O Sorriso de Alexandra… A garota do semáforo!

Ela faz ponto no cruzamento da Santa Rosa com Antônio Carlos. É assim que ganha o pão!

Cruzamento da Avenida Santa Rosa com Antonio Carlos, região nobre da Pampulha, de manhãzinha.

Chega de manhãzinha, por volta da seis, a fim de pegar o maior fluxo de veículos das pessoas indo para o trabalho ou levando crianças pra escola. É como o “pássaro madrugador… pega as melhores minhocas”!
A cada sessenta segundos ela tem dois minutos para vender suas guloseimas. É o tempo que o sinal vermelho do cruzamento lhe dá para abordar os motoristas que param carrancudos nas quatro filas paralelas. A maioria nem abaixa o vidro escuro do carro para fazer o sinal negativo. Mesmo assim ela agradece com uma discreta deferência… e um sorriso!
Estatura mediana, negra, anca larga, ela se move lentamente entre os carros e evita ir até a terceira fila… para não ser surpreendida entre os carros e atrapalhar o trânsito quando o sinal se abrir.
E assim segue a manhã vendendo seus produtos e distribuindo sorrisos…
Um sorriso que encanta, que quebra o gelo!
Um sorriso que abre a carranca dos motoristas que param com seus carros fechados!
Um sorriso gratuito, que enriquece a manhã das pessoas que se dignam a olhar pra ela!
Assim é Alexsandra … Sorridente, respeitosa e gentil com todos que olham pra ela nas manhãzinhas no semáforo! Mesmo que não comprem nada… Sorri mesmo que eles apenas olhem pra ela!
Foi assim que conheci Alexsandra nos primeiros dias de fevereiro de 2022, quando começou o ano letivo.
Foi assim que me acostumei com o sorriso de Alexandra… Uma ilustre desconhecida vendedora de doces e queijos no semáforo mais movimentado da Pampulha!
Não sei qual dos dois notou o outro primeiro… Mas ela foi a primeira a sorrir. Todo dia sorria e acenava quando eu passava! Na primeira vez que consegui parar na ponta da fila ela se aproximou. Baixei o vidro, cumprimentei… e perguntei o que ela vendia.
– Doces e Queijos! Tenho nózinho e cabacinha. R$ 25 reais o pacote de meio quilo – disse ela abrindo seu melhor sorriso.
– Estou sem carteira… Amanhã trarei dinheiro…
– Pode levar. Amanhã você me paga – emendou ela já levantando o cestinho de bambu.
Fiquei freguês. Passei a comprar dois pacotes de queijo por semana… para facilitar o troco. Às vezes – quando eu não tinha dinheiro – comprava fiado! Às vezes – quando ela não tinha queijos – eu pagava adiantado. Nunca comemos tanto queijo na vida!
Nossa relação de dois minutos no semáforo foi além da comercial. Fincou raízes… na amizade. Na respeitosa e alegre amizade. Todos os dias, quando o semáforo me obrigava a parar, ela vinha até o carro, eu baixava o vidro, ela pegava minha mão e beijava. Quando estava de batom – e quase sempre estava – beijava o dorso da própria mão dizendo:
– “Hoje não posso beijar… senão sua mulher vem aqui e me mata”!
Na volta das férias, em agosto, fui surpreendido com a gritante ausência de Alexandra e seu sorriso!
O que teria acontecido com ela?
Teria ganhado na mega e parado de trabalhar?
Teria mudado de ponto? De cidade? Estaria doente?
Fiquei muito tempo sem resposta.
Na última semana de novembro, Alexandra reapareceu. Voltou a iluminar o semáforo da Santa Rosa com Antônio Carlos com seu sorriso!
Quando a vi, abri a janela do carro, coloquei a cara para fora e fiz a tradicional pergunta, como se fôssemos velhos amigos:
– Você sumiu! O que aconteceu?
Alexsandra, com seu cestinho de doces e queijos, abriu ainda mais o costumeiro sorriso, sorriu com a boca e com os olhos, – e com o coração – e deu a clássica resposta:
– É uma longa história!
Disse isso mas, olhou para o semáforo, se deu conta de que a luz havia acabado de ficar vermelha, notou que eu era o segundo da fila e que, portanto, ela tinha mais de cinquenta segundos e começou contar sua história.
– Eu estava cuidando da minha mãe… Ela teve câncer, no útero, e acabou morrendo.
Mal abri a boca para me solidarizar, ela emendou:
– Logo depois da minha mãe, meu irmão também ficou doente… De repente ficou muito mal e descobriu que estava com câncer, no fígado… Ele bebia muito. Quando descobriu já era tarde. Acabou morrendo…
Triste por ela, deixei escapar algumas palavras de alento e … o sinal verdejou!
Antes que os carros se movessem na pista morna, Alexsandra moveu para a calçada fria e emendou resignada:
– É vida que segue …
Enquanto soltava o freio para me mover, pude ver seu aceno de mão e ouvir sua bênção, com o tradicional sotaque belorizontino:
– “… ‘cum’ Deus” – disse Alexsandra, exibindo seu melhor sorriso.
Impossível esquecer o que vi na Pampulha…
Impossível esquecer o sorriso de Alexsandra!

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