Eram cerca de dez da noite deste domingo dia, 16, quando a campainha do incansável telefone 190 tocou no quartel da policia militar de Pouso Alegre. Do outro lado da linha uma voz assustada e entrecortada por gemidos de dor, dizia;
– … Eu fui seqüestrado… Sou o prefeito de Congonhal! Estou muito ferido…!
Foi assim, despenteado, desalinhado, com o rosto sangrando, gemendo e segurando a costela esquerda, que a policia militar encontrou Rubens Vilela dos Santos Junior, o Juninho, nas imediações da Bloquel, no Trevo da Fernão Dias. Ele fora assaltado e levado no próprio carro até o bairro São Fernando, onde foi espancado até perder os sentidos e deixado amarrado, amordaçado e desacordado ao pé de uma arvore.
O roubo aconteceu quase na porta de uma igreja evangélica na Avenida Mario Silveira, no centro de Congonhal, por volta de oito e meia da noite.
– Depois da reunião na igreja, enquanto as pessoas foram embora eu fiquei conversando com o Vilela – seu candidato a vice – encostado na caminhonete. Percebi que um grupo de garotos desconhecido passou por ali, subiu e desceu a rua, mas não dei importância. Quando o Vilela foi embora entrei no carro e quando fui dar a partida, os moleques chegaram de repente e anunciaram o assalto – Contou Juninho.
O prefeito foi colocado no banco de trás da caminhonete Fiat Strada e sob constantes ameaças de morte, caso não entregasse dinheiro, seguiram em direção à Pouso Alegre. Saíram da BR 459, entraram no bairro JK, voltaram para 459 e entraram no bairro São Fernando defronte a Bloquel. Após tomar carteira com documentos e vinte reais, um cordão de ouro, aliança, relógio e celular do prefeito os assaltantes amarraram suas mãos postas, abraçado a uma arvore e o amordaçaram.
Antes de deixar o local levando a caminhonete os moleques espancaram covardemente o prefeito, com socos e coronhadas de revolver no rosto e chutes nas costelas. Juninho chegou a perder os sentidos. Quando voltou a si cortou as amarras com os dentes e saiu em busca de socorro. Ainda no bairro São Fernando, tocou o interfone de sua casa e pediu ajuda, mas a mulher que o atendeu, com receio de abrir a porta, mandou que ele fosse procurar o vigia de uma indústria ali perto, nas margens da BR 459.
Devidos às agressões sofridas e suspeitas de fratura nas costelas, Juninho passou o restante da madrugada em observação no Hospital Regional. Recebeu alta medica no final da manha desta segunda para ser interrogado na Delegacia.
À uma da manhã desta segunda, a policiais militares avistaram uma caminhonete semelhante à que fora roubada, nas proximidades da terminal rodoviário de Pouso Alegre e resolveu abordá-la. Era a própria!
Quando se aproximaram, os assaltantes se afastaram em alta velocidade em direção ao bairro São João. O que os ladrões já esperavam – aliás, até os grandes meliantes nunca planejam cem por cento seus crimes, muito menos os pés-de-chinelos – é que a policia mantêm de seis a oito viaturas interligadas patrulhando a cidade 24 horas por dia… Enquanto uma seguia fungando no seu cangote, outra vinha de frente, do bairro São João. O encontro se deu na Avenida Augusto Gomes de Medela, na Remonta. Para não bater de frente com a viatura policial, os assaltantes frearam bruscamente no meio da pista. O policial que vinha atrás não teve tanta pericia e ‘chapou’ a traseira da caminhonete roubada. Os quatro ocupantes ainda tentaram vazar à pé, mas caíram nas malhas da lei.
Lucas Bento Pereira, 18 anos, Luiz Fernando Faria, 20 anos, Tiago Raimundo da Silva, 18 anos, todos moradores do Bairro São João e D.S.L. 17 anos morador do São Geraldo, juram de pés juntos que queriam apenas o dim-dim de Juninho e nem sabiam que ele é prefeito de Congonhal!
O revolver calibre 38 usado no assalto bem como os objetos roubados, foram encontrados debaixo do travesseiro sobre a cama, na casa do meliante Lucas. A outra pistola era de plástico e foi abandonada no local do cativeiro, no São Fernando. O quarteto assinou o 157 e o 288 e foi se hospedar no Hotel do Juquinha.
A noticia do seqüestro relâmpago do prefeito e candidato à reeleição caiu como uma bomba na pequena e agitada Congonhal, no final da noite de ontem. Os correligionários viram o roubo e espancamento como crime político. Como uma tentativa de pressionar Juninho a desistir da reeleição.
A cidade cuja transição política municipal costuma ser a mais conturbada da região nas ultimas décadas, havia se acalmado nos últimos anos. O assalto e espancamento do prefeito na noite de ontem, fez a política voltar a ferver.
Segundo Juninho, uma de suas assessoras já o teria alertado para a possibilidade de agressões e ameaças. Dias antes ela teria ouvido um correligionário da facção política adversária dizer:
– Ele vai ver o que vou fazer… Vou mandar deixar ele roxinho, roxinho…!!! – Conta o prefeito.
Durante o trajeto de Congonhal para Pouso Alegre, Juninho teria ouvido um dos assaltantes dizer ao celular;
– “Positivo” … ele está com a gente – O que o leva a crer que o assaltante estava avisando um possível mandante sobre o sucesso do crime.
O delegado Bruno Lopes, que responde pela delegacia de Congonhal, o Inspetor Batista e seus detetives, que investigam o roubo seguido de espancamento, não encontraram provas ou indícios que dêem conotação política ao crime praticado pelos pós-adolescentes;
– Interrogamos longamente os moleques… Eles alegam que escolheram a vitima por acaso. Queriam apenas um carro para voltar para Pouso Alegre e levantar uns trocados. Queriam a todo custo que a vitima entregasse o cartão de credito – dizem os policiais.
– Além do mais, eles não tem ‘caixa’ para ter ligações com políticos da cidade, mal sabem conversar – afirma outro detetive.
– São tão despreparados que depois que chegaram à Pouso Alegre, ao invés de sumir com o carro roubado ou entregá-lo a um possível receptador, foram rodar pela cidade com o produto do crime – diz outro.
É verdade. Esta é a impressão que passa. No entanto, a policia civil não descarta nenhuma possibilidade. Os garotos, embora aparentem ser pés-de-chinelos, podem ser ‘testa de ferro’ de alguém mais gabaritado, capaz de intermediar a execução do crime para pressionar o prefeito a desistir da reeleição!
… Mas isso é só conjectura…!
Na eleição passada, enquanto duas facções políticas principais da cidade se engalfinhavam na luta pela prefeitura, surgiu uma terceira, encabeçada pelo carismático e bondoso “Tiãozinho da Caixa”. Quando parecia que ele levaria fácil a eleição, acabado com a ferrenha disputa dos últimos anos, alguém soltou uma ‘pulga’ na cidade:
– Nós desistimos de brigar pelo nosso candidato e vamos todos votar no Tiãozinho… Mas, e se pessoal do outro lado nos enganar, disser que vai votar no Tiãozinho e votar no nosso adversário?
A pulga coçou também a orelha dos correligionários do outro candidato e, ‘debaixo do pano’, cada um voltou para sua antiga facção. Juninho venceu, apertado, a eleição. Tiãozinho da Caixa, o “candidato do consenso” ficou em terceiro com pífia votação de menos de 5% do eleitorado.
Assim tem sido a política municipal de Congonhal desde a década de 80…
O curioso é que Juninho venceu sua primeira eleição, apoiado pelo ‘coronel’ Sebastião Lucio dos Santos, o “Tiãozinho” ou “Dr. Sebastião”, tendo como vice Ricardo. Agora ele apóia Ricardo para prefeito…
Assim tem sido a política municipal de Congonhal desde a década de 80…
Se o crime cometido contra o prefeito Juninho ontem a noite, foi encomendado ou não, não importa! O estrago está feito. Foi um tremendo tiro no pé…!!!