“Capim Gordura”… Poço de amores proibidos!

Fonte onde os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime!

O Capim Gordura virou zona residencial… Mas não chegou – e nem chegará a ter um ambiente familiar!

Não se sabe ao certo quando começou a prostituição no mundo. Mas pode-se afirmar que foi logo depois que Eva comeu a maçã. Não com Adão exatamente, mas, com os que vieram de suas costelas!

Amores e coitos furtivos, sem o fito de reprodução da espécie, mas simplesmente pelo prazer da carne, sempre existiram mundo afora. Os primeiros registros citam o ano 2.400 a.C.

Em Pouso Alegre, cujas primeiras concentrações de pessoas de famílias diferentes se deram muito antes da historia oficial, lá pelo inicio do século 18 quando os caçadores de ouro vindos de Vila Rica para São Paulo paravam para repousar, já existiam os amores proibidos, amores carnais, amores vendidos por mulheres que precisavam alimentar seus filhos, sem maridos. Assim, com o passar do tempo, para generalizar o comercio e atender a demanda, as vendedoras de prazer se agruparam numa só casa, com o nome de “Zona Boêmia”,  caracterizada pela luz vermelha.

Em Pouso Alegre, embora não se tenha um registro preciso, em 1920 a Zona Boêmia já estava instalada nas rebarbas da cidade, no logradouro que seria chamado mais tarde de Rua David Campista.

Inicialmente, com uma população de pouco mais de 10 mil habitantes, era um local pouco habitado, distante do centro. Como a cidade crescia como cresce abobrinha verde, em pouco tempo o antro de prostituição – chamado pelas beatas de antro de perdição -, já estava no centro da cidade. A Zona não saiu do lugar. Foi o crescimento inevitável da cidade que levou a população para a Zona, para perto das prostitutas. Quando a sociedade e as autoridades perceberam, a rua inteira já era dedicada à prostituição. A quinhentos metros da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, a três quarteirões do velho Mercado Municipal, a um quarteirão do Santuario do Imaculado Coração de Maria, no coração de Pouso Alegre, ficava a famosa “Rua da Zona”, “Zona de baixo meretrício” ou simplesmente: “Zona Boêmia”. Era ali que o amor livre, desde que fosse pago, é claro, acontecia. A rua toda exalava o cheiro de álcool, em todas suas variações: cachaça, cerveja, whisky barato, rum, Campari e, perfumes baratos. Quem passasse algumas horas ali levava um pouco daquele cheiro para casa, impregnado na roupa, nos cabelos, nas narinas… Os casados, não raro, entravam na manguara das esposas ciumentas!

Embora execrada pela maioria da sociedade moralista, a prostituição era aceita e defendida por boa parte da sociedade, inclusive alguns figurões abastados e autoridades. Apesar dos pesares, “a prostituição é um mal necessário”, diziam figuras graúdas da sociedade.

Urgia, no entanto, retirar a Zona do centro da cidade.

Em 1969, com a população batendo nos 40 mil, teve início a pendenga para acabar com a prostituição, ou ao menos tirá-la da vista das crianças inocentes … e dos maridos puladores de cerca! Dentre os defensores das mulheres que viviam no pecado, vendendo prazeres e promovendo a discórdia nos lares, havia advogados, juízes, delegados… Uns brigando quase com unhas e dentes. Outros, fazendo vista grossa. Por conta disso a pendenga Sociedade x Prostitutas se arrastou por mais de dez anos.

A luta travada entre beatas, padres, advogados, vereadores, juízes, ministério publico, delegados, nos púlpitos e tribunais – e entre quatro paredes – naqueles treze anos de pendenga, daria um livro.

As beatas finalmente venceram. O golpe final – literalmente – foi dado por um gigolô. O assassinato de Margarida Leite, a mais poderosa cafetina da cidade, em 1982, foi a pá de cal que faltava para sepultar a Zona Boêmia da Rua David Campista.

O comercio do prazer carnal a pouco mais de cem metros da igreja do santuário, acabou. Mas não acabou na cidade. Apenas mudou de endereço. Com terrenos facilitados pela prefeitura, a “Zona” mudou-se para o Jardim Aeroporto. O espaço, inicialmente de apenas uma rua larga e comprida (depois foram surgindo os puxadinhos nas ruelas laterais), ganhou o meloso nome de Capim Gordura (alusão ao capim cheiroso, colorido e meloso que campeava o local até então).

A mudança da Zona do centro para um local distante da cidade, trouxe prejuízos para o comercio local e para os frequentadores de modo geral. Para se chegar à zona, só de carro, particular ou de taxi! Quem mais perdeu com a mudança foram os charreteiros. Eles faziam ponto na Avenida Duque de Caxias e muitos deles tinham hora marcada para buscar suas clientes na zona, para fazerem compras no mercado e nas lojas do centro. Morando agora distante oito quilômetros, as mademoiselles do sexo, para virem à cidade, tinham que chamar um taxi, através do telefone fixo (único que havia) com três dígitos.

 

Mas nem todos perderam.

A distância do centro da cidade selecionou a clientela das vendedoras de  prazer. Quem tinha carro ou tinha dinheiro para contratar taxi para ir à zona, tinha dinheiro para gastar com elas, num local mais discreto e planejado. As casas do Capim Gordura, todas novas, foram construídas com certo planejamento, com vários quartos, um amplo salão com barman ou ‘bargirl’, onde as vendedoras de prazer seminuas assanhavam, assediavam e fisgavam seus clientes. Mudou-se o ‘status’. Antes as casas da Zona eram identificadas pelos nomes de suas donas: ‘casa da fulana ou sicrana’. No Capim Gordura ganharam o pomposo nome de “Boates” da fulana!

 

Quem mais ganhou com a mudança da Zona para o Capim Gordura, foram os policiais civis! Era na zona boêmia, infindável poço de prazeres carnais, que os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime na cidade, na região e além dela.

 

Não sei se Freud chegou a estudar ou mencionar alguma coisa sobre essa parte do comportamento do homem. Mas é fato, o homem precisa contar seus segredos, suas façanhas, seus crimes!…

 

Nos anos 80 o banditismo urbano começava a ganhar projeção. Assaltos de porte médio a bancos, postos de gasolina, supermercados, carros pagadores, cargas de cigarros, ganhavam espaço. Eram comuns esses crimes nas estradas federais, notadamente no Vale do Paraíba. Assaltos que envolviam milhões de cruzeiros, cometidos por bandos de três a cinco assaltantes. Bem-sucedidos ou não, os assaltantes que sobreviviam às balas dos policiais ou escapavam das suas pulseiras de prata precisavam dar um tempo, sair de cena, esperar a poeira baixar, serem esquecidos. O melhor esconderijo era a zona boêmia das cidades crescentes como Pouso Alegre. Ali, além de escapara dos braços da lei, eles poderiam unir “o útil ao agradável” nos braços das sensuais mariposas!

É aí que entra a teoria que o grande medico e psicanalista austriaco não chegou a estudar! O homem, tanto quanto a mulher, precisa falar dos seus amores! Das suas façanhas, contar suas bravatas, exibir seu poderio, sua superioridade, seu machismo. Depois de dois ou três dias na Zona, apenas bebendo e comendo… com ou sem tempero, os bandidos começavam a dar com a ‘língua nos dentes’, começavam a se abrir, a contar suas façanhas. É claro que eles confiavam nas suas amantes e pediam – alguns exigiam! – absoluto segredo, como se pedir segredo a uma mulher tivesse alguma relevância!

 

Mas como esses segredos chegavam aos policiais?

Bem, isso passava por todo um processo.

 

Mulheres de vida fácil sempre tiveram vida difícil. Vistas como meros objetos de prazer, as prostitutas viviam no limiar da violência… e da honestidade! Viviam ao sabor do humor dos seus clientes, a maioria sem eira e nem beira. Por muito pouco elas entravam na manguara dos guampudos mal-humorados. Depois de usufruir do ‘bembom’, mediante promessa tácita de pagamento, os trogloditas pagavam com sopapos e bolachas. E as pobres donzelas, ao invés do seu suado dinheirinho, recebiam apenas arranhões, hematomas e olho roxo.

É aí que entravam os policiais, os bravos paladinos da lei! Só os policiais, os bons policiais, conseguiam domar os garanhões, chamá-los na chincha, colocar-lhes os bridões e colocar ordem no galinheiro, quero dizer, dominar o território sem lei do Capim Gordura.

Atender aos chamados e intervir em brigas e pequenos furtos em um ambiente imoral, à margem da lei, não era prioridade da polícia. A menos que houvesse uma compensação. Foi nesse contexto que “juntou-se a fome com a vontade de comer”! As prostitutas precisavam dos policiais para protegê-las… Os policiais, aos menos aqueles mais sacudidos, aqueles que iam muito além do ‘cumprir o expediente’, precisavam dos ‘segredos’ das prostitutas. Assim, os melhores serviços da polícia civil nasciam de informações plantadas no Capim Gordura. Dessa relação promiscua das prostitutas com seus amantes, e de amizade e proteção com os detetives, nasceu o casamento perfeito. E gerou muitos frutos.

De 1982 a 1985 a Zona Boêmia do Capim Gordura, local árido e pedregoso, donde se produzia pouco mais do que o capim meloso, mandou para trás das grades dezenas de assaltantes de todas as plagas e perfis, e colocou a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre no mapa estatístico da criminalidade em Minas, como a delegacia mais produtiva do Estado. São desse período áureo da PCMG/Pouso Alegre os casos:

 

– O “Ladrão do Bagdá e seus quase 40 ladrões”, 1982!

O insuspeitável e sorrelfo dono do famoso restaurante instalado no prédio do DA/FDSM – frequentado por acadêmicos, professores e magistrados – mantinha uma extensa e rotativa equipe de ladrões que, nas horas mortas da noite ‘visitavam’ sítios e residências na região. Quando finalmente o sorrelfo comerciante – amigo de gente graúda – enroscou-se nas malhas da lei, mais de quarenta dos seus furtos sorrateiros, centenas de “res furtiva”, foram colocadas pelos abnegados policiais sobre a mesa do Homem da Capa Preta. Uma dessas “res furtiva”, ironicamente, já estava lá, no pescoço de um magistrado! (Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá – “Meninos que vi crescer”).

 

– Assalto ao carro pagador da Alpargatas, 1983.

A ação planejada e executada pela quadrilha liderada pelo agricultor “Zé do Cano”, culminou com o latrocínio do bancário Moacir, na Perimetral. Com as informações levantadas na zona, nos dias seguintes foram presos o mentor do assalto, quatro assaltantes de São José dos Campos e dois policiais militares que atuaram como informantes.

 

– “300 carros roubados”, 1984.

A investigação, municiada com informações colhidas pelo quarteto de Detetives no Capim Gordura, revelou um intrincado esquema criminoso que envolvia ‘puxadores’ de carros, intrujões acima de qualquer suspeita, e até um delegado ‘graúdo’ que ‘esquentava’ os documentos dos veículos roubados. Nas semanas seguintes, mais de 300 carros roubados foram localizados e apreendidos.

 

Graças a essa promiscua – e perigosa – relação entre um impetuoso e assanhado quarteto de Detetives e as prostitutas do Capim Gordura – Poço de amores proibidos! Fonte onde bebiam os bons policiais – a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre manteve-se, por vários anos na crista de produtividade no Estado.

 

A parceria Polícia Civil/Capim Gordura poderia ter ido mais longe, não fossem dois fatores. O referido quarteto de policiais – detentores dos arquivos vivos da Zona… e das atividades ‘informais’ de alguns chefes – sabia demais, por isso foi desfeito. Em 85 cada Detetive seguiu um rumo diferente. O outro fator seria ainda mais fulminante. Em poucos anos o capim Gordura morreu. Morreu a golpes lentos e certeiros… Foi assassinado pela famigerada  Sida… Quero dizer, pela AIDS. Mas aí, já daria outro livro!

 

O “Capim Gordura”  marcou a vida de muita gente…

 

 

Quem matou o ciclista?

A bala cravada em seu cérebro havia saído do seu próprio revólver!

 

Note criança e fresca de primavera.

Tereza acabou de assistir ao filme, desligou a tv e foi ao quarto do filho verificar se ele havia chegado. Não estava no quarto. Foi ao banheiro.

– “Deve estar tomando banho”, pensou ela.

Não estava no banho. Tereza saiu ao quintal dos fundos, onde ele costumava guardar suas bikes. A bicicleta verde com detalhes pretos estava lá, pendurada.

– “Ele deve ter ido com a preta com detalhes verdes”! “Mas porque não chegou? Ele sempre chega perto das oito da noite”, conjecturou a mãe acostumada com a rotina do filho.

Ele chegava do trabalho por volta das seis da tarde, fazia um lanche leve, montava uma das bikes e saia para pedalar, sempre assim, de segunda à sexta. Dava uma volta na lagoa e antes das oito estava de volta. Entrava pelo portão lateral, guardava a bike, as vezes limpava quando pegava ciclofaixa molhada, tomava seu banho, aparecia na sala onde ela sempre estava diante da tv, depois jantava e seguia para o quarto, onde ficava no computador até a hora de dormir. Durante a semana raramente fugia dessa rotina. O que teria acontecido hoje? Bem, não precisava descabelar. Afinal, Bedeu era adulto, bem adulto! Havia completado 40 anos na semana passada.

– “Deixe estar. Deve ter ido visitar um amigo. Ou talvez arrumou uma namorada”, pensou Tereza com seus botões.

Tentando afastar qualquer preocupação, Tereza voltou para a sala e religou a tv. “Brasil visto de cima”, seu seriado favorito, começaria dali a minutos. A cada intervalo se levantava, ia ao quintal verificar se a bicicleta preta estava fazendo companhia para a verde. Nada. Voltava para a sala e pregava os olhos na tv. Mas já não estava vendo mais nada. Tudo que via era o filho cabeça baixa, metódico, pedalando rápido sua magrela na lagoa.

– “Será que ele foi atropelado? Assaltado? A lagoa é um lugar tranquilo para pedalar. Tem um clima bom, uma energia positiva… ali quase nunca há crimes! Ele pode ter sido atropelado! Mas ele é sempre tão cuidadoso, anda sempre na ciclofaixa! … Às vezes algum doido irresponsável invade a pista de ciclistas! Há casos. – Pensava a mãe visivelmente preocupada.

A neve invadiu a tela da sua TV. Uma bandeira branca com uma folha vermelha de plátano balançando na ponta de um mastro apareceu num canto da tela. Era a bandeira do Canadá. O programa agora era “Mundo visto de cima”. Passava de dez e meia da noite. Seu filho nunca ficava na rua às dez e meia da noite. Ela nunca ficava em pé depois de dez e meia da noite durante a semana. Ela deveria estar na sua cama àquela hora. Seu filho deveria estar no quarto ao lado diante da luz branca do computador. A preocupação aumentou. Onde estaria seu filho? O que fazer? Desde que ficara viúva, há dez anos, nunca tivera sequer uma nesga de preocupação com o filho. Nunca precisava questioná-lo… Ele sempre avisava aonde estava indo e quando voltaria. O que teria acontecido? Porque estava tão fora da rotina sem avisá-la. Só então lembrou de ligar pra ele. O aparelhinho respondeu tummmm dez vezes e depois mais dez, e a voz do filho, que quase desconhecia através do aparelho, não foi ouvida. O que fazer? Esperar mais… ou ligar para alguém? Ligou para o filho mais velho, o qual morava no bairro vizinho. Meia hora depois Tadeu chegou. Chegou emburrado. Tinha bom, porém curto relacionamento com o irmão. Sua rotina era diferente. Não tinha um emprego tão bom quanto ele. Tinha que dormir cedo para levantar antes do sol e pegar o busão para a fábrica. Já estava nos braços de Morfeu quando a mãe ligou. Não tinha tempo para pajear o irmão solteirão que não tinha sequer um passarinho para tratar. Por isso, não obstante nutrir imenso respeito e carinho pela mãe, tratou-a com rispidez.

– Você já ligou para o celular dele?

– Sim, duas vezes. Ele não atendeu… Ele nunca se atrasou sem avisar… – disse Tereza com os olhos começando a marejar.

– Pronto socorro, policia, casa de amigos… – falou Tadeu com certa irritação. Tereza levou a mão à boca antes de falar.

– Você acha que pode ter acontecido alguma coisa grave, atropelamento… um assalto!

– Alguma coisa aconteceu, né mãe! – retrucou Tadeu impaciente.

– Ai meu Deus!

– Ele não costuma ir na casa de amigos, uma namorada…

– Não, durante a semana, não. Ele não tem namorada. Ele trouxe uma moça bonita aqui uma vez… Mas disse que era amiga, colega de trabalho… Eu não sei nem o nome dela. Não tenho contato de nenhum amigo dele…

– Precisa ter, né mãe! É nessas horas que servem os amigos… Pra espalhar informação, pelo menos.

– Seu irmão nunca me deu preocupação…

– Sempre tem uma primeira vez, ‘dona’ Tereza! – retrucou Tadeu apimentando o ‘dona’ com uma pitada de sarcasmo.

– E agora? O que a gente vai fazer?

– Deixa eu pensar… Você sabe onde ele costuma pedalar?

– Ele sempre pedala na lagoa!

– Vou ligar no Samu e na delegacia… pra saber se atenderam alguma ocorrência ali hoje a noite.

Não. Não havia nenhum registro de ocorrência de qualquer espécie no entorno da lagoa nas últimas vinte e quatro horas. O ‘oficial de dia’ da guarda municipal, no entanto, foi bastante solícito.

– Tem uma equipe na rua, contornando a lagoa… Vou pedir ao cabo para observar qualquer intercorrência. Vou anotar seu número e daqui a quinze minutos farei contato.

Cinco minutos depois o celular de Tadeu tocou.

– Nós o encontramos Sr. Tadeu…

– Graças a Deus! Onde ele está? Ele está bem?… – Perguntou apreensivo o filho mais velho de Tereza.

– Bem… na verdade… não sabemos… ele … – gaguejou o sargento tentando encontrar palavras para explicar como encontrara o ciclista.

Tadeu, pressentindo notícia ruim, se afastou da mãe e baixou o tom.

– Aconteceu alguma coisa grave com ele? Acidente…

– Na verdade ele parece bem. Está sentado ao pé de uma arvore na ciclofaixa. Mas não reage… parece gelado… já chamamos o SAMU… – respondeu sem esclarecer, o sargento.

Tadeu chegou ao local indicado pelo Sargento junto com os ‘anjos das ruas’. Chegou a tempo de contemplar curioso a cena. Bedeu estava sentado em um tronco seco ao pé da gigantesca Sapucaia cheia de flores roxas e lilás. Ao seu lado, encostada na lateral do mesmo tronco, estava sua bike preta com detalhes verdes. Apesar de noite alta, ele mantinha os óculos de proteção cobrindo o rosto, o que impedia de ver seus olhos. Era como se tivesse parado ali, para descansar encostado na arvore e tivesse adormecido… mas o corpo estava frio, gelado!

– Sargento, – falou o socorrista – pode chamar a funerária, ou Pericia da PC, se quiser. Ele está morto… Pela temperatura e rigidez, já tem algumas horas. Pode ter parado para descansar e morreu de um mal súbito. Aparentemente não há lesões externas. No entanto, como não há nada que possamos fazer em termos de socorro, seria prudente que o perito fizesse o seu trabalho.

 

 

A funerária estava quase vazia. Menos de vinte pessoas conversavam amenidades no velório. Pouco mais do que mulheres, vizinhas de Tereza.

– “Que coisa, né! Tão saudável! Acostumado a pedalar todo dia, de repente, do nada, senta para descansar e morre” – comentava uma.

– “Nunca sabemos o dia de amanhã”… – filosofava outra.

– “Ele foi a única companhia da Tereza nos últimos dez anos”! – choramingava uma terceira.

Tereza estava sentada numa cadeira ao lado do caixão aberto quando uma moça bonita e bem-vestida, perto dos quarenta anos, se aproximou. Depois de um minuto contemplando o corpo inerte estendido dentro do caixão de madeira escuro, a jovem se inclinou sobre Tereza e lhe deu um abraço dizendo.

– A senhora lembra de mim? Eu sou a Vania… Uma vez eu fui à sua casa com o Bedeu. Eu gostava muito dele. Ele era meu melhor amigo no trabalho. A gente almoçava junto, conversava sobre trabalho, sobre sua paixão pelo pedal. Mas ele nunca me falou que tinha algum problema de saúde! – disse a jovem.

– Eu lembro quando você foi na minha casa. Pensei que vocês fossem namorados… depois o Bedeu não me falou mais nada. Mas ele não era doente, não…

Conversaram mais alguns minutos como se fossem amigas. Até que Vania se levantou, se despediu e, antes de sair voltou a contemplar o corpo inerte do amigo. Da contemplação passou a gestos. Tocou suas mãos frias cruzadas sobre o peito, levou a mão ao seu rosto, fez-lhe uma caricia. Gostava de Bedeu muito mais do que se gosta de um amigo. Demorou na caricia no rosto frio. Aquele rosto bonito e suave que ela não teve coragem de acariciar enquanto estava quente. Sim, amava Bedeu desde que o conhecera. Tinha medo de declarar seu amor, e perdê-lo. Era amor platônico. Saber que ele não tinha uma namorada, e ter sua amizade já era o suficiente. Quem sabe um dia ela se declarasse. Agora, embora não adiantasse mais, seria o momento. Inclinou-se e disse baixinho em seu ouvido agora surdo:

 

– “Eu te amo Bedeu”!

 

Foi nesse momento, bem próximo da cabeça do amado, que algo lhe chamou a atenção. Os bastos cabelos castanhos de Bedeu tinham uma minúscula mancha mais escura. Passou o dedo, levemente, sobre a mancha. A pele sensível do dedo não acusou a presença de nenhuma alteração no couro cabeludo. Mas a mesma pele branca e delicada da ponta do dedo ganhou uma cor vermelho-escuro. Seria sangue? Explorou a mancha afastando o cabelo grosso do amigo morto até chegar ao couro cabeludo. Parecia uma minúscula ferida, uniforme. Aguçou a vista. Sim, havia um minúsculo ferimento no couro cabeludo. Quase imperceptível. Mas era um ferimento.

 

Aquele imperceptível ferimento no couro cabeludo do amado, que morreu sem saber que era amado, acompanhou Vania de volta ao trabalho.

– “Mas eles disseram que Bedeu morreu sentado, na beira da ciclofaixa! Ele nem tirou o capacete de proteção! Será que foi no transporte para a funerária? Ou será que o agente funerário que lhe deu o banho o feriu sem querer?”, pensava Vania.

– “Que falta de empatia, de respeito com o corpo”, concluiu Vania tentando retomar sua rotina no trabalho.

Retomou. Mas o ferimento no couro cabeludo de Bedeu, aqueles cabelos que ela fez tanto esforço para conter o desejo de acariciar e chamar de seu, continuou ao seu lado o resto do dia. No final do expediente, quando as cortinas do escritório se fecharam, Vania procurou seu chefe para compartilhar sua descoberta, sua inquietação, sua angústia.

– Isso está me martelando a tarde inteira! Você acha que ele pode ter sido ferido e isso causou sua morte? – perguntou.

– Olha, eu não vi o ferimento. Não tenho como avaliar, opinar… Mas muitas pessoas viram o corpo. Os GMs viram, os policiais viram, os socorristas do Samu viram. Ninguém percebeu nada suspeito… O ferimento deve ter sido causado no manuseio na funerária.

– Era noite. E se o ferimento já estava lá e ‘passou batido’?

– Como eu disse, pouco provável. Se houvesse alguma suspeita de crime, o corpo teria sido levado para o IML, para exames. Se o corpo foi liberado para a família, é porque os profissionais não viram nada suspeito.

– Eu não vou conseguir dormir com esse ferimento na cabeça. Recentemente eu li um livro de crônicas policiais em que um corpo encontrado pendurado numa corda, no mato, foi dado como suicídio. Depois de enterrado, um investigador aposentado entrou na história e descobriu que o rapaz havia sido assassinado e pendurado na ponta da corda.

– Que livro é esse?!

– “Quem Matou o Suicida”.

– Ora, Vania, isso é ficção!

– Olha, a trama é tão bem-feita, tão bem contada, com tantos detalhes, que parece mesmo contos de Agatha Christie… Mas a história é verdadeira, acontecida no Sul de Minas! Será que se eu contar isso pra polícia, agora que o corpo já foi sepultado, a polícia vai investigar?

– Eu não entendo de assunto de polícia. Mas tenho um amigo delegado que joga futebol com a gente no clube toda quarta-feira. Se você quiser trocar umas ideias com ele, eu posso te apresentar.

 

Três dias depois o corpo de Bedeu emergiu da terra. Já conhecendo a suspeita, a médica legista foi ‘direto ao ponto’.

– Merda! Isso está parecendo orifício de entrada de projetil. Esse cara tomou um tiro na cabeça!

A necropsia de Bedeu foi rápida. O aparelho de raio-x no IML mostrou a localização exata do projétil estacionado no seu crânio. Dias depois o setor de balística do Instituto de Criminalística afirmou que o projetil encontrado no cérebro de Bedeu havia saído do cano de um Magnum 357.

Teria sido assassinato?

“Bala perdida”?

Suicídio?

 

Embalada pela empolgação com a descoberta da polícia a partir das suas suspeitas e do remorso do amor tardiamente confesso pelo colega de trabalho, Vania queria saber a resposta.

O jovem delegado responsável pela investigação, jovem na idade e na carreira, cheio de ilusões, vaidades e soberba, além de uma pilha de homicídios relevantes para investigar, não deu muita importância ao caso.

– Desculpe Sta. Vania, não podemos interromper as investigações que temos em andamento para nos dedicar a um caso de provável suicídio ou bala perdida! – falou o delegado, jogando um balde de água fria nas pretensões da ‘viúva virgem’.

Desiludida com a má vontade do delegado, Vania perdeu o pique. No entanto não desistiu de procurar respostas. No dia seguinte foi atrás da médica legista que havia feito a necropsia e descoberto a causa mortis do seu amado. Leticia, tão apaixonada quanto Sherlock Holmes por investigação criminal, abraçou sua causa.

– Suicídio? Impossível! Os policiais que encontraram o corpo não relataram nenhum vestígio de pólvora ou marca de tiro à queima roupa. Para suicidar sem deixar marcas, só se Bedeu tivesse montado uma geringonça para atirar de longe nele mesmo! Além do que, uma bala de Magnum 357 disparada de perto não pára no cérebro. Além de traspassar a cabeça, ela deixa um orifício de saída do tamanho de uma azeitona, das grandes. Não. Bedeu foi vítima de bala perdida.

– Mas bala perdida também é crime, não é? – questionou Vania.

– Sim. É um crime ‘culposo’, de menor potencial punitivo para o descuidado assassino, mas é crime. No entanto, com tantos BOs para investigar, poucos delegados se dedicam a apurar um crime sabidamente culposo.

– Mas então… o que fazer? O crime vai ficar sem solução? Ninguém será punido por isso? – perguntou desconsolada Vania.

– Bem, o delegado pode não dar prioridade ao caso, mas ele não pode impedir uma investigação paralela, particular… – conjecturou a jovem médica legista.

– Você está dizendo que eu posso contratar um detetive particular?

– Se você quiser… Tudo depende do quanto você quer esclarecer esse crime. Você está disposta?…

Vania se ajeitou na cadeira. Seus olhos cor de mel estavam fixos na legista à sua frente. Mas enxergavam outra pessoa, noutro lugar. Seus olhos viam a figura serena e amável do seu amado Bedeu, ora concentrado na sua mesa de trabalho, ora sentado à sua frente na mesa do restaurante comendo delicadamente e conversando amenidades. Viu também o amado passar pedalando rápido e concentrado pela ciclofaixa da lagoa. Sim, às vezes, quando se sentia mais carente, mais apaixonada, ela pegava um Uber e ia para a lagoa. Sentava no deque ao lado da Casa do Baile e ficava ali solitária esperando para vê-lo passar. As vezes tinha vontade de entrar na sua frente, atrapalhá-lo, derrubá-lo … e depois curar seus ferimentos. Ou então ser atropelada por ele, ser carregada em seus braços… mas nunca teve coragem. Estendia seu olhar lânguido na figura amada curvada sobre a bike e ficava olhando até que ele diminuía e sumia lá longe na curva do Iate Clube. “Quem sabe da próxima vez eu crio coragem”, pensava, enquanto embarcava no Uber de volta para casa. Agora nem isso podia mais fazer.

– E então? Você pretende contratar um detetive particular?

A voz inquisitiva da legista trouxe Vania de volta ao consultório.

– Ah, sim! Mas eu não conheço ninguém. A senhora que é policial pode me indicar alguém? Estou pensando em um detetive que desvendou um suicídio… num livro. Meu chefe disse que isso é ficção… – falou Vania, com uma ponta de timidez, ou vergonha.

– Qual livro?

– “Quem matou o suicida”.

– Eu também li esse livro. Ganhei de uma amiga legista do interior. São crônicas policiais, casos verdadeiros. Eu não conheço o detetive que desvendou o caso, mas minha amiga conhece. Ele mora no interior… Não sei se ele aceitaria vir para a capital investigar o caso.

 

Aceitou!

Três dias depois Matinhos deu uma volta na lagoa, refazendo o percurso tantas vezes feito por Bedeu. Embora estivesse de carro, seguiu lentamente, tentando imaginar como teria sido o último pedal do amigo da sua cliente, até que chegou ao local indicado pelos GMs. O tronco sem vida do jacarandá rosa, onde Bedeu se sentou para morrer em silencio e sem reclamar, não lhe disse nada. Não disse nem mesmo a direção de onde poderia ter vindo a bala assassina. Poderia ter vindo do parque municipal à direita… ou do quintal de uma daquelas mansões ou sítios à esquerda. Dependia de qual direção Bedeu estava seguindo. Será que ele recebeu a bala naquele exato local, ou pedalou alguns metros antes de se sentar para morrer?

Mais tarde o experiente detetive reuniu-se com Vania e a médica legista.

     – O primeiro passo é checar a possibilidade de suicídio. Começando por saber se ele tinha arma…

– Suicídio? Impossível. Suicídio com arma de fogo deixa marcas de pólvora na entrada… e um estrago enorme na saída. – Reafirmou a legista apaixonada pela sua profissão.

– Ainda assim é necessário saber se ele tinha arma.

– E se ele tinha, alguém poderia tê-lo assaltado, tomado seu revólver e atirado nele! – concluiu apressadamente, Vania.

– Não por isso… o ferimento seria muito diferente, como já disse a doutora – rebateu Matinhos.

– Sim… ainda que o tiro tivesse sido disparado a alguns metros, o projetil teria arrancado um tampo da sua cabeça. Teria corrido muito sangue e ele não teria sentado pra morrer naquele toco! Teria despencado da bicicleta no ato – apressou-se Leticia.

– Mas então… – falou Vania abrindo as duas mãos espalmadas como se deixasse ir embora as últimas hipóteses.

– Vania, numa investigação, não se pode desprezar nenhum detalhe. Quem possui uma arma… tem muito mais chances de morrer baleada! – filosofou rasteiro o Detetive.

– Espere… Deixe-me ver os dados dele. Vou consultar… vejamos: Bedeu, filho de… Ele possui uma arma… registrada! E não há registro de furto! – falou Leticia com os olhos negros grudados na tela do computador consultando o REDS.

– Que tipo de arma? – quis saber Matinhos.

     – É um Magnum 357! – respondeu Leticia com os olhos exclamativos olhando para o velho detetive.

– Ainda que tenhamos que descartar totalmente a hipótese de suicídio, é importante saber se a sua arma está em sua casa. Vou usar minha credencial de advogado para pedir ao delegado do caso um Mandado de Busca. Mas antes vamos dissecar todas as possibilidades.

 

       O Mandado de Busca cumprido na casa do morto aguçou a euforia da investigação. A arma, um belo Magnum 357 niquelado que aparecia no folder junto ao registro do mesmo, não estava na caixa muito bem guardada entre livros na sua estante. Dona Teresa desconhecia que o filho tivesse arma. O mistério ficou ainda mais intrigante quando os policiais encontraram uma nota fiscal da última aquisição de munição, feita a cerca de três semanas. A caixa estava pela metade. Mesmo descartando a probabilidade de suicídio, o projetil encontrado pela amante platônica no crânio do pretenso namorado, poderia, ironicamente, ter sido adquirido pelo próprio Bedeu! Mas quem teria apertado o gatilho?

 

– Para chegar ao autor do disparo, qualquer que seja a causa, é preciso saber de onde partiu o tiro. Você disse que a bala penetrou num dos vãos de respiro do capacete de proteção… – perguntou Matinhos.

– Sim. Sem danificar o capacete. E na direção perpendicular, de cima para baixo. O que significa que o projetil veio de longe e o atingiu quando já estava caindo… – explicou a legista com um movimento de mão.

– Bem… Isso diminui muito a probabilidade de um tiro planejado, disparado de longe. Seria quase impossível disparar com tal precisão – arguiu o detetive.

– Isso quer dizer que elimina a possibilidade de crime premeditado? – interagiu Vania.

– Sim. Até porque, é certo que o projetil veio de longe e foi perdendo força. Caso contrário teria trespassado o crânio.

– Bedeu costumava pedalar quase sempre no sentido horário da lagoa. – Informou Vania, sem revelar que às vezes assistia incógnita e solitária aos seus pedais.

– A bala atingiu o lado direito do crânio… Isso significa que o tiro veio do parque municipal! O que dificulta muito a investigação… – concluiu pensativo Matinhos.

– A Vania disse que ele ‘quase’ sempre pedalava no sentido horário da lagoa. E se nesse dia ele fez o inverso? – arguiu a legista.

– É uma possibilidade…

– Mas então… – falou Vania abrindo as mãos num gesto de desanimo.

– Precisamos achar testemunhas que o tenham visto naquele início de noite e nos informem qual sentido ele seguia.

– Isso é difícil. Tanta gente pedala na lagoa! Especialmente nesse horário – falou Leticia.

– Nem tanto. Os bikers que pedalam na lagoa são sempre atenciosos e solidários. Eles sempre se cumprimentam quando se cruzam ou se ultrapassam. Isso gera empatia, intimidade, cria laços, se tornam conhecidos. Embora Bedeu pedalasse sozinho, ele tinha muitos conhecidos que pedalavam por ali. Alguém pode tê-lo visto naquele dia. – Informou Vania.

– Então vamos vazar o caso do Bedeu para a imprensa, de preferência sites de amantes do pedal e sites policiais, pedindo esse tipo de informação. Para isso precisamos de uma foto dele com as roupas e a bike daquele dia. Você pode conseguir isso, Vania?

 

Quatro dias depois Matinhos recebeu um telefonema. Um rapaz tinha informações a dar.

– Eu estava correndo com minha aluna quando ele passou por mim, pedalando normalmente. De repente, do nada, parou… perecia meio tonto. Encostou a bicicleta e sentou-se no tronco. Segundos depois passamos por ele e perguntei se estava tudo bem. Ele acenou com o polegar esquerdo enquanto, com a outra mão, parecia procurar o celular na pochete… Eram umas seis e pouco da tarde. Sim, nós seguíamos sentido inverso do relógio… – informou o personal trainer.

Saber a direção de onde viera o tiro fatal podia ser o fio da meada para a elucidação do crime. Para chegar ao autor, no entanto, seria necessário desenrolar todo o novelo. Ainda sem a pista que pudesse levar ao dedo assassino, Matinhos continuou seu périplo nas imediações do sinistro. Agora, sabia ao menos, a direção de onde viera a bala sem rumo.  Nos dias seguintes ele concentrou sua atenção no lado direito da extensa avenida de dezoito quilômetros que circunda a lagoa da Pampulha, cartão postal da capital. O local tão cheio de verde, de vida, de pessoas alegres exalando vida, havia misteriosamente encerrado uma vida, sem alarde, deixando o corpo do jovem Bedeu inerte, contemplando o silencio da noite pouco iluminada, na extensa avenida que margeia bosques e matas habitadas por jacarés, capivaras e outros bichos que dão vida à lagoa. O lado oposto do parque, naquele trecho, era cheio de mansões circundadas por palmeiras, coqueiros e outras arvores frondosas, floridas e cheirosas que começavam ao rés da avenida e subia uma encosta levemente inclinada, formando uma colina, até divisar com o bairro ao norte. Matinhos sentou-se no mesmo tronco seco e sem vida onde Bedeu respirou pela última vez, virou-se para a larga avenida de mão dupla e ficou tentando imaginar o trajeto da bala assassina.

– “Um projetil desse calibre, dependendo da qualidade da munição, da polegada do cano da arma, da perpendicularidade do disparo e até da densidade do ar no momento, pode chegar com letalidade a cerca de seiscentos metros. Logo, o tiro foi disparado além dessas mansões, da rua ou do quintal de uma casa no outro bairro”… – concluiu para si mesmo.

Ainda pensativo, sentado no tronco que testemunhou o esvair de uma vida, o detetive, bem vivo, traçou seus próximos passos. Manteria um olho na casa da mãe de Bedeu, buscando filtrar a rotina da rua, da sua casa. O outro olho vagaria pelo bairro paralelo, de onde parecia mais provável ter partido o tiro irresponsável que matou o ciclista solitário.

No dia seguinte travestiu-se de funcionário do Censo e bateu na porta de cada residência da Avenida Portugal, entrevistou cada família tentando identificar o perfil de quem, por uma razão ou outra, pudesse ter se apossado do Magnum de Bedeu e o baleado enquanto praticava seu hobby nas proximidades da lagoa.

Numa destas noites em que um olho estava voltado para a casa da mãe de Bedeu, há poucos bairros dali, Matinhos presenciou uma visita à casa da idosa solitária e chorosa. A figura de um rapaz alto, magro, esportivamente vestido, sem o saber, posou para a câmera do seu celular. O moço aparentando meia idade, permaneceu cerca de meia hora no interior da casa antes de despedir-se da viúva no portão. No dia seguinte sua identidade foi confirmada pela mãe de Bedeu.

– É o Mauro. Ele era amigo do meu filho. De vez em quando ele vinha aqui, as vezes saiam juntos. – Contou Tereza.

– O que ele veio fazer aqui ontem? – indagou Matinhos.

– Ele veio me fazer uma visita… e devolver uns livros que ele havia emprestado do meu filho.

– Livros? Posso ver esses livros?

– Pode. Estão no quarto do Bedeu. Ele mesmo colocou na estante. Eu não entro no quarto do meu filho desde que ele se foi.

– Posso dar uma olhada nos livros?

Ao entrar no quarto de Bedeu, pela segunda vez em poucos dias, Matinhos sentiu uma certa euforia. Encheu-se de expectativa. Foi direto para a estante esperando encontrar um certo estojo de arma, desta vez mais pesado… ou não encontrar nem o estojo! Decepção! O estojo do Magnum estava no mesmo lugar, tão leve quanto antes, contendo apenas os documentos da arma e parte da munição.

A decepção de não encontrar nada de novo após a visita de Mauro, no entanto, não arrefeceu o ânimo investigativo do velho detetive.

Mauro, contemporâneo de Bedeu, era uma das dezenas de pessoas que moravam no bairro Céu Azul, na rua paralela com a avenida onde o ciclista sentou-se com uma bala ainda quente na cabeça e ali ficou, inerte, até esfriar. O amigo do morto merecia um dossiê mais detalhado. Matinhos consultou sua prancheta de ‘funcionário’ do IBGE.

Dois dias depois Mauro recebeu uma visita dos homens da lei. Os detetives traziam consigo uma ‘carta branca do homem da capa preta’. Após ler o Mandado de Busca e Apreensão, o detetive que conduzia a diligência adiantou:

– Sr. Mauro, temos indícios de que o Sr. andou fazendo disparos de arma de fogo no seu quintal, por isso buscamos especificamente armas e munições. Se você os entregar espontaneamente, facilitará nosso trabalho … e poupará aborrecimentos pra você!

Apesar da surpresa da visita da policia, Mauro não titubeou.

– Tranquilo Sr. Inspetor. Eu sou CAC. Tenho toda documentação exigida – disse o moço levando os policiais para o escritório. De um pequeno cofre atrás de livros numa estante de alvenaria planejada ele tirou duas caixas e colocou sobre a mesa. Numa delas havia uma pistola Taurus .40 e seus respectivos documentos. Na outra surgiu um Magnum 357.

– Posso ver o registro do Magnum? – perguntou o Inspetor.

– Esse é de um amigo. Eu peguei para experimentar. Se gostar vou comprar dele e fazer a transferência.

Matinhos, que acompanhava a diligência, pegou a arma com um lenço, verificou o tambor, abriu, aproximou o cano do nariz, sentiu o cheiro e falou:

– Foi usada recentemente …

– O Sr. Costuma praticar tiros com frequência? – Perguntou o Inspetor.

– Só quando tenho munição…

– Somente nos clubes de tiros ou pratica também em alvos aleatórios!

– Raramente disparo fora do Stand – respondeu receoso o CAC.

Quando esteve ali dias atrás fazendo o “levantamento demográfico” Matinhos percebeu que a casa não era tão grande para os padrões do bairro, mas tinha um grande quintal com pomar que terminava num barranco na direção da lagoa.

– O sr. costuma guardar as capsulas usadas para recarregar? Posso vê-las? – perguntou Matinhos fingindo pouco interesse enquanto olhava através da janela para o quintal dos fundos onde se via frondosas mangueiras, fruteira típica naquela quente região da capital.

– Sim, claro… – respondeu Mauro pegando outra caixa menor no fundo do cofre.

Matinhos pegou a capsula vazia, examinou-a, entregou ao Inspetor e tornou a perguntar.

– Essa arma e essas munições pertencem ao seu amigo Bedeu Joanel de Almeida, não é? – perguntou outra vez Matinhos.

Mauro teve um sobressalto. Como eles sabiam do Bedeu? O que teria a investida dos policiais na sua casa àquela hora da manhã com a morte do seu amigo? De repente um frio desceu pela espinha! Matinhos percebeu o desconforto de Mauro e voltou a interpelá-lo:

– Quando você usou esse revólver pela última vez?

– Umas duas ou três semanas atrás, eu acho … – respondeu já sem segurança.

– Mais precisamente no início da noite da quarta-feira, 30 de setembro!

– Trinta de setembro!? Pelo cheiro da pólvora dá para saber a data exata que a arma foi usada?

– Não. É que no dia 30 de setembro alguém foi atingido na cabeça com um tiro de Magnum na orla da lagoa…

– O que aconteceu com ele? Quem é o pobre infel… – Antes de completar a frase um nome lhe veio à mente. Apoiou-se à mesa.

– Seu amigo Bedeu… o dono da arma – completou o Inspetor, que o tempo todo mantinha os olhos grudados em Mauro observando suas reações.

Mauro deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa. Seu rosto estava lívido.

– Você consegue se lembrar os detalhes; quantos disparos você fez; tinha mais alguém com você?…

– Eu estava com um primo meu, do interior… Eu queria mostrar a ele como se usa o revólver, mas não havia tempo para ir ao clube. Cada um deu três tiros intercalados…

– Todos os tiros foram no mesmo alvo imóvel, no barranco no fundo do quintal?

Mauro titubeou. Mas não tinha mais controle emocional para fugir de qualquer resposta óbvia.

– Nalgum momento entre os disparos… uma ave noturna assustada levantou voo da mangueira … tentei alvejá-la… – falou finalmente.

– Foi esse tiro que saiu para o alto? – indagou Matinhos.

– Sim… foi o único… tentando alvejar a ave…

– … Mas acertou seu amigo Bedeu enquanto pedalava, a seiscentos metros daqui! – falou Matinhos pausadamente.

– Não estou acreditando… Eu matei meu amigo com a própria arma dele! – concluiu Mauro desolado com o rosto entre as mãos.

Após um breve instante para que o empresário processasse os fatos, o Inspetor falou:

– Sr. Mauro, o sr. terá que nos acompanhar à delegacia.

– Eu estou preso?

– Não. O sr. não está em estado de flagrância. Seu crime, a princípio, se enquadra no delito culposo. Já puxamos sua capivara… Sabemos que o sr. não tem antecedentes criminais e, portanto, não se justifica prisão preventiva. Mas será indiciado em Inquérito Policial. Seu vacilo comporta no mínimo 4 anos de cana.  – Respondeu o Inspetor.

– O sr. vai precisar de um advogado… – acrescentou Matinhos.

 

Um ano depois o homem da capa preta proferiu a sentença contra Mauro. Com base no artigo 18 do Código Penal (que trata do dolo eventual), e na Lei da Gravidade (tudo que sobe, desce), o douto juiz entendeu que Mauro ao atirar para o alto, embora não quisesse, assumiu o risco de matar alguém com uma bala perdida. Por isso o condenou, por homicídio doloso, a oito (8) anos e meio de reclusão em regime fechado.

 

      A prisão do CAC descuidado não ressuscitou o ciclista Bedeu. Apenas preencheu o espaço que cabe à justiça. O vazio do amor nunca declarado continuou latente no peito de Vania. Apesar disso, ela encontrou um alento. Grata ao detetive Matinhos, Vania tornou-se assídua leitora de romances e crônicas policiais.      

Chico Luca & Mariana… e as 10 filhas

Um amor que resistiu as transformações socioculturais do final do século XX.

Meu quinto livro…

A história se passa longe dos grandes centros, com sotaques, ritmos, cheiros e paisagens que representam o interior brasileiro. É um tributo ao Brasil da roça, das festas, das tradições e das pequenas revoluções do dia a dia.

Uma história com gosto de pinhão assado na brasa, com cheiro de terra molhada! Uma história raiz, cheia de afetos… Uma história que nos remete à brisa suave da noite.

Se você ainda não tem o hábito de ler livros, depois de ler Chico Luca & Mariana, você vai viciar…

Você vai perceber que sua vida também daria um belo romance!

Você vai querer escrever sua própria história!   

Chico Luca & Mariana é um livro ideal para presentear alguém… Seu pai, sua mãe, sua filha, seu namorado!

“Você tem histórias pra contar”?

Casa onde nasceu Chico Luca…

Todo mundo tem histórias para contar… Mas nem todos contam!

Cada um tem seus motivos para não contar suas histórias.

Alguns acham que elas não valem a pena serem contadas.

Muitos tem vergonha de contar suas histórias!

Alguns acham que as pessoas irão rir das suas histórias.

Outros não querem que suas histórias caiam na boca do povo!

Tem aquelas pessoas que querem levar suas histórias para o tumulo!

Tem até aquelas que não contam sua história ‘nem morta’!

Mas a maioria das pessoas não contam suas histórias por quê …

Porque não sabem contar!

 

Sim… contar histórias “não é pra qualquer um”!

Contar histórias requer talento. Requer conhecimento básico do vernáculo. Requer conhecimento da história, requer cultura. Não a cultura fria dos livros, mas a cultura ‘caliente’ da vivência, da percepção do momento, da percepção dos sentimentos dos personagens! Requer acima de tudo um bom ouvido … e uma boa memória!

 

Foi com base nesses preceitos que escrevi essa história.

A começar pela memória, que me leva quando quero aos dois anos e meio de idade, na casa grande cheia de meninas.

Conhecimento da história é fácil! Eu estava lá, vivi a história, senti a história, sou parte da história.

Quanto ao talento, se de fato tenho, fica por conta de você, leitor!

 

Vamos conhecer a história?

Belo Horizonte está em festa!

Seu mais ilustre morador está soprando velinhas!

Cavucada saiu de casa logo de manhã nesta quarta-feira de “cumpleanos”, para cumprimentar os amigos. Essa selfie, comigo, foi feira às dez e meia da manha na pracinha atrás da igreja do bairro.

“Ele nasceu no dia 28 de maio de l969 mas diz que tem 17 anos e se comporta como se tivesse sete… No entanto anda por todos os cantos da cidade sem comprometer sua segurança e não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário… deixa um rastro de alegria e pureza por onde passa. Cumprimenta e conversa com todos, sempre alegre e sorridente, pergunta dos parentes quando os conhece, toca em qualquer assunto, fala de política a futebol passando pelos últimos fatos que foram notícias no país… É só puxar o assunto que ele tem alguma coisa para comentar. Para ele, este ano o Palmeiras será campeão!!!
Assim é o nosso amigo… Cavucada!
Conheço-o desde sua infância, há muitos anos, embora ele nunca tenha saído dela.
Numa ensolarada manhã de sábado nos preparávamos para mais uma pelada de futsal na extinta quadra Poliesportiva Julio Pereira Neto – construída pela administração Simão Pedro em 84 e destruída pela administração Jair Siqueira em 99, para dar lugar a uma rua paralela à outra -, no bairro da Saúde, quando Cavucada chegou e “pediu beira”…
– Eu também quero jogar Marcelo, vou lá em casa pegar a chuteira – Disse o garoto ao meu filho e saiu correndo em direção à sua casa a poucos metros dali.
Voltou instantes depois já com as chuteiras nos pés. Chuteiras mesmo!!! De travas altas, para campo de grama!! No primeiro chute que tentou dar na pelota, caiu de costas. Tentou dar outros chutes, mas acabou desistindo. Tirou as chuteiras, colocou na arquibancada e jogou descalço como sempre fazia, até o fim da pelada…
No ano seguinte uma notícia triste abalou a cidade…
Cavucada morreu!!!!!!!!!!
Como????
Ninguém sabia ao certo!
Uns diziam que ele havia sido atropelado lá pelas bandas da Serrinha de Bela Vista…
– Mas o que o Cavucada estaria fazendo por aquelas bandas, vinte quilômetros longe de casa?
Ninguém sabia explicar.
Tinha versão ainda pior: Ele havia sido assassinado no Chapadão!!!
Mas por quê??? Ele é inofensivo. Cavucada não diz nem palavrão!!!
Com o passar dos dias a notícia só se espalhava. Chegaram a sepultá-lo no cemitério Jardim do Céu!
Como policial, jornalista e amigo do Alexandre Cavucada, fui investigar sua morte. Não tive muito trabalho. No final da tarde de uma terça feira morna, encontrei o garoto, belo e formoso, alegre e sorridente como sempre, tomando sol preguiçoso na porta de sua casa, ao lado de sua mãe, no bairro Belo Horizonte.
Na ocasião eu apresentava o programa “Direto do Esporte” na rádio Difusora de Pouso Alegre, das seis às sete da noite. Naquele dia Cavucada fez o programa na rádio comigo. Depois da entrevista sobre sua suposta morte, para mostrar à população com sua própria voz que ele estava vivinho da silva, e nem ligava para os boatos, ele continuou comigo no estúdio, falando de futebol, de polícia, de bandido, de amizades… de linguaruuuuudos!
Cavucada falava com tanta desenvoltura, clareza e conhecimento do assunto que nem parecia que sua mente não havia acompanhado o desenvolvimento do seu corpo. Nosso Cavucada parecia um adulto!
Ainda bem que apenas parecia… Ainda bem que ele continua uma criança inocente, pura…”

Essa crônica foi publicada no dia 28 de julho de 2012, no meu Blog, dois meses depois que ele completou 43 anos. Desde então Cavucada se tornou figurinha carimbada nas minhas páginas sociais quando faz aniversário.
Hoje, 28 de maio, o menino Alexandre “Cavucada” Reis Assunção está completando 56 anos de vida.
Continua um menino… Menino alegre, cheio de carisma, cheio de sorrisos e de histórias pra contar!
Parabéns Cavucada!
Deus te abençoe!

A enchente das goiabas…

 

E o ultimo mergulho do Catimbau

A chuva caiu mansa a semana inteira. Lentamente as águas frias e sujas foram enchendo o leito do rio Mandu e subindo até sair penas margens ribeirinhas, preenchendo os espaços vazios, os buracos, as depressões, a várzea. Na madrugada do sábado finalmente a chuva parou de cair. Agora só rolava. Rolava lentamente procurando lugares que ainda não haviam sido alcançados. Tudo em redor da cidade estava alagado. A vargem do Aterrado parecia um mar. Até a chácara do Pedro Artur, à esquerda, na direção da Vigor, a qual havia recebido centenas de basculantes de terra anos antes, estava ilhada. Para se chegar às fazendas ao sul da cidade, depois da vargem, só de canoa. As famílias que moravam no Aterrado e na vargem haviam sido retiradas de lá dias antes, pelos caminhões do exército e da prefeitura. Estavam alojadas na Rinha. Demorariam dias para voltar para casa. O sábado amanheceu ensolarado e fresco. A tarde esquentou. Alguns nadadores de rio foram até a ponte do Aterrado nadar como sempre faziam por ocasião das enchentes. Desta vez, no entanto, nenhum deles se arriscou. O movimento lento das águas era assustador. Levados pelas águas serenas, de vez em quando passava por ali, boiando sob a flor d’agua um tronco de arvore podre, um pedaço de armário, um trapo qualquer, um cavalo ou um porco sem vida dividindo o espaço com as goiabas parcialmente comidas por passarinhos. Era a última enchente do ano, a famosa “enchente das goiabas”! Os jovens acostumados a belos saltos ornamentais de cima da ponte formavam grupinhos, conversavam, comentavam, desafiavam, ensaiavam, mas ninguém se aventurava a entrar na água.

Em dado momento perceberam a figura do Catimbau …

O moço surgiu do nada, entre as pessoas que contemplavam a enchente, com seu jeito sempre taciturno e calado. Decerto viera da cidade, da Rinha onde devia estar arranchado desde o meio da semana. Caminhou lentamente até metade da ponte. Apesar de solitário e discreto, não conseguiu evitar os olhares curiosos.

– Será que ele iria nadar naquela enchente? Será que ele teria coragem de saltar naquele dia? – interrogavam-se as pessoas com uma ponta de inveja.

Catimbau olhou para o oeste, de onde surgia o rio Mandu algumas braças atrás do campo do Vasquinho. Atravessou a pequena ponte… olhou para o leste, para onde ele descia reto até fazer a curva no fundo da Vigor. Olhou para a chácara ilhada mais à direita. Lentamente tirou a camisa de tergal esverdeada, pendurou na mureta da ponte, verificou se não se aproximava numa canoa, afastou-se de costas até a outra extremidade, tomou posição de largada, correu, saltou para a mureta, encostou os dois pés, aproveitou o embalo e… saltou no espaço! Saltou mais para a frente do que para o alto. Saltou longe de encontro às águas amarelas do rio mandu… As pessoas – naquele sábado ainda não eram tantas como de costume por ocasião das enchentes – e os nadadores de rio ficaram olhando, alguns admirados, outros perplexos com a coragem; outros com olhar de censura pela irresponsabilidade! Alguns torcendo para o aventureiro se dar mal! Outros torcendo para que os anjos o protegessem … E catimbau desapareceu!

Ele havia pulado contra a correnteza. Era natural que submergisse rio abaixo, debaixo da ponte, ou do outro lado. Algumas pessoas correram do lado de baixo esperando vê-lo surgir ofegante e buscar a margem.

Mas… nada!

De repente… aplausos!

Catimbau surgiu longe dali. Surgiu a poucos metros da margem direita do rio, quase no quintal da chácara do Chiquinho de Freitas. Saiu à rua, voltou para a ponte, caminhou até sua camisa, jogou-a no ombro e foi embora, tão solitário quanto chegou, deixando atrás de si um emaranhado de minhocas tontas zanzando na cabeça das pessoas.

Quase nada se sabia sobre Catimbau. Certo dia um rapazinho pardo, franzino, média estatura apareceu na Olaria do Chico Derige. Chegou ressabiado, sondando à distância. Sentou-se num toco podre de um ingazeiro ali perto e ficou um longo tempo observando os oleiros trabalharem até que se aproximou de Chico Derige e perguntou:

– Precisa de camarada?

Chico não precisava de empregado. Muito menos de um garoto franzino que certamente não teria força para misturar uma masseira de argila. Aquele menino com certeza não conseguiria virar uma forma de tijolo cru sobre a bancada. Ele, no entanto, havia notado a presença do menino sentado no tronco observando de longe a rotina. Quem sabe o menino não seria útil nas pequenas tarefas? – pensou. Sem tirar os olhos dos tijolos que empilhava começando a base da caieira que teria que queimar na noite seguinte, perguntou:

– Onde você mora, menino?

– Se o sr. der emprego, vou morar aqui.

A resposta surpreendeu Chico. Ele interrompeu por um instante o que fazia, percorreu o garoto de cima a baixo, olhou ao seu redor e tornou a perguntar.

– Sua família… de onde você vem? Já passou pelo Regimento?

– Não. Não tenho idade… Mas eu não vou servir a pátria. Família tenho não.

Chico Derige continuou seus afazeres como se não tivesse ninguém ali. Quando terminou de trançar os tijolos queimados na base da caieira, voltou a perguntar:

– Qual o seu nome?

– Catimbau.

– Catimbau de que?

– Só catimbau… minha mãe falou.

O velho oleiro coçou a cabeça branca, ajeitou o chapéu de palha e falou:

– Pago três cruzeiros por semana. Se quiser ficar aqui vai ter que fazer o seu rancho e a sua comida.

Catimbau descontraiu o rosto pardo e magro, esboçou um sorriso e falou fazendo uma ligeira mesura:

– Deus lhe pague, patrão.

Estava empregado.

Os anos passaram. Muitas enchentes das goiabas haviam se passado. Catimbau continuava o mesmo. Estava mais alto e mais encorpado. Mas só. Pardo, olhos escuros, fundos, cútis queimada pelo sol. Cabelos lisos e longos escorridos, cortados por ele mesmo com faca. Parecia um ‘indinho’! No entanto os traços fisionômicos: queixo, nariz, boca, sobrancelhas delicadas eram de branco, filho de branco… ou branca, europeu.

Essa era, talvez, a sétima ou oitava enchente das goiabas que expulsava Catimbau do seu ranchinho na olaria do Chico Derige. A mudança para a Rinha era fácil: saía de casa com a água pelas canelas e uma pequena trouxa de roupas nas costas. Só isso. Enquanto esperava a enchente baixar, de manhã, andava taciturno pela cidade. Perambulava pelo mercado. Era comum vê-lo sentado no fundo da catedral do São Bom Jesus com os olhos pregados na cruz. À tarde passava horas sentado na grama no Alto das Cruzes olhando de longe os movimentos da enchente, esperando o momento de voltar para casa. Dali podia avistar apenas a comunheira da olaria onde morava, mergulhada imóvel no mar da baixada do Mandu. Quando a chuva parava e o sol abria a porta ele descia para nadar na enchente, na ponte. Era ali que dava seus shows de saltos ornamentais nas águas amarelas que desciam das serras da Borda para se unirem ao Rio Sapucaí. Ninguém saltava tão alto, com tanta desenvoltura. Parecia parar no espaço. Ninguém ficava tanto tempo submerso quanto ele. Às vezes saltava para longe, as vezes para o alto… as vezes mal tocava a água e tornava a emergir tal qual uma tabarana em dia de Piracema! Às vezes desaparecia nas águas e ficava uma eternidade submerso, causando tensão e suspense até surgir distante do local onde mergulhara. Mulheres, sempre mais sensíveis, com a demora do nadador, levavam a mão à boca e exclamavam já com os olhos nadando:

– Ohhh… desta vez ele morreu!!!

No domingo seguinte Catimbau voltou à ponte do Mandu. Não chovia há mais de trinta horas. As águas haviam parado de subir. Mas não baixara. Demoraria mais de uma semana para voltar ao nível normal deixando apenas o cheiro indelével de sua passagem. O entorno da ponte estava abarrotado de gente. Pessoas nas janelas vizinhas, na sombra da arvores nas margens. Muitas se protegendo do sol sob suas coloridas sombrinhas. Era dia de festa, festa de gala. Muitos homens usavam ternos… mulheres desfilavam seus vestidos longos. Vários barcos de aluguel levavam quem quisesse para passear na enchente. Nadadores de todos os cantos da cidade estavam ali, dispersos ou em grupinhos, usando trajes de banho, buscando coragem para saltar na água, para exibir seus dotes.

Catimbau chegou discreto como sempre. Usava a costumeira indumentária: bermuda de brim cru da cor da terra com a qual fazia tijolos, cortada a faca nas canelas, e camisa verde-água, encardida. Os pés, que nunca foram apresentados a nenhum tipo de sapato, com as solas grossas e calejadas, tocavam livremente o concreto sujo da ponte. Parou à distância olhando para a plateia. Talvez buscasse alguém! Caminhou lentamente para o vão da ponte. Alheio aos olhares curiosos se dirigiu até a mureta do lado de baixo, observou o movimento das águas, o entorno rio abaixo, atravessou os poucos metros e parou na mureta do lado de cima. Tornou a observar. Seus movimentos estavam mais lentos e pausados naquela tarde. Parecia estar se despedindo… À sua esquerda os galhos dos chorões brincavam com a correnteza. Catimbau olhou para aqueles galhos que resistiam à força das águas. Ele e aqueles galhos tão pequenos e frágeis tinham algo em comum: podiam brincar o quanto quisessem com a correnteza que jamais seriam vencidos… A menos que quisessem se deixar levar! Virando-se para sua direita pousou seus olhos tristes na imensa plateia nos barrancos, nas janelas… Homens, mulheres, donzelas… Todos estavam ali para apreciar o espetáculo da natureza… a natureza dos homens! Apoiado na mureta da ponte, Catimbau deixou os olhos vagarem na plateia… Parecia procurar alguém, talvez um rosto conhecido. Ou então… se despedir daquela gente, daquela enchente, daquele rio que tão bem conhecia. Nesse momento recuou de costas até a mureta de baixo… alongou os braços, as pernas, o tronco… parecia que ia saltar. Caminhou decidido até a mureta de frente, parou, olhou para as águas, recuou novamente, aqueceu, tomou posição de corrida, atravessou a ponte e subiu com um movimento só na mureta, juntou os pés e … saltou no espaço! Saltou muito alto. Mais alto do que jamais havia saltado. Parecia que ia subir para o céu. De repente, quando o impulso acabou, Catimbau dobrou o corpo, por um instante ficou na horizontal, depois tornou a esticar e desceu quase reto em direção às águas. Desceu quase tão lento quanto havia subido! E com os braços estendidos tocou na água. E desapareceu!

Durante vários minutos a plateia permaneceu imóvel… esperando ver Catimbau surgir nalgum ponto do rio, no meio da enchente. Mas ele não surgiu. Seu corpo nunca mais foi visto.

Uma semana depois os desabrigados da enchente das goiabas, a maior daquela década, começaram a voltar para casa.

Um dos moradores da baixada do Mandu não voltou. No casebre de um cômodo só, habitado por Catimbau, preso à linha do telhado Chico Derige encontrou um minúsculo saco plástico amarrado pela boca. Dentro dele havia uma fotografia, aliás, duas… uma colada no verso da outra. Ambas as fotos eram de mulheres, ambas lindas, apaixonantemente lindas, brancas. Uma, séria, aparentava uma senhora de meia idade. Outra, sorrindo, uma menina na adolescência.

O detetive que investigou o caso do sumiço de Catimbau, com base nos seus parcos conhecimentos freudianos, sugeriu que a bela mulher madura poderia ser sua mãe. A outra, de sorriso doce e angelical, inatingível, deveria ser um amor platônico… causa do seu último mergulho na enchente das goiabas no Rio Mandu.

COPA BELATO de Futebol Regional

O que você vai ler agora, é o único registro que resta do maior campeonato de futebol do Sul de Minas!  

Belato, (camisa verde) patrocinador do evento, Airton Chips (pulôver listrado), Presidente da Lepa, e o troféu na abertura da 4a Copa Belato em Ouro Fino em 1990, troféu que seria levantado meses depois pelo S.C.Cantareira.

Em 1892, dois anos antes de o anglo-brasileiro Charles Miller voltar ao Brasil com duas bolas de capotão debaixo do braço e realizar a primeira partida de futebol em um clube em São Paulo, o futebol já era conhecido e praticado como recreação em um colégio de Pouso Alegre. O esporte Bretão, que apaixona crianças e jovens de todas as idades, e movimenta milhões de dólares todo ano, está presente em Pouso Alegre há 132 anos!

No entanto, pouco se sabe de sua história!

E sabem por quê?

Por desleixo.

Por descaso!

Porque não há registros dos seus movimentos, dos fatos, dos campeonatos através dos anos.

Não é possível saber, por exemplo, quem foi o campeão de futebol amador do ano de 1950! Ninguém sabe quem foi o campeão de futebol infantil de Pouso Alegre no ano de 1990. Tampouco se sabe quem eram os jogadores que encantavam a torcida com seus dribles nos campos da cidade na década de 70! Enfim, a história, as pessoas que marcaram uma época no esporte são abandonadas ao esquecimento! No entanto, preservar a memória, preservar a história, preservar o passado é importante. É o passado que norteia o futuro!

Poucos, no entanto, conhecem o passado recente.

Por exemplo:

Você sabe o que há em comum entre o Pouso Alegre F.C. e S.C. Cantareira?

Certamente nem sabe quem é ou quem foi o Cantareira!

Ambos têm vários pontos em comum. Os dois mais relevantes: ambos são rubro-negros.

O Pousão, hoje centenário, teve sua maior gloria no século passado, em 1990, quando fez a segunda maior campanha do interior no campeonato mineiro daquele ano. Além da brilhante campanha, o Dragão pôs água no chopp do meu Galo em pleno Mineirão no dia em o clube comemorava seus 82 anos: 2 x 1 – eu vi de perto esse jogo com estes meus olhos cor de mel!

Naquele mesmo ano o jovem S.C.Cantareira, do bairro São João de Pouso Alegre, sagrou-se campeão da Copa Belato de Futebol Regional!

 

      Ao longo da sua história, o futebol amador e o profissional de Pouso Alegre, nalguns momentos andaram juntos. Ora somando, ora dividindo, ora atrapalhando o outro… Em 1990 amador e profissional posaram juntos para a mesma foto, no alto. O profissional (PAFC) fazendo bonito na elite do futebol mineiro, e o amador (Cantareira) sagrando-se campeão regional da Copa Belato.

 

Mas voltemos ao título da matéria.

Campeonato Mineiro tudo mundo sabe o que é!

 

Mas o que vem a ser essa tal Copa Belato?

– Foi o mais completo campeonato de futebol amador do Sul de Minas de todos os tempos.

– Foi realizado entre os anos de 1987 e 1992 pela Liga Esportiva de Pouso Alegre – LEPA.

– Era disputado por clubes ou seleções das cidades num raio de 100 quilômetros no entorno de Pouso Alegre.

– As equipes eram divididas em grupos de 4, formato semelhante ao do Campeonato Brasileiro da época, com jogos de ida e volta, até chegar à final disputada em dois jogos.

Para entender melhor a dimensão da Copa Belato, é preciso conhecer um pouco a história do futebol de Pouso Alegre. Essa história pode ser dividida em três períodos distintos.

. O primeiro vai dos seus primórdios, ainda na infância do século XX, até o final dos anos 70, passando pela criação do PAFC em 1913, com a doação do terreno pela família ‘pinto cobra’ para construção do estádio no alto da Comendador em 1928, o qual viria ser conhecido por Estádio da LEMA, período aliás, de pouquíssimos registros. Passa também pela criação da LEMA – Liga Esportiva Municipal de Amadores em 1947.

. O auge dessa primeira fase do nosso futebol aconteceu entre os anos 1950 e 1960. Clubes como Facit, Manchester, Madureira, Flamengo do Quartel, Rodoviários, Bangu, São Paulo e outros marcaram aquela época.

O declínio aconteceu, ironicamente, com o auge do PAFC profissional! É sempre assim: tudo que sobe… desce! Às vezes despenca…

Depois de galgar à primeira Divisão de profissionais do Estado, em 68 o PAFC perdeu, no tapetão, a vaga para disputar o mineiro de 69 e o futebol da cidade, profissional e amador, caíram no ostracismo.

O futebol – amador – voltou a brilhar no final da década dos anos 70, com o campeonato regional disputado no Estádio da Lema.

Disputado em apenas um estádio era um campeonato de grandes bilheterias e de grande nível técnico. Porém com regulamento frouxo … começava com jogadores amadores de Pouso Alegre e terminava sendo decidido por profissionais da Caldense, do Guarani e da Ponte Preta de Campinas. À medida que o campeonato ia afunilando, os times iam se reforçando com jogadores profissionais dos clubes tradicionais da região, de acordo com o poder aquisitivo e vaidade dos cartolas. Quem tinha mais dinheiro para contratar mais craques levantava o caneco.

. Era muito bom para o torcedor, que podia assistir grandes espetáculos no Estádio da Lema …

. … Mas era péssimo para o futebol da cidade, que, ao desprestigiar seus jogadores que jogavam de graça, esvaziava o futebol nos anos seguintes.

O segundo período de Pouso Alegre, começou com a ressurreição do PAFC, em 82, curiosamente treinando no campo da Escola Profissional. No ano seguinte o clube seria campeão estadual amador e em 84 voltaria a disputar o campeonato profissional da Segunda Divisão até conseguir o acesso à Primeira em 88. Em 90, no seu segundo ano na elite do futebol profissional, o PAFC teve sua melhor performance, ficando em segundo lugar do interior, depois de vencer o Atlético em pleno Mineirão no dia do seu aniversário.

O retorno do PAFC ao futebol profissional em 84, forçou a reestruturação da Lema – Liga Esportiva Municipal de Amadores, para cuidar estritamente do futebol amador. Começa aqui o segundo período do futebol amador de Pouso Alegre.

Foram realizadas incontáveis reuniões com cartolas e aficionados do futebol buscando sua reestruturação. As reuniões aconteciam semanalmente na antessala da Rádio Clube de Pouso Alegre e no escritório da Distribuidora Brahma, do radialista Paulo Roberto, discutindo o que, como e quem fazer, até que se definiu a nova diretoria da Liga, sendo escolhido para dirigi-la o inesquecível Aguinaldo Maranhão Cordeiro Falcão. “Sô” Aguinaldo, como era chamado pelos boleiros, recebia dirigentes e jogadores amadores a qualquer hora do dia e da noite em sua própria casa na Manoel Matias no bairro Primavera. Além do presidente, os cartolas elegeram também o vice-presidente, tesoureiros, secretários, diretor de esportes, Presidente da Junta de Justiça Desportiva e conselheiros. Nos anos seguintes, 85 e 86, a Lema realizou dois campeonatos municipais na cidade, nas categorias Aspirante e Titular.

As dificuldades para realizar um campeonato estritamente municipal, com tantos clubes desestruturados, em campos ruins, quase sem apoio comercial e sem apoio dos órgãos públicos, e ainda concorrendo com a estrela principal que era o futebol profissional, arrefeceu os ânimos dos diretores da Lema. Em 86 a diretoria resolveu fazer apenas a categoria Titular, ainda assim, com apenas 12 clubes. Fizeram mais, aliás, menos… No final do segundo ano de retorno da Liga, a diretoria reduziu o próprio mandato, que era trienal, e promoveu eleições para a sua sucessão.

Foi aí que a Gestão 87/92 entrou em cena para fazer história no futebol amador de Pouso Alegre e da região, criando a Copa Belato de Futebol Regional!

Congonhal particcipou de cinco das seis edições da Copa Belato. Levantou 2 troféus. Campeão em 88 e vice em 90.

DESCRÉDITO E DESANIMO

     O formato dos campeonatos regionais disputados até o início da década de 80, trouxeram um grande descrédito e desânimo para os atletas e dirigentes. O futebol, como o nome diz, era amador. Jogava-se de graça, por amor ao esporte e à camisa. Ninguém ganhava nada, muito menos os cartolas. Ao contrário. Os cartolas tinham despesas. Já naquela época bolas, camisas, redes, tintas para marcar campo, transporte, etc, custavam dinheiro. E nem sempre havia patrocinadores. Os custos saiam quase sempre do bolso do cartola apaixonado.

 

Ouro Fino levou o caneco de 89…

OS DESAFIOS DA COPA BELATO

Cantareira: único dos três clubes de Pouso Alegre a disputar o certame. Levou o caneco de 90.

O primeiro desafio para implantar na região um campeonato entre as cidades, no formato do Campeonato Brasileiro, disputado por um clube ou seleção da cidade, com jogos em seus respectivos campos, com bilheteria, com Regulamento rigoroso limitando a cada clube contratar apenas três (03) jogadores de fora, ainda amador, foi convencer os demais diretores da Lema da viabilidade da competição. Alguns diretores não acreditavam na credibilidade e capacidade do presidente para conduzir e realizar o evento.

– “É muita responsabilidade! São muitos os enroscos. Se a liga não conseguir resolver os pepinos que irão surgir e o campeonato não chegar ao final, a Lema cairá em descrédito na região”, disseram alguns dirigentes desconfiados.

– “Mas se você achar que dá conta, faça um contrato de gaveta assumindo toda responsabilidade sobre o evento. Se der lucro é seu, se der prejuízo… você paga!”, aconselhou um tesoureiro da Lepa.

O jovem e obstinado presidente, apesar do descrédito, acreditava nos seus ideais. Por isso calçou as chuteiras e entrou em campo.

Monte Sião. A Associação Atlética Montessionense estava se preparando para disputar a Terceira Divisão da FMF quando descobriu a Copa Belato…

 

COMO CHEGAR AOS DIRIGENTES DA REGIÃO

Jacutinga: esse time, de 88, tinha vários jogadores remanescentes do futebol profissional. Levou o ultimo caneco da edição.

O desafio maior foi contactar e convencer os dirigentes das cidades vizinhas a participarem do campeonato. Naquela época o celular ainda não havia saído da mente de Steve Jobs. O computador ainda era a tradicional máquina Olivetti Linea 98 – que a Lepa nem isso possuía! Os regulamentos e as sumulas dos jogos eram, portanto, datilografadas e reproduzidas no mimeógrafo, ou então na máquina de xerox da papelaria Dom Nery. Os contatos com os cartolas dessas cidades eram feitos através do velho telefone fixo – que poucos tinham. Nalgumas delas o telefone ainda era de três dígitos, via telefonista. O contato com prefeituras, secretarias de esportes, ou simplesmente ‘donos de times’ da região, que ainda mantinham alguma ilusão com o futebol, tinha que ser feito pessoalmente, nas respectivas cidades.

Bueno Brandão tinha jogadores como o centroavante “Nego” (primeiro agachado ao lado da bola), que não devia um centavo para os craques milionários de hoje.

“Teve início uma epopeia, cidade por cidade, tentando reunir os desportistas para ressuscitar o futebol da região! Em duas semanas visitei cerca de 50 cidades no entorno de Pouso Alegre, para, ao final, reunir 08 (oito) seleções! Fiz as viagens, algumas sozinho e outras na companhia do meu fiel escudeiro Masaharu Sato, a bordo do meu chevette 74. O chevettinho mais rodado do que bolsinha da Perimetral, tinha um buraco no assoalho. Na serrinha de Heliodora para Natércia, já no início da noite, tentando escapar de uma chuva que subia a serra, entrou tanta poeira no carro que quase não enxerguei as curvas. Quando chegamos a Natércia estávamos amarelos de poeira! Rsrsrsrs… No dia seguinte, depois de terminar os contatos na cidade de Munhoz, eu pretendia seguir para Toledo e de lá voltar pela Fernão Dias. No entanto, meu sexto sentido me aconselhou a voltar para casa por Inconfidentes. Durante o percurso pela MG 290, percebi que o volante estava meio fora de lugar, mas não dei importância ao fato. Ao distorcê-lo para entrar na garagem em casa, descobri por que ele estava torto! A barra de direção havia quebrado na estrada de terra entre Monte Sião e Bueno Brandão! Felizmente meus anjos da guarda me aconselharam a desistir da viagem a Toledo e voltar para casa!

Munhoz, bancado pelo batateiro Peres, tem muitas histórias para contar, dentre elas: era campeão de público e renda. Qualquer jogo levava mais de 800 torcedores ao estádio! Chegou à semi final de 92, mas caiu no ‘tapetão’ da JJD da Lepa. Motivo: o regulamento da Copa Belato permitia (03) três ‘jogadores de fora’. O time tinha 08. Três juniores do Mogi Mirim, o goleiro Neneca (aposentado do Bragantino) e outros quatro das cidades vizinhas.

 

“Após quase duas semanas visitando velhos cartolas e descobrindo outros novos, em dezenas de cidades, consegui reunir 07 (sete) para realizar meu sonho de integrar o futebol amador da região do extremo sul do Estado. Participaram do primeiro certame as seleções de Espírito Santo do Dourado(João Neto), Machado(Helio), Heliodora (Chumbinho), Ouro Fino(Tonhão e Josias), Ipuiuna(Dininho) e Monte Sião(Simão) e os clubes Juventus do Ze Maria e Guarani do Niquinho, de Pouso Alegre.

 

Conceição dos Ouros, bancado pelo comerciante João Toureiro(camisa azul), disputou duas edições.

Nos anos seguintes outras cidades foram aderindo à Copa Belato tais como São João da Mata, Silvianópolis(Heleno), São Gonçalo do Sapucaí, Careaçu (Pedrinho), Conceição dos Ouros(João Toureiro), Paraisópolis (Secr. Esportes), Estiva (Fuscao e Salvador), Cambui (Claudio Manni) Camanducaia( Celio Santos), Itapeva (Neguinho da Copasa), Extrema (Sansão), Borda da Mata (Lua), Inconfidentes (João Língua), Bueno Brandão (Kleber), Munhoz(Dito Perez) e Jacutinga(Soleo).

Borda da Mata tinha no elenco grandes jogadores, mas não conseguiu o apoio dos velhos cartolas da cidade e nem da torcida. Tirou Munhoz no ‘tapetão’ e foi à semi final, mas parou por aí.

Na ultima edição da Copa Belato, realizada no último ano de mandato da Liga, em 1992, chegamos a 24 equipes de 22 cidades”.

 

CESAL – Time de garotos do treinador Salvador Lopes (de boné), tinha apoio de cartolas da região como Ernani Braga e Rogerinho da Borda e da torcida.

ARBITRAGEM

     Os árbitros, inicialmente, eram de Pouso Alegre. Com o crescimento dos campeonatos, trouxemos um trio de árbitros de Santa Rita do Sapucaí e outro de Ouro Fino. Para tal, realizamos neste período três cursos de arbitragem ministrados pelo professor Juarez Chaves Salgado, da FMF.

 

Trio de elite: Carlos Roberto de Oliveira, Vinicius Gonçalves Mariano (que nada devia aos melhores árbitros do profissional da CBF) e o saudoso e quase lendário Masaharu Sato…

PREMIAÇÃO DO CAMPEONATO

     Em todos os anos a LEPA premiou com troféus medalhas o campeão, o vice, o artilheiro da competição, o goleiro menos vazado, o destaque do campeonato, e, para incentivar os policiais a garantir a segurança nos estádios, instituiu o troféu “melhor policiamento de campo” – a PM de Congonhal abocanhou quase todos!

 

Troféu exposto na abertura da 4a edição do campeonato, no Estádio Municipal de Ouro Fino, com a presença do patrocinador do evento, Deputado Jose Adamo Belato. Meses depois o troféu foi entregue ao campeão Cantareira em Borda da Mata.

STATUS DE FEDERAÇÃO

 

“Em novembro de 1987 mudei a denominação da LEMA- Liga Esportiva Municipal de Amadores para LEPA – Liga Esportiva de Pouso Alegre. A seriedade e firmeza da organização do campeonato regional e o brilho das competições deram à entidade regional o status de FEDERAÇÃO. Onde o representante da LEPA e o trio de árbitros chegavam, eram tratados como autoridades.

– “Olha o pessoal da Federação chegando”, diziam diretores e torcedores das cidades vizinhas!

Nos últimos anos, a confiança depositada na Lepa na organização da Copa Belato era tanta, que alguns dirigentes nem se davam ao trabalho de participar do arbitral.

– “O que vocês decidirem aí tá bom pra nós. E só mandar a tabela e o regulamento que nós estamos de acordo”, dizia Soleo, Secretário de Esportes de Jacutinga, que já havia participado da 3ª Divisão de Profissionais da FMF.

Guarani (Pouso Alegre): Cipozinho (com a bola) foi o responsável por marcar o GOL 10 MIL da Lepa na gestão 87/92.

     O período mais retumbante desse segundo capítulo do futebol de Pouso Alegre, talvez o mais marcante de toda sua história, foi de 87 a 92. Além da mudança na denominação, dando-lhe IDENTIDADE REGIONAL, a liga ganhou caráter eclético passando a promover outras modalidades esportivas além do futebol tais como VOLEY, FUTSAL e CICLISMO. Em 1988 promoveu o JEPA. Nessas duas gestões foram criadas e realizadas todas as categorias básicas do futebol: Fraldinha, Mirim, Infantil, Juvenil, Junior, Veteranos. Nos últimos anos da gestão foi criada a SEGUNDA DIVISAO do futebol amador da cidade. Durante os seis anos dos dois mandatos, foram realizados mais de sessenta (60) campeonatos de futebol e outros eventos de voleibol, futsal e ciclismo.

      Nesse curto período foram assinalados 11.480 gols em competições oficiais da LEPA.

     O “gol 10 mil” daquela gestão – 87/92 – aconteceu dentro da Copa Belato. Foi assinalado às 17:27h do dia 7 de abril de 1991 no campo da Escola Profissional. Foi o segundo da goleada de 5 x 0 imposta pelo Guarani do São Geraldo à seleção de Bueno Brandão.

     O histórico gol “10 MIL” foi marcado pelo camisa 7, CIPOZINHO, da equipe alviverde de Pouso Alegre.

Itapeva (do cartola Negrinho), participou de quase todas as edições com brilhantes campanhas.

 

OS CAMPEÕES da COPA BELATO

 

– 1987 Espírito Santo do Dourado (Douradense) – Vice Heliodora

– 1988 Congonhal                                                    – Vice Douradense

– 1989 Ouro Fino                                                     – Vice Ipuiuna

– 1990 Pouso Alegre (S.C. Cantareira)                  – Vice Congonhal

– 1991 Monte Sião (A.A.Montessionense)             – Vice Jacutinga

– 1992 Jacutinga                                                      – Vice Monte Sião

      A partir de 1993, e até meados da segunda década deste século, o futebol amador e o profissional de Pouso Alegre estiveram adormecidos. Em 2018 o futebol profissional (PAFC) retomou sua história, nos gramados, e tem brilhado cada vez mais.

     O futebol amador continua adormecido – senão morto!

 

*** O que você acabou de ler não está escrito em nenhum arquivo público… Infelizmente!

Tudo que foi realizado – e não foi pouca coisa! – entre os anos 1987 e 1992, quase 80 eventos esportivos, perdeu-se em folhas de papel datilografadas. Não há mais registros!

*** Jose Adamo Belato – Deputado Estadual -, de Monsenhor Paulo, foi o patrocinador da premiação do campeonato, por isso seu nome na competição regional.

Mauritana Furtado… meu anjo da Borda!

Naquela noite fiz o melhor banquete da minha vida: arroz, feijão e bife… servido em um prato de louça, raso, com garfo e faca! 

Passava pouco de 13h quando encontrei meu amigo Rui de Paula em frente o Palácio do Bispo em Pouso Alegre.

– Está tendo festa na Borda! Vamos vender pipoca lá? – convidou ele.

– Vamos … – respondi eu, sem pensar duas vezes… e sem ter a menor ideia de onde ficava essa tal Borda!

Como se estivéssemos indo ao bairro vizinho iniciamos a caminhada. Pegamos a Silviano Brandão, a Alferes Gomes de Medela, passamos pela Remonta, passamos pela entrada da Vendinha e pegamos a estrada. No meio da tarde estávamos na baixada do bairro Anhumas. Aquele carrinho branco todo enfeitado de pipocas coloridas empurrado por dois garotos, passando lentamente pela estrada, atraiu a atenção de uma dúzia de lavradores numa plantação ali na várzea. Eles pararam de capinar o arrozal e vieram até a beira da estrada, curiosos, querendo entender o que era aquilo! Alguns deles tinham dinheiro na algibeira … e todos comeram pipoca doces coloridas e amendoim torrado coberto com chocolates!

 

Às sete da noite entramos na rua principal de Borda da Mata, bastante cansados, empurrando o carrinho de guloseimas. Quinze minutos depois entramos numa ruazinha transversal onde algumas crianças brincavam. Ali o carrinho de doces começou a esvaziar.

 

Foi ali naquela ruazinha transversal que eu a conheci.

 

Atraída pelo burburinho da criançada ‘que nem formiga no doce’, ela apareceu no portão de uma casa com grades na frente. Era a senhora Mauritana Lopes Furtado. Na verdade, eu só guardei o sobrenome “Furtado”. Mas nunca esqueci o gesto daquela senhora. Muito menos o que ela nos ofereceu!

 

Curiosa para saber de onde vinham aqueles dois meninos franzinos empurrando aquele vistoso carrinho de doces, ela se aproximou e puxou prosa. Minutos depois, quando a criançada se afastou lambuzada e feliz, a bela senhora morena, de meia idade, apareceu com o nosso jantar. Sentados no passeio defronte sua casa, eu e o Rui, degustamos o banquete! Não me lembro de ter comido, até então, uma comida tão chic e gostosa: arroz, feijão e bife em um prato raso de louça branco, com garfo e faca. Até aquele dia eu só conhecia prato fundo esmaltado… e colher! Não foi somente o prato de comida deliciosa que a boa e linda senhora morena nos deu. Deu também um pouco de carinho, de afeto… de amor. Depois de seis horas empurrando o carrinho de pipocas pela estrada, precisávamos de tudo isso. Minutos depois chegamos à praça central da cidade, completamente lotada, comemorando o dia da padroeira N.S.do Carmo. Era dia 16 de julho de 1971. Eu já era um mocinho… tinha 13 anos!

 

No dia 17 de setembro de 2014, um mês depois de publicar meu primeiro livro de crônicas policiais, voltei à Borda da Mata. Desta vez fui sozinho, de carro. Fui visitar meu anjo da Borda e pagar aquele jantar com um presente. Dei-lhe um exemplar do livro “Meninos que vi crescer”, no qual eu citava seu nome naquele longínquo ano de 1971. Mauritana morava na mesma casa onde fiz a melhor refeição da vida, 43 anos atrás! Não era hora de jantar, mas não saí de lá sem mimos e o afeto da senhora Mauritana Furtado, já octogenária.

Entre nós foram apenas estes dois encontros… o suficiente par fazer morada em meu peito.

Nesta terça-feira, 08 de abril, Mauritana foi chamada se volta à Casa do Pai. Voltou para os braços do Criador, onde sempre teve lugar cativo.

Boa viagem meu anjo Mauritana.

Denúncias de vizinhos levam estuprador para o Hotel do Juquinha

O hediondo crime vinha acontecendo no JARDIM YARA!

Uma postagem aqui sobre crime de homicídio no início do mês passado, trouxe dezenas de milhares de acesso ao blog. Com os acessos de novos e antigos leitores, que conhecem a seriedade e credibilidade com que sempre tratamos os assuntos policiais, vieram também algumas denúncias de crimes; crimes que revoltam a sociedade!

 

Uma das mensagens dos nossos leitores, falava sobre um crime hediondo que vinha sendo cometido paulatinamente por um cidadão contra filhos e enteados no Jardim Yara, em Pouso Alegre.

 

Segundo a denunciante, as quatro crianças de 5, 8, 14 e 16, sendo as duas mais velhas enteadas, há anos vem sendo abusadas. Pior, com anuência da mãe das quatro, que defende o amásio das acusações!

 

De antemão, a denunciante disse que o Blog era seu último recurso, pois o Conselho Tutelar e o próprio Juizado da Infância e Juventude tinham conhecimento dos fatos, mas até então, não havia dado uma solução definitiva para o caso.

 

Antes de orientar a denunciante ou levar a denúncia adiante, procurei me inteirar da veracidade dos fatos, a começar pelo Conselho Tutelar da cidade.

 

Sim, a denúncia era verdadeira. Segundo contou, também indignada a conselheira tutelar, providencias já haviam sido tomadas por aquele órgão. No entanto, o crime se arrastava e o abusador continuava impune. Segundo a dedicada Conselheira, com larga experiencia em casos dessa natureza, as crianças haviam sido afastadas do lar e entregues à ‘Casa de Acolhimento’ do município criada para esse fim. Porém, de maneira provisória. Seis meses depois, com o afastamento do pai e padrasto do lar, as crianças foram devolvidas à mãe… E a relação criminosa do seu companheiro continuou com relação aos filhos – um deles, inclusive autista – aumentando a revolta e descrença dos vizinhos com relação a justiça!

 

Embasado nessas informações levei as denúncias ao conhecimento do Juizado da Infância e Juventude no Fórum local, onde fui atenciosamente recebido. O jovem comissário que me atendeu – diga-se de passagem com fineza e preocupação com o escabroso caso – confirmou todo o imbróglio, e esclareceu que o juiz do feito estava buscando solução, tentando encaminhar a família de volta para o Maranhão onde os abusos haviam começado. No entanto, garantiu o comissário, o caso seria imediatamente recolocado sobre a mesa do douto magistrado.

 

Foi mesmo!

 

Quatro dias depois recebi uma mensagem do atencioso Comissário, informando que ele havia retirado as crianças do convívio da mãe e do estuprador. Segundo determinação judicial, as crianças ficarão provisoriamente sob custodia da ‘Casa de Acolhimento’ na Comarca de Pouso Alegre, à espera de adoção.

 

As providências do Homem da Capa Preta não pararam por aí. O processo andou. Nesta terça-feira o estuprador de filhos e enteadas recebeu a visita dos homens da lei, sentiu o frio das pulseiras de prata, pegou carona no táxi do contribuinte e foi se hospedar no Hotel do Juquinha!

Indignação!!!

Mesmo identificado, processo e condenado, talvez o agressor nem venha a conhecer o Hotel do Juquinha por dentro!

A brutalidade aconteceu numa rua paralela à Vicente Simões na noite de sexta-feira,28.

É o mínimo que se pode dizer para expressar os sentimentos dos familiares – e da sociedade – com as agressões sofridas pelo adolescente no bairro Guanabara, região central da cidade na primeira noite de carnaval em Pouso Alegre! Uma agressão selvagem, à traição, desproporcional a qualquer ato que, porventura, tenha ocorrido antes! Atitude covarde, dada a desproporção física da vítima, dada a total impossibilidade de fuga ou de defesa! Apesar disso, a ação não exigiu nenhuma reação das pessoas que assistiram passivamente a brutalidade. Talvez paralisadas pelo medo, ou acostumadas com a violência das ruas, nada fizeram para intervir ou deter o agressor. Ele, no entanto, não escapou do olhar frio e inerte do “olho vivo” que a cada dia mais toma conta das nossas ruas, mostrando para a polícia a cara de quem faz feiura!
                                      “Eu, como mãe de adolescente, fico indignada”! – escreveu uma leitora do meu blog nesta segunda-feira.
                                      “Vai fazer duas semanas e o vagabundo anda todo, todo por aí. … E Até agora ninguém, fez nada” – diz a leitora!

Mesmo após jogar o adolescente na lona, o agressor continuou batendo…

Desacorçoada com a impunidade que campeia solta na cidade – e no país, a sociedade tem dado sua contribuição ao Estado, instalando câmeras de segurança nas suas residências e empresas, o que possibilita, ao menos, mostrar para a justiça a cara do infrator! – Coisa que, aliás, as determinações do CNJ, atendendo à ‘sensibilidade’ dos Direitos Humanos, não permite.
A prefeitura de Pouso Alegre, através do CIDS também implementou recentemente medidas nesse sentido buscando auxiliar a polícia no combate à criminalidade no município, instalando dezenas de câmeras pela cidade. Graças a essas câmeras que buscam ao menos inibir um pouco o insolente meliante, o autor da barbárie cometida contra o garoto na noite ainda criança de carnaval, foi identificado!
Mas e agora?
O que acontecerá com o selvagem agressor?
Saber quem é o autor da agressão não muda muito o status quo da conjuntura. Aliás, piora um pouco! Aumenta a indignação da família e da sociedade. Sim. Pois não há lei para punir o agressor à altura do seu crime!
A sociedade, ao instalar câmeras fez sua parte contribuindo com a identificação do agressor. A polícia militar, que não pode ser onipresente, registrou o fato e tomou as demais providências para o seu esclarecimento.
A polícia civil, a quem cabe investigar o crime, neste caso, dentro de 30 dias colocará o agressor, seja ele quem for, e todos os subsídios para o seu julgamento, sobre a mesa do Homem da Capa Preta.
E o que irá acontecer com o agressor?
Será julgado de acordo com a lei.
E o que diz a debochada lei?
O que vimos nas imagens, salvo melhor juízo, se enquadra em lesões corporais (art.129 CP), cuja pena varia de três meses a 01 ano de cana. Dependendo da gravidade e consequências das lesões, a pena pode chegar a oito anos!
Se o zeloso RMP enxergar e o douto Homem da Capa Preta se convencer de que houve tentativa de homicídio, a pena pode ir de 6 a 20 anos com redução de um a dois terços, ou seja: o brutamontes pode pegar 2 anos de cadeia. Dependendo de algumas variáveis, com uma pena dessas o cidadão que aparece nas imagens espancando o adolescente diante de dezenas de olhares assustados e impassíveis em plena via pública, talvez nem venha a conhecer o Hotel do Juquinha por dentro!
“… Juro que se fosse com meu filho ele (agressor) já estaria morto”! – desabafa a mesma leitora… indignada.
Enfim…
Sem lei severa, não há punição!
Sem punição… não há por que NÃO cometer crimes!
Sem punição para o criminoso, o trabalho da polícia não passa de “enxugar gelo”!
A sociedade paga, merece, precisa e quer mais do que isso!