Estava o detetive Prado, da Regional de Pouso Alegre, no aconchego do seu lar, ao pé da noite de terça, 30, quando lembrou-se que seu carro havia ficado estacionado na porta da delegacia… E resolveu buscá-lo, pois precisaria dele na manha seguinte. Pegou o ônibus, desceu no ponto final da Duque de Caxias e seguiu lentamente para a delegacia.
Quando descia a Com. Jose Garcia, caminhando lentamente na noite abafada, pensando na morte da cabritinha, cruzou com um rapaz falando qualquer coisa num celular colado à orelha. Por acaso olhou na direção do Banco Santander e percebeu que havia dois clientes, um anotando qualquer coisa numa mesinha e outro operando um caixa eletrônico. Nada de mais! Nada demais para um cidadão comum, ou até mesmo para um policial comum…!
Mas certos policiais tem uma coisa chamada “tirocínio policial”! Algo parecido com… Sexto sentido ou… telepatia! É um botãozinho que acende automaticamente no cerébro e avisa;
– Parece que tem alguma coisa errada ali!
Mas que detalhe teria acendido o botãozinho vermelho?
O calejado detetive notou que o ‘cliente’ estava com os braços levantados mais ou menos na altura dos ombros, quando na verdade os botões do caixa eletrônico ficam à sua frente, na altura do peito. Ora, ele poderia estar alongando ou descansando os braços enquanto a maquininha vomitava o dinheiro!!! Poderia… Mas poderia também ser um cliente “coletivo”, daqueles que sacam dinheiro da conta de todo mundo, através do aparelhinho vulgarmente batizado a anos de “chupa-cabras”!
Mas e se fosse?
O que ele, um funcionário mal-remunerado, mal-reconhecido e discriminado pela sociedade, no seu sagrado horário de descanso, fora do expediente, tinha a ver com isso?
Talvez nada, exceto o fato de que a maioria dos policiais, tem sangue de policial correndo nas veias!
Poderia ser apenas uma neurose policial, que vê bandidos em cada esquina, em cada sujeito debaixo de um boné, em cada cidadão que fecha a carranca ou se abre num sorriso dissimulado quando vê um policial! Mas poderia ser uma dupla de estelionatários instalando um aparelhinho para limpar a conta bancaria de dezenas de pessoas inocentes que usariam o caixa nos dias seguintes!!
Ligou para a delegacia. Pediu apoio. Em menos de um minuto chegou o parceiro Diego Henrique. Entraram no Banco. Sacaram a “.40” e anunciaram:
– Policia… Perdeu! Mãos na parede… O que vocês estão fazendo aqui?
Estelionatários, meliantes cibernéticos, jamais reagem à prisão, não fazem mal a ninguém, exceto aos seus bolsos, é claro. Eles sabem quando ‘perderam’… Até porque são pessoas bem esclarecidas, bem organizadas, inteligentes, conhecem leis e sabem que – quase – sempre vão ganhar das leis!
– Estamos sondando o local para instalar um aparelho Chupa-cabras! – Respondeu ludicamente um deles, desarmando os dois policiais.
– Onde esta o aparelhinho ‘comedor de cartões’?
– Não trouxemos… Por enquanto estávamos somente sondando o local…!
Edvam da Silva Morais e Marcos Paulo França, ambos 25 anos, moradores na capital paulista foram levados para a delegacia de policia. Além de uma bolsa a tiracolo, vazia, não havia mais nada com eles que os ligassem a qualquer ato ilícito. Nem mesmo o GM Corsa placas EQC-3134 de São Paulo que os esperava candidamente em frente a Droga Lusa, na Adolfo Olinto, tinha qualquer irregularidade. Constatou que a dupla já esteve presa Poe estelionato em Bragança Paulista. Só isso.
Três horas depois da ‘detenção dos supostos’ estelionatários, depois de contatar a gerencia do banco através do enjoativo “0800”, uma funcionaria apareceu na delegacia de policia e informou à delegada de plantão:
– As portas se fecham automaticamente às dez da noite e se abrem da mesma forma à seis da manhã. Não temos como ter acesso aos caixas neste período…
A esta altura do andar da carruagem, um causídico de São Paulo já havia chegado à delegacia de Pouso Alegre para libertar os instaladores de chupa-cabras. Ele havia sido chamado por outro moço, aquele com o qual o detetive Prado havia cruzado quase em frente ao banco com o celular colado na orelha. Ele também faz parte da fazenda, digo, da quadrilha do ‘chupa-cabra’!
Bem, manter os moços detidos na delegacia de policia até o raiar do dia, até o banco fazer a gentileza de abrir suas portas, para que os policiais tentassem encontrar algum chupa-cabras, não seria possível. É contra a lei. A carta magna do Ulisses não permite. Seria cerceamento da liberdade de ir e vir. À luz da lei, ainda que confessassem que ‘pretendiam’ praticar um crime, não poderiam ser presos, pois não havia materialidade de crime. De acordo com a Lei 4898, a delegada e seus policiais de tirocínio aguçado poderiam ser processados se o fizessem. O jeito foi liberar os três meliantes, desculpe, os dois meliantes e seu causídico que veio correndo de São Paulo para defendê-los! Antes, porém, um dos meliantes, todo prosa, todo à vontade, confessou em “off” ao detetive Prado:
– O sistema eletrônico deste banco é um dos mais fáceis de instalar o ‘chupa-cabras’…!
A gerente do banco, senhora V., não compareceu à delegacia e nem ao banco na manha seguinte para verificar se algum dos caixas havia sido violado. Mas quando a porta abriu automaticamente, automaticamente o policial Prado e seu parceiro estavam lá para evitar que o suado dinheirinho de incautos correntistas e poupadores fosse parar em outras guaiacas sem passar pelas suas mãos. Passaram quase toda noite em claro, mas estavam lá… Ainda bem!!
Os caixas estavam todos intactos. Não havia qualquer macula. Qualquer cartão entrava e saia dos orifícios sem problemas… Mas coitado de quem ousasse digitar sua valiosa senha… Teria seu rico dinheirinho sacado ou transferido para a conta de um esperto racker sem nome numa cidade qualquer do país e poderia ainda ter cartão e o talões de cheques clonados…
Depois de muito apalpar as maquinas frias, finalmente a tampinha de um compartimento de uma delas caiu… Dentro estava o famigerado aparelho conhecido como ‘chupa-cabra’!
A esta altura o quarteto, desculpe de novo, a dupla Marcos e Edvam, o moço do celular colado ao ouvido e o causídico, já estavam, provavelmente instalando o chupa-cabra em outras paragens…
Li hoje pela manha, o texto de um desembargador, postado no face pelo meu ex-parceiro e amigo Rodney Malveira, recém aposentado delegado de policia de Minas Gerais. O texto vem a calhar! Fala da desorganização, da fragilidade, da falta de prestigio e de reconhecimento da Policia Civil mineira. Ironia…!
A policia civil é assim! Enquanto a sociedade dorme, os policiais velam seu sono e seu patrimônio… Centenas de clientes do aludido banco nem saberão que foram salvos por um policial de ‘tirocínio aguçado’, que passava por ali no seu horário de descanso!
Algumas instituições bancarias prestam serviço – ainda que a taxas e juros exorbitantes – “24 horas”! Ainda bem que existe a policia civil 24 horas…!!! E o salário e prestigio, ó…!!!