A batalha de Itamonte…

Batalha de Itamonte

“Na sexta-feira, por volta das 18h30, fomos convocados (todos os policiais civis da DRPC de São Lourenço) a comparecer na DP imediatamente.  Ato contínuo, o Dr. João, chefe do 17 Departamento de Pouso Alegre indicou que deveríamos ir até a Seccional de Cruzeiro/SP para o briefing do que estava para acontecer.
Descemos para Cruzeiro/SP: eu, o Dr. Felipe Piccin, Dr. Bruno Cunha e os Investigadores Rodrigo e Maviel. No caminho fizemos contato com alguns Investigadores da DIG de Cruzeiro/SP que sempre nos dão apoio e os mesmos não sabiam de nada. Chegamos na Seccional da PC-SP em Cruzeiro acompanhados dos policiais civis da DIG Cruzeiro/SP. Na Seccional nenhum Delegado (nem o próprio Seccional) ou os policiais sabiam o que estava acontecendo.

Após cerca de meia hora chegaram cerca de 8 viaturas descaracterizadas do DEIC/SP (Capital), estando presente o Divisional (Delegado chefe do DEIC) e o titular da DP de Roubo a Bancos de São Paulo.

Não vem ao caso repassar informações sobre o briefing mas, em suma, após alguns momentos ali compareceram mais umas 8 equipes do GARRA da Capital/SP e 1 unidade do GER da PC-SP com 8 snipers e policiais de contenção.

As informações davam conta de uma quadrilha de roubo a bancos (explosões de caixas) com cerca de 25 integrantes. Haviam sido identificados 5 fuzis AK-47, 1 fuzil HK-G3, 2 fuzis Colt AR-15, escopetas, pistolas e granadas.

Não repassarei os pormenores das informações que estavam sendo repassadas, mas todo o serviço de inteligência estava a cargo do DEIC, em São Paulo-CP. E a inteligência funcionou perfeitamente.
Os alvos poderiam ser Itanhandu ou Itamonte. – E depois outras cidades da região.
O Dr Bruno Cunha acompanhou uma outra equipe, restando à nossa equipe (eu, Dr. Felipe Piccin e 2 investigadores de São Lourenço) posicionarmos o GER (Snipers) e o GARRA (contenção) na Praça Central de Itamonte e, posteriormente, posicionarmo-nos na rodovia acompanhados de 4 equipes do DEIC/SP no intuito de coibir uma possível fuga. Equipes posicionadas, conseguimos que mais uma equipe da DRPC de São Lourenço, comandada pelo Dr. Márcio Ciarini, se agrupasse conosco. Aguardávamos às margens da rodovia, escondidos na escuridão, com informações em tempo real da Inteligência da PC-SP.
Por volta das 2h00 um comboio furou o radar próximo e passou no sentido do centro de Itamonte em alta velocidade. Conseguimos ver perfeitamente: um caminhão baú, um Fiat Palio Weekend prata, uma Ford Ecosport prata, um Honda Civic preto e um Renault Duster branco, todos com as placas cobertas por plástico.
Adrenalina a mil, pois tínhamos o elemento surpresa! Repassamos as informações às equipes da região central de Itamonte. Passaram-se eternos 2 ou 3 minutos e, no rádio, recebemos as informações de que já haviam 3 ou 4 mortos, um policial ferido, e intensa troca de tiros…
Paramos uma carreta que vinha pela rodovia e a atravessamos na pista para auxiliar no bloqueio. Após algum tempo o Renault Duster veio em nossa direção. Parou há aproximadamente 30 metros com os faróis acesos. O motorista desceu já efetuando rajadas de fuzil, enquanto o carona portava uma pistola. Conseguimos neutralizar o carona, mas o motorista fugiu para um matagal próximo.
Enquanto discutíamos sobre entrar ou não no matagal onde o motorista havia se escondido aproximamo-nos do veículo, perdendo nossa barricada, que eram as viaturas e a carreta. No veículo pudemos perceber que o carona havia sido morto, portava uma pistola, usava colete balístico, havia mais uma pistola caída no chão do carro, e muita, mas muita munição para todos os lados.
Neste momento, um outro veículo se aproximou com os faróis altos. Abaixamo-nos próximo ao Renault Duster, mas estávamos sem qualquer barricada. O veículo passou em baixa velocidade em direção à carreta e as viaturas que encontravam-se com as luzes de sinalização ativadas, retornou e lentamente veio em nossa direção. Nossa única alternativa foi esperar.
Quando o veículo se aproximou nos identificamos como policiais e determinamos que o condutor parasse o carro. Como todos aqui certamente já fizeram diversas vezes. Estávamos – cerca de 25 policiais – distantes de 5 a 15 metros de distância do carro. Agachados às margens da rodovia sem qualquer proteção…  A resposta que obtivemos: tiro, tiro, tiro, muito tiro. Eu me lembro de cada segundo, só não posso dizer quando conseguirei esquecer as imagens e os sons!

Posso afirmar categoricamente que foram os mais longos e piores 30 ou 40 segundos da minha vida. Eu estava há aproximadamente 8 ou 9 metros do carro, o Dr. Felipe estava mais próximo do que eu e não sei dizer onde o Dr. Márcio estava… Muito tiro. Muito perto…!
Pude visualizar o motorista descer e tentar correr efetuando disparos em nossa direção. O carona estava com um colete balístico operacional, touca ninja preta e um AR-15 baby. O passageiro do banco de trás eu não consegui visualizar.

Resumindo: o motorista foi neutralizado. O carona foi neutralizado com um disparo na cabeça e morreu abraçado ao AR-15 – cena de filme! – O passageiro do banco de trás foi neutralizado com um disparo na cabeça, mas, após o cessar fogo, pudemos perceber que o mesmo portava dois carregadores de fuzil, uma pistola e estava de colete balístico.

Reagrupamos e retornamos à barricada. Apenas o Dr. Felipe Piccin havia sido ferido por um estilhaço abaixo do olho direito, mas nada grave.
Em nosso cenário: 4 criminosos neutralizados e 1 fuzil, 3 pistolas, 3 coletes balísticos e vários pés-de-cabra apreendidos. 1 foragido.

Nunca poderei dizer em quantas coisas consegui pensar naqueles poucos segundos em que eu estava deitado, costas ao solo, visualizando os caras apontando fuzil, pistola e disparando em nossa direção a 6, 7, 8 metros de distância! Sei lá,  mais de 200 ou 300 tiros em 30 segundos!
Pensei muito em ficar vivo. Pensei em neutralizá-los o mais rápido possível. Sempre gostei do trabalho operacional, nunca imaginei que fosse querer tanto que aquilo ali acabasse logo. É tenso. Escutei um disparo estilhaçar um tronco de árvore uns 50cm acima da minha cabeça… onde eu estava deitado!
Pode parecer brincadeira, mas depois que acabou, ainda me refazendo de tudo que havia acontecido ali, eu pensei em todas as vezes em que saí para cumprir Mandados de Busca e de Prisão e outros policiais zombaram:

-“qual é, vai pra guerra?”,

-“pra que levar isso tudo de coisa?” ou

– “tá parecendo o Rambo!”.
Pensei nas vezes em que viajei pra BH, 450Km pra ir e depois 450Km pra voltar, sem diária, sem lugar pra dormir – bate e volta -, ia na Superintendência, não havia um Delegado de Polícia que tivesse a dignidade de nos receber e eu era obrigado a ouvir de um tal de “M….”, que eu nunca ouvi falar que tenha prendido alguém, que não tinha nada pra dar não. Não tem munição, não tem colete, não tem arma! Como se estivesse me fazendo um favor. Quantas vezes supliquei e saí dali com míseras 50 munições como se estivesse cometendo um crime. Era o nosso “cala a boca”. Era o que o “M…….” (???) tinha para nos fazer parar de encher…
Pensei no dia – e me lembro muito bem de cada palavra – em que Policiais da Superintendência foram até a Delegacia Regional de Itajubá, onde trabalhávamos eu e o Dr. Felipe Piccin – ele me persegue! – e nos determinaram que entregássemos nossas pistolas, pois cada policial:

– “só tem o direito de ter uma arma”.

Ao serem questionados pelo Dr. Felipe Piccin se nunca haviam ouvido falar que em confrontos sempre existe a necessidade de portar-se uma arma backup os mesmos limitaram-se a dar uma risadinha. Entregamos nossas pistolas backup!
No confronto o Dr. Felipe Piccin foi lesionado por um estilhaço de projétil abaixo do olho direito. Vocês podem achar que eu estou brincando, mas a pistola dele teve uma pane em dupla alimentação. Eu não vi na hora, só fiquei sabendo depois. Ele não portava arma longa.
Eu juro que se o Dr. Felipe fosse morto ali e posteriormente restasse comprovado que sua arma apresentara pane de alimentação, estando o mesmo sem backup, eu iria até a Superintendência…!!!
Bom, não vem ao caso entrar agora nesta discussão.
Reabrigamos e após algum tempo chegaram nossas viaturas de reforço.
Cerca de 40 minutos depois chegou a PRF e teve o absurdo trabalho de sinalizar a rodovia.
Chegaram umas 10 viaturas da PM. Não posso dizer que eles não estiveram no local do confronto. Estiveram. Uma hora depois e para tirar fotos e nos cumprimentarem de boca aberta.
Fomos até o centro de Itamonte para verificar o que havia ocorrido no local.
Na Praça Central e proximidades os Snipers e a contenção conseguiram neutralizar 5 indivíduos. Outros dois foram alvejados e socorridos. Alguns evadiram-se.
Foram apreendidos 3 fuzis, 2 escopetas calibre .12 (sendo uma semi-automática) e diversas pistolas e revólveres (não contei). Todos os criminosos estavam de colete balístico. Muita dinamite e vários pés-de-cabra.
Um indivíduo que havia sido alvejado contou que eram cerca de 15 indivíduos apenas no caminhão.

Na praça, cujo centro estava isolado, a população se aglomerou. Fomos saudados e aplaudidos.
Quando saíamos da área de isolamento conseguíamos dar poucos passos sem ser cumprimentados com largos sorrisos de sincero agradecimento.

 

Ah, sim… A Polícia Militar chegou à praça e, depois, começou a sobrevoar um helicóptero deles. Eles estavam com uma cara de mau que dava até medo!
Eu olhei para o helicóptero, pensei naqueles infernais segundos que havia passado poucas horas antes e comentei com um Investigador ao meu lado:

– Poxa, bem que eles poderiam amarrar uma faixa no helicóptero com os dizeres: “Obrigado Polícia Civil!”.

O investigador riu e me sussurrou:

-… Eles ainda vão sair na televisão dando entrevista… Duvida?
Ainda bem que eu não duvidei.
Bom, aqueles grupos da elite da PC-SP que inicialmente estavam meio de ‘narizinho em pé’ conosco ao final já estavam até nos admirando. Gostaram de ver como, com tão pouco, em nenhum momento nós trememos. Fomos elogiados e enaltecidos. Falar que não dá medo é mentira. Quem não sentir medo em uma situação daquela merece estar morto.

Apenas para finalizar:
1. Os jornalistas deturparam os fatos em todas as matérias e em todos os meios de comunicação.
2. A Polícia Militar não participou de nada. Nada, nada, nada, nada. Levantem a cabeça para qualquer PM pois eles não suportam perceber o quanto somos foda.

3. Chefia não é tudo, mas é muito, muito mesmo. Nosso chefe de Departamento Dr. João Eusébio esteve presente em Itamonte, depois em São Lourenço. Abraçou a causa e nos deu total suporte para tranquilizarmo-nos em face da ação legítima.
Treinem bastante! O confronto acontece em segundos e, embora alguns textos por aqui postados sobre a formação do criminoso, o quão eles são coitadinhos, blá, blá, blá, não duvide: eles querem te matar.
Não adianta identificar-se como policial e determinar-lhes que se coloquem em posição de busca. Eles não conseguem escutar quando estão efetuando rajadas de fuzil tentando acertar a sua cabeça.
A Polícia Civil de Minas Gerais têm muito que melhorar, tanto em técnicas de combate quanto em material! Mas não ficamos abaixo de ninguém em coragem e bravura!
A próxima vez que eu escutar de um administrativo que não irá me depositar uma arma ou munições ou o equipamento que for porque EU não preciso daquilo eu espero muito que ele tenha um argumento bem forte.

Não é pelo dinheiro dos bancos preservado. Nada paga você virar uma noite em claro, situações de confronto, corpos caídos pela praça e Senhoras de 50 ou 60 anos agradecidas virem até você às 5h ou 6h da manhã com um sorriso no rosto e garrafas de café com biscoitinhos.
Ser polícia é foda! Ser policia é ser herói…!
Força e honra a todos que diuturnamente se expõe com um ou dois companheiros cumprindo MBA’s ou Mandados de Prisão no meio de favelas, matagais e etc sem o mínimo de equipamento necessário.

* Ah, peço desculpas por palavras mais rudes! Não é meu estilo… Mas a ocasião é excepcional.

Fiquem com Deus.

 

Policia civil de Pouso Alegre acaba com a farra dos ladrões de banco em Itamonte

A cidadezinha de Itamonte, no alto da serra da Mantiqueira, caminho natural dos mineiros do Circuito das Aguas para o Vale do Paraíba e Rio de Janeiro, foi sacudida por bombas e rajadas de metralhadoras na madrugada deste sábado, 22. Primeiro vieram as bombas dos bandidos estourando caixas eletrônicos de dois bancos na cidade. Em seguida e veio a artilharia das policias mineira e paulista, pegando os bandidos de surpresa. Durante alguns minutos a cidadezinha serrana de quinze mil habitantes foi palco de uma acirrada batalha entre ‘bandidos & mocinhos’! Sabendo de antemão que o próximo alvo da quadrilha de assaltantes de caixa eletrônicos seria a pacata cidade cortada pela BR 354, os policiais comandados pelo delegado-chefe do Departamento de Pouso Alegre, João Eusébio Cruz, foram para o local dar as boas vindas. Eram cerca de 60 policiais civis de São Lourenço, Itajubá e Pouso Alegre, cidades que compõem o 17º D.P.C., cerca de 40 policiais do DEIC de São Paulo e uma dúzia de patrulheiros da PRF que fechou na BR 354 e demais acessos à micro região. Os bandidos armados de pistolas e metralhadoras, usando coletes à prova de balas e alguns com luvas e capuz, chegaram à cidade onde se faz o ‘blend’ da deliciosa cachaça “Casa dos Ventos” por volta de duas da manha e imediatamente entraram em ação. Eles eram quinze em cinco carros roubados, a maioria de São Paulo, outros de Arujá e um da vizinha Itanhandu. Os bandidos só não contavam com a calorosa recepção dos homens da lei.

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Eles vinham sendo investigados pelas duas policiais desde 2012. Desde então o Sul de Minas já havia registrado mais de 70 assaltos deste gênero. A grande maioria em cidades de menos de 20 mil habitantes, embora Pouso Alegre – 140 mil – tenha recebido duas visitas no ano passado! Uma numa empresa do Distrito Industrial e outra a um caixa do Itau na porta da Univás, a trinta metros de um posto policial inoperante naquela madrugada.

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Embora os bandidos usassem coletes à prova de balas, quatro deles morreram na porta do banco com o caixa em frangalhos. Alguns sequer tiveram tempo de abrir fogo… Morreram abraçados à suas perigosas metralhadoras. Os dois médicos legistas do IML da estancia hidro-mineral de São Lourenço, para onde os corpos foram levados tiveram muito trabalho neste sábado…!itamonte

Apesar de serem esperados pelas dezenas de policiais alguns assaltantes conseguiram furar o cerco e fugir. A policia militar entrou em cena depois do tiroteio e saiu na captura dos fujões. Um dos assaltantes foi preso de manhã pela policia de Mogi das Cruzes, na casa da namorada em Arujá, região metropolitana de São Paulo. Um detetive da PC paulista foi ferido no ombro durante o tiroteio e levado de helicóptero para São Paulo.

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O saldo da Operação Itamonte ainda não foi contabilizado, mas já se sabe que pelo menos outros dois bandidos baleados não resistiram aos ferimentos e morreram. Em poder deles a policia apreendeu parte do dinheiro – marcado de tinta – roubado, provas de outros roubos a caixas eletrônicos e farto armamento usado em outros crimes no mesmo ‘modus operandi’.

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Esta foi a énesima vez que bandidos nacionais ‘encerraram’ a carreira em Minas Gerais. Já fora assim com o cearense Fernando da Gata, morto em Santa Rita do Sapucaí pela policia de Pouso Alegre, com o carioca Osmany Ramos, preso em Inconfidentes pela policia de Pouso Alegre… Apesar de ter sido uma operação conjunta, a ‘lenda’ continua…!

O louco e a cascavel

– Ele saiu de novo pra rua com aquela lança… Por favor me ajude! Ele vai se matar ou machucar alguém…! – dizia a voz de mulher desesperada.

Eu havia pego o telefone sobre o balcão na recepção da velha delegacia por acaso ao passar por ali chegando da rua às onze horas daquela ensolarada e quente manhã. Pedi calma à interlocutora para processar a informação…

– Ele teve outro surto…! Pegou a lança que ele fez esta semana e saiu que nem doido pra rua… Foi na direção da fazenda do Roberto Rios… Meu Deus, ele pode matar varias pessoas! – continuava a voz chorosa.

Cascavel II

De repente uma centelha de luz! Lembrei  do garoto de olhar parado sentado no banco de madeira no saguão da delegacia há duas semanas. Vestia uma calça jeans escura e tinha por cinto uma cordinha trançada no pssador da calça. Da cintura para cima estava denudo mostrando o peito magro cheio de tatuagens negras com figuras sinistras. Os cabelos lisos e soltos vinham até o meio das costas. Manchas de barba rala por fazer conferiam uma fisionomia desleixada e senil. As duas mãos estavam atadas por algemas às costas. Entre as costas e os braços presos havia um grosso cacetete de madeira garantindo que ele não usaria as mãos de jeito nenhum. Os pés estavam juntos um ao outro, unidos por uma grossa corda! Ele fora retirado da traseira da ‘Arca de Noé’ por dois policiais ali na porta da DP e carregado até o banco de madeira – Já vi porcos ariscos serem colocados e transportados assim em bagageiras, de um sitio a outro na roça! – As pessoas que comumente utilizavam o serviço de Registro de Veículos e aguardavam no mesmo banco de madeira liso ali no saguão ou encostavam na janelinha de vidro, ficavam sem saber se entravam ou não na delegacia. Preferiam ficar de longe, como outras curiosas olhando a cena, ou melhor a figura taciturna no banco. Mergulhado num silencio tétrico o jovem de 21 anos, magro, mediano, de traços finos e bonito, parecia um louco varrido. Se por acaso aquilo fosse uma pegadinha e de repente ele soltasse mãos e pés e fizesse um movimento brusco em direção à pesada lança de madeira de mais de dois metros com uma ponta afiada de doze ou quinze centímetros, que estava em pé, deixada propositalmente pelos PMs encostada no balcão enquanto redigiam o BO, seria um ‘deus-nos-acuda’! Não ficaria ninguém ali… O que corresse menos só pararia para olhar para trás lá perto da praça Senador Jose Bento!

As pessoas cochichavam entre si;

– Como os policiais conseguiram se aproximar e tomar a lança dele? – perguntava um.

– Acho que deram tiros de borracha – respondia outro.

– Sonífero! Deram um tiro de ‘sossega leão’ nele e quando ele caiu, pegaram o doido e amarrarm – dizia um mais ‘sabido’!

Chegando casualmente da rua e deparando com a cena, me aproximei dos PMs e quis saber…

– Como vocês o dominaram? – Perguntei ao sargento Pereira.

– Ah, Chips, você sabe que “conosco não tem enrosco” – garganteou o sargento sem responder a pergunta.

Além da lança afiadíssima, o jovem levava consigo também um largo cinturão de couro, um punhal e uma imensa adaga. Daquelas usadas em rituais satânicos! Só em pensar naquela figura semi-nua, com o rosto escondido nos cabelos e na barbicha por fazer, na penumbra de um beco deserto brandindo a lança ou a adaga acima da cabeça, já sentia arrepios! Se o coração fosse fraco, o sujeito morreria só com a visão, sem ser tocado por qualquer das armas brancas…

Enquanto a mãe com as marcas de choro no rosto, passava informações ao soldado Almeida para confecção do BO, um tio do rapaz, funcionário da prefeitura e amigo de alguns policiais respondia as perguntas de um despachante conhecido seu…

– De uns tempos pra cá ele ficou assim… Passa o tempo todo no porão afiando essas ferramentas. Minha irmã já internou ele varias vezes numa clinica em Itapira. Ele volta bom. Depois de um tempo fica esquisito de novo… Parece que está vendo coisas, bichos…! Mas hoje foi a primeira vez que ele saiu pra rua com esta lança… Quando a mãe tentou segurá-lo ele lhe deu um empurrão e apontou a lança pra ela! – Dizia em tom desacorçoado, o tio.

Agora estava em crise novamente. Estava vendo monstros da idade media prontos para esquarteja-lo… Por isso precisava atacá-los primeiro com sua lança de dois metros e arrancar seu coração com sua adaga! Certamente deixara de usar seu medicamento novamente. Se ele lutasse apenas com os inimigos reais não haveria nenhum prejuízo. O problema é que os monstros que povoavam sua mente poderia ser eu, você, a mãe dele, o vizinho, a criança na volta da escola, o velhinho voltando da padaria… E nenhum de nós tinha uma lança de dois metros para se defender dele! Urgia detê-lo e desarmá-lo… Como fizera o sargento Pereira e seus intrépidos policiais na semana passada! Mas por alguma razão que desconhecemos, a PM não estava disponível naquele momento! O telefone que tocara era o nosso. O dever nos chamava.

Na verdade não me lembro de terem nos ensinado na Acadepol que prender loucos varridos fosse nossa função! Mas com certeza a sociedade aprendeu de alguma maneira, que tudo que foge ao seu controle é ‘assunto de policia’…!

Por uma feliz ou infeliz coincidência, por ter feito a gentileza de atender o telefone para o colega que seu ausentara do seu posto ali na portaria, o assunto agora era meu! Eu tinha que tomar alguma providencia…

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Um assalto com vários sotaques

Assaltante gaúcho:

– Ô, guri, ficas ‘atiento’, bá! Isto é um assallllto… Levantas o braço e te aquietas, tchê! Não tente nada e tome cuidado que este facão corta que é uma barbaridade! Passa os pilas pra cá e te manda a la cria, senão o ponto quarenta fala, tchê!

Assaltante cearense:

– Ei, bixim… Isso é um assalto! Arriba os braços e num se bula nem faça munganga… Passa vexado o dinheiro senão eu planto a peixeira no teu bucho…! ‘Pesdão’ meu Padim Ciço, mas é que eu tô cuma fome da mulestia…!

Assaltante mineiro:

– Ô sô, prestenção… Isso é um assartim, uai… Levanta os brass e fica quietim que esse trem na minha mão tá cheio de bala… Mió passa logo os trocados que eu num tô bão, hoje!… Vai andando! Tá esperando o que, sô…?

Assaltante carioca:

– Seguiiiinte, merrrrrmão… Tu tá lascado! Isso é um assalto bacana! Passa a grana e levanta os braços, porra… Não fica de bobeira que eu atiro pra caraca… Vai andando e se olhar pra trás vira presunto, morô…?

Assaltante baiano:

– Ô meu…………………… isso é um assaaaaalto………….. Levanta o braços, mas não se aveeeeeexe, nãaaaao……………… Se não quiser, nem precisa levantaaaaaar,……………pra num ficar cansaaaaado…………….. ! Vai passando a grana, bem devagariiiiiinho……….. Num repara, não, se o berro está sem baaaaaaala………. Mas é para não ficar muito pesaaaaaado!………. Não esquenta, meu irmãoziiiiiiiiinho, vou deixar teus documentos na próxima encruzilhaaaaaaada…………….!

Assaltante paulista:

 – Ôrra, meu… Isso é um assalto, cara… Levanta os braços rápido! Ôrra, meu… Passa a puta da grana logo!!! Ôrra meu, tá esperando o que? Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a puta da bilheteria ‘abeita’, ‘pá’ comprar a porra do ingresso do jogo do Curintia, meu…!

                                                                                                           Assaltante candango:

– Caro povo brasileiro…, no final do mês aumentaremos as seguintes tarifas: energia, água, esgoto, gás, IPTU, IPVA, IPI, ICMS, PIS, licenciamento de veículos, seguro obrigatório, gasolina, álcool, Imposto de Renda, passagem de ônibus, de charrete, de bicicleta, de trolinho, de tapete voador…!!!

Dilma Roussef

 

O espermograma do velhinho

Ao receber a recomendação medica para fazer um espermograma o velhinho passou na farmácia, comprou o potinho e foi pra casa. Parecia fácil… Entrou no banheiro, tentou com a mão direita, tentou com a esquerda e até com as duas e nada! Então chamou sua mulher para ajudar. Ela tentou com a mão direita, com a esquerda, com as duas e até com a boca e também não conseguiu.

Não vendo outra opção, ela chamou a vizinha. Esta, querendo ajudar, mesmo bastante constrangida, tentou com a direita, tentou com esquerda, com as duas mãos e, muito sem graça pediu licença e tentou com a boca… Mas também não obteve sucesso…

A vizinha, não se dando por vencida, chamou a filha, que tinha 19 anos e era a menina mais encantadora do bairro! E mais uma vez as tentativas infrutíferas: mão direita, mão esquerda, as duas, boquinha com todo cuidado, mas… Também não conseguiu!

O velhinho triste, cabeça baixa, voltou à farmácia devolveu o potinho dizendo:

– Dá pro senhor me ver outro potinho? É que lá em casa ninguém conseguiu abrir este…!!!

O prefeito e o papagaio da padaria do Jordão…

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Toda vez que entrava na padaria do Jordão, durante a campanha politica, Quincas , como todo bom – e falso – candidato à prefeito – cumprimentava um por um os presentes, chamando-os pelo nome – embora as vezes chamasse Pedro de Paulo, Antônio  de Antenor e Francisco de Francisley… E distribuía largos sorrisos! Enquanto isso um papagaio maroto, como todos os papagaios, andava para lá e para cá no poleiro perto da porta, observando a falsidade do politico…!

Passadas as eleições vencidas por Quincas, seis semana depois ele assumiu a prefeitura. Como a padaria do Jordão era ali perto do ‘palácio publico’, toda manhã o novo alcaide parava na padaria para o desjejum. Mas quanta diferença no comportamento! Entrava mudo, pedia um pingado e um pão de queijo, comia fingindo olhar para a TV, pagava com moedinhas que trazia já separadas na algibeira – antes das eleições pagava com nota ‘grande’ e não fazia questão do troco! – e saia calado! – tenho a impressão que conheço alguém assim! – Quando passava pela porta o maroto papagaio soltava um palavrão;

– Fiadaputa…!!!

Quincas percebia que era com ele, mas nada dizia, achando que aquilo fosse uma malcriação do louro, até que um dia se ‘queimou’! Depois de mais um sonoro “fiadaputa”, resolveu reclamar com Jordão… Pelo telefone, é claro!

– Ô, Jordão, você precisa dar um jeito nesse seu papagaio! Todo dia é mesma coisa… Primeiro ele fica me olhando com cara de deboche, depois, quando eu saio da padaria ele me xinga de fiadaputa! Isso não pode continuar! Afinal eu sou autoridade máxima nessa cidade…!

– Ahn… Sabe Quincas! É que o louro tem uma certa razão… Ele estava acostumado a vê-lo sorrindo e cumprimentando as pessoas, agora, depois que as eleições passaram você entra na padaria e não sorri e nem cumprimenta mais ninguém…! – obtemperou Jordão.

– Ah… Então é isso!? Já sei como resolver…

No dia seguinte o prefeito entrou na padaria do Jordao, abriu um sorriso de um palmo e meio, fingiu um pouco mais do que durante a campanha politica e foi cumprimento todo mundo. Depois do ‘pingado’ com pão de queijo, deu uma olhadinha discreta para o louro que andava inquieto no poleiro de um lado a outro e saiu sorrindo satisfeito. Quando deu os primeiros passos na rua ouviu lá atrás um sonoro;

– Aprendeeeeeu, né … ‘Fiádapuuuuuta’!!!

…E assim surgiu o “Ribeirão das Mortes”

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 Há cerca de duzentos, quando o século 19 era ainda uma menina de cabelos de trança e boneca no colo, a garbosa Santana do Sapucaí já espalhava suas tranças pelos bairros da Cata, Tanque, Matadouro e Lava-pés. A imponente cidade, uma das quatro com mais de sessenta primaveras no Sul de Minas – as outras eram Campanha, São Gonçalo do Sapucaí e Camanducaia – se equilibrando no centro do morro, já contava cerca de três mil habitantes! Pouso Alegre, muito mais favorecida pela topografia, pela hidrografia e outros atributos naturais, ainda engatinhava… A capela de Bom Jesus do Matosinhos já estava onde está hoje, cercada por dois piscosos ribeirões! À direita o ribeirão que descia do bairro Primavera e corria serpenteando pela atual Avenida São Francisco e Ruas Cel. Ribeirão de Abreu, Bom Jesus, São João e João Basilio; e a esquerda o ribeirão que nascia no bairro da saúde, ao pé do bairro Santo Antonio e descia pela hoje Avenida João Beraldo até desaguar nos fundos da fazenda do Chiquinho de Freitas. Se o padre tivesse que sair da pequena capela para fazer um batizado às margens do velho Mandu, teria de ir no lombo de um cavalo baio bem arreado e forrado com vistoso e macio pelego ou numa charrete puxada por uma eguinha pampa, pois da Praça Senador Jose Bento às margens do piscoso rio era ‘uma viagem’…

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Da emergente Pouso Alegre de pés descalços à impoluta Santana do Sapucaí, em lombos de burros ou carros de bois, era viagem para quase uma semana… Dependendo da época do ano! Foi justamente este detalhe “época do ano” que estreitou a historia entre a ‘metropole’ Santana e a vila de Bom Jesus do Matozinhos! Do outono ao inicio da primavera, a viagem de cerca de trinta e cinco quilômetros poderia ser feita em apenas um dia… De setembro, quando começavam as chuvas, até o final da enchente das goiabas, em março, a mesma viagem em lombos de burros ou carros de boi podia demorar até uma semana!

A menina Pouso Alegre, embora já desse ares de que se tornaria em breve uma linda donzela e mais tarde  uma sedutora coroa ricaça – cobiçada por tantos que querem administrar seus dotes! – ainda dependia de Santana em vários aspectos, inclusive dos santos! Mais propriamente da ‘imagem’ do santo, o qual já havia sido escolhido para apadrinhá-la: “Bom Jesus do Mártires”! O ‘santo’ já havia sido adquirido numa transação ligeiramente obnubilada entre o pároco Hermógenes e o vigário Jose e Mello! Quando em 1792 o vigário da Vila de Bom Jesus do Matosinhos pediu autorização ao prelado Dom Manuel da Ressurreição em São Paulo, para construir a capela na vila, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires já estava em poder do beato Angelo Gomes Moreira – seu zelador – esperando o altar para recebe-la.

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Acontece que a transação com o pároco Hermógenes estava eivada de duvidas e insatisfação! Nunca se soube ao certo se o padre de Santana do Sapucaí havia vendido, doado ou ‘emprestado’ a imagem do santo ao vigário da vila de Pouso Alegre, que, aliás, ainda não havia sido batizada com o nome do ‘alegre’ pouso! Por isso os santanenses, queriam a imagem de volta. E queriam a todo custo! Passaram a pressionar os vilarinhos do Mandu para que devolvessem a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires. Inclusive com ameaças!

– Só vamos esperar passar as festividades religiosas… Na semana seguinte, se a imagem do santo não estiver aqui, vamos buscá-la pessoalmente! – Ameaçavam os descendentes de Francisco Martins Lustosa, fundador da cidade meio século antes.

        Aquele ano, São Pedro – que dizem que além de manter as chaves da porta do céu, cuida também da central de abastecimento de agua – a Copasa de além das nuvens – parece que estava fazendo uma pequena torcida para Pouso Alegre ficar com o ‘São Bom Jesus’ e resolveu botar lenha na fogueira… Abriu as torneiras e deixou a chuva cair! Findas as festividades religiosas anuais, embora muito a contra gosto, pois já haviam escolhido Bom Jesus para padrinho do município que se avizinhava, mas querendo evitar a primeira guerra mundial, justamente por causa do santo, os vilarinhos trataram de atender o ultimato! Tentaram a viagem pelo bairro Faisqueira… Sem chances! Tentaram pelo Ribeirão… Não conseguiram sequer subir o morro da Cava – atual curva da Rua Bento Doria Ramos. Voltaram com o santo para a capela a fim de esperar a estiagem. Não tardou o sacristão recebeu novo recado ameaçador;

 

Para saber qual foi o recado e o desfecho dessa historia, acesse “www.meninosquevicrescer.com.br”.

 

O Juca caiu… Com quase um quilo de maconha

Juca, o celular 'X 9' e a droga...

Juca, o celular ‘X 9’ e a droga…

No final da manhã desta sexta, 07, o Inspetor interino Ricardo Teobaldo  recebeu uma informação detalhada de um amigo oculto da lei que dizia:

– O Juca acabou de receber uma remessa de maconha, mais de quilo! A droga deve estar dentro do Vectra verde com placa de Campos Gerais ou dentro do escritório do Lava Jato Bom Jesus… Vá lá agora que vocês pegam o ‘playboy’ com a mão na erva!!!

Teobaldo, que já andara investigando João Alves de Souza Junior, o “Juca”, imediatamente passou a informação ao seu chefe, delegado Gilson Baldassari, e foram checar a informação na Bom Jesus, no centro da cidade.

Era verdade!

A denuncia do amigo oculto da lei foi precisa!

No interior da geladeira do estabelecimento o detetive André encontrou o primeiro patuá de maconha. O restante da erva marvada – 17 patuás – estava mocosado no interior do aspirador do pó jogado num canto do escritório.

– A maconha que está na geladeira é minha, para meu uso… Mas a que está no aspirador de pó eu não sei de quem é… – Alegou João “Juca” Alves de Souza Junior, 33 anos.

– Quando chegamos ao lava jato, o Sr. Juca estava completamente ‘chapado’, sob o efeito de alguma droga… – disse o delegado Gilson Baldassari.

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Minutos depois da prisão do Juca e apreensão da droga, do carro e do celular do playboy, já na DP, o aludido celular tocou. Teobaldo que redigia o Reds atendeu se passando pelo dono do aparelho e ouviu a seguinte consulta de um provável fornecedor:

– E aê, Juca, você vai querer outra remessa somente de erva ou vai querer “doce” também? … Ok, ligo mais tarde confirmando a remessa!

Antes de tipificar o crime do Juca, o titular da Especializada no Combate ao Trafico ficou na dúvida… Como a maconha foi encontrada no interior do lava jato, dentro da geladeira e do aspirador de pó, o delegado não sabia se enquadrava “Juca” ‘envolvimento com o pó’, por vender ‘droga fria’ ou por ‘lavagem de droga’!!!

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Além da droga no aspirador, Juca não soube dizer a quem pertence o Vectra verde citado na denuncia, o qual estava no seu estabelecimento e jurou de pés juntos que é apenas ‘canabista’. Como “guardar” é um dos verbos sinônimo de “trafico” de drogas mencionados na Lei 11.343, Juca sentou ao piano, assinou o 33 e foi se hospedar no Hotel do Juquinha.

… A julgar pela assistência jurídica recebida pelo traficante antes e durante a lavratura do flagrante, esse aspirador do Juca tem muito mais ‘pó’ do se imagina!!!

 

“”” Abrace seu filho… Não deixe que as drogas o abracem!!! “””

*** Neste final de semana voce vai saber como surgiu o “Ribeirão das Mortes”…

 

 

Hotel do Juquinha recebe aparelho de TV… Recheado de celulares!

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Três e meia da tarde desta escaldante segunda, 03… Uma motoca Honda Falcon encostou na portaria do Hotel do Juquinha trazendo uma passageira. Mal a garotinha saltou da garupa levando nas mãos uma televisão antiga, de 14 polegadas, o motoqueiro rodopiou no cascalho e dobrou a serra do cajuru. Com grande esforço, que chegava suar o protótipo de bigodinho, a bonita garotinha chegou à portaria e disse com voz suave e tremula:

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– Vim trazer esta TV para o meu irmão!

Segunda feira é o dia fixado pela administração do Hotel do Juquinha para o recebimento de material de higiene… Apenas para o hospedes no período de triagem! Não era o caso do irmão da jovenzinha! Assim mesmo, imaginando um provável engodo, os agentes receberam a encomenda, passaram a garotinha para o lado interno do portão, chamaram três advogados que lá estavam aguardando atendimento para presenciar o ato e iniciaram a revista da encomenda…! Em poucos minutos desmontaram o arcaico aparelho de TV. Aparentemente não havia nenhum ‘objeto estranho’, nenhuma encomenda surpresa entre o tubo e a caixa plástica da TV. No entanto, o experiente agente percebeu que a tampa de plástico estava um pouco mais pesada do que o normal! Ao desmontar a tampa… Eureka!!! Surgiu a encomenda! No fundo falso artesanalmente adaptado com papelão, massa, cola e fita crepe havia quatro aparelhos de celular e três carregadores respectivos.

O aparelho de TV recheado era para o preso Alexsander de Paula Moreira, o “Alex da Gesonia”, condenado por porte de arma em 2012 e preso em maio do ano passado quando se preparava para arrombar mais um caixa eletrônico na região.

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Se além dos aparelhos telefônicos a garotinha estivesse levando também drogas, o juiz da Infância e da Juventude, Walter Jose Vieira, fatalmente iria ‘segurá-la’ por uma temporada de 45 das de reflexão no Hotel do Juquinha. Enfurnada, com cara de poucos amigos, C.P.M. foi econômica nas declarações a este colunista, mas deixou escapar sua insatisfação com alguns leitores do Blog…

– As pessoas só falam mentiras da minha família! – disse ela com uma pontinha de revolta.

Em menos de um ano atrás das grades, esta não foi a primeira vez que Alex da Gesonia, 19 anos, conectou-se ou conectaria com o mundo externo através do celular. Em agosto passado ele navegava pela internet de dentro do Hotel do Juquinha, belo e formoso como se estivesse num Spa! Navegava até um atento leitor do Blog fez a denuncia e a linha ‘caiu’!

Em poucos mais e um ano da atual administração do Hotel do Juquinha, os diretores já perderam a conta de quantos aparelhos já interceptaram nas revistas pessoais dos visitantes e nas ‘jumbadas’…

– Entre celulares e carregadores foram mais de trezentos… – Diz o diretor social Sergio Morais.

O acesso de objetos proibidos ao presidio é diversificado. Pode ser num fundo falso de uma inocente e arcaica TV – como a entregue pela garotinha C.P.M. – pode ser dentro do corpo – tanto por ‘frente’ quanto por ‘trás’ – ou por via aérea! Em dezembro passado quatro aparelhos desceram de ‘paraquedas’ acomodados dentro de um par de botas! O aviador errou o alvo e a botina voadora aterrissou na fabrica de blocos no pátio externo… Não funcionou!

C.P.M. perdeu os aparelhinhos e a TV – que talvez nem funcionasse! – e deve ganhar apenas um ‘puxão de orelha’ do Homem da Capa Preta.

Caiu a casa da Flavia Ruiva…

Flavia Ruiva: ... De trás das grades do sobradinho da Sapucaí, para trás das grades do Hotel do Juquinha!

Flavia Ruiva: … De trás das grades do sobradinho da Sapucaí, para trás das grades do Hotel do Juquinha!

Ela tem contra si uma infinidade de denuncias de amigos da lei, via 181. Só o “Blog do Airton Chips” recebeu uma dúzia de comentários informando como “Ruiva” distribui drogas na porta de sua casa na Sapucaí. Os detetives da Especializada de Combate ao trafico instalaram câmeras secretas nas imediações e filmaram a dinâmica do comercio ilícito. Aliás, dinâmica tão simples como somar 2 x 2… Em poucos minutos de filmagem é possível ver mais de uma dezena de nóias do velho Aterrado e de outros barros e até do centro se aproximando da grade, estendendo a mão direita com o dim-dim e saindo sorrateiramente com a droga na mão esquerda. Tem momentos que Flavia Ruiva mal consegue segurar a bufunfa numa mão só…! Notas de cinco, de dez e de vinte surgem como grama em suas mãos. A fiel escudeira Thalia, sua cunhada, do lado de fora do sobradinho, se encarrega de conduzir os novos clientes que ainda não conhecem a ‘boca’, até a grade! Até pessoas acima de qualquer suspeita, que ‘pagam’ de bonitões no centro – será que você não aparece na fita, não? – vão bater à grade de Flavia Ruiva na bifurcação da Sapucaí com uma nota de dez na mão. Toda esta movimentação está gravada em CD e será apresentada ao Homem da Capa Preta esta semana, juntada ao Auto de Prisão de Flagrante da ultima quinta 28. Ironicamente a traficante – que se não fosse denunciada por amigos ocultos da lei, acabaria assumindo brevemente a coroa da “Rainha Mara”, deposta do trono em 2010 – caiu antes da hora, após tropeçar numa singela roupinha de bebê!!!

Eram 10h40m da manha de quinta 28, quando o jovem Alex Gomes Augusto adentrou a loja Super Star  Kids na Doutor Lisboa, acompanhado de uma mulher  e pediu para ver roupinhas de batizado. Enquanto sua companheira atraia a atenção da vendedora, algumas peças de roupas ‘escorregaram’ para sua sacola. Fingindo desinteresse pela mercadoria ele se despediu e foi embora sem comprar nada. Logo que saíram a vendedora resolveu checar seu “Big Brother” e constatou a tramoia. A policia militar compareceu ao local, registrou o fato e o caso teria ficado o dito pelo não dito, se Alex não tivesse voltado ao local do crime. Por volta de quatro da tarde do mesmo dia Alex desfilou belo e charmoso pelas imediações da Super Star Kids. Desta vez os homens da lei chegaram a tempo de oferecer as pulseiras de prata ao gatuno de roupinha de bebê. Chamado na chincha, Alex deu a fita.

– Eu troquei as roupinhas por três pedras bege fedorentas na esquina da Sapucaí…

Minutos depois Flavia de Fatima Alves a “Flavia Ruiva” recebia os homens da lei em sua casa para o chá das cinco! Além das roupinhas furtadas na Super Star Kids, os policiais encontraram também 28 pedras beges fedorentas num cesto de roupas na sala de sua casa e ainda R$ 184 em notas de porta de igreja e dois celulares.

– Minha cunhada Thalia era usuária de crack… Acho que a droga é dela – Disse solenemente a “Ruiva”.

– E quanto à esta pilha de denuncias de trafico na sua residência? – perguntou o delegado, só para ouvir mais uma ‘perola’!

– Meu filho Juliano, que é ‘dimenor’, costumava vender droga… As denuncias devem ser por isso… – respondeu Flavia sem ficar vermelha.

Flavia Ruiva, 37 anos, cresceu vendo os irmãos Flavio Cagão e Daniel Daniboy enroscado nas barbas da justiça. Flavio foi assassinado há dez anos pelos irmãos ‘Mateus’, depois de matar um deles e Daniboy, na caminhada desde a adolescência, está por conta do contribuinte na Penitenciaria Nelson Hungria, acusado de varias tentativas de homicídio por conta do trafico, no ano passado. O filho Juliano só não vai fazer companhia a ela no Hotel do Juquinha, por conta da tentativa de assalto ao Supermercado Alvorada em 2013 porque a lei ainda não autoriza a prisão de “dimenor”!

Apesar de todo este imbróglio, não estranhem os leitores se Flavia Ruiva voltar a desfilar na Sapucaí e distribuir drogas através das grades do seu sobradinho dentro de alguns meses! É que, embora já esteja no comercio da pedra a algum tempo, esta é sua primeira cana, seu primeiro processo… Apesar de ter assinado o 33 e o 180, ela é primaria. Vai pegar a pena mínima, de 5 anos, reduzida de um terço. Como nossa lei penal é flácida e cheia de buracos, Flavia não criará raízes no Hotel do Juquinha! Mas por ora, verá o sol quadrado…!