Completou mais um ano de vida neste domingo, 13, a senhorita Mariane Tereza Ferreira da Silva, funcionaria da Ci
retran, na Delegacia Regional de Policia Civil de Pouso Alegre.
O blog deseja muitos anos de vida e alegrias à jovem Mariane!
O ouvinte ou leitor que acompanha as crônicas “Direto da Policia” há mais de três décadas, naturalmente já se acostumou com meu linguajar simples e popular, recheado de termos do dia-a-dia, muitos deles usados exclusivamente no meio policial e pelos hospedes do hotel do Juquinha, tais como “bandeco”, “boi”, “ventana”, “pipa”, “dormir na praia” e tantos outros substantivos chulos e pobres que enriquecem minha narrativa.
Mas o dileto leitor jamais ouviu ou leu nesta pagina nenhum termo cacófono ou que “cheire mal”. Pois bem. Hoje vou pedir licença a você meu estimado leitor, para usar um destes termos que realmente soa e cheira mal a qualquer ouvido… E nariz! Pois, de outra forma não teria como contar a cagada que um cidadão fez no interior do fórum da cidade de Jaú, no interior paulista, em plena luz do dia!
Em 2004 Erre Esse foi preso e processado por manter dentro de casa arma de fogo. O processo, como de praxe, se arrastou por vários anos na justiça até que no final do ano passado o caçador de jau finalmente recebeu sua reprimenda. Leve na verdade; teria que comparecer mensalmente durante seis meses ao Fórum da Comarca para mostrar que estava vivo e colocar sua assinatura no correspondente processo.
Como todo cidadão que tem seus direitos restringidos, Erre Esse não concordou com a punição. Mas não fugiu. De cara enfunada ele compareceu durante cinco meses ao Fórum e assinou calado o processo. No sexto mês, quando finalmente ficaria livre da pena, Erre Esse entrou no Fórum, foi até o balcão de atendimento, pediu os autos como de habito, assinou-o e, ao invés de devolvê-lo ao serventuário da justiça, virou-se para as pessoas que ali aguardavam atendimento, teceu breve comentário sobre o fato, ressaltando seu protesto pelo tratamento recebido da justiça – o que considerava injustiça – e, como o cidadão que acaba de quitar uma promissória, pega-a, rasga em mil pedacinhos e joga no lixo, ele arriou as calças, agachou e sob o olhar estupefato das pessoas presentes… cagou sobre os autos do processo!!!
Antes de devolver o documento cagado e fedido ao escrivão, o caçador ainda acrescentou;
– Tenho vontade de esfregar os papeis na cara do juiz e do promotor…!
Quase teve chance, pois recebeu pulseiras de prata e voltou a sentar-se no banco dos réus para ouvir sua nova condenação! Agora bem longa e menos ‘glamourosa’… Como doente mental!
Por esta cagada literal, em protesto contra decisão judicial em seu desfavor, o pacato sisudo e ordeiro cidadão seria condenado de 2 a 5 anos de prisão. Ao ser submetido a exame de insanidade mental, os peritos consideraram que ele é portador de ‘esquizofrenia paranóide’! Ou ‘transtorno esquizotipico’…, portanto, semi-imputável! Por isso o homem da capa preta converteu a pena restritiva de liberdade em ‘tratamento ambulatorial’ por tempo indeterminado, devendo o cagão ser submetido a exames médicos periódicos nos próximos três anos, como mandam os artigos 98 e 337 do Código Penal. Que cagada longa…
Aquela espingardinha chumbeira de caçar jaú no arredores de Jaú, que ficava guardadinha atrás da porta do quarto do matuto Erre Esse, lá ao pé da grota funda, acabou atirando longe, hem?
Como todo homem que nasce, cresce e amadurece, sempre guardei boas e saudosas lembranças da infância e dos tempos idos. Dentre elas, tem uma que certamente vai acompanhar-me até a despedida quando eu for chamado a prestar contas ao criador.
Ao criar a coluna Cotidiano neste Blog, vi a oportunidade de falar um pouquinho de uma pessoa bela e dadivosa que conheci desde que me percebi gente, a qual prestou contas há alguns anos, cuja lembrança estará sempre comigo. Ainda posso vê-la na janela da casa amarela, com seu sorriso despretensioso acenando com o braço e dizendo:
– Chega pra cá. Vem contar umas mentiras da cidade pra gente…
Na minha mais tenra infância morava eu com meus pais e minhas dez irmãs numa casa grande de pau-a-pique, um metro acima do chão, no local denominado ‘Vargem do Coqueiro’, cerca de quinhentos metros distante da estrada principal do bairro. A casa mais próxima era a da tia Silvéria, a cinqüenta metros da estrada. Caminho inevitável para se chegar ao centro do bairro. Até a casa dela se chegava pela estrada. A partir daí havia apenas um trilho batido. O acesso era somente à pé ou a cavalo. Carro só existia um mesmo no bairro… Logo, ir de minha casa para a dela era ir para a civilização. Da dela para a minha era voltar para o mato.
Mas não foi este divisor geográfico de sentimentos e comportamentos que isoladamente marcou minha infância, adolescência e maturidade. Se tia Silvéria não tivesse recebido do Pai os dons que recebeu e distribuiu, sua casa seria apenas um caminho por onde passar. O que ficou guardado e merece ser sempre retirado do baú da memória é o que a boa e obesa senhora levava no peito e expressava sempre no seu cotidiano; alegria, muita alegria! Contagiante alegria e bom humor. Era bom demais chegar à casa de tia Silvéria, vindo do mato ou da civilização. Afastar de lá, o fazíamos com aperto no peito e saudade precoce. E olhe que a casa dela era uma casinha de cangalha, paredes de pau-a-pique pintadas com tabatinga e fogão a lenha, composta de quatro cômodos de dois metros e meio por dois.
Quando nos mudamos pra cidade e ficávamos às vezes semanas sem nos ver, a efusão com que ela nos recebia era redobrada. Embora houvesse no bairro outros parentes do mesmo grau e afinidade e até minha querida avó, eu somente “chegava” realmente ao bairro depois de visitar tia Silveria! Ela também se mudou para outra casa perto dali. Para se chegar a casa de minha avó Ana, prédio conservado até hoje tal como foi construído, existe um atalho que leva direto a ela, bem mais curto. Mas eu ia primeiro ver tia Silveria, para depois visitar minha avó!
Toda vez que ali chegava, nosso diálogo se repetia. Quando eu empurrava a porteira do curral ela aparecia na janela da casa alta e simples como ela e perguntava;
– Porque não trouxe o resto da bagaceira?
Sem responder sobre o resto da bagaceira – minha família – eu perguntava como estavam as coisas por ali. E ela dava a resposta que carrego e uso até hoje;
– Aqui está tudo uma prata preta!
Não sei se existe prata preta. Talvez a prata escura seja mais pura e valiosa e ela usasse o termo para deixar claro que a vida era muito valiosa e, à sua volta estava tudo bem. Esta era a sua maneira de dar as boas vindas. Com descontração, alegria e otimismo. Jamais se queixava de qualquer incomodo. E depois do tradicional ‘entra pra dentro’, entre um gole de café, que jamais esfriava na chapa do fogão à lenha e umas mordidas no tradicional e delicioso bolo de fubá, em poucos minutos ela me punha a par de tudo que acontecera no bairro na minha ausência. E naturalmente ficava sabendo das novidades que eu levava da ‘praça’!
O tempo passou e a casa velha amarela que pertencera ao meu tio André foi demolida. Outra de alvenaria foi construída em seu lugar. Pouco depois de se casar, seu filho caçula pediu que ela se mudasse e ocupou a casa dela. Voltando a morar na casa em que nascera, com o filho mais velho e sua família, tendo como privados apenas o quarto de dormir e uma cozinha no quintal, tia Silveria mudou muito seu jeito de ser. Tornou-se doentia e amarga. Diante da costumeira pergunta…
– Como vai, tia?
Ela respondia sempre;
– Não estou boa hoje, não… – E enumerava seus males na mesma intensidade que anos antes jogava alegria pela janela da casa de assoalho alto.
Mas a chorumela era passageira. Depois de colocar para fora suas dores e anseios não revelados ela voltava a ser a Silveria dos meus sonhos, cuja presença e convivência queríamos que durasse para sempre.
Tia Silveria continuou sendo referencia para mim em minha terrinha amada até o fim de sua caminhada terrena. Em 1996 tive a benção de morar na mesma casa que foi dela, há menos de cinquenta metros de sua cozinha e pude desfrutar, ao menos nos finais de semanas, de sua alegre companhia.
Naquele ano aconteceu um fato inusitado que fez reviver tia Silveria dos meus tempos de criança. No inicio de uma ensolarada tarde de sábado, meus filhos e o amigo Marquinhos estavam aprendendo dirigir um mini- bug cor de rosa em volta da casa, quando tia Silveria chegou e pediu-me para leva-la à casa da tia Rosina, um quilometro distante dali. Naturalmente me dispus a fazê-lo, mas antes, de brincadeira, sugeri que ela fosse no carrinho com os meninos. Para minha surpresa, tia Silveria simplesmente empurrou o Diego do assento do passageiro com um porretinho que levava para se apoiar, dizendo;
– Chega pra lá menino… – e sentou-se espremida no único banco do buguinho, ao lado do Marcelo! E seguiram estrada afora até a localidade do Mourão Furado!
Para ilustrar um pouquinho mais a cena, o buguinho era tão minúsculo que eu o havia levado de Silvianópolis para o sitio, montado, no porta malas do meu Escort!
Quem passou pela estrada alegre e poeirenta do bairro dos Coutinhos naquela tarde, com certeza viu uma cena inesquecível; uma velhinha beirando os 80 anos, espremida entre três garotos de treze e catorze anos num buguinho barulhento cor de rosa, com o vento espatifando o coque dos longos cabelos cinzas!
Uma foto desta cena hoje certamente correria o mundo pelo You Tube.
Assim era tia Silveria. Não fazia graça. Era a graça. Não ria. Fazia-nos rir. Era generosidade, otimismo e alegria em pessoa. Viveu 79 eternas primaveras com Deus e para ele se foi. E a saudade…
* Post publicado no dia 03 de setembro de 2011.
Apesar do tamanho ele ainda é um bebê. Nem foi batizado! Atende pelo nome provisório de “Cimentinho”.
Ele está fazendo tratamento para combater carrapatos e adora fazer buracos no jardim!
Quem encontra-lo e devolvê-lo ganhará um presente surpresa! Cimentinho deve estar nas imediações dos bairros ‘Fatima’ em Pouso Alegre
Contatos com os ‘pais’ do Cimentinho:
9982-3013, 9802-3113, ( Vivo) 9202-7281, (Tim) ou através do Blog do Airton Chips, ‘[email protected]’.
Aguardamos seu contato!
Cinco horas da tarde quente de verão.
Ar num tom pastel, parado.
Ruas desertas.
Sem saber por que levantei-me da banqueta do barzinho de três portas na esquina da rua São Jose com Adalberto Ferraz.
Dei três passos para trás e olhei para a direita.
Na baixada, perto da Travessa Pedro Adão, ele vinha a passos lentos e firmes!
Não acreditei nos meus olhos… Era meu pai!
Comecei tremer e fiquei ali estático na calçada, sem mover um passo, sem piscar, com medo de perdê-lo de vista!
Só quando ele chegou bem perto estendi os braços, com a voz embargada e o abracei…
Senti seu corpo quente, forte, seus ossos duros! Tal como eu sentia toda vez que o abraçava anos antes.
Correspondeu o abraço com alegria, porém com menos efusão que eu. Ele sempre foi contido!
Meu pai estava com a aparência de cinquenta e poucos anos.
Vestia calça bege e camisa no mesmo tom. Estava barbeado, penteado, semblante sereno como sempre.
Fiquei quase um minuto abraçando e apalpando meu pai enquanto repetia perguntas sem esperar respostas…
– É você mesmo?
– Há quanto tempo!
– O senhor está muito bem…
– Quanta saudade…!
Voltei a abraça-lo e sentir seus ossos duros no meu peito, nos meus braços… Queria ter certeza de que era ele!
Demorou um pouco para meu coração voltar aos batimentos – quase – normais…!
E saímos caminhando lado a lado, conversando amenidades… – Tinha tanta coisa pra conversar!
Viramos na esquina e subimos a Dr. Lisboa.
Eu não cabia em mim de alegria… Há anos eu não abraçava meu pai! Há anos eu não ouvia sua voz suave e tranquila!
Ele pouco falava… Eu não deixava!
A praça Senador Jose Bento tinha mais movimento. As lojas, prédios, pessoas… Tudo tinha um tom pastel! Parecia que estávamos nos anos 1960!
Entramos na pastelaria Chinesa…
De repente meu pai se levantou da banqueta, disse que havia esquecido alguma coisa e saiu para buscar…!
Eu estava tão absorto, tão inebriado com sua presença depois de tantos anos, que nem me dei conta de perguntar o quê, ou pedir pra me esperar, ou ir junto com ele buscar o que quer que fosse, onde fosse!
Quando me dei conta de que não havia necessidade de ele se afastar para buscar qualquer coisa, já era tarde…!
Saí à rua à sua procura e não mais o vi! Aos poucos fui me dando conta de que o perdera de novo!
Comecei chorar, de desespero…!
Aos poucos fui compreendendo que meu viera apenas me abraçar, matar minha imensa saudade, mostrar que também tinha saudade e que estava muito bem, mas não poderia ficar… Por isso dera uma desculpa qualquer para partir sem se despedir!
Eu ainda podia sentir seus músculos rijos, seus ossos duros no meu abraço…
Parei de soluçar…
Mas as lagrimas continuaram caindo!
Agora eram de alegria, de prazer, de agradecimento… Meu saudoso pai viera me abraçar, se deixar abraçar e mostrar que estava muito bem!
Ainda dei alguns passos na calçada, sem ver ninguém, olhando longe, saboreando o prazer de ter abraçado meu pai depois de tanto tempo…
De repente senti o travesseiro molhado…!
Abri os olhos…
Não me vi no espelho, mas senti que minha boca, meu rosto tinha um sorriso de orelha a orelha…!
Acho que até meus braços ainda estavam abertos…!
Sorrindo entre lagrimas levantei, atravessei o quarto, a sala e fui direto ao quarto do meu filho Daniel como que levado por alguém! Todo espatifado no seu bercinho, ele tinha a expressão serena de toda criança enquanto dorme!
Fiz-lhe um cafuné com o dorso dos dedos dobrados… “Fica com Deus, filho. Fica com Deus, pai”, e voltei sorrindo para o meu quarto…
Virei o travesseiro molhado e voltei a dormir… Com um largo sorriso no rosto!
Depois de tantos anos, eu havia abraçado meu pai! Eu tive o privilegio de abraçar meu pai novamente! Ainda podia sentir seu corpo, seu cheiro, seu olhar sempre manso, sereno e alegre…
Se meu pai não tivesse desencarnado em julho de 1997, neste domingo, 23 de agosto de 2015, ele estaria comemorando – com seus 11 filhos, 35 netos e 30 bisnetos – 87 anos!
Fica com Deus, pai!
Dia de menino bom,
Dia de menino forte,
Dia de menino bonito
Dia de menino sensível,
Dia de menino obstinado,
Dia de menino responsável,
Dia de menino corajoso,
Dia de menino sereno nas turbulências,
Dia de menino simples nas vitorias – e são tantas!
Dia de menino vencedor!
Mais que isso…
Dia de menino abençoado por Deus!
Hoje é seu dia Diego de Almeida Matos…
Foi numa madrugada de um longínquo 21 de julho que você nasceu!
E parece que foi ontem… Pois continua o meu menino… Agora o do meio!
Que Deus Pai continue a iluminar seu caminho, guiar seus passos e iluminar seu coração, como sempre fez, desde que você chegou há 33 anos..!
Te amo filhão!
Alfaiate por profissão… Cantor e compositor por opção. Nasceu Alcides Felisbino Basilio no dia 22 de novembro de 1922, em Formiga. Foi rebatizado “Nonô” aos 12 anos quando começou a cantar em parceria com o irmão. Tornou-se afilhado da dupla Cascatinha & Inhana em 1953, quando casou-se com a parceira Naná. Em 1996, com a esposa e parceira, gravou seu ultimo disco, com o titulo: “Nossa Ultima Lembrança”! Morreu em 1997 aos 74 anos de muita musica sertaneja raiz.
Em parceria com a esposa Naná e os padrinhos Cascatinha & Inhana e outras dezenas de cantores e compositores sertanejos, Nonô compôs centenas de musicas sertanejas raiz. E cantaram em vários ritmos musicais.
Seu maior sucesso, “Magoa de Boiadeiro”, composto em parceria com Índio Vago, foi gravado por dezenas de cantores sertanejos entre eles Ouro & Pinguinho e Pedro Bento & Zé da Estrada. Mas se eternizou na voz de Sergio Reis.
– Ô de casa…?
– Ô de fora…!
– ‘Tarde…
– Vâmo chegá…!
Foi com este curto e simplório dialogo caipira que conheci Nonô Basilio em seu sitio no bairro Canta Galo em Pouso Alegre em 1995. No minuto seguinte eu e o Mario estávamos sentados na sala simples e aconchegante de sua casa. Uma legitima ‘casa de caboclo’! Mobiliada e ornada com coisas da roça, inclusive as ‘tralhas’ do seu ‘boiadeiro magoado’!
Duas semanas depois o recebi em minha no bairro dos Coutinhos. Casa também simples, porém com menos bom gosto! Aliás, gosto foi o que meu novo amigo Nonô Basilio sentiu… Gosto de feijoada! Pena que errei no tempero… A feijoada ficou ligeiramente salgada! Mas o suco de gerereba trazido do alambique dos Fernandes, que ele adorava, amenizou. Gostou tanto da cachacinha artesanal que pediu para levar a garrafa para o palco. Naquela sexta feira, no sábado e no domingo Nonô Basilio deu-nos o prazer de sua presença como jurado no 1º Festival de Musica Sertaneja do Bairro dos Coutinhos!
Meses depois voltei ao sitio de Nonô no Canta galo. Fui levar meu saudoso tio Antônio, que tinha negócios com ele. Nonô lhe deu um frango carijó e como pagamento pelo ‘carreto’, meu tio me deu o frango.
-… Fica com esse frango pra você almoçar amanha! – Disse ele.
Era um frango carijó dourado, mestiço índio, robusto e garboso… Nem pensar em coloca-lo na panela. Virou galo! cuidou de um seleto harém de galinhas caipiras, cantou quase tão afinado quanto Nonô e reinou durante mais de três anos no meu terreiro!
A passagem mais marcante do velho cantor, compositor e diretor artístico foi justamente sua ‘passagem’… Nonô morreu no dia 1º de julho! Recebi a noticia no dia seguinte através do radialista e amigo comum Hilário Coutinho… Tres dias depois meu pai foi se encontrar com ele…!
Vocês deixaram muitos amigos… E muitas saudades!

Meu ‘amigo’ rastreador de Windows Phone, a quilômetros de distancia, me mostrou exatamente onde meu celular estava…
Embora há anos leve diariamente noticias mundo afora através da comunicação virtual, nunca fui amante incondicional da internet. Por vários motivos. Mas tem hora que realmente é preciso dar o braço a torcer! A internet faz coisas que nenhum detetive faria!
Na sexta de manha peguei o Mercedes Bens 2621 da Gardenia em Pouso Alegre e fui à Campinas buscar o carro da minha filha. Levei até uma garrafa d’agua, por vias das duvidas…!
Viagem tranquila, ônibus reativamente vazio, poucas paradas para ‘catajeca’… Ao meio dia o ônibus entrou lentamente no terminal rodoviário. Antes de saltar levei a mão ao bolso para pegar o celular e avisar que havia chegado e… Necasdecatibiribas! Não havia celular no bolso! Caramba!
– Será que esqueci o celular em casa, pela primeira vez?
Olhei para a poltrona vazia, olhei debaixo da poltrona e, tornei a revirar os bolsos da calça cargo e… Nada! Desembarquei!
Do terminal, depois de mais de vinte anos, voltei a usar o velho e infalível ‘orelhão’ pra ligar pra casa. Ouvi novamente a eterna mensagem: “chamada à cobrar… depois do sinal, diga seu nome e a cidade de onde você está falando”…! Antes que eu falasse, Tatiana me atropelou:
– Já te liguei varias vezes! Porque você não me atende…?
– É porque meu celular está fora do meu alcance…
– Como assim, fora do seu alcance!?
– Ele não está comigo! Eu estou na rodoviária de Campinas e ele deve estar no meu escritório em casa, numa greta do sofá da sala ou no console do seu carro…! – respondi com bom humor. – Enfim: perdi meu celular!
Consegui sobreviver em Campinas sem celular! Na manha seguinte já em casa, depois de refazer mentalmente meu trajeto, de apelar para São Longuinho e concluir que o celular estava irremediavelmente perdido, decidimos ligar para a operadora e comunicar a perda. Foi aí que a Inteligência – não os neurônios meus e os da Tatiana, mas sim a ‘Inteligência’, o aprimoramento dos meios de investigação da policia civil – e a internet entraram em cena!
– Espere… – Disse Tatiana – Numa das aulas de Inteligência durante o curso na Acadepol no ano passado, nós aprendemos a rastrear aparelhos de celular através do Windows Fone… Vou tentar!
Tecla dali, digita daqui, enter d’acolá… Em poucos minutos apareceu na tela do computador a imagem de um imenso cercado de muro com figuras que pareciam kombis ou caminhões parados lado a lado. Aproximando mais a imagem, vimos o nome de duas ruas que desembocam na Rodovia MG 290…! Olhando melhor vi que as figuras que pareciam caminhões eram na verdade ônibus…! Meu celular estava no interior de um ônibus na garagem da Gardenia. Provavelmente o mesmo no qual eu viajara no dia anterior!
Eureka! Achei meu celular sem sair de trás da mesa do computador! – Quer dizer, a Tatiana achou! Depois tem gente que acha que medico legista não é policia! – Restava saber se ele continuava escondidinho no ônibus que me levara à Campinas e seguira até Americana ou se ele havia sido ‘achado’ por alguém!
Em dez minutos cruzamos a cidade. Quando entramos na garage e o diretor de trafego mandou que o manobrista verificasse entre os mais de dez ônibus estacionados onde estava o 2621, Tatiana se adiantou e informou mostrando o ‘print’…
– É aquele primeiro, lá no cantinho direito da garage!
Antes de começar a procurar pelo aparelho no chão ou nas gretas entre os bancos, Tatiana ‘ligou pra mim’…! No instante seguinte meu aparelhinho acendeu a luzinha pálida e toucou nossa musiquinha velha conhecida numa gretinha entre a poltrona 07 e a janelinha do ônibus! Nem mesmo o faxineiro que faz a limpeza costumeira depois de cada viagem o havia encontrado!
Meu celular escorregou do bolso da perna direita da calça cargo, se acomodou confortavelmente na greta da poltrona tão logo me sentei na rodoviária de Pouso Alegre, passou por Campinas, foi até Americana e voltou quietinho, dormindo o sono dos justos, sem perturbar ninguém! Quando acabasse a bateria, nunca mais falaria com alguém. Ficaria ali naquela gretinha em silencio, anos e anos! Até que um dia o ônibus 2621 fosse para o ferro velho!
Ah, as maravilhas da internet…!
Vinte quatro depois de o celular escorregar do bolso de minha calça e viajar quase 500 quilômetros sem mim, sem sair de trás da minha mesa no escritório, eu o localizei… Graças às maravilhas da internet! Eu poderia orientar meu filho pra ir buscá-lo na garage e quando chegasse lá ele diria:
– Vim buscar o celular do meu pai! Ele está na greta da poltrona 07, naquele ônibus lá no cantinho do pátio!
Mas nada disso seria possível sem a internet e as poucas aulas de ‘Inteligência” que a Tatiana recebeu, com o sorriso largo e os olhos vidrados de interesse, – usando a blusinha de capuz verde que lhe garantiu o apelido de “chapeuzinho verde” – durante o curso de Medico Legista na Acadepol no ano passado!
*** Abrace seu filho… Não deixe que as drogas o abracem!***
Levantei mais cedo nesta quinta para tomar café com o Homem Lobo da Perimetral. Quando cheguei à sua ‘casa’ ele não estava mais nos braços de Morfeu, mas ainda estava debaixo das cobertas. Reticente, introspectivo e ressabiado demorou alguns minutos para sair da toca… Das duas: da toca cheia de trapos e papelão enegrecida pela fumaça dos pneus e madeira queimados durante a noite, e da toca da mente! Tinha medo de falar! E foi incialmente agressivo. Minha presença o incomodava. Ele queria me ver pelas costas! Foram necessários uma boa dose de paciência, de argumentos e uma cédula de ‘mico leão dourado’ para puxar-lhe língua e ouvir seu nome!
Rogerio Oliveira, nasceu em São Paulo, diz que tem 46 anos, não deve nada a justiça – percebe-se pelo perfil e modus vivendi – e está há mais de dez anos no ‘trecho’! Só no bueiro da Perimetral, segundo o cidadão que caminha por ali diariamente e se sensibilizou com sua ‘sofrencia’, desde outubro do ano passado!
– Quando foi que você começou essa vida, Rogerio?
– Ah, já tem uns dez anos…
– E por quê?
– Cachaça…
– …!
– Eu trabalhava em São Paulo… Mas comecei beber muito. Perdi o emprego, minha mãe morreu. Não sei do meu pai. Aí eu saí andando… Fui para Santa Catarina. Faz tempo que estou no ‘trecho’.
– Não. Parei.
– Onde você passa o dia?
– Por aí… ganho alguma coisa. Os amigos – pessoas que lhe dão comida – ajudam. De noite venho pra cá…
– Pra quê a fogueira toda noite?
– Espanta bicho… Aqui não tem luz! Serve para clarear ‘minha casa’…
– O que você quer…?
– Só quero trabalhar… Mas ninguém dá emprego. Pego uns ‘bico’! Capino quintal… Faço artesanato.
– Como você se alimenta…?
– Os amigos dão comida…
– Não tem jeito, né…! A gente vai levando…
– Você procurou a assistência social?
– Conheço ninguém, não…
– Voce tem algum sonho, alguma esperança?
– Eu queria trabalhar… Estou tentando melhorar um pouco – a aparência – para arrumar um emprego!
Respostas prontas Rogerio tem claras e audíveis na ponta da língua. No entanto, quando se aventura a falar mais de sua vida passada e seus sonhos, ele – parece ter vergonha dos sonhos – fala tão baixo que somente ele ouve e entende. Uma coisa ficou bem clara na curta entrevista em pé, na porta da ‘casa’ enegrecida pela fumaça, ouvindo o vuuum-vuuum-vuuum dos carros passando a 90 por hora defronte a placa pregada no poste indicando 60, poucos metros acima na avenida: Rogerio, o Homem Lobo da Perimetral, sonha trabalhar, sair do bueiro, voltar à vida de anos atrás. Voltar para perto dos parentes em São Paulo.
Outra coisa também está bem clara: Se ele não receber um ‘incentivo’, o único lugar para o qual ele irá, será o fundo do bueiro! O mais longe que o cidadão Rogerio Oliveira – ou seja lá qual for seu nome – irá será o outro lado do bueiro por baixo da pista dupla, em direção ao abandonado Estádio “Minduinzão”!
Quando começou morar no bueiro, tanto bueiro quanto o morador tinham outra aparência, como se vê nas fotos tiradas em outubro passado e neste 28 de maio! A cada dia a vida do homem lobo se parece mais com a aparência do bueiro… Sujo, maltrapilho, assustador… As pessoas correm léguas dele! Sem o “incentivo” de um órgão publico, mantido com dinheiro de impostos, só resta ao “Homem Lobo da Perimetral” afundar ainda mais na degradação social!
Que pena que ele veio parar em Pouso Alegre, numa cidade tão pobre…!!!
Desde a mais tenra idade, quando ainda cortava o cabelo com tesoura deixando o famoso “trio de rato”, aprendi que o mês de maio abriga o Dia das Mães. Mais tarde, na adolescência, quando eu era um dos mais dedicados alunos da escola, “peixinho dos professores”, quando um deles disse que eu ‘tinha veia jornalística’, aprendi nas aulas de Educação Religiosa no Colégio Comercial São José, que o mês de maio é o mês de “Maria”! Nos últimos anos, com a criação do blog, descobri que maio é também o mês do Cavucada! Todo dia 28 ele fica – biologicamente – um ano mais velho… Mas mentalmente é o mesmo garoto de 9, 10 anos que conhecemos e estimamos há trinta anos!
Hoje pela manhã fui fazer a costumeira visita anual e levar-lhe um presentinho! Levei um susto! Basti, bati na porta de sua casa, com a janela aberta, e nada de Cavucada aparecer! Seguindo informações de vizinhos fui encontrá-lo alguns quarteirões abaixo administrando uma obra…! Quando desci do carro, antes que o visse ele me viu e saudou, da janela da construção…
– Êh Chips…
– Úé Cavucada, você está trabalhando de pedreiro agora?
– Não, eu sou engenheiro… Eu que mando no pessoal aqui – atalhou ele com o sorriso habitual. – Sobe aqui pra você ver o prédio que nós estamos construindo! – emendou.
Alexandre Reis Assunção, o menino Cavucada, está completando hoje 46 anos. Ele cresceu na rua, andando de um lado à outro da cidade, levando acenos e alegria às pessoas. Sempre ‘antenado’, ele puxa e comenta qualquer assunto, especialmente sobre futebol. Sabe tudo sobre os grandes clubes do Brasil; Palmeiras, Atletico Mineiro, São Paulo, Flamengo…
Como toda boa criança ele acaba se perdendo e às vezes fica dias sem voltar para casa. Dorme sob marquises ou dentro de caixas de papelão! Nunca aconteceu nenhum acidente, pois ele está sempre em boa companhia… De anjos inocentes como ele!
Tempos atrás, depois de uma destas escapadelas de casa, ele passou uma semana na rua. Quando conseguiu achar o caminho de casa, voltou com uma “bixeira” no ouvido esquerdo! Curou a ferida, mas agora escuta menos do que antes! O irmão que mora com ele, agora não o deixa mais sozinho…
– Estou construindo minha casa devagarinho… Sempre trago ele comigo para o trabalho. Ele fica ‘chefiando’ a obra – brinca Douglas.
Sorrindo Cavucada concorda:
– É, Chips, eu sou o engenheiro…!
E para não deixa-lo sozinho, o irmão que é gráfico, leva Cavú para todo lado quando tem que visitar clientes…
– Quando ele sai é uma festa… Todo mundo quer falar com ele, quer saber por que ele sumiu…
Esse é Cavucada, ‘menino que vi crescer’, mas que permanece na mais doce infância! Menino de coração puro; menino que, sem fazer força, deixa um rastro de alegria por onde passa.
Vida longa, amiguinho Cavucada…