O estupro de Beto Cowboy

Apagado o fogo da paixão, ele foi embora… Mas deixou um coração ferido para trás!

Hotel “Recanto das Margaridas”, em Santa Rita do Sapucaí.

Beto Cowboy era um sujeito alto, forte, brejeiro… e bonito! Era de pouca prosa, muito sério, mas tinha um semblante agradável. Tinha no olhar e no comportamento um certo mistério! Era o típico sujeito capaz de despertar emoções nos corações femininos. Por onde passava, sempre despertava desejos e paixões. Radicado no Vale do Paraíba, trabalhava no pequeno circo de rodeios rodando a região. Era um dos peões mais solicitados da companhia. Depois de cada apresentação noturna saia pela cidade, para abraçar umas loiras… e às vezes uma morena! Não raro amanhecia nos braços de uma das suas fãs!

Mariana, vinte e poucos anos, era uma mulher bonita, fogosa, carinhosa, sonhadora, dona do próprio nariz embora a vida não fosse um mar de rosas. Apesar de madura, tinha um espírito aventureiro e acreditava em príncipe encantado.

Certo dia o príncipe apareceu na cidade … Em um circo de rodeios! Sem pensar muito nas consequências Mariana se deixou levar pelos encantos de Beto Cowboy. Amanheceram debaixo do mesmo lençol. No dia seguinte, após meia dúzia de juras de amor eterno e promessas de que voltaria para ela, Beto Cowboy baixou lona e pegou a estrada. As juras? Ah, as juras foram sopradas pelo vento e se perderam ao longo do tempo.

A noite de amor de Beto Cowboy & Mariana, no entanto, ainda que tardio, deu fruto. Chegou nove meses depois… Uma bela menina mais linda do que a mãe.

O mundo e o circo têm duas coisas em comum: ambos são redondos e dão muitas ‘voltas’!

Quinze anos depois, numa dessas voltas que o mundo dá, e o circo também, Beto Cowboy levantou lona outra vez em Santa Rita do Sapucaí! Ao saber que tinha uma filha adolescente, quis conhecê-la. A emoção de conhecer um ‘pedacinho’ seu, abalou seus alicerces. Mais maduro e calejado, o peão pensou em abandonar o picadeiro e criar raízes na cidade.

A ferida no peito de Mariana havia cicatrizado. A presença do príncipe, agora mais maduro, mais discreto e mais charmoso, reacendeu a antiga paixão. Dois dias depois o circo baixou lona outra vez e partiu. Desta vez levava um peão a menos. Beto Cowboy ficou nos braços de Mariana. Juntaram os cobertores.

Beto Cowboy não teve dificuldades para arrumar meios de subsistência. Homem forte, saudável, desincumbia-se de qualquer tarefa que não exigisse diploma técnico ou universitário. Parecia que depois de anos e anos de vida (errante), sem nem um passarinho para tratar, finalmente ele iria criar raízes – em Santa Rita do Sapucaí.

As atividades do dia a dia, embora fossem dignas, prazerosas e rendessem o pão na mesa… não rendiam aplausos. Beto Cowboy começou a ficar acabrunhado. Mariana lhe dava tudo que uma mulher bonita e fogosa poderia lhe dar. No entanto, a rotina não anda junto com a fantasia, com a poesia… Sem poesia a vida a dois perde um pouco do brilho, vai ficando opaca. Além do mais, o artista não vive sem aplausos!

Beto Cowboy juntou a tralha.

As discussões foram curtas e breves… Houve choros e juras de amor… Mas nada amoleceu o coração cigano do cowboy. E ele pegou a estrada…

Não houve atritos, não houve pé-na-porta, não houve barraco… Mas Mariana ficou muito ferida!

Beto Cowboy saiu da vida de Mariana… mas não saiu do seu coração! Coração ferido… de mulher abandonada! Duas vezes abandonada…

O tempo, remédio para todos os males, passou. Parecia ter curado as feridas…

O grande e histórico Rio Paraíba do Sul continuou descendo, ora lento, ora rápido em direção ao mar.

Certo dia o circo recebeu três carrancudos clientes muito antes da hora do show. Queriam conhecer Beto Cowboy. Quando ele se identificou, um dos visitantes sacou da algibeira um papel timbrado: era uma ‘carta branca’ do ‘homem da capa preta’ da Comarca de Santa Rita do Sapucaí! Após ler parcimoniosamente o “mandamus”, o homem da lei estendeu um par de pulseiras de pratas e disse aquelas duas palavrinhas que fazem gelar a espinha de qualquer cidadão:

– “Teje Preso”

– Preso?! Mas por quê? – quis saber o patrão do peão.

– Estupro da própria filha. É o que está aqui no Mandado – informou o policial.

No crepúsculo daquele mesmo dia Beto Cowboy foi conhecer, por dentro, o “Hotel Recanto das Margaridas”!

A recepção não foi das melhores…

Pela ‘lei social’ – leia-se Código Penal – o crime de estupro custa ao estuprador de 6 a 10 anos de liberdade… ou de estadia gratuita no hotel do contribuinte. Pela lei dos ‘manos’, ou dos ‘irmãos de caminhada’, a pena pode custar mais. Além da segregação imediata do convívio com os demais presos, pode custar um braço, uma perna, algumas costelas e, na maioria das vezes, custa a vida!

Quando chegamos para dar apoio ao ‘banho de sol’ naquela segunda-feira, o carcereiro me disse que havia um preso no ‘seguro’, com algumas costelas quebradas. Era Beto Cowboy! A pancadaria havia acontecido na virada da noite se sexta-feira. Tão logo o novo hospede fez o ‘check in’ no famoso hotel – Presidio Modelo do Sul de Minas – inaugurado em abril de 99, as ‘terezas’ começaram a circular pelos sombrios corredores, levando e trazendo ‘pipas’… Em poucos minutos a cadeia toda sabia que o tal cowboy havia assinado um 213, crime que, segundo a lei do cárcere, exige justiça sumária.

Nas primeiras horas da noite os ‘justiceiros de garotinhas’ estupradas apenas espalharam o terror.

Quando as luzes da meia noite se apagaram, Beto Cowboy entrou no borralho! Teve sorte… foram apenas algumas costelas quebradas e um deslocamento de clavícula! O mais difícil foi aguentar essas dores durante mais de 48 horas no chão frio e escuro do ‘seguro’… sem uma novalgina sequer!

A clavícula, eu e a doutora Tatiana, usando um lençol, puxando cada um de um lado e um forte tranco, colocamos no lugar. E Beto Cowboy voltou sem dores físicas para o famoso hotel.

As fraturas cicatrizaram com carinhos e afagos de uma ‘enfermeira’ pra lá de especial!

Dois dias depois conheci Mariana. No início da tarde, quando cheguei para o apoio e triagem às visitas de presos, Mariana estava lá… Era a primeira da fila! Não parecia ter mágoa do estuprador. Pelo contrário… Parecia ter saudade, muita saudade! Nas semanas seguintes Mariana foi sempre a primeira da fila para visitar o… “estuprador de estimação”!

O detalhe dessa história é que… Beto Cowboy NÃO cometeu estupro contra a filha!

Acusá-lo de ter estuprado a filha, foi a maneira que Mariana encontrou para se vingar pelo segundo abandono ou… para trazer Beto Cowboy para perto dela!

“… O hospede do quarto zero”

Passava da meia noite quando o hospede do quarto ‘zero’ despertou. Estava deitado de lado na cama. A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi Lobinha. A cadela, como todo bom cão de guarda à noite, tinha os olhos cerrados, mas não dormia. Ao perceber os movimentos do hospede, levantou a cabeça que repousava sobre as patas dianteiras cruzadas e ficou esperando os próximos movimentos. Sem a menor ideia de onde estava, o enfermo virou-se na cama. Fitou o teto à meia luz dégradé que saia de um abajur no canto do quarto… tentou sentar-se na cama e… sentiu dor! O corpo todo doía. Parecia ter sido atropelado. Algumas partes doíam mais. Um ponto na coxa direita, outro nas costelas do mesmo lado, um galo na cabeça e outro na têmpora latejavam… “Porque estava assim?”, pensou. A cabeça estava confusa, muito confusa. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo e nem de onde estava. A pouca luz que saia filtrada pelas gretas do abajur se perdiam antes de chegar ao teto do quarto… não sabia se estava num quarto, numa mata… num túmulo. Estaria vivo… estaria morto… estaria dormindo, sonhando?… Tentou olhar novamente para a silhueta do animal à sua direita – seria mesmo um animal ou uma quimera? Ao virar-se para olhar para o animal sentiu uma pontada na costela… voltou à posição anterior. A dor parou. Ficou só o latejamento. Experimentou virar-se para o lado contrário, para o canto. Sentiu alívio. Achou a posição mais confortável… Fechou os olhos. Voltou a dormir. Não viu o vulto alto saindo do banheiro…

Uma hora depois a porta do quarto Zero se abriu lentamente. Uma silhueta feminina, delicada, sem rosto, parou no vão da porta apoiando uma mão no portal. Ficou assim longos segundos… até os olhos se acostumarem com a pouca luz do abajur. Lobinha ao lado da cama novamente levantou a cabeça que continuava apoiada nas patas cruzadas, arregalou muito os olhos azuis, ficou esperando um gesto ou uma palavra… que não aconteceu. Lentamente a silhueta se afastou do portal puxando suavemente a porta atrás de si e deixou o quarto. Era Valentina. Ao ver o vulto do desconhecido deitado de lado, Valentina concluiu que ele havia se virado na cama, portanto estava vivo! Seus lábios quase esboçaram um sorriso de alívio.

 

Esse texto é parte integrante do livro “Uma viagem que não chegou ao fim”!

 

Flores da Sapucaia

A arvore que engana os incautos!

Flores prontas para desabrochar

Semana passada publiquei no Blog e nas minhas redes sociais uma crônica sobre a “Sapucaia… a arvore que enganou o historiador”!

Pois é… Ela enganou a mim também!

Flores roxas escondidas entre as folhas rosas… o motivo do meu engano!

O motivo da crônica foi esclarecer aos leitores que a arvore que deu nome às cidades de Santa Rita do Sapucaí, São Gonçalo do Sapucaí, São Bento do Sapucaí e aos rios do mesmo nome no Sul de Minas, era na verdade o ‘Óleo Copaíba’, e não a Sapucaia, como batizou equivocadamente o historiador.

Num trecho da matéria afirmei que a Sapucaia, que há décadas ornamentam a orla da Lagoa da Pampulha e outras praças de Belo Horizonte, não dá flores!

Foi aí que a bela Sapucaia me enganou!

Que ironia! Explicando o engano do historiador, eu também fui ‘enganado’… e enganei o leitor!

O fato é que, a Sapucaia dá flores, sim, e lindas por sinal!

As flores começam com grandes botões roxos. À medida que vão desabrochando adquirem uma coloração lilás e acabam ficando brancas, até cair ao chão.

Quando chega a esse ponto… É o fim da flor!

Lembram um pouco o Manacá da Serra que, ao contrário, nascem de botões brancos, se abrem e assumem a cor lilás até forrar o chão!

Sapucaia… A arvore que enganou o historiador!

Na região onde rios e cidades levam seu nome, não se tem a localização de um único pé nativo da famosa arvore.

Dos 125 pés de Sapucaia que enfeitam praças e jardins de Belo Horizonte, 35 estão na orla da lagoa da Pampulha.

Você que já viajou pelo Sul de Minas, com certeza cruzou cidades e rios com nomes originários na Sapucaia… São Gonçalo do Sapucaí, Santa Rita do Sapucaí, Porto Sapucaí. Se subir até a bela Campos do Jordão você passará por São Bento do Sapucaí, Sapucaí Mirim e poderá beber nas nascentes cristalinas dos rios Sapucaí e Sapucaí Mirim. Todas estas localidades e rios receberam esse batismo em homenagem à famosa Sapucaia, arvore de grandes copadas, supostamente abundante no Sul de Minas, principalmente nas margens baixas dos rios que levam seu nome.

Só que não!

A famosa Sapucaia, conhecida (e explorada) pelos europeus que aqui chegaram, desde o século XVI, originaria da Mata Atlântica, hoje anda pela beira da morte. Não se tem a localização de um único pé nativo no Sul de Minas.

O que o historiador chamou de Sapucaia, era, na verdade, o Óleo Copaíba!

Este sim, nativo e abundante na região onde batizou tanta ‘gente’!

As arvores são de fato parecidas, apenas no porte, porém muito diferentes na florada, na formação da casca (a Sapucaia tem formato de rusgas e fissuras, lembra a casca do cedro). O óleo copaíba tem a casca um pouco mais lisa e seu fruto é pequeno. O fruto da Sapucaia tem o tamanho de uma cabeça de cachorro médio. Se cair do galho a trinta metros de altura sobre um cachorro, pode aleijá-lo! O fruto da Sapucaia (semente) tem grande valor nutricional embora não seja comercializado. O óleo copaíba tem grande valor medicinal. Ambas as arvores, que podem passar de trinta metros de altura, podem forrar o chão da casa que você pisa!

Por engano ou não, o nome ficou. Todos estes lugares que eu citei foram batizados com o nome da Sapucaia. Mesmo não vendo a arvore, toda vez que você passar por ali, vai se lembrar do que acabou de ler!

Anos atrás a prefeitura de Belo Horizonte plantou 125 pés de Sapucaia em suas praças, jardins e logradouros públicos, inclusive na Praça da Liberdade. No entorno da Lagoa da Pampulha, por onde pedalo quase todos os dias, já contei até o momento 35 arvores!

Esta é época mais fácil de ‘percebê-las’… É a época da florada, ou melhor, da ‘folhada’! Sim. A Sapucaia não dá flores… No início da primavera as folhas verdes, novas, mudam de cor e durante cerca de duas semanas tingem suas copas de rosa e lilás. Por isso é fácil percebê-las… e contá-las.

Belo Horizonte é bastante arborizada e florida, especialmente na região da Pampulha. O ano todo sibipirunas, manacás, primaveras, flamboyants, jacarandás rosas, ipês de várias cores, sapucaias, cada um a seu tempo enchem nossos olhos – e corações – de cores! Na ilha da lagoa, no momento, tem três pés floridos que não consigo afirmar qual deles é ipê roxo ou Sapucaia.

Mas, voltando à Sapucaia, a arvore que enganou o historiador e acabou batizando rios e cidades no Sul de Minas, tem sim Sapucaia no Sul do Estado. Graças a um cidadão altruísta que resolveu preservar a espécie tão bela. Em Santa Rita do Sapucaí há dois belos espécimes da famosa arvore. E é muito fácil identificá-los. Quando entrar na cidade pelo acesso sul, pela ponte principal, quando estiver no final da ponte sobre o Rio Sapucaí, olhe para a margem à sua direita à frente. Ali – salvo engano no quintal de uma academia – duas belas arvores com suas copadas lilás irão encher seus olhos!

Dos 125 pés de Sapucaia que enfeitam praças e jardins de Belo Horizonte, 35 estão na orla da lagoa da Pampulha.

Agradeço a natureza todos os dias por tão belo espetáculo… E agradeço a Deus a sensibilidade para perceber as belezas que nos cercam e tornam nossa vida mais colorida, mais alegre, mais divertida, mais romântica…

      

Covid Brasil X EUA … Para pensar na cama!

Enquanto aqui morreram 97 mil pessoas, lá, no mesmo período, com todas as pessoas vacinadas, morreram 390 mil pessoas!

Em setembro de 2021, num dos momentos mais sensíveis da pandemia do Coronavírus, comecei arquivar os números da doença, no Brasil e nos Estados Unidos. Naquela ocasião, toda a população americana, que quis, já havia sido vacinada. O Brasil estava bem próximo de atingir o mesmo objetivo.

 

Em meados de setembro do ano passado, os números da Covid nos dois países eram estes:

 

Brasil: (Sexta, 17 de setembro 2021… 20 milhões de casos + 34.407 novos casos + 649 óbitos = Total 589 mil óbitos

USA: (Sexta-feira, 17 setembro 2021… 43 milhões de casos + 155 mil novos casos + 3.415 mil óbitos = Total 670 mil óbitos

Desde então venho acompanhando os números nos dois países. Nesta terça-feira, 27, este são os números atuais nos dois países:

 

Brasil: Terça-feira, 27 setembro… 34,6 milhões de casos + 13.861 novos casos + 85 óbitos = Total 686 mil óbitos

USA: Terça-feira, 27 setembro… 95,9 milhões de casos + 58.520 novos casos + 404 óbitos = Total 1,06 milhão de óbitos

 

Depois de ceifar 686 mil vidas humanas no Brasil e 1.06 (um milhão e sessenta mil) nos Estados Unidos, a Covid está sob controle em quase todo o planeta. A imprensa já nem liga mais para Covid. Os números da Covid no mundo já não fomentam mais as intrigas políticas e não vendem mais audiência nos veículos de comunicação – a menos que seja para colocar 400 mil mortes na conta do adversário político.

Há várias semanas a média de mortos por Covid no Brasil estacionou na casa de 50 por dia, em média. Nos Estados Unidos a média se mantem alta, em torno 500 óbitos por dia há várias semanas.

Os números diluídos neste final de semana ficaram em 404 óbitos no país do democrata Joe Biden. Amanhã, esse número deve aparecer acima de 700.

No Brasil, também em números diluídos para o final de semana, foram anotados 85 óbitos por Covid. Amanhã esse número será inferior a 50. Acesse o Google nesta quarta-feira e confira.

Apesar de ter ceifado tantas vidas, a Covid ajudou centenas de prefeituras e dezenas de Estados a colocar suas contas ordinárias em dia! Sim, todos os estados e municípios do Brasil onde há estrutura mínima para cuidar da saúde, receberam polpudas verbas do governo federal para combater a Covid. Nem todos usaram o dinheiro para isso… Nem todos conseguiram evitar que as pessoas contraíssem o vírus e que morressem em decorrência dele! Morreram, infelizmente, – e lamento – aquelas pessoas que tinham, sabendo ou não, algum tipo de comorbidade e, de um jeito ou de outro contraíram o vírus! Na minha família isso aconteceu.

Dentre tanto que se falar sobre a covid nestes dois anos e meio, um fato precisa ser trazido à tona, ao conhecimento da sociedade, para que as pessoas reflitam sobe tudo que ouviu da imprensa e dos políticos neste período: trata-se dos números da Covid nos dois países, quase iguais em tamanho e tão diferentes na economia: EUA e Brasil.

Os Estados Unidos têm 335 milhões de habitantes… O Brasil tem 215 milhões.

Nos Estados Unidos, morreram de Covid, 1,06 (um milhão e sessenta mil) pessoas!

No Brasil, morreram de Covid 686 mil pessoas.

Até aí tudo bem. A proporção está próxima da equivalência.

O que chama a atenção é o período em que essas pessoas morreram!

Nos últimos doze meses, mais precisamente desde o dia 17 de setembro de 2021, quando comecei a acompanhar diariamente os dados pelo Google, no Brasil morreram 97.000 (noventa e sete) mil pessoas…

No mesmo período nos Estados Unidos, país mais rico do mundo e dono da mundialmente conhecida farmacêutica Pfizer, morreram 390.000 (trezentos e noventa) mil pessoas!

Por alguma razão, a grande mídia não fala sobre isso. Eu também não vou falar. Deixo para você, que acabou de ler essa matéria, refletir e tirar suas conclusões!

 

Obs: esses números, como eu disse no início, foram anotados diariamente desde o dia 17 de setembro de 2021 até a presente data. Portanto, os números não são meus… São do Google. Estão lá à sua disposição.

Um policial na corda bamba!

O carro no qual ele viajava levava um quilo de maconha!

Trevo da Brasilinha, na Fernão Dias (foto ilustrativa, retirada do vídeo  “Como era a Rodovia Fernão Dias antes da duplicação”, no Pouso Alegre . Net

 

Doar sangue e contribuir para salvar uma vida, é um ato senão heroico, ao menos nobre. Talvez por isso, sempre que os hospitais ou bancos de sangue estão com o estoque muito baixo, apelam para instituições públicas tais como Corpo de Bombeiros, Policias Civil e Militar e quartel do exército, para reposição e são prontamente atendidos. Foi assim que me tornei doador de sangue. E por muitos anos pude sentir a prazerosa sensação de ser – quase – ‘herói’!

Além do sentimento altruísta de estar contribuindo gratuitamente para a saúde de uma pessoa – na maioria das vezes desconhecida; da gratidão dos parentes da pessoa beneficiada; do atendimento especialmente carinhoso dos funcionários do ‘banco de sangue’; daquele ‘lanchinho especial’ servido pela copeira; do olhar de orgulho das pessoas à sua volta, há um outro sentimento… O de “folga”! De não ter que trabalhar naquele dia! Sim, após a retirada de 500ml do precioso líquido, o doador precisa de repouso. Como as doações são agendadas sempre pela manhã o doador de sangue tem o resto do dia livre.

No quartel, embora fôssemos soldados – a maioria contra a vontade, pois o serviço militar é obrigatório – não estávamos interessados tanto na nobreza do ato, mas sim na folga inesperada e gratuita naquele dia. Por isso, sempre que o comandante da bateria solicitava a manifestação de cinco voluntários para doação de sangue no dia seguinte, vinte e cinco ou mais levantavam as mãos, rsrsrsrsrs… Eu era um dos primeiros!

Na polícia também comecei cedo a nobre carreira de doador de sangue! Antes mesmo de ser diplomado.

Era uma quinta feira de janeiro de 81. Antes de dispensar a “D8”, minha turma do curso de formação de detetives na ACADEPOL, o coordenador fez a clássica pergunta:

– Tem algum doador de sangue aqui!

Mal ele concluiu a pergunta eu já levantei a mão!

– Voce deverá estar em jejum no hospital da PC na Av. Carandaí, às 08:00h da manhã. Peça o comprovante de doação… e pode tirar o resto do dia de folga – orientou ele.

Tirar folga justamente na sexta-feira e poder voltar para casa um dia antes, depois de três semanas longe da família, era quase um sonho. Ficou melhor ainda quando cheguei à minha ‘república’, no Prado, ao pé da noite. Um ex-colega do exército, que eu não via desde que dera ‘baixa’, estava hospedado ali e voltaria para Pouso Alegre na manhã seguinte, ele e o motorista do pai. Melhor impossível! Eu nem precisaria pegar o ENSA às nove e meia da manhã para chegar em casa, com sorte, às seis da tarde. Melhor ainda, de carona, de ‘grátis’! Deus estava me recompensando pelas minhas boas ações de doador de sangue!

Às sete da manhã peguei o ônibus azul na esquina do Cine Amazonas. Às nove peguei o ônibus vermelho na Praça 7, de volta para a república. Poucos minutos depois minha singela mochila estava no banco de trás da Caravan verde do pai do meu amigo. Com aquele carrão, e um motorista maduro e experiente, antes das três da tarde dobraríamos a lombada do Clube de Campo Fernão Dias e eu pousaria meus olhos saudosos na minha querida Pouso Alegre. Bendito o dia em que me tornei doador de sangue, pensava eu!

Mas havia pedras no caminho! Na verdade… erva!

Meu ex-colega do 14º GAC, vizinho de armário e de beliche, era consumidor de um produto até então especial, que não se encontrava a qualquer hora em qualquer lugar naquela época. Hoje, em cada esquina da Baixada do Mandu em Pouso Alegre, você encontra esse produto… Na verdade, você nem precisa descer à baixada… Basta um ‘torpedinho’! Em quinze minutos um motoboy entrega a encomenda na sua casa, na porta da sua escola, ou até mesmo no seu local de trabalho. Tempos atrás um assessor da câmara municipal de Pouso Alegre comprava o tal produto através do Cel. corporativo da Casa de Leis! No alvorecer da década de 80, esse produto, natural e perfumado, além de proibido, era raro e caro… mesmo na capital! Por isso a encomenda do meu amigo demorou para chegar! E o tempo foi passando… Dez horas, onze horas, onze e meia… meio-diiiiiia!…

Eu já começava a me arrepender da carona! Se tivesse pego o Impala às dez e meia da manhã na rodoviária, chegaria ao Fernandão em Pouso Alegre antes da cinco da tarde. Mas era um saco viajar no Impala lotado ouvindo a tagarelice cantada da baianada que descia do Nordeste para S.P. Além do mais, o Impala fazia a linha Teixeira de Freitas-BA/São Paulo, não entrava na cidade. Eu teria que descer no trevo da Brasilinha e descolar uma carona para casa… E eu nunca foi bom de carona! Meu amigo ao menos me deixaria na porta de casa.

À uma da tarde, quando eu já pensava em descer para a rodoviária a fim de pegar o ENSA das 15:30h, finalmente um golzinho pardo parou sorrateiro na esquina. Depois de ter certeza de que não era uma cilada dos ‘homi’, o motorista se aproximou do portão da república e entregou a encomenda.

Às 13:15h, depois de consumir o produto proibido, finalmente pegamos a estrada. Tanto meu amigo ex-soldado quanto seu motorista, exalavam o cheiro adocicado da ‘erva’! Fizeram duas viagens … uma pela perigosa Fernão Dias esburacada… e outra pelas estrelas, no rabo do cometa!

Quatro e trinta e cinco da tarde avistei Pouso Alegre. Minutos depois apeei da Caravan na porta de casa no bairro da Saúde. Não sei como o motorista conseguiu fazer BH/Pouso Alegre – 390 km – em quatro horas e vinte minutos pela Fernão Dias de pista única! Com certeza a ‘erva marvada’ ajudou!

Depois desse fato, fiquei muitos anos sem ver meu ex-colega de caserna. Certo dia, já aposentado na policia mas frequentando regularmente a delegacia como jornalista policial, voltei a encontrá-lo por lá. Conversamos como velhos amigos. Falamos da caserna, do destino que um ou outro amigo havia tomado depois da ‘baixa’. Ele contou-me que havia viajado – literalmente – para outro continente e que estava de volta à cidade. De fato, ele se tornara um discreto, porém sério e honrado cidadão. Sobriamente vestido, sem nenhum débito com a lei. Mais tarde fomos vizinhos de bairro, nos cumprimentávamos cordialmente sempre que cruzávamos na rua, mas nunca tocamos naquela quase alucinada viagem BH/Pouso Alegre. Eu nunca soube o que ele fez com a antiga paixão que nutria pela ‘erva marvada’ quando era jovem.

Agora que você chegou até aqui, engate uma ré!

Volte pela mesma estrada 40 anos no tempo…

Imagine se naquela vertiginosa viagem pela esburacada Fernão Dias, tivéssemos sido parados numa blitz dos homens da lei!

Imagine o que aconteceria se os patrulheiros da estrada tivessem encontrado um tabletão de quase um quilo de canabis sativa de Linneu dentro da Caravan!…

Receber as pulseiras de prata e assinar o artigo 12 da lei 6368, seria apenas um detalhe!…

Depois de doar meio litro de sangue para um deputado na capital,  e pegar uma carona para chegar mais cedo em casa, minha viagem terminaria no Velho Hotel da Silvestre Ferraz!

Naquele dia o jovem acadêmico de polícia, aspirante a detetive, conheceria o lado de dentro de uma cela… e encerraria precocemente sua carreira policial, antes mesmo de concluir o curso e receber o diploma!

Tudo por conta de uma carona com um amigo…

“Cavucada” 5.3

Tem pessoas que acham a porta aberta, entram na nossa vida… e nunca mais vão embora!

Nesse dia Cavucada estava completando 46 anos.

Esse é o caso do amigo Alexandre Reis Assunção “Cavucada”. Fomos vizinhos nos anos 90. Depois disso, mesmo estando distante, como agora, sempre esteve presente… na memória! E no coração.

Hoje, 28 de maio, meu querido amigo – e de milhares de Pouso alegrenses! – está completando mais um ano de vida… 53 anos de alegria, de simpatia, de sorrisos, de ingenuidade… com sua eterna pureza de menino de 8, 9 anos!

Deus te abençoe Cavucada.

Silvério, o soldado que aprendeu falar… “baralho”!

Silvério era um soldado moreno claro, estatura mediana, fisionomia agradável – apesar de pouco sorridente – e sempre amigo de todos. Era um daqueles sujeitos “de bem com a vida”! Nas interlocuções com os colegas sempre tinha uma ‘tirada’ engraçada, que virava piada. Era visto também como sujeito ligeiramente ‘destrambelhado’, ou, um ‘meninão’! E por isso mesmo não era levado muito à sério pelos colegas. Mas era sem dúvida, um bom companheiro, daqueles que, com certeza não deixaria um companheiro no mato sem cachorro! Seu pensamento nem sempre ordenado e sua língua sem freios, às vezes o colocava em saia justa.

O fato mais marcante protagonizado pelo soldado Silvério na nossa vida de caserna, naquele inesquecível ano de 77, aconteceu no início de uma tarde quente de fim de primavera…

Raspava 13:00h. A maioria dos 73 soldados já estavam sob a cobertura e adjacências da Bateria Comando se preparando para entrar em forma. Dali a instantes o cabo-de-dia iria apresentar os soldados ao sargento, que por sua vez apresentaria ao comandante Vargas, para o início do expediente da tarde. Silvério, que estivera tirando uma siesta no alojamento, foi um dos últimos a descer para a formalidade cotidiana. E desceu de má vontade, sonolento, parecendo estar de ressaca… No momento em que apareceu na porta do prédio rente à cobertura, enfadado por ter que mais uma vez entrar em forma e repetir toda aquela rotina que já durava quase um ano, o soldado soltou um sonoro impropério:

 

– Ô “caraaaaaaiiiiio”… Já está na hora de entrar em forma de novo!

 

Sua voz rasgada e ainda sonolenta soou alto ao pé do prédio da nossa bateria e entrou pela janela do segundo pavimento do prédio vizinho, onde o sisudo Capitão Meyer, comandante do NPOR, ‘caxias’ que era, já havia começado a instrução aos seus alunos!

O rechonchudo capitão – que dez mais tarde, já Ten. Cel. viria a ser comandante do 14º GAC – debruçou seu corpanzil na janela emoldurada de azul, encheu o peito e perguntou:

 

– Quem foi que gritou “caraio” aí?

 

O estrondo de uma granada não teria causado tamanho impacto sobre aqueles jovens soldados! Depois do estrondo veio o silencio ensurdecedor. Apoiado sobre os braços em curva, ocupando todo o parapeito da janela, o capitão aguardava a resposta!

Em pé, sentados ou encostados nas colunas sob a cobertura, nós soldados mal respirávamos!

Deu ruim!

Se o dono do “caraio” não se apresentasse, toda a bateria pagaria o pato!

O preço mais barato para aquele tipo de comportamento seria pernoite para a bateria inteira no final de semana!

Tensão total.

Ninguém tinha coragem de abrir a boca e caguetar o soldado 367…

E ele, o soldado vacilão, dono do “caraio”, se apresentaria… ou não?

O silencio sepulcral agigantara ainda mais a figura opulenta do capitão ocupando todo o espaço da janela de batentes azuis a poucos metros da nossa cobertura. Foi ele mesmo quem cortou o silencio…

 

– E então… O ‘boca suja’ não vai se apresentar?…

 

Nesse instante um bater de coturnos cortou o silencio. Sem olhar para ele, percebemos que Silvério juntara os calcanhares. Em seguida, ouvimos suas mãos espalmadas baterem em perfeita sincronia às suas coxas. No gesto seguinte ele virou-se de frente para a janela do capitão, em ‘posição de sentido’, levantou a cabeça com galhardia – como deve se portar um soldado, mesmo quando comete um vacilo – e respondeu alto e bom som:

 

– Fui eu capitão!

 

Alívio geral de todos nós soldados da BC. Ainda assim continuamos tensos, esperando a sentença do capitão.

Neste momento aconteceu o fato mais marcante que presenciei em toda minha passagem pelo exército! Talvez desconcertado com a resposta, com a coragem, ou quem sabe com a honradez e lealdade do soldado Silvério, o severo capitão engoliu em seco. Por um instante ficou sem palavras! Mas, não deixou a peteca cair! Ainda com os braços fortes curvados, apoiados no parapeito da janela, encheu o peito e disparou:

 

– Não é “caraio” que se fala não… é “Ca-ra-lho”!

 

Dito isso, virou as costas, saiu da janela e voltou para o interior da sala, como se nada tivesse acontecido!

Silvério, continuou mais alguns segundos em posição de sentido, de frente para o prédio do NPOR, custando acreditar que seu vacilo havia ficado tão barato!

No minuto seguinte o capitão Vargas, tão sisudo e bravo quanto o capitão Meyer, atravessou a rua, se aproximou e assumiu a bateria… sem entender por que seus soldados estavam tão calados!

O difícil para nós soldados da BC, foi esperar o fim do expediente para dar gargalhadas do colega Silvério…

Desde que demos baixa do exército, nunca mais vi o inesquecível soldado 367, de Cambui. Mas temos certeza: naquele dia ele aprendeu a falar … “baralho”!

 

Cão Peregrino…

“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”!

                                                                     Antoine de Saint Exupéry

Passava pouco de dez da noite quando nos despedimos do recepcionista da pousada. Ajeitamos a mochila nas costas, abotoamos os agasalhos, checamos os cajadinhos de bambu e reiniciamos a caminhada. Tínhamos mais de 60 quilômetros de trilhas e estradas até chegar ao nosso destino. Dois minutos depois viramos a esquina e entramos na avenida principal da pequenina e aconchegante cidadezinha serrana. A pracinha ainda estava movimentada. Apesar do friozinho suave de fim de inverno no alto da serra, idosos ou casais de namorados curtiam a prosa ou o affair nos banquinhos duros em frente a igreja bucolicamente iluminada. Diga-se de passagem, a passagem pela avenida central da simpática cidadezinha com cara de europeia, em qualquer época do ano, é de encher os olhos! Sempre muito colorida, com muito movimento de turistas, de romeiros, muita vida pulsando… – No começo sul da avenida tem uma minúscula padaria que faz o melhor misto quente da região… Nem mesmo a carranca do dono – que mantém um olho no caixa e outro na clientela, para evitar o cano – afugenta os romeiros que param ali para tomar o tradicional ‘pingado’ pelando o céu da boca! Santo Antonio do Pinhal é um divisor geográfico e de sentimentos antagônicos! Quem volta de Aparecida ou de Ubatuba, quando passa por ali, embora ainda esteja há quinze quilômetros da divisa, começa a sentir os ares do Sul de Minas. Quem vai à pé para Aparecida, ao passar por Santo Antônio na parte baixa do cume da serra, sente que está mais perto da Mãezinha! Quatro quilômetros adiante, dos pés da gigante imagem branca de N.S. Auxiliadora, os olhos dos romeiros, já cansados, se perderão na imensidão do Vale do Paraíba. A partir de Santo Antônio do Pinhal, nossa viagem seria marcante. Já havíamos percorrido dois terços do nosso trajeto. No entanto, a partir dali nosso grupo de seis se tornaria sete peregrinos… Ganhamos um novo companheiro de viagem!

Ele estava brincando com outros quatro ou cinco amigos no jardim da pracinha da igreja matriz. Ao nos ver passar, talvez atraídos pelo cheiro do lanche que fizéramos minutos antes na pousada, se aproximaram e puxaram prosa. Entramos na conversa. Perguntaram de onde vínhamos, para onde íamos!… Contamos e, por educação ou por troça, convidamos todos a nos seguir. Os mais distraídos, ou preguiçosos – ou ateus! – ignoraram o convite e se afastaram, voltaram para a pracinha iluminada da igreja. Um deles, no entanto, aceitou o convite… e nos acompanhou! Não sabíamos até onde ele iria, mas esticamos a prosa, estreitamos a amizade, perguntamos da família dele, falamos das cidades por onde passamos… e o novo companheiro de caminhada nos seguiu altaneiro, belo e faceiro, sempre respondendo… ora com um sorriso com a língua de fora, ora com um abano de rabo!

Quando saímos da claridade amarela das lâmpadas no final da avenida, e a escuridão da noite inundou a estradinha apertada, circundada por frondosos pinheiros, pinos e eucaliptos, pensamos que ele desistiria… Mas o sétimo peregrino continuou resoluto a caminhada. Ora atrás de nós, ora ao nosso lado, seguia em silencio, mas sempre respondia nossos afagos verbais com um abano de rabo.

Será que ele nos acompanharia até a Basílica?

Ou estaria apenas fazendo sua caminhada diária – fora de hora – como dezenas de pessoas costumam fazer naquele glamuroso e fresco trecho de serra?

Ou seria um espião do “Conselho dos Peregrinos”, disfarçado, testando a fidelidade dos romeiros, para ver se a gente não pegaria carona para encurtar a caminhada?

Parece que era mesmo apenas um cão sem dono, carente de companhia, feliz por fazer novos amigos!  A nova amizade, no entanto, exigia sacrifícios!

O primeiro obstáculo surgiu quatro quilômetros depois da pracinha, no final da subida da serpenteante estradinha, ao chegar à Estação Lefreve. Os portões da bucólica estação estavam fechados! Como era nosso atalho para descer a serra, buscamos uma solução ‘à lá molecagem’!… Galgamos a cerca de tela, pulamos para o lado de dentro, soltamos o trinco fincado no chão, e aluímos um pouco as duas folhas dos portões para que o nosso novo companheiro passasse! A estação estava sombria, fria e deserta. Cinquenta metros adiante, dos pés da imagem alva da santa que guarda o vale, descansamos nossos olhos nas milhares de luzes amarelas, brilhantes, piscantes e dançantes no imenso Vale do Paraíba. Acostumado a dormir ao relento e ver, toda noite, as luzes piscando no céu, no alto, nosso amigo ficou encantado ao ver pela primeira vez, as luzes piscando lá embaixo. Ficou alguns segundos imóvel, à nossa frente, contemplando toda aquela imensidão estrelada. “O céu deve estar de cabeça para baixo”, deve ter pensado!

A descida da serra pelos trilhos da linha férrea, sob a luz tênue e amarelada das lanternas, não foi fácil para nenhum de nós, afinal, os espaços entre os dormentes, colocados para suportar as pesadas barras de ferro, não tinham compromisso com peregrinos, muito menos peregrinos de quatro patas! Dois quilômetros abaixo, deixamos os trilhos da estrada férrea e tomamos a trilha de terra que nos levaria à Piracuama, na baixada.

Da soturna estação Eugênio Lefreve até a charmosa Vila Piracuama, o sétimo peregrino teve um motivo à mais para nos acompanhar… Segurança! Nenhum de nós, nem ele, se arriscaria a ficar naquele trecho deserto e escuro cercado de mata, no início da madrugada! Agora, no entanto, em um trecho ‘urbanizado’ e parcialmente iluminado, depois de mais de dez quilômetros de caminhada no escuro, pensamos que nosso amigo desistiria. Mas ele continuou decidido e satisfeito com os novos amigos. Depois de uns minutos sentados ou deitados na grama úmida e macia defronte as chácaras que enfeitam a vila, nosso peregrino arriscou-se até a caminhar alegremente na nossa frente!

Já estávamos há várias horas desfrutando da companhia do novo romeiro… Era hora de batizá-lo! O primeiro nome sugerido foi aceito por unanimidade pelo grupo… “Peregrino”! O próprio concordou com o novo nome com três gestos: um sorriso com a língua dançando nos lábios, um murchar de orelhas e um balançar de rabo!

Peregrino era um cão de porte médio. Era malhado – pintas grandes – de branco e marrom. Tinha alguns ferimentos na pele – e certamente também na alma – por conta das lutas pela sobrevivência com outros da sua espécie depois do abandono material. Todos os ferimentos já cicatrizados. O calejado cão aparentava estar descendo a serra da vida, ou seja, uns oito ou nove anos para quem viveria cerca de 12 anos. Era um cão forte fisicamente e resolvido psicologicamente… O abandono dos seus antigos donos, não deixaram traumas. Tanto que ele aceitou o pedaço mordido de sanduiche, confiou nos nossos singelos afagos, e se deixou cativar.

Os primeiros frutos da amizade dos seis peregrinos com o peregrino de quatro patas apareceram no trecho seguinte. Um ano antes eu havia passado por ali mais ou menos naquele horário, eu, Deus e meu cajado de bambu (ver “Peregrino Solitário”, publicado aqui no face no dia 17 de janeiro). Naquela ocasião, dezenas de cães latiam e saiam à beira da estrada para avisar quem mandava por ali. Desta vez, talvez os mesmos cães, latiam, mas não saiam dos seus quintais. Nenhum deles queria encrenca com o nosso Peregrino malhado marrom!

O sol forte da manhã veio nos encontrar antes da ponte do Rio Paraíba. O pequeno trecho de pouco mais de trinta quilômetros havia nos consumido toda a madrugada. Depois de um lauto café da manhã na primeira padaria que encontramos, e uma parada mais longa para recuperar as energias, viramos à esquerda e atravessamos a cidade. Quando saímos do outro lado, no trevo de Roseira, o sol já ia alto… e o Peregrino mais lento!

“Caminhar de Pouso Alegre à Aparecida a partir do mês de agosto é um comportamento humano que precisa ser estudado”, diriam os navegantes de WhatsApp hoje em dia. O sol de fim de inverno, com intensidade de verão nos trópicos, cobra mais dívidas do que o romeiro deve! O calor à margem da rodovia, a menos de um quilometro do Rio Paraíba, reduz muito o ritmo da caminhada. Qualquer sombra que surja à margem da via convida o romeiro a fazer uma parada… e torna a viagem cada vez mais lenta. E cansativa. É preciso ter um motivo para seguir em frente. Cada um ali tinha seus motivos… inclusive o Peregrino malhado. Ele havia feito apenas um terço da caminhada, no entanto, era o que mais mostrava os sinais do cansaço. Mas não pedia colo! Desde a saída de Pinda ele assumira o último posto da fila no acostamento quente e barulhento da estrada… sem reclamar. Uma caminhada dessas, de cento e cinquenta quilômetros, nos aproxima um tanto de Deus… E nos aproxima também das pessoas que caminham com a gente. Sentimos as alegrias e as dores dos nossos companheiros de caminhada. É como uma família, unida, somos todos irmãos – no meu caso mais do que isso. Meus dois filhos mais velhos caminhavam ao meu lado! Peregrino malhado agora fazia parte da família…Era nosso irmãozinho de quatro patas! Por isso, quando a distância entre nós aumentava, nós segurávamos os passos e esperávamos por ele… e o incentivávamos a prosseguir. Se estava difícil para um dos companheiros – marinheiro de primeira viagem – para o cão peregrino estava ainda mais.

Quando entramos em Moreira Cesar, achamos que perderíamos nosso amigo. A distância entre nós havia aumentado! Ele estava há mais de cem metros lá atrás… e vinha passo-a-passo! Devagar quase parando! Paramos na primeira lanchonete que avistamos e esperamos por ele. Quando chegou, uma eternidade depois, uma tigela improvisada com agua gelada esperava por ele na porta. Peregrino, no entanto, não teve forças sequer para beber. Deitou-se ao lado da tigela, fechou os olhos, estendeu meio metro de língua na calçada e ali ficou. Seu ‘arf, arf, arf’ descompassado podia ser ouvido do outro lado da rodovia! Aos poucos seu coração foi retomando o ritmo normal. Mas continuou deitado, imóvel, de olhos fechados, com a língua estendida na calçada!

Depois de meia hora sentados na porta da lanchonete, levantamos, ajeitamos as mochilas nas costas e retomamos a caminhada. Faltavam menos de vinte km para chegar ao destino, mas seriam os vinte quilômetros mais longos de nossas vidas! O copo havia esfriado… mas não havia descansado! Doía tudo. Doíam os tornozelos, os joelhos, o quadril, os braços … queimavam as solas dos pés. Só não doía um órgão do corpo: o coração! Ou seria a alma? Neste momento aconteceu o inusitado! Acordamos nosso amigo e avisamos que íamos partir… Mas ele não se moveu. Tocamos nele, falamos com ele…

– Vamos garoto, agora é o último trecho!

Mas Peregrino Malhado não se mexeu. Esticado no chão rústico da porta da lanchonete, suas costelas magras subiam e desciam suavemente… Estava respirando, estava vivo. Acordou, abriu os olhos castanhos, nos localizou, mas continuou imóvel. Quando demos os primeiros passos para nos afastar, Peregrino fez um pequeno movimento com a cabeça, sem tira-la do chão, para nos acompanhar. Acho que ele quis dizer:

– Vamos descansar mais um pouco… esperar o sol baixar…

Este foi um dos momentos mais marcantes da nossa caminhada naquele ano. Nosso amigo queria seguir conosco. Ele havia sido cativado… e nos cativara! Mas não tinha forças para seguir! Fomos nos afastando lentamente, olhando para trás, deixando palavras de incentivo. E o cão malhado continuava imóvel esticado na calçada, com a cabeça pregada ao chão… e os olhos tristes pregados em nós, afastando!…

Depois de mais de quarenta quilômetros de caminhada, de companhia, de convívio, de alegres conversas, será que nosso companheiro canino desistiria da caminhada? Seria assim, silenciosa, melancólica, no meio do nada a nossa despedida?

Continuamos lentamente a caminhada à margem da rodovia em direção à Aparecida, batendo distraidamente nosso cajadinho de bambu na areia da calçada que corta a cidadezinha de Moreira Cesar… A cada momento um de nós olhava para trás na esperança de ver nosso amigo com as quatro patas calejadas, no chão, trotando atrás de nós… Mas ele continuava lá, estendido na porta da lanchonete. Já não era mais possível ver seus olhos… Mas seus olhos castanhos nos viam! Antes que virássemos a curva e saíssemos do seu raio de visão, Peregrino levantou-se, com dificuldade, aprumou-se e reiniciou a caminhada. A princípio bem devagar, trôpego, até desatar as juntas. Em seguida passou a um trotinho lento. Não queria perder os amigos. Esqueceu até de beber a água… Ou talvez não tenha tido forças! Esperamos que ele se aproximasse… Chegou sorrindo amarelo, pedindo desculpas por ter demorado tanto a retomar a caminhada. Tivemos que improvisar nova tigela com água… e dividir com ele nosso lanche! Mas multiplicamos nossa alegria…

A partir dali a caminhada ficou mais lenta. O calor escaldante da tarde, as retas intermináveis, as dores ressuscitadas – um dos companheiros tinha bolhas e calos saltando fora do tênis! Tudo convidava a andar mais devagar. Cada sombra de arvore, cada barzinho copo sujo que surgia lentamente na beira da estrada, eram como oásis e convidavam para uma parada. Peregrino, sempre sorridente, com a língua dançando na boca aberta, respondia aos afagos verbais, agradecia e se estendia arfante aos nossos pés.

O sol dava seu último aceno no cume da Serra da Mantiqueira, por sobre Campos do Jordão, quando entramos no estacionamento da Basílica de Aparecida. Poucos metros depois, nas torneiras comunitárias, tiramos o suor do rosto e subimos a rampa… Missão cumprida! Nossa Senhora havia nos acompanhado durante toda a viagem… e em vários momentos havia nos carregado no colo… Faltava agora apenas o diálogo final!

Diante da imagem, na sala de visitas da nossa Mãezinha, nossos rostos molharam de novo! Desta vez não era de suor… Eram lágrimas de emoção. Lágrimas da alma! Pacientemente a Mãezinha ouviu a história de cada peregrino, de cada filho… E afagou cada um de nós!… E curou cada ferida!

Agora, o coração pulsava mais forte. Renovado. Cheio de esperança. O corpo não doía mais…

Peregrino, aos nossos pés, seguia os ritos, em silencio… e sorria de boca aberta, com a língua para fora, feliz. A qualquer afago, respondia também com o rabo.

Fim da história do Peregrino Malhado?

Não.

A saga do nosso amigo de quatro patas teria mais alguns capítulos…

Início de agosto, meio de semana… A capital nacional da fé estava vazia de romeiros. Ruas, ladeiras, lojas … apenas alguns ‘gatos pingados’… E raríssimos cães com seus novos donos! Escolhemos aleatoriamente um hotelzinho ao lado da Basílica Velha. Sobradinho antigo e acanhado encimado por lojas. Fomos ‘quase’ todos muito bem recebidos, quase … O porteiro que aliciava clientes na porta ao pé da escada, disse que não havia vaga para peregrinos de quatro patas! Nossa despedida, depois de quase 24 horas de fiel companhia, aconteceu ali na porta do hotelzinho de pernoites. Subimos para dormir no surrado quartinho… E Peregrino Malhado sob um banco qualquer do jardim!

Na manhã seguinte, quando atravessávamos o jardim da velha pracinha da Matriz em direção à gigantesca passarela que nos levaria à missa das 10:00h na Basílica, reencontramos nosso amigo. Peregrino estava brincado no meio do jardim. Quando nos viu passar, correu imediatamente em nossa direção, sorrindo, cabeça erguida, boca aberta… Queria saber como passamos a noite! Queria contar como fora sua noite debaixo do banco do jardim! Pelo jeito não guardara nenhuma mágoa da nossa ingratidão! Nem foi preciso convidá-lo para a missa. Seguiu-nos alegremente pela passarela e entrou educadamente na igreja. Apesar de ter entrado respeitosamente na Basílica, Peregrino Malhado não seguiu os ritos da celebração. Aliás, ele nem assistiu a missa! Tão logo nos sentamos num dos tantos bancos vazios próximo ao altar, Peregrino deitou-se debaixo do banco aos nossos pés e entregou-se às caricias de Morfeu… Dormiu durante toda a missa! Nunca soubemos qual era sua verdadeira religião.

O momento mais marcante, mais difícil da nossa caminhada de três dias aconteceria duas horas depois da missa, na estação rodoviária de Aparecida… Na despedida do nosso fiel amigo. Sentados nos bancos lisos e duros da plataforma de embarque, relembrávamos alguns trechos da caminhada. Deitado sobre as quatro patas, à nossa frente, Peregrino participava da conversa. Com a cabeça encostada ao chão e os olhos bem abertos, ele mais ouvia do que falava. Embota tenha visto que compramos apenas seis passagens, ele ainda não tinha certeza se viajaria conosco ou não. Mas já deixava transparecer no olhar a dor da separação! O rabo, quando abanava, era um abano discreto, sem energia, sem convicção. Seu sorriso era meio amarelo, carregado de incerteza. Quando nosso Mercedes encostou na plataforma, entramos na fila de embarque… nós sete. Peregrino educadamente seguiu no fim da fila, passo a passo, enquanto o cobrador conferia cada passagem. Quando o último de nós subiu a escadinha do Mercedes, Peregrino tentou fazer o mesmo… chegou a subir o primeiro degrau… Mas foi barrado pelo cobrador! Tentamos argumentar, nos propusemos a pagar sua passagem… Mas o cobrador foi insensível… e usou o sapato preto surrado e lustrado na barra da calça azul de tergal para impedir o embarque do nosso amigo. Peregrino, certamente acostumado a sentir a rudeza daqueles bicos de botina ao longo da vida, não insistiu. Afastou-se da porta do Mercedes, mas ficou por ali, correndo para lá e para cá ao lado do ônibus, como um cachorro caído de mudança, procurando seus donos, até que nos achou na janela do ônibus! Sentou-se nas patas traseiras e ficou ali diante da janela, conversando agitado conosco, com um palmo de língua molhada dançando de um lado a outro da boca, tentando encontrar uma saída… ou uma entrada no ônibus! Ou, quem sabe, tentando aceitar a separação. Quando o mercedão da Pássaro Marrom partiu, Peregrino nos acompanhou desnorteado por alguns metros, até que desistiu, parou de correr, saiu do meio da rua onde corria perigo, deu voltas inquieto em volta de si mesmo e dos carros estacionados … Desesperado! Se usasse as mãos como nós humanos, certamente colocaria as duas na cabeça e perguntaria a si mesmo:

– “E agora? Como faço para acompanhar vocês? O que será de mim sem vocês?”

Ao virar a primeira esquina, da janela do Mercedes, avistamos nosso amigo voltar lentamente para a estação rodoviária, quem sabe acreditando que aquilo tudo fora uma pegadinha, uma brincadeira de mau gosto, e que o ônibus daria a volta no quarteirão e voltaríamos lá para buscá-lo!

Não.

Não voltamos para buscá-lo. Não voltamos para trazer nosso amigo no ônibus… Mas trouxemos na memória, no coração!

Esse fato aconteceu no início de agosto de 2002. Naquela ocasião eu já havia lido e relido o “Pequeno Príncipe”. Conhecia de cor e salteado a clássica citação filosófica de Antoine de Saint Exupéry…

 

“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”!

     Talvez por isso, vinte anos depois, o Peregrino Malhado ainda continue vivo em minha memória!

     

 

Meu berço…

Na última vez que visitei minha terra, parei o carro na beira da estrada (canto do mato), subi no estribo da caminhonete, olhei para a ‘vargem do coqueiro’, e fiquei por longos minutos viajando no tempo… dando vida às lembranças!

Se você aproximar a imagem ou aguçar a vista, verá bem no centro da foto na parte de baixo uma moita de bananeira. Ela já estava lá, entre o fundo da cozinha e o açude, quando eu nasci … Comi banana prata dessa moita durante anos. Não exatamente a mesma bananeira, pois ao produzir o cacho ela morre e nascem outros brotos. Mas é a mesma moita de banana prata que meu pai plantou no início dos anos 50. Apesar do tempo, do abandono, ela continua lá, há mais de 50 anos… talvez esperando a minha volta!

Tudo estava como antes…

Era final de tarde de outono…

As janelas pardas de madeira da casa pintada com tabatinga misturada com estrume verde de vaca malhada, coberta de telhas de bica cinza envelhecidas pelo tempo, estavam abertas.

Meia dúzia de meninas brincavam no pastinho verde de capim quicuio aparados pelos dentes afiados da cabrita “Menina”.

As meninas maiorzinhas jogavam peteca. As outras menores corriam em volta delas tentando atrapalhar a brincadeira.

Um garoto franzino de cabelos lisos cortado na cuia, entremeio às meninas, brincava com as mais novas.

O menino franzino com o topetinho na testa, era eu!… Com meus inocentes cinco anos de idade!

Londres, nosso cachorro policial caramelo de porte médio, corria de um lado a outro, olhando para cima, tentando pegar a peteca.

A mais velha das meninas, talvez 11 anos, debruçada no parapeito da janela do quarto, tinha um olho nos irmãos brincando e outro na irmã caçulinha dormindo no berço atrás dela.

Na sombra da casa à um metro do chão, dezenas de galinhas e frangos liderados pelo garboso galo carijó de espora torta, ciscavam um capão de guanxuma em busca de minhocas, ou bicavam os brotos tenros do capim.

Uma porca com as ‘mamicas’ flácidas e vazias, seguida por uma interminável fileira de leitõezinhos cariocas, passou na frente da casa reclamando de fome.

No pastinho, atrás do único e grande cupim cinza, a alva cabrita ‘Menina’, deitada, remoía o capim fresco e macio que havia engolido minutos antes. Seu mojo inchado, carecia de ordenha!

Ao seu lado o bodinho alvo como ela, com uma estrela parda na testa, tentava sugar suas tetas inchadas de leite branco como as nuvens varridas lentamente pelo vento da tarde!

A chaminé da cozinha soltava um quase imperceptível canudo de fumaça de lenha seca…

Por cima da copa de um manacá explodindo em flores roxas, quase à altura da janela da cozinha, vislumbrei a silhueta da minha mãe cozinhando o jantar…

O sol amarelo e preguiçoso deu seu último aceno e se recolheu lá longe, atrás do alto do pasto do Zé Gominho.

Neste momento as meninas pararam de jogar peteca e voltaram a atenção para o portão de duas táboas num canto do pastinho cercado de gargatá…

Um homem alto, forte, loiro, de olhos verdes bem claros, passou pelo portão…

Vestia calça caqui de brim grosseiro, camisa xadrez clara, chapéu de palha amassado… Terra e poeira vermelha de mandiocal subiam pelos seus pés descalços até o joelho da calça.

Trazia no ombro uma enxada carcomida pela terra e pelo desgaste do amolamento diário na pedra.

Era meu pai!…

As meninas maiores correram ao seu encontro, receberam afagos na cabeça e voltaram a brincar.

Eu fui por último… e acompanhei meu pai, sentindo o cheiro do seu suor, até a beira do paiol onde ele guardava a enxada.

Minha mãe percebeu sua chegada, foi até a janela e trocaram um aceno mudo…

 

Do estribo da caminhonete parada na estrada no “canto do mato”, vi meu pai jogar milho para as galinhas no terreiro – elas eram as primeiras a ser cuidadas, pois em poucos minutos subiriam no puleiro no mirrado sassafrás branco ao lado do paiol para se entregar aos afagos de Morfeu…

A porca de terceira cria recebeu seu jantar – uma mistura de massa de mandioca com farelo de milho – em um cocho dentro do chiqueiro perto do rego d’água. Depois de comer empurrando os leitõezinhos com o focinho para o lado, deitou-se sob o assoalho da casa e estendeu a fileira de tetas cor de rosa aos filhotinhos famintos.

Menina foi a última a receber atenção. Primeiro a ordenha. Em poucos minutos a espuma branca do leite quente transbordou do pequeno balde… Quase dois litros de leite gordo para alimentar a grande prole na manhã seguinte – Já éramos oito irmãozinhos imberbes!

Depois de cercar o bodinho branco com estrela parda na testa sob o assoalho do paiol, meu pai sentou-se na escadinha da porta da cozinha, debulhou duas espigas de milho e serviu os graúdos grãos cor de pinhão na boca de Menina.

– “A água já está na bacia. Vem lavar que a janta está pronta” – ouvi minha mãe dizer.

Depois de jantar sentado na taipa do fogão de lenha, meu pai se levantou, atravessou a cozinha, a sala de dentro, a sala de fora – tudo quase sem moveis – e sentou-se no degrau do meio da escadinha da porta, de frente para o extenso terreiro de terra batida, para descansar as pernas, respirar o ar fresco do outono e atualizar os acontecimentos do dia ao lado da filharada…

A lua cheia já mostrava as sobrancelhas por cima do bambuzeiro na divisa do Zelino quando meu pai me pediu um tição de fogo. Um minuto depois ele soltou a primeira baforada de fumaça do seu cigarro de palha. E o cheiro gostoso do fumo de rolo, levado pela brisa mansa e fresca da noite, se espalhou pelo terreiro…

Era outono de 64… ou quem sabe, 65!

Cinco anos depois, o êxodo rural poria fim àquela rotina singela da roça… e nos levaria para a cidade!