O louco e a cascavel

– Ele saiu de novo pra rua com aquela lança… Por favor me ajude! Ele vai se matar ou machucar alguém…! – dizia a voz de mulher desesperada.

Eu havia pego o telefone sobre o balcão na recepção da velha delegacia por acaso ao passar por ali chegando da rua às onze horas daquela ensolarada e quente manhã. Pedi calma à interlocutora para processar a informação…

– Ele teve outro surto…! Pegou a lança que ele fez esta semana e saiu que nem doido pra rua… Foi na direção da fazenda do Roberto Rios… Meu Deus, ele pode matar varias pessoas! – continuava a voz chorosa.

Cascavel II

De repente uma centelha de luz! Lembrei  do garoto de olhar parado sentado no banco de madeira no saguão da delegacia há duas semanas. Vestia uma calça jeans escura e tinha por cinto uma cordinha trançada no pssador da calça. Da cintura para cima estava denudo mostrando o peito magro cheio de tatuagens negras com figuras sinistras. Os cabelos lisos e soltos vinham até o meio das costas. Manchas de barba rala por fazer conferiam uma fisionomia desleixada e senil. As duas mãos estavam atadas por algemas às costas. Entre as costas e os braços presos havia um grosso cacetete de madeira garantindo que ele não usaria as mãos de jeito nenhum. Os pés estavam juntos um ao outro, unidos por uma grossa corda! Ele fora retirado da traseira da ‘Arca de Noé’ por dois policiais ali na porta da DP e carregado até o banco de madeira – Já vi porcos ariscos serem colocados e transportados assim em bagageiras, de um sitio a outro na roça! – As pessoas que comumente utilizavam o serviço de Registro de Veículos e aguardavam no mesmo banco de madeira liso ali no saguão ou encostavam na janelinha de vidro, ficavam sem saber se entravam ou não na delegacia. Preferiam ficar de longe, como outras curiosas olhando a cena, ou melhor a figura taciturna no banco. Mergulhado num silencio tétrico o jovem de 21 anos, magro, mediano, de traços finos e bonito, parecia um louco varrido. Se por acaso aquilo fosse uma pegadinha e de repente ele soltasse mãos e pés e fizesse um movimento brusco em direção à pesada lança de madeira de mais de dois metros com uma ponta afiada de doze ou quinze centímetros, que estava em pé, deixada propositalmente pelos PMs encostada no balcão enquanto redigiam o BO, seria um ‘deus-nos-acuda’! Não ficaria ninguém ali… O que corresse menos só pararia para olhar para trás lá perto da praça Senador Jose Bento!

As pessoas cochichavam entre si;

– Como os policiais conseguiram se aproximar e tomar a lança dele? – perguntava um.

– Acho que deram tiros de borracha – respondia outro.

– Sonífero! Deram um tiro de ‘sossega leão’ nele e quando ele caiu, pegaram o doido e amarrarm – dizia um mais ‘sabido’!

Chegando casualmente da rua e deparando com a cena, me aproximei dos PMs e quis saber…

– Como vocês o dominaram? – Perguntei ao sargento Pereira.

– Ah, Chips, você sabe que “conosco não tem enrosco” – garganteou o sargento sem responder a pergunta.

Além da lança afiadíssima, o jovem levava consigo também um largo cinturão de couro, um punhal e uma imensa adaga. Daquelas usadas em rituais satânicos! Só em pensar naquela figura semi-nua, com o rosto escondido nos cabelos e na barbicha por fazer, na penumbra de um beco deserto brandindo a lança ou a adaga acima da cabeça, já sentia arrepios! Se o coração fosse fraco, o sujeito morreria só com a visão, sem ser tocado por qualquer das armas brancas…

Enquanto a mãe com as marcas de choro no rosto, passava informações ao soldado Almeida para confecção do BO, um tio do rapaz, funcionário da prefeitura e amigo de alguns policiais respondia as perguntas de um despachante conhecido seu…

– De uns tempos pra cá ele ficou assim… Passa o tempo todo no porão afiando essas ferramentas. Minha irmã já internou ele varias vezes numa clinica em Itapira. Ele volta bom. Depois de um tempo fica esquisito de novo… Parece que está vendo coisas, bichos…! Mas hoje foi a primeira vez que ele saiu pra rua com esta lança… Quando a mãe tentou segurá-lo ele lhe deu um empurrão e apontou a lança pra ela! – Dizia em tom desacorçoado, o tio.

Agora estava em crise novamente. Estava vendo monstros da idade media prontos para esquarteja-lo… Por isso precisava atacá-los primeiro com sua lança de dois metros e arrancar seu coração com sua adaga! Certamente deixara de usar seu medicamento novamente. Se ele lutasse apenas com os inimigos reais não haveria nenhum prejuízo. O problema é que os monstros que povoavam sua mente poderia ser eu, você, a mãe dele, o vizinho, a criança na volta da escola, o velhinho voltando da padaria… E nenhum de nós tinha uma lança de dois metros para se defender dele! Urgia detê-lo e desarmá-lo… Como fizera o sargento Pereira e seus intrépidos policiais na semana passada! Mas por alguma razão que desconhecemos, a PM não estava disponível naquele momento! O telefone que tocara era o nosso. O dever nos chamava.

Na verdade não me lembro de terem nos ensinado na Acadepol que prender loucos varridos fosse nossa função! Mas com certeza a sociedade aprendeu de alguma maneira, que tudo que foge ao seu controle é ‘assunto de policia’…!

Por uma feliz ou infeliz coincidência, por ter feito a gentileza de atender o telefone para o colega que seu ausentara do seu posto ali na portaria, o assunto agora era meu! Eu tinha que tomar alguma providencia…

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Um assalto com vários sotaques

Assaltante gaúcho:

– Ô, guri, ficas ‘atiento’, bá! Isto é um assallllto… Levantas o braço e te aquietas, tchê! Não tente nada e tome cuidado que este facão corta que é uma barbaridade! Passa os pilas pra cá e te manda a la cria, senão o ponto quarenta fala, tchê!

Assaltante cearense:

– Ei, bixim… Isso é um assalto! Arriba os braços e num se bula nem faça munganga… Passa vexado o dinheiro senão eu planto a peixeira no teu bucho…! ‘Pesdão’ meu Padim Ciço, mas é que eu tô cuma fome da mulestia…!

Assaltante mineiro:

– Ô sô, prestenção… Isso é um assartim, uai… Levanta os brass e fica quietim que esse trem na minha mão tá cheio de bala… Mió passa logo os trocados que eu num tô bão, hoje!… Vai andando! Tá esperando o que, sô…?

Assaltante carioca:

– Seguiiiinte, merrrrrmão… Tu tá lascado! Isso é um assalto bacana! Passa a grana e levanta os braços, porra… Não fica de bobeira que eu atiro pra caraca… Vai andando e se olhar pra trás vira presunto, morô…?

Assaltante baiano:

– Ô meu…………………… isso é um assaaaaalto………….. Levanta o braços, mas não se aveeeeeexe, nãaaaao……………… Se não quiser, nem precisa levantaaaaaar,……………pra num ficar cansaaaaado…………….. ! Vai passando a grana, bem devagariiiiiinho……….. Num repara, não, se o berro está sem baaaaaaala………. Mas é para não ficar muito pesaaaaaado!………. Não esquenta, meu irmãoziiiiiiiiinho, vou deixar teus documentos na próxima encruzilhaaaaaaada…………….!

Assaltante paulista:

 – Ôrra, meu… Isso é um assalto, cara… Levanta os braços rápido! Ôrra, meu… Passa a puta da grana logo!!! Ôrra meu, tá esperando o que? Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a puta da bilheteria ‘abeita’, ‘pá’ comprar a porra do ingresso do jogo do Curintia, meu…!

                                                                                                           Assaltante candango:

– Caro povo brasileiro…, no final do mês aumentaremos as seguintes tarifas: energia, água, esgoto, gás, IPTU, IPVA, IPI, ICMS, PIS, licenciamento de veículos, seguro obrigatório, gasolina, álcool, Imposto de Renda, passagem de ônibus, de charrete, de bicicleta, de trolinho, de tapete voador…!!!

Dilma Roussef

 

O espermograma do velhinho

Ao receber a recomendação medica para fazer um espermograma o velhinho passou na farmácia, comprou o potinho e foi pra casa. Parecia fácil… Entrou no banheiro, tentou com a mão direita, tentou com a esquerda e até com as duas e nada! Então chamou sua mulher para ajudar. Ela tentou com a mão direita, com a esquerda, com as duas e até com a boca e também não conseguiu.

Não vendo outra opção, ela chamou a vizinha. Esta, querendo ajudar, mesmo bastante constrangida, tentou com a direita, tentou com esquerda, com as duas mãos e, muito sem graça pediu licença e tentou com a boca… Mas também não obteve sucesso…

A vizinha, não se dando por vencida, chamou a filha, que tinha 19 anos e era a menina mais encantadora do bairro! E mais uma vez as tentativas infrutíferas: mão direita, mão esquerda, as duas, boquinha com todo cuidado, mas… Também não conseguiu!

O velhinho triste, cabeça baixa, voltou à farmácia devolveu o potinho dizendo:

– Dá pro senhor me ver outro potinho? É que lá em casa ninguém conseguiu abrir este…!!!

Arapuca p’ra pegar Franguinho em Santa Rita

Embora inadimplente de Pensão Alimentícia não seja um criminoso, tem alguns que fogem da policia pior do que o Fernando da Gata!!!

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Certa tarde recebemos a incumbência de prender um devedor de pensão que deveria estar morando no bairro Roseira, ao pé da Serra da Manoela em Santa Rita do Sapucaí. Chamava-se Reinaldo e atendia também pela alcunha de “Franguinho”! – que eu supus pelo apelido no diminutivo, que fosse um pixote! Não o achamos por lá – devedor de pensão muda mais que cigano – mas localizamos sua moradia, na casa do novo sogro no condomínio Chácaras do Vintém. – provável futuro avô de mais uma criança para reclamar pensão alimentícia! Quando paramos a viatura na frente da rua ouvimos um guaiú de cachorros no quintal. Entendemos imediatamente porque e corremos para lá, mas já era tarde. Nos fundos do quintal começava uma plantação de milho que estava até azul de tão tenra e viçosa. Subi na ponta de um mourão de eucalipto roliço e vi somente aquele mar de milho embonecando, com suas espigas de cabelos multicores e os pendões bege-mostarda saciando enxames de abelhas, marimbondos e vaquinhas com seu pólen. A brisa leve e mansa do fim da tarde balançava suavemente o milharal proporcionando um belo espetáculo da natureza ‘domestica’. Franguinho poderia estar ofegante em qualquer lugar daquela roça de meio alqueire de milho hibrido que em três semanas daria deliciosas pamonhas. Achar uma agulha no palheiro do milharal dali a três meses ou mesmo um franguinho carijó, seria mais fácil do que achar o ‘nosso’ Franguinho caloteiro naquele momento. Na volta de mãos vazias para a delegacia tive uma idéia… E fiz uma proposta aos meus parceiros, o  padrinho Benicio e o jovem Kleber.

– Vou arrancar as penas do Franguinho amanha às cinco e meia da tarde ou na quarta às oito e meia da manha. Se meu plano falhar pago meia dúzia de picolés de groselha para cada um. Se der certo quero um picolé de leite…!

Na tarde seguinte sentei diante do computador, digitei um Mandado de Intimação nos seguintes termos;

 

“… Juiz da Vara de Família ( )  intima o cidadão Reinaldo A. de O., … a comparecer ao Fórum da Comarca, à Praça Santa Rita, às 08h30 do dia tal”.

 

Dei um rabisco qualquer na linha acima do nome do juiz, coloquei um capacete fechado, montei minha motoca e fui entregar a intimação na chácara do condomínio. Se ele estivesse curtindo o final de tarde na sombra na frente da casa eu o prenderia e chamaria os parceiros para conduzi-lo. Caso contrario ele nem saberia que estive lá. Fui recebido por uma mocinha de magros 18 anos com um bebê atravessado no colo – futuro credor de pensão de Franguinho! – que mal ouviu minha pergunta e foi logo respondendo;

– Ele não ta aqui, não!

Não tinha importância que ele estivesse ou não atrás do guarda roupa ou debaixo da cama ou que tivesse voado novamente para o mlharal… Na manha seguinte daria bem menos trabalho prende-lo. No dia seguinte saí de Pouso Alegre às 7h50 para chegar em Santa Rita as 8h20 como de praxe mas, meu velho Gol – só consegui comprar carro com menos de 5 anos de uso depois de me aposentar – me deu mais trabalho do que o previsto. Furou a mangueira do radiador e tive que parar a cada cinco quilômetros para recolocar água. Cheguei atrasado ao Fórum! Parei defronte o orelhão e percebi um sujeito espigado, cerca de 1m85 falando agitado ao telefone. Parei ao seu lado como se esperasse para usar o aparelho e ouvi mais ou menos assim;

-… Eu vou voltar para casa. O juiz não vem na parte da manha… Parece que não foi intimação do Fórum…

Não, não fora. Fora intimação minha! E o Franguinho havia ‘mordido o milho’… Quando ele desligou o telefone eu joguei a peia. Peguei um pedaço de papel qualquer do bolso, olhei e perguntei sem que ele visse o que estava escrito:

– Reinaldo A. de O. mais conhecido por Franguinho, é você mesmo?

Ele ameaçou pigarrear e antes que dissesse qualquer coisa eu voltei firme à carga com a firmeza que sempre guardava para estas ocasiões:

– Venha comigo… O delegado está esperando por você na delegacia!

Franguinho tentou levantar a crista e sacudir as asas, mas eu levantei ligeiramente a barra da calça deixando aparecer o cabo lustroso de madeira do 38 especial na canela. Coloquei a mão em seu ombro e indiquei a porta do meu carro há cinco metros dali defronte a charutaria do Caruso. Cheguei à delegacia da Quintino Bocaiúva raspava nove horas e fui direto pra cozinha como de habito;

– Companheiros…! Preparem mais uma chávena! Eu trouxe o Franguinho para tomar café com a gente… – Fui dizendo.

– Meu picolé de leite quero na sobremesa do almoço – acrescentei.

Apesar de Franguinho ter dado mais trabalho do que o habitual para uma prisão tão insignificante, não o levei direto pra cadeia. Deixei que ele passasse o dia no ‘corró’ da DP enquanto seus parentes faziam a ‘correria’ para pagar a pensão. No final do expediente ele subiu para o Hotel Recanto das Margaridas, jurando de pés de juntos que já havia saudado o débito alimentício. O Alvará de Soltura demorou três dias para chegar.

Embora fizesse pintinhos nas franguinhas mais do que galo carijó, sem ter milho para alimentá-los, nunca mais foi preciso buscar Franguinho no milharal da Chácara do Vintém!

 

O prefeito e o papagaio da padaria do Jordão…

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Toda vez que entrava na padaria do Jordão, durante a campanha politica, Quincas , como todo bom – e falso – candidato à prefeito – cumprimentava um por um os presentes, chamando-os pelo nome – embora as vezes chamasse Pedro de Paulo, Antônio  de Antenor e Francisco de Francisley… E distribuía largos sorrisos! Enquanto isso um papagaio maroto, como todos os papagaios, andava para lá e para cá no poleiro perto da porta, observando a falsidade do politico…!

Passadas as eleições vencidas por Quincas, seis semana depois ele assumiu a prefeitura. Como a padaria do Jordão era ali perto do ‘palácio publico’, toda manhã o novo alcaide parava na padaria para o desjejum. Mas quanta diferença no comportamento! Entrava mudo, pedia um pingado e um pão de queijo, comia fingindo olhar para a TV, pagava com moedinhas que trazia já separadas na algibeira – antes das eleições pagava com nota ‘grande’ e não fazia questão do troco! – e saia calado! – tenho a impressão que conheço alguém assim! – Quando passava pela porta o maroto papagaio soltava um palavrão;

– Fiadaputa…!!!

Quincas percebia que era com ele, mas nada dizia, achando que aquilo fosse uma malcriação do louro, até que um dia se ‘queimou’! Depois de mais um sonoro “fiadaputa”, resolveu reclamar com Jordão… Pelo telefone, é claro!

– Ô, Jordão, você precisa dar um jeito nesse seu papagaio! Todo dia é mesma coisa… Primeiro ele fica me olhando com cara de deboche, depois, quando eu saio da padaria ele me xinga de fiadaputa! Isso não pode continuar! Afinal eu sou autoridade máxima nessa cidade…!

– Ahn… Sabe Quincas! É que o louro tem uma certa razão… Ele estava acostumado a vê-lo sorrindo e cumprimentando as pessoas, agora, depois que as eleições passaram você entra na padaria e não sorri e nem cumprimenta mais ninguém…! – obtemperou Jordão.

– Ah… Então é isso!? Já sei como resolver…

No dia seguinte o prefeito entrou na padaria do Jordao, abriu um sorriso de um palmo e meio, fingiu um pouco mais do que durante a campanha politica e foi cumprimento todo mundo. Depois do ‘pingado’ com pão de queijo, deu uma olhadinha discreta para o louro que andava inquieto no poleiro de um lado a outro e saiu sorrindo satisfeito. Quando deu os primeiros passos na rua ouviu lá atrás um sonoro;

– Aprendeeeeeu, né … ‘Fiádapuuuuuta’!!!

…E assim surgiu o “Ribeirão das Mortes”

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 Há cerca de duzentos, quando o século 19 era ainda uma menina de cabelos de trança e boneca no colo, a garbosa Santana do Sapucaí já espalhava suas tranças pelos bairros da Cata, Tanque, Matadouro e Lava-pés. A imponente cidade, uma das quatro com mais de sessenta primaveras no Sul de Minas – as outras eram Campanha, São Gonçalo do Sapucaí e Camanducaia – se equilibrando no centro do morro, já contava cerca de três mil habitantes! Pouso Alegre, muito mais favorecida pela topografia, pela hidrografia e outros atributos naturais, ainda engatinhava… A capela de Bom Jesus do Matosinhos já estava onde está hoje, cercada por dois piscosos ribeirões! À direita o ribeirão que descia do bairro Primavera e corria serpenteando pela atual Avenida São Francisco e Ruas Cel. Ribeirão de Abreu, Bom Jesus, São João e João Basilio; e a esquerda o ribeirão que nascia no bairro da saúde, ao pé do bairro Santo Antonio e descia pela hoje Avenida João Beraldo até desaguar nos fundos da fazenda do Chiquinho de Freitas. Se o padre tivesse que sair da pequena capela para fazer um batizado às margens do velho Mandu, teria de ir no lombo de um cavalo baio bem arreado e forrado com vistoso e macio pelego ou numa charrete puxada por uma eguinha pampa, pois da Praça Senador Jose Bento às margens do piscoso rio era ‘uma viagem’…

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Da emergente Pouso Alegre de pés descalços à impoluta Santana do Sapucaí, em lombos de burros ou carros de bois, era viagem para quase uma semana… Dependendo da época do ano! Foi justamente este detalhe “época do ano” que estreitou a historia entre a ‘metropole’ Santana e a vila de Bom Jesus do Matozinhos! Do outono ao inicio da primavera, a viagem de cerca de trinta e cinco quilômetros poderia ser feita em apenas um dia… De setembro, quando começavam as chuvas, até o final da enchente das goiabas, em março, a mesma viagem em lombos de burros ou carros de boi podia demorar até uma semana!

A menina Pouso Alegre, embora já desse ares de que se tornaria em breve uma linda donzela e mais tarde  uma sedutora coroa ricaça – cobiçada por tantos que querem administrar seus dotes! – ainda dependia de Santana em vários aspectos, inclusive dos santos! Mais propriamente da ‘imagem’ do santo, o qual já havia sido escolhido para apadrinhá-la: “Bom Jesus do Mártires”! O ‘santo’ já havia sido adquirido numa transação ligeiramente obnubilada entre o pároco Hermógenes e o vigário Jose e Mello! Quando em 1792 o vigário da Vila de Bom Jesus do Matosinhos pediu autorização ao prelado Dom Manuel da Ressurreição em São Paulo, para construir a capela na vila, a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires já estava em poder do beato Angelo Gomes Moreira – seu zelador – esperando o altar para recebe-la.

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Acontece que a transação com o pároco Hermógenes estava eivada de duvidas e insatisfação! Nunca se soube ao certo se o padre de Santana do Sapucaí havia vendido, doado ou ‘emprestado’ a imagem do santo ao vigário da vila de Pouso Alegre, que, aliás, ainda não havia sido batizada com o nome do ‘alegre’ pouso! Por isso os santanenses, queriam a imagem de volta. E queriam a todo custo! Passaram a pressionar os vilarinhos do Mandu para que devolvessem a imagem do Senhor Bom Jesus dos Mártires. Inclusive com ameaças!

– Só vamos esperar passar as festividades religiosas… Na semana seguinte, se a imagem do santo não estiver aqui, vamos buscá-la pessoalmente! – Ameaçavam os descendentes de Francisco Martins Lustosa, fundador da cidade meio século antes.

        Aquele ano, São Pedro – que dizem que além de manter as chaves da porta do céu, cuida também da central de abastecimento de agua – a Copasa de além das nuvens – parece que estava fazendo uma pequena torcida para Pouso Alegre ficar com o ‘São Bom Jesus’ e resolveu botar lenha na fogueira… Abriu as torneiras e deixou a chuva cair! Findas as festividades religiosas anuais, embora muito a contra gosto, pois já haviam escolhido Bom Jesus para padrinho do município que se avizinhava, mas querendo evitar a primeira guerra mundial, justamente por causa do santo, os vilarinhos trataram de atender o ultimato! Tentaram a viagem pelo bairro Faisqueira… Sem chances! Tentaram pelo Ribeirão… Não conseguiram sequer subir o morro da Cava – atual curva da Rua Bento Doria Ramos. Voltaram com o santo para a capela a fim de esperar a estiagem. Não tardou o sacristão recebeu novo recado ameaçador;

 

Para saber qual foi o recado e o desfecho dessa historia, acesse “www.meninosquevicrescer.com.br”.

 

O Juca caiu… Com quase um quilo de maconha

Juca, o celular 'X 9' e a droga...

Juca, o celular ‘X 9’ e a droga…

No final da manhã desta sexta, 07, o Inspetor interino Ricardo Teobaldo  recebeu uma informação detalhada de um amigo oculto da lei que dizia:

– O Juca acabou de receber uma remessa de maconha, mais de quilo! A droga deve estar dentro do Vectra verde com placa de Campos Gerais ou dentro do escritório do Lava Jato Bom Jesus… Vá lá agora que vocês pegam o ‘playboy’ com a mão na erva!!!

Teobaldo, que já andara investigando João Alves de Souza Junior, o “Juca”, imediatamente passou a informação ao seu chefe, delegado Gilson Baldassari, e foram checar a informação na Bom Jesus, no centro da cidade.

Era verdade!

A denuncia do amigo oculto da lei foi precisa!

No interior da geladeira do estabelecimento o detetive André encontrou o primeiro patuá de maconha. O restante da erva marvada – 17 patuás – estava mocosado no interior do aspirador do pó jogado num canto do escritório.

– A maconha que está na geladeira é minha, para meu uso… Mas a que está no aspirador de pó eu não sei de quem é… – Alegou João “Juca” Alves de Souza Junior, 33 anos.

– Quando chegamos ao lava jato, o Sr. Juca estava completamente ‘chapado’, sob o efeito de alguma droga… – disse o delegado Gilson Baldassari.

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Minutos depois da prisão do Juca e apreensão da droga, do carro e do celular do playboy, já na DP, o aludido celular tocou. Teobaldo que redigia o Reds atendeu se passando pelo dono do aparelho e ouviu a seguinte consulta de um provável fornecedor:

– E aê, Juca, você vai querer outra remessa somente de erva ou vai querer “doce” também? … Ok, ligo mais tarde confirmando a remessa!

Antes de tipificar o crime do Juca, o titular da Especializada no Combate ao Trafico ficou na dúvida… Como a maconha foi encontrada no interior do lava jato, dentro da geladeira e do aspirador de pó, o delegado não sabia se enquadrava “Juca” ‘envolvimento com o pó’, por vender ‘droga fria’ ou por ‘lavagem de droga’!!!

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Além da droga no aspirador, Juca não soube dizer a quem pertence o Vectra verde citado na denuncia, o qual estava no seu estabelecimento e jurou de pés juntos que é apenas ‘canabista’. Como “guardar” é um dos verbos sinônimo de “trafico” de drogas mencionados na Lei 11.343, Juca sentou ao piano, assinou o 33 e foi se hospedar no Hotel do Juquinha.

… A julgar pela assistência jurídica recebida pelo traficante antes e durante a lavratura do flagrante, esse aspirador do Juca tem muito mais ‘pó’ do se imagina!!!

 

“”” Abrace seu filho… Não deixe que as drogas o abracem!!! “””

*** Neste final de semana voce vai saber como surgiu o “Ribeirão das Mortes”…

 

 

Holyfield não voltará mais para o ringue

Numa noite morna de inicio de 2007 um cidadão alto, atlético, de cor negra entrou num boteco do bairro Arco Iris em Santa Rita do Sapucaí e pediu um refrigerante. Sorveu o liquido lentamente meio ressabiado, meio tenso, como se estivesse prestes a tomar uma grande decisão. Logo em seguida saiu lentamente do boteco e ficou por ali, nas imediações. Não tardou o botequeiro baixou as portas e se dispos a ir para casa ali perto, acompanhado da namorada, uma bela morena… Que tinha outro pretendente! Quando o casal abraçado passava por um ponto pouco iluminado, ainda perto do bar, o ‘atleta’ do refrigerante surgiu por trás, na penumbra da noite, de arma e punho e mandou bala. Uma delas pegou de raspão na morena namoradeira. A outra acertou a nuca do botequeiro! A capsula calibre 32 certamente tinha pólvora suficiente apenas para vomitar o projetil, mas fez pouco mais do que cócegas na nuca do dono do boteco. Depois de socorrido ao hospital e fazer um curativo ele nem precisou de licença do trabalho. Nos dias seguintes continuou dirigindo o costumeiro caminhão da prefeitura, onde trabalhava… Apenas com o pescoço duro! Antes de dobrar a serra do cajuru com o revolverzinho 32 de meia tijela, o atirador arrancou o relógio prateado do pulso do algoz e levou com ele… E o relógio nos levou até ele!

No ano anterior havíamos colocado dez dos onze homicídios ocorridos na cidade em pratos limpos… A primeira tentativa de 2007 não passaria em branco. Logo pela manhã saímos na sombra do pretenso assassino e ladrão de relógio. Aliás, a primeira coisa que descobrimos é que o roubo do relógio fora um ‘acidente de percurso’! O objetivo era apenas matar o casal! O atirador negro era o cidadão conhecido por Hollyfield, morador do bairro Recanto das Margaridas, genro do Pelé. O crime fora encomendado, por motivos passionais. Um cidadão da terceira idade, morador da zona rural da cidade nutria fervorosa paixão pela baiana, mas ela preferiu o botequeiro de horas vagas, motorista da prefeitura. Com o coração partido, o sitiante resolveu mandar furar os corações da baiana e do namorado. Para isso pagara R$ 200 à Hollyfield!

Chegamos a esta conclusão por volta de três tarde daquele dia. Faltava agora chegar ao latrocida. Ele trabalhava de serviçal no Hospital Antonio Moreira da Costa – diga-se de passagem, ótimo funcionário e muito bem quisto pelos colegas de trabalho – mas deixara o local às duas da tarde. Fomos acha-lo batendo papo numa obra recém iniciada numa esquina da rua das rosas. Parecia ser uma prisão simples, em flagrante, mas foi bastante tensa. O moço fazia jus ao apelido de Hollyfield! Tinha praticamente o mesmo porte físico do campeão dos pesos pesados americano…! Éramos três, eu, o compadre Benicio e o jovem Klebinho. Parecia fácil para três policiais com deois 38 e uma .40 na cinta prender um suspeito. Parecia! Em campo aberto se ele resolvesse correr, o que faríamos? E se ele estendesse os braços lado e lado e dissesse:

– Ok! Então coloquem as pulseiras de prata e me prendam… Quer ver quem se arrisca!

Usei minha costumeira frase que carreguei comigo durante 27 anos…

– Hollyfield, o delegado está precisando de você na delegacia. Vem com a gente…! – E abri a porta lateral da velha Parati preto & branco estendendo a mão esquerda de ‘boas vindas’. Ele titubeou por um ou dois segundos olhando para a própria bermuda e perguntou:

– Agora?

Com a mão direita apoiada no cabo do 38 por baixo da camisa azul, respondi com uma firmeza que não deixava dúvidas…

– Agora!

Apenas mais um segundo de hesitação. Hollyfield se despediu do pedreiro com o qual conversava, baixou a cabeça e entrou na viatura. Preferimos nem colocar-lhe as pulseiras de prata. Só depois de algumas quadras ele abriu a boca…

– O que está acontecendo, Benicio? – Perguntou.

– Parece que teve um probleminha no Arco Iris ontem à noite… O delegado quer conversar com você. – Disse vagamente o velho policial prestes a se aposentar. Hollyfield deu uma encolhida no banco ao lado do Kleber. Pelo retrovisor percebi que ele suava frio. Alguns minutos depois, já na baixada do Maristela, ele pediu para abrir a janela da viatura – o que foi negado. Quando descemos na porta da delegacia da Quintino Bocaiuva ‘seu’ relógio ficou para tras, meio prensado entre o banco e encosto da Parati… Se a janelinha tivesse sido aberta lá atrás, o relógio teria ficado no meio da rua Juca Castelo… O relógio retirado do pulso do Ernani na noite anterior! O revolver 32 com as duas capsulas vazias achamos na manhã seguinte numa moita no pasto da fazenda que margeia a Avenida Bilac Pinto, por onde ele passou em fuga na noite passada.

Leandro "Holyfield" Mendes Mota: Afogado no Rio Sapucaí

Leandro “Holyfield” Mendes Mota: Afogado no Rio Sapucaí

A fracassada tentativa de homicídio passional seguida de roubo custou ao ‘pistoleiro’ Hollyfield 7 anos e meio de hospedagem no Hotel Recanto das Margaridas. De lá ele viu o irmão Renatinho afundar mais do que ele no crime e matar um desafeto pelo controle do trafico. Viu também o irmão caçula, Filipinho, passar de “dimenor” a “dimaior” afundado até o pescoço em crimes diversos. Viu até a irmãzinha adolescente, aquela que ficava com os olhos parados abobalhada quando me via e na despedida só conseguia dizer: “Gatão”! ser também, presa no 33 e ir fazer-lhe companhia. Viu até a sofrida mãe, sem marido, rodar no 33. Dois anos depois Hollyfield ganhou sua primeira e tão sonhada “saidinha de 7 dias”. Seus companheiros de ‘caminhada’ juraram de pés juntos que ele havia participado do famoso assalto ao Bancob de Santa Rita durante a ‘saidinha’…! E ele assinou mais um 157!

Atualmente Hollyfield estava em liberdade condicional. Até a ultima terça feira, 04, estava trabalhando numa draga retirando areia do Rio Sapucaí. Por volta do meio dia ele mergulhou nas aguas amarelas do rio e não voltou à tona. Seu corpo foi encontrado quase 48 horas depois, boiando a cerca de dois quilômetros rio abaixo. Há controversas sobre o motivo do mergulho no rio. Uns dizem que ele caiu acidentalmente entre a draga e o rebocador… Outros dizem que ele mergulhou no rio para se refrescar no intervalo do almoço. O fato é que Leandro Mendes Mota, o ‘nosso’ Hollyfield, 27 anos, definitivamente não voltará para o ringue e nem para o Hotel Recanto das Margaridas.

 

Hotel do Juquinha recebe aparelho de TV… Recheado de celulares!

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Três e meia da tarde desta escaldante segunda, 03… Uma motoca Honda Falcon encostou na portaria do Hotel do Juquinha trazendo uma passageira. Mal a garotinha saltou da garupa levando nas mãos uma televisão antiga, de 14 polegadas, o motoqueiro rodopiou no cascalho e dobrou a serra do cajuru. Com grande esforço, que chegava suar o protótipo de bigodinho, a bonita garotinha chegou à portaria e disse com voz suave e tremula:

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– Vim trazer esta TV para o meu irmão!

Segunda feira é o dia fixado pela administração do Hotel do Juquinha para o recebimento de material de higiene… Apenas para o hospedes no período de triagem! Não era o caso do irmão da jovenzinha! Assim mesmo, imaginando um provável engodo, os agentes receberam a encomenda, passaram a garotinha para o lado interno do portão, chamaram três advogados que lá estavam aguardando atendimento para presenciar o ato e iniciaram a revista da encomenda…! Em poucos minutos desmontaram o arcaico aparelho de TV. Aparentemente não havia nenhum ‘objeto estranho’, nenhuma encomenda surpresa entre o tubo e a caixa plástica da TV. No entanto, o experiente agente percebeu que a tampa de plástico estava um pouco mais pesada do que o normal! Ao desmontar a tampa… Eureka!!! Surgiu a encomenda! No fundo falso artesanalmente adaptado com papelão, massa, cola e fita crepe havia quatro aparelhos de celular e três carregadores respectivos.

O aparelho de TV recheado era para o preso Alexsander de Paula Moreira, o “Alex da Gesonia”, condenado por porte de arma em 2012 e preso em maio do ano passado quando se preparava para arrombar mais um caixa eletrônico na região.

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Se além dos aparelhos telefônicos a garotinha estivesse levando também drogas, o juiz da Infância e da Juventude, Walter Jose Vieira, fatalmente iria ‘segurá-la’ por uma temporada de 45 das de reflexão no Hotel do Juquinha. Enfurnada, com cara de poucos amigos, C.P.M. foi econômica nas declarações a este colunista, mas deixou escapar sua insatisfação com alguns leitores do Blog…

– As pessoas só falam mentiras da minha família! – disse ela com uma pontinha de revolta.

Em menos de um ano atrás das grades, esta não foi a primeira vez que Alex da Gesonia, 19 anos, conectou-se ou conectaria com o mundo externo através do celular. Em agosto passado ele navegava pela internet de dentro do Hotel do Juquinha, belo e formoso como se estivesse num Spa! Navegava até um atento leitor do Blog fez a denuncia e a linha ‘caiu’!

Em poucos mais e um ano da atual administração do Hotel do Juquinha, os diretores já perderam a conta de quantos aparelhos já interceptaram nas revistas pessoais dos visitantes e nas ‘jumbadas’…

– Entre celulares e carregadores foram mais de trezentos… – Diz o diretor social Sergio Morais.

O acesso de objetos proibidos ao presidio é diversificado. Pode ser num fundo falso de uma inocente e arcaica TV – como a entregue pela garotinha C.P.M. – pode ser dentro do corpo – tanto por ‘frente’ quanto por ‘trás’ – ou por via aérea! Em dezembro passado quatro aparelhos desceram de ‘paraquedas’ acomodados dentro de um par de botas! O aviador errou o alvo e a botina voadora aterrissou na fabrica de blocos no pátio externo… Não funcionou!

C.P.M. perdeu os aparelhinhos e a TV – que talvez nem funcionasse! – e deve ganhar apenas um ‘puxão de orelha’ do Homem da Capa Preta.

Caiu a casa da Flavia Ruiva…

Flavia Ruiva: ... De trás das grades do sobradinho da Sapucaí, para trás das grades do Hotel do Juquinha!

Flavia Ruiva: … De trás das grades do sobradinho da Sapucaí, para trás das grades do Hotel do Juquinha!

Ela tem contra si uma infinidade de denuncias de amigos da lei, via 181. Só o “Blog do Airton Chips” recebeu uma dúzia de comentários informando como “Ruiva” distribui drogas na porta de sua casa na Sapucaí. Os detetives da Especializada de Combate ao trafico instalaram câmeras secretas nas imediações e filmaram a dinâmica do comercio ilícito. Aliás, dinâmica tão simples como somar 2 x 2… Em poucos minutos de filmagem é possível ver mais de uma dezena de nóias do velho Aterrado e de outros barros e até do centro se aproximando da grade, estendendo a mão direita com o dim-dim e saindo sorrateiramente com a droga na mão esquerda. Tem momentos que Flavia Ruiva mal consegue segurar a bufunfa numa mão só…! Notas de cinco, de dez e de vinte surgem como grama em suas mãos. A fiel escudeira Thalia, sua cunhada, do lado de fora do sobradinho, se encarrega de conduzir os novos clientes que ainda não conhecem a ‘boca’, até a grade! Até pessoas acima de qualquer suspeita, que ‘pagam’ de bonitões no centro – será que você não aparece na fita, não? – vão bater à grade de Flavia Ruiva na bifurcação da Sapucaí com uma nota de dez na mão. Toda esta movimentação está gravada em CD e será apresentada ao Homem da Capa Preta esta semana, juntada ao Auto de Prisão de Flagrante da ultima quinta 28. Ironicamente a traficante – que se não fosse denunciada por amigos ocultos da lei, acabaria assumindo brevemente a coroa da “Rainha Mara”, deposta do trono em 2010 – caiu antes da hora, após tropeçar numa singela roupinha de bebê!!!

Eram 10h40m da manha de quinta 28, quando o jovem Alex Gomes Augusto adentrou a loja Super Star  Kids na Doutor Lisboa, acompanhado de uma mulher  e pediu para ver roupinhas de batizado. Enquanto sua companheira atraia a atenção da vendedora, algumas peças de roupas ‘escorregaram’ para sua sacola. Fingindo desinteresse pela mercadoria ele se despediu e foi embora sem comprar nada. Logo que saíram a vendedora resolveu checar seu “Big Brother” e constatou a tramoia. A policia militar compareceu ao local, registrou o fato e o caso teria ficado o dito pelo não dito, se Alex não tivesse voltado ao local do crime. Por volta de quatro da tarde do mesmo dia Alex desfilou belo e charmoso pelas imediações da Super Star Kids. Desta vez os homens da lei chegaram a tempo de oferecer as pulseiras de prata ao gatuno de roupinha de bebê. Chamado na chincha, Alex deu a fita.

– Eu troquei as roupinhas por três pedras bege fedorentas na esquina da Sapucaí…

Minutos depois Flavia de Fatima Alves a “Flavia Ruiva” recebia os homens da lei em sua casa para o chá das cinco! Além das roupinhas furtadas na Super Star Kids, os policiais encontraram também 28 pedras beges fedorentas num cesto de roupas na sala de sua casa e ainda R$ 184 em notas de porta de igreja e dois celulares.

– Minha cunhada Thalia era usuária de crack… Acho que a droga é dela – Disse solenemente a “Ruiva”.

– E quanto à esta pilha de denuncias de trafico na sua residência? – perguntou o delegado, só para ouvir mais uma ‘perola’!

– Meu filho Juliano, que é ‘dimenor’, costumava vender droga… As denuncias devem ser por isso… – respondeu Flavia sem ficar vermelha.

Flavia Ruiva, 37 anos, cresceu vendo os irmãos Flavio Cagão e Daniel Daniboy enroscado nas barbas da justiça. Flavio foi assassinado há dez anos pelos irmãos ‘Mateus’, depois de matar um deles e Daniboy, na caminhada desde a adolescência, está por conta do contribuinte na Penitenciaria Nelson Hungria, acusado de varias tentativas de homicídio por conta do trafico, no ano passado. O filho Juliano só não vai fazer companhia a ela no Hotel do Juquinha, por conta da tentativa de assalto ao Supermercado Alvorada em 2013 porque a lei ainda não autoriza a prisão de “dimenor”!

Apesar de todo este imbróglio, não estranhem os leitores se Flavia Ruiva voltar a desfilar na Sapucaí e distribuir drogas através das grades do seu sobradinho dentro de alguns meses! É que, embora já esteja no comercio da pedra a algum tempo, esta é sua primeira cana, seu primeiro processo… Apesar de ter assinado o 33 e o 180, ela é primaria. Vai pegar a pena mínima, de 5 anos, reduzida de um terço. Como nossa lei penal é flácida e cheia de buracos, Flavia não criará raízes no Hotel do Juquinha! Mas por ora, verá o sol quadrado…!