Onde adquirir meus livros…

Qualquer exemplar por R$ 64,90 (+ frete)

Foto durante lançamento do livro “Segredos do Eremita”, na 29a  Bienal Interncional do Livro de São Paulo.

MENINOS QUE VI CRESCER
Reúne 50 crônicas policiais, algumas trágicas e outras curiosas, vivenciadas ou investigadas pelo autor em sua carreira como Detetive de Polícia. Entre elas: Os últimos dias de Fernando da Gata, O Mistério do Coisa Ruim da Borda, A verdadeira história do Beco do Crime, Ninja, o justiceiro do Recanto das Margaridas, Renanzinho, o psicopata da cabeleireira, Monteiro, o ladrão de Bagdá, Pedrinho & Gegê: assim nascem os noias, entre outras.
QUEM MATOU O SUICIDA
Crônicas policiais e do cotidiano, como A rotina do Rabo Verde, O Mistério do Corpo Seco, O esquartejador de Silvianópolis, O assassinato de Silvio Santos, A Lenda do Zorro da Zona Boemia, Os Fantasmas do Velho Hotel da Silvestre Ferraz. Histórias que acompanham as transformações socioculturais da cidade, que cresceu e se urbanizou a partir dos anos 70.
UMA VIAGEM QUE NÃO CHEGOU AO FIM…
Um viajante agredido e salvo por uma cadela perde a memória. Seu desaparecimento mobiliza familiares e policiais de dois Estados, mas sem solução. Anos depois, o acaso o reencontra e o passado retorna. Mistérios, dramas e a história de amor entre Renato & Paloma se desenrolam na Serra da Mantiqueira.
CACHORRADAS DA MINHA VIDA
Narrativas sobre dezenas de cães que marcaram a vida do autor. Histórias contadas ao filho durante viagens e na recuperação de uma meningite, revelando amor pelos animais e evolução pessoal.
CHICO LUCA & MARIANA e as 10 filhas
História de amor marcada por preconceito social e pelo êxodo rural. O casal, formado por Mariana, mameluca e dançarina, e Chico Luca, de família abastada, enfrenta desafios e cria dez filhas em meio às mudanças sociais no Sul de Minas.
SEGREDOS DO EREMITA
Após inaugurar uma universidade, um empresário desaparece. Anos depois, um policial encontra um excêntrico personagem numa vila serrana: seria o mesmo homem? Mistério e segredos cercam Bob, o velhinho de barbas brancas que pedala pelas montanhas.
Cada obra, com dedicatória e autógrafo via WhatsApp 35 9.9802-3113, R$64,90 (+frete) Frete grátis para Pouso Alegre

Tardes da Rua São Pedro…

Reduto da minha infancia!

Nero é testemunha dessa história…

Cinco da tarde de sexta-feira. O vento gelado sopra do Leste para o oeste. Mariazinha está na porta da direita da vendinha. Atrás do balcão duro de madeira está seu filho Zé da Mariazinha. Baixote atarracado, careca, quarenta e poucos anos e cara de poucos amigos, ele está alheio ao burburinho que vem da rua empoeirada.

– O que você quer, moleque – pergunta ao garotinho de aparente seis anos que acabou de atrapalhar a leitura da sua revistinha branco & preto, do Zorro ( não o Zorro Dom Diego de La Vega, capa & espada, da Califórnia, mas sim o Zorro de uniforme cinza e lenço preto no pescoço, o qual vira máscara para esconder sua identidade de estranhos. O Zorro do velho oeste, que cavalga o garanhão Silver (Aiou Silver! Avante!), acompanhado do índio Tonto, de uniforme marrom), caçando ladrões de cavalos nas pradarias do Arizona.

Antes de entregar quatro balas ‘chita’ para os dois garotos que haviam colocado uma nota de cruzeiro amassada sobre o balcão, entram outros dois garotos de dez ou doze anos, suados, pedindo pão com mortadela e guaraná Tubaína. Para não perderem o movimento da rua, os garotos comem e bebem o guaraná em copos da Nadir Figueiredo em pé na outra porta da vendinha. Os mesmos copos nos quais seus pais irão tomar um lavrado de Pirassununga dali a meia hora, para abrir o apetite pra janta.

O movimento da rua São Pedro está no auge. O sol acabou de se deitar atrás do Cemitério velho do Alto das Cruzes. Quase em frente a vendinha, na esquina da Tupinambás por onde vai passar daqui a pouco o irmão do Corpo Seco ( ninguém ali sabe que o Mario do Custodinho é irmão do Corpo Seco), um grupo de garotos só de short ou calça arregaçada nas canelas, sem camisa e pés no chão, joga futebol de meia. Os gols, distantes trinta metros um do outro, são dois pares de chinelas havaianas!

Mais adiante, desde a frente da casa do Elias, funcionário da loja B. Pacheco, até a esquina da rua Xavantes, está o grupo mais animado da rua. Àquela hora, aproveitando o vento do fim da tarde, uma dúzia de moleques entre dez e quinze anos promovem a maior competição esportiva do trecho, quiçá da cidade! É o campeonato informal de pipas & papagaios!

A competição não tem regra. Ninguém precisa se inscrever. Basta chegar, colocar a pipa no ar, desafiar o adversário e começar a caçada. Ou seja, laçar a pipa do adversário e destruí-la no ar, ou fazê-la descer na sua rua!

A competição reúne anualmente, no inverno, dezenas de empinadores de pipas. Os adversários são sempre os mesmos: moradores da “Rua de Cima” (Rua São Pedro) X moradores da “Rua de Baixo” (Dom Lafaiete Libânio, ou “Vilinha”).

Os gritos provocativos das duas torcidas chegam a vários quarteirões!

– Dá liiiiiiiiinnnnnha Viiiiilaaa! Tá com medo! – gritam os de cima.

– Dá você! – respondem os de baixo.

Ou:

– Vem buscar!! – desafiam os laçadores da Vilinha, fazendo suas pipas e jaús dançarem no ar!

A competição é desigual. A Rua de Cima tem dez vezes mais laçadores de pipas e dez vezes mais torcida. É como se a Vilinha fosse o Cruzeiro e a Rua São Pedro fosse o Atlético, rsrsrsrs… Além do mais, o vento sopra quase sempre do Leste para o Oeste, fazendo as pipas da Vilinha planarem, arriscadamente, no ‘quintal’ de cima!

Cortar a linha do adversário no ar e ver a pipa ‘inimiga’ descer sem rumo sobre os telhados leva a torcida ao delírio. O auge da competição no entanto, é quando o empinador consegue enrolar e subjugar a linha do adversário e, em movimentos alucinantes, usando carretilhas artesanais de madeiras, às vezes, de quase um metro, fazê-la descer na sua própria rua. Antes da presa chegar ao chão já tem uma dezena de garotos suados correndo descalços, olhando pra cima pra ver quem pega a pipa primeiro. Geralmente o troféu feito de plástico ou de papel colorido e varetas de bambu derrete nas mãos dos moleques. Nada se aproveita! Mas o que importa é derrotar o adversário! Se fosse futebol seria ‘três pontos’ na tabela de classificação!

Mas não é somente o torneio de pipas e papagaios que anima, que dá vida à rua Rua São Pedro. Depois da esquina da Rua Xavantes, tem outro ‘campo de futebol’. Os gols são os mesmos: dois pares de chinelos havaianas. Mas ali o nível técnico é outro! É nível de Seleção. Canelas e pés empoeirados disputam as peladas com bolas de borrachas, até o anoitecer. Ou então até que um craque arranque a tampa do dedão numa pedra intrometida e desfalque o time!

Mais adiante, depois da esquina da Adolfo Olinto, há pelo menos três campos de “bolinhas de gude”! Ali a competição exige mais concentração, é mais silenciosa, mas não menos empolgante. Nessas brincadeiras e competições predominam os moleques.

No entanto, a palavra machismo nunca passou por essa rua. Ali também as meninas com suas saias rodadas e cabelos presos em Marias Chiquinhas, jogam peteca, queimada, pulam amarelinha e outras brincadeiras delicadas que roubam olhares languidos daqueles garotos que já se incomodam com as calças curtas!

Nessa rua nasceram muitos romances. Lembram da trágica história do Beco do Crime? Jesus & Jacira se conheceram nessa rua quinze anos antes!

Os moradores da rua São Pedro, especialmente os do lado de cima da rua, assistem de camarote… das janelas de suas casas! Das mesmas janelas também se pode ver grande parte da cidade até a vargem do Aterrado, que meses depois irá se transformar em mar.

O tempo, malvado, passou e deixou saudades.

Aristóteles, o “Nero”, como foi carinhosamente chamado pelos colegas de trabalho da Casa Andare, onde trabalhou de 1947 a 1974, não me deixa sentir saudades sozinho! Ele mora na rua São Pedro, na mesma casa, desde menino. Ele viu tudo isso acontecer. Hoje, aos 95 anos, aos cuidados do filho Marcão, ele passa os dias tomando sol na rua defronte sua casa… lembrando o passado festivo, rico, glorioso da Rua São Pedro.

 

Flipouso…

Nasce do sonho de ver os livros dos escritores de Pouso Alegre circulando pelas escolas da cidade, nas mãos das crianças, dos jovens, dos professores sendo folheados, lidos, comentados, discutidos…

Nasce do sonho de ver as crianças e jovens despertando seus talentos literários, incentivadas pelos livros…

Nasce do sonho de ver as pessoas viajando pelo mundo, através das páginas dos livros…

Nasce do sonho de ver as pessoas conhecendo a si mesmo através das histórias contadas por pessoas que conhecem a ‘sua’ história…

Nasce do sonho de ver as pessoas mais calmas, mais serenas, mais alegres, mais só-li-dá-rias após conhecer as histórias das pessoas à sua volta…

Nasce do sonho de ver o livro cumprindo seu sagrado papel de disseminar o conhecimento, a arte, a cultura e a evolução humana universo afora!

Nasce do sonho de ver as pessoas descobrindo que há vida inteligente além do próprio quintal!

Nasce do sonho de ver Pouso Alegre escrevendo uma página na literatura brasileira!

Nasce do sonho de ver as pessoas crescendo, evoluindo, se aproximando de Deus…

Carlinhos Blau Blau…

Se correu… Tem culpa no cartório!

O Artigo 144 da C.F. deixa claro que a atribuição de policiamento ostensivo nos municípios, compete exclusivamente a Polícia Militar. Nos anos 80, no entanto, a Policia Civil tinha o hábito de roubar essa função. Ao menos uma vez por semana, em dias incertos, ou melhor, em noites incertas, saíamos pela cidade, com caras de maus, caçando alguém, ou simplesmente inibindo a prática de crimes.

Nossas rondas começavam sempre depois da dez da noite e seguiam madrugada adentro, até por volta de quatro da manhã. A veraneio deslizava suavemente pelas ruas, parecendo um barco levado pela correnteza, em silencio, vidros abaixados, detetives sisudos encarando através das janelas…

Quando voltávamos os botecos já estavam baixando as portas! Quem ainda insistia em tomar mais um gole da agua que passarinho não bebe, era abordado, tomava uma geral e, mesmo não tendo cometido ou não estando cometendo nenhum crime, recebia as pulseirporta-malas, embarcava no … ‘porta malas’ do taxi do contribuinte e ia dormir no Velho Hotel da Silvestre Ferraz.

Mas podia ser preso sem ter feito nada?

Podia!

Quem estava na rua ‘a essa hora’ se enquadrava no artigo 59 da LCP: “Vadiagem”!

Depois da segunda volta da barca, quem quisesse poderia desfilar pela cidade “nu, pelado e com a mão no bolso”, pois não havia mais uma viva alma na rua!

Um ou outro gato pingado que encontrássemos na rua depois da meia noite, sem uma justificativa convincente, fatalmente amanheceria vendo o sol nascer quadrado!

Mas havia os ‘gatunos’ sorrateiros – e descuidados -, que nunca sabiam quando seria a próxima ronda! Esses quebravam a rotina e davam emoção às nossas rondas!

Quando eles se deparavam com a barca corintiana ou atleticana, imediatamente passavam sebo nas canelas e tentavam dobrar a serra do cajuru! Alguns mais ousados enveredavam por becos e vielas, pulavam muros e quintais, subiam em telhados… mas sempre caiam nas malhas da lei!

Carlinhos Blau Blau era um desses pequenos meliantes que desfilavam sorrateiros pelas madrugadas atrás de um toca-fitas TKR cara preta, de um ‘balão apagado’, ou de uma janela mal fechada…

Baixinho, fortinho, queixudo, com cara de pelamordedeus, ele não dava muito trabalho nas perseguições… Logo caía – literalmente – nos braços dos homens da lei.

Nesse momento ele desfiava seu rosário de justificativas. Era capaz de jurar de pés juntos que estava voltando da igreja no outro extremo da cidade… às duas horas da madrugada! ‘Mentia e nem sentia’. Contava histórias da carochinha e nem ficava vermelho. Essa sua peculiaridade, esse jeito, mentiroso, choroso e somongó de tentar engabelar os policiais com historietas improváveis; esse seu blau, blau, blau lhe rendeu o epíteto de … Carlinhos Blau Blau!

Figurinha fácil no álbum da polícia e hospede assíduo do Velho Hotel da Silvestre Ferraz, Blau Blau era manso de gaiola. Mas nunca criava raízes. Já naquela época, a douta e cega justiça tinha processos mais importantes pra julgar. Não podia gastar seu precioso tempo com pequenos roubos cometidos atrás de um canivete! Ou de arrombamentos de veículos que dormiam no sereno na calada da noite! Por isso, os BOs do nosso ilustre ‘menino que vi crescer’ no bairro da Saúde, andavam a passos de tartaruga no Palácio da Justiça. E foram se avolumando. No entanto, pote que tanto vai à fonte, um dia volta quebrado. Uma hora a casa cai, a conta chega! É como a justiça… “tarda, mas não falha”! Um dia a conta chegou!  O homem da capa preta finalmente expediu a carta branca autorizando a prisão do Carlinhos Blau Blau. No entanto, como bom somongó que era, ele estava antenado.  Antes de receber as pulseiras de prata, Carlinhos dobrou a serra do cajuru! Dobrou também a da Mantiqueira e foi fazer feiuras no estado vizinho. Acabou caindo nas malhas da polícia no interior de São Paulo. Saiu de cena… ficou muitos anos sem beber água do Mandu!

Em 2006, voltando de Santa Rita, esbarrei com ele na rodovia BR 459 …

Passava eu pelo trecho entre os bairro dos Chaves e Portal do Ipiranga quando avistei meu velho ‘amigo’ caminhando com ‘pinta de Somongó à margem da via, pensando na morte da cabritinha. Parei, manobrei e, pela primeira vez na vida Carlinhos Blau Blau não correu!

Será que estava limpo?

Segundo ele, sim.

– Estou diboinha, Chips. Paguei tudo que eu devia. Faz dois meses que eu saí da tranca em Mogi Guaçu. – Contou ele com a mesma cara de pelamordedeus dos anos 80, apoiado na porta da viatura!

– Que bom, Carlinhos! Folgo em vê-lo. De onde você está vindo para onde vai?

– Tô morando no Cidade Jardim… Estou indo encontrar um amigo em Cachoeira… – respondeu ele no mesmo jeitão choroso de sempre.

Enquanto dobrava o morrinho do Portal do Ipiranga para o Cidade Jardim, olhando a figura jongolhó do Carlinhos sumindo no retrovisor, lá embaixo na curva, pensei mil coisas. Uma delas foi:

– O filho do humilde violeiro dublê de Jacó & Jacozinho, ‘menino que vi crescer’ no bairro da saúde, dizendo que vai fazer uma caminhada de 25 quilômetros no final da manhã de uma terça-feira gorda, para se encontrar com um amigo em Cachoeira de Minas! … Ele continua o mesmo Carlinhos blau blau blau de sempre!

José Bernardo completou 108 anos…

E continua cativante!

Vô Zé Bernardo em 2025, ao completar 107 anos.

As pernas não permitem mais andar atrás do carro de boi, andar a cavalo, jogar futebol, ir à missa… mas não o impedem de andar sozinho pela casa, sentar-se no quintal da frente e ficar sentindo o burburinho da rua, da vida!
– Ele não escuta quase nada. Mas entende o que a gente fala. A gente comunica mais por sinais. Ele gosta de ficar sentado tomando sol na frente da casa. Quando é hora de tomar café, de almoçar, a gente vai lá fora e faz o sinal com a mão… ele levanta e vem comer. Quando é hora do banho, a gente põe a roupa limpa na beira da cama, ele entende, pega e vai para o banheiro – conta a filha Benedita, 85 anos.

Benedita Aristides tinha mais de 80 anos quando passou a cuidar do pai, depois que ele parou de trabalhar, aos 105 anos.

Como a audição não ajuda, ele não consegue ouvir bem, mas quando entende as perguntas, responde com clareza e lembra de quase tudo de antigamente – diz ela.
– Às vezes, quando está sentado na mesa, sem a gente perguntar, ele começa contar histórias de quando era moço, do tempo que lidava com gado, de quando ia pra Pouso Alegre tocando carro de boi… Eu fico só escutando. Ele vai longe… – conta a filha que cuida dele a pouco mais de três anos.

Aos 108 anos, mesmo não ouvindo bem, dentro de casa e no quintal Jose Bernardo tem autonomia.

Jose Bernardo da Silva nasceu em Cachoeira de Minas no fim da Primeira Guerra Mundial, no ano da Gripe Espanhola, no dia 14 de junho de 1918. Trabalhou com carteira registrada até os 105 anos, em 2023… E parou contra a vontade!
Embora receba diariamente o carinho da filha Benedita e de netos, bisnetos, trisnetos, José Bernardo tem suas tristezas. Quando consegue entender nossa pergunta, ele fala delas…
– É uma tristeza não poder mais andar pra rua sozinho, não poder ir na missa, passear no jardim da praça… não poder mais trabalhar com os amigos no mercado!
Vô Zé Bernardo é uma daquelas pessoas que vão deixar saudades… vão deixar “rastros na minha terra”!

Baixada do Pinheiro

… Época de pinhoes!

Era mês de abril, início de outono… frio de oito graus.

O sol tímido, ainda criança, tateava o cume das montanhas tentando avistar e espalhar sua luz dourada para os vales e prados ainda orvalhados.

A geada fina e branca só chegaria no final do mês seguinte deixando russos os pastinhos de capim picua… Por ora era apenas o orvalho do sereno que caíra na madrugada.

 

Sair da cozinha, de perto do fogão a lenha, com os bracinhos desnudos e os pés no chão, só se tivesse um motivo muito forte. E tinha! Era preciso chegar cedo aos pés dos pinheiros à duzentos metros dali. Se o pássaro madrugador pegava as melhores minhocas, os meninos que chegassem primeiro pegavam os pinhões que haviam caído durante a noite. Pior! Quem chegasse tarde, ficaria apenas com as ‘faias’! Sim, os vizinhos poderiam chegar antes!

 

Saímos em fila. Eu e três das irmãs mais velhas. As maiores na frente e as menores atrás, tentando pisar no rastro das maiores… para sentir menos o orvalho gelado nos pés descalços. Enquanto seguíamos em silencio amassando as ervas daninhas, torcendo para que o sol se levantasse rápido para esquentar o frio, íamos sentindo o cheiro da resina dos pinheiros, o cheiro de pinhões recém caídos, o cheiro da florada de ervas daninhas que cresciam tenras na soqueira de feijão… o cheiro das manhãs. As manhãs de outono de 1964 na Baixada do Pinheiro eram frias e perfumadas!

 

Havia, agrupados, quatro pinheiros gigantes. Na verdade, era apenas um pinheiro. As demais arvores roliças, marrons, com os braços abertos quase tocando o céu, eram ‘pinheiras’! Eram elas que davam pinhão. Mas não produziriam sem o pinheiro e sem as abelhas e maribondos que espalhavam o polem por ali.

 

Os pinheiros centenários, que deram origem ao nome do lugar, eram gigantescos. Sua copada, com quinze ou vinte galhos abertos na horizontal eram inalcançáveis. Nem com um bambu açu era possível cutucar as pinhas e apressar a colheita. Até nisso a natureza era sábia. Se fosse possível colher a pinha inteira, antes da hora, certamente comeríamos os pinhões todos de uma vez, até ficar enfastiados… e passaríamos fome o restante do outono!

 

Havia outras pinheiras ali na Baixada do Pinheiro. Algumas na beira de córregos ermos, outras dentro das matas onde teríamos que dividir os pinhões com roedores… e estes com peçonhentas rastejantes! Que talvez se sentissem incomodadas com nossa presença. Era a lei do mais forte pela sobrevivência. Por isso, catar os graúdos pinhões no auge da maturação, no local limpo onde há poucas semanas havia sido colhido o feijão, era mais seguro. Mas tinha que chegar cedo, pois a família vizinha tinha as mesmas necessidades que a nossa!

 

Alheios aos nossos desejos, os pinhões não tinham pressa de madurar e cair. Cada pinha soltava seus frutos de acordo com a maturação natural. Às vezes dois ou três por noite, sem pressa.

O homem tem pressa.

A fome tem pressa.

A natureza não tem pressa! E passava todo o mês de abril assim, alimentando as crianças aos poucos, a conta-gotas!

Às vezes era necessário juntar a colheita de vários dias para dar uma cozinhada. No sábado à noite a mãe reunia a renca de meninas em volta do caldeirão de ferro na cozinha para saborear a guloseima catada durante a semana. À medida que os pinhões cor de pinhão iam abrindo o bico, já se podia retirá-los do caldeirão e colocá-los na gamela de madeira para esfriar. Minha mãe usava um macete de madeira, talvez um pedaço de galho do próprio pinheiro, para macetar o pinhão ainda quente. Não sabíamos porquê, mas, macetado era mais gostoso! Enquanto saboreávamos a iguaria ofertada gratuitamente pela natureza, o restante continuava dançando na água fervente no caldeirão de ferro preto em cima da chapa.

 

Pra nós, aquele gesto rotineiro todo outono, era só o momento de alimentar. No entanto, ficaria marcas… e lições!

 

Os pinhões de hoje, colhidos em pinhas inteiras sem granar, não tem o mesmo gosto. Mas a memória ainda conserva o cheiro. O cheiro do pinhão, o cheiro da água vermelha que cozinhava o pinhão, o gosto do pinhão cozido saindo quente da casca macetada…

 

Ficou mais…

Ficou a lembrança da mãe brava, disciplinadora, educadora, organizando pacientemente a distribuição dos pinhões na beira do fogão caiado de branco, de boca preta e língua vermelha na cozinha simples da casa de pau-a-pique da Baixada do Pinheiro…

Ficou a saudade dos pais, que muitas vezes, quase salivando, entregavam o último pinhão à criança mais nova…

Ficou a saudade da infância…

Ficou a saudade da Baixada do Pinheiro…

Chiquinho… Um hóspede do barulho!

Corriam os anos da década de 1920!

Certamente poucos sabem, mas os anos 1920, a década que marcou o primeiro centenário da Independência, foi também marcante em fatos históricos para o Brasil. Foi naquele período, 1922, que aconteceu a Semana de Arte Moderna, marco de tantas transformações político-culturais. No mesmo ano do centenário, surgiu o “Tenentismo”, movimento que mais tarde daria sustentação a Getúlio Vargas para tomar o poder e iniciar um era de desenvolvimento para o país. Naquele ano também foi fundado o PCB, inaugurando portanto o comunismo no Brasil. Em seguida aconteceu a “Revolta Paulista de 1924”; o surgimento da Coluna Prestes;  o declínio da República Velha; a fim da velha política do “Café com Leite”; a “Grande Recessão de 1929” onde se jogou fora ou queimou toneladas de café sem mercado e, finalmente, o golpe de Getúlio Vargas, que mesmo tendo ficado em segundo lugar na eleição nacional, depôs Whashington Luiz e impediu a posse do eleito Júlio Prestes e assumiu o governo dando início a histórica Era Vargas.

 

Neste mesmo período, em 1921, a primeira fábrica da Ford no Brasil, inaugurada dois anos antes, passou a produzir em serie o Ford T, conhecido como “Ford Bigode”!

 

Pouso Alegre, desde criança com vocação para o progresso, sempre na vanguarda das transformações, também vivia suas mudanças.

 

Uma delas foi a consolidação do transporte ferroviário a partir de 1920, fazendo da estação de trem da Avenida Brasil com Doutor Lisboa o coração do desenvolvimento econômico da região, facilitando o escoamento da produção cafeeira e agropecuária, sua maior riqueza.

 

Para cá vieram imigrantes de todos os cantos do velho continente. Dentre eles, dois portugueses: Alberto e Manoel.

 

Inicialmente os patrícios desceram para a Argentina. Mas, seduzidos pela alegria brasileira e promessa de grandes ganhos, subiram para Santos-SP. Atraídos pelas benfazejas terras mineiras, subiram um pouco mais e chegaram à promissora cidade batizada – quase que com um suspiro pelo Conde de Sarzedas – com o nome de Pouso Alegre.

 

Foi aqui, em terras manduanas, local de transformações, que os amigos Alberto e Manoel começaram a transformar seus sonhos de riquezas em realidade! Começaram com um caminhãozinho Ford T, (Ford Bigode), com carroceria de madeira adaptada.

 

Um dos amigos d’além mar, apesar da rasteira que tomou do sócio, sacudiu a poeira, deu a volta por cima, e, algumas décadas depois colocou seu nome na história de BORDA DA MATA … e do VATICANO!

 

Alberto e o amigo Manoel (que se revelaria um amigo da onça), se instalaram num quartinho de fundos da “Pensão da Vovó”, na esquina da rua Bueno Brandão com Silviano Brandão, na porta do Santuário. Dispostos a ganhar dinheiro, compraram então um desses fordinhos com carroceria de madeira e foram à luta. Começaram comprando galinhas, patos e marrecos nas cercanias de Pouso Alegre para vender em São Paulo. De quebra ainda faziam pequenas mudanças na cidade e região.

 

Os negócios estavam indo de vento em popa. Estavam ficando ricos, afinal, nessa terra abençoada pelo São Bom Jesus, em se vendendo, transportando e “plantando tudo dá”, teria dito Pero Vaz de Caminha quatro séculos antes.

 

Foi aí que o amigo cresceu o olho no negócio e resolveu dar o chapéu no sócio. Urdiu um plano e ficou na espreita, esperando o momento certo para dar o golpe. Certa noite, após voltar de uma rendosa viagem, Manoel levou duas “Severina do Popote” para o muquifo, para comemorar. Embebidos em paixões diversas tais como a saudade da terrinha querida, o cansaço do trabalho, a alegria do sucesso financeiro em terras estranhas, rapidamente enxugaram as duas garrafas. Manoel, como parte do plano, servia a ambos e fingia beber. No entanto, sorrateiramente jogava fora a estonteante bebida. Em poucas horas embebedou o amigo até que ele ficou entregue às baratas e caiu no sono. Quando Alberto acordou pela manhã, com a boca grossa e a cara inchada de ressaca, só o pó!!! Manoel já estava longe… levando com ele o saco de dinheiro que ficava guardado embaixo da cama. Devia ser muito dinheiro, pois o caminhãozinho Ford Bigode, veículo ainda raro no país, ele deixou para trás.

 

Jurando esganar o socio e amigo da onça, Alberto continuou suas atividades comerciais com o charmoso Fordinho. Tempos depois, já capitalizado, comprou uma fazenda no recém-criado município de Borda da Mata e foi plantar milho, feijão e criar gado. Em poucos anos ficou rico.

 

Ninguém sabe ao certo como Alberto, com meia dúzia de filhos imberbes, conseguiu ficar rico. As más línguas dizem que ele teria feito um pacto com o capeta!

 

Pode ser… Pois anos depois, o capeta veio cobrar a dívida! Ele atendia pelo nome de “Chiquinho”, mas ficou conhecido na fazenda da Ponte de Pedra pelo epíteto de… “Coisa Ruim da Borda”.

 

O jovem padre Pedro Cintra, que fez o exorcismo do Chiquinho, não esclareceu os motivos que levaram o Coisa Ruim a arranchar na fazenda do ‘portuga’, mas escreveu e manteve em segredo durante décadas no Livro do Tombo da paroquia que:

 

“Notei na família (do Sr. Alberto) um certo afastamento dos deveres religiosos. O casal havia tempo não fazia a pascoa. Os filhos, alguns já moços, ainda não haviam feito a primeira comunhão”.

 

 

Essa história que moveu metade (ou mais!) da imprensa do Brasil e pesquisadores do Vaticano, aconteceu de fato. Nos primeiros meses do ano de 1953, o português Alberto S. de Carvalho – que morou na Pensão da Vovó no centro de Pouso Alegre nos anos 20 – teve um hospede do barulho em sua fazenda em Borda da Mata!

 

 

O que você acabou de ler é só o aperitivo. A história completa sobre a hospedagem do Chiquinho na Fazenda da Ponte de Pedra – minuciosamente investigada em 2010 – começa na página 235 e termina na página 268 do livro “Meninos que vi crescer”.  

Meu primeiro livro…

Se não é o mais lido… é o mais conhecido!

Lançamento no Serra Sul Shopinng…

Faz onze anos que os “Meninos que vi crescer” circulam pelas redes sociais, pousam em estantes e cabeceiras, se oferecem na biblioteca municipal. É o meu primeiro livro. Se não é o mais lido, é o mais conhecido.

“Meninos que vi crescer” despertam muitas sensações e sentimentos …

Alguns leitores se emocionam com o drama das mães de “Pedrinho e Gegê” e se chocam ao saberem que “Assim nascem os nóias”…

Outros se divertem com a descontraída história de “O Lobo & o Carneiro”… e os carrapatos!

Alguns leitores se perguntam:

– Será que o Robertinho poderia ter evitado a morte dos irmãozinhos Montevecchio na beira da lagoa na Airton Sena?

Logo no início do livro os leitores exclamam em silencio:

– Então foram assim “Os últimos dias de Fernando da Gata”?

Também no começo do livro o leitor curioso vai saber o que aconteceu em Cambuí, n“O dia em que fumei maconha”! E vai se assustar com o que aconteceu com o nóia Celso, meu ‘parceiro de baforadas’, numa casinha no alto da serra de Bom Repouso três meses depois!

Ao terminar a leitura do trágico crime acontecido na noite de Natal, na bucólica Pouso Alegre dos anos 50, o leitor deixa escapar:

– “Nossa! Então foi assim “A verdadeira história do Beco do Crime”! Parece a história de ‘Romeu & Julieta’!

Em “Peixinho e Eu” o leitor vai viajar para Campinas para presenciar o encontro do policial com seu algoz de infância!…

O leitor de toda região do Sul de Minas vai saber finalmente quem foi “Chiquinho”, o “Coisa Ruim da Borda”! Vai até sentir um pouco do medo que eu senti naquela tarde quando visitei o carcomido casarão onde o capeta morou nos primeiros meses de 1953!

Na história de Godô, o garoto que aos 12 anos assaltou meu filho, o leitor perceberá que quanto mais cedo se entra no crime, mais difícil é sair dele!

No meio do livro o leitor fará uma pausa nas histórias tristes para conhecer “O Detetive forasteiro e a médica voluntaria”, uma história que por si só já daria um romance de final feliz!

Lançamento em Santa Rita do Sapucaí…

Na página 309 o leitor verá que o simples furto de um aparelho celular da esposa de um detetive, cometido por um garotinho que roubou sua primeira bolsa aos 9 anos de idade, levou a polícia civil à maior apreensão de maconha do Estado… 5 toneladas! O dono da maconha, ‘menino que vi crescer’, selou seu destino naquele tenso sábado ao reagir à prisão!

O leitor saudosista fará uma viagem ao início dos anos 80, aos quase primórdios da Policia Civil na cidade, com a história de “Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá”! E vai ficar de boca aberta ao constatar quem eram seus intrujões!

Antes de sentir um frio na espinha com a história de “Renanzinho, o psicopata da cabeleireira” – assassinada no dia 06 de agosto -, o leitor fará outra tensa viagem ao início do século dezenove, até parar na deliciosa década de 1970 para descobrir como “… surgiu o Ribeirão das Mortes”.

Antes de percorrer as 469 páginas do livro, o leitor terá conhecido os malvados irmãos Molina, de Cambui; a vida torta de “Valeria de Camanducaia”; a rebeldia sem causa da aborrescente “Amelinha” de Santa Rita do Sapucaí; O Justiceiro do Recanto das Margaridas; Perfex o menino mau; Foguinho, o meliante que comeu lichia no meu quintal; Giuliano, o “dimenor” que me fez transgredir a lei… E ainda Tuca Maia, Tiziu, Renê Cabinho, os sanguinários irmãos “Chico & e Reanir”, Manoelzinho, Aguinaldinho, Eduardinho e tantos outros “meninos que vi crescer” e se bandearem para a trilha sombria e perigosa e sem volta do crime! Quase todos já passaram para o ‘andar de baixo’!

Apesar do desfecho triste de quase todas as histórias, é um livro leve. Histórias vividas ou investigadas, e contadas sem heroísmo e com muito bom humor. Impossível não achar graça nas abordagens do detetive Teobaldo ao Engraxate Cantor! Impossível não rir com o cachorro vira-latas sentado debaixo do pé de limão ‘tirando pelo’ do detetive de primeira viagem quando “o adubo do Brejal foi por água abaixo”! Impossível não se divertir com “Um processo para ficar nos anais da história forense”, quando o requerente pede perdão à requerida e o sisudo Homem da Capa Preta comemora a decisão tomando canecas de chimarrão!

Além de despertar medos, emoções e outros sentimentos, MENINOS QUE VI CRESCER suscita também algumas indagações:

– Poderiam os “meninos” ter um destino diferente?

– Será que eu estou dando a meu filho a atenção que ele precisa?

– Onde está meu filho agora?

Cada leitor encontrará sua própria resposta. Para isso ele precisa viajar pelas páginas do livro e conhecer cada história.

MENINOS QUE VI CRESCER pode ser encontrado nas livrarias da região, na Amazon ou do WhatsApp (35) 9.9802-3113, R$ 59,90.

 

“Risca Faca”

Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o “Risca Faca” deixou saudades!

Jardim América em 1974… Algumas ruas ainda não haviam sido traçadas. O Bar do Onir, que virou Boate Risca Faca, é essa ultima construção na esquina da Rua Republica da Colombia. Dali pra baixo continuou um pasto ermo por muitos anos. O grande espaço mais branco cortando o bairro Jardim Noronha é a avenida Artur Ribeiro Guimarães. Nos anos 79 ela terminava ali, na Republica do Uruguai.

Foi a segunda construção, no meio da encosta Oeste do bairro Jardim América, em 1970 – A primeira, na mesma rua, uma casa de ‘meia-água’ nos fundos, era residência do casal Dita & Joel. Foi levantada com dois pavimentos e dois objetivos distintos: o porão, com acesso pela rua lateral, servia de residência. A parte superior ao rés da rua República da Colômbia, começou como um discreto boteco pra vender cachaça, guaraná e pão com mortadela para os operários que desciam das obras do Colégio Polivalente.

 

De boteco passou a venda e daí a armazém. Assim, metade do salário dos serventes e pedreiros da empreiteira “Miranda Correia” ficava ali mesmo no bairro, em troca do ‘mercado’ da semana. Com o final das obras a clientela até então formada por peões de obra foi aos poucos sendo substituída por estudantes do novo colégio estadual da cidade.

 

Era pouco. Crianças, estudantes de escola publica nos anos 70, tinha pouco mais do que moedas para comprar lápis, borracha, doces e guaraná tubaína. Era preciso fisgar os adultos, aqueles que depois da terceira dose de cangibrina perde a noção de limites e gasta até o último centavo e manda ‘pendurar’.

 

O Jovem ‘Onir’ tinha tino comercial. Sabia que era preciso diversificar. Comprou uma vitrola e, além da água que passarinho não bebe e pão com mortadela, passou a oferecer também excelentes tira-gostos e… músicas apaixonadas.

 

A música atraiu também algumas donzelas da Davi Campista em seus ‘dias de folga’. A presença das mariposas banhadas em perfume barato, quase sempre exibindo ‘seus dotes físicos’, atraiu mais e mais clientes em busca de um ambiente mais ‘caliente’.  Havia entre eles aqueles que se despediam de suas namoradas na porta de casa e iam terminar a noitada no bar boêmio, onde poderiam fazer com as mademoiselles de ‘vida fácil’, o que era proibido fazer com as futuras esposas. Com isso nasceu, ainda nos anos 70, a “Boate Risca Faca”.

 

Como toda boate, a do Onir era noctívaga! Suas atividades boêmias começavam sempre depois que os outros bares fechavam. E o show não tinha hora para acabar. Não raro os últimos clientes só iam embora quando galo cantava ou o sol colocava os bigodes pra fora! Até meados de 1980 eu dormi ouvindo Valdique Soriano cantando a plenos pulmões na vitrola do Risca Faca. Quanto mais tarde, quanto mais silenciosa a madrugada ficava, mais o som se propagava e mais saliente ficava o som vindo do Risca Faca. Morando na encosta leste do vale do ribeirão Santa Barbara, ou seja, no bairro Jardim Europa, eu era ‘privilegiado’ com a música que vinha de lá. Voltava do colégio Comercial São Jose por volta de dez e meia da noite e desde a igreja de Santa Luzia já podia entrar no embalo do som do Risca Faca. Às cinco e meia da manhã subindo a rua Ametista para pegar o ônibus que me levaria à Alpargatas, até a virada da Tijuca eu seguia no clima de boemia e orgia que brotava na boate do Onir e inundava todo o vale.

 

Esse tipo de ambiente, de prazeres fáceis, de traições, de pecados, de amor comprado, era também ambiente de confusão, de violência, de desacertos, de perturbação do sossego dos moradores que rapidamente haviam transformado o loteamento numa grande colmeia residencial.

 

Muitos desses desacertos eram resolvidos no plantão da delegacia de polícia no meio da madrugada.

 

Se a clientela exaltada e mamada da boate, ‘batia’, Onir tinha que ‘assoprar’! Para isso era fundamental manter um bom relacionamento com a polícia civil. Tinha que fazer um agrado…

 

Durante vários anos o Risca Faca recebeu um seleto grupo de clientes especiais. Clientes sisudos, caras fechadas. Clientes vestidos de preto… Clientes levando na cinta um trezoitão. Clientes que bebiam, comiam e não pagavam!

 

Durante muitos anos nossas rondas noturnas semanais – obrigatórias – terminavam no Risca Faca. Por volta de três e meia da madrugada a velha patrulheira preto e branco encostava na porta da Boate e cinco detetives entravam para comer galinha, quero dizer, … canja de galinha!

 

E assim o Risca Faca, nascido como uma simples bodega no meio de loteamento chamado Jardim América, se tornou a mais famosa e caliente boate de Pouso Alegre no final do século passado. Nos anos 90, já famosa, com a morte precoce do seu intrépido criador o Risca Faca fechou suas portas.

 

       Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o Risca Faca deixou saudades!

COR DE PÊSSEGO MADURO…

Era época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

Havíamos chegado à idade adulta, mas ainda conservávamos um pouco da rebeldia da adolescência… e fomos fazer teatro.

Foi como artista de teatro que conhecemos as duas irmãs. Ficamos amigos e sempre nos encontrávamos nas imediações do teatro municipal depois dos ensaios ou das apresentações. Não era apenas amizade… havia também o gostoso flerte próprio de jovens livres, leves e soltos embalados pela canção de Geraldo Vandré: “pra não dizer que não falei das flores”!

Meninas simples da roça, românticas, puras e pudicas, porém cheias de sonhos como é próprio da idade.

Não lembro seus nomes. Mas lembro muito bem suas fisionomias. A mais velha e mais morena, 18 anos, era mais sisuda como convém a uma moça direita. A mais nova, 16 anos, era mais clara, era mais risonha… ria fácil, com a delicadeza de uma menina de família conservadora. O que mais ficou marcado na sua fisionomia foi seu rosto ‘cheinho’ e viçoso e a cor… Tinha cor de pêssego maduro!

Elas passavam a semana na cidade, para trabalhar e estudar, e no fim de semana voltavam para a casa dos pais na fazenda no bairro do Cristal.

Um domingo fomos conhecer seus pais…

Fomos no ônibus da Cipatur até o Faisqueira. De lá subimos a estradinha pedregosa e empoeirada, dobramos o morro e chegamos à fazenda. Passamos a tarde toda explorando o pomar, comendo frutas no pé, até a hora do café e voltamos pra casa. Um inesquecível domingo de 1978.

Época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

O mundo deu muitas voltas desde então.

A fazenda continua lá, na beira da estrada. A casa grande da família continua a mesma. Só mudou a cor… Era amarela.

E as meninas?

Por onde andará a menina de sorriso cor de pêssego maduro?