José Bernardo completou 108 anos…

E continua cativante!

Vô Zé Bernardo em 2025, ao completar 107 anos.

As pernas não permitem mais andar atrás do carro de boi, andar a cavalo, jogar futebol, ir à missa… mas não o impedem de andar sozinho pela casa, sentar-se no quintal da frente e ficar sentindo o burburinho da rua, da vida!
– Ele não escuta quase nada. Mas entende o que a gente fala. A gente comunica mais por sinais. Ele gosta de ficar sentado tomando sol na frente da casa. Quando é hora de tomar café, de almoçar, a gente vai lá fora e faz o sinal com a mão… ele levanta e vem comer. Quando é hora do banho, a gente põe a roupa limpa na beira da cama, ele entende, pega e vai para o banheiro – conta a filha Benedita, 85 anos.

Benedita Aristides tinha mais de 80 anos quando passou a cuidar do pai, depois que ele parou de trabalhar, aos 105 anos.

Como a audição não ajuda, ele não consegue ouvir bem, mas quando entende as perguntas, responde com clareza e lembra de quase tudo de antigamente – diz ela.
– Às vezes, quando está sentado na mesa, sem a gente perguntar, ele começa contar histórias de quando era moço, do tempo que lidava com gado, de quando ia pra Pouso Alegre tocando carro de boi… Eu fico só escutando. Ele vai longe… – conta a filha que cuida dele a pouco mais de três anos.

Aos 108 anos, mesmo não ouvindo bem, dentro de casa e no quintal Jose Bernardo tem autonomia.

Jose Bernardo da Silva nasceu em Cachoeira de Minas no fim da Primeira Guerra Mundial, no ano da Gripe Espanhola, no dia 14 de junho de 1918. Trabalhou com carteira registrada até os 105 anos, em 2023… E parou contra a vontade!
Embora receba diariamente o carinho da filha Benedita e de netos, bisnetos, trisnetos, José Bernardo tem suas tristezas. Quando consegue entender nossa pergunta, ele fala delas…
– É uma tristeza não poder mais andar pra rua sozinho, não poder ir na missa, passear no jardim da praça… não poder mais trabalhar com os amigos no mercado!
Vô Zé Bernardo é uma daquelas pessoas que vão deixar saudades… vão deixar “rastros na minha terra”!

Baixada do Pinheiro

… Época de pinhoes!

Era mês de abril, início de outono… frio de oito graus.

O sol tímido, ainda criança, tateava o cume das montanhas tentando avistar e espalhar sua luz dourada para os vales e prados ainda orvalhados.

A geada fina e branca só chegaria no final do mês seguinte deixando russos os pastinhos de capim picua… Por ora era apenas o orvalho do sereno que caíra na madrugada.

 

Sair da cozinha, de perto do fogão a lenha, com os bracinhos desnudos e os pés no chão, só se tivesse um motivo muito forte. E tinha! Era preciso chegar cedo aos pés dos pinheiros à duzentos metros dali. Se o pássaro madrugador pegava as melhores minhocas, os meninos que chegassem primeiro pegavam os pinhões que haviam caído durante a noite. Pior! Quem chegasse tarde, ficaria apenas com as ‘faias’! Sim, os vizinhos poderiam chegar antes!

 

Saímos em fila. Eu e três das irmãs mais velhas. As maiores na frente e as menores atrás, tentando pisar no rastro das maiores… para sentir menos o orvalho gelado nos pés descalços. Enquanto seguíamos em silencio amassando as ervas daninhas, torcendo para que o sol se levantasse rápido para esquentar o frio, íamos sentindo o cheiro da resina dos pinheiros, o cheiro de pinhões recém caídos, o cheiro da florada de ervas daninhas que cresciam tenras na soqueira de feijão… o cheiro das manhãs. As manhãs de outono de 1964 na Baixada do Pinheiro eram frias e perfumadas!

 

Havia, agrupados, quatro pinheiros gigantes. Na verdade, era apenas um pinheiro. As demais arvores roliças, marrons, com os braços abertos quase tocando o céu, eram ‘pinheiras’! Eram elas que davam pinhão. Mas não produziriam sem o pinheiro e sem as abelhas e maribondos que espalhavam o polem por ali.

 

Os pinheiros centenários, que deram origem ao nome do lugar, eram gigantescos. Sua copada, com quinze ou vinte galhos abertos na horizontal eram inalcançáveis. Nem com um bambu açu era possível cutucar as pinhas e apressar a colheita. Até nisso a natureza era sábia. Se fosse possível colher a pinha inteira, antes da hora, certamente comeríamos os pinhões todos de uma vez, até ficar enfastiados… e passaríamos fome o restante do outono!

 

Havia outras pinheiras ali na Baixada do Pinheiro. Algumas na beira de córregos ermos, outras dentro das matas onde teríamos que dividir os pinhões com roedores… e estes com peçonhentas rastejantes! Que talvez se sentissem incomodadas com nossa presença. Era a lei do mais forte pela sobrevivência. Por isso, catar os graúdos pinhões no auge da maturação, no local limpo onde há poucas semanas havia sido colhido o feijão, era mais seguro. Mas tinha que chegar cedo, pois a família vizinha tinha as mesmas necessidades que a nossa!

 

Alheios aos nossos desejos, os pinhões não tinham pressa de madurar e cair. Cada pinha soltava seus frutos de acordo com a maturação natural. Às vezes dois ou três por noite, sem pressa.

O homem tem pressa.

A fome tem pressa.

A natureza não tem pressa! E passava todo o mês de abril assim, alimentando as crianças aos poucos, a conta-gotas!

Às vezes era necessário juntar a colheita de vários dias para dar uma cozinhada. No sábado à noite a mãe reunia a renca de meninas em volta do caldeirão de ferro na cozinha para saborear a guloseima catada durante a semana. À medida que os pinhões cor de pinhão iam abrindo o bico, já se podia retirá-los do caldeirão e colocá-los na gamela de madeira para esfriar. Minha mãe usava um macete de madeira, talvez um pedaço de galho do próprio pinheiro, para macetar o pinhão ainda quente. Não sabíamos porquê, mas, macetado era mais gostoso! Enquanto saboreávamos a iguaria ofertada gratuitamente pela natureza, o restante continuava dançando na água fervente no caldeirão de ferro preto em cima da chapa.

 

Pra nós, aquele gesto rotineiro todo outono, era só o momento de alimentar. No entanto, ficaria marcas… e lições!

 

Os pinhões de hoje, colhidos em pinhas inteiras sem granar, não tem o mesmo gosto. Mas a memória ainda conserva o cheiro. O cheiro do pinhão, o cheiro da água vermelha que cozinhava o pinhão, o gosto do pinhão cozido saindo quente da casca macetada…

 

Ficou mais…

Ficou a lembrança da mãe brava, disciplinadora, educadora, organizando pacientemente a distribuição dos pinhões na beira do fogão caiado de branco, de boca preta e língua vermelha na cozinha simples da casa de pau-a-pique da Baixada do Pinheiro…

Ficou a saudade dos pais, que muitas vezes, quase salivando, entregavam o último pinhão à criança mais nova…

Ficou a saudade da infância…

Ficou a saudade da Baixada do Pinheiro…

Chiquinho… Um hóspede do barulho!

Corriam os anos da década de 1920!

Certamente poucos sabem, mas os anos 1920, a década que marcou o primeiro centenário da Independência, foi também marcante em fatos históricos para o Brasil. Foi naquele período, 1922, que aconteceu a Semana de Arte Moderna, marco de tantas transformações político-culturais. No mesmo ano do centenário, surgiu o “Tenentismo”, movimento que mais tarde daria sustentação a Getúlio Vargas para tomar o poder e iniciar um era de desenvolvimento para o país. Naquele ano também foi fundado o PCB, inaugurando portanto o comunismo no Brasil. Em seguida aconteceu a “Revolta Paulista de 1924”; o surgimento da Coluna Prestes;  o declínio da República Velha; a fim da velha política do “Café com Leite”; a “Grande Recessão de 1929” onde se jogou fora ou queimou toneladas de café sem mercado e, finalmente, o golpe de Getúlio Vargas, que mesmo tendo ficado em segundo lugar na eleição nacional, depôs Whashington Luiz e impediu a posse do eleito Júlio Prestes e assumiu o governo dando início a histórica Era Vargas.

 

Neste mesmo período, em 1921, a primeira fábrica da Ford no Brasil, inaugurada dois anos antes, passou a produzir em serie o Ford T, conhecido como “Ford Bigode”!

 

Pouso Alegre, desde criança com vocação para o progresso, sempre na vanguarda das transformações, também vivia suas mudanças.

 

Uma delas foi a consolidação do transporte ferroviário a partir de 1920, fazendo da estação de trem da Avenida Brasil com Doutor Lisboa o coração do desenvolvimento econômico da região, facilitando o escoamento da produção cafeeira e agropecuária, sua maior riqueza.

 

Para cá vieram imigrantes de todos os cantos do velho continente. Dentre eles, dois portugueses: Alberto e Manoel.

 

Inicialmente os patrícios desceram para a Argentina. Mas, seduzidos pela alegria brasileira e promessa de grandes ganhos, subiram para Santos-SP. Atraídos pelas benfazejas terras mineiras, subiram um pouco mais e chegaram à promissora cidade batizada – quase que com um suspiro pelo Conde de Sarzedas – com o nome de Pouso Alegre.

 

Foi aqui, em terras manduanas, local de transformações, que os amigos Alberto e Manoel começaram a transformar seus sonhos de riquezas em realidade! Começaram com um caminhãozinho Ford T, (Ford Bigode), com carroceria de madeira adaptada.

 

Um dos amigos d’além mar, apesar da rasteira que tomou do sócio, sacudiu a poeira, deu a volta por cima, e, algumas décadas depois colocou seu nome na história de BORDA DA MATA … e do VATICANO!

 

Alberto e o amigo Manoel (que se revelaria um amigo da onça), se instalaram num quartinho de fundos da “Pensão da Vovó”, na esquina da rua Bueno Brandão com Silviano Brandão, na porta do Santuário. Dispostos a ganhar dinheiro, compraram então um desses fordinhos com carroceria de madeira e foram à luta. Começaram comprando galinhas, patos e marrecos nas cercanias de Pouso Alegre para vender em São Paulo. De quebra ainda faziam pequenas mudanças na cidade e região.

 

Os negócios estavam indo de vento em popa. Estavam ficando ricos, afinal, nessa terra abençoada pelo São Bom Jesus, em se vendendo, transportando e “plantando tudo dá”, teria dito Pero Vaz de Caminha quatro séculos antes.

 

Foi aí que o amigo cresceu o olho no negócio e resolveu dar o chapéu no sócio. Urdiu um plano e ficou na espreita, esperando o momento certo para dar o golpe. Certa noite, após voltar de uma rendosa viagem, Manoel levou duas “Severina do Popote” para o muquifo, para comemorar. Embebidos em paixões diversas tais como a saudade da terrinha querida, o cansaço do trabalho, a alegria do sucesso financeiro em terras estranhas, rapidamente enxugaram as duas garrafas. Manoel, como parte do plano, servia a ambos e fingia beber. No entanto, sorrateiramente jogava fora a estonteante bebida. Em poucas horas embebedou o amigo até que ele ficou entregue às baratas e caiu no sono. Quando Alberto acordou pela manhã, com a boca grossa e a cara inchada de ressaca, só o pó!!! Manoel já estava longe… levando com ele o saco de dinheiro que ficava guardado embaixo da cama. Devia ser muito dinheiro, pois o caminhãozinho Ford Bigode, veículo ainda raro no país, ele deixou para trás.

 

Jurando esganar o socio e amigo da onça, Alberto continuou suas atividades comerciais com o charmoso Fordinho. Tempos depois, já capitalizado, comprou uma fazenda no recém-criado município de Borda da Mata e foi plantar milho, feijão e criar gado. Em poucos anos ficou rico.

 

Ninguém sabe ao certo como Alberto, com meia dúzia de filhos imberbes, conseguiu ficar rico. As más línguas dizem que ele teria feito um pacto com o capeta!

 

Pode ser… Pois anos depois, o capeta veio cobrar a dívida! Ele atendia pelo nome de “Chiquinho”, mas ficou conhecido na fazenda da Ponte de Pedra pelo epíteto de… “Coisa Ruim da Borda”.

 

O jovem padre Pedro Cintra, que fez o exorcismo do Chiquinho, não esclareceu os motivos que levaram o Coisa Ruim a arranchar na fazenda do ‘portuga’, mas escreveu e manteve em segredo durante décadas no Livro do Tombo da paroquia que:

 

“Notei na família (do Sr. Alberto) um certo afastamento dos deveres religiosos. O casal havia tempo não fazia a pascoa. Os filhos, alguns já moços, ainda não haviam feito a primeira comunhão”.

 

 

Essa história que moveu metade (ou mais!) da imprensa do Brasil e pesquisadores do Vaticano, aconteceu de fato. Nos primeiros meses do ano de 1953, o português Alberto S. de Carvalho – que morou na Pensão da Vovó no centro de Pouso Alegre nos anos 20 – teve um hospede do barulho em sua fazenda em Borda da Mata!

 

 

O que você acabou de ler é só o aperitivo. A história completa sobre a hospedagem do Chiquinho na Fazenda da Ponte de Pedra – minuciosamente investigada em 2010 – começa na página 235 e termina na página 268 do livro “Meninos que vi crescer”.  

Meu primeiro livro…

Se não é o mais lido… é o mais conhecido!

Lançamento no Serra Sul Shopinng…

Faz onze anos que os “Meninos que vi crescer” circulam pelas redes sociais, pousam em estantes e cabeceiras, se oferecem na biblioteca municipal. É o meu primeiro livro. Se não é o mais lido, é o mais conhecido.

“Meninos que vi crescer” despertam muitas sensações e sentimentos …

Alguns leitores se emocionam com o drama das mães de “Pedrinho e Gegê” e se chocam ao saberem que “Assim nascem os nóias”…

Outros se divertem com a descontraída história de “O Lobo & o Carneiro”… e os carrapatos!

Alguns leitores se perguntam:

– Será que o Robertinho poderia ter evitado a morte dos irmãozinhos Montevecchio na beira da lagoa na Airton Sena?

Logo no início do livro os leitores exclamam em silencio:

– Então foram assim “Os últimos dias de Fernando da Gata”?

Também no começo do livro o leitor curioso vai saber o que aconteceu em Cambuí, n“O dia em que fumei maconha”! E vai se assustar com o que aconteceu com o nóia Celso, meu ‘parceiro de baforadas’, numa casinha no alto da serra de Bom Repouso três meses depois!

Ao terminar a leitura do trágico crime acontecido na noite de Natal, na bucólica Pouso Alegre dos anos 50, o leitor deixa escapar:

– “Nossa! Então foi assim “A verdadeira história do Beco do Crime”! Parece a história de ‘Romeu & Julieta’!

Em “Peixinho e Eu” o leitor vai viajar para Campinas para presenciar o encontro do policial com seu algoz de infância!…

O leitor de toda região do Sul de Minas vai saber finalmente quem foi “Chiquinho”, o “Coisa Ruim da Borda”! Vai até sentir um pouco do medo que eu senti naquela tarde quando visitei o carcomido casarão onde o capeta morou nos primeiros meses de 1953!

Na história de Godô, o garoto que aos 12 anos assaltou meu filho, o leitor perceberá que quanto mais cedo se entra no crime, mais difícil é sair dele!

No meio do livro o leitor fará uma pausa nas histórias tristes para conhecer “O Detetive forasteiro e a médica voluntaria”, uma história que por si só já daria um romance de final feliz!

Lançamento em Santa Rita do Sapucaí…

Na página 309 o leitor verá que o simples furto de um aparelho celular da esposa de um detetive, cometido por um garotinho que roubou sua primeira bolsa aos 9 anos de idade, levou a polícia civil à maior apreensão de maconha do Estado… 5 toneladas! O dono da maconha, ‘menino que vi crescer’, selou seu destino naquele tenso sábado ao reagir à prisão!

O leitor saudosista fará uma viagem ao início dos anos 80, aos quase primórdios da Policia Civil na cidade, com a história de “Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá”! E vai ficar de boca aberta ao constatar quem eram seus intrujões!

Antes de sentir um frio na espinha com a história de “Renanzinho, o psicopata da cabeleireira” – assassinada no dia 06 de agosto -, o leitor fará outra tensa viagem ao início do século dezenove, até parar na deliciosa década de 1970 para descobrir como “… surgiu o Ribeirão das Mortes”.

Antes de percorrer as 469 páginas do livro, o leitor terá conhecido os malvados irmãos Molina, de Cambui; a vida torta de “Valeria de Camanducaia”; a rebeldia sem causa da aborrescente “Amelinha” de Santa Rita do Sapucaí; O Justiceiro do Recanto das Margaridas; Perfex o menino mau; Foguinho, o meliante que comeu lichia no meu quintal; Giuliano, o “dimenor” que me fez transgredir a lei… E ainda Tuca Maia, Tiziu, Renê Cabinho, os sanguinários irmãos “Chico & e Reanir”, Manoelzinho, Aguinaldinho, Eduardinho e tantos outros “meninos que vi crescer” e se bandearem para a trilha sombria e perigosa e sem volta do crime! Quase todos já passaram para o ‘andar de baixo’!

Apesar do desfecho triste de quase todas as histórias, é um livro leve. Histórias vividas ou investigadas, e contadas sem heroísmo e com muito bom humor. Impossível não achar graça nas abordagens do detetive Teobaldo ao Engraxate Cantor! Impossível não rir com o cachorro vira-latas sentado debaixo do pé de limão ‘tirando pelo’ do detetive de primeira viagem quando “o adubo do Brejal foi por água abaixo”! Impossível não se divertir com “Um processo para ficar nos anais da história forense”, quando o requerente pede perdão à requerida e o sisudo Homem da Capa Preta comemora a decisão tomando canecas de chimarrão!

Além de despertar medos, emoções e outros sentimentos, MENINOS QUE VI CRESCER suscita também algumas indagações:

– Poderiam os “meninos” ter um destino diferente?

– Será que eu estou dando a meu filho a atenção que ele precisa?

– Onde está meu filho agora?

Cada leitor encontrará sua própria resposta. Para isso ele precisa viajar pelas páginas do livro e conhecer cada história.

MENINOS QUE VI CRESCER pode ser encontrado nas livrarias da região, na Amazon ou do WhatsApp (35) 9.9802-3113, R$ 59,90.

 

“Risca Faca”

Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o “Risca Faca” deixou saudades!

Jardim América em 1974… Algumas ruas ainda não haviam sido traçadas. O Bar do Onir, que virou Boate Risca Faca, é essa ultima construção na esquina da Rua Republica da Colombia. Dali pra baixo continuou um pasto ermo por muitos anos. O grande espaço mais branco cortando o bairro Jardim Noronha é a avenida Artur Ribeiro Guimarães. Nos anos 79 ela terminava ali, na Republica do Uruguai.

Foi a segunda construção, no meio da encosta Oeste do bairro Jardim América, em 1970 – A primeira, na mesma rua, uma casa de ‘meia-água’ nos fundos, era residência do casal Dita & Joel. Foi levantada com dois pavimentos e dois objetivos distintos: o porão, com acesso pela rua lateral, servia de residência. A parte superior ao rés da rua República da Colômbia, começou como um discreto boteco pra vender cachaça, guaraná e pão com mortadela para os operários que desciam das obras do Colégio Polivalente.

 

De boteco passou a venda e daí a armazém. Assim, metade do salário dos serventes e pedreiros da empreiteira “Miranda Correia” ficava ali mesmo no bairro, em troca do ‘mercado’ da semana. Com o final das obras a clientela até então formada por peões de obra foi aos poucos sendo substituída por estudantes do novo colégio estadual da cidade.

 

Era pouco. Crianças, estudantes de escola publica nos anos 70, tinha pouco mais do que moedas para comprar lápis, borracha, doces e guaraná tubaína. Era preciso fisgar os adultos, aqueles que depois da terceira dose de cangibrina perde a noção de limites e gasta até o último centavo e manda ‘pendurar’.

 

O Jovem ‘Onir’ tinha tino comercial. Sabia que era preciso diversificar. Comprou uma vitrola e, além da água que passarinho não bebe e pão com mortadela, passou a oferecer também excelentes tira-gostos e… músicas apaixonadas.

 

A música atraiu também algumas donzelas da Davi Campista em seus ‘dias de folga’. A presença das mariposas banhadas em perfume barato, quase sempre exibindo ‘seus dotes físicos’, atraiu mais e mais clientes em busca de um ambiente mais ‘caliente’.  Havia entre eles aqueles que se despediam de suas namoradas na porta de casa e iam terminar a noitada no bar boêmio, onde poderiam fazer com as mademoiselles de ‘vida fácil’, o que era proibido fazer com as futuras esposas. Com isso nasceu, ainda nos anos 70, a “Boate Risca Faca”.

 

Como toda boate, a do Onir era noctívaga! Suas atividades boêmias começavam sempre depois que os outros bares fechavam. E o show não tinha hora para acabar. Não raro os últimos clientes só iam embora quando galo cantava ou o sol colocava os bigodes pra fora! Até meados de 1980 eu dormi ouvindo Valdique Soriano cantando a plenos pulmões na vitrola do Risca Faca. Quanto mais tarde, quanto mais silenciosa a madrugada ficava, mais o som se propagava e mais saliente ficava o som vindo do Risca Faca. Morando na encosta leste do vale do ribeirão Santa Barbara, ou seja, no bairro Jardim Europa, eu era ‘privilegiado’ com a música que vinha de lá. Voltava do colégio Comercial São Jose por volta de dez e meia da noite e desde a igreja de Santa Luzia já podia entrar no embalo do som do Risca Faca. Às cinco e meia da manhã subindo a rua Ametista para pegar o ônibus que me levaria à Alpargatas, até a virada da Tijuca eu seguia no clima de boemia e orgia que brotava na boate do Onir e inundava todo o vale.

 

Esse tipo de ambiente, de prazeres fáceis, de traições, de pecados, de amor comprado, era também ambiente de confusão, de violência, de desacertos, de perturbação do sossego dos moradores que rapidamente haviam transformado o loteamento numa grande colmeia residencial.

 

Muitos desses desacertos eram resolvidos no plantão da delegacia de polícia no meio da madrugada.

 

Se a clientela exaltada e mamada da boate, ‘batia’, Onir tinha que ‘assoprar’! Para isso era fundamental manter um bom relacionamento com a polícia civil. Tinha que fazer um agrado…

 

Durante vários anos o Risca Faca recebeu um seleto grupo de clientes especiais. Clientes sisudos, caras fechadas. Clientes vestidos de preto… Clientes levando na cinta um trezoitão. Clientes que bebiam, comiam e não pagavam!

 

Durante muitos anos nossas rondas noturnas semanais – obrigatórias – terminavam no Risca Faca. Por volta de três e meia da madrugada a velha patrulheira preto e branco encostava na porta da Boate e cinco detetives entravam para comer galinha, quero dizer, … canja de galinha!

 

E assim o Risca Faca, nascido como uma simples bodega no meio de loteamento chamado Jardim América, se tornou a mais famosa e caliente boate de Pouso Alegre no final do século passado. Nos anos 90, já famosa, com a morte precoce do seu intrépido criador o Risca Faca fechou suas portas.

 

       Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o Risca Faca deixou saudades!

COR DE PÊSSEGO MADURO…

Era época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

Havíamos chegado à idade adulta, mas ainda conservávamos um pouco da rebeldia da adolescência… e fomos fazer teatro.

Foi como artista de teatro que conhecemos as duas irmãs. Ficamos amigos e sempre nos encontrávamos nas imediações do teatro municipal depois dos ensaios ou das apresentações. Não era apenas amizade… havia também o gostoso flerte próprio de jovens livres, leves e soltos embalados pela canção de Geraldo Vandré: “pra não dizer que não falei das flores”!

Meninas simples da roça, românticas, puras e pudicas, porém cheias de sonhos como é próprio da idade.

Não lembro seus nomes. Mas lembro muito bem suas fisionomias. A mais velha e mais morena, 18 anos, era mais sisuda como convém a uma moça direita. A mais nova, 16 anos, era mais clara, era mais risonha… ria fácil, com a delicadeza de uma menina de família conservadora. O que mais ficou marcado na sua fisionomia foi seu rosto ‘cheinho’ e viçoso e a cor… Tinha cor de pêssego maduro!

Elas passavam a semana na cidade, para trabalhar e estudar, e no fim de semana voltavam para a casa dos pais na fazenda no bairro do Cristal.

Um domingo fomos conhecer seus pais…

Fomos no ônibus da Cipatur até o Faisqueira. De lá subimos a estradinha pedregosa e empoeirada, dobramos o morro e chegamos à fazenda. Passamos a tarde toda explorando o pomar, comendo frutas no pé, até a hora do café e voltamos pra casa. Um inesquecível domingo de 1978.

Época de namoricos furtivos, namoros no alpendre, beijos roubados…

O mundo deu muitas voltas desde então.

A fazenda continua lá, na beira da estrada. A casa grande da família continua a mesma. Só mudou a cor… Era amarela.

E as meninas?

Por onde andará a menina de sorriso cor de pêssego maduro?

Futebol Anos 80…

América do Jardim Yara

Já dizia o – falso – poeta: “Quem vive de passado é museu”!

Meia verdade…

Quando se trata de boas lembranças, todo mundo quer voltar ao passado!

As histórias que remetem ao passado que conto aqui, são as mais acessadas. Especialmente as histórias alegres e ufanistas do futebol. Histórias que deixaram saudade. Não por acaso, a maior fonte de congraçamento e amizade entre os homens, é o futebol!

Nos anos 80, 90 e até início deste século XXI, os amantes do futebol podiam assistir grandes partidas sentados no barranco na beira do Campo do América do Yara, na perimetral. O campo de piso ligeiramente irregular, porém bem gramado e macio, diariamente aparado pelos dentes afiados do cavalos que viviam soltos ali (no terreno do Exército), servia para todos os times da cidade que não tinham campo. Mas ali era ‘mando’ do América, o qual disputou durante anos todas as categorias do futebol da cidade.

Em 1987 o América levantou o caneco de Campeão do primeiro campeonato da categoria JUNIOR da LEPA (não tenho fotos). No ano seguinte o Veteranos do bairro foi vice-campeão.

Time Junior do América em 1987 – Clovis Massafera (diante do trofeu, Pedrinho e variuos outros ainda dão show nos campos de Pouso Alegre e região.

O time de Veteranos do América (com a camisa do América Mineiro no saudoso campinho do Yara), chegou a segurar, com uma mão, o troféu de 88. Mas na final deixou o caneco escapar para o Mandu, no campo da Escola Profissional.

América Vice-Campeão Veteranos em 88.

Em pé, da esquerda para direita: Vicente Castilho, Chicão, De Leon, Adão, Batista e Airton Chips.

Agachados: Edir, Chiquinho Tostão, Hilario Coutinho, João Lucio, Beto Contador e Chiquinho II.

Vice-campeão de 88.

O time principal do América nunca chegou às finais dos campeonatos da liga, mas participou de todos os certames com disciplina e brilhantismo, com grandes jogadores revelados no próprio bairro e outros craques de fora.

Um dos melhores plantéis do AMÉRICA do YARA (com a camisa do América carioca), estreou na Copa Simão Pedro de 1987, contra o Bangu, na Lema.

O time dirigido por Vicente Pedro Castilho não levantou o caneco, mas fez bonito no certame… e deixou saudades.

Da esquerda para a direita, em pé: Mané, Pantera, Daniel, Orlando e Flor.

Agachados, Zé Gibeira, Rubinho, Rinaldo, Milton, Neco e Helinho.

O time de 87 não chegou às finais, mas os craques deixaram seus nomes e saudades no futebol do bairro Jardim Yara.

Qualquer um deles tinha talento para defender as camisas do Corinthians, Flamengo, Atletico Mineiro e tantos outros clubes gigantes do futebol profissional. Só questão de oportunidade…

Herói sem medalha!

….

Jose Maria Feliciano

José Maria

Zé Gordo

‘Seu’ Zé do Juventus…

 

Era assim que os moradores do bairro N.S. de Fatima se referiam a ele. Era assim que seus atletas o chamavam. Assim ele foi chamado durantes décadas pelos boleiros na cidade. Era assim que nós, diretores da Lepa e árbitros o chamávamos…

Na juventude Zé Maria trabalhou em qualquer emprego que exigisse pouco estudo. Participou inclusive do asfaltamento da rodovia BR 459, no trecho de Pouso Alegre a Ipuiuna. Ainda jovem mudou-se para São Paulo e lá morou e trabalhou por mais de dez anos. Foi lá que tomou gosto pelo futebol. Foi de lá que trouxe o nome do seu time do coração: Juventus. Seu time, sediado no bairro Fatima, marcou época, época pujante do futebol de Pouso Alegre. Seu maior título foi o de campeão municipal de 81, disputado na antiga LEMA.

Poucos desportistas amaram e fizeram tanto pelo seu time como Zé Gordo fez pelo Juventus do Fatima. Nos anos 70 montou sua própria empresa, a Marmoraria São Judas Tadeu… e tornou-se seu próprio patrocinador. O Juventus tinha os mais belos uniformes da cidade. Durantes décadas os calções alvos e camisas grená, impecavelmente limpos, contrastaram com o verde dos gramados dos surrados campos de futebol da cidade e da zona rural. Levando alegria, emoção, paixão e entrelaçando amizades entre jogadores e torcedores do futebol amador. Centenas de meninos cresceram vendo o time do Zé Gordo jogar futebol e levantar canecos. Centenas de meninos nascidos no bairro queriam crescer e jogar no time do Zé Gordo.

No final dos anos 70, aproveitando um pequeno descampado que havia nos fundos da sua casa, resolveu construir ali o campo do Juventus. O grande terreno, inóspito, quase inacessível, tomado pela mata, capituva e outras vegetações de várzea, começava poucos metros abaixo da linha e avançava em direção às lagoas, várzeas e matas do Rio Sapucaí Mirim (mais tarde av. Perimetral). Zé Gordo realizou mutirões, limpou o terreno, aterrou um pedaço e construiu ali, quase na enxada, o campo do Fátima, o Campo do Juventus. Em homenagem a outro velho boleiro do bairro, o campo ganhou o pomposo nome de “Estadio Minduizão”. A arquibancada era o barranco na margem direita do campo. O vestiário era a sombra das arvores num dos cantos do terreno. Mais tarde, na segunda gestão do prefeito Simão Pedro, Zé Maria construiu um vestiário de verdade, de alvenaria, com a estrutura mínima de um vestiário, com espaço para o seu time, para o adversário e para o trio de árbitros. A prefeitura entrou com o material e a mão de obra. Zé Maria cedeu o terreno do seu próprio quintal. Além da prática de futebol, o estádio ‘minduinzão’ tinha outra utilidade esportiva… servia também para natação! Durante algumas semanas do período chuvoso, o estádio alagava, chegava a encobrir o gol do lado leste e virava um grande piscinão!

Ter seu próprio campo no centro do velho e tradicional bairro N.S. de Fatima, aproximou e inflamou ainda mais a torcida bairrista. Zé Maria era o fundador, presidente, patrocinador e técnico do time. Para manter-se em atividade, disputando jogos amistosos, torneios e campeonatos o ano inteiro, como todo clube de tradição, o Juventus tinha muita despesa. Além de bolas, uniformes, manutenção do campo, transporte dos jogadores para outras localidades, muitas vezes era necessário fazer ‘agrados’ a alguns jogadores mais caros, que eram disputados por outros times, especialmente em campeonatos. ‘Cinquentinha’ para um centroavante artilheiro, uma cervejinha para um zagueiro xerife, uma peça de mármore da firma para um jogador que estava construindo, enfim… Zé Maria frequentemente enfiava a mão no próprio bolso para manter o seu time, sua paixão, orgulho dos moradores do bairro Fátima.

Se o Juventus do Zé Maria era referência e orgulho para o bairro Fatima, era motivo de apreensão para os visitantes, especialmente para o trio de arbitragem. Ao saberem que estavam escalados para apitar no Minduinzão, os árbitros ‘’tremiam na base’! Na sexta-feira já começavam a rezar para acertar tudo durante a partida; para não acontecer lances polêmicos contra o time da casa. Jogos decisivos num campo aberto, sem policiamento, sem proteção, exigia muita coragem dos árbitros. O único acesso ao estádio Minduinzão era pela linha férrea paralela à Brito Filho. Os outros lados eram cercados pela mata, lagoas e várzea do Rio Sapucaí Mirim. Se houvesse conflito no campo e fosse necessário fugir, o jeito era correr, literalmente, para o mato! Embora defendesse com unhas e dentes – e cara feia – o seu time, Zé Maria conhecia a severidade das leis desportivas aplicadas pela junta de justiça da liga. Por isso sempre continha seus ímpetos e o dos seus jogadores e até da torcida. Afinal, violência não podiam manchar o brilho das conquistas do seu grande clube Grená!

Zé Gordo era feliz com seu time, com seu estádio, mas nunca desistiu de trazer melhorias. Na verdade, o que ele mais queria era PRESERVAR CAMPO. O estádio ficava num terreno particular. Durante décadas Zé Maria envidou esforços junto à prefeitura municipal para transformar o terreno em bem de utilidade pública. A cada eleição municipal, dezenas de candidatos a vereadores e muitos candidatos a prefeito tomavam café com bolo de fubá feitos pela sua dedicada esposa dona Maria, na cozinha da sua casa, e prometiam desapropriar o terreno e entregá-lo à comunidade. Passada as eleições, os candidatos, eleitos ou não, esqueciam a promessa e sumiam.  Até que um dia o Estadio Minduinzão, o campo do Juventus, do Zé Maria, virou loteamento.

Enquanto sobreviveu a todas as dificuldades, o Juventus do Zé Maria do Fatima, deu grande contribuição aos gestores públicos de Pouso Alegre. Conseguiu, por algumas décadas, manter centenas – senão milhares – de jovens afastados das drogas, praticando futebol.

Zé Maria trabalhou até perto dos oitenta anos. Em 2023, aos 80, sofreu um AVC. Desde então não abeirou mais um campo de futebol. Suas pernas o abandonaram. Elas já não o levam a lugar nenhum. Aos poucos a memória também está indo embora. O Alzheimer está apagando as lembranças de uma vida agitada, dinâmica, profícua e alegre… Não deixa espaço nem para sentir saudades! No começo do ano, quando me sentei para conversar com ele na porta de sua casa, provocado, ele se lembrou de mim. Durante meia hora caminhamos juntos na beira do estádio Minduinzão e de todos os campos varzeanos da cidade e da região, onde seu glorioso Juventus tantas vezes arrancou aplausos da plateia. Agora, nem provocado, Zé Maria não lembra mais quem eu sou. Não lembra nem quem ele é. Já não abre mais os braços e o sorriso alegre como fazia toda vez que me via chegando, para dizer:

– Como vai ‘seu’ Chips?

Zé Maria não terá sua foto e seu nome escrito no panteão dos grandes homens públicos de Pouso Alegre. Mas certamente viverá na memória de cada jogador de futebol do bairro Fatima, mesmo daqueles que não tiveram a honra de jogar no Juventus… no “Juventus do Zé Gordo”.

O título dessa crônica – “Herói sem Medalha” – eu sei, é um velho e batido clichê. Mas não achei título que melhor fizesse justiça ao grande e abnegado desportista Zé Maria Feliciano. Daqui a 100 anos, se alguém escrever a história do futebol de Pouso Alegre e não citar o nome do Zé Maria, estará cometendo uma injustiça.

Jose Bernardo… 107 anos

Sua maior tristeza é não poder mais trabalhar!

Nesta quinta-feira, 24 de julho, estive visitando uma pessoa muito especial. Muito especial, mesmo! Não é todo dia que temos a oportunidade de sentar ao lado e conversar com uma pessoa com 107 anos de vida.

Nosso encontro aconteceu no quintal da sua casa, na cidade de Cachoeira de Minas, onde ele mora com a filha. Quando cheguei, às dez da manhã, ele estava ali, tomando um banho de sol. Ali mesmo conversamos durante uma hora e meia.

 

‘Seu’ Jose Bernardo da Silva, o “Vô” – nascido no município de Cachoeira de Minas, no dia 14 de junho de 1918, está muito bem. Muito bem de saúde física e mental. Uma das pernas não lhe dá segurança para grandes caminhadas, mas permite que ele ande bem no quintal e imediações. Um dos ouvidos obriga a gente a chegar mais perto dele, e falar com mais clareza, para que ele ouça. A memória, embora bem viva, quando se trata de falar do tempo em que trabalhou no Supermercado Center Box em Pouso Alegre, exagera. Ele diz que trabalhou no supermercado, onde nós os conhecemos anos atrás, durante 100 anos! Nada disso, no entanto o impede de recordar fatos da infância, quando ficou ‘órfão’ de pai; da juventude jogando futebol igual Pelé; e de como conseguiu emprego no supermercado. Conta tudo com precisão, como se estivesse revendo os fatos. Conta com alegria, com gratidão. Gratidão primeiro a Deus. Gratidão à sua mãezinha que o criou sozinha desde os 7 anos de idade. Gratidão aos amigos que ajudaram durante sua vida. Gratidão ao patrão que o tirou do sol e da chuva e o levou para trabalhar no supermercado.

 

– Eu tava trabaiando de gari… Aí o homem passava e falava: “Fica na sombra um pouco, seu Jose”. Quando tava chovendo ela falava: “Esconde da chuva ali embaixo da marquise”. Um dia ele chegou e perguntou: “Voce quer trabalhar pra mim, no mercado? Lá o sr. não precisa ficar no sol, na chuva…”. Eu topei. Fiz os exames, tava tudo certo. E fui trabalhar no mercado. Eu gosto de trabaiá.

 

Isso aconteceu no começo de 2009. Jose Bernardo estava então com 91 anos. Trabalhou mais 14 anos, até que foi obrigado a se aposentar.

– “Eu tava meio resfriado… de repente deu uma coisa em mim, eu caí lá no mercado… eles me ajudaram, mas falaram que eu não podia mais trabalhar”, conta ele com tristeza!

 

Com a aposentaria – forçada – Jose Bernardo voltou para perto das suas raízes. Hoje mora com a filha Benedita, 84 anos, em Cachoeira de Minas onde nasceu. Não trabalha mais no Center Box mas não esquece os amigos. E nem os amigos esquecem dele. Todo mês um grupo de funcionários administrativos o visitam. Levam remédios, mantimentos, pastel quentinho… Quando eu estava conversando com ele, chegaram a Renata, o Nâna e o Dadinho. Receberam e distribuíram abraços sinceros e calorosos. A visita não é por obrigação. É por admiração, carinho, respeito e gratidão por uma pessoa humilde que cumpriu tão bem sua missão… e deixou rastros em suas vidas!

Apesar da lucidez, nalguns momentos a memória o trai. Jose Bernardo se refere a Pouso Alegre como se ainda estivesse morando em Pouso Alegre. E sempre que fala do patrão e dos colegas de trabalho no Center Box, se refere ao “mercado”, tal qual ele conheceu na juventude. E fala, com orgulho, que trabalhou no ‘mercado’ durante 100 anos.

Durante nossa longa conversa, entre boas lembranças e risadas, Jose respondeu algumas perguntas, sempre com gratidão, com alegria, com saudade e bom humor.

 

A.CHIPS: Qual a lembrança mais antiga que o sr. guarda na memória?

J.BERNARDO: Eu era pequeninho… tinha 7 anos, quando meu pai foi embora. Ficou só eu, meu irmão de 5 anos e minha mãe. O irmão morreu. Ficou só nóis dois. Minha mãe trabaiava na fazenda, tirava leite. Aí eu comecei ajudar ela, apartar bezerro, tratar das vacas, tirar leite…

 

A.CHIPS: Como foi isso? Por que seu pai foi embora?

J.BERNARDO: Um dia ele falô: “Muié, mata um frango, faz uma matula… amanhã eu vou embora”!

 

A.CHIPS: Embora! Embora pra onde?

J.BERNARDO: Meu pai falou que ia sair pro mundo, pra ganhar dinheiro… Deve estar ganhando até hoje. Deve tá rico!… nunca mais voltou! (responde e dá risada da própria piada)

 

A.CHIPS: A vida do sr. parece que não foi muito fácil. Qual a parte ‘mais ruim’ da sua vida?

J.BERNARDO: Não lembro… Acho que não teve tempo ruim… Tudo era bom. Tinha que trabalhar, mas tudo era bom. Quando era menino ajudava minha mãe tirar leite, trabalhei na roça. Depois fui carrear, levar mercadoria pra Pouso Alegre. Depois mudei pra perto de Pouso Alegre… trabalhei de tudo. Andei pro mundo todo. Aí voltei pra Pouso Alegre e trabalhei de gari … depois no mercado. Gostava de trabalhar lá. Fazia de tudo. Ninguém precisava mandar. Eu sabia minha obrigação. Eles me tratavam bem… mas tive que parar. A perna tá meio bamba… não posso andar muito mais.

 

A.CHIPS: Qual a maior tristeza que o sr. teve na vida?

J.BERNARDO: A maior tristeza… é não poder trabalhar mais.

 

A.CHIPS: Qual a melhor lembrança o sr. guarda da vida? (aqui seu Jose levanta a cabeça, parecendo buscar a resposta no espaço, ou no tempo. E fala com saudade).

J.BERNARDO: Melhor lembrança… era quando carreava carro de boi… trazendo abobora, laranja, milho … de Cachoeira para Pouso Alegre. Depois de fazer a entrega num mercado que tinha perto da ponte na entrada da cidade, eu voltava um pouco e soltava os bois no pasto do Aristeu Rios. Dormia lá mesmo… debaixo do carro de boi. No outro dia juntava os bois e voltava pra Cachoeira…

 

A.CHIPS: Na juventude, além de trabalhar, o sr. fazia outra coisa, uma diversão?…

J.BERNARDO: Gostava de jogar bola. Eu era bom. Levava a bola pra direita, cortava pra cá e passava para o companheiro, ou senão cortava e chutava de canhota! Eu jogava igual o pelé. Se a gente fosse da mesma época, ia fazer uma dupla no meio-campo na seleção.

 

A.CHIPS: Se pudesse voltar no tempo, em qual período gostaria de voltar, o que o sr. gostaria de fazer?

J.BERNARDO:  queria voltar na juventude… cangar os bois e carrear… Ouvir o canto do carro de boi.

 

Jose Bernardo tem muito mais histórias simples, puras e saudosas pra contar. Pra mim foi uma manhã histórica. Plagiando Jose Bernardo ao se referir ao seu pai, se eu não tivesse outros compromissos, eu estaria lá, conversando com ele até agora, rsrsrs…

 

Longa vida ‘Vô’ Jose Bernardo!

“Capim Gordura”… Poço de amores proibidos!

Fonte onde os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime!

O Capim Gordura virou zona residencial… Mas não chegou – e nem chegará a ter um ambiente familiar!

Não se sabe ao certo quando começou a prostituição no mundo. Mas pode-se afirmar que foi logo depois que Eva comeu a maçã. Não com Adão exatamente, mas, com os que vieram de suas costelas!

Amores e coitos furtivos, sem o fito de reprodução da espécie, mas simplesmente pelo prazer da carne, sempre existiram mundo afora. Os primeiros registros citam o ano 2.400 a.C.

Em Pouso Alegre, cujas primeiras concentrações de pessoas de famílias diferentes se deram muito antes da historia oficial, lá pelo inicio do século 18 quando os caçadores de ouro vindos de Vila Rica para São Paulo paravam para repousar, já existiam os amores proibidos, amores carnais, amores vendidos por mulheres que precisavam alimentar seus filhos, sem maridos. Assim, com o passar do tempo, para generalizar o comercio e atender a demanda, as vendedoras de prazer se agruparam numa só casa, com o nome de “Zona Boêmia”,  caracterizada pela luz vermelha.

Em Pouso Alegre, embora não se tenha um registro preciso, em 1920 a Zona Boêmia já estava instalada nas rebarbas da cidade, no logradouro que seria chamado mais tarde de Rua David Campista.

Inicialmente, com uma população de pouco mais de 10 mil habitantes, era um local pouco habitado, distante do centro. Como a cidade crescia como cresce abobrinha verde, em pouco tempo o antro de prostituição – chamado pelas beatas de antro de perdição -, já estava no centro da cidade. A Zona não saiu do lugar. Foi o crescimento inevitável da cidade que levou a população para a Zona, para perto das prostitutas. Quando a sociedade e as autoridades perceberam, a rua inteira já era dedicada à prostituição. A quinhentos metros da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, a três quarteirões do velho Mercado Municipal, a um quarteirão do Santuario do Imaculado Coração de Maria, no coração de Pouso Alegre, ficava a famosa “Rua da Zona”, “Zona de baixo meretrício” ou simplesmente: “Zona Boêmia”. Era ali que o amor livre, desde que fosse pago, é claro, acontecia. A rua toda exalava o cheiro de álcool, em todas suas variações: cachaça, cerveja, whisky barato, rum, Campari e, perfumes baratos. Quem passasse algumas horas ali levava um pouco daquele cheiro para casa, impregnado na roupa, nos cabelos, nas narinas… Os casados, não raro, entravam na manguara das esposas ciumentas!

Embora execrada pela maioria da sociedade moralista, a prostituição era aceita e defendida por boa parte da sociedade, inclusive alguns figurões abastados e autoridades. Apesar dos pesares, “a prostituição é um mal necessário”, diziam figuras graúdas da sociedade.

Urgia, no entanto, retirar a Zona do centro da cidade.

Em 1969, com a população batendo nos 40 mil, teve início a pendenga para acabar com a prostituição, ou ao menos tirá-la da vista das crianças inocentes … e dos maridos puladores de cerca! Dentre os defensores das mulheres que viviam no pecado, vendendo prazeres e promovendo a discórdia nos lares, havia advogados, juízes, delegados… Uns brigando quase com unhas e dentes. Outros, fazendo vista grossa. Por conta disso a pendenga Sociedade x Prostitutas se arrastou por mais de dez anos.

A luta travada entre beatas, padres, advogados, vereadores, juízes, ministério publico, delegados, nos púlpitos e tribunais – e entre quatro paredes – naqueles treze anos de pendenga, daria um livro.

As beatas finalmente venceram. O golpe final – literalmente – foi dado por um gigolô. O assassinato de Margarida Leite, a mais poderosa cafetina da cidade, em 1982, foi a pá de cal que faltava para sepultar a Zona Boêmia da Rua David Campista.

O comercio do prazer carnal a pouco mais de cem metros da igreja do santuário, acabou. Mas não acabou na cidade. Apenas mudou de endereço. Com terrenos facilitados pela prefeitura, a “Zona” mudou-se para o Jardim Aeroporto. O espaço, inicialmente de apenas uma rua larga e comprida (depois foram surgindo os puxadinhos nas ruelas laterais), ganhou o meloso nome de Capim Gordura (alusão ao capim cheiroso, colorido e meloso que campeava o local até então).

A mudança da Zona do centro para um local distante da cidade, trouxe prejuízos para o comercio local e para os frequentadores de modo geral. Para se chegar à zona, só de carro, particular ou de taxi! Quem mais perdeu com a mudança foram os charreteiros. Eles faziam ponto na Avenida Duque de Caxias e muitos deles tinham hora marcada para buscar suas clientes na zona, para fazerem compras no mercado e nas lojas do centro. Morando agora distante oito quilômetros, as mademoiselles do sexo, para virem à cidade, tinham que chamar um taxi, através do telefone fixo (único que havia) com três dígitos.

 

Mas nem todos perderam.

A distância do centro da cidade selecionou a clientela das vendedoras de  prazer. Quem tinha carro ou tinha dinheiro para contratar taxi para ir à zona, tinha dinheiro para gastar com elas, num local mais discreto e planejado. As casas do Capim Gordura, todas novas, foram construídas com certo planejamento, com vários quartos, um amplo salão com barman ou ‘bargirl’, onde as vendedoras de prazer seminuas assanhavam, assediavam e fisgavam seus clientes. Mudou-se o ‘status’. Antes as casas da Zona eram identificadas pelos nomes de suas donas: ‘casa da fulana ou sicrana’. No Capim Gordura ganharam o pomposo nome de “Boates” da fulana!

 

Quem mais ganhou com a mudança da Zona para o Capim Gordura, foram os policiais civis! Era na zona boêmia, infindável poço de prazeres carnais, que os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime na cidade, na região e além dela.

 

Não sei se Freud chegou a estudar ou mencionar alguma coisa sobre essa parte do comportamento do homem. Mas é fato, o homem precisa contar seus segredos, suas façanhas, seus crimes!…

 

Nos anos 80 o banditismo urbano começava a ganhar projeção. Assaltos de porte médio a bancos, postos de gasolina, supermercados, carros pagadores, cargas de cigarros, ganhavam espaço. Eram comuns esses crimes nas estradas federais, notadamente no Vale do Paraíba. Assaltos que envolviam milhões de cruzeiros, cometidos por bandos de três a cinco assaltantes. Bem-sucedidos ou não, os assaltantes que sobreviviam às balas dos policiais ou escapavam das suas pulseiras de prata precisavam dar um tempo, sair de cena, esperar a poeira baixar, serem esquecidos. O melhor esconderijo era a zona boêmia das cidades crescentes como Pouso Alegre. Ali, além de escapara dos braços da lei, eles poderiam unir “o útil ao agradável” nos braços das sensuais mariposas!

É aí que entra a teoria que o grande medico e psicanalista austriaco não chegou a estudar! O homem, tanto quanto a mulher, precisa falar dos seus amores! Das suas façanhas, contar suas bravatas, exibir seu poderio, sua superioridade, seu machismo. Depois de dois ou três dias na Zona, apenas bebendo e comendo… com ou sem tempero, os bandidos começavam a dar com a ‘língua nos dentes’, começavam a se abrir, a contar suas façanhas. É claro que eles confiavam nas suas amantes e pediam – alguns exigiam! – absoluto segredo, como se pedir segredo a uma mulher tivesse alguma relevância!

 

Mas como esses segredos chegavam aos policiais?

Bem, isso passava por todo um processo.

 

Mulheres de vida fácil sempre tiveram vida difícil. Vistas como meros objetos de prazer, as prostitutas viviam no limiar da violência… e da honestidade! Viviam ao sabor do humor dos seus clientes, a maioria sem eira e nem beira. Por muito pouco elas entravam na manguara dos guampudos mal-humorados. Depois de usufruir do ‘bembom’, mediante promessa tácita de pagamento, os trogloditas pagavam com sopapos e bolachas. E as pobres donzelas, ao invés do seu suado dinheirinho, recebiam apenas arranhões, hematomas e olho roxo.

É aí que entravam os policiais, os bravos paladinos da lei! Só os policiais, os bons policiais, conseguiam domar os garanhões, chamá-los na chincha, colocar-lhes os bridões e colocar ordem no galinheiro, quero dizer, dominar o território sem lei do Capim Gordura.

Atender aos chamados e intervir em brigas e pequenos furtos em um ambiente imoral, à margem da lei, não era prioridade da polícia. A menos que houvesse uma compensação. Foi nesse contexto que “juntou-se a fome com a vontade de comer”! As prostitutas precisavam dos policiais para protegê-las… Os policiais, aos menos aqueles mais sacudidos, aqueles que iam muito além do ‘cumprir o expediente’, precisavam dos ‘segredos’ das prostitutas. Assim, os melhores serviços da polícia civil nasciam de informações plantadas no Capim Gordura. Dessa relação promiscua das prostitutas com seus amantes, e de amizade e proteção com os detetives, nasceu o casamento perfeito. E gerou muitos frutos.

De 1982 a 1985 a Zona Boêmia do Capim Gordura, local árido e pedregoso, donde se produzia pouco mais do que o capim meloso, mandou para trás das grades dezenas de assaltantes de todas as plagas e perfis, e colocou a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre no mapa estatístico da criminalidade em Minas, como a delegacia mais produtiva do Estado. São desse período áureo da PCMG/Pouso Alegre os casos:

 

– O “Ladrão do Bagdá e seus quase 40 ladrões”, 1982!

O insuspeitável e sorrelfo dono do famoso restaurante instalado no prédio do DA/FDSM – frequentado por acadêmicos, professores e magistrados – mantinha uma extensa e rotativa equipe de ladrões que, nas horas mortas da noite ‘visitavam’ sítios e residências na região. Quando finalmente o sorrelfo comerciante – amigo de gente graúda – enroscou-se nas malhas da lei, mais de quarenta dos seus furtos sorrateiros, centenas de “res furtiva”, foram colocadas pelos abnegados policiais sobre a mesa do Homem da Capa Preta. Uma dessas “res furtiva”, ironicamente, já estava lá, no pescoço de um magistrado! (Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá – “Meninos que vi crescer”).

 

– Assalto ao carro pagador da Alpargatas, 1983.

A ação planejada e executada pela quadrilha liderada pelo agricultor “Zé do Cano”, culminou com o latrocínio do bancário Moacir, na Perimetral. Com as informações levantadas na zona, nos dias seguintes foram presos o mentor do assalto, quatro assaltantes de São José dos Campos e dois policiais militares que atuaram como informantes.

 

– “300 carros roubados”, 1984.

A investigação, municiada com informações colhidas pelo quarteto de Detetives no Capim Gordura, revelou um intrincado esquema criminoso que envolvia ‘puxadores’ de carros, intrujões acima de qualquer suspeita, e até um delegado ‘graúdo’ que ‘esquentava’ os documentos dos veículos roubados. Nas semanas seguintes, mais de 300 carros roubados foram localizados e apreendidos.

 

Graças a essa promiscua – e perigosa – relação entre um impetuoso e assanhado quarteto de Detetives e as prostitutas do Capim Gordura – Poço de amores proibidos! Fonte onde bebiam os bons policiais – a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre manteve-se, por vários anos na crista de produtividade no Estado.

 

A parceria Polícia Civil/Capim Gordura poderia ter ido mais longe, não fossem dois fatores. O referido quarteto de policiais – detentores dos arquivos vivos da Zona… e das atividades ‘informais’ de alguns chefes – sabia demais, por isso foi desfeito. Em 85 cada Detetive seguiu um rumo diferente. O outro fator seria ainda mais fulminante. Em poucos anos o capim Gordura morreu. Morreu a golpes lentos e certeiros… Foi assassinado pela famigerada  Sida… Quero dizer, pela AIDS. Mas aí, já daria outro livro!

 

O “Capim Gordura”  marcou a vida de muita gente…