Meu primeiro livro…

Se não é o mais lido… é o mais conhecido!

Lançamento no Serra Sul Shopinng…

Faz onze anos que os “Meninos que vi crescer” circulam pelas redes sociais, pousam em estantes e cabeceiras, se oferecem na biblioteca municipal. É o meu primeiro livro. Se não é o mais lido, é o mais conhecido.

“Meninos que vi crescer” despertam muitas sensações e sentimentos …

Alguns leitores se emocionam com o drama das mães de “Pedrinho e Gegê” e se chocam ao saberem que “Assim nascem os nóias”…

Outros se divertem com a descontraída história de “O Lobo & o Carneiro”… e os carrapatos!

Alguns leitores se perguntam:

– Será que o Robertinho poderia ter evitado a morte dos irmãozinhos Montevecchio na beira da lagoa na Airton Sena?

Logo no início do livro os leitores exclamam em silencio:

– Então foram assim “Os últimos dias de Fernando da Gata”?

Também no começo do livro o leitor curioso vai saber o que aconteceu em Cambuí, n“O dia em que fumei maconha”! E vai se assustar com o que aconteceu com o nóia Celso, meu ‘parceiro de baforadas’, numa casinha no alto da serra de Bom Repouso três meses depois!

Ao terminar a leitura do trágico crime acontecido na noite de Natal, na bucólica Pouso Alegre dos anos 50, o leitor deixa escapar:

– “Nossa! Então foi assim “A verdadeira história do Beco do Crime”! Parece a história de ‘Romeu & Julieta’!

Em “Peixinho e Eu” o leitor vai viajar para Campinas para presenciar o encontro do policial com seu algoz de infância!…

O leitor de toda região do Sul de Minas vai saber finalmente quem foi “Chiquinho”, o “Coisa Ruim da Borda”! Vai até sentir um pouco do medo que eu senti naquela tarde quando visitei o carcomido casarão onde o capeta morou nos primeiros meses de 1953!

Na história de Godô, o garoto que aos 12 anos assaltou meu filho, o leitor perceberá que quanto mais cedo se entra no crime, mais difícil é sair dele!

No meio do livro o leitor fará uma pausa nas histórias tristes para conhecer “O Detetive forasteiro e a médica voluntaria”, uma história que por si só já daria um romance de final feliz!

Lançamento em Santa Rita do Sapucaí…

Na página 309 o leitor verá que o simples furto de um aparelho celular da esposa de um detetive, cometido por um garotinho que roubou sua primeira bolsa aos 9 anos de idade, levou a polícia civil à maior apreensão de maconha do Estado… 5 toneladas! O dono da maconha, ‘menino que vi crescer’, selou seu destino naquele tenso sábado ao reagir à prisão!

O leitor saudosista fará uma viagem ao início dos anos 80, aos quase primórdios da Policia Civil na cidade, com a história de “Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá”! E vai ficar de boca aberta ao constatar quem eram seus intrujões!

Antes de sentir um frio na espinha com a história de “Renanzinho, o psicopata da cabeleireira” – assassinada no dia 06 de agosto -, o leitor fará outra tensa viagem ao início do século dezenove, até parar na deliciosa década de 1970 para descobrir como “… surgiu o Ribeirão das Mortes”.

Antes de percorrer as 469 páginas do livro, o leitor terá conhecido os malvados irmãos Molina, de Cambui; a vida torta de “Valeria de Camanducaia”; a rebeldia sem causa da aborrescente “Amelinha” de Santa Rita do Sapucaí; O Justiceiro do Recanto das Margaridas; Perfex o menino mau; Foguinho, o meliante que comeu lichia no meu quintal; Giuliano, o “dimenor” que me fez transgredir a lei… E ainda Tuca Maia, Tiziu, Renê Cabinho, os sanguinários irmãos “Chico & e Reanir”, Manoelzinho, Aguinaldinho, Eduardinho e tantos outros “meninos que vi crescer” e se bandearem para a trilha sombria e perigosa e sem volta do crime! Quase todos já passaram para o ‘andar de baixo’!

Apesar do desfecho triste de quase todas as histórias, é um livro leve. Histórias vividas ou investigadas, e contadas sem heroísmo e com muito bom humor. Impossível não achar graça nas abordagens do detetive Teobaldo ao Engraxate Cantor! Impossível não rir com o cachorro vira-latas sentado debaixo do pé de limão ‘tirando pelo’ do detetive de primeira viagem quando “o adubo do Brejal foi por água abaixo”! Impossível não se divertir com “Um processo para ficar nos anais da história forense”, quando o requerente pede perdão à requerida e o sisudo Homem da Capa Preta comemora a decisão tomando canecas de chimarrão!

Além de despertar medos, emoções e outros sentimentos, MENINOS QUE VI CRESCER suscita também algumas indagações:

– Poderiam os “meninos” ter um destino diferente?

– Será que eu estou dando a meu filho a atenção que ele precisa?

– Onde está meu filho agora?

Cada leitor encontrará sua própria resposta. Para isso ele precisa viajar pelas páginas do livro e conhecer cada história.

MENINOS QUE VI CRESCER pode ser encontrado nas livrarias da região, na Amazon ou do WhatsApp (35) 9.9802-3113, R$ 59,90.

 

“Risca Faca”

Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o “Risca Faca” deixou saudades!

Jardim América em 1974… Algumas ruas ainda não haviam sido traçadas. O Bar do Onir, que virou Boate Risca Faca, é essa ultima construção na esquina da Rua Republica da Colombia. Dali pra baixo continuou um pasto ermo por muitos anos. O grande espaço mais branco cortando o bairro Jardim Noronha é a avenida Artur Ribeiro Guimarães. Nos anos 79 ela terminava ali, na Republica do Uruguai.

Foi a segunda construção, no meio da encosta Oeste do bairro Jardim América, em 1970 – A primeira, na mesma rua, uma casa de ‘meia-água’ nos fundos, era residência do casal Dita & Joel. Foi levantada com dois pavimentos e dois objetivos distintos: o porão, com acesso pela rua lateral, servia de residência. A parte superior ao rés da rua República da Colômbia, começou como um discreto boteco pra vender cachaça, guaraná e pão com mortadela para os operários que desciam das obras do Colégio Polivalente.

 

De boteco passou a venda e daí a armazém. Assim, metade do salário dos serventes e pedreiros da empreiteira “Miranda Correia” ficava ali mesmo no bairro, em troca do ‘mercado’ da semana. Com o final das obras a clientela até então formada por peões de obra foi aos poucos sendo substituída por estudantes do novo colégio estadual da cidade.

 

Era pouco. Crianças, estudantes de escola publica nos anos 70, tinha pouco mais do que moedas para comprar lápis, borracha, doces e guaraná tubaína. Era preciso fisgar os adultos, aqueles que depois da terceira dose de cangibrina perde a noção de limites e gasta até o último centavo e manda ‘pendurar’.

 

O Jovem ‘Onir’ tinha tino comercial. Sabia que era preciso diversificar. Comprou uma vitrola e, além da água que passarinho não bebe e pão com mortadela, passou a oferecer também excelentes tira-gostos e… músicas apaixonadas.

 

A música atraiu também algumas donzelas da Davi Campista em seus ‘dias de folga’. A presença das mariposas banhadas em perfume barato, quase sempre exibindo ‘seus dotes físicos’, atraiu mais e mais clientes em busca de um ambiente mais ‘caliente’.  Havia entre eles aqueles que se despediam de suas namoradas na porta de casa e iam terminar a noitada no bar boêmio, onde poderiam fazer com as mademoiselles de ‘vida fácil’, o que era proibido fazer com as futuras esposas. Com isso nasceu, ainda nos anos 70, a “Boate Risca Faca”.

 

Como toda boate, a do Onir era noctívaga! Suas atividades boêmias começavam sempre depois que os outros bares fechavam. E o show não tinha hora para acabar. Não raro os últimos clientes só iam embora quando galo cantava ou o sol colocava os bigodes pra fora! Até meados de 1980 eu dormi ouvindo Valdique Soriano cantando a plenos pulmões na vitrola do Risca Faca. Quanto mais tarde, quanto mais silenciosa a madrugada ficava, mais o som se propagava e mais saliente ficava o som vindo do Risca Faca. Morando na encosta leste do vale do ribeirão Santa Barbara, ou seja, no bairro Jardim Europa, eu era ‘privilegiado’ com a música que vinha de lá. Voltava do colégio Comercial São Jose por volta de dez e meia da noite e desde a igreja de Santa Luzia já podia entrar no embalo do som do Risca Faca. Às cinco e meia da manhã subindo a rua Ametista para pegar o ônibus que me levaria à Alpargatas, até a virada da Tijuca eu seguia no clima de boemia e orgia que brotava na boate do Onir e inundava todo o vale.

 

Esse tipo de ambiente, de prazeres fáceis, de traições, de pecados, de amor comprado, era também ambiente de confusão, de violência, de desacertos, de perturbação do sossego dos moradores que rapidamente haviam transformado o loteamento numa grande colmeia residencial.

 

Muitos desses desacertos eram resolvidos no plantão da delegacia de polícia no meio da madrugada.

 

Se a clientela exaltada e mamada da boate, ‘batia’, Onir tinha que ‘assoprar’! Para isso era fundamental manter um bom relacionamento com a polícia civil. Tinha que fazer um agrado…

 

Durante vários anos o Risca Faca recebeu um seleto grupo de clientes especiais. Clientes sisudos, caras fechadas. Clientes vestidos de preto… Clientes levando na cinta um trezoitão. Clientes que bebiam, comiam e não pagavam!

 

Durante muitos anos nossas rondas noturnas semanais – obrigatórias – terminavam no Risca Faca. Por volta de três e meia da madrugada a velha patrulheira preto e branco encostava na porta da Boate e cinco detetives entravam para comer galinha, quero dizer, … canja de galinha!

 

E assim o Risca Faca, nascido como uma simples bodega no meio de loteamento chamado Jardim América, se tornou a mais famosa e caliente boate de Pouso Alegre no final do século passado. Nos anos 90, já famosa, com a morte precoce do seu intrépido criador o Risca Faca fechou suas portas.

 

       Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o Risca Faca deixou saudades!

COR DE PÊSSEGO MADURO…

Era época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

Havíamos chegado à idade adulta, mas ainda conservávamos um pouco da rebeldia da adolescência… e fomos fazer teatro.

Foi como artista de teatro que conhecemos as duas irmãs. Ficamos amigos e sempre nos encontrávamos nas imediações do teatro municipal depois dos ensaios ou das apresentações. Não era apenas amizade… havia também o gostoso flerte próprio de jovens livres, leves e soltos embalados pela canção de Geraldo Vandré: “pra não dizer que não falei das flores”!

Meninas simples da roça, românticas, puras e pudicas, porém cheias de sonhos como é próprio da idade.

Não lembro seus nomes. Mas lembro muito bem suas fisionomias. A mais velha e mais morena, 18 anos, era mais sisuda como convém a uma moça direita. A mais nova, 16 anos, era mais clara, era mais risonha… ria fácil, com a delicadeza de uma menina de família conservadora. O que mais ficou marcado na sua fisionomia foi seu rosto ‘cheinho’ e viçoso e a cor… Tinha cor de pêssego maduro!

Elas passavam a semana na cidade, para trabalhar e estudar, e no fim de semana voltavam para a casa dos pais na fazenda no bairro do Cristal.

Um domingo fomos conhecer seus pais…

Fomos no ônibus da Cipatur até o Faisqueira. De lá subimos a estradinha pedregosa e empoeirada, dobramos o morro e chegamos à fazenda. Passamos a tarde toda explorando o pomar, comendo frutas no pé, até a hora do café e voltamos pra casa. Um inesquecível domingo de 1978.

Época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

O mundo deu muitas voltas desde então.

A fazenda continua lá, na beira da estrada. A casa grande da família continua a mesma. Só mudou a cor… Era amarela.

E as meninas?

Por onde andará a menina de sorriso cor de pêssego maduro?

Futebol Anos 80…

América do Jardim Yara

Já dizia o – falso – poeta: “Quem vive de passado é museu”!

Meia verdade…

Quando se trata de boas lembranças, todo mundo quer voltar ao passado!

As histórias que remetem ao passado que conto aqui, são as mais acessadas. Especialmente as histórias alegres e ufanistas do futebol. Histórias que deixaram saudade. Não por acaso, a maior fonte de congraçamento e amizade entre os homens, é o futebol!

Nos anos 80, 90 e até início deste século XXI, os amantes do futebol podiam assistir grandes partidas sentados no barranco na beira do Campo do América do Yara, na perimetral. O campo de piso ligeiramente irregular, porém bem gramado e macio, diariamente aparado pelos dentes afiados do cavalos que viviam soltos ali (no terreno do Exército), servia para todos os times da cidade que não tinham campo. Mas ali era ‘mando’ do América, o qual disputou durante anos todas as categorias do futebol da cidade.

Em 1987 o América levantou o caneco de Campeão do primeiro campeonato da categoria JUNIOR da LEPA (não tenho fotos). No ano seguinte o Veteranos do bairro foi vice-campeão.

Time Junior do América em 1987 – Clovis Massafera (diante do trofeu, Pedrinho e variuos outros ainda dão show nos campos de Pouso Alegre e região.

O time de Veteranos do América (com a camisa do América Mineiro no saudoso campinho do Yara), chegou a segurar, com uma mão, o troféu de 88. Mas na final deixou o caneco escapar para o Mandu, no campo da Escola Profissional.

América Vice-Campeão Veteranos em 88.

Em pé, da esquerda para direita: Vicente Castilho, Chicão, De Leon, Adão, Batista e Airton Chips.

Agachados: Edir, Chiquinho Tostão, Hilario Coutinho, João Lucio, Beto Contador e Chiquinho II.

Vice-campeão de 88.

O time principal do América nunca chegou às finais dos campeonatos da liga, mas participou de todos os certames com disciplina e brilhantismo, com grandes jogadores revelados no próprio bairro e outros craques de fora.

Um dos melhores plantéis do AMÉRICA do YARA (com a camisa do América carioca), estreou na Copa Simão Pedro de 1987, contra o Bangu, na Lema.

O time dirigido por Vicente Pedro Castilho não levantou o caneco, mas fez bonito no certame… e deixou saudades.

Da esquerda para a direita, em pé: Mané, Pantera, Daniel, Orlando e Flor.

Agachados, Zé Gibeira, Rubinho, Rinaldo, Milton, Neco e Helinho.

O time de 87 não chegou às finais, mas os craques deixaram seus nomes e saudades no futebol do bairro Jardim Yara.

Qualquer um deles tinha talento para defender as camisas do Corinthians, Flamengo, Atletico Mineiro e tantos outros clubes gigantes do futebol profissional. Só questão de oportunidade…

Herói sem medalha!

….

Jose Maria Feliciano

José Maria

Zé Gordo

‘Seu’ Zé do Juventus…

 

Era assim que os moradores do bairro N.S. de Fatima se referiam a ele. Era assim que seus atletas o chamavam. Assim ele foi chamado durantes décadas pelos boleiros na cidade. Era assim que nós, diretores da Lepa e árbitros o chamávamos…

Na juventude Zé Maria trabalhou em qualquer emprego que exigisse pouco estudo. Participou inclusive do asfaltamento da rodovia BR 459, no trecho de Pouso Alegre a Ipuiuna. Ainda jovem mudou-se para São Paulo e lá morou e trabalhou por mais de dez anos. Foi lá que tomou gosto pelo futebol. Foi de lá que trouxe o nome do seu time do coração: Juventus. Seu time, sediado no bairro Fatima, marcou época, época pujante do futebol de Pouso Alegre. Seu maior título foi o de campeão municipal de 81, disputado na antiga LEMA.

Poucos desportistas amaram e fizeram tanto pelo seu time como Zé Gordo fez pelo Juventus do Fatima. Nos anos 70 montou sua própria empresa, a Marmoraria São Judas Tadeu… e tornou-se seu próprio patrocinador. O Juventus tinha os mais belos uniformes da cidade. Durantes décadas os calções alvos e camisas grená, impecavelmente limpos, contrastaram com o verde dos gramados dos surrados campos de futebol da cidade e da zona rural. Levando alegria, emoção, paixão e entrelaçando amizades entre jogadores e torcedores do futebol amador. Centenas de meninos cresceram vendo o time do Zé Gordo jogar futebol e levantar canecos. Centenas de meninos nascidos no bairro queriam crescer e jogar no time do Zé Gordo.

No final dos anos 70, aproveitando um pequeno descampado que havia nos fundos da sua casa, resolveu construir ali o campo do Juventus. O grande terreno, inóspito, quase inacessível, tomado pela mata, capituva e outras vegetações de várzea, começava poucos metros abaixo da linha e avançava em direção às lagoas, várzeas e matas do Rio Sapucaí Mirim (mais tarde av. Perimetral). Zé Gordo realizou mutirões, limpou o terreno, aterrou um pedaço e construiu ali, quase na enxada, o campo do Fátima, o Campo do Juventus. Em homenagem a outro velho boleiro do bairro, o campo ganhou o pomposo nome de “Estadio Minduizão”. A arquibancada era o barranco na margem direita do campo. O vestiário era a sombra das arvores num dos cantos do terreno. Mais tarde, na segunda gestão do prefeito Simão Pedro, Zé Maria construiu um vestiário de verdade, de alvenaria, com a estrutura mínima de um vestiário, com espaço para o seu time, para o adversário e para o trio de árbitros. A prefeitura entrou com o material e a mão de obra. Zé Maria cedeu o terreno do seu próprio quintal. Além da prática de futebol, o estádio ‘minduinzão’ tinha outra utilidade esportiva… servia também para natação! Durante algumas semanas do período chuvoso, o estádio alagava, chegava a encobrir o gol do lado leste e virava um grande piscinão!

Ter seu próprio campo no centro do velho e tradicional bairro N.S. de Fatima, aproximou e inflamou ainda mais a torcida bairrista. Zé Maria era o fundador, presidente, patrocinador e técnico do time. Para manter-se em atividade, disputando jogos amistosos, torneios e campeonatos o ano inteiro, como todo clube de tradição, o Juventus tinha muita despesa. Além de bolas, uniformes, manutenção do campo, transporte dos jogadores para outras localidades, muitas vezes era necessário fazer ‘agrados’ a alguns jogadores mais caros, que eram disputados por outros times, especialmente em campeonatos. ‘Cinquentinha’ para um centroavante artilheiro, uma cervejinha para um zagueiro xerife, uma peça de mármore da firma para um jogador que estava construindo, enfim… Zé Maria frequentemente enfiava a mão no próprio bolso para manter o seu time, sua paixão, orgulho dos moradores do bairro Fátima.

Se o Juventus do Zé Maria era referência e orgulho para o bairro Fatima, era motivo de apreensão para os visitantes, especialmente para o trio de arbitragem. Ao saberem que estavam escalados para apitar no Minduinzão, os árbitros ‘’tremiam na base’! Na sexta-feira já começavam a rezar para acertar tudo durante a partida; para não acontecer lances polêmicos contra o time da casa. Jogos decisivos num campo aberto, sem policiamento, sem proteção, exigia muita coragem dos árbitros. O único acesso ao estádio Minduinzão era pela linha férrea paralela à Brito Filho. Os outros lados eram cercados pela mata, lagoas e várzea do Rio Sapucaí Mirim. Se houvesse conflito no campo e fosse necessário fugir, o jeito era correr, literalmente, para o mato! Embora defendesse com unhas e dentes – e cara feia – o seu time, Zé Maria conhecia a severidade das leis desportivas aplicadas pela junta de justiça da liga. Por isso sempre continha seus ímpetos e o dos seus jogadores e até da torcida. Afinal, violência não podiam manchar o brilho das conquistas do seu grande clube Grená!

Zé Gordo era feliz com seu time, com seu estádio, mas nunca desistiu de trazer melhorias. Na verdade, o que ele mais queria era PRESERVAR CAMPO. O estádio ficava num terreno particular. Durante décadas Zé Maria envidou esforços junto à prefeitura municipal para transformar o terreno em bem de utilidade pública. A cada eleição municipal, dezenas de candidatos a vereadores e muitos candidatos a prefeito tomavam café com bolo de fubá feitos pela sua dedicada esposa dona Maria, na cozinha da sua casa, e prometiam desapropriar o terreno e entregá-lo à comunidade. Passada as eleições, os candidatos, eleitos ou não, esqueciam a promessa e sumiam.  Até que um dia o Estadio Minduinzão, o campo do Juventus, do Zé Maria, virou loteamento.

Enquanto sobreviveu a todas as dificuldades, o Juventus do Zé Maria do Fatima, deu grande contribuição aos gestores públicos de Pouso Alegre. Conseguiu, por algumas décadas, manter centenas – senão milhares – de jovens afastados das drogas, praticando futebol.

Zé Maria trabalhou até perto dos oitenta anos. Em 2023, aos 80, sofreu um AVC. Desde então não abeirou mais um campo de futebol. Suas pernas o abandonaram. Elas já não o levam a lugar nenhum. Aos poucos a memória também está indo embora. O Alzheimer está apagando as lembranças de uma vida agitada, dinâmica, profícua e alegre… Não deixa espaço nem para sentir saudades! No começo do ano, quando me sentei para conversar com ele na porta de sua casa, provocado, ele se lembrou de mim. Durante meia hora caminhamos juntos na beira do estádio Minduinzão e de todos os campos varzeanos da cidade e da região, onde seu glorioso Juventus tantas vezes arrancou aplausos da plateia. Agora, nem provocado, Zé Maria não lembra mais quem eu sou. Não lembra nem quem ele é. Já não abre mais os braços e o sorriso alegre como fazia toda vez que me via chegando, para dizer:

– Como vai ‘seu’ Chips?

Zé Maria não terá sua foto e seu nome escrito no panteão dos grandes homens públicos de Pouso Alegre. Mas certamente viverá na memória de cada jogador de futebol do bairro Fatima, mesmo daqueles que não tiveram a honra de jogar no Juventus… no “Juventus do Zé Gordo”.

O título dessa crônica – “Herói sem Medalha” – eu sei, é um velho e batido clichê. Mas não achei título que melhor fizesse justiça ao grande e abnegado desportista Zé Maria Feliciano. Daqui a 100 anos, se alguém escrever a história do futebol de Pouso Alegre e não citar o nome do Zé Maria, estará cometendo uma injustiça.

Jose Bernardo… 107 anos

Sua maior tristeza é não poder mais trabalhar!

Nesta quinta-feira, 24 de julho, estive visitando uma pessoa muito especial. Muito especial, mesmo! Não é todo dia que temos a oportunidade de sentar ao lado e conversar com uma pessoa com 107 anos de vida.

Nosso encontro aconteceu no quintal da sua casa, na cidade de Cachoeira de Minas, onde ele mora com a filha. Quando cheguei, às dez da manhã, ele estava ali, tomando um banho de sol. Ali mesmo conversamos durante uma hora e meia.

 

‘Seu’ Jose Bernardo da Silva, o “Vô” – nascido no município de Cachoeira de Minas, no dia 14 de junho de 1918, está muito bem. Muito bem de saúde física e mental. Uma das pernas não lhe dá segurança para grandes caminhadas, mas permite que ele ande bem no quintal e imediações. Um dos ouvidos obriga a gente a chegar mais perto dele, e falar com mais clareza, para que ele ouça. A memória, embora bem viva, quando se trata de falar do tempo em que trabalhou no Supermercado Center Box em Pouso Alegre, exagera. Ele diz que trabalhou no supermercado, onde nós os conhecemos anos atrás, durante 100 anos! Nada disso, no entanto o impede de recordar fatos da infância, quando ficou ‘órfão’ de pai; da juventude jogando futebol igual Pelé; e de como conseguiu emprego no supermercado. Conta tudo com precisão, como se estivesse revendo os fatos. Conta com alegria, com gratidão. Gratidão primeiro a Deus. Gratidão à sua mãezinha que o criou sozinha desde os 7 anos de idade. Gratidão aos amigos que ajudaram durante sua vida. Gratidão ao patrão que o tirou do sol e da chuva e o levou para trabalhar no supermercado.

 

– Eu tava trabaiando de gari… Aí o homem passava e falava: “Fica na sombra um pouco, seu Jose”. Quando tava chovendo ela falava: “Esconde da chuva ali embaixo da marquise”. Um dia ele chegou e perguntou: “Voce quer trabalhar pra mim, no mercado? Lá o sr. não precisa ficar no sol, na chuva…”. Eu topei. Fiz os exames, tava tudo certo. E fui trabalhar no mercado. Eu gosto de trabaiá.

 

Isso aconteceu no começo de 2009. Jose Bernardo estava então com 91 anos. Trabalhou mais 14 anos, até que foi obrigado a se aposentar.

– “Eu tava meio resfriado… de repente deu uma coisa em mim, eu caí lá no mercado… eles me ajudaram, mas falaram que eu não podia mais trabalhar”, conta ele com tristeza!

 

Com a aposentaria – forçada – Jose Bernardo voltou para perto das suas raízes. Hoje mora com a filha Benedita, 84 anos, em Cachoeira de Minas onde nasceu. Não trabalha mais no Center Box mas não esquece os amigos. E nem os amigos esquecem dele. Todo mês um grupo de funcionários administrativos o visitam. Levam remédios, mantimentos, pastel quentinho… Quando eu estava conversando com ele, chegaram a Renata, o Nâna e o Dadinho. Receberam e distribuíram abraços sinceros e calorosos. A visita não é por obrigação. É por admiração, carinho, respeito e gratidão por uma pessoa humilde que cumpriu tão bem sua missão… e deixou rastros em suas vidas!

Apesar da lucidez, nalguns momentos a memória o trai. Jose Bernardo se refere a Pouso Alegre como se ainda estivesse morando em Pouso Alegre. E sempre que fala do patrão e dos colegas de trabalho no Center Box, se refere ao “mercado”, tal qual ele conheceu na juventude. E fala, com orgulho, que trabalhou no ‘mercado’ durante 100 anos.

Durante nossa longa conversa, entre boas lembranças e risadas, Jose respondeu algumas perguntas, sempre com gratidão, com alegria, com saudade e bom humor.

 

A.CHIPS: Qual a lembrança mais antiga que o sr. guarda na memória?

J.BERNARDO: Eu era pequeninho… tinha 7 anos, quando meu pai foi embora. Ficou só eu, meu irmão de 5 anos e minha mãe. O irmão morreu. Ficou só nóis dois. Minha mãe trabaiava na fazenda, tirava leite. Aí eu comecei ajudar ela, apartar bezerro, tratar das vacas, tirar leite…

 

A.CHIPS: Como foi isso? Por que seu pai foi embora?

J.BERNARDO: Um dia ele falô: “Muié, mata um frango, faz uma matula… amanhã eu vou embora”!

 

A.CHIPS: Embora! Embora pra onde?

J.BERNARDO: Meu pai falou que ia sair pro mundo, pra ganhar dinheiro… Deve estar ganhando até hoje. Deve tá rico!… nunca mais voltou! (responde e dá risada da própria piada)

 

A.CHIPS: A vida do sr. parece que não foi muito fácil. Qual a parte ‘mais ruim’ da sua vida?

J.BERNARDO: Não lembro… Acho que não teve tempo ruim… Tudo era bom. Tinha que trabalhar, mas tudo era bom. Quando era menino ajudava minha mãe tirar leite, trabalhei na roça. Depois fui carrear, levar mercadoria pra Pouso Alegre. Depois mudei pra perto de Pouso Alegre… trabalhei de tudo. Andei pro mundo todo. Aí voltei pra Pouso Alegre e trabalhei de gari … depois no mercado. Gostava de trabalhar lá. Fazia de tudo. Ninguém precisava mandar. Eu sabia minha obrigação. Eles me tratavam bem… mas tive que parar. A perna tá meio bamba… não posso andar muito mais.

 

A.CHIPS: Qual a maior tristeza que o sr. teve na vida?

J.BERNARDO: A maior tristeza… é não poder trabalhar mais.

 

A.CHIPS: Qual a melhor lembrança o sr. guarda da vida? (aqui seu Jose levanta a cabeça, parecendo buscar a resposta no espaço, ou no tempo. E fala com saudade).

J.BERNARDO: Melhor lembrança… era quando carreava carro de boi… trazendo abobora, laranja, milho … de Cachoeira para Pouso Alegre. Depois de fazer a entrega num mercado que tinha perto da ponte na entrada da cidade, eu voltava um pouco e soltava os bois no pasto do Aristeu Rios. Dormia lá mesmo… debaixo do carro de boi. No outro dia juntava os bois e voltava pra Cachoeira…

 

A.CHIPS: Na juventude, além de trabalhar, o sr. fazia outra coisa, uma diversão?…

J.BERNARDO: Gostava de jogar bola. Eu era bom. Levava a bola pra direita, cortava pra cá e passava para o companheiro, ou senão cortava e chutava de canhota! Eu jogava igual o pelé. Se a gente fosse da mesma época, ia fazer uma dupla no meio-campo na seleção.

 

A.CHIPS: Se pudesse voltar no tempo, em qual período gostaria de voltar, o que o sr. gostaria de fazer?

J.BERNARDO:  queria voltar na juventude… cangar os bois e carrear… Ouvir o canto do carro de boi.

 

Jose Bernardo tem muito mais histórias simples, puras e saudosas pra contar. Pra mim foi uma manhã histórica. Plagiando Jose Bernardo ao se referir ao seu pai, se eu não tivesse outros compromissos, eu estaria lá, conversando com ele até agora, rsrsrs…

 

Longa vida ‘Vô’ Jose Bernardo!

“Capim Gordura”… Poço de amores proibidos!

Fonte onde os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime!

O Capim Gordura virou zona residencial… Mas não chegou – e nem chegará a ter um ambiente familiar!

Não se sabe ao certo quando começou a prostituição no mundo. Mas pode-se afirmar que foi logo depois que Eva comeu a maçã. Não com Adão exatamente, mas, com os que vieram de suas costelas!

Amores e coitos furtivos, sem o fito de reprodução da espécie, mas simplesmente pelo prazer da carne, sempre existiram mundo afora. Os primeiros registros citam o ano 2.400 a.C.

Em Pouso Alegre, cujas primeiras concentrações de pessoas de famílias diferentes se deram muito antes da historia oficial, lá pelo inicio do século 18 quando os caçadores de ouro vindos de Vila Rica para São Paulo paravam para repousar, já existiam os amores proibidos, amores carnais, amores vendidos por mulheres que precisavam alimentar seus filhos, sem maridos. Assim, com o passar do tempo, para generalizar o comercio e atender a demanda, as vendedoras de prazer se agruparam numa só casa, com o nome de “Zona Boêmia”,  caracterizada pela luz vermelha.

Em Pouso Alegre, embora não se tenha um registro preciso, em 1920 a Zona Boêmia já estava instalada nas rebarbas da cidade, no logradouro que seria chamado mais tarde de Rua David Campista.

Inicialmente, com uma população de pouco mais de 10 mil habitantes, era um local pouco habitado, distante do centro. Como a cidade crescia como cresce abobrinha verde, em pouco tempo o antro de prostituição – chamado pelas beatas de antro de perdição -, já estava no centro da cidade. A Zona não saiu do lugar. Foi o crescimento inevitável da cidade que levou a população para a Zona, para perto das prostitutas. Quando a sociedade e as autoridades perceberam, a rua inteira já era dedicada à prostituição. A quinhentos metros da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, a três quarteirões do velho Mercado Municipal, a um quarteirão do Santuario do Imaculado Coração de Maria, no coração de Pouso Alegre, ficava a famosa “Rua da Zona”, “Zona de baixo meretrício” ou simplesmente: “Zona Boêmia”. Era ali que o amor livre, desde que fosse pago, é claro, acontecia. A rua toda exalava o cheiro de álcool, em todas suas variações: cachaça, cerveja, whisky barato, rum, Campari e, perfumes baratos. Quem passasse algumas horas ali levava um pouco daquele cheiro para casa, impregnado na roupa, nos cabelos, nas narinas… Os casados, não raro, entravam na manguara das esposas ciumentas!

Embora execrada pela maioria da sociedade moralista, a prostituição era aceita e defendida por boa parte da sociedade, inclusive alguns figurões abastados e autoridades. Apesar dos pesares, “a prostituição é um mal necessário”, diziam figuras graúdas da sociedade.

Urgia, no entanto, retirar a Zona do centro da cidade.

Em 1969, com a população batendo nos 40 mil, teve início a pendenga para acabar com a prostituição, ou ao menos tirá-la da vista das crianças inocentes … e dos maridos puladores de cerca! Dentre os defensores das mulheres que viviam no pecado, vendendo prazeres e promovendo a discórdia nos lares, havia advogados, juízes, delegados… Uns brigando quase com unhas e dentes. Outros, fazendo vista grossa. Por conta disso a pendenga Sociedade x Prostitutas se arrastou por mais de dez anos.

A luta travada entre beatas, padres, advogados, vereadores, juízes, ministério publico, delegados, nos púlpitos e tribunais – e entre quatro paredes – naqueles treze anos de pendenga, daria um livro.

As beatas finalmente venceram. O golpe final – literalmente – foi dado por um gigolô. O assassinato de Margarida Leite, a mais poderosa cafetina da cidade, em 1982, foi a pá de cal que faltava para sepultar a Zona Boêmia da Rua David Campista.

O comercio do prazer carnal a pouco mais de cem metros da igreja do santuário, acabou. Mas não acabou na cidade. Apenas mudou de endereço. Com terrenos facilitados pela prefeitura, a “Zona” mudou-se para o Jardim Aeroporto. O espaço, inicialmente de apenas uma rua larga e comprida (depois foram surgindo os puxadinhos nas ruelas laterais), ganhou o meloso nome de Capim Gordura (alusão ao capim cheiroso, colorido e meloso que campeava o local até então).

A mudança da Zona do centro para um local distante da cidade, trouxe prejuízos para o comercio local e para os frequentadores de modo geral. Para se chegar à zona, só de carro, particular ou de taxi! Quem mais perdeu com a mudança foram os charreteiros. Eles faziam ponto na Avenida Duque de Caxias e muitos deles tinham hora marcada para buscar suas clientes na zona, para fazerem compras no mercado e nas lojas do centro. Morando agora distante oito quilômetros, as mademoiselles do sexo, para virem à cidade, tinham que chamar um taxi, através do telefone fixo (único que havia) com três dígitos.

 

Mas nem todos perderam.

A distância do centro da cidade selecionou a clientela das vendedoras de  prazer. Quem tinha carro ou tinha dinheiro para contratar taxi para ir à zona, tinha dinheiro para gastar com elas, num local mais discreto e planejado. As casas do Capim Gordura, todas novas, foram construídas com certo planejamento, com vários quartos, um amplo salão com barman ou ‘bargirl’, onde as vendedoras de prazer seminuas assanhavam, assediavam e fisgavam seus clientes. Mudou-se o ‘status’. Antes as casas da Zona eram identificadas pelos nomes de suas donas: ‘casa da fulana ou sicrana’. No Capim Gordura ganharam o pomposo nome de “Boates” da fulana!

 

Quem mais ganhou com a mudança da Zona para o Capim Gordura, foram os policiais civis! Era na zona boêmia, infindável poço de prazeres carnais, que os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime na cidade, na região e além dela.

 

Não sei se Freud chegou a estudar ou mencionar alguma coisa sobre essa parte do comportamento do homem. Mas é fato, o homem precisa contar seus segredos, suas façanhas, seus crimes!…

 

Nos anos 80 o banditismo urbano começava a ganhar projeção. Assaltos de porte médio a bancos, postos de gasolina, supermercados, carros pagadores, cargas de cigarros, ganhavam espaço. Eram comuns esses crimes nas estradas federais, notadamente no Vale do Paraíba. Assaltos que envolviam milhões de cruzeiros, cometidos por bandos de três a cinco assaltantes. Bem-sucedidos ou não, os assaltantes que sobreviviam às balas dos policiais ou escapavam das suas pulseiras de prata precisavam dar um tempo, sair de cena, esperar a poeira baixar, serem esquecidos. O melhor esconderijo era a zona boêmia das cidades crescentes como Pouso Alegre. Ali, além de escapara dos braços da lei, eles poderiam unir “o útil ao agradável” nos braços das sensuais mariposas!

É aí que entra a teoria que o grande medico e psicanalista austriaco não chegou a estudar! O homem, tanto quanto a mulher, precisa falar dos seus amores! Das suas façanhas, contar suas bravatas, exibir seu poderio, sua superioridade, seu machismo. Depois de dois ou três dias na Zona, apenas bebendo e comendo… com ou sem tempero, os bandidos começavam a dar com a ‘língua nos dentes’, começavam a se abrir, a contar suas façanhas. É claro que eles confiavam nas suas amantes e pediam – alguns exigiam! – absoluto segredo, como se pedir segredo a uma mulher tivesse alguma relevância!

 

Mas como esses segredos chegavam aos policiais?

Bem, isso passava por todo um processo.

 

Mulheres de vida fácil sempre tiveram vida difícil. Vistas como meros objetos de prazer, as prostitutas viviam no limiar da violência… e da honestidade! Viviam ao sabor do humor dos seus clientes, a maioria sem eira e nem beira. Por muito pouco elas entravam na manguara dos guampudos mal-humorados. Depois de usufruir do ‘bembom’, mediante promessa tácita de pagamento, os trogloditas pagavam com sopapos e bolachas. E as pobres donzelas, ao invés do seu suado dinheirinho, recebiam apenas arranhões, hematomas e olho roxo.

É aí que entravam os policiais, os bravos paladinos da lei! Só os policiais, os bons policiais, conseguiam domar os garanhões, chamá-los na chincha, colocar-lhes os bridões e colocar ordem no galinheiro, quero dizer, dominar o território sem lei do Capim Gordura.

Atender aos chamados e intervir em brigas e pequenos furtos em um ambiente imoral, à margem da lei, não era prioridade da polícia. A menos que houvesse uma compensação. Foi nesse contexto que “juntou-se a fome com a vontade de comer”! As prostitutas precisavam dos policiais para protegê-las… Os policiais, aos menos aqueles mais sacudidos, aqueles que iam muito além do ‘cumprir o expediente’, precisavam dos ‘segredos’ das prostitutas. Assim, os melhores serviços da polícia civil nasciam de informações plantadas no Capim Gordura. Dessa relação promiscua das prostitutas com seus amantes, e de amizade e proteção com os detetives, nasceu o casamento perfeito. E gerou muitos frutos.

De 1982 a 1985 a Zona Boêmia do Capim Gordura, local árido e pedregoso, donde se produzia pouco mais do que o capim meloso, mandou para trás das grades dezenas de assaltantes de todas as plagas e perfis, e colocou a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre no mapa estatístico da criminalidade em Minas, como a delegacia mais produtiva do Estado. São desse período áureo da PCMG/Pouso Alegre os casos:

 

– O “Ladrão do Bagdá e seus quase 40 ladrões”, 1982!

O insuspeitável e sorrelfo dono do famoso restaurante instalado no prédio do DA/FDSM – frequentado por acadêmicos, professores e magistrados – mantinha uma extensa e rotativa equipe de ladrões que, nas horas mortas da noite ‘visitavam’ sítios e residências na região. Quando finalmente o sorrelfo comerciante – amigo de gente graúda – enroscou-se nas malhas da lei, mais de quarenta dos seus furtos sorrateiros, centenas de “res furtiva”, foram colocadas pelos abnegados policiais sobre a mesa do Homem da Capa Preta. Uma dessas “res furtiva”, ironicamente, já estava lá, no pescoço de um magistrado! (Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá – “Meninos que vi crescer”).

 

– Assalto ao carro pagador da Alpargatas, 1983.

A ação planejada e executada pela quadrilha liderada pelo agricultor “Zé do Cano”, culminou com o latrocínio do bancário Moacir, na Perimetral. Com as informações levantadas na zona, nos dias seguintes foram presos o mentor do assalto, quatro assaltantes de São José dos Campos e dois policiais militares que atuaram como informantes.

 

– “300 carros roubados”, 1984.

A investigação, municiada com informações colhidas pelo quarteto de Detetives no Capim Gordura, revelou um intrincado esquema criminoso que envolvia ‘puxadores’ de carros, intrujões acima de qualquer suspeita, e até um delegado ‘graúdo’ que ‘esquentava’ os documentos dos veículos roubados. Nas semanas seguintes, mais de 300 carros roubados foram localizados e apreendidos.

 

Graças a essa promiscua – e perigosa – relação entre um impetuoso e assanhado quarteto de Detetives e as prostitutas do Capim Gordura – Poço de amores proibidos! Fonte onde bebiam os bons policiais – a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre manteve-se, por vários anos na crista de produtividade no Estado.

 

A parceria Polícia Civil/Capim Gordura poderia ter ido mais longe, não fossem dois fatores. O referido quarteto de policiais – detentores dos arquivos vivos da Zona… e das atividades ‘informais’ de alguns chefes – sabia demais, por isso foi desfeito. Em 85 cada Detetive seguiu um rumo diferente. O outro fator seria ainda mais fulminante. Em poucos anos o capim Gordura morreu. Morreu a golpes lentos e certeiros… Foi assassinado pela famigerada  Sida… Quero dizer, pela AIDS. Mas aí, já daria outro livro!

 

O “Capim Gordura”  marcou a vida de muita gente…

 

 

Quem matou o ciclista?

A bala cravada em seu cérebro havia saído do seu próprio revólver!

 

Note criança e fresca de primavera.

Tereza acabou de assistir ao filme, desligou a tv e foi ao quarto do filho verificar se ele havia chegado. Não estava no quarto. Foi ao banheiro.

– “Deve estar tomando banho”, pensou ela.

Não estava no banho. Tereza saiu ao quintal dos fundos, onde ele costumava guardar suas bikes. A bicicleta verde com detalhes pretos estava lá, pendurada.

– “Ele deve ter ido com a preta com detalhes verdes”! “Mas porque não chegou? Ele sempre chega perto das oito da noite”, conjecturou a mãe acostumada com a rotina do filho.

Ele chegava do trabalho por volta das seis da tarde, fazia um lanche leve, montava uma das bikes e saia para pedalar, sempre assim, de segunda à sexta. Dava uma volta na lagoa e antes das oito estava de volta. Entrava pelo portão lateral, guardava a bike, as vezes limpava quando pegava ciclofaixa molhada, tomava seu banho, aparecia na sala onde ela sempre estava diante da tv, depois jantava e seguia para o quarto, onde ficava no computador até a hora de dormir. Durante a semana raramente fugia dessa rotina. O que teria acontecido hoje? Bem, não precisava descabelar. Afinal, Bedeu era adulto, bem adulto! Havia completado 40 anos na semana passada.

– “Deixe estar. Deve ter ido visitar um amigo. Ou talvez arrumou uma namorada”, pensou Tereza com seus botões.

Tentando afastar qualquer preocupação, Tereza voltou para a sala e religou a tv. “Brasil visto de cima”, seu seriado favorito, começaria dali a minutos. A cada intervalo se levantava, ia ao quintal verificar se a bicicleta preta estava fazendo companhia para a verde. Nada. Voltava para a sala e pregava os olhos na tv. Mas já não estava vendo mais nada. Tudo que via era o filho cabeça baixa, metódico, pedalando rápido sua magrela na lagoa.

– “Será que ele foi atropelado? Assaltado? A lagoa é um lugar tranquilo para pedalar. Tem um clima bom, uma energia positiva… ali quase nunca há crimes! Ele pode ter sido atropelado! Mas ele é sempre tão cuidadoso, anda sempre na ciclofaixa! … Às vezes algum doido irresponsável invade a pista de ciclistas! Há casos. – Pensava a mãe visivelmente preocupada.

A neve invadiu a tela da sua TV. Uma bandeira branca com uma folha vermelha de plátano balançando na ponta de um mastro apareceu num canto da tela. Era a bandeira do Canadá. O programa agora era “Mundo visto de cima”. Passava de dez e meia da noite. Seu filho nunca ficava na rua às dez e meia da noite. Ela nunca ficava em pé depois de dez e meia da noite durante a semana. Ela deveria estar na sua cama àquela hora. Seu filho deveria estar no quarto ao lado diante da luz branca do computador. A preocupação aumentou. Onde estaria seu filho? O que fazer? Desde que ficara viúva, há dez anos, nunca tivera sequer uma nesga de preocupação com o filho. Nunca precisava questioná-lo… Ele sempre avisava aonde estava indo e quando voltaria. O que teria acontecido? Porque estava tão fora da rotina sem avisá-la. Só então lembrou de ligar pra ele. O aparelhinho respondeu tummmm dez vezes e depois mais dez, e a voz do filho, que quase desconhecia através do aparelho, não foi ouvida. O que fazer? Esperar mais… ou ligar para alguém? Ligou para o filho mais velho, o qual morava no bairro vizinho. Meia hora depois Tadeu chegou. Chegou emburrado. Tinha bom, porém curto relacionamento com o irmão. Sua rotina era diferente. Não tinha um emprego tão bom quanto ele. Tinha que dormir cedo para levantar antes do sol e pegar o busão para a fábrica. Já estava nos braços de Morfeu quando a mãe ligou. Não tinha tempo para pajear o irmão solteirão que não tinha sequer um passarinho para tratar. Por isso, não obstante nutrir imenso respeito e carinho pela mãe, tratou-a com rispidez.

– Você já ligou para o celular dele?

– Sim, duas vezes. Ele não atendeu… Ele nunca se atrasou sem avisar… – disse Tereza com os olhos começando a marejar.

– Pronto socorro, policia, casa de amigos… – falou Tadeu com certa irritação. Tereza levou a mão à boca antes de falar.

– Você acha que pode ter acontecido alguma coisa grave, atropelamento… um assalto!

– Alguma coisa aconteceu, né mãe! – retrucou Tadeu impaciente.

– Ai meu Deus!

– Ele não costuma ir na casa de amigos, uma namorada…

– Não, durante a semana, não. Ele não tem namorada. Ele trouxe uma moça bonita aqui uma vez… Mas disse que era amiga, colega de trabalho… Eu não sei nem o nome dela. Não tenho contato de nenhum amigo dele…

– Precisa ter, né mãe! É nessas horas que servem os amigos… Pra espalhar informação, pelo menos.

– Seu irmão nunca me deu preocupação…

– Sempre tem uma primeira vez, ‘dona’ Tereza! – retrucou Tadeu apimentando o ‘dona’ com uma pitada de sarcasmo.

– E agora? O que a gente vai fazer?

– Deixa eu pensar… Você sabe onde ele costuma pedalar?

– Ele sempre pedala na lagoa!

– Vou ligar no Samu e na delegacia… pra saber se atenderam alguma ocorrência ali hoje a noite.

Não. Não havia nenhum registro de ocorrência de qualquer espécie no entorno da lagoa nas últimas vinte e quatro horas. O ‘oficial de dia’ da guarda municipal, no entanto, foi bastante solícito.

– Tem uma equipe na rua, contornando a lagoa… Vou pedir ao cabo para observar qualquer intercorrência. Vou anotar seu número e daqui a quinze minutos farei contato.

Cinco minutos depois o celular de Tadeu tocou.

– Nós o encontramos Sr. Tadeu…

– Graças a Deus! Onde ele está? Ele está bem?… – Perguntou apreensivo o filho mais velho de Tereza.

– Bem… na verdade… não sabemos… ele … – gaguejou o sargento tentando encontrar palavras para explicar como encontrara o ciclista.

Tadeu, pressentindo notícia ruim, se afastou da mãe e baixou o tom.

– Aconteceu alguma coisa grave com ele? Acidente…

– Na verdade ele parece bem. Está sentado ao pé de uma arvore na ciclofaixa. Mas não reage… parece gelado… já chamamos o SAMU… – respondeu sem esclarecer, o sargento.

Tadeu chegou ao local indicado pelo Sargento junto com os ‘anjos das ruas’. Chegou a tempo de contemplar curioso a cena. Bedeu estava sentado em um tronco seco ao pé da gigantesca Sapucaia cheia de flores roxas e lilás. Ao seu lado, encostada na lateral do mesmo tronco, estava sua bike preta com detalhes verdes. Apesar de noite alta, ele mantinha os óculos de proteção cobrindo o rosto, o que impedia de ver seus olhos. Era como se tivesse parado ali, para descansar encostado na arvore e tivesse adormecido… mas o corpo estava frio, gelado!

– Sargento, – falou o socorrista – pode chamar a funerária, ou Pericia da PC, se quiser. Ele está morto… Pela temperatura e rigidez, já tem algumas horas. Pode ter parado para descansar e morreu de um mal súbito. Aparentemente não há lesões externas. No entanto, como não há nada que possamos fazer em termos de socorro, seria prudente que o perito fizesse o seu trabalho.

 

 

A funerária estava quase vazia. Menos de vinte pessoas conversavam amenidades no velório. Pouco mais do que mulheres, vizinhas de Tereza.

– “Que coisa, né! Tão saudável! Acostumado a pedalar todo dia, de repente, do nada, senta para descansar e morre” – comentava uma.

– “Nunca sabemos o dia de amanhã”… – filosofava outra.

– “Ele foi a única companhia da Tereza nos últimos dez anos”! – choramingava uma terceira.

Tereza estava sentada numa cadeira ao lado do caixão aberto quando uma moça bonita e bem-vestida, perto dos quarenta anos, se aproximou. Depois de um minuto contemplando o corpo inerte estendido dentro do caixão de madeira escuro, a jovem se inclinou sobre Tereza e lhe deu um abraço dizendo.

– A senhora lembra de mim? Eu sou a Vania… Uma vez eu fui à sua casa com o Bedeu. Eu gostava muito dele. Ele era meu melhor amigo no trabalho. A gente almoçava junto, conversava sobre trabalho, sobre sua paixão pelo pedal. Mas ele nunca me falou que tinha algum problema de saúde! – disse a jovem.

– Eu lembro quando você foi na minha casa. Pensei que vocês fossem namorados… depois o Bedeu não me falou mais nada. Mas ele não era doente, não…

Conversaram mais alguns minutos como se fossem amigas. Até que Vania se levantou, se despediu e, antes de sair voltou a contemplar o corpo inerte do amigo. Da contemplação passou a gestos. Tocou suas mãos frias cruzadas sobre o peito, levou a mão ao seu rosto, fez-lhe uma caricia. Gostava de Bedeu muito mais do que se gosta de um amigo. Demorou na caricia no rosto frio. Aquele rosto bonito e suave que ela não teve coragem de acariciar enquanto estava quente. Sim, amava Bedeu desde que o conhecera. Tinha medo de declarar seu amor, e perdê-lo. Era amor platônico. Saber que ele não tinha uma namorada, e ter sua amizade já era o suficiente. Quem sabe um dia ela se declarasse. Agora, embora não adiantasse mais, seria o momento. Inclinou-se e disse baixinho em seu ouvido agora surdo:

 

– “Eu te amo Bedeu”!

 

Foi nesse momento, bem próximo da cabeça do amado, que algo lhe chamou a atenção. Os bastos cabelos castanhos de Bedeu tinham uma minúscula mancha mais escura. Passou o dedo, levemente, sobre a mancha. A pele sensível do dedo não acusou a presença de nenhuma alteração no couro cabeludo. Mas a mesma pele branca e delicada da ponta do dedo ganhou uma cor vermelho-escuro. Seria sangue? Explorou a mancha afastando o cabelo grosso do amigo morto até chegar ao couro cabeludo. Parecia uma minúscula ferida, uniforme. Aguçou a vista. Sim, havia um minúsculo ferimento no couro cabeludo. Quase imperceptível. Mas era um ferimento.

 

Aquele imperceptível ferimento no couro cabeludo do amado, que morreu sem saber que era amado, acompanhou Vania de volta ao trabalho.

– “Mas eles disseram que Bedeu morreu sentado, na beira da ciclofaixa! Ele nem tirou o capacete de proteção! Será que foi no transporte para a funerária? Ou será que o agente funerário que lhe deu o banho o feriu sem querer?”, pensava Vania.

– “Que falta de empatia, de respeito com o corpo”, concluiu Vania tentando retomar sua rotina no trabalho.

Retomou. Mas o ferimento no couro cabeludo de Bedeu, aqueles cabelos que ela fez tanto esforço para conter o desejo de acariciar e chamar de seu, continuou ao seu lado o resto do dia. No final do expediente, quando as cortinas do escritório se fecharam, Vania procurou seu chefe para compartilhar sua descoberta, sua inquietação, sua angústia.

– Isso está me martelando a tarde inteira! Você acha que ele pode ter sido ferido e isso causou sua morte? – perguntou.

– Olha, eu não vi o ferimento. Não tenho como avaliar, opinar… Mas muitas pessoas viram o corpo. Os GMs viram, os policiais viram, os socorristas do Samu viram. Ninguém percebeu nada suspeito… O ferimento deve ter sido causado no manuseio na funerária.

– Era noite. E se o ferimento já estava lá e ‘passou batido’?

– Como eu disse, pouco provável. Se houvesse alguma suspeita de crime, o corpo teria sido levado para o IML, para exames. Se o corpo foi liberado para a família, é porque os profissionais não viram nada suspeito.

– Eu não vou conseguir dormir com esse ferimento na cabeça. Recentemente eu li um livro de crônicas policiais em que um corpo encontrado pendurado numa corda, no mato, foi dado como suicídio. Depois de enterrado, um investigador aposentado entrou na história e descobriu que o rapaz havia sido assassinado e pendurado na ponta da corda.

– Que livro é esse?!

– “Quem Matou o Suicida”.

– Ora, Vania, isso é ficção!

– Olha, a trama é tão bem-feita, tão bem contada, com tantos detalhes, que parece mesmo contos de Agatha Christie… Mas a história é verdadeira, acontecida no Sul de Minas! Será que se eu contar isso pra polícia, agora que o corpo já foi sepultado, a polícia vai investigar?

– Eu não entendo de assunto de polícia. Mas tenho um amigo delegado que joga futebol com a gente no clube toda quarta-feira. Se você quiser trocar umas ideias com ele, eu posso te apresentar.

 

Três dias depois o corpo de Bedeu emergiu da terra. Já conhecendo a suspeita, a médica legista foi ‘direto ao ponto’.

– Merda! Isso está parecendo orifício de entrada de projetil. Esse cara tomou um tiro na cabeça!

A necropsia de Bedeu foi rápida. O aparelho de raio-x no IML mostrou a localização exata do projétil estacionado no seu crânio. Dias depois o setor de balística do Instituto de Criminalística afirmou que o projetil encontrado no cérebro de Bedeu havia saído do cano de um Magnum 357.

Teria sido assassinato?

“Bala perdida”?

Suicídio?

 

Embalada pela empolgação com a descoberta da polícia a partir das suas suspeitas e do remorso do amor tardiamente confesso pelo colega de trabalho, Vania queria saber a resposta.

O jovem delegado responsável pela investigação, jovem na idade e na carreira, cheio de ilusões, vaidades e soberba, além de uma pilha de homicídios relevantes para investigar, não deu muita importância ao caso.

– Desculpe Sta. Vania, não podemos interromper as investigações que temos em andamento para nos dedicar a um caso de provável suicídio ou bala perdida! – falou o delegado, jogando um balde de água fria nas pretensões da ‘viúva virgem’.

Desiludida com a má vontade do delegado, Vania perdeu o pique. No entanto não desistiu de procurar respostas. No dia seguinte foi atrás da médica legista que havia feito a necropsia e descoberto a causa mortis do seu amado. Leticia, tão apaixonada quanto Sherlock Holmes por investigação criminal, abraçou sua causa.

– Suicídio? Impossível! Os policiais que encontraram o corpo não relataram nenhum vestígio de pólvora ou marca de tiro à queima roupa. Para suicidar sem deixar marcas, só se Bedeu tivesse montado uma geringonça para atirar de longe nele mesmo! Além do que, uma bala de Magnum 357 disparada de perto não pára no cérebro. Além de traspassar a cabeça, ela deixa um orifício de saída do tamanho de uma azeitona, das grandes. Não. Bedeu foi vítima de bala perdida.

– Mas bala perdida também é crime, não é? – questionou Vania.

– Sim. É um crime ‘culposo’, de menor potencial punitivo para o descuidado assassino, mas é crime. No entanto, com tantos BOs para investigar, poucos delegados se dedicam a apurar um crime sabidamente culposo.

– Mas então… o que fazer? O crime vai ficar sem solução? Ninguém será punido por isso? – perguntou desconsolada Vania.

– Bem, o delegado pode não dar prioridade ao caso, mas ele não pode impedir uma investigação paralela, particular… – conjecturou a jovem médica legista.

– Você está dizendo que eu posso contratar um detetive particular?

– Se você quiser… Tudo depende do quanto você quer esclarecer esse crime. Você está disposta?…

Vania se ajeitou na cadeira. Seus olhos cor de mel estavam fixos na legista à sua frente. Mas enxergavam outra pessoa, noutro lugar. Seus olhos viam a figura serena e amável do seu amado Bedeu, ora concentrado na sua mesa de trabalho, ora sentado à sua frente na mesa do restaurante comendo delicadamente e conversando amenidades. Viu também o amado passar pedalando rápido e concentrado pela ciclofaixa da lagoa. Sim, às vezes, quando se sentia mais carente, mais apaixonada, ela pegava um Uber e ia para a lagoa. Sentava no deque ao lado da Casa do Baile e ficava ali solitária esperando para vê-lo passar. As vezes tinha vontade de entrar na sua frente, atrapalhá-lo, derrubá-lo … e depois curar seus ferimentos. Ou então ser atropelada por ele, ser carregada em seus braços… mas nunca teve coragem. Estendia seu olhar lânguido na figura amada curvada sobre a bike e ficava olhando até que ele diminuía e sumia lá longe na curva do Iate Clube. “Quem sabe da próxima vez eu crio coragem”, pensava, enquanto embarcava no Uber de volta para casa. Agora nem isso podia mais fazer.

– E então? Você pretende contratar um detetive particular?

A voz inquisitiva da legista trouxe Vania de volta ao consultório.

– Ah, sim! Mas eu não conheço ninguém. A senhora que é policial pode me indicar alguém? Estou pensando em um detetive que desvendou um suicídio… num livro. Meu chefe disse que isso é ficção… – falou Vania, com uma ponta de timidez, ou vergonha.

– Qual livro?

– “Quem matou o suicida”.

– Eu também li esse livro. Ganhei de uma amiga legista do interior. São crônicas policiais, casos verdadeiros. Eu não conheço o detetive que desvendou o caso, mas minha amiga conhece. Ele mora no interior… Não sei se ele aceitaria vir para a capital investigar o caso.

 

Aceitou!

Três dias depois Matinhos deu uma volta na lagoa, refazendo o percurso tantas vezes feito por Bedeu. Embora estivesse de carro, seguiu lentamente, tentando imaginar como teria sido o último pedal do amigo da sua cliente, até que chegou ao local indicado pelos GMs. O tronco sem vida do jacarandá rosa, onde Bedeu se sentou para morrer em silencio e sem reclamar, não lhe disse nada. Não disse nem mesmo a direção de onde poderia ter vindo a bala assassina. Poderia ter vindo do parque municipal à direita… ou do quintal de uma daquelas mansões ou sítios à esquerda. Dependia de qual direção Bedeu estava seguindo. Será que ele recebeu a bala naquele exato local, ou pedalou alguns metros antes de se sentar para morrer?

Mais tarde o experiente detetive reuniu-se com Vania e a médica legista.

     – O primeiro passo é checar a possibilidade de suicídio. Começando por saber se ele tinha arma…

– Suicídio? Impossível. Suicídio com arma de fogo deixa marcas de pólvora na entrada… e um estrago enorme na saída. – Reafirmou a legista apaixonada pela sua profissão.

– Ainda assim é necessário saber se ele tinha arma.

– E se ele tinha, alguém poderia tê-lo assaltado, tomado seu revólver e atirado nele! – concluiu apressadamente, Vania.

– Não por isso… o ferimento seria muito diferente, como já disse a doutora – rebateu Matinhos.

– Sim… ainda que o tiro tivesse sido disparado a alguns metros, o projetil teria arrancado um tampo da sua cabeça. Teria corrido muito sangue e ele não teria sentado pra morrer naquele toco! Teria despencado da bicicleta no ato – apressou-se Leticia.

– Mas então… – falou Vania abrindo as duas mãos espalmadas como se deixasse ir embora as últimas hipóteses.

– Vania, numa investigação, não se pode desprezar nenhum detalhe. Quem possui uma arma… tem muito mais chances de morrer baleada! – filosofou rasteiro o Detetive.

– Espere… Deixe-me ver os dados dele. Vou consultar… vejamos: Bedeu, filho de… Ele possui uma arma… registrada! E não há registro de furto! – falou Leticia com os olhos negros grudados na tela do computador consultando o REDS.

– Que tipo de arma? – quis saber Matinhos.

     – É um Magnum 357! – respondeu Leticia com os olhos exclamativos olhando para o velho detetive.

– Ainda que tenhamos que descartar totalmente a hipótese de suicídio, é importante saber se a sua arma está em sua casa. Vou usar minha credencial de advogado para pedir ao delegado do caso um Mandado de Busca. Mas antes vamos dissecar todas as possibilidades.

 

       O Mandado de Busca cumprido na casa do morto aguçou a euforia da investigação. A arma, um belo Magnum 357 niquelado que aparecia no folder junto ao registro do mesmo, não estava na caixa muito bem guardada entre livros na sua estante. Dona Teresa desconhecia que o filho tivesse arma. O mistério ficou ainda mais intrigante quando os policiais encontraram uma nota fiscal da última aquisição de munição, feita a cerca de três semanas. A caixa estava pela metade. Mesmo descartando a probabilidade de suicídio, o projetil encontrado pela amante platônica no crânio do pretenso namorado, poderia, ironicamente, ter sido adquirido pelo próprio Bedeu! Mas quem teria apertado o gatilho?

 

– Para chegar ao autor do disparo, qualquer que seja a causa, é preciso saber de onde partiu o tiro. Você disse que a bala penetrou num dos vãos de respiro do capacete de proteção… – perguntou Matinhos.

– Sim. Sem danificar o capacete. E na direção perpendicular, de cima para baixo. O que significa que o projetil veio de longe e o atingiu quando já estava caindo… – explicou a legista com um movimento de mão.

– Bem… Isso diminui muito a probabilidade de um tiro planejado, disparado de longe. Seria quase impossível disparar com tal precisão – arguiu o detetive.

– Isso quer dizer que elimina a possibilidade de crime premeditado? – interagiu Vania.

– Sim. Até porque, é certo que o projetil veio de longe e foi perdendo força. Caso contrário teria trespassado o crânio.

– Bedeu costumava pedalar quase sempre no sentido horário da lagoa. – Informou Vania, sem revelar que às vezes assistia incógnita e solitária aos seus pedais.

– A bala atingiu o lado direito do crânio… Isso significa que o tiro veio do parque municipal! O que dificulta muito a investigação… – concluiu pensativo Matinhos.

– A Vania disse que ele ‘quase’ sempre pedalava no sentido horário da lagoa. E se nesse dia ele fez o inverso? – arguiu a legista.

– É uma possibilidade…

– Mas então… – falou Vania abrindo as mãos num gesto de desanimo.

– Precisamos achar testemunhas que o tenham visto naquele início de noite e nos informem qual sentido ele seguia.

– Isso é difícil. Tanta gente pedala na lagoa! Especialmente nesse horário – falou Leticia.

– Nem tanto. Os bikers que pedalam na lagoa são sempre atenciosos e solidários. Eles sempre se cumprimentam quando se cruzam ou se ultrapassam. Isso gera empatia, intimidade, cria laços, se tornam conhecidos. Embora Bedeu pedalasse sozinho, ele tinha muitos conhecidos que pedalavam por ali. Alguém pode tê-lo visto naquele dia. – Informou Vania.

– Então vamos vazar o caso do Bedeu para a imprensa, de preferência sites de amantes do pedal e sites policiais, pedindo esse tipo de informação. Para isso precisamos de uma foto dele com as roupas e a bike daquele dia. Você pode conseguir isso, Vania?

 

Quatro dias depois Matinhos recebeu um telefonema. Um rapaz tinha informações a dar.

– Eu estava correndo com minha aluna quando ele passou por mim, pedalando normalmente. De repente, do nada, parou… perecia meio tonto. Encostou a bicicleta e sentou-se no tronco. Segundos depois passamos por ele e perguntei se estava tudo bem. Ele acenou com o polegar esquerdo enquanto, com a outra mão, parecia procurar o celular na pochete… Eram umas seis e pouco da tarde. Sim, nós seguíamos sentido inverso do relógio… – informou o personal trainer.

Saber a direção de onde viera o tiro fatal podia ser o fio da meada para a elucidação do crime. Para chegar ao autor, no entanto, seria necessário desenrolar todo o novelo. Ainda sem a pista que pudesse levar ao dedo assassino, Matinhos continuou seu périplo nas imediações do sinistro. Agora, sabia ao menos, a direção de onde viera a bala sem rumo.  Nos dias seguintes ele concentrou sua atenção no lado direito da extensa avenida de dezoito quilômetros que circunda a lagoa da Pampulha, cartão postal da capital. O local tão cheio de verde, de vida, de pessoas alegres exalando vida, havia misteriosamente encerrado uma vida, sem alarde, deixando o corpo do jovem Bedeu inerte, contemplando o silencio da noite pouco iluminada, na extensa avenida que margeia bosques e matas habitadas por jacarés, capivaras e outros bichos que dão vida à lagoa. O lado oposto do parque, naquele trecho, era cheio de mansões circundadas por palmeiras, coqueiros e outras arvores frondosas, floridas e cheirosas que começavam ao rés da avenida e subia uma encosta levemente inclinada, formando uma colina, até divisar com o bairro ao norte. Matinhos sentou-se no mesmo tronco seco e sem vida onde Bedeu respirou pela última vez, virou-se para a larga avenida de mão dupla e ficou tentando imaginar o trajeto da bala assassina.

– “Um projetil desse calibre, dependendo da qualidade da munição, da polegada do cano da arma, da perpendicularidade do disparo e até da densidade do ar no momento, pode chegar com letalidade a cerca de seiscentos metros. Logo, o tiro foi disparado além dessas mansões, da rua ou do quintal de uma casa no outro bairro”… – concluiu para si mesmo.

Ainda pensativo, sentado no tronco que testemunhou o esvair de uma vida, o detetive, bem vivo, traçou seus próximos passos. Manteria um olho na casa da mãe de Bedeu, buscando filtrar a rotina da rua, da sua casa. O outro olho vagaria pelo bairro paralelo, de onde parecia mais provável ter partido o tiro irresponsável que matou o ciclista solitário.

No dia seguinte travestiu-se de funcionário do Censo e bateu na porta de cada residência da Avenida Portugal, entrevistou cada família tentando identificar o perfil de quem, por uma razão ou outra, pudesse ter se apossado do Magnum de Bedeu e o baleado enquanto praticava seu hobby nas proximidades da lagoa.

Numa destas noites em que um olho estava voltado para a casa da mãe de Bedeu, há poucos bairros dali, Matinhos presenciou uma visita à casa da idosa solitária e chorosa. A figura de um rapaz alto, magro, esportivamente vestido, sem o saber, posou para a câmera do seu celular. O moço aparentando meia idade, permaneceu cerca de meia hora no interior da casa antes de despedir-se da viúva no portão. No dia seguinte sua identidade foi confirmada pela mãe de Bedeu.

– É o Mauro. Ele era amigo do meu filho. De vez em quando ele vinha aqui, as vezes saiam juntos. – Contou Tereza.

– O que ele veio fazer aqui ontem? – indagou Matinhos.

– Ele veio me fazer uma visita… e devolver uns livros que ele havia emprestado do meu filho.

– Livros? Posso ver esses livros?

– Pode. Estão no quarto do Bedeu. Ele mesmo colocou na estante. Eu não entro no quarto do meu filho desde que ele se foi.

– Posso dar uma olhada nos livros?

Ao entrar no quarto de Bedeu, pela segunda vez em poucos dias, Matinhos sentiu uma certa euforia. Encheu-se de expectativa. Foi direto para a estante esperando encontrar um certo estojo de arma, desta vez mais pesado… ou não encontrar nem o estojo! Decepção! O estojo do Magnum estava no mesmo lugar, tão leve quanto antes, contendo apenas os documentos da arma e parte da munição.

A decepção de não encontrar nada de novo após a visita de Mauro, no entanto, não arrefeceu o ânimo investigativo do velho detetive.

Mauro, contemporâneo de Bedeu, era uma das dezenas de pessoas que moravam no bairro Céu Azul, na rua paralela com a avenida onde o ciclista sentou-se com uma bala ainda quente na cabeça e ali ficou, inerte, até esfriar. O amigo do morto merecia um dossiê mais detalhado. Matinhos consultou sua prancheta de ‘funcionário’ do IBGE.

Dois dias depois Mauro recebeu uma visita dos homens da lei. Os detetives traziam consigo uma ‘carta branca do homem da capa preta’. Após ler o Mandado de Busca e Apreensão, o detetive que conduzia a diligência adiantou:

– Sr. Mauro, temos indícios de que o Sr. andou fazendo disparos de arma de fogo no seu quintal, por isso buscamos especificamente armas e munições. Se você os entregar espontaneamente, facilitará nosso trabalho … e poupará aborrecimentos pra você!

Apesar da surpresa da visita da policia, Mauro não titubeou.

– Tranquilo Sr. Inspetor. Eu sou CAC. Tenho toda documentação exigida – disse o moço levando os policiais para o escritório. De um pequeno cofre atrás de livros numa estante de alvenaria planejada ele tirou duas caixas e colocou sobre a mesa. Numa delas havia uma pistola Taurus .40 e seus respectivos documentos. Na outra surgiu um Magnum 357.

– Posso ver o registro do Magnum? – perguntou o Inspetor.

– Esse é de um amigo. Eu peguei para experimentar. Se gostar vou comprar dele e fazer a transferência.

Matinhos, que acompanhava a diligência, pegou a arma com um lenço, verificou o tambor, abriu, aproximou o cano do nariz, sentiu o cheiro e falou:

– Foi usada recentemente …

– O Sr. Costuma praticar tiros com frequência? – Perguntou o Inspetor.

– Só quando tenho munição…

– Somente nos clubes de tiros ou pratica também em alvos aleatórios!

– Raramente disparo fora do Stand – respondeu receoso o CAC.

Quando esteve ali dias atrás fazendo o “levantamento demográfico” Matinhos percebeu que a casa não era tão grande para os padrões do bairro, mas tinha um grande quintal com pomar que terminava num barranco na direção da lagoa.

– O sr. costuma guardar as capsulas usadas para recarregar? Posso vê-las? – perguntou Matinhos fingindo pouco interesse enquanto olhava através da janela para o quintal dos fundos onde se via frondosas mangueiras, fruteira típica naquela quente região da capital.

– Sim, claro… – respondeu Mauro pegando outra caixa menor no fundo do cofre.

Matinhos pegou a capsula vazia, examinou-a, entregou ao Inspetor e tornou a perguntar.

– Essa arma e essas munições pertencem ao seu amigo Bedeu Joanel de Almeida, não é? – perguntou outra vez Matinhos.

Mauro teve um sobressalto. Como eles sabiam do Bedeu? O que teria a investida dos policiais na sua casa àquela hora da manhã com a morte do seu amigo? De repente um frio desceu pela espinha! Matinhos percebeu o desconforto de Mauro e voltou a interpelá-lo:

– Quando você usou esse revólver pela última vez?

– Umas duas ou três semanas atrás, eu acho … – respondeu já sem segurança.

– Mais precisamente no início da noite da quarta-feira, 30 de setembro!

– Trinta de setembro!? Pelo cheiro da pólvora dá para saber a data exata que a arma foi usada?

– Não. É que no dia 30 de setembro alguém foi atingido na cabeça com um tiro de Magnum na orla da lagoa…

– O que aconteceu com ele? Quem é o pobre infel… – Antes de completar a frase um nome lhe veio à mente. Apoiou-se à mesa.

– Seu amigo Bedeu… o dono da arma – completou o Inspetor, que o tempo todo mantinha os olhos grudados em Mauro observando suas reações.

Mauro deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa. Seu rosto estava lívido.

– Você consegue se lembrar os detalhes; quantos disparos você fez; tinha mais alguém com você?…

– Eu estava com um primo meu, do interior… Eu queria mostrar a ele como se usa o revólver, mas não havia tempo para ir ao clube. Cada um deu três tiros intercalados…

– Todos os tiros foram no mesmo alvo imóvel, no barranco no fundo do quintal?

Mauro titubeou. Mas não tinha mais controle emocional para fugir de qualquer resposta óbvia.

– Nalgum momento entre os disparos… uma ave noturna assustada levantou voo da mangueira … tentei alvejá-la… – falou finalmente.

– Foi esse tiro que saiu para o alto? – indagou Matinhos.

– Sim… foi o único… tentando alvejar a ave…

– … Mas acertou seu amigo Bedeu enquanto pedalava, a seiscentos metros daqui! – falou Matinhos pausadamente.

– Não estou acreditando… Eu matei meu amigo com a própria arma dele! – concluiu Mauro desolado com o rosto entre as mãos.

Após um breve instante para que o empresário processasse os fatos, o Inspetor falou:

– Sr. Mauro, o sr. terá que nos acompanhar à delegacia.

– Eu estou preso?

– Não. O sr. não está em estado de flagrância. Seu crime, a princípio, se enquadra no delito culposo. Já puxamos sua capivara… Sabemos que o sr. não tem antecedentes criminais e, portanto, não se justifica prisão preventiva. Mas será indiciado em Inquérito Policial. Seu vacilo comporta no mínimo 4 anos de cana.  – Respondeu o Inspetor.

– O sr. vai precisar de um advogado… – acrescentou Matinhos.

 

Um ano depois o homem da capa preta proferiu a sentença contra Mauro. Com base no artigo 18 do Código Penal (que trata do dolo eventual), e na Lei da Gravidade (tudo que sobe, desce), o douto juiz entendeu que Mauro ao atirar para o alto, embora não quisesse, assumiu o risco de matar alguém com uma bala perdida. Por isso o condenou, por homicídio doloso, a oito (8) anos e meio de reclusão em regime fechado.

 

      A prisão do CAC descuidado não ressuscitou o ciclista Bedeu. Apenas preencheu o espaço que cabe à justiça. O vazio do amor nunca declarado continuou latente no peito de Vania. Apesar disso, ela encontrou um alento. Grata ao detetive Matinhos, Vania tornou-se assídua leitora de romances e crônicas policiais.      

Chico Luca & Mariana… e as 10 filhas

Um amor que resistiu as transformações socioculturais do final do século XX.

Meu quinto livro…

A história se passa longe dos grandes centros, com sotaques, ritmos, cheiros e paisagens que representam o interior brasileiro. É um tributo ao Brasil da roça, das festas, das tradições e das pequenas revoluções do dia a dia.

Uma história com gosto de pinhão assado na brasa, com cheiro de terra molhada! Uma história raiz, cheia de afetos… Uma história que nos remete à brisa suave da noite.

Se você ainda não tem o hábito de ler livros, depois de ler Chico Luca & Mariana, você vai viciar…

Você vai perceber que sua vida também daria um belo romance!

Você vai querer escrever sua própria história!   

Chico Luca & Mariana é um livro ideal para presentear alguém… Seu pai, sua mãe, sua filha, seu namorado!

“Você tem histórias pra contar”?

Casa onde nasceu Chico Luca…

Todo mundo tem histórias para contar… Mas nem todos contam!

Cada um tem seus motivos para não contar suas histórias.

Alguns acham que elas não valem a pena serem contadas.

Muitos tem vergonha de contar suas histórias!

Alguns acham que as pessoas irão rir das suas histórias.

Outros não querem que suas histórias caiam na boca do povo!

Tem aquelas pessoas que querem levar suas histórias para o tumulo!

Tem até aquelas que não contam sua história ‘nem morta’!

Mas a maioria das pessoas não contam suas histórias por quê …

Porque não sabem contar!

 

Sim… contar histórias “não é pra qualquer um”!

Contar histórias requer talento. Requer conhecimento básico do vernáculo. Requer conhecimento da história, requer cultura. Não a cultura fria dos livros, mas a cultura ‘caliente’ da vivência, da percepção do momento, da percepção dos sentimentos dos personagens! Requer acima de tudo um bom ouvido … e uma boa memória!

 

Foi com base nesses preceitos que escrevi essa história.

A começar pela memória, que me leva quando quero aos dois anos e meio de idade, na casa grande cheia de meninas.

Conhecimento da história é fácil! Eu estava lá, vivi a história, senti a história, sou parte da história.

Quanto ao talento, se de fato tenho, fica por conta de você, leitor!

 

Vamos conhecer a história?