O encontro com meu pai

Minha mãe Eva, minha irma Ivone e meu pai Daniel em meados de 1953...!

Minha mãe Eva, minha irma Ivone e meu pai Daniel em meados de 1953…!

Cinco horas da tarde quente de verão.

Ar num tom pastel, parado.

Ruas desertas.

Sem saber por que levantei-me da banqueta do barzinho de três portas na esquina da rua São Jose com Adalberto Ferraz.

Dei três passos para trás e olhei para a direita.

Na baixada, perto da Travessa Pedro Adão, ele vinha a passos lentos e firmes!

Não acreditei nos meus olhos… Era meu pai!

Comecei tremer e fiquei ali estático na calçada, sem mover um passo, sem piscar, com medo de perdê-lo de vista!

Só quando ele chegou bem perto estendi os braços, com a voz embargada e o abracei…

Senti seu corpo quente, forte, seus ossos duros! Tal como eu sentia toda vez que o abraçava anos antes.

Correspondeu o abraço com alegria, porém com menos efusão que eu. Ele sempre foi contido!

Meu pai estava com a aparência de cinquenta e poucos anos.

Vestia calça bege e camisa no mesmo tom. Estava barbeado, penteado, semblante sereno como sempre.

Fiquei quase um minuto abraçando e apalpando meu pai enquanto repetia perguntas sem esperar respostas…

– É você mesmo?

– Há quanto tempo!

– O senhor está muito bem…

– Quanta saudade…!

Voltei a abraça-lo e sentir seus ossos duros no meu peito, nos meus braços… Queria ter certeza de que era ele!

Demorou um pouco para meu coração voltar aos batimentos – quase – normais…!

E saímos caminhando lado a lado, conversando amenidades… – Tinha tanta coisa pra conversar!

Viramos na esquina e subimos a Dr. Lisboa.

Eu não cabia em mim de alegria… Há anos eu não abraçava meu pai! Há anos eu não ouvia sua voz suave e tranquila!

Ele pouco falava… Eu não deixava!

A praça Senador Jose Bento tinha mais movimento. As lojas, prédios, pessoas… Tudo tinha um tom pastel! Parecia que estávamos nos anos 1960!

Entramos na pastelaria Chinesa…

De repente meu pai se levantou da banqueta, disse que havia esquecido alguma coisa e saiu para buscar…!

Eu estava tão absorto, tão inebriado com sua presença depois de tantos anos, que nem me dei conta de perguntar o quê, ou pedir pra me esperar, ou ir junto com ele buscar o que quer que fosse, onde fosse!

Quando me dei conta de que não havia necessidade de ele se afastar para buscar qualquer coisa, já era tarde…!

Saí à rua à sua procura e não mais o vi! Aos poucos fui me dando conta de que o perdera de novo!

Comecei chorar, de desespero…!

Aos poucos fui compreendendo que meu viera apenas me abraçar, matar minha imensa saudade, mostrar que também tinha saudade e que estava muito bem, mas não poderia ficar… Por isso dera uma desculpa qualquer para partir sem se despedir!

Eu ainda podia sentir seus músculos rijos, seus ossos duros no meu abraço…

Parei de soluçar…

Mas as lagrimas continuaram caindo!

Agora eram de alegria, de prazer, de agradecimento… Meu saudoso pai viera me abraçar, se deixar abraçar e mostrar que estava muito bem!

Ainda dei alguns passos na calçada, sem ver ninguém, olhando longe, saboreando o prazer de ter abraçado meu pai depois de tanto tempo…

De repente senti o travesseiro molhado…!

Abri os olhos…

Não me vi no espelho, mas senti que minha boca, meu rosto tinha um sorriso de orelha a orelha…!

Acho que até meus braços ainda estavam abertos…!

Sorrindo entre lagrimas levantei, atravessei o quarto, a sala e fui direto ao quarto do meu filho Daniel como que levado por alguém! Todo espatifado no seu bercinho, ele tinha a expressão serena de toda criança enquanto dorme!

Fiz-lhe um cafuné com o dorso dos dedos dobrados… “Fica com Deus, filho. Fica com Deus, pai”, e voltei sorrindo para o meu quarto…

Virei o travesseiro molhado e voltei a dormir… Com um largo sorriso no rosto!

Depois de tantos anos, eu havia abraçado meu pai! Eu tive o privilegio de abraçar meu pai novamente! Ainda podia sentir seu corpo, seu cheiro, seu olhar sempre manso, sereno e alegre…

Se meu pai não tivesse desencarnado em julho de 1997, neste domingo, 23 de agosto, ele estaria comemorando – com seus 11 filhos, 35 netos e 30 bisnetos – 87 anos!

Fica com Deus, pai!

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