Os vendedores de fazenda da esquina da Catedral!

Eram cinco ou seis vendedores vendendo e comprando entre eles para fisgar os matutos…!

O casarão cheio de janelas na esquina, deu lugar ao Edifício Teixeira…!

Contar historias de Pouso Alegre é fácil… O difícil é escolher apenas uma história para contar! São Tantas.
Tem histórias da infância, histórias vividas, historias antigas, histórias que eu investiguei, histórias policiais…!
Essa é uma de meia idade, dos anos 1970… Uma historia pouco conhecida. É a historia dos “Vendedores de cortes de fazenda”!

No inicio da década de 70, o lugar mais perto que se achava roupas feitas para comprar, era na famosa Rua Maria Marcolina, no Braz, ou na Rua 13 de Maio, em São Paulo. Em Pouso Alegre, quem precisasse de roupa, tinha que comprar a ‘fazenda’ e levar às costureiras para fazer. Alfaiate só tinha o Keide, na Dr. Lisboa; o Gouveia, na Dom Nery; o Mario, na Com. Jose Garcia, e mais uns dois ou três que só faziam ternos e ainda assim, por encomenda!

Casas para comprar o tecido, a ‘fazenda’, não faltavam…
Tinha a Casa Senador, a Casas Pernambucanas, Casa Mendes, a ‘Cotonfil’ e tantas outras.

E tinha também os vendedores ambulantes de fazenda!
Eles faziam ponto na calçada da Praça Senador José Bento, naquele trechinho, entre a esquina da Afonso Pena e a Casa Morato.

Na época o Edifício Teixeira – construido no lugar onde fora o casarão do Senador Eduardo Amaral-, ainda estava na base. O terreno era cercado por um alto muro de tábuas.
Naquele trecho de calçada havia comerciantes de todo tipo…
Tinha o ‘Dito Seleiro’, cujos filhos vendiam selas, arreios, chibatas de couro, bainha de facões, etc.
Tinha vendedor de picolé ‘Milk Money’, com carrinho ambulante;
Tinha vendedor de panos de prato…

Eu era o vendedor de Raspadinha…! Aliás, fui o único garoto na história de Pouso Alegre a vender Raspadinha! E não é essa que vocês estão pensando, não…
Ficava quase na esquina da Afonso Pena, ao lado dos filhos do sorumbático Dito Seleiro, de olhos vermelhos!
No mesmo trecho, andando pra lá e pra cá, de acordo com a conveniência, ficavam os vendedores de fazenda…!
Tinha o Ze Maria, o Ze Gato, o Ze Bonitinho, o Josias, o Osvaldo, o Alicam…
Eu só soube o nome deles décadas depois nos clubes de carteados nas imediações do Mercado Municipal.
Eram uns seis ou sete ladinos, todos mancomunados entre si para ‘tomar’ o dinheiro dos capiaus que por ali passavam.
Era difícil escapar de suas artimanhas!

O golpe funcionava assim:

* Quando o capiau – cidadão geralmente usando calça caqui, camisa lisa ou listrada com a fralda por dentro da calça, chapéu e botina rústica de couro – passava, denotando que era ‘da roça’, geralmente trazendo a guaiaca recheada, um dos vendedores então se aproximava e oferecia o corte de tecido!
* Enquanto o vendedor tentava enrolar o cliente indeciso, outro companheiro passava de mãos vazias, parava, fingia se interessar pelo corte, dizia que estava muito barato e ‘comprava’ os tecidos…
* Incentivado pelo ‘comprador’, o capiau também acabava comprando alguns cortes…
* Às vezes, quando o capiau estava relutante em cair na tramoia, o vendedor propunha uma compra casada;
* – Olha, estes seis cortes a cinquenta cada um, dá 300… São os últimos que tenho… Se vocês juntos arrematarem o resto, eu faço tudo por duzentos cruzeiros… cem para cada um, quase metade do custo! – dizia ele… e fechava o negócio.
* O falso comprador então se afastava, ia tomar um cafezinho no mercado municipal ali perto, – ou uma dose de suco de gerereba! – e meia hora depois voltava para devolver os cortes e pegar seu dinheiro de volta!
E o ciclo recomeçava, com os personagens em papeis invertidos!

Os estelionatários do calçadão da Casa Morato ‘deram’ a manta em muitos capiaus ingênuos que por ali passaram ostentando seu embornal de lona cor de terra a tiracolo!

Eu tinha na época 12 anos de idade. Achava aquilo curioso, mas não sabia exatamente o que estava acontecendo.
Sim, mas, o que havia de mais em os camelôs usarem aquele ardil para vender o seu produto?
Bem… é que, se não fosse a ladainha do vendedor e principalmente do falso comprador, o matuto não compraria nada!
Além do mais, os cortes de tecido ‘empurrados’ na lábia goela abaixo do roceiro, eram da pior qualidade… Não valiam sequer um quinto do preço pelo qual eram vendidos!

Uma década depois, já na policia, eu entendi que, o que os vendedores de fazenda do calçadão da Casa Morato faziam, era uma modalidade de “Conto do Vigário”!

Décadas depois reencontrei os vendedores de fazenda nos clubes de carteados nas imediações do Mercado Municipal. Não eram tão velhos mas quase tinham vida desregrada. Hoje quase todos já morreram. Um deles, ironicamente eu levei agonizante para o pronto socorro numa quarta feira de 1992. Na segunda-feira seguinte eu soube que o baianinho Josias havia sido sepultado no sábado anterior!

Nenhum daqueles vendedores de fazenda, que passaram a ‘manta’ nos capiaus no “Calçadão da Casa Morato” nos anos 70, conseguiu comprar sequer um palmo de terra com o dinheiro ganho na venda fraudulenta de ‘cortes de fazenda’!

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…E assim surgiu o “Ribeirão das Mortes”

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 Há cerca de duzentos, quando o século 19 era ainda uma menina de cabelos de trança e boneca no colo, a garbosa Santana do Sapucaí já espalhava suas tranças pelos bairros da Cata, Tanque, Matadouro e Lava-pés. A imponente cidade, uma das quatro com mais de sessenta primaveras no Sul de Minas – as outras eram Campanha, São Gonçalo do Sapucaí e Camanducaia – se equilibrando no centro do morro, já contava cerca de três mil habitantes! Pouso Alegre, muito mais favorecida pela topografia, pela hidrografia e outros atributos naturais, ainda engatinhava… A capela de Bom Jesus do Matosinhos já estava onde está hoje, cercada por dois piscosos ribeirões! À direita o ribeirão que descia do bairro Primavera e corria serpenteando pela atual Avenida São Francisco e Ruas Cel. Ribeirão de Abreu, Bom Jesus, São João e João Basilio; e a esquerda o ribeirão que nascia no bairro da saúde, ao pé do bairro Santo Antonio e descia pela hoje Avenida João Beraldo até desaguar nos fundos da fazenda do Chiquinho de Freitas. Se o padre tivesse que sair da pequena capela para fazer um batizado às margens do velho Mandu, teria de ir no lombo de um cavalo baio bem arreado e forrado com vistoso e macio pelego ou numa charrete puxada por uma eguinha pampa, pois da Praça Senador Jose Bento às margens do piscoso rio era ‘uma viagem’…

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Da emergente Pouso Alegre de pés descalços à impoluta Santana do Sapucaí, em lombos de burros ou carros de bois, era viagem para quase uma semana… Dependendo da época do ano! Foi justamente este detalhe “época do ano” que estreitou a historia entre a ‘metropole’ Santana e a vila de Bom Jesus do Matozinhos! Do outono ao inicio da primavera, a viagem de cerca de trinta e cinco quilômetros poderia ser feita em apenas um dia… De setembro, quando começavam as chuvas, até o final da enchente das goiabas, em março, a mesma viagem em lombos de burros ou carros de boi podia demorar até uma semana!

A menina Pouso Alegre, embora já desse ares de que se tornaria em breve uma linda donzela e mais tarde  uma sedutora coroa ricaça – cobiçada por tantos que querem administrar seus dotes! – ainda dependia de Santana em vários aspectos, inclusive dos santos! Mais propriamente da ‘imagem’ do santo, o qual já havia sido escolhido para apadrinhá-la: “Bom Jesus do Mártires”! O ‘santo’ já havia sido adquirido numa transação ligeiramente obnubilada entre o pároco Hermógenes e o vigário Jose e Mello! Quando em 1792 o vigário da Vila de Bom Jesus do Matosinhos pediu autorização ao prelado Dom Manuel da Ressurreição em São Paulo, para construir a capela na vila, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires já estava em poder do beato Angelo Gomes Moreira – seu zelador – esperando o altar para recebe-la.

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Acontece que a transação com o pároco Hermógenes estava eivada de duvidas e insatisfação! Nunca se soube ao certo se o padre de Santana do Sapucaí havia vendido, doado ou ‘emprestado’ a imagem do santo ao vigário da vila de Pouso Alegre, que, aliás, ainda não havia sido batizada com o nome do ‘alegre’ pouso! Por isso os santanenses, queriam a imagem de volta. E queriam a todo custo! Passaram a pressionar os vilarinhos do Mandu para que devolvessem a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires. Inclusive com ameaças!

– Só vamos esperar passar as festividades religiosas… Na semana seguinte, se a imagem do santo não estiver aqui, vamos buscá-la pessoalmente! – Ameaçavam os descendentes de Francisco Martins Lustosa, fundador da cidade meio século antes.

        Aquele ano, São Pedro – que dizem que além de manter as chaves da porta do céu, cuida também da central de abastecimento de agua – a Copasa de além das nuvens – parece que estava fazendo uma pequena torcida para Pouso Alegre ficar com o ‘São Bom Jesus’ e resolveu botar lenha na fogueira… Abriu as torneiras e deixou a chuva cair! Findas as festividades religiosas anuais, embora muito a contra gosto, pois já haviam escolhido Bom Jesus para padrinho do município que se avizinhava, mas querendo evitar a primeira guerra mundial, justamente por causa do santo, os vilarinhos trataram de atender o ultimato! Tentaram a viagem pelo bairro Faisqueira… Sem chances! Tentaram pelo Ribeirão… Não conseguiram sequer subir o morro da Cava – atual curva da Rua Bento Doria Ramos. Voltaram com o santo para a capela a fim de esperar a estiagem. Não tardou o sacristão recebeu novo recado ameaçador;

 

Para saber qual foi o recado e o desfecho dessa historia, acesse “www.meninosquevicrescer.com.br”.

 

O ‘velho’ Aterrado… E eu!

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A primeira vez que atravessei a ponte sobre o velho e piscoso Mandu e adentrei o velho Aterrado, foi montado numa bicicleta Monark azul-escuro. Levava na frente da reforçada bicicleta de carga um botijão de gás. Até então eu só conhecia o lado norte do rio, onde ia com o pai de uns amigos meus pescar mandi, piaba, tabarana e lambari debaixo da ponte, onde hoje passa a polemica e bela Avenida Perimetral. Na ocasião o bairro já havia sido batizado com o nome do santo, mas continuava sendo chamado pelo apelido de nascença: Aterrado. Passei pela oficina de bicicletas do Wilson na cabeça da ponte e segui pedalando garboso a pesada bicicleta da firma “Gouveia Gás”, desviando de pessoas, cavalos, outras bicicletas e poucos carros, ora pelo passeio, driblando as arvores, ora pela rua poeirenta!

Eu adorava bicicleta! Pedalar o dia inteiro pela cidade, ainda que carregando a pesada carga de 28 quilos na ida e 15 na volta, era mais que um trabalho, era um prazer, uma diversão! Na época, Roberto Carlos já era ‘rei’ e a Jovem Guarda ainda era jovem. Quem mais vendia discos ‘compact play’, de duas e quatro musicas era o cantor brega, Odair Jose, o terror das empregadas… Era o ano de l973.

Já no inicio daquela década, quando Simão Pedro Toledo começava transformar Pouso Alegre na mais progressista cidade do Sul de Minas, o velho Aterrado já era mal afamado. Não era qualquer um que se arriscava a atravessar o bairro. Até porque não tinha para onde ir! Depois da Curva do Japonês não existia cidade… Era só pasto. Só fazendas. A Refinações de Milho Brasil é que levaria a cidade para o sul.

… Mas demorei alguns anos para criar coragem!

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Em 1969, quando comecei explorar Pouso Alegre com minha caixinha de picolés de uva, groselha, laranja, abacaxi e limão, Carlinhos Tigrinho, filho do patrão recomendou:

– Evite ir vender no Aterrado… Os moleques de lá te tomam os picolés, te dão uma surra e quebram sua caixa!

Pouso Alegre tinha 39 mil habitantes divididos em sete ou oito bairros, além do centro. Eu teria clientela suficiente nos bairros Cascalho, Primavera, Santo Antônio, Saúde, por perto de minha casa, sem ter que atravessar a ponte.

Três anos depois da advertência do filho do ‘seu’ Ferreira, fui estudar no Mons. Jose Paulino. Eu era ainda impúbere, mas além de estar atrasado nos estudos, precisava trabalhar durante o dia. Portanto fui estudar à noite. Foi meu primeiro contato com os moradores do Aterrado. Todos mais velhos do que eu. Lembro-me de alguns… O Bernardino, o Luiz Egidio, o Edesio! Lembro mais de ‘algumas’… A Geny, uma linda loira esguia de cabelos lisos, pele de pêssego…! Devia ter uns 17 anos. Acho que era ‘Ferreira da Silva’, da família dos Coelhos. Não dava bola para ninguém. De vez em quando seu namorado, um rapaz forte e barbudo, motorista de caminhão, vinha buscá-la na porta da escola. É por isso que ela não dava bola e ninguém se atrevia…! Depois da Geny, que não era para o meu bico, tinha a Lourdes… Essa sim eu poderia tentar! Mas Francisco Carlos de Aquino, o “Flor” chegou na frente! Mas não se casaram. Eu só voltei a revê-la muito tempo depois, no inicio dos anos 2000, na porta do velho Hotel da Silvestre Ferraz, quando ela foi visitar seu filho, o “Patinho”! Acho que ela não se lembrou de mim…

Esta esquina traz trágica lembrança, em '83...

Esta esquina traz trágica lembrança, em ’83…

O convívio com os moradores do Aterrado no Grupo Escolar Mons. Jose Paulino e a estreita amizade com um colega de trabalho, me fez perder o medo do Aterrado e de sua gente. Fui percebendo que eram pessoas boas, normais, apesar de viver num bairro sem infraestrutura, sempre lavado pelas enchentes. A mudança da família do Marcos Reolan de Castro, irmão do Tunga, do Cafado, do Bedeu, do “Dila”, meu colega na sorveteria do Ferreira, todos amigos na Rua São Pedro, também contribuiu para acabar com minha fobia de Aterrado!

Quando fui trabalhar na loja do Zezinho Gouveia, conheci o Daniel. Ele era ‘desentupidor de fogão’. Morava no Aterrado, em frente a futura oficina do Celinho Xaxa. Fui algumas vezes à sua casa. Ser amigo de um morador do Aterrado acabou de vez com meu medo de infância. Por isso risquei a avenida e ruelas do bairro com desenvoltura naquela manhã de meados de 73 com minha pesada bicicleta, como se estivesse no quintal de casa. Ainda bem que perdi o medo, porque meses depois chegaram as enchentes. Assim eu poderia nadar no Rio Mandu no meio da garotada do Aterrado!

A ponte era o ‘point’ da juventude… O dia inteiro lotada de nadadores de rio. Piscina era coisa raríssima, coisa de rico! Cada vez que eu descia ao Aterrado para fazer uma entrega, encostava a bicicleta na oficina do Wilson e aproveitava para dar uns mergulhos. Trabalhava de bermuda e chinelos havaianas… Era só tirar a camiseta e disputar com os garotos quem saltava mais alto por sobre o parapeito da ponte! Era diversão gratuita para todas as classes sociais. Quando as águas baixavam, levava embora nossa alegria…

Acampamento cigano, ponto extremo do bairro, antes da Lagoa da Banana atualmente.

Acampamento cigano, ponto extremo do bairro, antes da Lagoa da Banana atualmente.

O inexorável tempo mudou meus hábitos! Levou-me para o exercito, mudou meu emprego, mudou o rio, mudou a ponte, mudou até a natureza… Já não temos enchentes como antigamente!… E nem garotos com aquela coragem!

Voltei a circular pelo velho Aterrado no inicio dos anos 80. Agora muito mais por suas vielas, que aumentara demais nos últimos dez anos. Já não ia levar gás de bicicleta… Ia buscar meliantes na “brasilinha verde” da delegacia! Meliantes de todo tamanho, idade, peso e periculosidade! Vi muita coisa acontecer. Inclusive um colega de trabalho numa poça de lama com seis tiros no rosto, em 83.

... O bairro entre as duas "Diques"...

… O bairro entre as duas “Diques”…

As lembranças do velho Aterrado, no entanto, são mais boas do que ruins. No final dos anos 80 até 92, o velho Aterrado tornou-se meu quintal de casa. Dirigindo a LEPA eu descia a vargem toda semana. Seja acompanhando os jogos que eu promovia, seja participando deles com a camisa do Canarinho, do América, do Olaria… Nos campos do antigo Madureira do Niquinho, do Santamaría do João cavalo, do Internacional do Zé Resende e Zé Nascimento, do Bangu do Boi, do Ditão. Hoje só resta o campo do Bangu.

No bairro que me causava pavor minha infância eu agora realizava os mais ferrenhos clássicos do futebol amador de Pouso Alegre. Até finais de campeonatos, sem policiamento, com o campo cercado apenas por uma corda e às vezes nem isso, sem tumultos. Invasão de campo, apenas os cavalos mansos de carroça do octogenário Sr. Geraldo Eleutério, de vez em quando!

Cada bairro de Pouso Alegre tem uma origem. O N.S.Aparecida já chegou a ser chamado de Bairros dos Coutinhos. O Santo Antonio foi ‘colonizado’ pelos ‘imigrantes’ dos Afonsos, Cervo, Cantagalo. As pessoas que deixaram a zona rural do Pantâno, Cajuru, Anhumas, Imbuia se estabeleceram no Jardim Noronha, São João e Jardim Yara. O velho Aterrado acolheu os oriundos dos bairros do Sitio, Vitorino e Água Quente. Daí talvez a fama de bairro violento, devido à personalidade forte dos antigos moradores daquelas paragens do município de Silvianopolis. Não que fossem violentos, mas eram pessoas muito corretas, de estopim curto, que sempre levavam na cinta uma peixeira. Como não eram bons de conversa, logo punham fim à discussão exibindo a ‘lapiana’. Eram pessoas que resolviam seus negócios na base do “fio do bigode”…

Entrada do bairro hoje...

Entrada do bairro hoje…

Os crimes que aconteciam no bairro há 40 anos, no entanto eram crimes de honra. As gerações mais novas desvirtuaram essa personalidade e o bairro ficou mal afamado. Com o crescimento da cidade e principalmente a proliferação das drogas, o velho Aterrado ganhou status de bairro mais violento de P. Alegre. É o bairro que concentra a maioria das “bocas de fumo” e “biqueiras” de drogas! É onde “formiguinhas” do trafico disputam palmo a palmo com as formiguinhas saúvas o mesmo espaço! A população decente, ordeira e trabalhadora do bairro, que naturalmente é a imensa maioria, é quem paga o pato por isso…

Ah, velho Aterrado, como você cresceu! Antes era apenas a avenida empoeirada, ora estreita, ora larga e as travessas do Rolica, travessa Abrão, travessa do Bangu, travessa Cordeiro Olímpio, Rua Oscar Dantas, Padre Natalino, Aristeu Rios… Depois vieram as ruas Osvaldo Mendonça, Maria Porfiria de Abreu, Luiz Prudenciano Alves, Roberto Ramos de Oliveira, João Sabino de Azevedo, Sapucaí, Antônio Pereira Sobrinho, Daniel Paulino dos Santos e outras tantas ruas e vielas. Agora até a Rua Nova ficou velha!!!

A famosa Lagoa da Banana, onde a prefeitura poderia construir  "cidade administrativa"! Ha pouco mais de um ano ainda tinha água...

A famosa Lagoa da Banana, onde a prefeitura poderia construir a “cidade administrativa”! Ha pouco mais de um ano ainda tinha água…

... Hoje virou mato!

… Hoje virou mato!

A Avenida Dique II à Oeste do bairro, que depois de uma década parece que vai sair do papel – no momento está no centro da briga politica entre governo federal e estadual, orquestrada pela prefeitura que embargou sua inauguração – deve contribuir entre outras coisas, para a melhora da qualidade de vida dos moradores do bairro São Geraldo.

Neste lixão da Rua Daniel Paulino dos Santos, moram varias pessoas!  Atravessando o Rio Mandu, a menos de 100 metros dali, está a famosa Avenida Perimetral, de frente para o Bretas, a poucos metros do centro da cidade..!

Neste lixão da Rua Daniel Paulino dos Santos, moram varias pessoas! Atravessando o Rio Mandu, a menos de 100 metros dali, está a famosa Avenida Perimetral, de frente para o Bretas, a poucos metros do centro da cidade..!

Uma outra avenida à leste, partindo da perimetral, passando nos fundos da Rua Nova, lagoa da banana, desembocando atrás do Estádio Manduzão, levaria infraestrutura e melhoraria muito a vida do sofrido, porém orgulhoso, morador do Aterrado. Em 2004 sugeri a construção dessa avenida e do “Parque Administrativo da Prefeitura” na ilha da “Lagoa da Banana”, concentrando ali todos os órgãos do poder executivo do município. Se o desenvolvimento chegasse àquela região da cidade, além de facilitar a vida dos moradores, tiraria o espaço dos meliantes que usam aquela área para ludibriar a policia. Seria muito mais fácil combater o trafico formiguinha por ali. Minha sugestão foi natimorta: entrou por um ouvido e saiu pelo outro! É apenas um sonho… Mas bem que o povo do sofrido Aterrado merece!

... A 'nova' ponte sobre o velho Mandu.

… A ‘nova’ ponte sobre o velho Mandu.

 

 

Parabéns Pouso Alegre…165 anos de faceirice!

Quando Jesus & Jacira, o casal Romeu & Julieta manduano, marcaram para sempre o “Beco do Crime”, pondo fim ao seu romance proibido, na madrugada natalina de 1956, você tinha apenas 29 mil habitantes…

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Quando te abracei e te adotei como minha cidade, em 1969, você já abraçava 39 mil pousoalegrenses!

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Hoje abraça 140 mil e acaricia outros tantos visitantes…

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Até onde você vai crescer minha amada Pouso Alegre?

Daniel, três anos de alegrias…!

         Sete de julho! Já faz três anos que você chegou… Colocou a boca no trombone quando sentiu a diferença de temperatura. Três anos de intensa convivência.

       Às vezes parece que foi ontem! As vezes parece que faz uma década!

       Quanta coisa aprendi neste tempo! Voltei a sentir o frio das madrugadas, ouvindo o curiango cantar no inverno… Inúmeras vezes pude reviver o espetáculo de uma chuva fina e perene contra a luz na madrugada enquanto sentia o leve sussurrar do seu sono em meus braços. Pude novamente contemplar a beleza do nascer do sol atrás da colina, através da vidraça… Quantas vezes senti um nó entalado na garganta olhando o horizonte, pensando em quanto tempo eu poderia estar com você? Quantas vezes as lagrimas desceram pela face olhando seu corpinho frágil sem poder tirar-lhe as dores? Reaprendi a chorar…!

      Reaprendi a conversar com Deus… Aliás, você me reaproximou de Deus! Não teve mais um só dia que não conversasse com Ele sobre você, sobre mim, sobre nós…! Não teve mais uma só noite que eu não fechasse os olhos e viajasse por rios, vales, montanhas, campos floridos para agradecer ao Pai pelo seu sorriso, pelos seus primeiros passos, pela sua voz…! Talvez por ser um anjo você nos aproxime tanto de Deus!

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       Três anos desde que você chegou com menos de um quilo e meio e nos submeteu à primeira prova… De fé, de esperança… Agora você enche nossa casa, nossa vida, já conta historias, já tem seus amiguinhos da escola. Tem até os preferidos! Só não decidiu ainda se vai torcer para o Galo ou para o São Paulo!daniel e mamâe

       Não tem importância. O importante é torcer – e jogar – a favor do equilíbrio, do bom senso, da bondade, da firmeza e da humildade, da justiça, do respeito pela vida…

Daniel e papai      Que Deus o abençoe Daniel e que você possa repetir muitos três anos de vida sorrindo com saúde, paz e harmonia com papai & mamãe,  com sua irmãzinha, seus irmãos e todas as pessoas à sua volta.

DSC07646       Te amo demais meu caçulinha!

O mistério do Corpo Seco – Herói ou Vilão?

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Ao chegar na esquina da travessa Jose Contrucci dos Santos com Cel. Otavio Meyer, tive duas sensações completamente antagônicas com o que vi à minha frente. Um carro de boi descia lentamente a rua cascalhada em direção ao mercado municipal, levando uma pesada carga que, pela mistura de odores, parecia ser polvilho azedo e rapadura. O carreiro ia à frente da boiada de seis bois zebus mouro-rosa. A longa vara de guatambu, quase três metros, descansava solene no ombro da camisa xadrez azul e branco, com a ponta voltada para o céu. De vez em quando ele olhava para trás e brandia o ferrão fazendo a argola tilintar para mostrar à junta de guia a direção a seguir, embora a boiada já conhecesse de cor e salteado aquele trajeto, trazendo cargas de feijão, milho e lenha em outras ocasiões do ano. O carreiro de meia idade, homem alto, rude, pele queimada debaixo de um chapéu de junco amarelado, porém bem conservado – era o chapéu de vir à praça. O da lida diária lá no bairro dos Afonsos, era de palha e estava bastante puído – seguia meio cabisbaixo parecendo enfadado. Não seguia sozinho. Atrás do carro que cantava triste uma melodia indefinida, seguia seu filho que devia ter uns 12 anos. O garoto com as bochechas rosadas do sol da manha, se vestia parecido com o pai; sapatão de couro cru, calça jeans Topeka, de pouco uso, camisa xadrez verde-branco. O chapéu era de palha branca com uma listra azul e estava preso à cabeça por um barbante que passava por baixo do queixo. Parecia estar usando pela segunda ou terceira vez. Muito vivaz, corria de um lado a outro do carro dando ordens – desnecessárias – à parruda junta de coice. Um pouco abaixo da esquina o carro que descia carregado cruzou com outro que subia. Era puxado por uma boiada de quatro juntas, todos bois jovens, de cerca de quatro anos, exceto a junta de coice, mais herada. A boiada, também moira, predominantemente branca, puxava um carro parcialmente vazio, por isso cantava menos, predominando o som grotesco e sem ritmo das duas rodas de ferro no cascalho rústico da velha rua. Naquele momento passaram também dois cavaleiros lado a lado em direção ao Santo Antonio. O da direita montava um imenso cavalo baio, marchador, de crina dourada bem aparada, enquanto o da esquerda, que poderia ser seu filho, cavalgava uma garbosa mula preta passeira com orelhas tão grandes que mais pareciam um coelho. O baio levava no arreio um pelego pardo, combinando o tom de cor com a da pelagem, enquanto a mula preta tinha o peso do jovem cavaleiro atenuado por um pelego vermelho. Não levavam nada além da guaiaca. Bem vestidos e cobertos por chapelões de feltro, pareciam viajantes à negocio

1960_001      Carros de bois, cavalos, cavaleiros, uma bagageira que surgia na curva do Colégio Santa Doroteia, Continuar lendo

Está chegando a hora de arrepiar…!

       Porque ele se tornou o terror das crianças ‘arteiras’ e malcriadas???…

      O segredo guardado a sete chaves finalmente será revelado!!!

      Mas quem era ele? Quando viveu?

      … Herói ou vilão?

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      Neste final de semana você vai saber…

 

A saga dos irmãos Reanir… O assassinato do policial Cabeçada

MENINOS QUE VI CRESCER

Eram cerca de cinco e meia da tarde do dia 26 de novembro de 1984. Na inspetoria de detetives existia apenas uma maquina de escrever Remington usada para preenchimento de ficha manual de suspeitos e outra Olivetti Línea 88 – moderníssima para a época – para fazer relatórios policiais. Por isso, o ponto de encontro habitual dos detetives era no saguão da delegacia. Ali, no final da tarde se jogava conversa fora, comentava-se os fatos do dia, falava-se das investigações em andamento, contava-se historias engraçadas e se apelidavam as pessoas – Foi numa dessas ocasiões, no carnaval de 81 que o bonachão escrivão Afonso Edson apontou para mim e disse; “Chips”! Nunca mais me chamaram pelo nome…!

Marcos Alves da Silva, 23 anos, natural de Juiz de Fora estava ali, alegre e descontraído conversando amenidades. Relembrava fatos da Academia de Policia, pela qual passara a pouco mais de um ano, falava de sua cidade natal, dos seus primeiros meses de trabalho, do filho recém nascido… Eram suas ultimas horas de férias. Havia se mudado para Pouso Alegre e às oito da manha do dia seguinte começaria uma nova etapa de sua vida. Iria substituir “Zé Veio”, o lendário carcereiro do Velho Hotel da Silvestre Ferraz. Nós nos conhecemos em Ouro Fino, quando fugimos com “Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá” para interrogá-lo. A participação de Marcos e sua matilha de Dobermann no interrogatório fora fundamental para a confissão do meliante. Como eu, ele já tinha também seu apelido. Certa noite ao receber um preso embriagado para recolher ao xadrez, ouviu dele um sonoro e gratuito palavrão. Marcos aproximou-se a poucos centímetros do preso, olhou-o nos olhos e disse:

– Repita!

O mamado e abusado preso repetiu o palavrão quase cuspindo na sua cara…  Mal havia fechado a boca, recebeu uma cabeçada na testa e caiu de costas no chão! Naquele momento o jovem policial foi rebatizado de “Marcos Cabeçada”!

Naqueles dias João Batista Alvarenga, o Alvarenguinha “Dez p’ras Duas” e Claudemir Jose Dorigatti estavam investigando uma serie de furtos ocorridos em sítios no bairro Curralinho. Levantaram que um dos envolvidos era Francisco ou Antonio Reanir de Lima, morador da várzea direita do velho Aterrado, mais ou menos atrás da chácara do João Cavalo. Vivíamos ainda sob a égide da Constituição de 67 e ela não exigia mandado de prisão para prender suspeitos. Na manha seguinte, Alvarenguinha e Dorigatti, dois policiais com pouco mais de um ano de serviço, iriam “dar o pulão” no suspeito Reanir de Lima. Precisavam de mais alguém para a “operação café da manhã”. Cabeçada, sempre disposto e prestativo, como a maioria dos novos policiais, se ofereceu para participar da diligencia.

Feliz por realizar um trabalho de detetive embora fosse carcereiro, feliz pelo filho recém nascido, feliz por trabalhar na Regional, Marcos Cabeçada se despediu dos colegas e foi embora. Fomos juntos. Ele jogava de lateral no meu time e morava em um porão em frente minha casa, no bairro da Saúde. Não tínhamos carro. Fomos à pé. Eu também tinha dois filhos ainda em fraldas e seguimos conversando sobre crianças, sobre futebol, sobre policia, sobre sonhos… Nenhum de nós imaginava que na manha seguinte seus sonhos seriam ceifados e meus pesadelos começariam…irmãos reanir Continuar lendo

O velho Aterrado e… Eu! –

Pouso Alegre da minha infancia…!

A primeira vez que atravessei a ponte sobre o velho e piscoso Mandu e adentrei o velho Aterrado, foi montado numa bicicleta Monark azul-escuro. Levava na frente da reforçada bicicleta de carga um botijão de gás. Até então eu só conhecia o lado norte do rio, onde ia Continuar lendo