Amor à prova de fogo em Camanducaia

       A pequenina e bi-centenaria Camanducaia, incrustada nas barbas da Mantiqueira, caminho inevitável para quem vai à bucólica Monte Verde, sempre esteve presente nas paginas policiais. Ultimamente a criminalidade tem estado sob controle, mas não deixa de registrar alguns casos pitorescos e românticos.

        Ano passado publiquei na minha Coluna impressa a historia de um casal de pombinhos que tentou reviver a historia de Romeu e Julieta numa versão moderna. A jovem Capuleto era bem jovem mesmo, apenas 15 anos, o Montechio, também… tinha 17. Mesmo assim queriam reviver o romance ‘caliente’ de Verona. Como os familiares não aprovavam o enlace prematuro, o casalzinho quis mostrar a todos que estava disposto a morrer por amor. Ambos passaram uma gilete nos pulsos… E foram estancar a hemorragia no Pronto Socorro.

        O ultimo caso de amor que terminou em B.O., ainda rende freqüentes visitas à este blog. Aconteceu no mês passado. Depois de passar ardentes momentos no “Motel Momentos”, a jovem quis colocar um ponto final no romance e voltar para o antigo marido. Doente de amor o jovem preterido amarrou-se num pé de cana, pegou o volante do seu golzinho e enfiou-se debaixo de um poste, mas sobreviveu. No dia seguinte, ao sair do hospital, foi se deitar na pista de rolamento da Fernão Dias para por fim ao seu suplicio. Por ‘garantia’, deitou- se justamente  defronte o alojamento dos Anjos do Asfalto da Intervias, facilitando assim o seu salvamento.

         Esta semana foi a vez do servente Alexsandro P. Andrade escrever  sua pagina no romance policial de Camanducaia. Alexsandro traz no peito um amor de infância pela esposa. Juntou os cobertores com F. aos treze anos de idade. Agora aos 33 anos, vinte de amor, sublime amor, beijos e alguns ‘tapinhas’, tem quatro filhos entre 9 e 15 anos. Ultimamente o idílio do jovem casal tem estado meio abalado por pequenas desavenças familiares. No domingo, depois de uma ligeira discussão F. disse que ia embora. Alexsandro imitou Jane & Herondi… “Não se vá…” e para convencer a cara metade a ficar, brincou de colocar fogo no próprio corpo. Encharcou-se de álcool e enquanto refazia suas juras para a esposa, com o isqueiro na mão, de repente, vluoop … pegou fogo. O incendiário apaixonado sofreu queimaduras de 2º e 3º graus nas mãos, braços, peito e rosto mas passou pela prova de fogo do amor.

       Embora as más línguas afirmem que F. ‘já se fora para outros braços’ – deve ser maldade!! – o sólido amor do casal parece ter resistido ao fogo, pois todos os dias F. vai visitar o marido no hospital. Vai ficar cicatrizes… nos dois.

Necrofilia…. A lenda do papa-defunto de Santa Rita

        O agente funerário, alto, magro, com um imenso bigode e a barba por fazer, usando calça de tergal azul e camisa branca cheirando a dias de uso, como se fosse motorista de ônibus, feliz da vida com o infortúnio alheio, fechou a cara como se partilhasse a mesma dor que os parentes estavam sentindo, fechou maquinalmente a porta trazeira do carro fúnebre e seguiu para a funerária. Por dentro estava quase sorrindo… havia acabado de pegar mais um defunto para a empresa, para preparar e velar. Na verdade era uma defunta. Sessenta e poucos anos, havia morrido de enfarte agudo no hospital. Ao despir a mulher sobre a maca nos ‘bastidores’ da funerária para prepará-la para o velório, o ‘papa-defunto’ encheu-se de desejos. Começou acariciar o corpo sem vida da mulher ainda quente, sentiu um calorão e resolveu também se despir. O cadáver flácido da pobre mulher lhe pareceu atraente e o magrelo papa-defunto não resistiu… ‘papou a defunta’!!!

Quando estava em cima da maca sobre a mulher, eis que surge o filho dela. A tristeza de perder a mãe ainda jovem, aliada com a indignação com o comportamento do agente funerário, cegou o rapaz e a única coisa que ele viu foi a faca sobre a mesa ao lado. Avançou sobre ela, pegou-a e cravou-a repetidas vezes sobre as costas do tarado necrófilo. O Papa-defunto morreu nu sobre o cadáver que estuprava.

Cena de suspense policial de Agatha Christie ?  Cena de filme de Alfred Hithcock?

Não!!! O estupro de uma defunta, praticado por um agente funerário sobre uma maca teria acontecido esta semana nos fundos de uma funerária em Santa Rita do Sapucaí!!!! Esta é a noticia que corre de boca em boca em Pouso Alegre desde sexta feira. Alguns dos fomentadores de Lenda Urbana têm até uma versão diferente para o final da historia. Para eles os familiares da defunta seguraram o estuprador no momento do vilipendio e o entregaram para a policia.

Mas aconteceu mesmo??????

Não. È claro que não!!! Tudo não passa de mais uma lenda urbana, curiosamente nascida em Pouso Alegre, vivenciada em Santa Rita. É a segunda num curto espaço de tempo. Ano passado os fabricantes de boatos e lendas inventaram outra. Por ocasião do carnaval, uma enfermeira de Santa Rita teria se deixado seduzir por um Dom Juan e mantido relações sexuais com ele em Pouso Alegre. Porém o Dom Juan era de ‘outro mundo’, do além tumulo e no dia seguinte ao coito as partes pudendas da mulher começaram apodrecer tal qual o Don Juan com o qual ela transara. Lenda, pura lenda…

Vez por outra, quando falta assunto surge uma nova lenda. No inicio da década o Detetive Paixão foi ‘assassinado’ mais de uma vez por seus inimigos. Quando ele realmente morreu tentando prender um trio de assaltantes de uma casa lotérica, no final de 2003 os meliantes já haviam gasto quase todo o estoque de foguetes comemorando sua morte.

Em 2003 ‘mataram’ também o nosso querido “Cavucada”, lembram? Em todo canto de Pouso Alegre só se falava na morte do alegre e inofensivo Cavucada. Cada um que contava o conto aumentava um ponto e o matava num lugar diferente da cidade. A ‘lenda’ mais propagada na época é que ele havia sido morto por um mendigo na Serrinha de Bela Vista. É bem verdade que o Cavucada anda mais do que noticia ruim por toda cidade, mas na Serrinha de Bela Vista era muito longe!!! Na ocasião eu apresentava Direto da Policia na Radio Difusora e desfiz o mistério. Fui até sua casa no Belo Horizonte, convidei Cavucada para uma entrevista, coloquei meu amigo Cavú no carro e o ‘ressuscitei’ às seis e meia da tarde numa entrevista de 10 minutos na radio.

Dêem-me o nome do papa-defunto de Santa Rita que eu vou ressuscitá-lo aqui nesta tela. Enquanto isso, fiquem tranqüilos. Tudo não passou de “Lenda Urbana”. Nenhum agente funerário estuprou defunta em Santa Rita… ainda.

A propósito, a figura descrita no inicio desta matéria, não é fictícia. Um moço com estas características existe de verdade. Ele é um tremendo ‘papa-defunto’, mas só no sentido figurado comercial. Não se tem noticia de que ele tenha papado nenhuma defunta no sentido figurado alimentício e nem mesmo no sentido sexual….

Mário Roberto de Oliveira - "Seu Madruga" , e a gerente da Funerária Ferraciolli em Santa Rita

Airton Chips e Mário "Seu Madruga"

 “Estou vivo… e sou inocente”

A matéria acima foi postada no sábado, depois de alguns levantamentos preliminares e desde então tem sido a mais acessada do blog. Algumas pessoas tem ligado para o meu celular para confirmar em ‘off’  se é mesmo boato ou não. Como eu disse no ultimo parágrafo da matéria, “dêem-me o nome do papa-defunto de Santa Rita que vou ressuscitá-lo nesta tela”. Deram-me. Aliás, foi meu proprio filho quem ligou de São Paulo na companhia de amigos querendo saber a ‘veracidade da lenda’, informando que o suposto estuprador de defunta seria o agente Mario Roberto, conhecido por “Seu Madruga”. E questionou:

-Porque então ele está sumido de Pouso Alegre?   

      Bem, toda investigação começa a partir da ‘notitia criminis’, mas só começa caminhar a partir do momento que se puxa o fio da meada. “Mario, ‘Seu Madruga’” era o fio que faltava.

      Na manhã desta quinta fui tomar um cafezinho com o defunto Mario Roberto de Oliveira, o “Seu Madruga” na filial da Funerarria Ferracioli em Santa Rita. Como se pode ver pelas fotos ele está vivo, bem vivo. Só um pouco triste com os boatos do ‘seu crime’ e principalmente de sua ‘morte’.

        Seu Madruga é conhecido em Pouso Alegre e região, não só pela semelhança com o grotesco e trapalhão personagem do eterno seriado do SBT, que perde todas para o retardado Chaves, mas também pelo seu jeitão inquieto, impaciente, prestativo e ‘faz tudo’. Trava uma incessante batalha para ganhar o ‘cliente’ morto em acidentes nas estradas. Chega antes dos patrulheiros e às vezes briga com eles pela posse do morto, providencia a remoção do corpo, corre atraz do delegado até na sauna para liberar a guia do IML, se vacilar ele mesmo faz a necropsia, cuida da higiene, da maquiagem, do ‘enfeite’, do documento ‘post mortem’, do velório, conduz o féretro para o cemiterio e só falta chorar no tumulo. Tudo isso feito, apesar de maneira educada e zelosa, em ritmo acelerado, como se tivesse outro ‘cliente’ na fila. Sua vida é lidar com mortos. Faz isso há trinta e seis anos. Doze só na funerária de Pouso Alegre.

       Mario conta que depois de 12 anos trabalhando em Pouso Alegre, por motivos pessoais, resolveu mudar de ares e depois de alguns meses em Cambuí, o antigo patrão o chamou de volta, para trabalhar em Santa Rita. Está no vale da eletrônica há dois meses e a única coisa que tem a reclamar é da escassez de clientes, segundo ele resultado da indicação desleal de funcionários do hospital local que encaminha os clientes para a concorrente, desobedecendo a escala previa de plantão das funerárias. Fora isso não teve, em Santa Rita e nem em qualquer outro lugar nenhum tipo de problemas, nem com vivos nem com mortos. Mas acha que;

– Este boato que surgiu em Pouso Alegre, ta me prejudicando. To com medo de ir lá. Até meu patrão ligou falando ‘para mim não ir’, porque as pessoas estão revoltadas com esta historia…

        Na delegacia de policia civil e na policia militar não existe registro de nenhum caso de estupro ou vilipendio de cadáver e muito menos homicídio ou tentativa contra agente funerário por qualquer motivo.

– Em Cachoeira de Minas ouvi este boato, mas nem sabia que o fato estava ligado à Santa Rita – disse o sargento Elder, que mora em Cachoeira e trabalha em Santa Rita. 

       A maneira estabanada e a gana de “Mario Madruga” para agenciar novos clientes, tem sido sua marca registrada e nem sempre bem vista, principalmente pelos concorrentes. O comportamento acentuou a pecha de Papa-defunto pregada nos agentes funerários e pode ter lhe custado a lenda, não muito glamourosa que ora circula em Pouso Alegre e região.

       Mas como se vê… Tudo não passa de mais uma “Lenda Urbana”, nascida de parto natural e órfã de pai e mãe, que tende a morrer à míngua…

           Enfim… Qual a semelhança entre Mario “Madruga” e Elvis Presley?

         O charmoso Rei do Rock morreu de overdose em 1977 e milhões de pessoas acreditam que “Elvis não morreu”!!! Mario Roberto “Madruga” está vivo de Oliveira trabalhando na funerária de sempre em Santa Rita, mas na boca do povo ele teria praticado vilipendio de cadáver e teria ido se juntar aos seus ‘clientes’…

Empossados os novos chefes da Policia Civil de Pouso Alegre

No centro, Chefe da Policia Civil empossa João Eusébio Cruz na chefia do Decimo Setimo Departamento e Flavio Tadeu Destro como Delegado Regional de Pouso Alegre

       A posse solene do Chefe do 17º Departamento de Policia Civil de Pouso Alegre aconteceu nesta sexta às 15h na Cãmara Municipal. João Eusébio Cruz, que desde a aposentadoria do titular Carlos Eduardo Pinto vinha acumulando os cargos de Delegado Regional e Chefe de Departamento e fora nomeado no dia 04 de outubro, assumiu oficialmente o honroso cargo.

João Eusébio, Esposa Rosângela e filha Camila

       Sua nomeação para a chefia do Departamento, que engloba as regionais de Pouso Alegre, Itajubá e São Lourenço, abrangendo 75 cidades, abriu vaga na chefia da Delegacia Regional de Pouso Alegre. Vários delegados da área foram cogitados para substituí-lo, entre eles o delegado de Transito Altair Mota Machado, o atual delegado Regional de Itajubá Jose Walter da Mota Matos, o delegado Ronaldo Ferrari de São Sebastião da Bela Vista, no entanto a chefia da policia civil acabou optando por uma ‘cara nova’ e nomeou para o cargo o jovem delegado Flavio Tadeu Destro, que atualmente respondia pela Regional de Ouro Preto. O novo delegado que também já havia se instalado e assumido suas funções na regional ha duas semanas, assinou o termo oficial de posse na mesma solenidade.

Vereador Oliveira Altair Amaral, João Euzébio e o prefeito de São Sebastião da Bela Vista

      O evento festivo contou com todos os seguimentos da segurança publica da cidade, desde a guarda municipal representada pelo seu diretor Marco Antonio Mariano, Corpo de Bombeiros, PRF, 20º BPM até o 17º Departamento de Policia Militar na pessoa do seu comandante Tenente Coronel Robson Campos Ferreira. Também prestigiaram o evento o Prefeito Municipal Aguinaldo Perugini, o presidente da Camara Municipal Moacir Franco, prefeitos e vereadores das cidades vizinhas. O Governador do Estado esteve representado pelo deputado Dalmo Ribeiro, vice líder do governo. O chefe maior da policia civil Delegado Jairo Lelis Filho, foi representado pelo Delegado Geral Celso Ávila Prado, que empossou os novos chefes da PC na região.

Flavio Tadeu Destro - Jovem delegado regional

Marcio Luiz dos Reis, advogado, e Carlos Messias Muniz, presidente da OAB

Detetives Ronaldo Ribeiro e Sebastião Lumumba

Detetive Lelis, Inspetor Batista e Detetive Sebastião Cerqueira Cézar

Delegado Regional de Itajubá, José Walter da Mota Matos, e esposa, Fabia

Cenas macabras em Toledo!!! Matou a mulher a pauladas e levou o corpo no carrinho de mão para jogar no mato

         Nem mesmo Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, faria melhor.

         Noite de lua cheia. Alta madrugada na cidadezinha de Toledo, perdida nas escarpas da serra da Mantiqueira. O vento batia insistentemente na janela e trazia com ele o ranger dolente de um carrinho de mão lá no fim da rua. O som se torna cada vez mais agudo e mais próximo. Moradores abrem discretamente a fresta das janelas para espiar e presenciam o quadro macabro, de arrepiar !!! Aparecido Pedroso de Morais, conhecido pelo comportamento esquizofrênico que carrega desde a infância, vai passando lentamente na rua calçada de bloquetes, empurrando um carrinho de mão. Suas mãos estão sujas de sangue e no carrinho ele leva o corpo inerte de uma mulher toda ensanguentada. Oquadro macabro segue lentamente pela rua sem ser incomodado. Quando se afasta do ultimo poste de iluminação, o “Assassino do carrinho de Mão” despeja o corpo desconjuntado num matagal à beira da estrada e volta lentamente para casa como se tivesse cumprido uma missão.

       Aparecido Pedroso de Morais foi abordado pelos homens da lei já em sua casa e rolou com eles na poeira, mas recebeu pulseiras de prata. A mulher do carrinho de mão de Toledo era Regina Alves da Cunha, sem nenhum vinculo com o assassino. Ela era alcoólatra e morava sozinha na pequena cidade.

      Os motivos do macabro crime não tem explicação fora da psiquiatria. Segundo a psiquiatra e escritora Ana Beatriz Barbosa Silva e a médica de família Tatiana Matos, em suas crises o portador de esquizofrenia tem visões que somente a ele faz sentido. Se  ele achar que um poste é um padre  e ele for católico, vai ter dor de coluna de tanto fazer reverencia e beijar a mão do religioso. No entanto se achar que Madre Teresa de Calcutá é o capeta…. coitadinha da podre santa!!!

       Em seus delírios o esquizofrênico Aparecido deve ter visto a pobre alcoólatra Regina com chifres, com o tridente na mão, soltando fogo pelas ventas… e desceu-lhe o borralho até mata-la.

Gô… e as cinco toneladas de maconha

                                               MENINOS QUE VI CRESCER

       O leitor atento logo vai perceber que esta historia tem dois “Meninos que vi crescer”, cada um seguindo um rumo diferente. Cada um de um lado da lei. Conheço ambos quase desde as fraldas. O primeiro na verdade vi nascer. Estava lá quando ele deu os primeiros passos e quando pronunciou meu nome engolindo o “r” e o “n”. Mostrei-lhe a paixão e ensinei os primeiros toques na bola. No final da adolescência, quando precisou definir-se profissionalmente, de tanto ouvir minhas historias acabou seguindo meus passos. É claro que em tudo me deixou no chinelo…

       O segundo nasceu cinco anos mais tarde. Não acompanhei seus passos tão de perto, mas seu avô acompanhou os meus. Vendi milhares de picolés feitos por ele. Tinha o melhor picolé e o melhor frango assado da cidade, além de paciência, educação e bom humor para atender sua eclética e vasta clientela em grande parte formada por policiais. Durante décadas não houve um só policial civil que não encostasse a barriga no balcão do apertado bar do Waguinho ou ‘seu Wagner’ para tomar uma loira gelada ou cangibrina com o tradicional frango assado.

      Nascido em 1978, foi neste ambiente que o Gô, cresceu. Na verdade, ainda na primeira infância sofreu uma grande perda que talvez tenha sido o diferencial de sua vida. Ao parar seu caminhão para abastecer a ‘burrica’ numa mina d’água, na beira da Fernão Dias, próximo a Extrema, seu pai, experiente caminhoneiro recebeu quatro tiros à queima roupa nas costas. Morreu no local. Nunca se soube quem fora o autor dos disparos.

       A orfandade não impediu Gô de traçar seu próprio destino e seguir seu caminho pautado no exemplo dos tios, primos e avós, todos honrados e bem quistos. Mas, andar na contra-mão parecia ser mais emocionante ou quem sabe mais fácil do que enfrentar os desafios de uma vida profícua e regrada. Gô, ao contrario dos irmãos, era de poucas palavras. Morando no meio do meu trajeto para o trabalho, nos víamos e nos cumprimentávamos todos os dias… apenas com o olhar. Até que ele passou a definir suas companhias, não muito ‘sociáveis’ e se tornou ainda mais arredio e distante.

         Embora se conhecessem, tenham estudado no mesmo colégio e fossem quase vizinhos, os caminhos de nossos dois personagens só se cruzaram em 2000. E cruzaram literalmente porque seguiam em direções opostas. Naquele ano foi criada a Delegacia Especializada de Repressão ao trafico de Entorpecentes, chefiada pelo delegado Antonio Camillo. Compunha a equipe os veteranos detetives Tiãozinho, Tomaz, Roberto e o jovem Teobaldo…

    As primeiras investigações da nova equipe indicavam que um jovem desfilava sorrateiramente pela avenida Dr. João Beraldo, desde a Duque de Caxias até a Faculdade de Direito, distribuindo a erva marvada. Não tardou para Teobaldo identificar o traficante formiguinha como sendo Gô, neto do Waguinho.

      Ja por aquela ocasião, o primeiro personagem desta historia, com quatro anos de policia, apesar de atuar em todas as linhas de investigação, parecia ter escolhido sua preferida; o trafico de drogas. Informações sobre trafico e traficantes sempre caíram de pára-quedas em sua prancheta. Gô passou a freqüentar a primeira pagina. Ele estava fazendo apenas seu trabalho profissional, jurado no ato de posse na carreira policial, mas os desafetos de Gô achavam que eles tinham alguma rusga pessoal por isso as informações choviam de graça e o jovem Gô começou receber visitas inesperadas de policiais em sua casa, autorizadas pelo homem da capa preta com base nos levantamentos policiais de Teobaldo. Uma destas buscas foi realizada simultaneamente em dois endereços. Na residência de Gô onde ele mantinha coisa pouca, apenas para pronta entrega e no ‘mocó’ do João Onça, um velho homicida egresso do velho hotel da Silvestre Ferraz que adquiriu o habito da fumacinha quando lá esteve hospedado.

       A residência de João Onça na Rua do Arame era o que havia de mais genuíno esconderijo para drogas. Um casebre de portas e janelas de madeira e paredes caindo aos pedaços e um quintal que bem poderia ser chamado de mini-floresta, com bananeiras, amoreiras, ameixeiras, abacateiros, pés de inhame, batata doce, erva cidreira, comigo-ninguem-pode, espadas de São Jorge e outros bichos. Tudo crescendo e caindo ao deus-dará, sem cuidados, pois o tempo do velho e soturno João Onça, quando não estava abraçado com a velha katia…ça nalgum boteco copo-sujo nas cercanias do mercadão, era destinado a distribuir a erva nas imediações da Tijuca. Seu quintal parecia uma floresta… abandonada. A visita ao pé da manhã pegou João Onça ainda de cuecas samba-canção de brim amarrotado e com o bafo característico. Como ele nunca foi hospitaleiro com os homens da lei, foi necessário chamar o lobo mau para abrir sua porta no bico da botina. Dentro do muquifo – este adjetivo foi criado especialmente para definir o interior da toca do Onça – em meio a roupas sujas jogadas pelo chão, panelas engorduradas, restos de comida embolorados, moveis sujos e quebrados e teias de aranha conseguimos localizar duas barangas de cannabis. Vasculhado o casebre, nos enchemos de coragem e passamos à grande aventura de desbravar a selva que há anos não sentia a lamina fria e afiada de uma enxada, machado ou facão tentando encontrar a droga ‘dada’ pelo informante. Não encontramos sucuris, jibóias, javalis, antas, tigres, onças ou rinocerontes e muito menos os tijolos de maconha que poderiam estar enterrados em qualquer local da vasta selva ha muito intocada até mesmo pelo dono João Onça que tinha medo de desbravá-la.

       Na residência de Gô, na João Beraldo, os colegas localizaram sem muito forrobodó uma pequena porção da erva, que o menino que vi crescer logo se apressou em dizer que era para uso próprio. Assinou seu primeiro 16 e foi liberado, mas deixou sua fotografia para posteridade no álbum da policia.

       Apesar de escaldado, Gô já estava por demais envolvido com o trafico e não fecharia seu comercio nunca mais. Dias depois da investida em sua casa, um amigo oculto da lei ligou para a DP na hora do almoço informando que naquele momento ele estava indo fazer uma entrega perto das Carmelitas, num Uno Vermelho. Hora de almoço é hora sagrada de funcionário publico almoçar. A menos que seja policial – com ‘p’ maiúsculo – e um crime estejaem andamento. Aoreceber a informação Teobaldo laçou o primeiro colega que encontrou e foram interceptar a entrega da droga. Era uma entrega pequena, mas se encaixava no ‘verbo traficar’, no entanto Gô assinou apenas o 16. E assinaria outros tantos nos anos seguintes até o homem da capa preta resolver tirá-lo de cena, decretando suas férias forçadas no velho hotel da Silvestre Ferraz.

        Como a pena era para ser cumprida no Regime Semi-berto, o moço foi direto para a APAC, onde só cumpre pena quem quer zerar seu debito com a justiça. Quem não quer pula o muro sem vigilância e vai embora. O menino que vi crescer me olhando atento e ressabiado, estava crescendo no ramo do trafico. Cuidar de jardins, hortas, plantação de milho, café, feijão, criar porcos, galinhas ou coelhos e a noite ouvir palestras e sermões não era sua praia e atrasaria os promissores negócios de Gô, por isso ele dispensou os conselhos do Padre Mario e demais voluntários da APAC, pulou o muro e caiu na estrada. Se o objetivo do homem da capa preta era tirá-lo de cena, ainda que por linhas tortas, Gô tratou de escrevê-lo. Saiu de cena e baixou as cortinas. Por um bom tempo sua avantajada silhueta não foi mais vista e seu curto nome não foi ouvido. Até que….

        Contrariando a lógica do andar da carruagem, as investigações sobre o famigerado trafico de drogas, que aumenta a cada dia, restringiu-se basicamente a uma dupla de campo, um detetive na Inteligência e um delegado que os coordenava. O ‘Hucht’ da dupla manduana Starsky & Hucht era o impetuoso, apaixonado e sempre disponível Fabio Balca. Com ele Teobaldo mandaria muitos distribuidores de erva marvada, pedra bege fedorenta e farinha do capeta para o piano do delegado Gilson Baldassari.

      Em 2007 um valioso informante deu uma rica fita. Quase toda droga consumidaem Pouso Alegree região, passava pelas mãos de um traficante, sem nome, do interior paulista. Esta informação levou os pupilos do delegado Gilson a apreender quase 80 quilos de drogas em três operações diferentes em poucos dias. Com o traficante Rodrigo Vieira Mazzoni, o FOCA, foram 4 quilos de maconha e 1 de cocaína, quando ele chegava à rodoviária de Pouso Alegre no ônibus da Gardênia, vindo de Campinas. Aliás, o Foca não se adaptou à secura do velho hotel da Silvestre Ferraz e vazou pelo ‘tatu’. Mas como a maré não estava para foca, ele tornou a cair nas malhas da leiem São Joãoda Boa Vista duas semanas depois e lá se adaptou muito bem… ‘não quis mais sair’. Ainda por conta da mesma informação sobre o ‘poderoso’ e misterioso distribuidor do interior paulista, Teobaldo, Balca e equipe prenderam Junior Cesar do Prado, o BABI, em Congonhal, com 50 quilos da erva. Como um assunto puxa outro, dois dias depois foi a vez de Eliel Moises Romeiro e Benedito Benê entregar a ‘rapadura’… Eles também chegavam de viagem trazendo na mochila 25 quilos de erva e um trezoitão quando receberam as boas vindas dos detetives.

        Toda esta droga vinha da mesma fonte, na cidade de Mogi-Guaçu, de um distribuidor até então sem nome e sem rosto.  Além de enfrentar as dificuldades de procurar o fio da meada como se procura agulha num palheiro, Teobaldo e Balca tinham que enfrentar a desconfiança dos colegas e da chefia, pois passavam meses sem digitar um relatório. Até que o nome do poderoso traficante que abastecia a região surgiu no fim do túnel: Gô. O velho Gô, da João Beraldo, neto do Waguinho, fujão da Apac. O menino que vi crescer era agora um poderoso traficante. Foi um alento descobrir o nome, mas a localização, o deposito da mer…cadoria ou a rota do transporte continuavam um mistério. Mas…. Deus ajuda quem cedo madruga. No caso de Teobaldo e Balca, o velho ditado era um ‘modus vivendi’ ou ‘modus trabalhandi’. Viviam para trabalhar. Não tinha dia ou hora. Toda informação tinha que ser checada quando chegava, ao meio dia, à meia noite ou às quatro da manha, de segunda, de domingo, de feriado, à pé, de bicicleta ou em carro particular. E o salário, – e o reconhecimento – ó….

       A recompensa veio da maneira mais inesperada, numa madrugada morna de novembro. Para contar ao leitor como Teobaldo recebeu a mais bombástica das informações, a informação dos sonhos, é preciso abrir um parêntese na narrativa e voltar no tempo.

      Estava eu debruçado sobre um jornal atrás do balcão na recepção da velha delegacia às nove e meia da noite, quando ouvi uma voz tênue de criança dizer:

– Aqui está a bolsa da moça… tá tudo aí dentro!!

      Levantei os olhos do jornal e vi sobre o balcão uma bolsa feminina, mas não vi ninguém. Levantei-me lentamente para olhar atrás do balcão de mármore de um metro e vinte de altura, já pensando em assombração e lá estava o dono da tímida voz… Um garotinho franzino, de camiseta, calça larga cortada pela canela e pés no chão. Era mais baixo que o balcão, tinha 9 anos e seu nome era Pépinho ou Pepinha. Ele tornou a falar:

– Pode olhar moço, ‘tá tudo ai dentro…

      Sentados no banco de madeira diariamente lustrados por policiais e meliantes na recepção, ao meu lado, o garotinho trocou em miúdos a historia da bolsa com “tudo aí dentro”. Estavam, ele e outros dois colegas mendigando no semáforo da Vicente Simões, quando uma senhora baixou a janela do carro e pegou a tal bolsa para dar-lhes uma moeda. Um dos amigos – da onça – pegou a bolsa e saiu correndo em direção ao Aterrado. Com medo de ser também acusado do assalto, Pepinho saiu correndo atrás e se enfiaram lá por trás do pátio do Freitas onde a policia não tardou a vasculhar. Pepinho, no entanto era apenas um menino de rua, não um ladrão, por isso tomou a bolsa do colega e foi devolvê-la na delegacia. Quando a PM chegou para entregar-me o B.O. sobre o roubo, uma hora mais tarde, a dona da bolsa ja estava indo embora com o caso resolvido.

       Pepinho ou Pepinha, no entanto não se resolveu. Devolveu a bolsa que o amigo havia surrupiado, mas nunca mais devolveu as que ele próprio surrupiou. Como tinha apenas 09 anos, tornou-se cliente assíduo do Conselho Tutelar. Numa destas audiências de puxões de orelha, em meados de novembro de 2007, aproveitando um pequeno vacilo, o mini-delinquente passou a mãozinha leve e sujinha no celular da conselheira que o atendia e saiu de fininho. Seria apenas mais um furto corriqueiro de celular como dezenas que ocorrem todo dia na cidade. Este, no entanto pertencia à conselheira Poliana Teobaldo. Depois de ter mandado dezenas de meliantes para o xilindró, Teobaldo não descansaria enquanto não pusesse as mãos no larapio do celular da esposa.

      Numa madrugada fresca de sexta feira, perto do raiar do dia, quando estava trabalhando de segurança particular numa danceteria do Esplanada, um dos seus muitos informantes deu a fita: seu aparelhinho fora trocado por uma pedrinha bege fedorenta e estava sendo usado pelo ‘formiguinha’ Darinho, no velho Aterrado. Antes de a ultima estrela da madrugada se deitar nos braços do Cristo no alto do morro do Horto, em meio à penumbra da noite, Teobaldo e Poliana estavam vasculhando o Aterrado atrás do celular – isso eu não ensinei a ele… porque eu não teria coragem de fazer –  e aí o outro ditado popular entrou em cena: “pássaro madrugador, pega as melhores minhocas”… O aparelhinho fujão, que havia ficado vários dias em mãos do traficante Darinho, ja havia se acostumado aos assuntos inerentes à atividade do novo dono, de repente tocou!! Pasmem meus estimados leitores, era um traficante trocando informação sobre???? Trafico…!!! E que informação!!! Naquele momento, ainda na maior boca de fumo da região, Teobaldo ficou sabendo que uma tonelada de maconha estava cruzando o sul de minas com destino ao Rio de Janeiro e faria uma escala em Caxambu para deixar uma parte para o traficante… Gô!!! A carreta com placas do Paraná iria descarregar a droga num sitio no Circuito das Aguas.

        Quando o sol mostrou os bigodes, depois de ter passado a noite toda em claro, Teobaldo estava na porta da delegacia tentando montar uma equipe para procurar a droga. O primeiro a abraçar a causa foi o fiel escudeiro Balca. Depois vieram o detetive Juleel, que estava saindo do plantão noturno, o escrivão Edgar que ja nasceu talhado para ser policial – e dos bons – também deixando o plantão, o Inspetor Batista que sempre acreditou nos seus comandados e o delegado Gilson Baldassari, chefe da Especializada. Todos tiveram tempo de sobra para se preparar para a mega-operação: cinco minutos. E saíram, seis policiais mal-dormidos e uma ‘bate-pau’, em duas viaturas à procura de uma carreta com placas de uma cidade qualquer do Paraná, que poderia estar levando uma tonelada de maconha. Tinha mais uma pista ouvida no celular cagueta: Um gol branco poderia estar por perto escoltando a carreta. Um grupo entrou pelo Circuito das Aguas, outro foi por Três Corações e entrou pelo circuito das drogas, quero dizer, por São Tome das Letras. Foram se encontrar cansados e borocoxôs em Baependi, sem nem o cheiro da erva maldita.

        Mas policial ‘brasileiro não desiste nunca’. Voltando para Caxambu avistaram um gol branco seguindo de perto um caminhãozinho baú. Cada grupo tratou de abordar um deles. Ao emparelhar com o gol, Teobaldo reconheceu ao volante a figura impoluta do seu velho ‘anfitrião de café da manha com drogas’…  Ha anos não se viam, mas nenhum deles havia mudado, nem na fisionomia, nem nas atividades. Era o menino Gô. Levava com ele no gol dois passageiros. Depois de alguns metros acelerando e praguejando na mira das pistolas, Gô encostou o veiculo. Era um ardil para ganhar tempo. Quando Balca saltou empunhando a metranca seguido de Juleel, Gô pisou fundo o acelerador, colocou o braço para fora e mandou bala na direção da viatura. Teobaldo que ja abrira a porta e Juleel revidaram e o gol continuou se afastando debaixo de balas. Quando parecia que iria sumir na curva da estrada, de repente passou reto, enfiou-se numa cerca de arame e parou. Chegaram rapidamente ao gol a tempo de segurar um dos passageiros que enroscara no arame farpado tentando fugir e outro fujão ja se enfiando num matagal. Gô estava quieto, imóvel atrás do volante, mudando de cor e de expressão facial. O que lhe restava de voz usou para maldizer seu eterno algoz. A bala, não se sabe de qual arma, se da pistola do Teobaldo ou Juleel, havia estilhaçado o vidro, o estofamento e se alojado na coluna vertebral do menino que vi crescer. Eu não o veria nunca mais. E a outra equipe? E a carreta com a droga? Gilson, Batista e Edgar haviam abordado o bauzinho, mas no momento que o motorista apresentava uma nota fiscal de café, Poliana os chamou pedindo apoio, contando do imbróglio de dois quilômetros adiante. Eles dispensaram o caminhãozinho com a suposta carga de café, sem vistoriá-lo. Podia ser mesmo café. Não ha nada melhor para disfarçar o cheiro da erva…

          Estava feita a merda!!! Um traficante foragido da Apac agonizando, baleado nas costas com um 38 ainda quente na mão, dois desconhecidos enroscados no arame farpado e cadê a droga da droga? Nem precisava ser uma tonelada. Um quilinho magrelo da erva maldita seria suficiente para salvar-lhes a pele. Sem a droga os dois policiais que atiraram no gol em fuga, ainda que debaixo de bala, estariam em maus lençóis. O que fazer? Bem, a primeira providencia era não deixar o ar já rarefeito de Gô parar de entrar em seus pulmões, por isso urgia levá-lo para o hospital de Caxambu. Mas tão importante quanto salvar a vida do traficante, era encontrar a carreta com a maldita droga para salvar suas carreiras. A pressa de salvar Gô foi bendita. Quando chegavam ao trevo de Caxambu avistaram uma carreta manobrando lentamente no posto de combustíveis pegando a BR 265, sentido Juiz de Fora. Tinha que ser ela. Abordaram os três ocupantes e foram informados que levavam uma carga de arroz do Paraná para o Rio de Janeiro. Estava tudo documentado. Ah, mas entre centenas de sacas de arroz bem que dava para camuflar algumas de maconha, dava não…? Dava. Dava sim. Ô, se dava, dava mesmo!! Tinha que dar. Teobaldo blefou. Sacou a pistola com os dedos sujos de sangue, encostou o cano ainda quente no bigode do motorista e advertiu com todas as letras:

– Perdeu mano… acabei de encher seu parceiro de balas no golzinho ali atrás. Ele está indo dar os últimos suspiros no hospital. Vai querer fazer companhia para ele….?

      O piloto da carreta e seus ‘chapas’ não eram traficantes contumazes. Eram ainda ‘mulas’. Com um bom advogado poderiam pegar apenas quatro anos e depois de um sexto da pena, pouco mais de um ano fechados, poderiam voltar para casa. Preferiram não conferir o blefe.

– … Tá no meio do arroz – disse o motorista tremendo, com a voz quase sumindo.

         “Tá no meio do arroz…”. Esta frase singela jamais será esquecida por aquele grupo de policiais famintos, cansados, apavorados naquela beira de estrada no trevo de Caxambu naquele inicio de tarde de 24 de novembro de 2007. Estava mesmo e iria longe. Viajaria até o Polo Norte daquele jeito se os esquimós fossem tão manés e fumassem maconha. À medida que as sacas de arroz iam se afastando os tijolos de cannabis sativa de Lineu iam aparecendo até chegar a um mil, dois mil, tres mil, quatro mil, cinco toneladas de maconha!!! Uma tonelada era a parte que Gô baldearia para o bauzinho de café e levaria para seu sitioem Mogi Guaçu, de onde distribuiria para Pouso Alegre e região. As outras quatro toneladas passariam por Juiz de Fora e iriam abastecer os morros cariocas. Ufa… Estava salva a operação. Faltava agora salvar a vida do traficante. Seria muito mais gratificante e menos complicado e constrangedor vê-lo passar uns quinze anos no hotel do Juquinha… do que não vê-lo nunca mais. Mas não deu. Gô, o menino que vi crescer agonizou na UTI durante seis meses e finalmente fechou os olhos.

     A mega operação que se desencadeou no final da madrugada através de um celular furtado da conselheira tutelar pelo franzino Pepinha, de 13 anos, resultou na apreensão de cinco toneladas de erva maldita, uma das maiores do Estado. Foi uma grande vitoria da policia no combate ao trafico de drogas, mas os policiais que sentiram o vento quente das azeitonas roçando suas orelhas antes daquela curva em Caxambu não colheram louros. Ao contrario. Receberam ‘olhares de cotovelos’ de alguns colegas de trabalho e de desconfiança dos parentes do traficante – afinal, parente é parente… – Os mais próximos encetaram uma investigação particular em busca de excessos dos policiais e só sossegaram depois de constatar que o trabuco encontrado ainda quente na mão tremula e moribunda de Gô pertencia a um traficante de Mogi Guaçu, com o qual ele tinha ligações.

       A maior apreensão de drogas do Sul de Minas não rendeu sequer uma promoção aos policiais que a realizaram, nem mesmo à dupla Teobaldo e Balca que durante meses vinha tentando desenrolar o fio da meada para chegar ao ‘todo poderoso’ do interior paulista e semana antes prendera vários de seus asseclas. Teobaldo ao menos recebeu uma homenagem da Câmara de Vereadores, o que não é grande coisa quando se trata de indicação política, pois tem policial que não faz mais do tocar corneta e também recebeu tal homenagem…

       Antiguidade e merecimento. Estes são os caminhos para um policial ser promovido dentro da carreira e engordar seu contracheque em meia dúzia de reais. No entanto, ‘merece’ promoção quem tem Q.I… Quem não tem padrinho morre pagão e espera dez anos na fila. Enquanto isso vai emendando o dia com a noite, horário de almoço com expediente em supermercados, danceterias e eventos noturnos para complementar o salário. Mas é bom… para o contribuinte. Quem sabe nestas noitadas não surge um Pepinha com um celular roubado… e mais uma tonelada de drogas e seus distribuidores caem nas malhas da lei….?

 

Feto é abandonado fora do tumulo no cemitério

      O coveiro do cemitério de Monte Santo de Minas está acostumado a lidar com todo tipo, tamanho e idade de cadáver no seu local de trabalho. Mas normalmente ele os encontra placidamente em caixões, ornados ou não, mergulhados em um mar de flores, cercado por dezenas de pessoas chorando cabisbaixas. O que ele encontrou nesta terça feira não foi assombroso, mas incomum. Dentro de uma caixa de sapatos sobre um tumulo, enrolado numa camiseta, completamente inerte e abandonado, um feto…. de aproximadamente cinco meses de gestação.

      Foi o segundo caso de bebê que passou pelo túnel sem ver a luz, em menos de 24 horas na região. Na segunda outro feto com placenta e tudo, em idade gestacional próxima de 4 meses, foi encontrado nas margens da MG 290em Ouro Fino.

       Em ambos os casos a mãe desnaturada deve ter expulsado do utero o projeto de filho usando o famigerado Citotec, medicamento usado no combate à ulcera, com venda estritamente controlada nas farmácias.

       Tanto em Ouro Fino quanto em Monte Santo, o ex-futuro bebê veio ao mundo desacompanhado da mãe ou do responsável. No entanto a policia tem meios relativamente fáceis de identificá-los e chamá-los na chincha. Nos dois casos houve crime de aborto provocado. No de Monte Santo de Minas a homicida tem uma atenuante… abandonou o pequeno cadáver no lugar certo!!.

Suco de gerereba e Pão com mortadela

      Ao pé da noite de sabado o cidadão João Batista Dechichi, 56 anos morador de Borda da Mata, capital do pijama e terra do ‘Chiquinho’, foi de carro buscar a esposa na rodoviária de Pouso Alegre e voltou de ônibus com ela; É que antes de sair de casa ele fez um lanchinho de pão com mortadela e de ‘mata-bicho’ tomou uma dose de suco de gerereba – ele jurou de pés juntos que foi uma dose só.

       Quando trafegava pela MG 290 foi barrado numa blitz da PRE e convidado a beijar o bafômetro. O aparelhinho devia estar estragado, pois um copinho só do famigerado suco acusou 11 decigramas de álcool no seu sangue, cinco a mais do que o permitido pelo CTB.

       Como lhe foi tomado o carro e a CNH, os policiais deram carona para ele até a DP onde sentou-se ao piano e assinou o 306. Pagou R$ 545 reais de fiança e voltou para casa, mas voltou de carona com a esposa, no ônibus da Gardênia… Bom, pelo menos deu um passeio e fez companhia para a cara-metade.

Fórum de Santa Rita se transfere para o Ginásio Alcidão

       Presos na “Operação Mão Negra” da Policia Federal no final do ano passado, começam ser ouvidos no ginasio poliesportivo da cidade.

        A Justiça começou a ouvir nesta segunda-feira mais de 70 pessoas em Santa Rita do Sapucaí,  entre réus e testemunhas de acusação, sobre a “Operação Mão Negra”, da Polícia Federal, realizada no final do ano passado em Santa Rita do Sapucaí, Pouso Alegre, Brazopolis e mais dez cidades do Estado de São Paulo, inclusive Campinas. Em toda a operação foram presas 39 pessoas acusadas de distribuir pedra bege fedorenta, erva marvada e farinha do capeta. Em Minas 25 traficantes sentiram a mão pesada da Policia Federal, sendo 14 delas na capital da eletronica.

       Segundo o Ministério Público, todos serão ouvidos no ginasio Alcidão, já que o Fórum não comportaria tantas pessoas. Além das testemunhas e traficantes, o juiz vai ouvir o MP e a Polícia Federal.

      A operação “Mão Negra” desmantelou vários grupos que comandavam o tráfico de drogas nos dois Estados do Sudeste, envolvendo inclusive os ‘formiguinhas’ e ‘aviõezinhos’ que são aliciados para o trafico em troca de meia duzia de ‘pedrinhas’ ou uma baranguinha de maconha. O mesmo braço forte da lei que nocauteou os 14 meliantes de Santa Rita e outros tantos em Pouso Alegre e Brazopolis, alcançou também mais 14 em Campinas e São Paulo. Ao todo, 39 pessoas malignas foram presas durante as investigações. Dezessete delas estão no Presídio de Santa Rita do Sapucaí. O restante está em Pouso Alegre na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

      Um forte esquema de segurança foi montado envolvendo as policias e guarda municipal do municipio, para garantir o bom andamento das audiencias que devem durar toda a semana.

A historia de Valeria…. Vidas sem rumo….

      Vidas sem rumo destruídas pelas drogas…. Mas que podem dar rumo a outras vidas

      Desde que comecei publicar a serie “Meninos que vi crescer” no jornal Sul Mineiro em 2009, já foram quase trinta historias de final triste, envolvendo garotos que ao longo da trajetória de vida profissional vi, literalmente, crescer biologicamente… e definhar socialmente. Em poucas delas não convivi com o desafortunado e sua família.

      Na historia de “Monteiro e seus quase 40 ladrões do Bagdá”, não vi o robusto comerciante e chefe de cozinha crescer, mas perdi muito sono, quase perdi a matricula no curso de Direito e corri muito perigo na estrada e nas quebradas da noite para investigá-lo e colocá-lo atrás das grades.

      Em “A verdadeira historia do Beco do Crime”, voltei muitos anos ao passado entrevistando dezenas de pessoas que conviveram com o casal de jovens, pois também não conheci Jesus & Jacira, o casal “Romeu & Julieta”. Mas o romance Sheksperiano que terminou de forma macambúzia na travessa Joaquim Bernardes, nasceu e foi totalmente vivenciado na rua onde passaria, anos depois, os melhores momentos de minha infância.

     Fernando da Gata é outro meliante que não vi crescer mas senti na pele o medo que ele inspirava nas pessoas e fiz seu velório na delegacia de Pouso Alegre.

     O Mistério do Coisa Ruim da Borda, que considero uma de minhas melhores historias, posso até ter presenciado, em outro corpo, mas não me lembro de ter estado lá. Para desvendar o mistério e escrever a historia, entrevistei dezenas de pessoas que viram o capeta há quase sessenta anos e visitei o local das diabruras e peraltices do “Chiquinho”. Aliás, em alguns momentos pude perceber a presença dele no velho casarão carcomido pelo tempo naquele alto de serra de Tocos do Mogi. Em todas as outras historias já publicadas e outras que ainda não passei para o papel, os personagens são reais, são meninos que vi crescer ao meu redor. Crescer e se perder nas sendas do crime. Exceto Valeria.

       A historia de Valeria, ouvi de sua tia Eugenia em Camanducaia. Ao ler o Blog do Airton Chips e ver a maneira descontraída e respeitosa de minhas narrativas, a enfermeira que ainda guardada o luto da sobrinha, contou-me sua historia pedindo que a transcrevesse. Contou-me apenas uma vez e ainda foi interrompida por um paciente que precisava de seus cuidados e um por amigo comum, que eu não via há mais de vinte anos. Esqueci de salvar o rascunho no notebook, mas curiosamente não esqueci a essência da historia. Pensei durante uma semana se valia a pena escrever sobre uma pessoa que eu não conheci.

        Os comentários e manifestações de apreço, tais como o de Jessica, prima de Valeria, “Se todos os casos como o de Valeria fossem divulgados as pessoas teriam mais informações sobre a triste realidade de como as drogas podem destruir uma família… Nós sabemos como isso é difícil, pois vimos a Valeria se acabar e sem poder fazer absolutamente nada…”, mostram que valeu a pena. A historia da garotinha que conheceu as drogas e entrou no mundo do crime pelas mãos do próprio pai alcoólatra aos nove anos de idade, infelizmente, é semelhante à de centenas de pessoas que se perdem ainda na infância ou adolescência, por falta de alguém para guiar-lhes pelo caminho do bem. Contar suas desventuras tem por objetivo alertar os jovens, seus pais e amigos para os malefícios da sedutora droga, mola propulsora da quase totalidade dos crimes que hoje levam milhares de jovens iludidos para os malcheirosos e funestos hotéis do contribuinte. E lembrar que neste momento, um amigo nosso, um parente, um vizinho, um filho… está precisando de uma mão firme, corajosa e amiga para orientá-lo. Se não a estendermos ele cairá no abismo….

 

Pouso Alegre na rota do trafico… de cobras e lagartos

        Falar de cobras & lagartos em Pouso Alegre deixou de ser improperios no sentido figurado… É falar mesmo de trafico de animais.

         O que Varginha, Passos e Pouso Alegre tem em comum? As tres cidades sul mineiras tem a mesma pretensão: Aparecer na midia nacional.

       Varginha se deu muito bem. Inventou o E.T. e a historia correu mundo. Vieram ufologos dos quatro cantos do planeta para investigar a farsa. Não concluiram nada mas a fama ficou e ha quinze anos a cidade colhe os dividendos.

       Passos, não satisfeita com a fama propagada gratuitamente pelos irmãos Selton e Danton Melo, diga-se de passagem, grandes artistas – Selton, “o homem invisivel” acaba de lançar em cadeia nacional o filme: “O palhaço”, ambientado na terrinha natal – resolveu chamar a atenção para a cidade meio paulista meio mineira, matando seus conterraneos. Ja mataram 35 passenses em 2011 e segundo meu amigo Rodney, Delegado Regional da vizinha S.S. do Paraiso, onde a criminalidade está sob controle, tem mais meia duzia amarrados para a semana que vem.

       Ja minha doce Pouso Alegre que há quarenta anos vejo crescer e cresceu quatro vezes, ultrapassando a cidade do E.T., resolveu agora entrar no ramo de importação e exportação de cobras e lagartos…

        Semana passada quando um caçador usando o nome de Rodrigo, embalou cuidadosamente um casal de letais urutus e mandou para a cidade de  Caçador, pensei que fosse apenas uma brincadeira para atrair a midia, tiro que aliás, saiu pela culatra, pois um gerente de correio intrometido interceptou a encomenda justamente em Varginha, dando-lhe ainda mais notoriedade. Agora, nesta quarta feira de finados sem chuva – coisa rara – dia em que aumenta a audiencia dos jornais televisivos, outro caçador, talvez o mesmo das urutus pretas de pedreiras, abandona uma caixa de papelão na porta da escola Dom Otavio, no Recanto dos Fernandes, cheia de cobras e lagartos…

      O biologo Chico Meyer, o homem que entende de cobras e pombas – anos atras foi surpreendido abatendo dezenas delas num arrozal na Imbuia – disse que as rastejantes desenhadas à mao pela natureza, são ornamentais, oriundas da Africa. Mais o chefe do Ibama, Fernando Bonillo, que entende mais ainda de bichos do mato, foi visitar as rajadas na sede da Policia Ambiental e reconheceu entre elas, duas jararacuçus, especies da fausa silvestrre tupiniquim. As demais são conhecidas como ‘cobras do milho’ nativas da terra do Tio Sam.  Menos mal, pelo menos são inofensivas.

      Desta vez o caçador de cobras de Pouso Alegre não as mandou para Caçador de Santa Catarina. Vai que o gerente resolve abrir a caixa no meio do caminho…!!! Ao abandonar sem motivos aparentes as caixas com 22 rastejantes e 4 comedores de ovos e pintinhos na beira da rua perto da escola, o homem que mexe com cobras amarelas do Continente Negro, forçou a reporter global Carolina Noronha ir ao encontro dos bichinhos lá do Recanto dos Fernandes.

         Não estranhem se na semana que vem abandonarem num outro canto da cidade alguns dragões de Komôdo…