Mendigo .40

Tarde quente e manhosa de fim de março

Na escadaria dura, irregular e suja da favela do Morro, na capital paulista, o mendigo está inquieto. De bermuda jeans suja e rasgada, camiseta em pior estado, com o pezão 42 sujo no chão, ele não sabe se senta ou se deita! Com movimentos lentos e desconexos, franzindo constantemente a testa tentando manter os olhos abertos, ele parece mamado… ou chapado! Ao seu lado, à direita, há uma sacolinha, dessas de supermercado, amassada. Do lado esquerdo, apoiada no concreto malfeito, há um corote. De vez em quando o mendigo de boné escuro amassado leva o corote à boca, entorna, faz uma careta e em seguida pega outra garrafinha que parece ser coca-cola e toma uma golada para desfazer o gosto que veio do corote. De tempos em tempos enfia a mão suja na sacolinha – que mais parece um saco de lixo – pega um sanduíche, talvez de mortadela, tira uma mordida e torna a guardá-lo na sacolinha.

 

Em situação de penúria e decadência semelhantes, outros dois mendigos espreguiçam na sarjeta numa ruela abaixo.

O tempo passa lentamente…

O calor de fim de março na favela é quase insuportável. Em dado momento, a alguns metros da escada, uma voz de mulher de vinte poucos anos, talvez, se despede de uma pessoa cujo nome parece familiar ao mendigo. Por baixo da aba do boné ele vê a mulher entrar num golzinho bola e se afastar do local.

Depois de consumir quase todo o conteúdo quente das duas garrafinhas e parte do sanduíche, o mendigo ouve o movimento de uma janela e de uma porta se abrindo no muquifo de onde saíra a mulher uma hora antes.

Sacudindo a cabeça, como se isso diminuísse o efeito do suco de gerereba, ele vê um sujeito sair da casa com um saco de lixo e leva-lo até a esquina a poucos metros dali.

Desacorçoado o mendigo se levanta meio cambaleante, pega sua sacolinha de ‘lixo’ quase vazia, vai em direção à casa e quando o sujeito vai entrar, enfia a mão na sacolinha e… ao invés de sanduíche azedo aparece uma pistola .40!

– Perdeu Mané… perdeu! – Diz o mendigo ao sujeito – Já era! Deita no chão…

– Qualé, mano, tá maluco?!… Caralho, é você? Tô diboa, tô diboa… – choraminga o favelado reconhecendo o ‘mendigo’, enquanto se deita de cara no chão!

– É melhor ficar de diboa mesmo – retruca o mendigo, enquanto saca o celular com a mão esquerda e diz apenas:

– Tá na mão…

Em exatos 48 segundos os dois mendigos da ruela de baixo chegam ao local. Cada um trás na algibeira larga da bermuda suja uma pulseira… de prata!

Um minuto e meio depois dois carros param ao lado deles e resgatam os três mendigos e o favelado!

 

Cenas de um filme policial feito na favela?

Enredo do meu próximo livro de ‘Romance Policial’ ou crônicas policiais?

Nana… nina… não!

São cenas reais de uma tensa operação da PC para prender um “patrão” do tráfico de Pouso Alegre.  Outros 33 traficantes – em operações menos glamourosas, todos pegos de pijama ou nos braços de Morfeu – receberiam também as pulseiras de prata da lei.

 

Antes do sol modorrento e melancólico daquela segunda-feira de fim de março de 2012 se deitar atrás da Serra da Cantareira, os pupilos do delegado Gilson Baldassari deixaram a capital paulista trazendo na rabeira do táxi do contribuinte um dos maiores distribuidores de drogas de Pouso Alegre.

A investigação conduzida pela delegacia regional da PC, rendeu ao bando cerca de 400 anos de ‘sol quadrado’ no hotel do contribuinte.

A tensa e arriscada prisão feita pelo ‘mendigo’ mineiro na porta do muquifo na favela paulista, garantiu ao ‘favelado’ Fabão 18 anos e meio de hospedagem gratuita no Hotel do Juquinha.

Pra rir… Ou pra chorar?

 

Solta ele!… Senão eu vou chamar a policia!

A corrida era frenética. Meu fugitivo tinha uma pequena dianteira, pois apesar de ter pedalado os últimos três quarteirões, ele tomara a iniciativa. Quem toma a iniciativa sempre sai na frente!

Corríamos pelo elevado da linha férrea nos equilibrando para não escorregar nas pedras soltas do lado dos dormentes! Parecia que meu fujão iria escapar. A estação vazia se aproximava. Já estávamos chegando perto da escadinha da ruela Braz Vitale…

De repente meu fugitivo deu uma guinada e desceu pela escadinha! Desceu quase sem tocar os cinco degraus.

Eu desci sem tocar!

Desci pelo espaço… voando!

Caí lá embaixo com as duas mãos nas costas do fujão!

Toquei nas costas, mas não consegui segurá-lo! Ambos estávamos por demais molhados de suor e escorregadios!

Sua camiseta branca sem mangas em poucos segundos virou um trapo.

Durante um interminável minuto travamos uma ferrenha luta ali na ponta da viela…

Eu tentando dominá-lo para aplicar-lhe uma chave de braço e ele tentando se desembaraçar das malhas da lei…

Foi nesse momento que começou a parte cômica da história. Atraída pela balburdia da luta uma senhora saiu no alpendre da casa ao lado com uma vassoura na mão.

– Solta ele, moço! Solta senão eu vou chamar a policia! – disse a senhora brandindo a vassoura de piaçava.

Eu não sabia se ria ou se chorava… Quase perdi as forças!

O único pensamento foi: “Chama a policia logo, dona… E diga que é urgente”!

Pensei, mas não pude expressar. Um segundo de distração meu fugitivo escaparia!

Um gancho no estômago… ou um direto no queixo, certamente poria fim a resistência do meu prisioneiro. Mas o professor de defesa pessoal na Acadepol, meses antes, havia dito que o policial tem que dominar o meliante sem agredi-lo. Com poucos meses de policia, eu ainda não sabia que teoria e pratica são duas amigas inseparáveis, porém cínicas e maldosas!…

Continuei tentando imobilizá-lo. Durante a contenda subimos a velha escadinha de pedra de volta para a margem da linha férrea…

De repente surgiu lá na esquina da rua São José um gordinho cabeludo. Mais tarde eu saberia que ele era o Henriquinho Toledo. Pensei, em meio aos esperneios e esmaneios do meu quase prisioneiro:

“Que bom! O gordinho cabeludo tem cara de ser do bem… Ele vai me ajudar a dominar esse meliante teimoso!”

Ledo engano! Aconteceu o inverso!

Ao se aproximar, sem saber os motivos da abordagem, Henriquinho se condoeu do ‘pobre’ fujão e tentou libertá-lo.

“Solta ele, moço. Ele não fez nada”, dizia Henriquinho tentando desvencilhar meu prisioneiro dos meus braços! Mui amigo!

Eu já estava prestes a deixar escapar minha presa, quando finalmente surgiu uma luz no fim do túnel. Na verdade, surgiu lá na entrada do mata-burro do pátio do Freitas. Era o Ze Carlos, vizinho da delegacia. Ele veio andando rapidamente, curioso com aquela cena. Quando se aproximou e me reconheceu disparou:

– “Pó pará”! Esse baixinho sem camisa é ladrão de carro. O outro moço bonito é o Detetive Chips!

Finalmente Paulinho parou de espernear. A senhora da casa de baixo botou a viola, quero dizer, a vassoura debaixo do braço e saiu de fininho do alpendre. Henriquinho ajeitou as madeixas e ficou ali parado, com cara de tonto, olhando eu me afastar em direção à plataforma da estação levando meu prisioneiro numa chave de braço…

No minuto seguinte, depois da vaca morta, meus três parceiros surgiram na brasilinha verde ao lado da plataforma da Dr. Lisboa…

Os fantasmas do Velho Hotel da Silvestre Ferraz – Parte IV

 

Um Fantasma de 100 mil reais!

Início de uma madrugada de inverno de 2007. Nos sombrios e assustadores corredores do Velho Hotel reinava o silencio. Apenas o cheiro adocicado de maconha circulava por ali. Nalgumas celas ainda se podia ver a luz verde azulada de uma ou outra tevê, e ouvir o som abafado de um radinho. De repente uma figura soturna surgiu no corredor principal do prédio. Para chegar ao corredor a figura havia passado por quatro portões – dois do lado externo e dois já no prédio – todos trancados com grossos cadeados. O ‘fantasma’ daquela noite caminhou até a porta do X3, colocou a chave no cadeado Papaiz, abriu, levantou o trinco na fenda da parede longe do acesso dos presos, puxou o trinco para trás e abriu a pesada porta de ferro. Ao lado da porta, a pretexto de fumar um cigarro, a hóspede esperava sentada, tensa, com mochila básica aos seus pés. Levantou-se muda, pegou a mochila e saiu fumando, como se estivesse indo fumar lá fora. Numa rua lateral a poucos metros do velho hotel, um carro tão sombrio quanto o fantasma esperava por ela. A ‘ausência’ da traficante foi percebida no dia seguinte, na saída para o banho de sol.

Quem seria o fantasma que soltou a traficante?

Como ele conseguiu abrir quatro cadeados para soltá-la?

Por que teria feito isso?

Onde estava o policial que deveria estar na sala da carceragem?

A única resposta que circulou nos dias seguintes, e depois nas sindicâncias, foi o cachê… O ‘fantasma’ silencioso daquela madrugada teria recebido R$ 100 mil reais para soltar a detenta sem a necessidade de alvará!

A sindicância instaurada pelo delegado corregedor não conseguiu identificar o fantasma. As outras doze hospedes do X3, que não fizeram check-out naquela madrugada, poderiam ter esclarecido o mistério do fantasma silencioso, caso quisessem. Mas era conveniente ‘não querer’! Por isso alegaram que estavam nos braços de Morfeu e não viram nada. Algumas disseram que ouviram o barulho do ferrolho no movimento clássico de abrir e fechar a cela, mas não deram importância.

– Achei que fosse um alvará do Homem da Capa Preta! – disse uma das hóspedes. Além do mais o corredor estava na penumbra… E o fantasma talvez usasse capuz.

Vários policiais, especialmente os que estavam de plantão naquela noite foram investigados. Porém, o fantasma que abriu cadeados e portões e soltou a traficante não apareceu! Se tivesse sido identificado, o ‘fantasma’ seria processado por corrupção e poderia ir para a rua. Por falta de provas o crime ficou sem solução… E a única que foi pra a rua foi a traficante, sem necessidade de Alvará… Mas com cem mil reais a menos na conta… E o ‘fantasma’ da madrugada com cem mil reais na algibeira!

O “Conto do Vigário” veio do espaço

A coroa apaixonada pagou 30 mil euros para o astronauta voltar do espaço para se casar com ela!

Contos do vigário Brasil afora é o que mais tem… e vigaristas também! Só em Brasília existe muito mais de cem!

Mas se você pensa que o famoso ‘conto do vigário’ tem patente brasileira, você está viajando… no espaço!

O conto do vigário, em suas diversas modalidades, tem raízes fincadas em todos os cantos da terra.

Tem conto do vigário até do outro lado do mundo, mais precisamente no Japão!

Tem conto do vigário até no espaço!!!

Outro dia uma discreta – e solitária – senhora japonesa, abriu uma conta no Tinder, a fim de buscar um príncipe encantado! E conseguiu! Mais do que isso. Conseguiu um príncipe que vive no espaço! Sim, o moço de 44 anos estava morando numa estação espacial internacional!

Conversa vai, conversa vem, mesmo à distância – e que distância! o astronauta, que dizia ser russo, se apaixonou pela diva japonesa de 65 anos. Entre uma jura de amor quase intergaláctica e outra, o príncipe jurou de pés juntos que tão logo retornasse à terra, iria direto para o Japão para se casar com ela.

E ela acreditoooooooouuu!!!

E disse mais: “Se eu conseguir pagar os custos do retorno à terra antes do previsto, posso voltar a qualquer momento para me casar com você”!

O namoro espacial começou em junho – que coincidência! mês dos namorados!

O inverno chegou, julho passou, e o sr. Tinder continuou aquecendo os dois corações apaixonados.

Até que o astronauta jogou a isca no espaço:

– “Quero começar minha vida no Japão. Dizer isso mil vezes não será suficiente, mas continuarei dizendo. ‘Eu te amo’.” “Se eu conseguisse o dinheiro para pagar os custos do retorno do foguete e as taxas de aterragem, eu voltaria para a terra agora mesmo, para me jogar nos seus braços”!

A apaixonada japonesa mordeu a isca… Mandou seus ienes para o espaço. Duplamente para o espaço!

Entre os dias 19 de agosto e 05 de setembro, foram cinco transferências interplanetárias totalizando trinta mil Euros, cerca de R$ 150.000 reais!

Como sempre acontece nestes casos, fome de amor… por dimdim, nunca é saciada! Tão logo o dimdim da coroa voou para o espaço, quero dizer, para sua conta, o astronauta… ‘aumentou’ seu amor por ela! Pediu mais dinheiro!

– “Antes de voltar para a terra, tenho que quitar outras despesas pendentes aqui no espaço”, disse o astronauta se derretendo de paixão na tela do Tinder!

Só então a japonesa parou de raciocinar com o coração. Finalmente a ficha caiu!

Depois que a solteirona, cujo nome não foi revelado, levou o caso aos homens da lei em outubro passado, o “conto do vigário espacial” cruzou todo o espaço da terra – pelo menos do Japão à Londres.

Os Keikan japoneses prometeram que tão logo o astronauta russo desembarque no Japão, ele sentirá o frio das pulseiras de prata e irá se hospedar no Hotel do Juquinha!

O matador sempre morre no fim!

     Dívidas quitadas com a justiça… não quitam dividas pessoais!

A vedete da imprensa sul mineira neste começo de semana atendia – até a manhã de domingo – pelo epiteto de Pedrinho Matador! O notório assassino que começou a carreira ainda na adolescência, desfilou em todos os sites e telejornais da região nesta segunda-feira.

Pedro Rodrigues Filho nasceu em Santa Rita do Sapucaí em 1954. Doze anos depois mudou-se para Alfenas, onde teria cometido seus primeiros homicídios: segundo a lenda, criada pelo próprio, ele teria matado o vice-prefeito local por vingança pela demissão do seu pai do cargo de vigia de uma escola, sob a acusação de furto. Dias depois teria matado o verdadeiro ladrão da escola. Para não cair nas malhas da lei, Pedrinho dobrou a serra do cajuru e foi morar com os parentes em Mogi das Cruzes. Ali, ainda adolescente, iniciou a carreira de traficante de drogas.

Foi nos porões dessa perigosa atividade que ele deu asas à sua sanha assassina. Começou eliminando concorrentes do comercio de drogas. Aos 17 anos matou o próprio pai durante uma visita na cadeia. O pai havia sido preso depois de desferir vinte e dois golpes de facão na esposa, mãe de Pedrinho. Mais tarde, durante uma das entrevistas que deu à imprensa, Pedrinho disse que arrancou o coração do pai e mastigou um pedaço! Tomou gosto pela coisa e não demorou muito passou a matar por prazer, como ele mesmo fez questão de tatuar na própria pele!

Preso pela primeira vez ao completar 18 anos, Pedrinho viveu alguns anos brincando de furar tatus e balançar na “teresa” para fugir das cadeias. Com a segurança dos hotéis do contribuinte reforçada, Pedrinho finalmente criou raízes atrás das grades. Foi lá que ele cometeu, segundo o próprio gostava de gargantear, mais de 40 assassinatos de companheiros de cela.

Em entrevistas para grandes reportagens policiais que visam traçar o perfil social de notórios psicopatas matadores, o próprio Pedrinho se vangloriava de ter matado mais de 100 pessoas. Bravata compreensível, pois, uma vez que soma penas que garantem no mínimo 30 anos atras da grades e, sabendo que a lei não permite que fique mais de 30 anos preso, dizer que matou 10, 20, 40 ou 310 não muda nada. Mas poderia torná-lo mais famoso, poderia afagar-lhe o ego! Só não afaga – e não afagou e nem apagou – um velho estigma!

“Egressos de longas prisões não sobrevivem muito tempo em liberdade”.

É o caso dos notórios Cabo Bruno, do “Bandido da Luz Vermelha”, do Cirilo Bola Sete!

No caso de Pedrinho, até que ele foi longe! Conseguiu viver mais de quatro anos sem ver o sol nascer quadrado. Pedrinho matador foi executado no meio da manhã deste domingo, 05, com vários tiros de pistola, na porta da casa de uma prima que costumava visitar em Mogi das Cruzes nos finais de semana. Os vingadores que há tempos andavam na sua sombra, para terem certeza de que o matador não mataria mais ninguém, cortaram também sua garganta. A prima e uma criança que estavam com ele tiveram tempo de se recolher à residência e não foram feridas. Típica execução! O jargão bíblico nunca sai de cena: “Quem com ferro fere…”.

 

      Bandido da Luz Vermelha

João Acacio Pereira da Costa, nascido em Joinville no ano de 1942 tornou-se nacionalmente notório com o epíteto de Bandido da Luz Vermelha. Quatro assassinatos, 7 tentativas, 77 roubos à mão armada na capital paulista e cerca de 100 estupros – estes não comprovados – lhe renderam 351 anos de hospedagem gratuita no Hotel do Juquinha.

Em agosto de 1997, depois de mais de 30 anos comendo bandecos pagos pelo contribuinte paulista, João Acácio Luz Vermelha passou a desfilar livre, leve e solto pelas ruas e praias de Joinville. Cento e quarenta dias depois, após envolver-se numa treta, sentiu o gosto amargo do próprio veneno. O Bandido da Luz Vermelha apagou no dia 05 de janeiro de 1998. Tinha 56 anos.

 

Cabo Bruno   

Quando entrou para a policia militar paulista, Florisvaldo de Oliveira, nascido em novembro de 58 em Catanduvas-SP, já levava o apelido de infância… “Bruno”, por conta da semelhança com um notório ‘pé de cana’ com esse nome que perambulava pela cidade.

A graduação à cabo lhe rendeu o notório apelido de Cabo Bruno. Mas teria ficado nisso, não fosse seu dinamismo policial e sua sanha de justiça… Mesmo que fosse com à margem da lei!

Acusado de ter executado mais de 50 bandidos durante suas operações policiais com cara de legalidade e outras nem tanto, Cabo Bruno ganhou as páginas policiais da imprensa paulista e nacional no inicio dos anos 80. A fama de justiceiro lhe rendeu 118 anos de prisão.

Atras das grades se tornou pastor evangélico e se casou com uma funcionária do presidio. Vinte e sete anos depois, em agosto de 2012, o homem da capa preta de Taubaté lhe devolveu a liberdade.

No final da noite do dia 26 de setembro, ao chegar de um culto em Aparecida, de terninho e gravata e bíblia debaixo do braço como convém a um bom cristão, dois lombrosianos esperavam por ele. Foram dezoito tiros. Nenhuma das pessoas que estavam com ele foram atingidas. Vinte e sete anos depois Cabo Bruno já havia esquecido suas vitimas… mas os parentes delas não o havia esquecido.

Depois de 27 anos atras das grades, Cabo Bruno desfrutou apenas 34 dias de liberdade! Tinha 53 anos.

 

E o Cirilo Bola Sete?

O Cirilo não passou tanto tempo vendo o sol nascer quadrado. Ele não foi personagem de filmes e seriados. O máximo do estrelato que ele conseguiu foi protagonizar uma das crônicas do livro “Meninos que vi crescer”. Apesar das aventuras criminosas em Pouso Alegre, Jacutinga, Vale do Paraíba, ‘Rocinha’ no Rio de Janeiro onde esteve mocosado por uns tempos, perto de Cabo Bruno, Luz Vermelha ou Pedrinho Matador, Cirilo é um anjinho!

O Triste fim de Margarida Leite!

Durante mais de ano ela visitou seu algoz na cadeia!

Antes de voltar à liberdade, Faissal recebia Margarida na velha delegacia.

Toda quarta-feira ela estava lá. Era uma das primeiras a chegar para a visita no Velho Hotel da Silvestre Ferraz. Vinha na charrete do Chico Pé de Pano. Duas horas depois o mesmo charreteiro voltava para buscá-la. Eventualmente ficava esperando por ela. Eventualmente também, depois da visita, ela descia a Herculano Cobra ou a Com. José Garcia para fazer pequenas compras e depois pegava a mesma charrete atrás do mercado para voltar pra casa.

 

Era uma bela e discreta mulher. Alta, clara, cabelos longos ondulados. Vestia com sobriedade. Usava sempre vestidos longos claros com discretas estampas coloridas. Apesar da discrição, orelhas, pescoço, mãos ostentavam brilhantes joias, rejuvenescendo sua sexagenária pele e denotando seu status financeiro. Sua figura poderia ser confundida com a mulher do prefeito ou até do deputado…  Passava dos 60 anos, mas não deixava de atrair olhares cobiçosos e até… libidinosos!

 

“Quem será que ela vai visitar”? pensava quem a via pela primeira vez na fila de triagem na entrada da cadeia. Seria algum irmão! Um filho? Um neto?

 

Fosse quem fosse, ela devia amá-lo muito para sujeitar-se à humilhação de visitá-lo toda semana na cadeia. Que crime teria cometido o ingrato salafrário para levar tão distinta figura à aquele antro de perdidos!

 

Estelionatos!

 

Mohamed Faissal era alto, forte, moreno, bem moreno, quase mulato… resultado típico da miscigenação de raças que compõe o povo brasileiro. Não se sabe quantos anos havia sentado no banco da escola, se tinha algum diploma… Mas tinha muita cultura, muito conhecimento e usava seus conhecimentos, inclusive jurídicos, para convencer as pessoas a atender seus interesses… mesmo que fossem ilegais!

Foi assim que com menos de trinta anos Faissal foi parar no velho Hotel da Silvestre Ferraz, no final dos anos 70.

 

A visita era coletiva, dentro das celas. Em dias de visitas os presos limpavam o ‘apartamento’, empilhavam os pertences, otimizavam o espaço, tomavam banho e se enchiam de expectativa para receber seus entes queridos. Uma visita por vez para cada preso.

 

Além da sua respeitável, sedutora e perfumada presença, Margarida levava também mimos tais como chocolates, bolachas, cigarros e, claro… ‘dim-dim’ para o seu amado!

 

Não demorou muito, Faissal, com sua lábia peculiar, conquistou a liberdade intramuros. Foi ‘promovido’ a ‘cela livre’! Desde então passou a receber sua distinta visita semanal numa sala separada da carceragem.

 

Alguns meses depois o bonitão moreno, educado e articulado, ganhou mais uma ‘promoção’… Virou faxineiro na delegacia! Sua sessentona e bela visita passou a ser recebida ali. Ficavam um longo tempo sentadinhos num banco deserto lá num fundo da delegacia. As vezes Margarida chegava mais cedo… e ficava no hall conversando com o Inspetor Angelo, seu amigo de longa data.

 

Algum tempo depois Faissal chegou ao terceiro estágio da liberdade… Ganhou a liberdade condicional! E voltou definitivamente, sem amarras, para os braços de Margarida.

 

Durante décadas a Rua David Campista, foi uma das ruas mais alegres e movimentadas de Pouso Alegre. O movimento, no entanto, era noturno. Começava ao pé da noite e varava a madrugada. Desde às sete da noite desfilavam por ali viajantes, aventureiros, homens mal-casados, jovens solteiros, adolescentes muitas vezes levados pelos próprios pais para provar a masculinidade, todos em busca de sexo! Ao longo de três quarteirões as casas, a maioria simples, com suas luzes vermelhas, convidavam a clientela. A atração principal da casa – loiras, ruivas, morenas, jovens, outras nem tanto – muitas vezes exibiam seus dotes no portão, tentando atrair os sedentos de amor!

A Rua David Campista, na região central da cidade, era conhecida pelo sugestivo e romântico nome de … Rua da Zona!

 

Logo no início, afastada da beira da rua, ficava a boate da Margarida. Era a casa mais festiva, mais discreta, mais elitizada da Zona! A primeira que inundava a vizinhança com suas músicas apaixonadas e a ultima que fechava. Foi ali que Faissal conheceu e se enamorou de Margarida. E dos seus dotes financeiros. Tornou-se seu Gigolô!

 

Durante o tempo em que esteve hospedado no Velho Hotel da Silvestre Ferraz, Faissal reduziu muito sua despesa. Lá ele tinha cama, comida e roupa lavada por conta do contribuinte. Ao retomar a liberdade seu custo de vida subiu. Os mimos que antes recebia da sua distinta visita na cadeia já não eram suficientes. Era necessário mais… E começaram os atritos entre o casal!

 

Certa manhã, no inicio da década 80, ao chegar para trabalhar encontrei a delegacia ligeiramente agitada. O Inspetor Angelo, sempre um dos primeiros a chegar, estava apreensivo e acabrunhado. Uma amiga sua havia sido assassinada! Ângelo foi um dos detetives que acompanhou o perito ao local do crime. Mais tarde eu soube que ele ficou à distância, não passou da sala. Não teve coragem de entrar no quarto da bela e distinta senhora com quem tantas vezes conversou no hall da delegacia enquanto ela aguardava o horário de visitas. Segundo o perito, o corpo de Margarida tinha mais de uma dúzia de lesões provocadas por golpes de faca.

Faissal nunca mais foi visto na cidade!

Os fantasmas do velho hotel da Silvestre Ferraz – Parte III

        O Sorveteiro

Essa historia começa nessa esquina, em frente o sobrado do Argentino de Paula… no final de 1969.

“Quando ensaiava os primeiros passos para se afastar do soturno prédio, um dos sujeitos pendurados na grade gritou”:

– Hei picolézeiro… Tem de groselha? Dá um aí!

Ficou na dúvida se podia ou deveria se aproximar. O pouco que sabia sobre cadeia e presos, sabia que não era um lugar comum, que não eram confiáveis. Se estavam atrás das grades é porque tinham matado ou roubado! Matá-lo certamente não podiam, mas será que não iriam roubá-lo? Enquanto pensava no que fazer, um preso de outra janela, com as pernas numa calça arregaçada e o dorso desnudo, gesticulando os dois braços através das grades, gritou irritado:

– Eu quero um de framboesa! Anda logo, pirralho!

Se o pequeno vendedor de picolés já flertava com o medo de se aproximar das janelas da cadeia, neste instante sentiu pavor! E agora? Atendia aos pedidos dos presos ou saia correndo ali? Foi salvo – ou encorajado – pelo gongo! Um sujeito que passava pela rua recebeu um pedido parecido…

– Ei ‘seu Zé’… Dá um cigarro aí! – pediu outro preso, um albino, na janela ao lado.

O sujeito de meia idade, empertigado, de calça caqui e camisa social azul clara, usando chapéu de feltro, subiu no pequeno murinho que circundava o tosco prédio, aproximou da janela, sacou da algibeira da camisa um maço de Parker de filtro amarelo e distribuiu vários cigarros. Antes mesmo de ouvir os agradecimentos, ou pedido, estendeu também um ‘bing’ para acender os cigarros e esperou a devolução. O garoto criou coragem. Afinal, levava pendurada no pescoço uma caixa de isopor cheia de picolés… Para vender! Não podia escolher os clientes… Desde que pagassem! Aproveitou a ‘segurança’ do ‘seu Zé’ e se aproximou das janelas. Vendeu nove picolés de frutas, coloridos, e dois de coco-queimado. O pagamento pelos picolés demorou. Só recebeu o dinheiro quando uma voz grossa saiu de dentro de uma das celas:

– Paga logo os sorvetes! O moleque está trabalhando… Ele não está com a vida ganha igual vocês não, seus talaricos! – disse a voz autoritária. O sorveteiro nunca soube se a voz era do carcereiro ou se de algum preso que mandava nos demais!

Esse foi o primeiro contato do garoto vendedor de picolés com o velho hotel da Silvestre Ferraz. Era verão de 1969. O velho presídio construído em 1932 tinha menos de quarenta anos de vida, mas já era velho na aparência. Paredes sujas e manchadas pela água escorrida das chuvas, trincas nos beirais no alto, e gigantescas janelas sem vidraças. “Se chover de vento deve alagar tudo lá dentro”, pensou o garoto. Tinha espaço digno para trinta e dois hospedes – cerca de zero vírgula um por cento da população da cidade, que beirava na época quarenta mil habitantes. No entanto, entre condenados, provisórios e correcionais, abrigava na ocasião pouco mais de vinte presos – a superlotação só chegaria trinta anos depois com a expansão das drogas, na virada do século. Os de bom comportamento, a maioria, ficava nas três celas da esquerda, de frente para a rua, onde podiam ter contato com transeuntes que passavam ressabiados ao lado do prédio, a poucos metros das janelas, e podiam conversar, pedir cigarros e até comprar picolés dos garotos que passavam por ali, como o assustado menino de dez anos de idade daquela tarde.

O vendedor de picolés voltaria ao velho presidio onze anos depois, em 1980. Desta vez, e de tantas outras, como policial. Nos anos seguintes o jovem Detetive de Policia e acadêmico de Direito, iniciando a carreira paralela de jornalista e cronista policial, batizaria a velha cadeia com o nome irônico e jocoso de “Velho Hotel da Silvestre Ferraz”! A partir de então, teria muita história pra contar…

Silvio Santos foi envenenado e enterrado vivo

      Sua esposa confessou o macabro crime!

Sentada confortavelmente na sua cadeira de couro com encosto alto, com ambas as mãos apoiadas nos braços da cadeira, a promotora quase precisou segurar o queixo para que ele não caísse com o que acabara de ouvir. Diante dela, no final do expediente de terça-feira, a polêmica advogada defensora dos direitos humanos, não viera defender um cliente… viera fazer uma confissão!

– Minha filha matou meu marido! Eu a ajudei a enterrá-lo. – disse ela sem alarde, como se estivesse falado de uma receita de bolo de maracujá!

A mui digna representante do Ministério Público, afundou-se na poltrona, como se quisesse afastar da mesa, da confidente… Com os olhos bem abertos pregados na causídica, emparelhou os neurônios, fez força para manter o maxilar quieto e disparou:

– Como é que é? A Sra. pode repetir o que disse, por favor!

– Então doutora… A sra. conhece meu marido. Ele toma remédio controlado. Ele estava muito agitado. Quando eu tentei lhe dar o remédio, ele ficou agressivo e começou me agredir. Como minha filha tentou me defender ele passou a agredi-la também! Chegou a dar-lhe um golpe com uma pá. A ferramenta atingiu a perna dela. Para nos defender minha filha teve que segurá-lo pelo pescoço, tipo ‘mata-leão’.

A promotora escutava atônita.

– Foi muito tenso – continuou a advogada. Ele tentando se soltar para nos agredir, ela tentando segurá-lo pelo pescoço, até que ele finalmente ficou sem forças, caiu no chão e ficou imóvel. Nós ficamos com muito medo. Ele não se mexeu mais, foi ficando roxo, frio. Quando a gente viu… ele estava morto!

A guardiã da lei engoliu em seco, retirou as mãos dos braços da poltrona recoberta de couro, apoiou-as sobre a mesa inundada de papeis, livros e processos, e quando articulou o queixo para fazer outra pergunta, a advogada prosseguiu:

– Nós fizemos uma cova no quintal ao lado da casa e enterramos meu marido lá…

Perplexa, a promotora precisou de alguns segundos para recuperar o fôlego antes de perguntar:

– Mas… por que vocês não chamaram a polícia, não chamaram a ambulância, não pediram socorro…

– Não adiantava mais chamar o Samu… ele já estava morto! Quando minha filha viu o pai morto ali no chão, ela entrou em pânico! Ela disse que se eu chamasse a polícia ela se mataria!

Ainda sem ter certeza se acreditava ou não naquela macabra história, a promotora perguntou.

– E por que não me procurou antes?…

– Eu estava cuidando da minha filha, doutora. Ela ficou muito abalada. Primeiro eu tinha que cuidar de quem estava vivo, depois fui cuidar do morto! – Respondeu como se estivesse seguindo um rito processual.

– E onde ela está sua filha agora? Por que ela não veio com a Sra.?

– Eu a internei doutora. Minha filha está se tratando numa clínica psiquiátrica no Vale do Paraíba.

– Meu Deus!!! E quando foi que isso aconteceu, criatura! – indagou a promotora

– Foi no final do mês passado… faz uns dez dias.

– E onde está o corpo do seu marido agora?

– Está lá, doutora… enterrado numa cova rasa no quintal, perto da janela…

 

Este caso, verídico, aconteceu na histórica e pacata São Gonçalo do Sapucaí. O restante da história está no livro “Quem Matou o Suicida”.

O Sorriso de Alexandra… A garota do semáforo!

Ela faz ponto no cruzamento da Santa Rosa com Antônio Carlos. É assim que ganha o pão!

Cruzamento da Avenida Santa Rosa com Antonio Carlos, região nobre da Pampulha, de manhãzinha.

Chega de manhãzinha, por volta da seis, a fim de pegar o maior fluxo de veículos das pessoas indo para o trabalho ou levando crianças pra escola. É como o “pássaro madrugador… pega as melhores minhocas”!
A cada sessenta segundos ela tem dois minutos para vender suas guloseimas. É o tempo que o sinal vermelho do cruzamento lhe dá para abordar os motoristas que param carrancudos nas quatro filas paralelas. A maioria nem abaixa o vidro escuro do carro para fazer o sinal negativo. Mesmo assim ela agradece com uma discreta deferência… e um sorriso!
Estatura mediana, negra, anca larga, ela se move lentamente entre os carros e evita ir até a terceira fila… para não ser surpreendida entre os carros e atrapalhar o trânsito quando o sinal se abrir.
E assim segue a manhã vendendo seus produtos e distribuindo sorrisos…
Um sorriso que encanta, que quebra o gelo!
Um sorriso que abre a carranca dos motoristas que param com seus carros fechados!
Um sorriso gratuito, que enriquece a manhã das pessoas que se dignam a olhar pra ela!
Assim é Alexsandra … Sorridente, respeitosa e gentil com todos que olham pra ela nas manhãzinhas no semáforo! Mesmo que não comprem nada… Sorri mesmo que eles apenas olhem pra ela!
Foi assim que conheci Alexsandra nos primeiros dias de fevereiro de 2022, quando começou o ano letivo.
Foi assim que me acostumei com o sorriso de Alexandra… Uma ilustre desconhecida vendedora de doces e queijos no semáforo mais movimentado da Pampulha!
Não sei qual dos dois notou o outro primeiro… Mas ela foi a primeira a sorrir. Todo dia sorria e acenava quando eu passava! Na primeira vez que consegui parar na ponta da fila ela se aproximou. Baixei o vidro, cumprimentei… e perguntei o que ela vendia.
– Doces e Queijos! Tenho nózinho e cabacinha. R$ 25 reais o pacote de meio quilo – disse ela abrindo seu melhor sorriso.
– Estou sem carteira… Amanhã trarei dinheiro…
– Pode levar. Amanhã você me paga – emendou ela já levantando o cestinho de bambu.
Fiquei freguês. Passei a comprar dois pacotes de queijo por semana… para facilitar o troco. Às vezes – quando eu não tinha dinheiro – comprava fiado! Às vezes – quando ela não tinha queijos – eu pagava adiantado. Nunca comemos tanto queijo na vida!
Nossa relação de dois minutos no semáforo foi além da comercial. Fincou raízes… na amizade. Na respeitosa e alegre amizade. Todos os dias, quando o semáforo me obrigava a parar, ela vinha até o carro, eu baixava o vidro, ela pegava minha mão e beijava. Quando estava de batom – e quase sempre estava – beijava o dorso da própria mão dizendo:
– “Hoje não posso beijar… senão sua mulher vem aqui e me mata”!
Na volta das férias, em agosto, fui surpreendido com a gritante ausência de Alexandra e seu sorriso!
O que teria acontecido com ela?
Teria ganhado na mega e parado de trabalhar?
Teria mudado de ponto? De cidade? Estaria doente?
Fiquei muito tempo sem resposta.
Na última semana de novembro, Alexandra reapareceu. Voltou a iluminar o semáforo da Santa Rosa com Antônio Carlos com seu sorriso!
Quando a vi, abri a janela do carro, coloquei a cara para fora e fiz a tradicional pergunta, como se fôssemos velhos amigos:
– Você sumiu! O que aconteceu?
Alexsandra, com seu cestinho de doces e queijos, abriu ainda mais o costumeiro sorriso, sorriu com a boca e com os olhos, – e com o coração – e deu a clássica resposta:
– É uma longa história!
Disse isso mas, olhou para o semáforo, se deu conta de que a luz havia acabado de ficar vermelha, notou que eu era o segundo da fila e que, portanto, ela tinha mais de cinquenta segundos e começou contar sua história.
– Eu estava cuidando da minha mãe… Ela teve câncer, no útero, e acabou morrendo.
Mal abri a boca para me solidarizar, ela emendou:
– Logo depois da minha mãe, meu irmão também ficou doente… De repente ficou muito mal e descobriu que estava com câncer, no fígado… Ele bebia muito. Quando descobriu já era tarde. Acabou morrendo…
Triste por ela, deixei escapar algumas palavras de alento e … o sinal verdejou!
Antes que os carros se movessem na pista morna, Alexsandra moveu para a calçada fria e emendou resignada:
– É vida que segue …
Enquanto soltava o freio para me mover, pude ver seu aceno de mão e ouvir sua bênção, com o tradicional sotaque belorizontino:
– “… ‘cum’ Deus” – disse Alexsandra, exibindo seu melhor sorriso.
Impossível esquecer o que vi na Pampulha…
Impossível esquecer o sorriso de Alexsandra!

… E assim surgiu o Coisa Ruim da Borda!

“Se eu ficar rico logo, a primeira filha mulher que eu tiver darei em casamento ao capeta!”

* Os bastidores dessa investigação, a ojeriza dos bordianos ao seu personagem ‘mais ilustre’, as curiosidades, os medos que a família do Portuga passou – e eu também! Os depoimentos das pessoas que se arrepiaram com a presença do “Chiquinho” na fazenda da Ponte de Pedra… Tudo isso está no meu primeiro livro de crônicas policiais, “Meninos que vi crescer”, com o título “O mistério do Coisa ruim da Borda”!

Pouso Alegre, apesar de ter soprado quase oitenta velinhas, ainda era uma criança. Criança alegre, sorridente, viçosa, pujante… Naquele início de século já dava mostras de que cresceria e se tornaria referência no Sul de Minas e no Estado das Geraes. Criança também era a noite daquele longínquo sábado de outono quando o caminhãozinho Chevrolet preto – ignição à manivela – estacionou rente ao canteiro da Avenida Duque de Caxias, no coração da cidade. Os dois amigos desceram do caminhão, pegaram suas pequenas tralhas, atravessaram a avenida e em poucos passos entraram na “Pensão da Vovó”. Fazia pouco mais de seis meses que moravam num quartinho dos fundos da velha pensão de paredes pintadas de verde, na esquina da Duque de Caxias com Bueno Brandão, de frente para o santuário. Estavam cansados. Haviam trabalhado desde as primeiras horas da manhã transportando mudanças na cidade e arrabaldes. Era o único caminhão apropriado para esse tipo de transporte na cidade. Não tiveram dificuldades para tomar banho no banheiro coletivo da pensão naquela noite. Eram os únicos hospedes naquele final de semana.

Joaquim e “Manuel” haviam chegado ao Brasil a cerca de um ano. Os dois amigos trouxeram nas guaiacas apenas o suficiente para a subsistência de alguns meses e, quem sabe, para iniciar um pequeno negócio. Desembarcaram em Santos, mas não criaram raízes na Baixada. Subiram a serra, ficaram alguns meses em São Paulo e subiram para o Sul de Minas. Acreditavam que o grande estado mineiro tinha mais a oferecer a dois jovens aventureiros com tino comercial como eles. Por isso fixaram residência na hospitaleira Pouso Alegre, única cidade banhada pelo pequenino, piscoso e charmoso Rio Mandu.

Os negócios iam de vento em popa. Quase metade do caminhão já havia sido pago. O restante, conseguido à juros junto a um patrício, seria quitado na segunda feira seguinte. O dinheiro, guardado em um rústico saco de estopa, era levado atrás do banco do caminhão para todo lugar que iam. À noite, o saco dormia em segurança debaixo da cama, ora de um, ora de outro. Os dois amigos tinham por hábito, todo sábado, visitar as “primas” a dois quarteirões da pensão, na Rua David Campista. Naquela noite, no entanto, estavam muito cansados e sem vontade de sair para satisfazer os desejos da carne. Não foram para os braços e abraços – comprados – das ‘mademoiselles’ da Zona Boemia, mas não abriram mão da sedutora ‘Severina do Popote’. Durante o jantar solitário na saleta térrea da Pensão da Vovó, se esbaldaram no suco de gerereba, principalmente “Manuel”. Joaquim, sorrateiramente, mais observava o socio e amigo do que bebia.

Naquele domingo “Manuel” acordou tarde. Acordou com o sino do santuário chamando os fiéis para a missa das nove. Custou a abrir os olhos. E quando abriu notou que o amigo Joaquim já havia se levantado. Notou também que sua pequena cama a pouco mais de um metro da dele, estava arrumada. Sentou-se na beira da cama com a cabeça entre as mãos. Lembrou-se de Severina do Popote. ‘Moreninha’ era sua cachaça preferida… mas bebera demais na noite anterior! A cabeça latejava! Mal sabia ele que sua dor de cabeça iria aumentar muito mais. A caminho do banheiro coletivo, com a toalhinha encardida no ombro, para lavar o rosto como fazia toda manhã, “Manuel” interpelou a dona da pensão.

– Bom dia Vovó. Sabe se meu sócio foi à missa?

– Bom dia ‘seu’ “Manuel”… Não. Joaquim saiu cedinho levando uma mala. Pelo jeito ia viajar… – respondeu a simpática e obesa senhora com seus cabelos turvos amarrados em tranças acentuado seu ar de vovó.

As palavras ‘cedinho’, ‘mala’, ‘viajar’ bateram como balas de canhão na cabeça de “Manuel”. Por um instante ele ficou paralisado, com a boca aberta, o queixo caído, os olhos arregalados, como se estivesse viajando para um lugar desconhecido qualquer. Foi a voz doce da velha senhora que o trouxe de volta.

– Aconteceu alguma coisa? O sr. está se sentindo bem?

Ao despertar do breve estado letárgico “Manuel” correu de volta ao quartinho dos fundos. A resposta às perguntas da dona da pensão veio segundos depois… e veio aos berros, impropérios e maldiçoes!

– O saco com o dinheiro não está aqui! Maldito Joaquim! O salafrário roubou meu dinheiro. Aquele filho de uma égua roubou o dinheiro que suei tanto para ganhar! Ele vai arder nas chamas do inferno, ora pois, se vai! Desejo que um raio caia na sua cabeça antes que ele use o meu dinheiro… Safado, ladrão, porco, filho de mariposa, covarde. Foi pra isso que ele me fez beber tanto ontem à noite! Mas o capeta vai fazer justiça. Ele há de perder tudo rapidinho e sofrer como eu estou sofrendo agora! Maldito, maldito, maldito – dizia “Manuel” esmurrando com as duas mãos a própria cabeça.

Sem o sócio e amigo – da onça – para dividir as tarefas da ‘transportadora’ e sem o dinheiro para pagar o empréstimo que fizera para comprar o caminhão, “Manuel” teve que vende-lo. Envergonhado e desiludido com a traição do conterrâneo, ele mudou-se da Pensão da Vovó e de Pouso Alegre. Após vender o caminhão e quitar a dívida com o agiota, com a pequena quantia que sobrou, o portuga arrendou um pequeno sitio nos arredores de Borda da Mata e ali recomeçou sua vida. Desta vez sem sócios! Se o amigo e compatriota Joaquim o fez chorar de raiva, a vida, os negócios o fizeram sorrir. Estava predestinado a ganhar dinheiro com o seu trabalho. Mas tinha pressa! A vontade de ficar rico, a disposição para o trabalho e o tino para os negócios, alavancaram o seu sucesso. Em poucos anos passou de arrendatário a proprietário do sítio. E a fazenda no alto da serra da “Ponte de Pedra” foi crescendo.

Não se tem notícia de que “Manuel” tenha sido desonesto com alguém, mas era avaro e jamais jogava no lixo uma oportunidade de levar vantagem nos negócios. Certamente “Manuel” não foi o criador do “jeitinho brasileiro”, mas foi, com certeza, um dos mais ferrenhos fomentadores dessa prática, hoje pejorativa. Embora fosse religioso, frequentava a igreja católica apenas por conveniência social. Trabalhador sacudido e talhado para os negócios, qualquer deus que pudesse lhe dar alguma vantagem nos negócios, poderia ser seu Deus. E parecia não estar preocupado com as consequências desse comportamento às vezes mesquinho e materialista. Foi assim que certo dia, já casado e com família constituída, com os negócios se expandindo e a fazenda crescendo, ele proferiu uma frase que colocaria a pequenina Borda da Mata no mapa do Estado e do país.

“Se eu ficar rico logo, a primeira filha mulher que eu tiver darei em casamento ao capeta!”

As pessoas que ouviram tal blasfêmia em tom de mofa, não deram atenção à ‘promessa’. Mas o capeta ouviu… e anotou na sua agenda!

A ‘prometida’ nasceu em 1940. Treze anos depois, ao chegar à idade casadoira – comum naquela época – Mocinha começou a receber as visitas e cortejos do seu… “Príncipe das Trevas”! Era meado de janeiro quando o Coisa Ruim da Borda apareceu para cobrar a promessa do portuga!

O assédio do “Chiquinho” deixou a cidade em polvorosa e atraiu a atenção de toda imprensa nacional e até estrangeira. Durante meses, meia dúzia de padres da região e centenas de jornalistas desfilaram pela pequenina “terra do pijama” tentando desvendar o mistério do Coisa Ruim da Borda.

Em 2010 eu visitei a cidade algumas vezes. Estive no velho casarão da fazenda onde tudo aconteceu, resgatando a velha história. Durante minhas investigações, em pelo duas ocasiões, pude sentir um pouco do medo que a família do Portuga sentiu em meados do século passado.

O maior mistério, no entanto, é a rejeição que os bordianos tem da própria história. Eles não gostam nem de ouvir a menção ao coisa ruim. Se você perguntar a um bordiano alguma coisa sobre o Coisa Ruim, ele vai fazer o mesmo que o ‘espírito brincalhão’ fez há 70 anos… vai fugir de você como ‘Chiquinho’ fugiu da cruz do padre Pedro Cintra!