada diante do que viu e voltou correndo para chamar o pai…

– Ué, pai… o sr. me mandou fazer o almoço, mas o almoço está pronto! Está quentinho pronto para ser servido! Vem ver!

Sem entender o que a menina estava falando e sem tempo para discussão, Portuga soltou a corda que havia acabado de passar no pescoço de uma bezerra e foi para dentro de casa, acompanhado da esposa. Ao entrar na cozinha teve a mesma surpresa da filha… na taipa do fogão à lenha, panelas com feijão, arroz, abobrinha, torresmo ainda soltavam fumaça…

– Mas que diabos! Quem fez esta comida?

Neste instante um vulto quase invisível passou correndo em ziguezague pela cozinha em direção ao quintal deixando no ar um cheiro de enxofre e uma risada esganiçada e zombeteira. Ainda surpreso com a aparição da comida pronta, e com os pelos todos do corpo arrepiados, Portuga se aproximou das panelas e verificou que a comida estava tão cheirosa e saborosa quanto a que a esposa fazia todos os dias.

Esse foi o primeiro sinal da presença do Chiquinho na fazenda!

Mais tarde, cavalgando pelo pasto na lida com o gado, Portuga sentiu que seu cavalo arriou nas patas traseiras, como se alguém tivesse montado na garupa.

Por volta de nove da noite, quando tudo se aquietou na fazenda, os cachorros começaram a latir como se estivessem tentando afugentar uma alcateia. E depois passaram a uivar em lúgubre agonia. E assim vararam a madrugada.

Na manhã seguinte, ainda com cara de quem não dormiu, Portuga arreou o alazão e, embora não fosse fervoroso cristão, foi à cidade procurar o padre.

Desde então, durante várias semanas, o jovem pároco da cidade subiu a serra da Ponte de Pedra com sua batina preta cobrindo as ancas do pangaré castanho para benzer no casarão do Portuga. O benzimento passou a exorcismo e nas semanas seguintes outros padres mais velhos e mais experientes da região, como o padre Oriolo, de Pouso Alegre, o padre Alderige, de Santa Rita de Caldas, padres Capuchinhos de Ouro Fino vieram tentar expulsar o espírito brincalhão da fazenda do portuga…

Com os padres vieram também os repórteres… de todos os cantos do Brasil! A revista “O Cruzeiro”, a maior da época, estampou a história do Coisa Ruim da Borda na sua capa e nas suas páginas. Mas nada disso afugentou o Chiquinho. Cansados de subir a serra para as sessões de exorcismo, os padre mais experientes voltaram para sua paroquias… E o Coisa Ruim da Borda ficou só por conta do jovem padre Cintra.

Apesar da pouca experiência, o jovem e intrépido padre Pedro não abandonou seu rebanho. Toda tarde ele arriava seu cavalo e subia a serra da Ponte de Pedra para rezar no casarão do Portuga e tentar convencer Chiquinho a ir embora. Até que uma noite, depois de muitas Aves Marias e outros rituais católicos ‘exorcizantes’, finalmente Chiquinho se cansou, perdeu as estribeiras e disse com voz enfadada:

– Vou-me embora desta casa! Não aguento mais a reza desse padre!

E a paz voltou a reinar na fazenda do morro da Ponte de Pedra. O Coisa Ruim da Borda havia sido exorcizado.

Jornalistas e curiosos se plantão juram de pés juntos, que antes de partir, Chiquinho teria acrescentado:

– “Mas depois que esse padre chato morrer, eu voltarei para buscar o que é meu”!

A última aparição do Coisa Ruim da Borda aconteceu – isso é fato, está registrado no ‘Livro do Tombo’ da Matriz de Nossa Senhora do Carmo em Borda da Mata – no dia 23 de abril de 1953, há 68 anos!

O Padre Pedro Cintra morreu em 2003!

Será que Chiquinho voltou mesmo para buscar sua prometida?

O Mistério do Coisa Ruim da Borda – desvendado – está no livro “Meninos que vi crescer!

Aventura na festa da Borda

Meu apelido tem origem na famosa e simpática dupla de heróis “patrulheiros da (…) estrada…”. No entanto, dez anos antes, eu poderia ser chamado de “Pipoqueiro da estrada”!             

Mauritânia Furtado: 43 anos depois voltei para agradecer a bela  e gentil senhora que me deu um prato de comida!

A cena era de parar o trânsito! Quem passou pela MG 290  no meio daquela ensolarada e fresca tarde de julho, arregalou os olhos e depois colou o olhar no retrovisor do carro até sumir na curva da estrada. À beira da via um grupo de lavradores, uns descalços outros usando galochas de borracha, chapéus, outros portando enxadas nos ombros cercavam um pequeno veículo que parecia ser um carrinho de vendedor ambulante… um mascate! Quem diminuiu a velocidade pode constatar que de fato, era um carrinho de vendedor… de pipoca! Mas não era pipoca branca e quentinha para degustar assistindo sessão da tarde! Eram pipocas coloridas – verde, amarela, vermelha, laranja… – e amendoim torrado coberto com chocolate! A cena inusitada daquele carrinho sendo empurrado por dois garotos rodovia afora no meio da tarde lenta de julho atraiu a atenção dos lavradores que carpiam arroz na várzea superior na baixada do bairro Anhumas. Curiosos vieram até a beira da estrada tentar entender o que era aquilo! Certamente nunca tinham visto pipoca colorida, juntada com melado grudento e cortada em pedaços! Portanto, tinham que experimentar para ver que gosto tinha aquilo! Se os lavradores saciaram a fome e a curiosidade, os dois vendedores tiraram a barriga da miséria… Venderam dúzias de tabletes de pipoca colorida… pelo dobro do preço!

– Para onde vocês estão indo com esse carrinho? – indagou um dos lavradores.

– Vamos vender pipoca na festa da Borda… – respondeu o mais franzino.

– Nossa! Vocês nem chegaram na metade do caminho ainda! – observou outro, tentando desgrudar a pipoca vermelha dos dentes…

Saciada a fome e a curiosidade da clientela… e o bolso dos pipoqueiros! os dois garotos retomaram lenta e resolutamente a viagem, empurrando o carrinho colorido estrada afora, atraindo o olhar curioso dos poucos motoristas que passavam.

A aventura começara duas horas mais cedo perto da rodoviária de Pouso Alegre. Eu passava por ali empurrando aleatoriamente meu carrinho de pipoca quando esbarrei no meu velho amigo Rui de Paula – Sim, eu era menino, tinha apenas 12 anos, mas já tinha ‘velhas’ amizades. O Rui era muito mais velho do que eu: vinte meses! A amizade com o Rui era importante, pois ele morava no Aterrado… e eu morria de medo de ir ao Aterrado. Com a amizade fui aos poucos ganhando confiança!

Depois de trocar dois centavos de prosa o Rui falou:

– Hoje é dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Borda da Mata… Está tendo festa lá.  Vamos lá vender pipoca?

Aos doze anos de idade eu conhecia duas cidades: Congonhal, onde nasci e Pouso Alegre, onde eu morava há dois anos. A única coisa que eu sabia sobre Borda da Mata… é que a cidade ficava na direção de Borda da Mata! Mesmo assim, se o Rui que tinha catorze anos, era mais alto e mais forte do eu, era meu amigo, e sabia que tinha festa na Borda, não pensei duas vezes.

Saímos da praça João Pinheiro, em Pouso Alegre, à uma e quinze da tarde. Às sete e quinze da noite deixamos a MG 290 e entramos na rua principal de Borda da Mata empurrando o carrinho colorido. Logo adiante, na primeira travessa à esquerda, paramos para satisfazer a curiosidade de algumas crianças e começar nossas vendas! O burburinho da criançada atraiu a atenção de uma senhora na terceira casa da rua. Quando a bela mulher morena, esguia, de cabelos longos e olhar suave saiu ao portão, aproveitei para pedir-lhe um copo d’agua. Antes de atender meu pedido, ela fez algumas perguntas. Minutos depois voltou com os copos d’agua e dois pratos alombados de comida quentinha: arroz branco, feijão de caldo vermelho e grosso e bife de alcatra. Foi a melhor refeição trivial que já comi na vida!

Saciada a fome do corpo, fomos saciar a fome do espírito… a fome de aventura e de alguns trocados! Por volta de oito da noite chegamos à praça Antonio Megale. Chegamos devagar devido à dificuldade para abrir caminho com o carrinho colorido em meio a tanta gente. Estacionamos ao lado do jardim e começamos a vender nosso produto. Em menos de uma hora vendemos tudo. Não sobrou sequer um pacotinho de pipoca colorida ou um saquinho marrom de amendoim ‘pra contar a história’! Como tudo era novidade, vendi pelo dobro do preço. Faturei num só dia o que precisaria de três semanas de boas vendas para ganhar!

Dois terços da aventura realizados, era hora de voltar para casa! Teríamos que enfrentar mais 27 quilômetros de estrada gelada, no meio da noite, mais seis horas de viagem empurrando o carrinho vazio?

Às nove e meia da noite eu atravessava a avenida Duque de Caxias, ao lado do mercado municipal de Pouso Alegre, recém reformado pela construtora do Fiíco, quando avistei o Waltinho, filho do meu patrão…

– O que aconteceu? Onde você estava até essa hora? – perguntou ele, com expressão visivelmente preocupada.

– Eu estava numa festa na Vendinha… Olha consegui vender tudo hoje – respondi com naturalidade. E subimos a Getúlio Vargas em direção à casa do dono do carrinho de pipocas coloridas. Eles nunca souberam da minha aventura na festa da Borda!

Em 2014, quarenta e três anos depois, voltei à mesma casa para levar um exemplar autografado do meu primeiro livro – Meninos que vi crescer – àquela gentil senhora que, espontaneamente, nos servira aquele manjar dos anjos. Mauritania Furtado estava então com 87 anos. Claro que ela não se lembrava de mim… mas se lembrava dos dois garotos e do carrinho de pipocas coloridas!

Esse ‘capitulo’ é parte da historia “O mistério do Coisa Ruim da Borda”, uma das 50 historias do meu primeiro livro “Meninos que vi crescer”!

A propósito, neste mês de abril, faz 68 anos que o “Chiquinho”, conhecido como ‘Coisa Ruim da Borda’, fez sua última aparição no casarão do Portuga na Fazenda da Ponde de Pedra!

Será que foi a ultima aparição mesmo???

O promotor, a camareira e os peões de Silvianópolis

Se fosse hoje a camareira seria processada por racismo!

O prédio do Fórum Homero Brasil é o mesmo… mas naquela época não havia grades em volta!

Durante as obras do asfaltamento da estrada que liga o município de Silvianópolis ao vizinho município de Turvolândia, no final da década de 1980, os funcionários da empreiteira ficaram hospedados na Pousada do Tanque, uma das duas pensões da cidade, – a outra estava em reforma – bem perto do famoso Tanque da velha Santana do Sapucaí.

Naquele mesmo ano um jovem promotor de justiça, cuja cor da pele nos remete a afrodescendentes, foi designado para trabalhar no fórum local. Enquanto não se mudava para a Comarca, o promotor também se instalou na pensão, única disponível. E se arrependeu!

Sem opções de lazer na velha e pequenina Santana do Sapucaí, e habituado aos estudos, depois do expediente no fórum, o promotor gastava seu tempo debruçado sobre os livros em busca de mais conhecimentos. Mas só depois que os peões dormiam…!

Já os ‘peões’, depois de um dia inteiro de trabalho pesado, procuravam relaxar nos braços de Severina do Popote e jogar conversa fora na pensão até a hora de dormir. Quando se levantavam de manhazinha, ninguém mais dormia na pensão, tamanha era a balburdia que faziam na hora do café da manhã.

O jovem, introspectivo e sisudo promotor, que só pegaria no expediente no fórum depois do meio dia, não se levantava, mas ficava rolando na cama até que os peões saíssem para o trabalho. Só então voltava para os braços de Morfeu, para completar o sono. Por conta disso, o mui digno guardião das leis, chegara a cogitar a possibilidade de uma transferência para outra Comarca, antes mesmo de criar raízes na velha Santana.

Um fato banal, porém hilário, veio corroborar sua decisão!…

Numa bela manhã veio trabalhar na pensão uma nova camareira. Apesar de prestimosa em lavar pratos e talheres e experiente em trocar fronhas e esticar lençóis, ela não conhecia todos os hospedes! Depois de servir o café da manhã para a peonada e lavar os ‘trem’ do café, Jurema foi arrumar os quartos. De repente deu de cara com o promotor enrolado nos seus lençóis, nos braços de Morfeu. Simples como ela só, e querendo ajudar o hospede que supunha retardatário, sacudiu os lençóis, bateu no ombro do promotor e foi dizendo:

– Acorda negão!!! A sua turma já foi p’ra estrada faz tempo!!!

… Ele acordou mesmo! Acordou pela ultima vez naquela pensão…

Aquele foi seu terceiro e último dia de trabalho em Silvianópolis. O fórum da comarca abriu vacância e ficou várias semanas sem um mui digno RMP, até que um novo fosse designado para substituir o promotor que fora confundido com os peões da obra da estrada de Turvolândia!

Tempos bons aqueles da década de 80, quando o cidadão tinha liberdade de expressão, sem frescura! Tempos em que “Negão” era apenas uma forma carinhosa de se dirigir ou se referir a uma pessoa querida ou conhecida. Nos dias atuais, regidos pelo – pseudo – politicamente correto, a espevitada, inocente e bem-humorada camareira seria chamada na chincha… – coitada! Se não conseguisse dobrar a serra do cajuru, receberia pulseiras de prata e seria levada no táxi do contribuinte para sentar-se ao piano do paladino da lei na DP! … E depois seria levada às barras dos tribunais e enquadrada no crime de racismo!

Saudades de Santana … Saudades dos anos 80!

Pessoas que deixaram rastros na minha terra!

Filomena…

Segunda casa da Filomena no bairro dos Coutinhos… também de pau-a-pique, (Foto de 1990, cedida por Hilário Coutinho).

Filomena morava com os irmãos ‘Zelino’ e Messias… Nenhum dos três se casou. Eram muito queridos e respeitados no bairro, mas eram de pouca prosa. O mais comunicativo era o caçula Messias… ele era surdo-mudo! Toda vez que se aproximava de alguém na estrada, emitia sons, gesticulava e sorria. Nunca consegui entender um gesto ou palavra sequer… mas eu tinha certeza que ele estava feliz em conversar com alguém.

Sua casa foi a última de pau-a-pique e ser demolida no bairro. Era amarela, grande, baixa, rente ao chão, cheia de janelas de madeira, coberta de telhas de bica como todas as casas da roça. Em seu lugar foi construída outra, também de pau-a-pique… Agora branca. Tinha um pequeno terreiro em volta. Algumas flores nativas. Logo em seguida começavam as plantações, uns dois hectares de terra roxa, plana. As vezes plantavam mandioca, outras vezes milho, feijão… Certa vez plantaram batata-doce, roxa. Quando plantavam milho a casa de pau-a-pique desaparecia atras do milharal. Como não usavam adubo, de vez em quando precisavam descansar a terra… aí simplesmente não plantavam nada e deixavam a soqueira de milho virar pasto, para arrendo. Animais na casa e no seu entorno, além de tatus e pacas que viviam do outro lado do ribeirão e frequentemente vinham comer milho no quintal, apenas galinhas e um gato preguiçoso. Ah, tinha também alguns lagartos do tamanho de jacarés, que vinham comer tenros pintinhos amarelinhos ainda em penugem na beira do terreiro! É dela uma frase que era contada em toda roda de contadores de causos do bairro… Nos seus afazeres domésticos um gato gordo e preguiçoso vivia se esfregando na barra do seu vestido, enquanto pedia comida. No mesmo ritmo enfadonho do gato ela teria dito:

– Chiiiiiiipa gaaaato, ôh amolaaaaannnnntttteeee…

Filomena tinha dois hábitos marcantes… Um, era não ir às casa das pessoas. Não que fosse antissocial, pois conversava muito bem com as pessoas quando as encontrava na estrada. E também recebia com cortesia as que a visitavam. Falava do tempo, reclamava da poeira, da falta de chuva, da falta de sol, da colheita que estava próxima… O outro hábito era ir à missa na igreja matriz de Congonhal, religiosamente, nos dois sentidos, todo domingo. Na capelinha do bairro ela ia uma vez por mês, pois o padre só vinha pastorear seu rebanho uma vez na ultima semana de cada mês! Chegava cedo. Se a missa era às sete da noite, muito antes de o sol recolher os bigodes ela já estava sentada num dos bancos ou na frente da capelinha na beira da estrada, no centro do bairro dos Coutinhos. Vinha devagar, caminhando ao lado do inquieto Messias – quando a capelinha ficou pronta, Zelino já havia partido – Se sabia que estava adiantada para a missa, vinha ainda mais devagar.

O passar dos anos promoveu muitas mudanças, muitas transformações sociais no país. Inclusive no bairro dos Coutinhos. Uma das mudanças diz respeito ao número de veículos existentes no bairro. A outra reporta ao hábito de oferecer carona. Há poucas décadas, ninguém passava de carro pela estrada sem oferecer carona para quem estivesse caminhando, fosse conhecido ou não. Porém, décadas atrás havia pouquíssimos veículos circulando ali. Durante muito tempo o único veículo, além da bicicleta, do cavalo ou do carro de boi, que levantou poeira na estrada do bairro dos Coutinhos, foi o Jipe com capota e janelas de lona do Abrão Venâncio! Hoje dezenas de carros, de todas as marcas e modelos, trafegam quase dia e noite! Mas ninguém oferece carona a ninguém! Até porque, ninguém conhece ninguém!

Essa transformação, da qual os irmãos “Lino” assistiram boa parte, não mudou uma vírgula as suas vidas. Os seis quilômetros que separavam sua casa de pau-a-pique amarela na Vargem do Coqueiro, da igreja Matriz de São José em Congonhal para a missa dominical, continuaram sendo percorridos com o mesmo motor… à pé! Iam sempre à ‘missa de cedo’, a das oito da manhã. Depois da missa faziam o mercado semanal no armazém do ‘Zé Véio’, distribuíam em três sacos de sal, jogavam nas costas e voltavam passo-a-passo para casa. Quem fosse à ‘missa do dia’, às dez da manhã, podia cruzar com os três irmãos ao longo da rodovia… Zelino, Filomena e Messias, em fila indiana, sempre nessa ordem, voltando lentamente para casa. Ela, na maioria das vezes, debaixo de um guarda sol preto.

A casa de pau-a-pique da Filomena era a mais próxima da minha, menos de duzentos metros, na direção da ‘civilização’. Bastava sair à janela da sala da nossa casa alta para avistar o telhado da casa dela. No entanto só fui lá uma vez, salvo engano, em 1987, velar o octogenário corpo do Zelino. A ausência do irmão mais velho mudou uma única coisa na vida de Filomena… Agora ela era vista na estrada do bairro, a caminho da missa em Congonhal, na companhia ‘apenas’ do irmão surdo-mudo e sorridente!

Seis anos mais tarde, aos 78 anos, o sorridente Messias calou de vez sua voz, tirou seus passos da estradinha poeirenta do bairro, e foi morar com o irmão no andar de cima!

A ausência do irmão caçula e silencioso, mais uma vez não alterou os hábitos de Filomena. Uma vez por mês ela beijava a ponta dos dedos e depositava o beijo na imagem do Menino Jesus de Praga, padroeiro da capelinha do bairro dos Coutinhos. A ‘missa de cedo’ aos domingos, continuou levando Filomena à igreja matriz de Congonhal… agora sozinha!

Certa manhã de domingo, em meados dos anos 90, depois da missa de cedo, demorei-me alguns minutos num mercadinho. Quando peguei a estrada alcancei Filomena. Sua figura era inconfundível, desde longe. Debaixo do velho chapéu de sol preto, ela seguia, como sempre passo a passo à margem da rodovia. Usava a costumeira saia grande quase arrastando pelo chão, uma discreta blusinha clara, um crucifixo de madeira pendurado no peito e o lenço bege cobrindo o coque de cabelos cinzas. Parei meu Escort prata alguns metros à sua frente e quando ela passou, ofereci carona!

– Não… Eu vou à pé mesmo! – respondeu ela, quase no mesmo ritmo em que falava com seu gato… e continuou andando.

Mais tarde comentei o fato na cozinha enfumaçada do meu tio …

– Ela escuta pouco e tem a vista ruim… Decerto ela não reconheceu você! – respondeu o ‘filósofo’ Antonio Paula.

O relógio de Filomena e dos irmãos sempre fora o sol, a lua e… o galo! Quando o sol se deitava, era hora de dormir. Quando o galo cantava, era hora de se levantar. Agora, octogenária, sem os irmãos para cuidar, sem o gato modorrento e amolaaaaaaannnnteeee se esfregando na barra da sua saia cinza na cozinha da sua casa -agora branca -, com a vista cansada e os ouvidos menos apurados, Filomena começou a confundir as horas do dia… e da noite! Como conservava o hábito de ir à missa na capelinha do bairro e à missa de cedo – e como mineiro, ainda mais Coutinho! não perde a hora – Filomena chegava sempre muito adiantada às solenidades religiosas. Se o ‘Pequeno Príncipe’ de Saint Exupery já estava à postos meia hora antes do encontro, Filomena se preparava muito melhor… Se a missa no bairro era às seis e meia da tarde, ela chegava com o sol alto… antes das cinco! Essa falta de noção das horas não acarretava prejuízo a ninguém… mas causava cenas ao menos curiosas! Bem curiosas…

Já debilitada pela idade e precisando de mais tempo para percorrer os seis quilômetros de estrada que a levariam à tradicional missa de cedo em Congonhal, Filomena saia de casa muuuuuito cedo… antes de o galo cantar! E muitas vezes chegava à igreja muitas horas antes de o educado e cortês sacristão Zé Olimpio abrir as portas. Tornou-se comum ver a velhinha solitária, sentada ao pé da pilastra da torre da matriz, ainda de madrugada, esperando o dia amanhecer! Se essa cena era comum, inusitado era cruzar com ela usando uma blusinha parda sobre o indefectível vestido cinza – o de ir à missa! – com a barra roçando a ponta da guanxuma, caminhando lentamente à margem da rodovia deserta, sob o plácido luar da lua cheia, no meio da madrugada!

Esta cena me remete à “Maria… 90 anos de solidão”, história da velhinha também octogenária que saiu para catar gravetos no pasto perto da sua casa à meia noite de lua cheia! A historia de Maria está no livro “Quem Matou o Suicida”!

Quem presenciou esta cena – uma velhinha caminhando solitária pela estrada de madrugada, iluminada pela lua cheia – com certeza, não parou para oferecer carona!

Se estivesse entre nós, hoje, em dias de Covid, Filomena não teria dificuldade de distanciamento. Era totalmente avessa a aglomerações. Alguns diziam que ela também não gostava de ser fotografada. Filmada então, nem pensar! Certa tarde fresca de meados dos anos 90, consegui filmar Filomena há cerca de cinquenta metros. Era um sábado, dia de missa na capelinha do bairro…

Filomena vinha lentamente pela estrada poeirenta, sem pressa de chegar. Quando eu a vi, a pretexto de filmar a casa da Catarina, posicionei a filmadora e fui captando uma panorâmica, lentamente, passando pela estrada por onde ela vinha. Demorei um pouco mais na figura octogenária, aproximei a imagem e segui filmando até a torre da igreja. Alguém que me viu filmando sutilmente a velhinha com fama de pouca prosa, falou:

– Se ela souber que você a filmou, ela vai te xingar!

… Acho que, de fato, ao menos de longe, Filomena não tinha vista muito boa!… rsrsrsrs.

Essa foi a última vez que vi Filomena caminhando. Em 2001, já sob os cuidados e o carinho dos funcionários do Asilo de Congonhal, Filomena foi se juntar aos irmãos Zelino e Messias… e, quem sabe, ao seu gato amolannnnte.

‘Filomena do Lino’ foi uma destas pessoas que exigiam pouco da vida… das pessoas, mas teve presença marcante na vida de várias gerações do bairro dos Coutinhos! Lembra um pouco, ao menos o título, do clássico de Erico Veríssimo inspirado nos ensinamentos bíblicos… “Olhai os Lírios do Campo”…

Poucas pessoas deixaram tantos rastros, – literalmente –, como Filomena, na minha terra!

 

*** Um velho hospede do Hotel do Juquinha acaba de tropeçar e cair nas malhas da lei.

Breve você vai saber, aqui no blog, quem é ele e os detalhes da sua prisão.

Uma dica: ele tem nome de cantor!