Covid Brasil X EUA … Para pensar na cama!

Enquanto aqui morreram 97 mil pessoas, lá, no mesmo período, com todas as pessoas vacinadas, morreram 390 mil pessoas!

Em setembro de 2021, num dos momentos mais sensíveis da pandemia do Coronavírus, comecei arquivar os números da doença, no Brasil e nos Estados Unidos. Naquela ocasião, toda a população americana, que quis, já havia sido vacinada. O Brasil estava bem próximo de atingir o mesmo objetivo.

 

Em meados de setembro do ano passado, os números da Covid nos dois países eram estes:

 

Brasil: (Sexta, 17 de setembro 2021… 20 milhões de casos + 34.407 novos casos + 649 óbitos = Total 589 mil óbitos

USA: (Sexta-feira, 17 setembro 2021… 43 milhões de casos + 155 mil novos casos + 3.415 mil óbitos = Total 670 mil óbitos

Desde então venho acompanhando os números nos dois países. Nesta terça-feira, 27, este são os números atuais nos dois países:

 

Brasil: Terça-feira, 27 setembro… 34,6 milhões de casos + 13.861 novos casos + 85 óbitos = Total 686 mil óbitos

USA: Terça-feira, 27 setembro… 95,9 milhões de casos + 58.520 novos casos + 404 óbitos = Total 1,06 milhão de óbitos

 

Depois de ceifar 686 mil vidas humanas no Brasil e 1.06 (um milhão e sessenta mil) nos Estados Unidos, a Covid está sob controle em quase todo o planeta. A imprensa já nem liga mais para Covid. Os números da Covid no mundo já não fomentam mais as intrigas políticas e não vendem mais audiência nos veículos de comunicação – a menos que seja para colocar 400 mil mortes na conta do adversário político.

Há várias semanas a média de mortos por Covid no Brasil estacionou na casa de 50 por dia, em média. Nos Estados Unidos a média se mantem alta, em torno 500 óbitos por dia há várias semanas.

Os números diluídos neste final de semana ficaram em 404 óbitos no país do democrata Joe Biden. Amanhã, esse número deve aparecer acima de 700.

No Brasil, também em números diluídos para o final de semana, foram anotados 85 óbitos por Covid. Amanhã esse número será inferior a 50. Acesse o Google nesta quarta-feira e confira.

Apesar de ter ceifado tantas vidas, a Covid ajudou centenas de prefeituras e dezenas de Estados a colocar suas contas ordinárias em dia! Sim, todos os estados e municípios do Brasil onde há estrutura mínima para cuidar da saúde, receberam polpudas verbas do governo federal para combater a Covid. Nem todos usaram o dinheiro para isso… Nem todos conseguiram evitar que as pessoas contraíssem o vírus e que morressem em decorrência dele! Morreram, infelizmente, – e lamento – aquelas pessoas que tinham, sabendo ou não, algum tipo de comorbidade e, de um jeito ou de outro contraíram o vírus! Na minha família isso aconteceu.

Dentre tanto que se falar sobre a covid nestes dois anos e meio, um fato precisa ser trazido à tona, ao conhecimento da sociedade, para que as pessoas reflitam sobe tudo que ouviu da imprensa e dos políticos neste período: trata-se dos números da Covid nos dois países, quase iguais em tamanho e tão diferentes na economia: EUA e Brasil.

Os Estados Unidos têm 335 milhões de habitantes… O Brasil tem 215 milhões.

Nos Estados Unidos, morreram de Covid, 1,06 (um milhão e sessenta mil) pessoas!

No Brasil, morreram de Covid 686 mil pessoas.

Até aí tudo bem. A proporção está próxima da equivalência.

O que chama a atenção é o período em que essas pessoas morreram!

Nos últimos doze meses, mais precisamente desde o dia 17 de setembro de 2021, quando comecei a acompanhar diariamente os dados pelo Google, no Brasil morreram 97.000 (noventa e sete) mil pessoas…

No mesmo período nos Estados Unidos, país mais rico do mundo e dono da mundialmente conhecida farmacêutica Pfizer, morreram 390.000 (trezentos e noventa) mil pessoas!

Por alguma razão, a grande mídia não fala sobre isso. Eu também não vou falar. Deixo para você, que acabou de ler essa matéria, refletir e tirar suas conclusões!

 

Obs: esses números, como eu disse no início, foram anotados diariamente desde o dia 17 de setembro de 2021 até a presente data. Portanto, os números não são meus… São do Google. Estão lá à sua disposição.

Um policial na corda bamba!

O carro no qual ele viajava levava um quilo de maconha!

Trevo da Brasilinha, na Fernão Dias (foto ilustrativa, retirada do vídeo  “Como era a Rodovia Fernão Dias antes da duplicação”, no Pouso Alegre . Net

 

Doar sangue e contribuir para salvar uma vida, é um ato senão heroico, ao menos nobre. Talvez por isso, sempre que os hospitais ou bancos de sangue estão com o estoque muito baixo, apelam para instituições públicas tais como Corpo de Bombeiros, Policias Civil e Militar e quartel do exército, para reposição e são prontamente atendidos. Foi assim que me tornei doador de sangue. E por muitos anos pude sentir a prazerosa sensação de ser – quase – ‘herói’!

Além do sentimento altruísta de estar contribuindo gratuitamente para a saúde de uma pessoa – na maioria das vezes desconhecida; da gratidão dos parentes da pessoa beneficiada; do atendimento especialmente carinhoso dos funcionários do ‘banco de sangue’; daquele ‘lanchinho especial’ servido pela copeira; do olhar de orgulho das pessoas à sua volta, há um outro sentimento… O de “folga”! De não ter que trabalhar naquele dia! Sim, após a retirada de 500ml do precioso líquido, o doador precisa de repouso. Como as doações são agendadas sempre pela manhã o doador de sangue tem o resto do dia livre.

No quartel, embora fôssemos soldados – a maioria contra a vontade, pois o serviço militar é obrigatório – não estávamos interessados tanto na nobreza do ato, mas sim na folga inesperada e gratuita naquele dia. Por isso, sempre que o comandante da bateria solicitava a manifestação de cinco voluntários para doação de sangue no dia seguinte, vinte e cinco ou mais levantavam as mãos, rsrsrsrsrs… Eu era um dos primeiros!

Na polícia também comecei cedo a nobre carreira de doador de sangue! Antes mesmo de ser diplomado.

Era uma quinta feira de janeiro de 81. Antes de dispensar a “D8”, minha turma do curso de formação de detetives na ACADEPOL, o coordenador fez a clássica pergunta:

– Tem algum doador de sangue aqui!

Mal ele concluiu a pergunta eu já levantei a mão!

– Voce deverá estar em jejum no hospital da PC na Av. Carandaí, às 08:00h da manhã. Peça o comprovante de doação… e pode tirar o resto do dia de folga – orientou ele.

Tirar folga justamente na sexta-feira e poder voltar para casa um dia antes, depois de três semanas longe da família, era quase um sonho. Ficou melhor ainda quando cheguei à minha ‘república’, no Prado, ao pé da noite. Um ex-colega do exército, que eu não via desde que dera ‘baixa’, estava hospedado ali e voltaria para Pouso Alegre na manhã seguinte, ele e o motorista do pai. Melhor impossível! Eu nem precisaria pegar o ENSA às nove e meia da manhã para chegar em casa, com sorte, às seis da tarde. Melhor ainda, de carona, de ‘grátis’! Deus estava me recompensando pelas minhas boas ações de doador de sangue!

Às sete da manhã peguei o ônibus azul na esquina do Cine Amazonas. Às nove peguei o ônibus vermelho na Praça 7, de volta para a república. Poucos minutos depois minha singela mochila estava no banco de trás da Caravan verde do pai do meu amigo. Com aquele carrão, e um motorista maduro e experiente, antes das três da tarde dobraríamos a lombada do Clube de Campo Fernão Dias e eu pousaria meus olhos saudosos na minha querida Pouso Alegre. Bendito o dia em que me tornei doador de sangue, pensava eu!

Mas havia pedras no caminho! Na verdade… erva!

Meu ex-colega do 14º GAC, vizinho de armário e de beliche, era consumidor de um produto até então especial, que não se encontrava a qualquer hora em qualquer lugar naquela época. Hoje, em cada esquina da Baixada do Mandu em Pouso Alegre, você encontra esse produto… Na verdade, você nem precisa descer à baixada… Basta um ‘torpedinho’! Em quinze minutos um motoboy entrega a encomenda na sua casa, na porta da sua escola, ou até mesmo no seu local de trabalho. Tempos atrás um assessor da câmara municipal de Pouso Alegre comprava o tal produto através do Cel. corporativo da Casa de Leis! No alvorecer da década de 80, esse produto, natural e perfumado, além de proibido, era raro e caro… mesmo na capital! Por isso a encomenda do meu amigo demorou para chegar! E o tempo foi passando… Dez horas, onze horas, onze e meia… meio-diiiiiia!…

Eu já começava a me arrepender da carona! Se tivesse pego o Impala às dez e meia da manhã na rodoviária, chegaria ao Fernandão em Pouso Alegre antes da cinco da tarde. Mas era um saco viajar no Impala lotado ouvindo a tagarelice cantada da baianada que descia do Nordeste para S.P. Além do mais, o Impala fazia a linha Teixeira de Freitas-BA/São Paulo, não entrava na cidade. Eu teria que descer no trevo da Brasilinha e descolar uma carona para casa… E eu nunca foi bom de carona! Meu amigo ao menos me deixaria na porta de casa.

À uma da tarde, quando eu já pensava em descer para a rodoviária a fim de pegar o ENSA das 15:30h, finalmente um golzinho pardo parou sorrateiro na esquina. Depois de ter certeza de que não era uma cilada dos ‘homi’, o motorista se aproximou do portão da república e entregou a encomenda.

Às 13:15h, depois de consumir o produto proibido, finalmente pegamos a estrada. Tanto meu amigo ex-soldado quanto seu motorista, exalavam o cheiro adocicado da ‘erva’! Fizeram duas viagens … uma pela perigosa Fernão Dias esburacada… e outra pelas estrelas, no rabo do cometa!

Quatro e trinta e cinco da tarde avistei Pouso Alegre. Minutos depois apeei da Caravan na porta de casa no bairro da Saúde. Não sei como o motorista conseguiu fazer BH/Pouso Alegre – 390 km – em quatro horas e vinte minutos pela Fernão Dias de pista única! Com certeza a ‘erva marvada’ ajudou!

Depois desse fato, fiquei muitos anos sem ver meu ex-colega de caserna. Certo dia, já aposentado na policia mas frequentando regularmente a delegacia como jornalista policial, voltei a encontrá-lo por lá. Conversamos como velhos amigos. Falamos da caserna, do destino que um ou outro amigo havia tomado depois da ‘baixa’. Ele contou-me que havia viajado – literalmente – para outro continente e que estava de volta à cidade. De fato, ele se tornara um discreto, porém sério e honrado cidadão. Sobriamente vestido, sem nenhum débito com a lei. Mais tarde fomos vizinhos de bairro, nos cumprimentávamos cordialmente sempre que cruzávamos na rua, mas nunca tocamos naquela quase alucinada viagem BH/Pouso Alegre. Eu nunca soube o que ele fez com a antiga paixão que nutria pela ‘erva marvada’ quando era jovem.

Agora que você chegou até aqui, engate uma ré!

Volte pela mesma estrada 40 anos no tempo…

Imagine se naquela vertiginosa viagem pela esburacada Fernão Dias, tivéssemos sido parados numa blitz dos homens da lei!

Imagine o que aconteceria se os patrulheiros da estrada tivessem encontrado um tabletão de quase um quilo de canabis sativa de Linneu dentro da Caravan!…

Receber as pulseiras de prata e assinar o artigo 12 da lei 6368, seria apenas um detalhe!…

Depois de doar meio litro de sangue para um deputado na capital,  e pegar uma carona para chegar mais cedo em casa, minha viagem terminaria no Velho Hotel da Silvestre Ferraz!

Naquele dia o jovem acadêmico de polícia, aspirante a detetive, conheceria o lado de dentro de uma cela… e encerraria precocemente sua carreira policial, antes mesmo de concluir o curso e receber o diploma!

Tudo por conta de uma carona com um amigo…

Cão Peregrino…

“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”!

                                                                     Antoine de Saint Exupéry

Passava pouco de dez da noite quando nos despedimos do recepcionista da pousada. Ajeitamos a mochila nas costas, abotoamos os agasalhos, checamos os cajadinhos de bambu e reiniciamos a caminhada. Tínhamos mais de 60 quilômetros de trilhas e estradas até chegar ao nosso destino. Dois minutos depois viramos a esquina e entramos na avenida principal da pequenina e aconchegante cidadezinha serrana. A pracinha ainda estava movimentada. Apesar do friozinho suave de fim de inverno no alto da serra, idosos ou casais de namorados curtiam a prosa ou o affair nos banquinhos duros em frente a igreja bucolicamente iluminada. Diga-se de passagem, a passagem pela avenida central da simpática cidadezinha com cara de europeia, em qualquer época do ano, é de encher os olhos! Sempre muito colorida, com muito movimento de turistas, de romeiros, muita vida pulsando… – No começo sul da avenida tem uma minúscula padaria que faz o melhor misto quente da região… Nem mesmo a carranca do dono – que mantém um olho no caixa e outro na clientela, para evitar o cano – afugenta os romeiros que param ali para tomar o tradicional ‘pingado’ pelando o céu da boca! Santo Antonio do Pinhal é um divisor geográfico e de sentimentos antagônicos! Quem volta de Aparecida ou de Ubatuba, quando passa por ali, embora ainda esteja há quinze quilômetros da divisa, começa a sentir os ares do Sul de Minas. Quem vai à pé para Aparecida, ao passar por Santo Antônio na parte baixa do cume da serra, sente que está mais perto da Mãezinha! Quatro quilômetros adiante, dos pés da gigante imagem branca de N.S. Auxiliadora, os olhos dos romeiros, já cansados, se perderão na imensidão do Vale do Paraíba. A partir de Santo Antônio do Pinhal, nossa viagem seria marcante. Já havíamos percorrido dois terços do nosso trajeto. No entanto, a partir dali nosso grupo de seis se tornaria sete peregrinos… Ganhamos um novo companheiro de viagem!

Ele estava brincando com outros quatro ou cinco amigos no jardim da pracinha da igreja matriz. Ao nos ver passar, talvez atraídos pelo cheiro do lanche que fizéramos minutos antes na pousada, se aproximaram e puxaram prosa. Entramos na conversa. Perguntaram de onde vínhamos, para onde íamos!… Contamos e, por educação ou por troça, convidamos todos a nos seguir. Os mais distraídos, ou preguiçosos – ou ateus! – ignoraram o convite e se afastaram, voltaram para a pracinha iluminada da igreja. Um deles, no entanto, aceitou o convite… e nos acompanhou! Não sabíamos até onde ele iria, mas esticamos a prosa, estreitamos a amizade, perguntamos da família dele, falamos das cidades por onde passamos… e o novo companheiro de caminhada nos seguiu altaneiro, belo e faceiro, sempre respondendo… ora com um sorriso com a língua de fora, ora com um abano de rabo!

Quando saímos da claridade amarela das lâmpadas no final da avenida, e a escuridão da noite inundou a estradinha apertada, circundada por frondosos pinheiros, pinos e eucaliptos, pensamos que ele desistiria… Mas o sétimo peregrino continuou resoluto a caminhada. Ora atrás de nós, ora ao nosso lado, seguia em silencio, mas sempre respondia nossos afagos verbais com um abano de rabo.

Será que ele nos acompanharia até a Basílica?

Ou estaria apenas fazendo sua caminhada diária – fora de hora – como dezenas de pessoas costumam fazer naquele glamuroso e fresco trecho de serra?

Ou seria um espião do “Conselho dos Peregrinos”, disfarçado, testando a fidelidade dos romeiros, para ver se a gente não pegaria carona para encurtar a caminhada?

Parece que era mesmo apenas um cão sem dono, carente de companhia, feliz por fazer novos amigos!  A nova amizade, no entanto, exigia sacrifícios!

O primeiro obstáculo surgiu quatro quilômetros depois da pracinha, no final da subida da serpenteante estradinha, ao chegar à Estação Lefreve. Os portões da bucólica estação estavam fechados! Como era nosso atalho para descer a serra, buscamos uma solução ‘à lá molecagem’!… Galgamos a cerca de tela, pulamos para o lado de dentro, soltamos o trinco fincado no chão, e aluímos um pouco as duas folhas dos portões para que o nosso novo companheiro passasse! A estação estava sombria, fria e deserta. Cinquenta metros adiante, dos pés da imagem alva da santa que guarda o vale, descansamos nossos olhos nas milhares de luzes amarelas, brilhantes, piscantes e dançantes no imenso Vale do Paraíba. Acostumado a dormir ao relento e ver, toda noite, as luzes piscando no céu, no alto, nosso amigo ficou encantado ao ver pela primeira vez, as luzes piscando lá embaixo. Ficou alguns segundos imóvel, à nossa frente, contemplando toda aquela imensidão estrelada. “O céu deve estar de cabeça para baixo”, deve ter pensado!

A descida da serra pelos trilhos da linha férrea, sob a luz tênue e amarelada das lanternas, não foi fácil para nenhum de nós, afinal, os espaços entre os dormentes, colocados para suportar as pesadas barras de ferro, não tinham compromisso com peregrinos, muito menos peregrinos de quatro patas! Dois quilômetros abaixo, deixamos os trilhos da estrada férrea e tomamos a trilha de terra que nos levaria à Piracuama, na baixada.

Da soturna estação Eugênio Lefreve até a charmosa Vila Piracuama, o sétimo peregrino teve um motivo à mais para nos acompanhar… Segurança! Nenhum de nós, nem ele, se arriscaria a ficar naquele trecho deserto e escuro cercado de mata, no início da madrugada! Agora, no entanto, em um trecho ‘urbanizado’ e parcialmente iluminado, depois de mais de dez quilômetros de caminhada no escuro, pensamos que nosso amigo desistiria. Mas ele continuou decidido e satisfeito com os novos amigos. Depois de uns minutos sentados ou deitados na grama úmida e macia defronte as chácaras que enfeitam a vila, nosso peregrino arriscou-se até a caminhar alegremente na nossa frente!

Já estávamos há várias horas desfrutando da companhia do novo romeiro… Era hora de batizá-lo! O primeiro nome sugerido foi aceito por unanimidade pelo grupo… “Peregrino”! O próprio concordou com o novo nome com três gestos: um sorriso com a língua dançando nos lábios, um murchar de orelhas e um balançar de rabo!

Peregrino era um cão de porte médio. Era malhado – pintas grandes – de branco e marrom. Tinha alguns ferimentos na pele – e certamente também na alma – por conta das lutas pela sobrevivência com outros da sua espécie depois do abandono material. Todos os ferimentos já cicatrizados. O calejado cão aparentava estar descendo a serra da vida, ou seja, uns oito ou nove anos para quem viveria cerca de 12 anos. Era um cão forte fisicamente e resolvido psicologicamente… O abandono dos seus antigos donos, não deixaram traumas. Tanto que ele aceitou o pedaço mordido de sanduiche, confiou nos nossos singelos afagos, e se deixou cativar.

Os primeiros frutos da amizade dos seis peregrinos com o peregrino de quatro patas apareceram no trecho seguinte. Um ano antes eu havia passado por ali mais ou menos naquele horário, eu, Deus e meu cajado de bambu (ver “Peregrino Solitário”, publicado aqui no face no dia 17 de janeiro). Naquela ocasião, dezenas de cães latiam e saiam à beira da estrada para avisar quem mandava por ali. Desta vez, talvez os mesmos cães, latiam, mas não saiam dos seus quintais. Nenhum deles queria encrenca com o nosso Peregrino malhado marrom!

O sol forte da manhã veio nos encontrar antes da ponte do Rio Paraíba. O pequeno trecho de pouco mais de trinta quilômetros havia nos consumido toda a madrugada. Depois de um lauto café da manhã na primeira padaria que encontramos, e uma parada mais longa para recuperar as energias, viramos à esquerda e atravessamos a cidade. Quando saímos do outro lado, no trevo de Roseira, o sol já ia alto… e o Peregrino mais lento!

“Caminhar de Pouso Alegre à Aparecida a partir do mês de agosto é um comportamento humano que precisa ser estudado”, diriam os navegantes de WhatsApp hoje em dia. O sol de fim de inverno, com intensidade de verão nos trópicos, cobra mais dívidas do que o romeiro deve! O calor à margem da rodovia, a menos de um quilometro do Rio Paraíba, reduz muito o ritmo da caminhada. Qualquer sombra que surja à margem da via convida o romeiro a fazer uma parada… e torna a viagem cada vez mais lenta. E cansativa. É preciso ter um motivo para seguir em frente. Cada um ali tinha seus motivos… inclusive o Peregrino malhado. Ele havia feito apenas um terço da caminhada, no entanto, era o que mais mostrava os sinais do cansaço. Mas não pedia colo! Desde a saída de Pinda ele assumira o último posto da fila no acostamento quente e barulhento da estrada… sem reclamar. Uma caminhada dessas, de cento e cinquenta quilômetros, nos aproxima um tanto de Deus… E nos aproxima também das pessoas que caminham com a gente. Sentimos as alegrias e as dores dos nossos companheiros de caminhada. É como uma família, unida, somos todos irmãos – no meu caso mais do que isso. Meus dois filhos mais velhos caminhavam ao meu lado! Peregrino malhado agora fazia parte da família…Era nosso irmãozinho de quatro patas! Por isso, quando a distância entre nós aumentava, nós segurávamos os passos e esperávamos por ele… e o incentivávamos a prosseguir. Se estava difícil para um dos companheiros – marinheiro de primeira viagem – para o cão peregrino estava ainda mais.

Quando entramos em Moreira Cesar, achamos que perderíamos nosso amigo. A distância entre nós havia aumentado! Ele estava há mais de cem metros lá atrás… e vinha passo-a-passo! Devagar quase parando! Paramos na primeira lanchonete que avistamos e esperamos por ele. Quando chegou, uma eternidade depois, uma tigela improvisada com agua gelada esperava por ele na porta. Peregrino, no entanto, não teve forças sequer para beber. Deitou-se ao lado da tigela, fechou os olhos, estendeu meio metro de língua na calçada e ali ficou. Seu ‘arf, arf, arf’ descompassado podia ser ouvido do outro lado da rodovia! Aos poucos seu coração foi retomando o ritmo normal. Mas continuou deitado, imóvel, de olhos fechados, com a língua estendida na calçada!

Depois de meia hora sentados na porta da lanchonete, levantamos, ajeitamos as mochilas nas costas e retomamos a caminhada. Faltavam menos de vinte km para chegar ao destino, mas seriam os vinte quilômetros mais longos de nossas vidas! O copo havia esfriado… mas não havia descansado! Doía tudo. Doíam os tornozelos, os joelhos, o quadril, os braços … queimavam as solas dos pés. Só não doía um órgão do corpo: o coração! Ou seria a alma? Neste momento aconteceu o inusitado! Acordamos nosso amigo e avisamos que íamos partir… Mas ele não se moveu. Tocamos nele, falamos com ele…

– Vamos garoto, agora é o último trecho!

Mas Peregrino Malhado não se mexeu. Esticado no chão rústico da porta da lanchonete, suas costelas magras subiam e desciam suavemente… Estava respirando, estava vivo. Acordou, abriu os olhos castanhos, nos localizou, mas continuou imóvel. Quando demos os primeiros passos para nos afastar, Peregrino fez um pequeno movimento com a cabeça, sem tira-la do chão, para nos acompanhar. Acho que ele quis dizer:

– Vamos descansar mais um pouco… esperar o sol baixar…

Este foi um dos momentos mais marcantes da nossa caminhada naquele ano. Nosso amigo queria seguir conosco. Ele havia sido cativado… e nos cativara! Mas não tinha forças para seguir! Fomos nos afastando lentamente, olhando para trás, deixando palavras de incentivo. E o cão malhado continuava imóvel esticado na calçada, com a cabeça pregada ao chão… e os olhos tristes pregados em nós, afastando!…

Depois de mais de quarenta quilômetros de caminhada, de companhia, de convívio, de alegres conversas, será que nosso companheiro canino desistiria da caminhada? Seria assim, silenciosa, melancólica, no meio do nada a nossa despedida?

Continuamos lentamente a caminhada à margem da rodovia em direção à Aparecida, batendo distraidamente nosso cajadinho de bambu na areia da calçada que corta a cidadezinha de Moreira Cesar… A cada momento um de nós olhava para trás na esperança de ver nosso amigo com as quatro patas calejadas, no chão, trotando atrás de nós… Mas ele continuava lá, estendido na porta da lanchonete. Já não era mais possível ver seus olhos… Mas seus olhos castanhos nos viam! Antes que virássemos a curva e saíssemos do seu raio de visão, Peregrino levantou-se, com dificuldade, aprumou-se e reiniciou a caminhada. A princípio bem devagar, trôpego, até desatar as juntas. Em seguida passou a um trotinho lento. Não queria perder os amigos. Esqueceu até de beber a água… Ou talvez não tenha tido forças! Esperamos que ele se aproximasse… Chegou sorrindo amarelo, pedindo desculpas por ter demorado tanto a retomar a caminhada. Tivemos que improvisar nova tigela com água… e dividir com ele nosso lanche! Mas multiplicamos nossa alegria…

A partir dali a caminhada ficou mais lenta. O calor escaldante da tarde, as retas intermináveis, as dores ressuscitadas – um dos companheiros tinha bolhas e calos saltando fora do tênis! Tudo convidava a andar mais devagar. Cada sombra de arvore, cada barzinho copo sujo que surgia lentamente na beira da estrada, eram como oásis e convidavam para uma parada. Peregrino, sempre sorridente, com a língua dançando na boca aberta, respondia aos afagos verbais, agradecia e se estendia arfante aos nossos pés.

O sol dava seu último aceno no cume da Serra da Mantiqueira, por sobre Campos do Jordão, quando entramos no estacionamento da Basílica de Aparecida. Poucos metros depois, nas torneiras comunitárias, tiramos o suor do rosto e subimos a rampa… Missão cumprida! Nossa Senhora havia nos acompanhado durante toda a viagem… e em vários momentos havia nos carregado no colo… Faltava agora apenas o diálogo final!

Diante da imagem, na sala de visitas da nossa Mãezinha, nossos rostos molharam de novo! Desta vez não era de suor… Eram lágrimas de emoção. Lágrimas da alma! Pacientemente a Mãezinha ouviu a história de cada peregrino, de cada filho… E afagou cada um de nós!… E curou cada ferida!

Agora, o coração pulsava mais forte. Renovado. Cheio de esperança. O corpo não doía mais…

Peregrino, aos nossos pés, seguia os ritos, em silencio… e sorria de boca aberta, com a língua para fora, feliz. A qualquer afago, respondia também com o rabo.

Fim da história do Peregrino Malhado?

Não.

A saga do nosso amigo de quatro patas teria mais alguns capítulos…

Início de agosto, meio de semana… A capital nacional da fé estava vazia de romeiros. Ruas, ladeiras, lojas … apenas alguns ‘gatos pingados’… E raríssimos cães com seus novos donos! Escolhemos aleatoriamente um hotelzinho ao lado da Basílica Velha. Sobradinho antigo e acanhado encimado por lojas. Fomos ‘quase’ todos muito bem recebidos, quase … O porteiro que aliciava clientes na porta ao pé da escada, disse que não havia vaga para peregrinos de quatro patas! Nossa despedida, depois de quase 24 horas de fiel companhia, aconteceu ali na porta do hotelzinho de pernoites. Subimos para dormir no surrado quartinho… E Peregrino Malhado sob um banco qualquer do jardim!

Na manhã seguinte, quando atravessávamos o jardim da velha pracinha da Matriz em direção à gigantesca passarela que nos levaria à missa das 10:00h na Basílica, reencontramos nosso amigo. Peregrino estava brincado no meio do jardim. Quando nos viu passar, correu imediatamente em nossa direção, sorrindo, cabeça erguida, boca aberta… Queria saber como passamos a noite! Queria contar como fora sua noite debaixo do banco do jardim! Pelo jeito não guardara nenhuma mágoa da nossa ingratidão! Nem foi preciso convidá-lo para a missa. Seguiu-nos alegremente pela passarela e entrou educadamente na igreja. Apesar de ter entrado respeitosamente na Basílica, Peregrino Malhado não seguiu os ritos da celebração. Aliás, ele nem assistiu a missa! Tão logo nos sentamos num dos tantos bancos vazios próximo ao altar, Peregrino deitou-se debaixo do banco aos nossos pés e entregou-se às caricias de Morfeu… Dormiu durante toda a missa! Nunca soubemos qual era sua verdadeira religião.

O momento mais marcante, mais difícil da nossa caminhada de três dias aconteceria duas horas depois da missa, na estação rodoviária de Aparecida… Na despedida do nosso fiel amigo. Sentados nos bancos lisos e duros da plataforma de embarque, relembrávamos alguns trechos da caminhada. Deitado sobre as quatro patas, à nossa frente, Peregrino participava da conversa. Com a cabeça encostada ao chão e os olhos bem abertos, ele mais ouvia do que falava. Embota tenha visto que compramos apenas seis passagens, ele ainda não tinha certeza se viajaria conosco ou não. Mas já deixava transparecer no olhar a dor da separação! O rabo, quando abanava, era um abano discreto, sem energia, sem convicção. Seu sorriso era meio amarelo, carregado de incerteza. Quando nosso Mercedes encostou na plataforma, entramos na fila de embarque… nós sete. Peregrino educadamente seguiu no fim da fila, passo a passo, enquanto o cobrador conferia cada passagem. Quando o último de nós subiu a escadinha do Mercedes, Peregrino tentou fazer o mesmo… chegou a subir o primeiro degrau… Mas foi barrado pelo cobrador! Tentamos argumentar, nos propusemos a pagar sua passagem… Mas o cobrador foi insensível… e usou o sapato preto surrado e lustrado na barra da calça azul de tergal para impedir o embarque do nosso amigo. Peregrino, certamente acostumado a sentir a rudeza daqueles bicos de botina ao longo da vida, não insistiu. Afastou-se da porta do Mercedes, mas ficou por ali, correndo para lá e para cá ao lado do ônibus, como um cachorro caído de mudança, procurando seus donos, até que nos achou na janela do ônibus! Sentou-se nas patas traseiras e ficou ali diante da janela, conversando agitado conosco, com um palmo de língua molhada dançando de um lado a outro da boca, tentando encontrar uma saída… ou uma entrada no ônibus! Ou, quem sabe, tentando aceitar a separação. Quando o mercedão da Pássaro Marrom partiu, Peregrino nos acompanhou desnorteado por alguns metros, até que desistiu, parou de correr, saiu do meio da rua onde corria perigo, deu voltas inquieto em volta de si mesmo e dos carros estacionados … Desesperado! Se usasse as mãos como nós humanos, certamente colocaria as duas na cabeça e perguntaria a si mesmo:

– “E agora? Como faço para acompanhar vocês? O que será de mim sem vocês?”

Ao virar a primeira esquina, da janela do Mercedes, avistamos nosso amigo voltar lentamente para a estação rodoviária, quem sabe acreditando que aquilo tudo fora uma pegadinha, uma brincadeira de mau gosto, e que o ônibus daria a volta no quarteirão e voltaríamos lá para buscá-lo!

Não.

Não voltamos para buscá-lo. Não voltamos para trazer nosso amigo no ônibus… Mas trouxemos na memória, no coração!

Esse fato aconteceu no início de agosto de 2002. Naquela ocasião eu já havia lido e relido o “Pequeno Príncipe”. Conhecia de cor e salteado a clássica citação filosófica de Antoine de Saint Exupéry…

 

“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”!

     Talvez por isso, vinte anos depois, o Peregrino Malhado ainda continue vivo em minha memória!

     

 

Ernane Wood está de volta…

Ele e o sócio Mauricio reabriram a banca “Central” na Galeria Portal

“Não é a mesma coisa, pois estamos afastados da rua. Mas é o que dá para fazer. Trinta e oito anos trabalhando na mesma banca, no mesmo lugar… é a única coisa que eu sei fazer. E não dá para ficar parado”, diz Ernane, mais conhecido do que nota de dez na cidade.

Era eu ainda um garoto branquelo de calça curta quando passei pela primeira vez na Pç. Senador José Bento em Pouso Alegre e lá já estava a “Banca Central”! Era bem menor, proporcional ao tamanho da cidade que em 1969 tinha cerca de 40 mil habitantes. O dono era o Sr. Dirceu! Sujeito magro, miúdo, cabelos já grisalhos, lisos e bem cortados. Vestia-se com elegância, calça e camisa social. Entre uma tragada e outra do seu inseparável cigarro Minister, conversava com a clientela e com todos que passavam entre a banca e as “Casas Pernambucanas”. Nos anos seguintes, ainda molecão de cabelos compridos, entreguei muitos botijões de gás na sua casa na Rua das Papoulas no Jardim Yara e vinha cobrar a ‘notinha’ na banca. Tempos depois, quando Dirceu morreu, seu filho Juarez tentou tocar a banca, mas a profissão de funileiro falou mais alto.

Foi assim que Ernane Faria Wood assumiu a Banca Central e tocou o comercio de beira de calçada, com o sócio Mauricio, por mais de três décadas… e viu outras bancas de calçada surgirem pela cidade.

Em 2004, quando lancei meu jornal impresso FOLHA de Pouso Alegre, a cidade tinha 13 bancas de jornais. Seis delas num raio de menos de cem metros, no coração de Pouso Alegre. A mais antiga era a do Ernane na praça Senador José Bento. Ainda na praça, na outra extremidade, ficava a banca da Rita e logo adiante atrás da catedral, a banca da Ligia. Mais acima em frente a antiga Caixa ficava a banca do Sergio. No inicio da Duque de Caxias uma de cada lado: Saulo à direita e Toninho à esquerda. A banca do Chico reinou durante décadas no final da Dr. Lisboa em frente o Bradesco. Na Vicente Simões havia duas bancas, a do Carlinhos em frente o Alvoradão e outra na pracinha do Semáforo do Santa Lucia. Madalena tocou sua banca durante um tempo na porta da Univas. Defronte o Posto Pantanal havia a banca do Fernando. Rubens Gomes vendeu milhares de Figurinhas da Copa na sua banca na porta da Medicina.  Cristina, minha ex-colega do ensino fundamental, tem sua banca no interior do Baronesa. O velho Claret – e depois Andreia – vendia de tudo e um pouco mais numa banca no terminal rodoviário.

As bancas nasceram para atender a demanda das pessoas que liam “jornais e revistas”. Sim, houve um tempo em que as pessoas liam jornais e revistas impressas, rsrsrsrs! Com isso s bancas viviam abarrotadas de revistas semanais tais como IstoÉ, Exame, Veja, Placar, Contigo, Tititi, Caras, e outras de vida efêmera…

Havia também os jornais diários, de circulação nacional: Estado de Minas, Folha de São Paulo, O Globo… e os jornais semanais de Pouso Alegre. Na década de 90, a cidade teve oito jornais circulando regularmente – escrevi notícias policiais e esportivas em quatro deles (Sul das Geraes, Jornal do Estado, Diário de Pouso Alegre e Folha do Vale). Hoje apenas dois, tropegamente, conseguem sobreviver!

Com a mudança de habito do brasileiro e consequente decadência dos jornais e revistas, os comerciantes migraram para outros produtos. Visando a própria sobrevivência e as necessidades da clientela, hoje as bancas de jornais e revistas vendem brinquedos, souvenirs, isqueiros, recarga de celular, cigarros, ‘zona azul’ (quando funciona), chaveiros, posters do Galo campeão, rsrsrsrs, games, de quatro em quatro anos Figurinhas da Copa, bolinhas de gude, máscaras contra covid, balas, chicletes, e se um ribeirão passasse perto venderia também varas, anzóis e minhoca para pescar!

Vende até livros!

Em 2014, quando lancei meu primeiro livro, espalhei “Meninos que vi crescer” por todas as bancas da cidade. Ano passado “Quem matou o suicida” também foi parar nas gôndolas das bancas.

“Quem matou o suicida” e “Meninos que vi crescer” estão na Banca Central, na galeria Portal, ao lado do Teatro Municipal.

O golpe de misericórdia nas “bancas de jornais & revistas” de Pouso Alegre, foi dado pela prefeitura em meados deste ano. A pretexto de ‘revitalizar’ o centro a cidade, as bancas estão sendo retiradas, fechadas. A própria prefeitura se encarregou de ‘guinchar’ as bancas, como vimos nas imagens que circularam pela internet. Sergio, Rita, Carlinhos, Ernane se aposentaram ‘compulsoriamente’ … sem proventos. Perderam o ganha-pão…

Um destes comerciantes há anos entrincheirado na sua banca no centro, desesperado com o fim do seu ganha-pão, esteve muito perto do fim da vida!

Ernane deu a volta por cima. Depois de quase três meses sem trabalho e sem ver a cor do dim-dim que pingava todo dia, desde que sua banca foi fechada, ele o sócio Mauricio enfim reabriram a tradicional Banca Central. Desde o ultimo final de semana eles estão atendendo a clientela na Galeria Portal, na Dr. Lisboa.

“Não é a mesma coisa, pois estamos afastados da rua. Mas é o que dá para fazer. Trinta e oito anos trabalhando na mesma banca, no mesmo lugar… é a única coisa que eu sei fazer. E não dá para ficar parado”, diz Ernane, mais conhecido do que nota de dez na cidade.

Para atrair novamente a clientela, Ernane passa boa parte do dia na porta da galeria, ao lado do Teatro Municipal.

Boa sorte Ernane e Mauricio… Boa sorte órfãos de Bancas de Jornais & Revistas.

A Vendinha do “Vilino”

Deixou ‘rastros’ na minha terra.

Nasceu pequenina – uma porta e duas janelinhas – na beira da estrada. Viveu mais de quatro décadas… e morreu pequenina, na beira da estrada, com uma porta e duas janelinhas! Mas deixou histórias para contar…
Ao longo de mais de quarenta anos a vendinha do Vilino mudou três vezes de endereço, mas sempre na beira da estrada principal do bairro dos Coutinhos. A primeira foi construída entre a casa da “Lôrdes” e a casa do “Câindo”. Casinha de madeira com uma janelinha lateral, para que o vendeiro pudesse ver de longe quem se aproximava pela estrada poeirenta, outra janelinha para olhar quem passava em frente, e uma portinha no centro. No seu interior cabiam seis ou sete pessoas sentadas nos dois bancos, um grande e outro pequeno.
Ali se vendia pão com mortadela, guaraná Tubaína, paçoquinha, pirulitos e bala Chita de várias cores. O produto mais vendido, no entanto, razão de ser das vendinhas de roça, era… suco de gerereba! Tatuzinho, democrata, Moreninha, Amélia… de garrafa ou de garrafão. Por isso mesmo a vendinha não era socialmente bem-vista. Seus frequentadores ou eram jovens pouco afeitos às responsabilidades do dia seguinte, ou pouco afeitos aos hábitos caseiros. Ou então eram cidadãos menos sisudos, mais liberais…
Os conservadores não punham os pés na vendinha nem para buscar remédios! Se precisassem passar defronte a vendinha durante a noite, passavam do outro lado da estrada. Se por acaso estivessem usando lanterna, tocha de bambu ou tição de fogo para iluminar a estrada, apagavam, para não serem vistos e não ter que cumprimentar quem estivesse na janelinha da venda.
Além do secular suco de gerereba, descoberto casualmente pelos escravos de engenho séculos antes, a vendinha vendia também vinho suave e a tradicional loira gelada. A energia elétrica só chegaria ao bairro uma década e meia depois. Por isso, a cerveja era mantida em uma caixa de isopor em meio às pedras de gelo. O doce guaraná Tubaína e outros refrigerantes eram mantidos em contato com a terra, num buraco feito no barranco do lado de dentro da vendinha. Luz? Lampião à querosene!
Com raras exceções, a vendinha do Vilino foi um divisor social! Seus frequentadores quase sempre trabalhavam de camaradas para terceiros … Por isso mesmo, os conservadores, geralmente patrões, quando precisavam de um camarada para o dia seguinte, para a colheita ou plantio, para roçar pasto, para mutirão, etc… buscavam empregados – desocupados ou descompromissados – na vendinha do Vilino. A vendinha, única no bairro, era ‘ponto de encontro’ dos homens… servia de ‘agência’ de empregos. Servia também para se negociar excedente de produção agrícola, animais…
A segunda vendinha foi construída na curva da Porteira do Buraco, encostada no barranco da estrada, ao pé do terreno do ‘Tio Lilo’, duzentos metros distante da primeira. A venda cresceu. Ali cabiam sentadas encostadas na parede, quase dez pessoas. Por isso ganhou mais duas janelinhas, uma de frente para a estrada e outra na lateral. Alguns frequentadores vinham do bairro vizinho, o Canta Galo. Aos domingos, o entorno da vendinha ao pé do campo de futebol, fervia de gente. Ao lado da vendinha havia um banquinho – uma única tábua de madeira apoiada em três tocos fincados no chão – para acolher os frequentadores durante o dia. À noite não tinha utilidade, pois as pessoas não podiam ‘pegar’ sereno…
Quase tudo que vendia na sua pequenina vendinha, Vilino trazia do Bar do Nezinho em Congonhal. Inicialmente na garupa da sua bicicleta e depois no bagageiro do ônibus da Gardenia até o ‘ponto’ na beira do asfalto.
A terceira vendinha nasceu da necessidade de ‘barrar a concorrência’, já que estava localizada na beira do campo de futebol! Para isso Vilino comprou um bico de terreno do pretenso concorrente, a poucos metros da segunda, mais perto do ribeirão. Essa foi feita de alvenaria e abrigava até uma mesa de bilhar.
Vilino, desde pequeno trabalhava na roça. Por isso, excetuando os sábados e domingos, a vendinha abria sempre no finalzinho da tarde ou no crepúsculo, e fechava por volta de nove da noite. A rotina cansou o vendeiro. Depois de quase uma década na dupla atividade laborativa, Vilino vendeu a terceira vendinha para o “Tonho Dorvá”… e foi trabalhar na cidade.
A história da Vendinha do Vilino, no entanto, não se restringe à necessidade de ampliar a fonte de renda ou ao mero tino comercial. Vilino, que não se tem notícia de que tenha ostentado um único diploma escolar, era homem culto, politizado e bem informado. Ouvia diariamente, no seu radinho à pilha, “A Voz do Brasil” – programa popularmente tachado de enfadonho, no entanto mais barato, mais informativo e mais honesto do que qualquer outro programa radiofônico e ou televisivo hoje em dia.
Vilino era uma daquelas pessoas à frente do seu tempo. Ele queria propiciar informação às pessoas… ele queria estar em contato com as pessoas, ainda que fosse na sua singela vendinha de beira de estrada. Por isso, pouco tempo depois, retomou a antiga rotina. Agora, casado com ‘Marirene’, construiu sua vendinha no terreno do sogro Ovidio, na mesma curva da Porteira do Buraco, no lado oposto às duas vendinhas anteriores. Essa também, como mostram as fotos que ilustram essa crônica, era tão pequenina quanto as duas primeiras. Também tinha uma porta e duas janelinhas. E Vilino voltou a estreitar o convívio com os moradores do bairro… quase todos conterrâneos e parentes.
Da leitura dessa crônica se depreende que Vilino era um desses baixinhos tagarelas que vivem roubando a cena com causos pitorescos, piadas e palavrórios acima de cem decibéis … Ledo engano! Vilino era alto, forte, moreno e… calado. Roubava a cena sim, pois quando falava, todos se calavam para escutá-lo. Era o típico mineiro, daqueles que observam muito, que escutam muito, e só falam quando tem certeza… e só falam o suficiente!
Nos seus mais de quarenta anos de vendeiro, Vilino atendeu muitos clientes com garrucha de dois canos na algibeira; com faca na cinta; presenciou muito pé de briga; muita discussão, mas nenhuma delas passou das vias de fato. Quando ele intervia… os ânimos serenavam!
Durante décadas a pequenina Vendinha do Vilino viu na sua janelinha, nos seus banquinhos de madeira, homens sisudos… e homens hilários! Ouviu muitos casos… e causos! Ouviu muito riso… e também choro! Ouviu estórias… e histórias! Viu muitos meninos crescerem… e algumas pessoas partirem!
Avelino Augusto Coutinho, o ‘nosso’ Vilino, tocou sua vendinha de 1969 a 2011. Há poucos meses, aos 81 anos, ele voltou para os braços do Criador… Deixando rastros na minha terra!

A Despedida do Chiquinho…

Depois de três meses ouvindo rezas e ritos do padre Cintra na fazenda do Portuga, o Coisa Ruim da Borda decidiu ir embora! Mas prometeu que quando o ‘padre chato’ morresse, ele voltaria para buscar sua prometida!

A historia completa do “Coisa Ruim da Borda” e outras 49 cronicas investigadas pelo detetive estão neste livro.

Eram menos de dez da manhã de meados do mês de fevereiro quando o fazendeiro recolheu algumas rezes no curral, chamou a filha mais velha e disse-lhe:

– Mocinha, sua mãe vai me ajudar a curar bernes do gado… Vá você para a cozinha preparar o almoço!

A bela garota de 13 anos, prendada e obediente como todas de sua idade naquela época, simplesmente anuiu e foi cumprir a ordem do pai. Ao entrar na cozinha do casarão assobradado, na encosta de um pasto no alto da colina, estacou assustada diante do que viu e voltou correndo para chamar o pai…

– Ué, pai… o sr. me mandou fazer o almoço, mas o almoço está pronto! Está quentinho pronto para ser servido! Vem ver!

Sem entender o que a menina estava falando e sem tempo para discussão, Portuga soltou a corda que havia acabado de passar no pescoço de uma bezerra e foi para dentro de casa, acompanhado da esposa. Ao entrar na cozinha teve a mesma surpresa da filha… na taipa do fogão à lenha, panelas com feijão, arroz, abobrinha, torresmo ainda soltavam fumaça…

– Mas que diabos! Quem fez esta comida?

Neste instante um vulto quase invisível passou correndo em ziguezague pela cozinha em direção ao quintal deixando no ar um cheiro de enxofre e uma risada esganiçada e zombeteira. Ainda surpreso com a aparição da comida pronta, e com os pelos todos do corpo arrepiados, Portuga se aproximou das panelas e verificou que a comida estava tão cheirosa e saborosa quanto a que a esposa fazia todos os dias.

Esse foi o primeiro sinal da presença do Chiquinho na fazenda!

Mais tarde, cavalgando pelo pasto na lida com o gado, Portuga sentiu que seu cavalo arriou nas patas traseiras, como se alguém tivesse montado na garupa.

Por volta de nove da noite, quando tudo se aquietou na fazenda, os cachorros começaram a latir como se estivessem tentando afugentar uma alcateia. E depois passaram a uivar em lúgubre agonia. E assim vararam a madrugada.

Na manhã seguinte, ainda com cara de quem não dormiu, Portuga arreou o alazão e, embora não fosse fervoroso cristão, foi à cidade procurar o padre.

Desde então, durante várias semanas, o jovem pároco da cidade subiu a serra da Ponte de Pedra com sua batina preta cobrindo as ancas do pangaré castanho para benzer no casarão do Portuga. O benzimento passou a exorcismo e nas semanas seguintes outros padres mais velhos e mais experientes da região, como o padre Oriolo, de Pouso Alegre, o padre Alderige, de Santa Rita de Caldas, padres Capuchinhos de Ouro Fino vieram tentar expulsar o espírito brincalhão da fazenda do portuga…

Com os padres vieram também os repórteres… de todos os cantos do Brasil! A revista “O Cruzeiro”, a maior da época, estampou a história do Coisa Ruim da Borda na sua capa e nas suas páginas. Mas nada disso afugentou o Chiquinho. Cansados de subir a serra para as sessões de exorcismo, os padre mais experientes voltaram para sua paroquias… E o Coisa Ruim da Borda ficou só por conta do jovem padre Cintra.

Apesar da pouca experiência, o jovem e intrépido padre Pedro não abandonou seu rebanho. Toda tarde ele arriava seu cavalo e subia a serra da Ponte de Pedra para rezar no casarão do Portuga e tentar convencer Chiquinho a ir embora. Até que uma noite, depois de muitas Aves Marias e outros rituais católicos ‘exorcizantes’, finalmente Chiquinho se cansou, perdeu as estribeiras e disse com voz enfadada:

– Vou-me embora desta casa! Não aguento mais a reza desse padre!

E a paz voltou a reinar na fazenda do morro da Ponte de Pedra. O Coisa Ruim da Borda havia sido exorcizado.

Jornalistas e curiosos se plantão juram de pés juntos, que antes de partir, Chiquinho teria acrescentado:

– “Mas depois que esse padre chato morrer, eu voltarei para buscar o que é meu”!

A última aparição do Coisa Ruim da Borda aconteceu – isso é fato, está registrado no ‘Livro do Tombo’ da Matriz de Nossa Senhora do Carmo em Borda da Mata – no dia 23 de abril de 1953, há 68 anos!

O Padre Pedro Cintra morreu em 2003!

Será que Chiquinho voltou mesmo para buscar sua prometida?

O Mistério do Coisa Ruim da Borda – desvendado – está no livro “Meninos que vi crescer!

Aventura na festa da Borda

Meu apelido tem origem na famosa e simpática dupla de heróis “patrulheiros da (…) estrada…”. No entanto, dez anos antes, eu poderia ser chamado de “Pipoqueiro da estrada”!             

Mauritânia Furtado: 43 anos depois voltei para agradecer a bela  e gentil senhora que me deu um prato de comida!

A cena era de parar o trânsito! Quem passou pela MG 290  no meio daquela ensolarada e fresca tarde de julho, arregalou os olhos e depois colou o olhar no retrovisor do carro até sumir na curva da estrada. À beira da via um grupo de lavradores, uns descalços outros usando galochas de borracha, chapéus, outros portando enxadas nos ombros cercavam um pequeno veículo que parecia ser um carrinho de vendedor ambulante… um mascate! Quem diminuiu a velocidade pode constatar que de fato, era um carrinho de vendedor… de pipoca! Mas não era pipoca branca e quentinha para degustar assistindo sessão da tarde! Eram pipocas coloridas – verde, amarela, vermelha, laranja… – e amendoim torrado coberto com chocolate! A cena inusitada daquele carrinho sendo empurrado por dois garotos rodovia afora no meio da tarde lenta de julho atraiu a atenção dos lavradores que carpiam arroz na várzea superior na baixada do bairro Anhumas. Curiosos vieram até a beira da estrada tentar entender o que era aquilo! Certamente nunca tinham visto pipoca colorida, juntada com melado grudento e cortada em pedaços! Portanto, tinham que experimentar para ver que gosto tinha aquilo! Se os lavradores saciaram a fome e a curiosidade, os dois vendedores tiraram a barriga da miséria… Venderam dúzias de tabletes de pipoca colorida… pelo dobro do preço!

– Para onde vocês estão indo com esse carrinho? – indagou um dos lavradores.

– Vamos vender pipoca na festa da Borda… – respondeu o mais franzino.

– Nossa! Vocês nem chegaram na metade do caminho ainda! – observou outro, tentando desgrudar a pipoca vermelha dos dentes…

Saciada a fome e a curiosidade da clientela… e o bolso dos pipoqueiros! os dois garotos retomaram lenta e resolutamente a viagem, empurrando o carrinho colorido estrada afora, atraindo o olhar curioso dos poucos motoristas que passavam.

A aventura começara duas horas mais cedo perto da rodoviária de Pouso Alegre. Eu passava por ali empurrando aleatoriamente meu carrinho de pipoca quando esbarrei no meu velho amigo Rui de Paula – Sim, eu era menino, tinha apenas 12 anos, mas já tinha ‘velhas’ amizades. O Rui era muito mais velho do que eu: vinte meses! A amizade com o Rui era importante, pois ele morava no Aterrado… e eu morria de medo de ir ao Aterrado. Com a amizade fui aos poucos ganhando confiança!

Depois de trocar dois centavos de prosa o Rui falou:

– Hoje é dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Borda da Mata… Está tendo festa lá.  Vamos lá vender pipoca?

Aos doze anos de idade eu conhecia duas cidades: Congonhal, onde nasci e Pouso Alegre, onde eu morava há dois anos. A única coisa que eu sabia sobre Borda da Mata… é que a cidade ficava na direção de Borda da Mata! Mesmo assim, se o Rui que tinha catorze anos, era mais alto e mais forte do eu, era meu amigo, e sabia que tinha festa na Borda, não pensei duas vezes.

Saímos da praça João Pinheiro, em Pouso Alegre, à uma e quinze da tarde. Às sete e quinze da noite deixamos a MG 290 e entramos na rua principal de Borda da Mata empurrando o carrinho colorido. Logo adiante, na primeira travessa à esquerda, paramos para satisfazer a curiosidade de algumas crianças e começar nossas vendas! O burburinho da criançada atraiu a atenção de uma senhora na terceira casa da rua. Quando a bela mulher morena, esguia, de cabelos longos e olhar suave saiu ao portão, aproveitei para pedir-lhe um copo d’agua. Antes de atender meu pedido, ela fez algumas perguntas. Minutos depois voltou com os copos d’agua e dois pratos alombados de comida quentinha: arroz branco, feijão de caldo vermelho e grosso e bife de alcatra. Foi a melhor refeição trivial que já comi na vida!

Saciada a fome do corpo, fomos saciar a fome do espírito… a fome de aventura e de alguns trocados! Por volta de oito da noite chegamos à praça Antonio Megale. Chegamos devagar devido à dificuldade para abrir caminho com o carrinho colorido em meio a tanta gente. Estacionamos ao lado do jardim e começamos a vender nosso produto. Em menos de uma hora vendemos tudo. Não sobrou sequer um pacotinho de pipoca colorida ou um saquinho marrom de amendoim ‘pra contar a história’! Como tudo era novidade, vendi pelo dobro do preço. Faturei num só dia o que precisaria de três semanas de boas vendas para ganhar!

Dois terços da aventura realizados, era hora de voltar para casa! Teríamos que enfrentar mais 27 quilômetros de estrada gelada, no meio da noite, mais seis horas de viagem empurrando o carrinho vazio?

Às nove e meia da noite eu atravessava a avenida Duque de Caxias, ao lado do mercado municipal de Pouso Alegre, recém reformado pela construtora do Fiíco, quando avistei o Waltinho, filho do meu patrão…

– O que aconteceu? Onde você estava até essa hora? – perguntou ele, com expressão visivelmente preocupada.

– Eu estava numa festa na Vendinha… Olha consegui vender tudo hoje – respondi com naturalidade. E subimos a Getúlio Vargas em direção à casa do dono do carrinho de pipocas coloridas. Eles nunca souberam da minha aventura na festa da Borda!

Em 2014, quarenta e três anos depois, voltei à mesma casa para levar um exemplar autografado do meu primeiro livro – Meninos que vi crescer – àquela gentil senhora que, espontaneamente, nos servira aquele manjar dos anjos. Mauritania Furtado estava então com 87 anos. Claro que ela não se lembrava de mim… mas se lembrava dos dois garotos e do carrinho de pipocas coloridas!

Esse ‘capitulo’ é parte da historia “O mistério do Coisa Ruim da Borda”, uma das 50 historias do meu primeiro livro “Meninos que vi crescer”!

A propósito, neste mês de abril, faz 68 anos que o “Chiquinho”, conhecido como ‘Coisa Ruim da Borda’, fez sua última aparição no casarão do Portuga na Fazenda da Ponde de Pedra!

Será que foi a ultima aparição mesmo???

Aqui você encontra quem matou o suicida!

O livro está disponível nos seguintes lugares:


O novo livro de Crônicas Policiais de Airton Chips já está à venda. Além de crônicas, o livro trás lendas urbanas, personagens que marcaram época, e mostra a transformação sociocultural do Sul de Minas, especialmente de Pouso Alegre, a cidade que transformou fazendas e pastos em bairros ruas e avenidas e quadruplicou a população nos últimos 50 anos. Cinquenta anos acompanhados passo a passo pelo autor.

Em Pouso Alegre o livro está disponível nas livrarias:

– Livraria Intelecto, Rua Capitão Pedro Narciso, 85 centro (ao lado da antiga estação ferroviária), fone 3422-4097 e 9.8700.4097.

– Livraria “Quiosque do Saber”, no Serrasul Shopping, fone 3427-5559 e 9.9726-3279.

Nas bancas:

– Banca do Toninho, na avenida Duque de Caxias, 128, centro Fone 9.9915-6331.

– Banca Federal (Sergio), praça Garcia Coutinho, 11, centro, Fone 9.9253-0415.

– Banca Catedral (Ligia – Venicio), praça Garcia Coutinho, 01, Fone 9. 9989-3446.

– Banca Central (Ernani), praça Senador Jose Bento, 47, centro, Fone 3421-4610.

– Banca Cometa ( Júlio), praça Senador José Bento s/n, Fone 9.9996-6646.

– Banca do Chico, Avenida Dr. Lisboa (em frente o Bradesco), Fone 3412-1764.

– Banca Alternativa (Cristina), Hipermercado Baronesa, Fone 3449-1743.

Preços dos livros:

* Nas bancas e livrarias R$ 38,90.

* Através do site de vendas www.facebook.com/blogdoairtonchips/shop/ R$ 44,90 ( entregue sem custo em qualquer lugar do Brasil).

* No formato digital, no site Amazon (Kindle), R$ 24,90.  

Por que os cães não atacavam “Fernando da Gata”?

Quase três décadas mais tarde eu descobri o que deixava os esguios Dobermans… ‘tão dóceis’!

‘Bichinhos’ iguais a este nunca atacaram Fernando da Gata… Porque será?

Toda cidade tem uma história de bandido para contar. Algumas têm mais de uma. Pouso Alegre, a cidade que mais cresceu no Sul de Minas no último meio século – pulou de 40 mil em 1970 para 150 mil habitantes atualmente – também tem suas histórias. O mais ilustre bandido que pisou e deixou rastros indeléveis em terras manduanas, atendia pelo nome de “Fernando da Gata”…

O famoso – às avessas! – que passou sorrateiro pela cidade, deixando para trás um rastro de suspense, de medo, de fatos e de boatos, foi Fernando Soares Pereira, o “Fernando da Gata”. O baixinho cearense ficou menos de uma semana na cidade… mas fez estragos em algumas famílias e na população! Tão sorrateiro como agiu na calada da noite o bandido se foi levando quilos e toneladas de joias! Quilos de anéis, cordões e pulseiras de famílias abastadas da cidade… E toneladas de dignidade! Ele estuprou quatro recatadas senhoras, esposas de ricos empresários… na frente dos seus maridos! Vindo de Russas-CE, Fernando da Gata fez escala na capital paulista e, bem que tentou mudar de vida. Trabalhou alguns meses na construção civil, mas seu ‘talento’ criminoso era por demais valioso para ser desperdiçado debaixo de sacos de cimento, pilhas de tijolos e latas de concreto! O famigerado bandido nascera talhado para grandes empreitadas… ainda que fossem para o mal! Em poucos meses de atividade criminosa na capital paulista, o Eldorado dos nordestinos, o baixinho cearense se tornou celebridade… no álbum da polícia! E colocou toda a polícia civil paulistana nos seus calcanhares… E a imprensa, ávida por furos jornalísticos, também!

Foi assim que, para dar folga às madames paulistanas, o assaltante solitário foi parar em Pouso Alegre em meados de 1982. Fernando da Gata chegou à cidade no mês do ‘cachorro louco’! Não por acaso, de todos os predicados atribuídos a ele, o principal, era exatamente sua capacidade de acalmar e dominar ‘cachorros loucos’! Não eram exatamente loucos, mas eram ferozes cães de guarda, especialmente os esguios ‘Dobermanns’, os quais reinavam nos quintais das mansões naquele começo de década depois que a luzes se apagavam! Ninguém ousaria entrar nos quintais na calada da noite. Ninguém… menos Fernando da Gata! Os donos das casas até ouviam os latidos ferozes dos seus ‘dobermanns’ no meio da noite. Mas quando se arriscavam a abrir a porta ou espiar pela janela, lá estava o amigo fiel sentado num canto do quintal! Atento, mas silencioso. Como se tivesse visto apenas um gato em cima do muro e o intruso já tivesse ido embora. Minutos depois o gato, quero dizer, o “da Gata”, estava no seu quarto apontando um trabuco para o seu nariz!
Mas como o esguio Dobermann parou de latir e se aquietou no canto?
Esse foi o grande mistério que Fernando da Gata levou com ele no crepúsculo de um dia frio de inverno, no começo de setembro, nas margens do Rio Sapucaí, uma semana e meia depois de protagonizar a maior caçada policial da história e colocar Pouso Alegre no mapa nacional com suas façanhas. Fernando da Gata não matou os cães de guarda. Sequer tocou em algum cachorro! Ou talvez tenha tocado… para lhes fazer um cafuné!

– Como pode, um cachorro que quase pula muros para atacar quem passa na calçada do lado de fora, ficar quietinho no canto do quintal enquanto o bandido entra e arromba a porta da casa do dono? – Perguntavam as pessoas com os olhos saltando das órbitas.

– Ele tem parte com o demônio! – Respondiam umas, fazendo o sinal da cruz!

– Ele hipnotiza os cães! – Diziam outras, incrédulas.

Seu fascínio sobre os ferozes Dobermanns – ou o contrário! – virou mito. Vinte e sete anos depois da sua morte desvendei o mistério… E matei o mito!

O livro está à venda…

Para desvendar o mistério de “Por que os cães não atacavam Fernando da Gata”, acesse… https://www.facebook.com/blogdoairtonchips/shop/

A rotina do Rabo Verde

O louco mais querido da cidade…

“A rotina do Rabo Verde” e outras trinta cronicas policiais estão no livro “Quem matou o suicida”.

A figura carrancuda dentro de um conjunto cáqui encardido, debaixo de um chapéu amassado fazendo sombra para o par de olhos azuis, com um saco nas costas, sem saber ler ou escrever, sem lenço & sem documentos e sem um teto para chamar de seu, Rabo Verde figura entre as personagens mais ilustres de Pouso Alegre no Século XX…

Até a poucas décadas, antes do advento dos celulares e seus aplicativos, quando as pessoas tinham tempo para olhar e sentir a rotina à sua volta, era possível perceber alguns personagens do cotidiano se misturando à nossa história. Toda cidade, grande ou pequena, tinha seus personagens assim. Pouso Alegre teve vários no século passado. Chimango, Maria Coquinha, Ananias, Padre Mateus, Nego Artur e tantos outros. Quando, nas rodinhas de saudosistas, falamos dos personagens folclóricos que marcaram a cidade, o primeiro que nos vem à mente é o… “Rabo Verde”!

A expressão inquieta, o jeito soturno, o modo sacudido de emitir as palavras – muitas ininteligíveis – a mania de resmungar sozinho palavras desconexas sem uma sequência lógica de fala, a sujeira do traje, o saco de roupa que sempre carregava nas costas, a mania de catar comida no lixo – embora não lhe faltasse uma alma boa para encher sua marmita gratuitamente ou em troca de capina de quintal – faziam de ‘seu’ Antônio Barnabé um louco! Mas era um louco inofensivo. Jamais fazia mal a alguém. Desde que não lhe chamassem pelo apelido de Rabo Verde! Aí, além dos palavrões impublicáveis, pedras, tijolos, sabugos, ou qualquer objeto que estivesse ao seu alcance tornava-se uma arma! As crianças se divertiam com sua brabeza… Os pais arrancavam os cabelos de preocupação! Passada a raiva, ele fazia troça do próprio apelido!

-Quem tem o rabo verde, seu Antônio?

– Arara, papagaio… e eu!

Durante décadas, desde meados do século passado, essa figura simples fez parte da rotina das pessoas em Pouso Alegre…

– O Rabo Verde foi preso… Ele foi levado no ‘forninho’ pra delegacia, o filho do delegado foi pro hospital, muito sangue… Ele tá muito machucado… – disse estabanado o garoto entrando correndo no Empório Goulart, no final da tarde!

– Calma, menino! Conta essa história direito! Por que prenderiam o Rabo Verde? Ele não faz mal a ninguém. O que tem o filho do delegado com isso? – interrompeu o comerciante enquanto servia uma dose de Fernet a um freguês cativo…

– Dessa vez acho que ele fez, sim… Ele deu uma pedrada na cabeça do menino, o filho do delegado!

– Espera, espera, espera… Você está dizendo que o Rabo Verde acertou uma pedrada na cabeça de um garoto? E o garoto é filho daquele delegado novo que chegou à cidade?!

– … É isso mesmo. Nóis tava lá na beira da linha esperando pra ver a Maria Fumaça, aí o Rabo Verde tava passando… e a pedrada acertou bem na cabeça do Serginho…

– Peraí, vocês mexeram com o pobre coitado? Por que não correram?

– Nós corremos, mas o Serginho não sabia que tinha que correr…

– Caramba! Filho do delegado… e lerdo! – comentou um freguês do empório entrando na conversa.

– É. Mas é que ele é novo na cidade. Veio da capital. Ainda não conhece as molecagens do interior – interveio outro freguês assíduo do empório.

– E esse delegado novo também não conhece o Rabo Verde. Dizem que ele é um capeta! Vai querer arrancar o couro do pobre coitado! Precisamos fazer alguma coisa. Alguém precisa ir à delegacia explicar para o delegado que o ‘nosso’ Rabo Verde não bate bem da cabeça…

Um dos fregueses do Mario Goulart, que costumava chegar sempre no finalzinho da tarde para bebericar o suco de ‘gerereba’ e jogar conversa fora, se prontificou a ir  à delegacia. Primeiro para saber a gravidade da situação; segundo, para tentar livrar a barra do Rabo Verde.

… Tentou, mas não conseguiu. Afinal, lesão é lesão tanto na capital quanto na pacata Pouso Alegre de vinte mil habitantes!

E o “Rabo Verde” foi se hospedar no Velho Hotel da Silvestre Ferraz!

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*Em Pouso Alegre, o livro está à disposição na Livraria Intelecto e em todas as bancas de jornais.