Tres bandidos perigosos e oito detetives atrapalhados

Nosso eterno Rabo-Verde... Na época ele ainda circulava pelo centro da cidade. cdade

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Na época nosso eterno Rabo Verde ainda circulava pelo centro…

Quando chegamos para o expediente da tarde naquela terça feira, o subinspetor Ângelo nos reuniu na inspetoria e deu a missão…

– O gerente da Útil me ligou… De manhã estiveram na imobiliária três caboclos querendo alugar uma casa no Foch. Eles são bastante estranhos. Estavam com uma maleta de dinheiro vivo… Queriam pagar os seis meses de aluguel adiantado! Pelo jeito são assaltantes de São Paulo querendo se esconder em Pouso Alegre… Eles ficaram de voltar na imobiliária às quatro da tarde para fechar o contrato! Estão num Del Rey ouro…! Adão, Luiz, Pezão, monte uma equipe e vão p’ra lá esperar por eles. Leve uns oito… Espalhem ali por perto, se misturem aos transeuntes, aos clientes da imobiliária e tomem cuidado! Use o fator surpresa… Evitem o confronto! Vocês aprenderam isso na Acadepol, não é?

Antes das três da tarde estávamos espalhados na Rua Dom Assis… No começo da rua estava o pequenino Romeu atrás do volante da “brasilinha verde”, pronto para engatar primeira e encostar na porta da imobiliária! Luiz Neves com seu jeitinho interiorano de Conselheiro Lafaiete e Munhoz com seu rosto sempre vermelho contrastando com seu óculos fundo de garrafa, estavam com pinta de somongós cada um numa esquina! O veterano Luiz Mendes, com seu jeito de Contador prestes a se aposentar e o jovem Barbosinha e seus cabelos enrolados, parecendo qualquer coisa menos policia, estavam dentro da bicicletaria do Santos Patrício, em frente, fingindo muito interesse numa Caloi Barraforte Circular! Encostado no balcão da imobiliária Adão com seu impecável traje social com a fralda da camisa para fora da calça jogava conversa fora com o Vanderlei, já bastante calvo! Eu e Adair Pezão estávamos sentados cada um numa ponta do surrado sofá, com o coração batendo acelerado, esperando ver três sujeitos entrar com uma maleta na mão e talvez um trabuco na cintura por baixo da camisa! Fazia um inquietante mormaço! Os ponteiros do relógio na parede do escritório pareciam estar parados! Até que o sino da Catedral – aquele mesmo que no Natal de 55 bateu desesperadamente anunciando a morte de Jacira no Beco Crime – deu quatro badaladas!

A pressão aumentou!

Os homens viriam ou não?

Será que descobriram que a arapuca estava armada?

Exceto as duplas, estávamos incomunicáveis. Adão, o mais veterano da “operação imobiliária” saiu à porta e conferiu… Cada um estava em seu posto.

A velha Rua Dom Assis estava quase deserta, cheia de vagas para estacionar. E nada do Del Rey ouro com três ocupantes chegar…!

Dona impaciência já estava nos cutucando, convocando-nos para uma mini reunião… Mas desfazer o laço da arapuca sem os pombinhos – melhor dizendo, sem os abutres! – seria muito perigoso. Se os suspeitos vissem um grupo de marmanjos na recepção da imobiliária, na rua ou mesmo na bicicletaria do Santos Patrício, certamente não iriam cair no laço! Além disso, havia o risco de uma troca de tiros! O jeito era massagear a paciência e esperar…!

De repente, sem nenhum aviso externo, o Del Rey ouro estacionou na porta do escritório da Útil!!! Os pouco mais de vinte segundos gastos para o trio descer do carro e adentar o escritório pareceram uma eternidade!!! Quando o trio encostou-se ao balcão a pergunta do atendente se confundiu com a ordem em uníssono…

– Mãos na cabeça… Vocês estão presos!!!

Ah, bons tempos aqueles em que o policial prendia o bandido para depois informar porque ele estava sendo preso! Não havia flagrante, não havia mandado, mas podiam prender, pois estava escrito na testa do suspeito que ele era bandido e tinha debito com a justiça!

Não demorou trinta segundos os outros cinco detetives estavam na recepção da imobiliária… E a Brasilinha Verde nos braços do Romeu, na porta! Antes que eles esboçassem a primeira pergunta para a prisão, já estavam com as pulseiras de prata apertando os pulsos. Foi tudo muito rápido… Rápido demais! Tão rápido que protagonizamos um tremendo ‘mico’! Mas acho que ninguém percebeu…!

Uma coisa que aprendemos claramente na Acadepol é que local de abordagem e prisão não é local para explicação e argumentação! Por vários motivos. E o principal deles é a segurança dos policiais e de quem estiver por perto. Por isso urgia sair do escritório da imobiliária.

Mas precisava ser tão atabalhoadamente…!?

Antes que o curioso ‘Vitinho’ dissesse Pindamonhangaba, o trio de assaltantes, sem fazer uma única pergunta, já estava no banco de trás da Brasilinha Verde com Romeu ao volante e Adair ajoelhado no banco da frente apontado o trabuco para o nariz deles! E desceram a Dom Assis em direção à delegacia. Nós seis embarcamos no Del Rey ouro dos bandidos… E aí aconteceu a trapalhada!

Não conseguíamos inclinar os bancos da frente para passar para os bancos de trás! Puxávamos, procurávamos os botões, de cima a baixo, um de cada lado e nada de os bancos inclinarem! Enquanto isso a Brasilinha Verde se distanciava levando três perigosos assaltantes de bancos com apenas dois policiais… Um ocupado com o volante e o outro ocupado em controlar o medo e o nervosismo!

E se um dos bandidos surpreendesse o Adair? E se na esquina da São João o restante da quadrilha estivesse de tocaia esperando a passagem da Brasilinha Verde?

Não. Não podíamos ariscar a deixar três assaltantes de bancos aos cuidados apenas de um detetive! Não havia tempo para descobrir como inclinar os bancos para sentar atrás! Embarcamos no Del Rey como deu… Pulando por cima do banco, por cima do motorista! Pelas janela… Adão, já apavorado, arrancou com o possante e acabou de ajeitar a carga no tranco! Uns por cima dos outros, deixando para trás uma embasbacada plateia sem entender patavina do que estava acontecendo! Ainda bem que não entenderam, pois, por um mistério quase inexplicável, o ‘espetáculo da Util’ reuniu dezenas de expectadores em menos de um minuto!

Embora seja centro da cidade, com vários pontos comerciais, a velha Dom Assis não tem tanto movimento assim. No entanto, tão logo a Brasilinha rangeu suas molas e freios ao lado do Dele Rey ouro, portas e janelas se empinhocaram de curiosos! Desconfio que o Vitinho ou outro funcionário da imobiliária, ao saber da ‘operação secreta’ deve ter vazado a informação para a vizinhança, recomendando naturalmente…

– Fiquem preparados… As quatro da tarde a policia civil vai prender uma quadrilha aqui no escritório! Não percam! É segredo, não contem para ninguém…! só para as crianças da creche…!!

Entramos na Silvestre Ferraz no exato momento em que Romeu estacionava a Brasilinha Verde na porta da DP. Estávamos todos inteiros. Alguns de nós de cabeça para baixo, mas inteiros dentro do Del Rey ouro!

Os três meliantes de caras fechadas foram levado direto para o gabinete do delegado regional onde finalmente soltaram a voz, numa conversa à boca pequena, só com a chefia! De lá foram para o corró e no dia seguinte desembarcaram em São Paulo. O boato que surgiu na delegacia é que eles desembarcaram mesmo… No meio de uma avenida de grande movimento como são quase todos as avenidas paulistanas, deixando os dois detetives que os escoltavam só com o cabo do guarda chuva na mão! Nunca conseguimos entender isso! Do escritório da Util – três quarteirões até a delegacia – nós jovens e sonhadores policiais viajamos até de cabeça para baixo para não perder de vista os perigosos assaltantes na Brasilinha Verde… No dia seguinte eles foram recambiados para outro Estado com apenas dois escoltas…!? E desembarcaram no meio – literalmente – da avenida com a viatura em movimento!!! Bem, deixemos este ‘mistério’ para a imaginação do leitor! Afinal, desde que o mundo é mundo, já existe caminhos – e pessoas – tortas! Voltemos ao ‘mistério’ de “como chegar ao banco de trás” do vistoso Del Rey Ouro…

Tão logo entregamos o trio de assaltantes armados apenas com sua maleta – recheada de cruzeiros, que daria para pagar o salario de toda a equipe aquele mês e mais o Decimo Terceiro – na porta do gabinete do delegado regional, corremos para a garagem, para descobrir como inclinar os bancos da frente do Del Rey. Antes chamamos o Sr. Nelson Wood, que era Vistoriador de veículos e mecânico, para nos auxiliar. Como já havíamos ‘apanhado’ do Del Rey e também para testar os conhecimentos do ‘seu’ Nelson mostramos o carro e falamos.

– Seu Nelson, o Sr. poderia inclinar os bancos da frente para que possamos sentar no banco de trás do Del Rey…?

Nelson Wood olhou para o carro com um olho só – ele era caolho, acho que era o direito! – meio ressabiado e muito singelamente perguntou!

– Mas porque vocês querem entrar pela frente e passar para o banco de trás? É alguém tipo de exercício, mandinga?

– Não, seu Nelson… É que é meio complicado pular por cima do banco, né!

– Ué…! E porque não entram pelas portas de trás? É só puxar a maçaneta…! – E dizendo isso passou a mão na lateral do carro e com um simples ‘clic’ escancarou o lado direito traseiro. Em seguida o esquerdo… Abriu os braços sujos de graxa olhou pra nós e fez uma pequena careta como quem pergunta:

– Qual o problema???

O Del Rey ouro dos assaltantes paulistanos era “quatro portas”!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ainda posso sentir o gosto salgado do suor escorrendo por entre os fios ralos do meu bigode de adolescente até parar nos meus lábios, mas não sei dizer ao certo se aquela interminável tarde de mormaço, de ‘gafe coletiva’, era final de primavera de 81 ou inicio de outono de 82…!

Naquele tempo, carro quatro portas era exceção!

 

Obs: Se você meu estimado leitor tiver uma foto da Útil ou da rua Dom Assis daquele época, envie-me para ilustrar a crônica!

Pedrinho e a carta para Deus… Atendida por Brasilia!

Quando Pedrinho, um garotinho de 7 anos, sapeca e bom de bola, morador ao pé da serra do cajuru, viu a potrinha pampa que nasceu no pasto do seu vizinho, logo se apaixonou. Queria a todo custo comprar a potrinha! Quebrou seu cofrinho de porquinho, pegou as moedas e foi pessoalmente procurar ‘seu’ Honorio para comprar a potrinha;

– Quanto quer pela pampinha, seu Honorio? – Perguntou o garoto.

– Quero R$ 140.

Pedrinho enfiou a mão no bolso da bermudinha listrada, pegou as moedas e contou… Quarenta reais! Faltava cem! Coçou seus cabelinhos encaracolas até o ombro e falou para ‘seu’ Honorio:

– Não vende ela pra ninguém! Eu vou arrumar os cem reais e volto no mês que vem p’ra buscar a pampa.

Enquanto voltava para casa cabisbaixo pela estradinha de terra batida, Pedrinho foi pensando. Pensou, pensou, pensou e chegou a uma conclusão… Só Deus poderia lhe dar os cem reais que faltavam para comprar a potrinha pampa! Chegou a sua casa, foi direto para o quarto, ajoelhou-se diante do crucifixo pendurado na parede, juntou as mãozinhas como convém a um cristão e se pôs a rezar! Repetiu o gesto durante uma semana, pedindo à Deus para lhe dar R$ 100 para comprar a potrinha pampa. Depois de dez dias rezando diariamente ajoelhado, de mãos postas, sem ver a cor do dinheiro, Pedrinho começou desanimar… Andava cabisbaixo de um lado a outro do sitio, pouca prosa, sem querer brincar! Nem Leleu, seu Fox Paulistinha viralatas o animava mais! Até que teve uma ultima ideia…

– Faz duas semanas que estou rezando pedindo cem reais pra Deus e não recebi sequer um sinal! Pois vou escrever uma carta para Ele agora, pedindo ao menos uma explicação!

E assim o fez.

– Querido Deus… Conforme nossa conversa anterior durante duas semanas, estou formalizando meu pedido de cem reais para comprar a eguinha pampa do ‘seu’ Honorio. O Senhor sabe que eu sou menino batuta! Faz tempo que não amarro palha de milho no rabo do gato, não fico jogando graveto no ribeirão para o Leleu buscar, e no mês passado apaguei o quadro negro da ‘tia’ Leninha três vezes e ainda ajudei ela levar aquela sacola de cadernos para corrigir até a porteira da casa dela! Se tiver faltando alguma boa ação para me equilibrar na sua balancinha é só falar que eu faço! Mas se não tiver, me manda os cem reais porque o Totonho do ‘seu’ Antero já está de olho na ‘minha’ potrinha pampa!

Terminou a carta, fechou com carinho, escreveu no envelope; “Para Deus/Brasil”.

 

Ao receber a carta com aquele destinatário; “Deus/Brasil” o sempre eficiente correio brasileiro encaminhou a carta para Brasilia. Ao abrí-la e lê-la, Dilma ficou muito comovida e resolveu atender o pedido de Pedrinho. Mas como não havia dotação orçamentaria para tal, ordenou ao primeiro secretario que passou na sua frente:

– Faça uma ‘vaquinha’ aí entre vocês e atenda o pedido deste menino… Tome aqui meus dez reais!

Não se sabe se pela avareza, incompetência ou por força de habito de desviar dinheiro publico, o envelope foi fechado com apenas os dez reais e foi enviado para a Serra do Cajuru. Apesar da decepção, como bom brasileiro que não desiste nunca, Pedrinho sentou-se novamente, para agradecer a merreca, e escreveu:

– Querido Deus, muito obrigado por me mandar o dinheiro que pedi… Contudo, eu pediria que, na próxima vez, o Senhor mandasse direto para o meu endereço, porque quando passa por BRASÍLIA, aqueles filhos da puta ficam com 90%!!!

 

Minutos de Sabedoria…

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“Seja sempre nobre em sua expressão de trabalho, se quiser atrair para si a nobreza dos companheiros de luta.

Demonstre sempre, inicialmente, a sua própria nobreza, para que os outros se mirem no seu exemplo e o imitem.

Seja sempre bem educado, antes de exigir que os outros o sejam.

A força do exemplo é a mais convincente e eficaz que existe no mundo.

Vale mais um exemplo do que mil palavras.

Dê você, em primeiro lugar, o bom exemplo em sua conduta”.

Tenham todos uma iluminada semana!

 

O ‘velho’ Aterrado… E eu!

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A primeira vez que atravessei a ponte sobre o velho e piscoso Mandu e adentrei o velho Aterrado, foi montado numa bicicleta Monark azul-escuro. Levava na frente da reforçada bicicleta de carga um botijão de gás. Até então eu só conhecia o lado norte do rio, onde ia com o pai de uns amigos meus pescar mandi, piaba, tabarana e lambari debaixo da ponte, onde hoje passa a polemica e bela Avenida Perimetral. Na ocasião o bairro já havia sido batizado com o nome do santo, mas continuava sendo chamado pelo apelido de nascença: Aterrado. Passei pela oficina de bicicletas do Wilson na cabeça da ponte e segui pedalando garboso a pesada bicicleta da firma “Gouveia Gás”, desviando de pessoas, cavalos, outras bicicletas e poucos carros, ora pelo passeio, driblando as arvores, ora pela rua poeirenta!

Eu adorava bicicleta! Pedalar o dia inteiro pela cidade, ainda que carregando a pesada carga de 28 quilos na ida e 15 na volta, era mais que um trabalho, era um prazer, uma diversão! Na época, Roberto Carlos já era ‘rei’ e a Jovem Guarda ainda era jovem. Quem mais vendia discos ‘compact play’, de duas e quatro musicas era o cantor brega, Odair Jose, o terror das empregadas… Era o ano de l973.

Já no inicio daquela década, quando Simão Pedro Toledo começava transformar Pouso Alegre na mais progressista cidade do Sul de Minas, o velho Aterrado já era mal afamado. Não era qualquer um que se arriscava a atravessar o bairro. Até porque não tinha para onde ir! Depois da Curva do Japonês não existia cidade… Era só pasto. Só fazendas. A Refinações de Milho Brasil é que levaria a cidade para o sul.

… Mas demorei alguns anos para criar coragem!

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Em 1969, quando comecei explorar Pouso Alegre com minha caixinha de picolés de uva, groselha, laranja, abacaxi e limão, Carlinhos Tigrinho, filho do patrão recomendou:

– Evite ir vender no Aterrado… Os moleques de lá te tomam os picolés, te dão uma surra e quebram sua caixa!

Pouso Alegre tinha 39 mil habitantes divididos em sete ou oito bairros, além do centro. Eu teria clientela suficiente nos bairros Cascalho, Primavera, Santo Antônio, Saúde, por perto de minha casa, sem ter que atravessar a ponte.

Três anos depois da advertência do filho do ‘seu’ Ferreira, fui estudar no Mons. Jose Paulino. Eu era ainda impúbere, mas além de estar atrasado nos estudos, precisava trabalhar durante o dia. Portanto fui estudar à noite. Foi meu primeiro contato com os moradores do Aterrado. Todos mais velhos do que eu. Lembro-me de alguns… O Bernardino, o Luiz Egidio, o Edesio! Lembro mais de ‘algumas’… A Geny, uma linda loira esguia de cabelos lisos, pele de pêssego…! Devia ter uns 17 anos. Acho que era ‘Ferreira da Silva’, da família dos Coelhos. Não dava bola para ninguém. De vez em quando seu namorado, um rapaz forte e barbudo, motorista de caminhão, vinha buscá-la na porta da escola. É por isso que ela não dava bola e ninguém se atrevia…! Depois da Geny, que não era para o meu bico, tinha a Lourdes… Essa sim eu poderia tentar! Mas Francisco Carlos de Aquino, o “Flor” chegou na frente! Mas não se casaram. Eu só voltei a revê-la muito tempo depois, no inicio dos anos 2000, na porta do velho Hotel da Silvestre Ferraz, quando ela foi visitar seu filho, o “Patinho”! Acho que ela não se lembrou de mim…

Esta esquina traz trágica lembrança, em '83...

Esta esquina traz trágica lembrança, em ’83…

O convívio com os moradores do Aterrado no Grupo Escolar Mons. Jose Paulino e a estreita amizade com um colega de trabalho, me fez perder o medo do Aterrado e de sua gente. Fui percebendo que eram pessoas boas, normais, apesar de viver num bairro sem infraestrutura, sempre lavado pelas enchentes. A mudança da família do Marcos Reolan de Castro, irmão do Tunga, do Cafado, do Bedeu, do “Dila”, meu colega na sorveteria do Ferreira, todos amigos na Rua São Pedro, também contribuiu para acabar com minha fobia de Aterrado!

Quando fui trabalhar na loja do Zezinho Gouveia, conheci o Daniel. Ele era ‘desentupidor de fogão’. Morava no Aterrado, em frente a futura oficina do Celinho Xaxa. Fui algumas vezes à sua casa. Ser amigo de um morador do Aterrado acabou de vez com meu medo de infância. Por isso risquei a avenida e ruelas do bairro com desenvoltura naquela manhã de meados de 73 com minha pesada bicicleta, como se estivesse no quintal de casa. Ainda bem que perdi o medo, porque meses depois chegaram as enchentes. Assim eu poderia nadar no Rio Mandu no meio da garotada do Aterrado!

A ponte era o ‘point’ da juventude… O dia inteiro lotada de nadadores de rio. Piscina era coisa raríssima, coisa de rico! Cada vez que eu descia ao Aterrado para fazer uma entrega, encostava a bicicleta na oficina do Wilson e aproveitava para dar uns mergulhos. Trabalhava de bermuda e chinelos havaianas… Era só tirar a camiseta e disputar com os garotos quem saltava mais alto por sobre o parapeito da ponte! Era diversão gratuita para todas as classes sociais. Quando as águas baixavam, levava embora nossa alegria…

Acampamento cigano, ponto extremo do bairro, antes da Lagoa da Banana atualmente.

Acampamento cigano, ponto extremo do bairro, antes da Lagoa da Banana atualmente.

O inexorável tempo mudou meus hábitos! Levou-me para o exercito, mudou meu emprego, mudou o rio, mudou a ponte, mudou até a natureza… Já não temos enchentes como antigamente!… E nem garotos com aquela coragem!

Voltei a circular pelo velho Aterrado no inicio dos anos 80. Agora muito mais por suas vielas, que aumentara demais nos últimos dez anos. Já não ia levar gás de bicicleta… Ia buscar meliantes na “brasilinha verde” da delegacia! Meliantes de todo tamanho, idade, peso e periculosidade! Vi muita coisa acontecer. Inclusive um colega de trabalho numa poça de lama com seis tiros no rosto, em 83.

... O bairro entre as duas "Diques"...

… O bairro entre as duas “Diques”…

As lembranças do velho Aterrado, no entanto, são mais boas do que ruins. No final dos anos 80 até 92, o velho Aterrado tornou-se meu quintal de casa. Dirigindo a LEPA eu descia a vargem toda semana. Seja acompanhando os jogos que eu promovia, seja participando deles com a camisa do Canarinho, do América, do Olaria… Nos campos do antigo Madureira do Niquinho, do Santamaría do João cavalo, do Internacional do Zé Resende e Zé Nascimento, do Bangu do Boi, do Ditão. Hoje só resta o campo do Bangu.

No bairro que me causava pavor minha infância eu agora realizava os mais ferrenhos clássicos do futebol amador de Pouso Alegre. Até finais de campeonatos, sem policiamento, com o campo cercado apenas por uma corda e às vezes nem isso, sem tumultos. Invasão de campo, apenas os cavalos mansos de carroça do octogenário Sr. Geraldo Eleutério, de vez em quando!

Cada bairro de Pouso Alegre tem uma origem. O N.S.Aparecida já chegou a ser chamado de Bairros dos Coutinhos. O Santo Antonio foi ‘colonizado’ pelos ‘imigrantes’ dos Afonsos, Cervo, Cantagalo. As pessoas que deixaram a zona rural do Pantâno, Cajuru, Anhumas, Imbuia se estabeleceram no Jardim Noronha, São João e Jardim Yara. O velho Aterrado acolheu os oriundos dos bairros do Sitio, Vitorino e Água Quente. Daí talvez a fama de bairro violento, devido à personalidade forte dos antigos moradores daquelas paragens do município de Silvianopolis. Não que fossem violentos, mas eram pessoas muito corretas, de estopim curto, que sempre levavam na cinta uma peixeira. Como não eram bons de conversa, logo punham fim à discussão exibindo a ‘lapiana’. Eram pessoas que resolviam seus negócios na base do “fio do bigode”…

Entrada do bairro hoje...

Entrada do bairro hoje…

Os crimes que aconteciam no bairro há 40 anos, no entanto eram crimes de honra. As gerações mais novas desvirtuaram essa personalidade e o bairro ficou mal afamado. Com o crescimento da cidade e principalmente a proliferação das drogas, o velho Aterrado ganhou status de bairro mais violento de P. Alegre. É o bairro que concentra a maioria das “bocas de fumo” e “biqueiras” de drogas! É onde “formiguinhas” do trafico disputam palmo a palmo com as formiguinhas saúvas o mesmo espaço! A população decente, ordeira e trabalhadora do bairro, que naturalmente é a imensa maioria, é quem paga o pato por isso…

Ah, velho Aterrado, como você cresceu! Antes era apenas a avenida empoeirada, ora estreita, ora larga e as travessas do Rolica, travessa Abrão, travessa do Bangu, travessa Cordeiro Olímpio, Rua Oscar Dantas, Padre Natalino, Aristeu Rios… Depois vieram as ruas Osvaldo Mendonça, Maria Porfiria de Abreu, Luiz Prudenciano Alves, Roberto Ramos de Oliveira, João Sabino de Azevedo, Sapucaí, Antônio Pereira Sobrinho, Daniel Paulino dos Santos e outras tantas ruas e vielas. Agora até a Rua Nova ficou velha!!!

A famosa Lagoa da Banana, onde a prefeitura poderia construir  "cidade administrativa"! Ha pouco mais de um ano ainda tinha água...

A famosa Lagoa da Banana, onde a prefeitura poderia construir a “cidade administrativa”! Ha pouco mais de um ano ainda tinha água…

... Hoje virou mato!

… Hoje virou mato!

A Avenida Dique II à Oeste do bairro, que depois de uma década parece que vai sair do papel – no momento está no centro da briga politica entre governo federal e estadual, orquestrada pela prefeitura que embargou sua inauguração – deve contribuir entre outras coisas, para a melhora da qualidade de vida dos moradores do bairro São Geraldo.

Neste lixão da Rua Daniel Paulino dos Santos, moram varias pessoas!  Atravessando o Rio Mandu, a menos de 100 metros dali, está a famosa Avenida Perimetral, de frente para o Bretas, a poucos metros do centro da cidade..!

Neste lixão da Rua Daniel Paulino dos Santos, moram varias pessoas! Atravessando o Rio Mandu, a menos de 100 metros dali, está a famosa Avenida Perimetral, de frente para o Bretas, a poucos metros do centro da cidade..!

Uma outra avenida à leste, partindo da perimetral, passando nos fundos da Rua Nova, lagoa da banana, desembocando atrás do Estádio Manduzão, levaria infraestrutura e melhoraria muito a vida do sofrido, porém orgulhoso, morador do Aterrado. Em 2004 sugeri a construção dessa avenida e do “Parque Administrativo da Prefeitura” na ilha da “Lagoa da Banana”, concentrando ali todos os órgãos do poder executivo do município. Se o desenvolvimento chegasse àquela região da cidade, além de facilitar a vida dos moradores, tiraria o espaço dos meliantes que usam aquela área para ludibriar a policia. Seria muito mais fácil combater o trafico formiguinha por ali. Minha sugestão foi natimorta: entrou por um ouvido e saiu pelo outro! É apenas um sonho… Mas bem que o povo do sofrido Aterrado merece!

... A 'nova' ponte sobre o velho Mandu.

… A ‘nova’ ponte sobre o velho Mandu.

 

 

O buraco da Avenida Levino Ribeiro do Couto

Você meu estimado leitor sabe onde fica a Avenida Levino Ribeiro do Couto?

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Ela liga o Terminal Rodoviário à famosa Avenida Dr. Lisboa! Bem no coração de Pouso Alegre…

Ainda bem que coração é no sentido figurado, pois se fosse no literal a bela avenida já teria morrido!

Veja o tamanho da valeta na beira da avenida!

Só não caí no buraco ao fazer a baliza, porque o espaço era pequeno e quando senti que o carro ia afundar, mudei a manobra. Mas outros motoristas não tiveram mesma sorte.

Um feirante que estaciona seu carro ali todo fim de semana, disse que a valeta já fez três aniversários!

Algumas senhoras que voltavam da feira com suas sacolas de verduras, aproveitaram para esconjurar o prefeito… Coitado!

Ele não tem culpa! Ele não pode sair pela cidade procurando buracos para tapar, não é? Isso é tarefa de seus comandados! Ou talvez dos vereadores…

Mas eles tem tanta coisa mais importante para fazer do que tapar buracos!

Bem, eu como bom cidadão pousoalegrense que sou, vou dar minha contribuição para tapar o buraco da Avenida Levino Ribeiro do Couto… Vou mostrá-lo aqui no blog para que o prefeito saiba que ele existe!

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No entanto, como acho pouco provável que o digníssimo alcaide perca tempo acessando o Blog do Airton Chips, peço a você leitor, que faça com que ele fique sabendo do buraco… E tome uma providencia!

Ainda que ele não esteja preocupado com a probabilidade de cair com seu carro no aludido buraco, os seus munícipes estão! E quando caem ou quando simplesmente passam por ali e veem o buraco, logo se lembram dele…

– Olha que vergonha o buraco do prefeito…! – Comentam os motoristas e transeuntes.

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Alguns mais estressados não se limitam a fazer piadinhas cacófonas sobre o buraco do prefeito, desculpe, da Avenida Levino Ribeiro do Couto… Soltam os cachorros nele e na sua administração. Aliás, uma injustiça! pois ele não pode procurar e tapar pessoalmente todos os buracos da cidade – que diga de passagem, são muitos!

É por isso que estou postando o buraco aqui, para que o prefeito saiba e mande tapá-lo…

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O primeiro indigente no Rio Sapucaí

Quando chegamos para o ultimo estagio antes da posse e de receber a carteira de policia, o perito Tiãozinho já estava na porta da DP com o Fiat 147 ligado esperando o colega Jadir…

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– Nós vamos recolher um ‘presunto’ perto de Bela Vista! Querem ir com a gente! – Perguntou Tiãozinho, com o bom humor de sempre.

E lá fomos nós pela Fernão Dias… Tiãozinho ao volante e o obeso Jadir e seu imenso bigode e uma tremenda cara de ressaca, com o braço apoiado na janela do Fiat, relembrando seus casos engraçados, sem abrir o sorriso. Aliás, Tiãozinho e Jadir, um ao lado do outro eram os opostos… Tiãozinho – só no nome! – era alto, forte, atlético boa pinta, conversava sorrindo! Apesar de inteligente e muito competente no que fazia, há muito parara de estudar. Estava satisfeito com o cargo de perito ‘ad-hoc’ que ocupava – pois era detetive por formação – e se aposentaria em poucos anos. Jadir era gordo, atarracado, barriga saliente… Seu bigode quase fazendo chifrinho daria para fazer sua própria peruca se ele fosse careca! Trazia no rosto uma expressão sempre séria, de ressaca! Contava piadas sem dar risadas. Tinha fama de ser um dos peritos mais ‘científicos’ e competentes da policia civil na época. Mulhereeeeengo que só ele! Era perito, fez Direito e se tornou delegado. Seu casal de filhos seguiu seus passos. A filha se tornou perita e o filho delegado!

O plantão era do Jadir, mas Tiãozinho, solteirão, prestes a se aposentar, morando no ‘canil’ da Delegacia, sem um passarinho sequer para tratar, não tinha nada melhor para fazer. Seu único compromisso naquele sábado ensolarado e quente era abraçar umas loiras… geladas, acariciar Severina do Popote para abrir o apetite e almoçar. Não importava onde! O importante era a companhia! O amigo Jadir – amizade daquelas de entrar em casa e ir direto pra cozinha fazer comida na casa um do outro, coisa cada vez mais rara entre policiais hoje em dia – certamente era ótima companhia! Aliás, eles já tinham um compromisso, que o leitor verá adiante! Atrás de nós seguia a Kombi fúnebre da funerária, salvo engano, N.S.Aparecida!

Logo que passamos o trevinho de São Sebastião da Bela Vista, na ultima saída antes do Porto São João, um pescador nos esperava…

Para continuar lendo esta historia, acesse “www.meninosquevicrescer.com.br”.

 

 

Minutos de Sabedoria…

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“A cooperação é uma das coisas mais sublimes da vida… A interferência é um das mais desagradáveis!

Ajude sem interferir.

Não imponha seu ponto de vista quando ajudar alguém.

A cooperação ajuda. A interferência atrapalha.

Não temos o direto de interferir na vida de ninguém.

Então coopere com todos sem interferir na sua maneira especial de agir e de pensar”.

 

Tenham todos uma iluminada semana de ano novo!

Carreta de ‘cabotiã’ ‘cambotiô’ na Fernão Dias e me impediu de atualizar o blog…

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Quando o sol colocou os bigodes para fora na manhã desta segunda, 16, deixei a capital. O transito fluía às mil maravilhas até que de repente, a dois quilômetros do trevo de Oliveira… Empacou! Duas imensas filas se formaram em questão de minutos. Enquanto esperávamos desconsolados, cada um fazendo uma coisa; uns jogando conversa fora, outros xingando, outros ouvindo musica, outros aproveitando para ‘regar’ sem pudor a grama à margem da via, outros lendo – eu quase acabei de ler “Em busca da Espiritualidade” de James Van Praagh – outros tentavam buscar informações e especulavam.

– Vamos passar a manhã toda aqui… – Dizia um.

– Parece que houve uma batida na curva do trevo de Oliveira … – Dizia outro

– O socorrista disse que foi uma carreta que tombou… A carga está espalhada na pista – informava um terceiro…

Saber o que e onde aconteceu não resolveria nossos problemas. Nenhum de nós iria desimpedir a pista. O jeito era esperar. A única coisa que podíamos fazer era… Mudar nossos planos! Duas horas depois o transito começou se mover a passos de tartaruga… de muletas!

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Depois de três quilômetros contando cada coqueiro, cada garrote nelore ou vaquinha crioula, cada cabritinha e cada galinha que víamos pela janela, dada a velocidade que trafegávamos, finalmente avistamos o ‘sinistro’ na curva da Fazenda Curral de Minas. Na verdade avistamos antes as consequências do sinistro… Dezenas de pessoas carregando de uma de, duas, de três e até de sacos de abobora ‘cabotiã’…!

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A carreta basculante havia ‘cambotiado’ justamente na entrada da ponte, onde não há acostamento, impedindo totalmente a passagem de quem descia capital para o sul. Um guincho da concessionaria havia empurrado provisoriamente a carreta para um canto permitindo a passagem de ao menos de um carro por vez, mas as milhares de aboboras japonesas precisavam de centenas de pessoas para retirá-las da pista. Os funcionários da concessionaria nem se importaram com o ‘saque’…! Quando chegamos à Delegacia Regional de Pouso Alegre o Taxi do Magaiver já havia partido lotado de passageiros com destino a Santa Rita do Sapucaí, Extrema e Bueno Brandão.

Por causa da cambota da carreta de ‘cabotiã chegamos tarde e perdemos os detalhes dos BOs do fim de semana…!

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Garotinho de 7 anos pode ser preso por sequestro e extorsão…

Quando viu o pequeno presépio e as arvores e enfeites natalinos prontos para receber o menino Jesus, o garotinho Wandergleydson – há fundada suspeita, ainda não confirmada, de que seja um torcedor do Timão – resolveu escrever a tradicional cartinha para o Papai Noel pedindo uma bicicleta. E começou assim…

– Querido Papai Nuel, fui um otimu minino eçi ano… ajudei meu pai, minha main e até meu irmãuzinhu… Quero ganhar uma bicicreta!

Depois de um minuto de exame de consciência, o garotinho pensou consigo mesmo…

-“Ele num vai acreditá nimim! Vô refazê a carta…” – e começou de novo.

– Papai Nuel, acho qi num fui muito bão eçi ano, mais axu qi mesmo açim meressu uma bicicreta…

Quando foi colocar a cartinha debaixo da arvore, ele parou, pensou outra vez e concluiu que talvez não tenha feito jus ao presente que estava pedindo. E decidiu tomar outra atitude! Embolou a cartinha, jogou num canto da sala, foi até o presépio, pegou a solene imagem de Maria ao lado de Jose, colocou dentro do sapato e escreveu o seguinte:

– Jesuis, se liga na parada aí, meu… Tô com tua mãe, firmeza mano? A treta é a seguinte… Se quisé vê a tua véia dinovu, manda o véio da carroça cos viado mim dá uma magrela novinha… cinão o bicho vai pegá pro lado da coroa, morou brodi…!?

Note que Maria não está ao lado de Jose...

Note que Maria não está ao lado de Jose…

O BO de extorsão e ameaça foi registrado no 5º DP do Carandirú e está sendo investigado pela Delegacia Especializada em Crimes Natalinos Infantis. Até o momento, nem o pré-meliante – suspeita-se que ele ainda use fraldas e chupe bico amarelo da Lillo escondido dos amiguinhos da rua – nem o cativeiro da mae de Jesus foram localizados…

*Fonte desta informação: Chefia do cartório da 13ª DRPC/E.K.Noveli

Simplorio & Finorio vendem bilhete premiado em Pouso Alegre

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Seu Juca, 61 anos, morador lá das bandas da serra de Espirito Santo do Dourado, conheceu Simplório no final da manhã desta segunda, 25. Cruzava ele a Herculano Cobra com Adolfo Olinto, na esquina do correio, saindo da casa lotérica, quando Simplório, moreno claro, baixo, gordo, com aparência de baiano, cerca de 40 anos se aproximou e puxou prosa com ar humiiilllde, quase santo…

– Seu moço, será que o sr. pode me ajudá? Eu tô com um bilhete de loteria aqui na ‘gibeira’, minha mulé falou que tá premiado… O sr. conhece por aqui uma casa lotérica que possa confirmar isso pra mim…?

Antes que o agricultor, plantador de banana, moço bom e honrado, dissesse alguma palavra, apareceu Finório…! Sujeito maduro, alto, claro, bem vestido, boa prosa. Foi logo se desculpando por entrar na conversa…

– Desculpe senhores, eu não pude deixar de ouvir a conversa de vocês… O sr. disse que tem um bilhete premiado? Pelo amor de Deus, fala baixo… Essa cidade está cheia de ladrões! Se alguém escuta isso toma o bilhete do sr.! Chega pra cá… Eu sou cambista, deixa eu conferir…

E foi logo abrindo uma maletinha que trazia consigo, tirando um pacote de bilhetes, impressos de loteria, anotações e sem dar tempo a Simplório e a Juca,  pegou um folheto e emendou…

– Está aqui, este são os últimos números sorteados da Quina… vamos conferir… Seu Juca, por favor, eu digo os números que deu e o sr. confere no bilhete do Simplório… Anota aí… 24… 47… 13… 31 e…50…

Simplório com os olhos grudados no papel na mão do plantador de bananas solta um grito e imediatamente tapa a boca com a mão…

– A Maria tinha, razão, tô rico… Agora ‘vamo’ ‘pode’ compra nossa casinha! Vou trocá a bicicleta…

– Pela amor de Deus, disfarça Sr. Simplório! Quer ser assaltado antes de receber o premio? Eu vou ajuda-lo a receber… Vou leva-lo à agencia da Caixa Econômica Federal antes que alguém tome o seu bilhete… O sr. está com os documentos aí, Rg, CPF, comprovante de residência, carteira de trabalho, cartão do sus, reservista, batistério, declaração de renda, carteira de sócio-torcedor do flamengo…  O sr. vai ter que abrir conta para receber esse premio!

– Ixi… Danô! Eu não tenho nada disso aqui não, sô.

– Olha eu posso ajudar o sr. a receber esse premio, deixe ver… – consulta seus folhetos! – Deve dar uns 300 mil, mas eu quero 10% ! – propõe Finório.

– Topá eu topo seu Finório, mas eu tenho que dá uma gorjeta pro moço aqui também, porque ele tava me ajudando primeiro quando o sr. chegô… – retruca Simplório quase ofendido.

– Concordo, nada mais justo… Então o sr. pega dez por cento de 300 mil e reparte pra nóis dois. Está bom assim pra voce sr. Juca?

Para o agricultor da “Praia” estava ótimo. Ele estava apenas passando por ali. Ganhar 15 mil reais sem fazer força era bom demais! Ele precisaria de duas Toyotas Bandeirantes lotadas de banana para ganhar 15 mil…!

– Mas como que a gente faz, seu Finório…? Quis saber simplório.

– Nós vamos à Caixa, recebo o premio na minha conta, saco e passo para o sr. descontando a minha parte…

– Mas que garantia que eu tenho…?

Antes que completasse a frase desconfiada, Finório emendou

– Vamos fazer o seguinte… Como prova de confiança, cada um de nós vai deixar os 15 mil reais com o Sr…. Eu tenho quase vinte mil reais aqui na maleta, que eu estava indo ao banco depositar – Completou Finório abrindo a maletinha e mostrando um gordo pacote de notas de cem reais. Virando para Juca ele pergunta;

– O sr. também tem os quinze mil para deixar com ele como prova de confiança?

Neste momento o plantador de banana que até então praticamente não abrira a boca, pois Finório não parava de falar, soltou a voz desanimado…

– Eu só tenho 750 reais na algibeira…

– Ah então não tem jeito, eu ajudo o sr. receber seu premio mas eu fico com os 30 mil de gorjeta..!

Antes que Juca dissesse qualquer coisa, Simplório indagou;

– Eu queria dar a gorjeta para o sr. também… O sr.não tem um dinheiro no banco, alguém que pode emprestar os 15 mil…

Alziro coçou a cabeça, pensou na bufunfa que estava escapando pelo vão dos dedos e falou…

– Bem, no banco eu tenho uns 5, tenho umas contas de banana para receber de clientes, mas não dá 15 mil…

Finório imediatamente enfia a colher na conversa…

– Tudo bem… Então vamos ao banco sacar este dinheiro! Vamos tomar cuidado com ladrões e vigaristas!

E foram.

Depois de limpar a conta no banco do Brasil, os três seguiram no carro do Finório, um Honda Civic prata, pela cidade, em busca dos clientes que deviam bananas para o sr. Juca. No Jardim Noronha ele recebeu uma divida de 4 mil reais, totalizando R$ 9.750. Colocaram o dinheiro do agricultor junto com o pacote de dinheiro do Finório numa bolsa que Simplório levava e seguiram para a Caixa Econômica onde iriam receber o premio da Quina, de 300 mil reais.

Toda a ‘operação’ para arrecadar o dinheiro, “prova de confiança”, durou cerca de duas horas. Finório, Simplório e Juca já haviam se tornado ‘velhos amigos’! Ao passar defronte uma farmácia na Silviano Brandão, Simplório passou mal! Parece que teve uma queda de pressão ou algo parecido! Ainda bem que estavam em frente a farmácia. Só tinha um problema! Não havia como estacionar…!

– Por favor seu Juca, pega um remédio ali pra mim. Eu sempre tenho isso… Tenho que colocar embaixo da língua senão o coração paraaaaiiiii… – disse Simplório entregando uma cartela vazia com o nome do medicamento e ‘desmaiando’ no banco traseiro do Honda Civic!

Juca entrou na farmácia e saiu rapidamente com o remédio na mão!

Mas cadê o Honda?

Juca olhou pra lá, olhou pra cá, olhou pra cima, pra baixo, foi até a esquina! Chegou a perguntar a um transeunte se não tinha visto um Honda Civic prata! Demorou alguns minutos para Juca ‘cair na real’… Para deixar ‘cair a ficha’… Para se dar conta de que havia caído no ‘conto do vigario’…! Mesmo assim, ora com um frio na espinha ora com o sangue fervendo nas veias, de raiva, ele ainda andou mais meia hora nas imediações da farmácia na esperança de avistar o Honda. Na esperança de ver Simplório desmaiado numa sombra qualquer segurando a bolsa com seus 9.750 reais…! Somente duas horas depois ele se aninou a procurar a policia para contar o fato. A esta altura Simplório & Finório deviam estar saboreando um rodizio regado a Casillero Del Diablo safra 2007, numa churrascaria qualquer da Fernão Dias próximo à Atibaia…

O diálogo e nome do personagem desta historia são fictícios. Foram criados com base em experiencias anteriores. Até porque, as vitimas morrem de vergonha de admitir que foram tão ingênuas. E contam pela metade ou inventam historias. O nosso “Juca” por exemplo contou para os familiares que foi assaltado, com arma e tudo, dentro do banco! – Não é mesmo, Jesus?

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O personagem, sua atividade laborativa, sua procedência  e os valores no entanto são reais. O produtor de bananas da “Praia” caiu mesmo no famigerado “Conto do Vigário” na segunda passada. Entregou de bandeja quase dez mil reais à famosa dupla. Simplório, o moço sempre de meia idade pra cima, que finge de pobre coitado e pede ajuda para receber o premio de loteria, pois não tem conta em banco, e Finório, o boa pinta, boa praça, boa prosa que oferece ajuda, foram batizados com este nome lá nos tempos de vovó de vestidinho chita… O golpe é muito velho. Mas tem vitimas novas todo dia!

Para cair no “conto do vigário” não precisa ser plantador de banana da Praia, aposentado do ‘Inamps’ ou costureira de subúrbio. Basta dar trela para Simplório & Finório. Eles conseguem até tirar leite de cavalo sem tirar o peão da sela!

Em Pouso Alegre já caíram no golpe ofice-boy, professora, policial aposentado, advogada… Teve até um distinta agiota da ‘high Society’. Ela foi aborda na porta da igreja de Fátima e conseguiu uma façanha! Entregou três mil reais que tinha em casa e foi ao banco na companhia da dupla e fez um empréstimo de 25 mil… Ela queria comprar o bilhete inteiro de 250 mil por 30 e ainda conseguiu um ‘desconto’! E depois queria me processar por causa das perguntas que eu fiz a ela!

Enfim…! Qualquer pessoa que cresça os olhos numa ‘graninha extra sem suar a camisa’ poderá cair no Conto do Vigário! Basta cruzar por aí com a famosa dupla Simplório & Finório!