O Misterio do Coisa Ruim da Borda

       Olá… Feliz ano novo.

       Que a benção de Deus Pai criador caia sobre voce, meu estimado leitor e que seu filho, nosso irmão Jesus, continue a iluminar seu caminho e guiar seus passos. Que Ele te dê força, perseverança e sabedoria para vencer seus desafios com seu trabalho digno e honrado, sem derrotar ninguem. Amém.

       Como o leitor deve ter percebido, estou ausente do meu ‘habitat’, longe de casa, alheio aos fatos cotidianos. Mas, mesmo sem novidades no blog, os leitores continuam acessando… Por isso eu também resolvi dar-lhes um presente, que na verdade eu vinha guardando a sete chaves para o meu ‘primeiro livro’… Uma das melhores historias da serie “Meninos que vi crescer”; ‘O Misterio do Coisa Ruim da Borda’, exaustivamente investigada e escrita no final de 2009 e inicio de 2010, com fotografias do ‘palco’ do Chiquinho da Borda tiradas na semana passada.

      Boa leitura.

O mistério do Coisa Ruim da Borda

 

O Morro dos Cães uivantes

E os anjos e demônios nossos de cada dia

       Parei meu carro na praça ao lado da jovem Basílica de Nossa Senhora do Carmo – jovem no titulo de Basílica a que foi elevada em 2005, pois a majestosa construção tem varias décadas. Foi concluída em 1954 – as duas e meia da tarde quente de sábado e desci. Entrei na primeira loja que vi aberta. Completamente vazia. Um rapaz e uma moça estavam de frente um para o outro acertando contas, com papeis, dinheiro e anotações sobre o balcão. Cumprimentei-os e antes que eu dissesse mais alguma palavra, do nada surgiu uma vendedora, abriu um sorriso ligeiramente forçado e perguntou delicada; “Posso ajudar”? Com um leve pigarro, esbocei também um sorriso de boca fechada, esperei propositalmente o ponteiro do relógio caminhar alguns segundos e respondi perguntando; “ O que vocês me contam sobre o ‘Coisa Ruim da Borda’”? Uma bomba teria causado menos impacto. Os três olharam ao mesmo tempo para mim, olharam um para o outro, olharam de novo para mim cada um tentando formular uma resposta ou uma pergunta. Eu já havia chamado a atenção necessária, desisti da maldade e acrescentei; “Desculpe… eu sou colunista policial em Pouso Alegre e estou aqui investigando a historia do tal Coisa Ruim da Borda, para publicar em minha coluna e no meu blog”. Soltando a respiração, cada um dos três tentou falar ao mesmo tempo, para dizer que nada sabiam a respeito. Uma das jovens tinha ‘ouvido falar há muito tempo’. A outra disse que seu ‘pai contava uma historia dessas’ mas ela não se interessara ou não se lembrava. O rapaz já refeito do susto disse que ‘talvez o padre ou o sacristão ali do lado soubesse alguma coisa’ e recomeçou a contagem perdida das cédulas sobre o balcão. Eu estava começando desvendar o mistério do Coisa Ruim ou Capeta da Borda.

        Ao ver que as portas da Basílica estavam fechadas segui pela mesma calçada da loja em direção à Casa Paroquial. Na esquina havia um senhor septuagenário sentado no portal térreo de um sobradinho aproveitando a sombra da Basílica e eu não fiz cerimônia; pedi licença, sentei-me ao seu lado e puxei prosa. Mas poupei-lhe o susto. Antes de entrar no assunto que me interessava eu disse quem eu era e o que queria. O simpático e desembaraçado velhinho contou-me tudo que sabia – o que não era muito – realidade e folclore. Foi ali, vendo o tempo mudar e uma cortina branca despencando sobre o Distrito do Sertãozinho, se aproximando da cidade, que eu soube que o Coisa Ruim da Borda nunca passou da “Ponte de Pedra” e que se voltasse para a fazenda de onde foi expulso seria chamado de “Coisa Ruim de Tocos do Mogi”. Depois do solícito velhinho, cheguei ao muro da Casa Paroquial, mas o sacristão, zelador, camareiro ou mordomo dos padres não se deu o trabalho de falar pessoalmente comigo. Usou o frio interfone para informar que não havia padres em casa, mas que talvez eu conseguisse receber a benção de um deles no Centro Pastoral ou na igreja, na missa da cinco.

        Cheguei com três beatas bem maduras ao Centro Pastoral. Uma delas até quis falar alguma coisa sobre o tal capeta, mas quando a outra mais acanhada e desconfiada descobriu que algumas pessoas já estavam reunidas nos fundos do Centro, elas me deixaram falando sozinho. No ponto de táxi, agora sob os primeiros pingos grossos de uma chuva que se espalhou e não banhou a cidade, devolvendo o sol forte a todo o município em poucos minutos, enriqueci bastante o dossiê do Coisa Ruim e sua saga e levantei nomes de pessoas que poderiam me dar muitos capítulos de sua historia. Com menos de duas horas de investigação na cidade do grande desportista Rogerinho Medeiros, eu já poderia desvendar e escrever quase todo o mistério do Coisa Ruim. Mas, não teria graça nenhuma se não conhecesse o palco de sua exibição e não sentisse seu bafo quente em minha nuca. Por isso só deixei a cidade no apagar das luzes do astro rei, depois de visitar o sombrio casarão do alto da colina, na estrada que vai para Bom Repouso, onde precisei segurar com força minha cruzinha dourada no peito e quase cair numa vala da estrada em obras, para desviar de um fusca velho que se jogou de porta aberta sobre mim numa descida.   

      Bem, antes de prosseguir com esta historia cheia de controversas, tabus, superlativos, perturbação do sossego, folclore e muito medo, para melhor entendimento do leitor e evitar a incansável repetição do termo Coisa Ruim da Borda – que pode acabar assustando alguma criança – batizemos personagens e locais desta historia arrepiante e até aqui mal contada. O palco das exibições do chifrudo, tinhoso, bode velho, saci ou simplesmente Espírito Brincalhão chamaremos de ‘Colina ou Morro dos Cães Uivantes’ – Não confundir com o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Bronté – O fazendeiro que fez o pacto com o espírito perturbado será chamado de “Portuga”, homenageando sua origem além-mar, o pá. A jovem noiva prometida chamaremos apenas de “Donzela”. O irmão dela, único remanescente vivo da família, testemunha ocular e auditiva da macabra historia chamaremos pela inicial de seu nome,  “R.”. O “dito cujo” já tem nome. Muito além das cercanias da Borda as pessoas que ouviram, mesmo que por alto sua historia, já sabiam que ele se chamava “Chiquinho”. Ele próprio se apresentou ao seu anfitrião com este epíteto carinhoso quando veio buscar sua donzela prometida, em 1953.

       Bom, agora que nos tornamos mais íntimos, vamos falar francamente; “…Que atire a primeira pedra….” quem nunca viu o capeta!!! Ora, ora, ora, todos já vimos e cada um de nós o pintamos de acordo com nossa conveniência. Eu já estive cara a cara ou ‘costas à cara’ – Sua principal característica é a traição – com ele inúmeras vezes. Apesar de conhecer ‘an passant’ a historia do Coisa Ruim da Borda, só na capital do pijama esbarrei neles umas quatro vezes.

       A primeira vez foi em 1970. Eu estava no forro da casa do Sr. Jairo, no bairro Santa Rita, fazendo instalação elétrica quando ele veio me ‘atentar’. Meu mestre Sr. Guarino, que morava na esquina da Rua São João com São Pedroem Pouso Alegremandou que eu fizesse o isolamento da fiação e advertiu; “ … pode tocar sem medo nos fios descascados, desde que seja em um de cada  vez”. Foi aí que apareceu o capeta e começou soprar no meu ouvido: “ toca nos dois para ver o que acontece..”. Além de ‘atentar’ orientou meu plano. Pendurei a corrente prateada do meu canivete num fio, segurei o outro e toquei levemente o dedo na corrente. Acordei com o vozeirão do obeso Guarino praguejando, subindo a escada a minha procura; “…Ô moleque preguiçoso… dever estar dormindo”. E o pior é que ele me pegou meio grogue tentando me levantar. O choque não foi tão forte, mas eu estava próximo de uma viga e no pulo que dei para trás bati a cabeça e desmaiei. Despertei com o chamado desacorçoado do patrão.

          Meu emprego de aprendiz de eletricista não durou muito. No ano seguinte quando trabalhava de vendedor ambulante o capeta me levou para a Borda outra vez. Eu estava vendendo pipoca na rodoviária velha da Praça João Pinheiro quando apareceu meu velho amigo Rui – Aos doze anos de idade eu já tinha velhas amizades! – e convidou: “vamos vender pipoca na festa da Borda?”. Não esperei que ele repetisse o convite. Saímos da Praça João Pinheiro 01;15h da tarde e seguimos a pé, empurrando o carrinho de pipocas doces multicores e amendoim com chocolate, estrada afora. Na baixada da Imbuia havia um mutirão de lavradores carpindo arroz na várzea alagada. Ao ver o carrinho todo enfeitado de pipocas verdes, amarelas e vermelhas passando na estrada, as pessoas foram se aproximando curiosas. Só ali vendi pipocas para um dia inteiro. Chegamos à Borda às 07;20h da noite e depois da melhor refeição que eu já fizera na vida encostamos o carrinho colorido na Praça N.S. do Carmo, perto do Chafariz. Em pouco mais de uma hora não havia pipoca nem para remédio no carrinho branco. Foi a primeira e única vez que alguém foi vender pipoca doce, grudenta e colorida na Festa da Borda. Vendi tudo pelo dobro do preço. Ganhei naquele dia o que levaria três semanas para ganhar. E a volta para casa? Duraria outras sete horas estrada afora na madrugada gelada de julho? Não. Se o Coisa Ruim me arrastou para aquela aventura irresponsável, esqueceu comigo pelo menos um anjo de plantão. Logo que cheguei à praça vi uma kombi com carroceria aberta, da loja de ‘Moveis Novolar’ de Pouso Alegre, cujo sócio era o César, sogro do Renato da Casa dos Parafusos. Ele era meu vizinho na rua Amadeu de Queiroz no bairro da Saúde. Voltamos de carona. Eu, o amigo Rui, um ano mais velho que eu e o carrinho vazio. Antes das dez da noite desembarcamos ao lado do mercado municipal. Waltinho, filho do meu patrão Santos Teobaldo, já estava a minha procura. Expliquei que estava numa festa na Vendinha. Ninguém nunca ficou sabendo da minha aventura.

      Em 81 vi dois capetas da Borda de uma só vez. O delegado de Transito tinha o habito de resolver problemas de estelionato, desfazendo negócios mal feitos, sem seguir os tramites legais, desde que levasse “alguma vantagem pessoal”. Um belo dia me chamou ao seu gabinete e disse; “Vá com o Celio na cidade de Borda e faça a apreensão de um Chevette branco que esta em poder de Sicrano num sitio na estrada de Tocos do Mogi e traga para a delegacia. Ainda fresco na policia, mas não bobo, questionei sobre o Mandado de Busca e Apreensão e o oficio de apresentação ao delegado titular da Comarca da Borda. Ele disse;

– Trata-se de uma apreensão informal. Fale com o delegado e qualquer coisa peça a ele para me ligar – orientou o delegado. Falei. O ‘capeta da Borda’ torceu o nariz e disse apenas:

– Não vou proibi-lo de levar o carro mas se tiver algum problema, “se vire.” – Respondeu o delegado, de má vontade. Não tive problema. Com todo jogo de cintura do mundo convenci o velhote a devolver o Chevette, pois ele fora pago pelo seu genro Gilberto C. de Camargo com cheque sem fundos. Ele mesmo veio dirigindo o carro até a porta da delegacia de Pouso Alegre comigo atrás, o que descaracteriza qualquer tipo de abuso de autoridade de minha parte. Três dias depois fui chamado ao gabinete do delegado de transito no final do expediente e enfrentei os dois capetas de uma vez. O delegado da Borda era inimigo mortal do delegado de transito e usou o pequeno ‘incidente’ jurisdicionalem sua Comarca, ainda que sem conseqüências, para ir à forra. O delegado de transito simplesmente negou que tivesse dado-me tal ordem. O de Borda, sabendo que não era verdade, passou a maltratar-me e xingar-me profissional e pessoalmente, com os piores nomes do vocabulário policial. Só não de me chamou de Coisa Ruim da Borda. Tudo isso diante do olhar venenoso e plácido do delegado de transito atrás da mesa, que não abriu a boca para assumir sua responsabilidade. Fui xingado, provocado, espezinhado, aviltado e cutucado com vara curta por um capeta diante de outro e precisei ser muito forte para segurar meus punhos, minha língua e meu emprego. Mas venci os dois coisa ruim da Borda.

       Em 89 tive outro encontro com o capeta da Borda no estádio municipal. E desta vez ele tinha nome, endereço, cepeefi, erregê e “carteirinha de ‘mala’, injusto e fanfarrão”. Wando Chagas, vulgo Brinquinho, morador do São João, encrespou comigo por nada, simplesmente para fazer graça para sua galera. Naquele ano seu time, o Sport Clube Cantareira, decidiu o titulo da Copa Sul Mineira de Futebol, ‘Copa Belato’, contra a Seleção de Congonhal. Pouso Alegre não tinha estádio disponível para o futebol amador – A LEPA, não obstante o louvável trabalho realizado no período 87/92, também tinha seu capeta pessoal, que atendia pelo nome de J.M.C., que não reconhecia a autoridade da entidade-mãe e negava todos nossos requerimentos – por isso, a final do campeonato seria realizada na cidade de Estiva. Uma semana antes, no entanto, na semi-final, o time de Estiva havia perdido na bola e no tapa a vaga para Congonhal. A briga generalizada começou na arquibancada e foi para dentro do gramado. Levar a decisão do titulo para Estiva uma semana depois, seria impensável. Lua, Secretario de Esportes da Borda, colocou-me o estádio à disposição e para evitar um possível pandemônio, levamos a final do certame regional para a cidade que ainda engatinhava na produção de pijamas. Jogadores e diretores do Cantareira, no entanto tinham outra visão, achavam que eu tirara o espetáculo da cidade de Estiva para beneficiar Congonhal. E passaram a me hostilizar. Joguei a preliminar pela Seleção do campeonato e durante todo o jogo Brinquinho e sua charanga puxou o coro de ofensas a minha pessoa – com aquele palavreado próprio de campo de futebol – no estádio lotado. Na hora da solenidade de premiação, com a presença do homenageado, deputado Jose Adamo Belato e demais autoridades e convidados, Brinquinho e sua charanga veio postar-se próximo aos microfones e tudo que ouvimos foi a infernal barulheira de tambores, trombones e cornetas além do coro de “bicha”, “veado”, “safado”, “ladrão” e outras palavras e frases impublicáveis, que os anjos sabem, eu não devia. Brinquinho foi meu Coisa Ruim ‘na’ Borda e conseguiu ofuscar, embaçar, enferrujar e enlamear todo o brilho daquela final de campeonato em que seu time foi campeão ao vencer Congonhal, com méritos, por 2×0.

     Mas nem tudo na Borda é coisa ruim. Lá conheci também alguns anjos. Em 77, depois do passeio ciclístico de 1º de Maio, estiquei o passeio com um grupo de amigos até Borda da Mata, no final da fresca manha do Dia do Trabalho. No jardim do chafariz conheci um anjo de cabelos ondeados, olhos castanhos brilhantes, dentinhos separados e sorriso tão doce quanto mel. Tinha 16 anos e se chamava Cristina. Nas frias madrugadas nas guaritas do 14º GAC nas semanas seguintes, onde eu prestava o serviço militar, fiz diversas poesias para ela. Namorei Cristina durante vários meses…. Mas ela nunca soube disso. Reencontrei Cristina na delegacia de policiaem Pouso Alegreno final dos anos 90. Com uns trinta quilos a mais, cabelos ainda longos e desalinhados… nem reparei nos seus dentes. O anjo da Borda era agora tão doce quanto um sabugo de milho ou uma touceira de capim braquiaria.

      Mas antes do anjo cupido, conheci um anjo de verdade. Foi naquela noite de festa de Nossa Senhora do Carmo de 71, quando cheguei à cidade com o amigo Rui, empurrando o carrinho de pipoca colorida. Entramos na Rua Julio Cezario dos Santos onde estavam algumas crianças, e uma senhora, além de comprar a guloseima, puxou prosa. Quando contamos a ela que passamos a tarde toda viajando a pé de Pouso Alegre para lá, ela enfiou-se porta adentro e voltou um minuto depois com dois pratos alombados de comida que rapidamente comemos sentados na beira do passeio. Foi o melhor e mais saboroso feijão com arroz e bife que já comi em toda minha vida. Semana passada, no 5º aniversario da Basílica, quando cheguei à cidade para a missa das dez e meia, resolvi visitar o anjo que nos matara a fome naquela noite. Acostumada a boas ações e filantropia, é claro que ela não se lembrou do fato de 39 anos atrás, mas estava lá. Firme, forte, simpática e cada vez mais filantropa. Fiquei feliz de rever Maritana Furtado, meu “Anjo da Borda”, aos 83 anos esbanjando saúde, desenvoltura e vivacidade de cinqüenta e poucos.

A promessa do Portuga

        Apesar de em poucas horas levantar subsídios para contar a historia do Chiquinho, eu poderia contar como todo mundo, do ‘ouvi dizer’. Eu seria mais um dos milhares de cidadãos que começam dizendo: “meu avo contava…..”. “ Dizem que o padre…..”. “ O povo fala, mas eu acho….” . ou “ essa historia é invenção de quem ….”. Enfim, quase todo mundo ‘ouviu falar’, mas ninguém estava lá. Ninguém sentiu o pêlo arrepiar com a voz cavernosa do coisa ruim fazendo ameaças. Não ouviu sua voz rouca de garrote esperneando enforcado, brigando com padres e pessoas que o incomodavam. Não ouviu o assovio estridente do espírito brincalhão cantando pra Donzela. Não ouviu o choro triste e inconsolável de cães imóveis com o rabo entre as pernas com sua chegada. Não viu animais saírem correndo e pulando arreado ou em pêlo com ele invisível nas costas. Não viu cama suspensa no ar e nem objetos mudando sozinhos de lugar. E nem investigou a fundo a historia para conta-la. Alguns até que tentaram, mas esbarraram num tabu tamanho que desistiram. O padre exorcista nunca contou o que viu a ninguém, senão a outros poucos padres, arrancando-lhes o juramento de segredo. Os parentes que ainda vivem na Colina dos Cães Uivantes? Hum….. É melhor você não subir até lá para entrevistá-los. Pode não ter o mesmo jogo de cintura e as mesmas armas que eu. Como a principal fonte de informação do mistério, o padre Pedro Cintra que o expulsou, já não está mais entre nós, fui ouvir padres e ex-padres que conviveram com ele, na esperança que ele tenha contado alguma coisa do que viu e deparei com um pequeno mistério. No inicio da tarde de terça feira agendei um encontro com o ex-padre J.B. no seu local de trabalho, sem mencionar o motivo da entrevista. Quando cheguei ao seu gabinete, meia hora depois, ele estava com uma copia do relatório do Padre Cintra sobre a mesa, com toda informação que ele havia lhe contado alguns anos antes de morrer. Seu secretario havia extraído o artigo da internet e enviado a ele casualmente. Foi uma mera coincidência, é claro.

       Mas afinal, quem ou que era o Coisa Ruim da Borda e quais eram suas maldades e seus motivos?

       No inicio do século passado três portugueses vieram tentar a sorte na América do Sul. Desembarcaram na Argentina, mas não gostaram de ‘los hermanos’ e subiram o litoral até Santos-SP. Um deles ficou por lá. Os outros dois, o ‘nosso’ Portuga e o amigo Manoel vieram pararem Pouso Alegre. Seinstalaram numa pensão, compraram um caminhão e começaram ganhar dinheiro comprando galinhas, patos e marrecos nas roças para venderem São Paulo.Estavamficando ricos até que um dia Manoel embebedou o amigo Portuga, colocando água que passarinho não bebe em sua cerveja e depois que ele prostrou-se bêbado, fugiu com o saco de dinheiro que haviam ganhado juntos. Apesar do revés, Portuga continuou com o caminhão, conseguiu se levantar trabalhando na construção civil e logo conseguiu comprar a fazenda da “Colina dos Cães Uivantes” no bairro Ponte de Pedra no município de Borda da Mata. Os negócios na fazenda começaram difíceis, porém promissores – afinal, no Brasil, “em se plantando tudo dá” já dissera com mui razão o patrício Pero Vaz de Caminha – e o Portuga, com pressa de ficar rico, fez a clássica promessa. “Se eu ficar rico logo, a primeira filha que nascer darei em casamento ao capeta”. Se o coisa ruim ouviu ou não a proposta, não se  sabe, o fato é que a fazenda prosperou. Em 1939 nasceu a filha “Donzela”. Cresceu forte e bela na graça de Deus. Como quem promete sempre esquece, Portuga esqueceu completamente a promessa, … mas o Coisa Ruim, não. Quando Donzela pegou idade de casar, aos catorze anos, “Chiquinho” apareceu para o noivado. Instalou-se no porão do casarão e começou assediar a ‘noiva’. Sua primeira manifestação foi assoviar debaixo do travesseiro de Donzela perturbando seu sono. Em pouco tempo as peripécias do Chiquinho já eram percebidas por toda fazenda. Mas eram apenas traquinagens, próprias de um ‘espírito peralta’. Excetuando o barulho infernal que ele fazia no porão e a choradeira dos cães – daí Colina dos Cães Uivantes – que não deixavam ninguém dormir, até que ele era engraçado. Mudava objetos de lugar, arreava cavalos para o ‘sogro’, andava na garupa da noiva ou do sogro esporeando o animal fazendo-o pular, preparava comida e assoviava agudo pela fazenda a qualquer hora do dia ou da noite arrancando o choro sentido dos cães da casa e da vizinhança. Chiquinho teria desfilado noites sombrias também pela cidade de Borda assustando crianças peraltas e casais de namorados que se aventuravam até mais tarde nos bailes, contam alguns mais afoitos. Mas isso parece ser folclore. Pois tudo que interessava, ou, o ‘ambiente propicio’ estava na fazenda e ele não saia dali. Uma única vez foi a um baile no então distrito de Tocos. Apareceu elegantemente vestido num terno branco, chapéu de pano, sapato duas cores com biqueira de metal, bigodinho bem aparado, dançou com todas as mocinhas fazendo ciúmes nos homens como se fosse um filho de barão da capital, mas não ‘ficou’ com nenhuma delas e saiu discretamente sem ser percebido, antes do fim do baile, sem deixar nome ou endereço para correspondência.  

       Além dos portões da fazenda do Portuga, fez apenas mais uma aparição. Na verdade mostrou o ‘peso’, isso mesmo, o peso. Estavam alguns cavaleiros falando dele na beira da estrada e um deles, talvez encorajado por Severina do Popote, o teria desafiado a aparecer. De repente seu cavalo baio quase arriou nas quatro patas como se tivesse recebido o peso de uma pessoa mediana na anca e saiu em disparada levando seu dono e o garupa invisível morro abaixo.

       Embora todos da família e alguns empregados e vizinhos ouvissem – e como ouviam – as diabruras do Chiquinho, apenas a Donzela e seu pai ‘falavam’ com ele. Numa dessas conversas o Portuga, que estava acertando a compra de uma fazenda no Paraná, teria dito em tom de desafio;

– É, Chiquinho… muito breve estarei me mudando para longe daqui e você não vai comigo não. E Chiquinho teria respondido sempre confiante e zombeteiro;

– Não vou se eu não quiser. Para onde você vai, demora três dias de viagem… se eu quiser, vou num estalar de dedos.

      Em suas conversas com o Portuga, Chiquinho teria dito ainda, que na sua ultima encarnação no ano 1002, fora um sacerdote, na Europa. E faz sentido, como veremos adiante.

        Estes foram os fatos acontecidos há 57 anos… vistos à luz do ano de 2010. Em 1953, num alto de serra há dez quilômetros de uma cidadezinha de cinco mil habitantes, sem luz elétrica, sem televisão, sem celular, sem carro, quando muito com um radio à pilha, tendo basicamente o cavalo e a charrete como meio de transporte, as traquinagens do espírito peralta ou perturbado ganhou ares de mistério e sinais do capeta. Os acontecimentos eram inexplicáveis e o único socorro era a igreja católica, que, aliás, fez muito bem o seu papel. Mas não conseguiu evitar o assedio dos curiosos e da imprensa e depois que ela apareceu, ajudou a ocultar e aumentar ainda mais o mistério. Era sim um acontecimento pavoroso, mas a curiosidade falou mais alto que o medo e de repente pessoas da cidade e da região e jornalistas do Brasil todo queriam entrar na casa para entrevistar o capeta. O assedio foi tanto que o padre Cintra teve que pedir proteção para a família à policia. Durante semanas depois da expulsão do capeta a policia militar vigiou o entorno da fazenda para evitar a invasão dos curiosos.

      No inicio de 88, o jovem Alfredo Moreira disse que estava recebendo mensagens de Nossa Senhora, a qual chamou de Rainha da Obediência, no alto da Serra de São Domingos, não muito longe dali,em Congonhal. Empoucos dias curiosos e fiéis de toda região e a imprensa de todo Brasil congestionaram a velha estradinha e atalhos da serra para tentar um tete-a-tete com Nossa Senhora. No ultimo dia da aparição da Santa, segunda feira de carnaval eu estava lá, juntamente com o professor Hilário Coutinho e mais meia dúzia de pessoas em cima do telhado do barracão de festa ao lado da pequenina capelinha de São Domingos, tentando evitar que mais pessoas subissem no rancho e o desabassem na cabeça das pessoas embaixo. Contamos em volta e na frente da capelinha onde Alfredo rezava, cerca de 30 mil pessoas. Uma santa e um capeta. Personas antagônicas, porém com um mesmo propósito… falar da ausência de Deus e da necessidade Dele. No caso do Casarão da Colina dos Cães Uivantes, ainda que a promessa do Portuga de dar a filha em casamento ao capeta, seja folclore, o padre Pedro Cintra deixa claro em seu relatório, que notou na família “… um certo afastamento dos deveres religiosos”. Talvez por isso Chiquinho da Borda tenha levado tanta gente à Colina dos Cães Uivantes. O velho trem de ferro da R.R.F.S.A. trazia todo dia dezenas de jornalistas e uma multidão de curiosos das cidades vizinhas para ver de perto e desvendar os fenômenos do alto da serra. Brizola ainda não havia loteado o Rio de Janeiro para os traficantes e o dinheiro dos impostos ainda era usado em beneficio do povo, não para locupletar meia dúzia de políticos corruptos – meia dúzia? – Portanto a imprensa precisava de assunto para preencher seus noticiários, escrito e falado – TV, preto & branco, demoraria mais de dez anos para chegar às terras tupiniquins – A tentativa da família de colocar uma pedra sobre os escabrosos acontecimentos, só fez aguçar ainda mais a curiosidade das pessoas e da imprensa e o caso mal explicado ganhou projeção nacional. Tivesse o caso ocupado o devido espaço nos jornais da época, o diretor Willian Friedkin teria filmado o famoso “O Exorcista” antes de 1973, na  Colina dos Cães Uivantes. Como o filme horripilante que levou milhares de pessoas ao Cine Gloria, para ver a possuída Regan MacNeil  (Linda Blair) vomitar ‘batida de abacate’ na cara do padre Merrin (Max Von Sydow) já foi há muito esquecido, o Chiquinho da Borda também já teria saído de cartaz. A falta de esclarecimento manteve o assunto sempre latente. Depois da morte do padre que o exorcizou, o boato da volta do capeta ganhou combustível como se jogasse gasolina na brasa e a mídia está sempre rondando. O bondoso, intrépido e desbravador Monsenhor Pedro Cintra, responsável pela paz da família de Donzela e pela metade do progresso sócio cultural de Borda da Mata morreu na quinta feira Santa de 2002. Ele ainda estava na fila de entrevistas com São Pedro na ante-sala do céu e o Fantástico Show da Vida já estava fuçando o passado, querendo saber se o Chiquinho já havia voltado a atormentar a família do Portuga. Semanas depois o sensacionalista espalhafatoso Ratinho – que é dali de pertinho, de Monte Sião – subiu o morro acompanhado de um amigo em busca de mais um ‘furo’ de reportagem. Como todos os demais repórteres, deu com a cara na porta e voltou para São Paulo só com o cabo do guarda chuva na mão. Mas poderá voltar a qualquer sinal de fumaça. Se o guardião do casarão, irmão da donzela resolvesse contar o que viu na infância, Ratinho certamente ganharia um contrato pelo dobro do salário em outra emissora. Datena gritaria no microfone; ‘esse coisa ruim tem que ser mandado para o inferno’. Boris Casoy se limitaria a dizer no final da reportagem ‘É uma vergonha’. William Bonner deixaria a Fatima Bernardes, mesmo gripada, sozinha na bancada do Jornal Nacional e montaria um estúdio de campo na porteira da fazenda ou no alto do morro para transmitir flashes ao vivo. Ana Maria Braga, depois da centésima vigésima terceira plástica mandaria um jatinho buscar o irmão de Donzela e passaria ao menos uma manhã inteira entrevistando o moço de 74 anos – dez mais velho que ela – no seu estúdio no Projac, na mata de São Conrado. A tentativa de ocultar as diabruras do Chiquinho só aumentou sua fama. Se quem conta um conto aumenta um ponto, imagine quem conta um conto mal contado? A população de Borda chega hoje perto dos 20 mil. Em 1953 tinha pouco mais de 5 mil. Ou seja, quadruplicou nos últimos 60 anos ouvindo uma historia mal contada, pois os habitantes daquela época não tiveram acesso aos fatos como eles ocorreram.

       Hoje a historia do Chiquinho da Borda divide a população da cidade em três grupos. Os jovens naturalmente não acreditam em assombração e não se interessam muito pelo assunto, como os três da loja da praça. Ou então ‘ouviram qualquer coisa’ mal contada pelos avós. Os adultos ouviram a historia através de seus pais, já bastante fantasiada, e preferem não esticar a prosa sobre os fatos. Alguns sentem calafrios e arrepios quando são abordados. O terceiro grupo, remanescente daquela época, naturalmente é o mais interessante e se subdivideem três. Osque não acreditam em assombração, mas arrepiam o pêlo e saem de fininho da rodinha ou quando são interpelados para se esquivar do assunto. Os que não acreditam que tenha acontecido alguma coisa sobrenatural na Colina dos Cães Uivantes e os que acreditam e aumentam ou inventam. Nas minhas abordagens em bares, praças, ponto de táxi, diversas vezes vi senhor de cabelos grisalhos se afastar com os olhos arregalados e mudos quando eu puxava o assunto. Puro tabu. Passava eu pela pracinha da Copasa a caminho do Casarão quando avistei três respeitáveis senhores de cabelos brancos curtindo a modorrenta e refrescante sombra dos Pinus. Parei para enriquecer meu dossiê. Me aproximei dos três e com um largo e fingido sorriso fui dizendo;

– Encontrei as pessoas certas! Tenho certeza que os senhores poderão me ajudar… O que vocês me contam sobre o Coisa Ruim da Borda?

       Eles que já olhavam ‘com olhar de mineiros’ para aquele cabeludo de óculos escuros, bermuda, caderninho e caneta na mão, trocaram olhares interrogativos entre si e por uma questão de educação, eu acho, deixaram a palavra para o mais velho. Um senhor forte, simpático, de chapéu marron, cutucando o cimento na frente do seu banco com a ponta do guarda chuva, disparou;

– Ali nunca teve assombração, coisa nenhuma. O Portuga queria mudar para o Paraná, por isso inventou essa historia para assustar a mulher dele.

        O Sr. de 83 anos era moço casadoiro na época dos fatos e morava no bairro Ponte de Pedra, vizinho da Colina dos Cães Uivantes. Disse que viu toda a movimentação de padres, Jornalistas e curiosos em torno do mistério, mas não viu e nem ouviu nada de misterioso. Bem, se o senhor de guarda chuva de cabo de osso quase tão velho quanto ele não cria no fantasma do Casarão, o outro mais moço, sessenta e poucos, cria. Cria e criava. Não fantasma, mas fantasia. Segundo ele, o fantasma do casarão era um namorado da Donzela, de carne e osso, que aparecia nos finais de semana e assustava os pais da mocinha para poder ficar com ela enquanto eles iam para a cidade em busca do padre. Conversamos uns quarenta minutos na pracinha e eles já estavam dando risadas, mas arregalaram os olhos quando eu disse que estava indo entrevistar o irmão de Donzela no Casarão da Colina da Ponte de Pedra.

– Eles não gostam de falar do assunto e não deixam tirar fotos de lá… – acrescentou o do meio, de 76 anos, que quase não comentou a historia do Chiquinho.

       Embora a maioria não goste ou não tenha nada a dizer, alguns, principalmente os que moravam no bairro “assombrado”, contam com prazer o que viram … ou o que não viram. O cidadão N.F. conta até mais do que viu ou ouviu. Diz ele que foi namorado de Donzela desde os 14 anos, quando ela tinha 9 anos e enquanto todo mundo morria de medo do capeta, ele achava graça.  N.F. conta que certa feita, estava no quarto da menina-namorada com os pais dela e um padre tentando exorcizar o capeta. De repente a cama dela começou sacudir e levantou-se até o telhado. Com as preces e gestos do padre com a cruz e o terço, a cama foi solta bruscamente, um cheiro de enxofre inundou o quarto e de uma nuvem de fumaça saiu um bode velho chifrudo e catinguento que de repente subiu pela parede e transformou-se num macaquinho preto e ficou por alguns segundos dando risadas, pendurado na linha do quarto sem forro. N.F. atualmente com 76 anos e bem lúcido, conta esta e outras historias dando risada, mas diz que depois de toda confusão e 5 anos de namoro desistiu de casar-se com a filha do Portuga. Ah, antes de entrevistar N.F. fui advertido pelo seu sobrinho, de que ele realmente morava lá por ocasião das diabruras do Chiquinho em 53 e conhece a palmo a historia, mas mente que nem sente….sem ficar vermelho….

Com a palavra….

Monsenhor Cintra, o exorcista

 

        Mas afinal, o Chiquinho da Borda existiu ou não? Como diria o ranzinza eremita Urtigão; “existiu, ô se existiu, existiu mesmo, existiu sim”!!! Existiu e fez muito menos alarde do que a imprensa e os curiosos. Como eu disse linhas antes, foi justamente a tentativa de ocultar um caso simples de assombração que tornou Chiquinho da Borda tão ilustre. O silencio do padre Pedro Cintra, que se tornou conhecido como “O Monsenhor que expulsou o Coisa Ruim da Borda”, com certeza atendendo ao pedido da família e talvez determinação da própria igreja, contribuiu e muito para que o capeta se tornasse uma lenda. O parapsicólogo magrelo, grandalhão e ossudo Padre Quevedo, com seu sotaque espanhol embora viva no Brasil desde 57, tivesse sido chamado para investigar e desvendar os mistérios da Colina dos Cães Uivantes, certamente diria que ‘era um caso’ de Poltersgist. Ele se ajoelharia, abriria os braços ligeiramente apontados para cima e desafiaria:

 – Apareça coisa ruim!!! Se você existe, apareça. Vamos ter uma conversa.

      Depois de alguns instantes sem resposta ou manifestação do espírito perturbado faria a clássica pergunta para a platéia;

– ‘Quem te contou’… que o capeta existe? Diante de novo silencio, usaria as  mãos e braços no ar para frisar a verbalização com seu bordão preferido;

– “Isso non ecziste!!”

        Para o padre jesuíta que aportou no Brasil em 1957, não existe capeta, fantasmas, assombração, fadas, duendes ou mistérios. Tudo é obra da mente humana e tem explicação cientifica. Para o estudioso dos fenômenos paranormais e fundador do Centro Latino Americano de Parapsicologia, não existe tampouco milagres, exceto…. –  Em 1531 Nossa Senhora de Guadalupe apareceu a um humilde índio azteca na montanha de Tapeyac e entre outras coisas disse a ele para levar uma mensagem ao bispo da Cidade do México, dizendo-lhe para construir um templo para ela naquele local. Para convencer o bispo da autenticidade da mensagem, a santa radiosa imprimiu, com flores fora da estação, brotadas milagrosamente no topo da colina gelada, sua própria imagem no tilma do singelo Juan Diego de 54 anos. A imagem no manto do índio existe ainda hoje, quase 500 anos depois, tal qual o dia em que foi impressa no tecido rústico feito à base de cactus. Este mistério nem a ciência e nem o Padre Quevedo explicam. Aí, ele dá o braço a torcer. É o único milagre que o padre – que ajoelhou e desafiou por diversas vezes o capeta a aparecer para ele e para algumas centenas de congressistas no anfiteatro da ETE no final da década de 80 – aceita. O resto ‘non ecziste’…

       Pode não existir à luz da ciência, mas à luz do espiritismo, que hoje faz parte da cultura quase universal, talvez exista. E arranchou na Colina dos Cães Uivantes durante alguns meses no inicio de 53, com o nome de Chiquinho. Naquela época o espiritismo ainda engatinhava no Brasil. Mediunidade era coisa de Umbanda, Quimbanda e Candomblé, praticada em encruzilhadas e terreiros de macumba.  Hoje sabemos – os espíritas – que o Chiquinho nada mais era do que um espírito perturbado ou peralta, brincalhão. Os Psicógrafos e escritores médiuns Zibia Gaspareto, Vera Lucia Marinzeck de Carvalho, Chico Xavier, Brian Weiss e tantos outros tem mostrado em seus romances espíritas como lidar com eles. Num primeiro encontro Chiquinho só diria besteiras e palavrões. Depois contaria seu drama, suas vidas passadas e suas intenções na Colina… Em mais dois ou três encontros solenes com os médiuns, ele encontraria a luz de que tanto precisava e levitaria direto para o “Nosso Lar” e deixaria o Portuga, a Donzela, seus familiares e a imprensa curiosa em paz.  

      Curiosamente, no apagar das luzes do século passado, três anos antes de sua morte em 2002, o padre autorizou a publicação de sua versão dos fatos e seu exorcismo, na “Folha Paroquial” da Borda, o que foi feito pelo Padre Edson Oriolo e acabou ganhando a Internet. 

      Dois meses depois do seu sepultamento, Monsenhor Cintra teve seu esquife transferido para a atual capela construída pelo amigo padre Edson no cemitério municipal. Apesar do pouco tempo, seu caixão não exalava mau cheiro. Alguns beatos mais próximos comentaram; “ …Era tão santo que nem mau cheiro tem”. Leia agora o que disse o “Monsenhor” que exorcizou o Coisa Ruim da Borda e se tornou o ‘ santo guerreiro guardião da cidade’

“Antes de encerrarmos o ano de 1953, convém descrever o rumoroso caso que chamou atenção de todo o país, devido ao sensacionalismo da imprensa, aqui chamada por determinadas pessoas”.

“Eis o que vimos, ouvimos e observamos”:

 

“Em meados de fevereiro de 1953, o Sr. A. S. de Carvalho, português, residente no bairro denominado Ponte de Pedra, pediu-me para levar a benção da Igreja à sua residência, pois certos barulhos estranhos, ouvidos à noite, traziam a família preocupada. Benzi a casa e fiz o exorcismo breve do “Ritual Romano”, “Exorcismus Sabtanam Et Angelos Apostaticos”.

 

Notei na família um certo afastamento dos deveres religiosos. O casal havia tempo não fazia a páscoa. Os filhos, alguns já moços, ainda não haviam feito a primeira comunhão. Dei à família os conselhos religiosos necessários e orientei a todos para a confissão e comunhão. Fui informado depois que, naquela noite o barulho aumentou. E o fenômeno continuou a repetir-se quase diariamente.

 

Por ocasião as Semana Santa, quando a família se movimentou para cumprir o dever da comunhão pascal como eu havia aconselhado, o caso tomou outro caráter. Surgiu também uma voz estranha na casa do Sr. Alberto, juntamente com os estrondos ouvidos à distância. A voz falava o nome de pessoas da casa e do bairro como se estivesse comandando animado baile, ao mesmo tempo que se ouvia o tropel de gente a dançar. Falava palavrões e dizia chamar-se Chiquinho. A voz era muitas vezes ouvida, também durante o dia nas cercanias da casa por pessoas da família e por camaradas em trabalho. A jovem N. de 14 anos, filha do Sr. A., achando-se só, certo dia, na cozinha da casa, a preparar o almoço, viu um pretinho, que, saindo de um dos quartos, passou por ela, cumprimentando-a com um cínico “bom dia”, desaparecendo em seguida. Assustada, alarmou, chamando pelos pais que se achavam em afazeres perto da residência, mas nada puderam ver.

 

Novamente procurado pelo Sr. A. e por ele informado dos novos fenômenos, comecei a acreditar haver de fato algo de extraordinário. Pedi ao mesmo que fosse à Ouro Fino relatar o fato a Frei Belchior, sacerdote capuchinho experimentado que já havia realizado um exorcismo na Itália. Frei Belchior me escreveu, afirmando tratar-se realmente de um caso de exorcismo.

 

Comuniquei a opinião de Frei Belchior ao Sr. Bispo Diocesano, Dom Otávio Chagas de Miranda que mandou jurisdição a mim e a Frei Belchior, para que aplicássemos o exorcismo, caso fosse necessário e prudente.

 

Tendo a viajar e permanecer ausente por mais de uma semana, pedi a Frei Belchior que assumisse a responsabilidade do caso.

 

No dia 16 de abril, acompanhado do Rev.mo. Padre José Oriolo, Vigário Cooperador da Paróquia e do Sacristão Manuel Cardoso, Frei Belchior pernoitou na residência do Sr. A. para observar os fenômenos. Às 20h30, a um sinal característico dos cães, foi ouvida a voz estranha e cavernosa: “Boa noite” – Frei Belchior respondeu: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. A voz retrucou: “Vai mal, tem padre hoje aqui” …e começou a pronunciar palavrões. Frei Belchior começou o exorcismo solene.

 

Em um momento interrogou em dialeto Italiano, de quem era aquela voz, “Eu sou o diabo, o capeta”, respondeu. O Capuchinho, tomando uma relíquia de Santa Terezinha na mão, sem que ninguém soubesse, perguntou o que era. A voz foi logo afirmando: “isso não vale nada, é de uma menina”. Tomou então a medalha de Nossa Senhora, e imediatamente a voz: “isso não presta”.

 

O exorcismo durou duas horas e durante todo esse tempo a voz resmungava, dizia palavrões e fazia ameaças.

Antes e durante o exorcismo, Padre José Oriolo e o Sr. Manuel Cardoso, com lanternas, fizeram a mais rigorosa investigação ao redor da casa e no porão da mesma. A casa ao tinha forro em nenhum cômodo. A entrevista do Padre Capuchinho foi encerrada com estas palavras da voz: “Vamos para o inferno comigo…”

A notícia se difundiu com a ida do Padre Capuchinho e o Padre Oriolo ao sítio do Sr. A. E agora era a multidão que lá comparecia, levada pela curiosidade. 

 

Cheguei de viagem no dia 21 de abril e encontrei a paróquia alarmada. Os repórteres do Rio e São Paulo começam a chegar. Neste mesmo dia, depois de ouvir a opinião de Frei Belchior e Padre Oriolo, que me afirmaram tratar-se realmente do demônio, rumei à noite, apenas acompanhado do confrade Vicentino Benedito Matos dos Santos, para o sítio do Sr. A. de Carvalho. Chegando, rezei o terço com a família e alguns curiosos de Pouso Alegre que lá encontrei. 

 

Às 22h, quando, depois do latido característico dos cães, uma voz rouquenha e masculina nos saudou: “Boa noite”. Era de impressionar! Perguntei imediatamente: “In nomine Sanctissimae Trinitatis, Patris, Fillii et Spiritu Sancti, praecipio ibi ut dicas, quis sis tu”, a tradução é: “Em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu te ordeno que digas que és tu?” A resposta veio fulminante e irritada depois do latido característico dos cães: “ Eu sou o diabo. E eu não gosto desse padre e por isso, não fico aqui”. Formulei outras perguntas em latim, adrede preparadas. Não obtive respostas. A voz pronunciou ainda alguns palavrões. Repetiu que não gostava “deste padre”. Fez ameaças de matar a todos e desapareceu.Fiz então o exorcismo breve do ritual romano.

 

No dia seguinte 22 de abril lá estive novamente. Fui acompanhado por algumas pessoas de responsabilidade. Nada de anormal. Rezei o terço com a família e apliquei mais uma vez o exorcismo breve. Dia 23 voltei acompanhado de Dr. Luiz Apocalipse, Juiz de Direito, Dr. Paulo Guimarães e Dr. Luiz Miranda, advogados. Essas pessoas tiveram a máxima preocupação em realizar a mais rigorosa investigação quanto a um possível embuste. Apliquei o exorcismo solene do Ritual Romano, que todas acompanharam com grande respeito. A voz foi ouvida às 21h.

 

Terminara o exorcismo, estávamos conversando. O Sr. A. acabara de dizer: “ele mudou a hora, costumava vir mais cedo”. A resposta, antecedida pelo latido característicos dos cães foi imediata: “Boa noite, meu horário agora é das 21h em diante”. Formulei a mesma pergunta do dia anterior, em latim. Respondeu: “Já disse que sou o diabo”, “Não fico mais aqui, porque tem padre aqui, e nao gosto deste padre”, “Não volto mais nesta casa”. Fiz outras perguntas em latim preparadas com antecedência. Não obtive resposta. Acrescentou tolices e ameaças e desapareceu a voz para sempre.

 

No dia 24 informei o Sr. Bispo, que mandou cessar os exorcismos. Mas, tornei a visitar a residência do Sr. A. para evitar a invasão de pessoas indesejáveis. Rezei o terço com a família, o fenômeno não se repetiu.

 

Dia 25, Padre José Oriolo fez a entronização do Sagrado Coração de Jesus, no lar do Sr. A. S. de Carvalho que se mostrava então, tranqüilo. Tudo continuou em paz. 

 

Era realmente o demônio? Na minha humilde opinião, trata-se de uma obsessão diabólica real. Não se explica de outra maneira. Estudei todas as possibilidades de um embuste. Procurei me esclarecer em livros sobre parapsicologia. Todas as hipóteses aventadas caem ante as investigações rigorosas realizadas por todos que lá estiveram comigo. Esta é também a opinião dos dois colegas que presenciaram o fato: Padre José Oriolo e Frei Belchior.”

      Este é o relato fiel do Padre Cintra logo após a expulsão do capeta e a volta da paz à família do Portuga. O segredo ficou guardado a sete chaves durante 46 anos enquanto pessoas que viram, ouviram ou assistiram os acontecimentos do alto da serra se encarregavam de espalhar as mais diferentes versões dos fatos criando e disseminando a lenda do Coisa Ruim da Borda, cada um a sua maneira. Quando o segredo da Colina do Cães Uivantes veio à tona com o consentimento do padre Edson Oriolo, o mundo quase desabou sobre sua cabeça. O irmão de Donzela desceu a Colina dos Cães Uivantes mais possesso do que o Chiquinho e foi tirar satisfação com o padre. Ele preferia ter enfrentado o próprio Coisa Ruim a enfrentar o irmão da mocinha. Não fosse a intervenção da esposa, o irmão de Donzela teria mandado o padre Edson se juntar ao seu tio Padre Jose Oriolo, Frei Belchior e outros ancestrais muito antes da hora.

 

A volta do Chiquinho da Borda!!!

      O que aconteceu depois da expulsão do capeta? Naquele longínquo 22 de abril de53, afamília S. de Carvalho ficou livre do capeta Chiquinho, mas continuou a ser assombrada pelos capetas da imprensa que nunca desistiram de desvendar o mistério da colina- Devo inicialmente me incluir entre estes capetas, mas espero me transformar em anjo ao esclarecer e desmistificar o mistério do Chiquinho da Borda – Restabelecida a paz e o sono no bairro Ponte de Pedra o Portuga pode finalmente mudar-se com quase toda a família para o Paraná, mais precisamente para a cidade de Ferraz Vasconcelos ou Barbosa Ferraz, onde ficou ainda mais rico – sem a suposta ajuda do Chiquinho – e morreu de velho há cerca de 20 anos. Donzela, desprezada pelo namoradinho de infância, o loroteiro N.F., casou-se com P.G.de L. teve filhos e uma vida tão normal quanto a minha e a sua. Morreu há cerca de um ano vitima de câncer,  sempre evitando o assedio dos curiosos e da imprensa. Seu irmão R., um dos oito, é o único que continuou morando na fazenda da Ponte de Pedra, numa casa nova atrás do casarão assombrado. Teve dois filhos, enviuvou-se, casou-se novamente e vive em paz com M. que protege tão bem quanto ele os segredos da Colina dos Cães Uivantes. Vive em paz, desde que não toquem na ferida antiga que ficou tatuada na alma.

       Quando cheguei à Colina dos cães Uivantes no final daquela tarde ensolarada e quente de 3 de dezembro, apesar de todas as advertências para não ir, eu estava tranqüilo e confiante de que o maximo que poderia me acontecer seria ouvir repetidos ‘nãos’. Aliás, eu brincara com o fazendeiro ao pé do morro, que se não soltassem os cães uivantes sobre mim, já estaria muito bom. Parei meu carro junto à porteirinha de madeira velha após uma curva da estradinha apertada e sem uso e segui à pé. Fiz uma curvinha fechada ornada de raquíticas bananeiras para a esquerda numa subida íngreme e antes da curva da direita já com o barranco mais baixo coberto de musgo e samambaias, parei para recuperar o fôlego e contemplar o velho Casarão escurecido e carcomido pelo tempo, ao lado da frondosa paineira, com o cenho franzido querendo desabar sobre mim. Dei mais meia dúzia de passos e tornei olhar para o casarão que agora escondia o sol manhoso querendo se deitar. Tomei um susto. Sob a paineira, no meio da estradinha que levava somente até ali, uma mulher relativamente grande dentro de um vestido de tom verde que aumentava ainda mais sua silhueta negra contra o sol, olhava imóvel e séria para mim. Ela não estava ali um segundo antes!!! Era hora de puxar prosa… apalpar o terreno. Afinal eu estava em terreno minado, em propriedade privada…

– Boa tarde… Amarre os cachorros, pois não tenho muita intimidade com eles – Falei. Não é verdade, tenho quinze em minha casa…

– Aqui não tem cachorro… Quem é o senhor e o que o senhor quer?

– Sou Airton Chips do Jornalista de P. Alegre e quero falar com seu marido.

– Sobre o que…?

– Sobre um assunto que ….eu acho que ele não vai querer falar….

–  Se for o que eu estou pensando, acho que ele não vai querer falar mesmo.

– Pois é, o fazendeiro lá embaixo me disse que ele não costuma falar desse assunto, mas como o prejuízo era pouco eu resolvi vir até aqui. Desde que vocês não briguem comigo, está tudo bem. Tem uma vista muito bonita aqui no alto, mas cansa chegar aqui heim? – Acrescentei parando e olhando para trás. Este foi meu primeiro dialogo com a cunhada da Donzela na Colina dos cães Uivantes. Por razões que eu desconheço ou, talvez por falar uma linguagem tão despida e condizente com o local e a situação ou talvez por saudade de uma genuína visita, coisa raríssima na fazenda há décadas, não de um rapaz cabeludo usando bermuda e sem aparato de imprensa pelo menos, a esposa de R., que dava antes a nítida intenção de me fazer voltar antes mesmo de chegar à sombra da paineira, convidou-me para entrar em sua casa e tomar um café. R. o irmão de Donzela me recebeu na porteira do curral ao lado do casarão, serio, sem efusão, porém educado. Dava para ver por trás do seu semblante sofrido que ele sentia curiosidade e alegria pela visita solitária e sem alardes. Sentei-me num banco de alvenaria com as costas para a janela da cozinha, construída separada do corpo da casa, tendo R. na extremidade do banco e M. à minha frente, atrás de uma mesa quadrada. Ali, naquele ambiente simples, limpo e com ar de mistério ouvi por quase uma hora as ponderações de M. Falamos de tudo, menos das diabruras ou peraltices do Chiquinho. Falamos do comportamento dos vizinhos, da atitude do Padre Edson ao divulgar a carta do Monsenhor depois de quase cinqüenta anos de silencio, de como ela conseguiu contornar o atrito do marido com o padre. Do assedio perturbador da imprensa. Da visita do mais ilustre de todos, o apresentador Ratinho, que subiu a serra com toda sua parafernália de holofotes, câmeras e microfones, levado por um amigo comum de seu marido e desceu a serra sem ouvir uma palavra do que fora buscar. Neste ínterim seu enteado mais velho entrou na cozinha. Nos apresentamos, ele saiu e ficou do lado de fora escutando a conversa e depois de um tempo começou a se agitar e…e… Bem, vamos pular este capitulo. M. contou-me, entre outras coisas relativas aos curiosos, que tempos atrás estavam como sempre quietos no seu canto, quando ouviram barulhos e algazarras se aproximando da casa de madrugada. Levantaram assustados e foram ver o que era. Eram quatro rapazes desconhecidos, cada um mais bêbado do que o outro, com uma conversa confusa e ‘atravessada’ dizendo-se policiais. Pararam ao lado do casarão abandonado e um deles, sem cerimônia entrou no prédio e saiu rapidamente com um pedaço de madeira qualquer. Tão barulhentos e desordenados quanto chegaram desceram a serra e foram embora sem dar explicação. Mais tarde souberam que o rapaz havia feito uma aposta num boteco da cidade. Apostou que seria capaz de entrar no casarão do ‘Chiquinho Peralta’ durante a madrugada… Deve ter ganho a aposta.

       Por respeito à postura e sentimentos de M. e seu marido e ansioso para ver o velho casarão pelo retrovisor do meu carro, encurtei a prosa. Esta foi minha primeira, única e marcante visita ao Casarão da Colina dos Caes Uivantes no bairro Ponte de Pedra ou Cachoeira. Mas o capeta ainda me lavaria outras vezes à cidade de Borda em busca de mais detalhes sobre sua passagem por lá. No segundo aniversario da elevação do Santuário de Nossa Senhora do Carmo à categoria de Basílica, em 2007, fui com amigos e conterrâneos de Congonhal, em Romaria a pé à Borda. Atravessamos os bairros das Almas e Gaspar caminhando na madrugada fresca e chegamos de manhazinha à Basílica. A Romaria iniciada no primeiro aniversario pelos meus conterrâneos continua, mas eu nunca mais voltei. No quinto aniversario lá estava eu de novo. Alcancei os cansados, porém felizes romeiros na entrada da cidade em frente a Lua Cheia. Buzinei, acenei e fui visitar meu anjo Maritana Furtado que eu não via há 39 anos. Quando cheguei meia hora depois sob o jovem e frondoso jatobá da Praça da Basílica, fui interpelado pelos amigos;

– Você não quis vir a pé com a gente?

– Eu bem que queria, mas não foi possível. Eu vim forçado. Hoje quem me trouxe aqui foi o Coisa Ruim da Borda.

O compadre Valdemar, do alto dos seus 72 anos, depois da cansativa viagem de22 quilômetrosde estradinha barrenta, tirou o cigarro de palha da boca, quase bufou a fumaça, esboçou uma risadinha amarela e antes que qualquer deles dissesse alguma coisa eu os acudi;

-…É que eu estou investigando a historia do Chiquinho, para contá-la no meu jornal – Eu não podia perder a oportunidade da piada, né? Meia hora depois entramos para assistir a missa do padre Narciso e como qualquer mortal recebi o Corpo de Cristo…. Eu estava precisando. E estava mesmo. Foi num destes 08 de dezembro de meio século atrás que, para a alegria do jovem casal Eva & Daniel, no meio de dez mulheres, eu cheguei e puderam ouvir o choro forte do primeiro e único varão da família.

        E esta não foi a ultima vez que Chiquinho me levou para a “capital do pijama”. Numa destas descobri a origem de toda badalação do Coisa Ruim. Era meados de fevereiro de 1953. Desassossegado com as peraltices do Chiquinho, Portuga procura o padre Pedro Cintra, que já estava na cidade há seis anos cuidando do rebanho bordiano e construindo a atual Basilica, pedindo ajuda. Ao constatar os fatos e seus possíveis motivos, o padre viu ali uma grande oportunidade para puxar a orelha dos seus fieis que andavam distantes de Deus e da igreja. Numa missa domingueira ele fez um longo sermão, contando as aparições do capeta na fazenda do Portuga e das necessidades de oração para afastá-lo. Uma das pessoas presentes na missa, que acabaria fixando residência para sempre na cidade, comentou o inusitado com um amigo local e resolveram comunicar o fato à imprensa. Enviaram um telegrama à revista Cruzeiro, do Rio de Janeiro e no dia seguinte os repórteres chegavam à cidade de “Chevrolet Bel Air”, vermelho de teto branco, para levar o Coisa Ruim da Borda para todo Brasil. O padre Cintra inicialmente se retraiu, mas o seu sermão na missa matutina, notório e contundente, aliado talvez à vaidade da juventude, não lhe permitiram esquivar-se dos holofotes. Estampado nas paginas da mais famosa revista da época, através da longa entrevista com padre Cintra, Chiquinho tornou-se vedete e nas semanas seguintes arrastou dezenas de repórteres de outras revistas, jornais e rádios para Borda da Mata. Este mesmo cidadão, responsável pela notoriedade do capeta, foi procurado por outros jornalistas, mas depois de dar o tapa, escondeu a mão. Não disse mais nada, aliás, tudo que ele sabia era o que o próprio Pedro Cintra dissera na missa. Ele somente conheceu o ‘Casarão mal assombrado’ e se tornou amigo de R., irmão de Donzela muitos anos depois. Aos 80 anos, J.B. conta com semblante divertido de moleque sapeca, o episodio indiretamente causado por ele. Dois repórteres do Jornal da Noite, de São Paulo, que vieram atrás do capeta no trem da R.F.F. o procuraram para que ele os levasse à casa do Portuga. Ele naturalmente não foi, mas indicou o local. Os jornalistas então alugaram dois cavalos, vestiram batinas, fizeram caras de santos e subiram a Colina dos Cães Uivantes a pretexto de exorcizar o capeta. Foram recebidos pelos familiares, participaram do exorcismo com outros padres e estamparam o que viram e ouviram nas paginas do “Jornal da Noite” nos dias seguintes, o que ele e o amigo, curiosa e avidamente correram a ler. J.B. e seu amigo G. são as “….determinadas pessoas…” mencionadas no relatório do Monsenhor Pedro Cintra, que chamaram a imprensa e fincaram o pé do Chiquinho na calçada da fama.

      Se o Ibope fosse avaliar a audiência da saga do Chiquinho da Borda nestes 58 anos, perceberia três ‘picos’ recordes em épocas naturalmente diferentes. O primeiro pico se deu naturalmente quando de sua aparição e exorcismo em 53 e foi graças às “determinadas pessoas” que chamaram a imprensa. O terceiro pico de audiência aconteceu graças aos – inevitáveis – boatos criados pela população, de que Chiquinho havia prometido voltar quando o padre morresse. Há quem diga que ele lutou bravamente contra a morte, por varias semanas na UTIem Pouso Alegre, para não deixar a cidade à mercê do Chiquinho. O segundo pico aconteceu em 99, quando o relatório do padre Cintra veio a publico na Folha Paroquial. Padre Edson Oriolo, sobrinho do padre exorcista Jose Oriolo, foi vigário da paróquia de Borda durante dez anos. Neste período realizou inúmeras obras. Entre elas a nomeação de um padre exclusivo para Tocos do Mogi, a construção da capela para abrigar os restos mortais do Monsenhor no cemitério municipal, a elevação da matriz de Nossa Senhora do Carmo a Basílica, única no Sul de Minas e uma das apenas 18 em todo o Brasil e a criação do jornal da paróquia intitulado “Folha Paroquial”, para divulgar as obras e estreitar os laços da igreja com a comunidade religiosa. Para chamar a atenção do leitor, padre Edson usou o tino jornalístico, buscou um furo de noticia. Que assunto chamaria mais a atenção do leitor para o novo jornal, do que a velha, folclórica, quase esquecida e mal esclarecida historia do velho Coisa Ruim da Borda? Ao publicar a versão do padre exorcista, guardada por quase meio século, ele conseguiu três façanhas. Duas boas e uma má. Além de atrair o leitor para o jornal da paróquia, esclareceu fatos durante décadas desvirtuado por boatos, devido o seu sigilo. Matou dois coelhos com uma só cajadada. Mas feriu um terceiro… A família de Donzela, por razoes que respeitamos mas discordamos, sentiu-se ultrajada ao ver exposta ao publico um fato que consideram fraqueza; “…notei na família um certo afastamento dos deveres religiosos…” e execrou o dinâmico, bem intencionado, estudioso – ele não acreditaem assombração. Paraele a parapsicologia tem explicação para tudo – e bem humorado padre Edson. Ora, muito pior a versão que corre – inevitável – na boca do povo, por desconhecimento da verdadeira, que Portuga teria ‘prometido’ a primeira filha mulher em casamento ao capeta, se ficasse rico rapidamente. Além do mais, o bondoso e santo Monsenhor, protagonista do referido relatório, tanto tempo depois, não viu nada de mais em trazer a publico os fatos e autorizou sua publicação… E não sofreu censura.    

       Trocado em miúdo o mistério do Coisa Ruim da Borda, restam ainda duas perguntas que insistem em não calar. Afinal, depois da morte do Monsenhor o Chiquinho voltou? Ou corre o risco de voltar?

        Em minhas andanças no rastro do capeta, um passarinho me disse que anos atrás, logo depois da partida do padre ‘guardião’, Donzela e seus familiares teriam procurado um ‘benzedor’ na serra de Espírito Santo do Dourado, pois estaria sendo novamente obsediada pelo noivo Chiquinho Peralta. Fui entrevistar o tal benzedor e conheci um simpático e solícito velhinho de 78 anos em sua aconchegante fazenda nas escarpas da Serra dos Campos, no caminho de Passa Quatro. Entre frascos de medicamentos naturais feitos por ele à base de ervas medicinais, diante de uma cantoneira repleta de imagens de santos e de Nossa Senhora Aparecida, A.M. contou-me muito bem humorado alguns episódios do Chiquinho e da visita de Donzela. O benzedor disse que na infância foi coroinha do Monsenhor Alderigi, em Ipuiuna e através dele, de quem se tornou amigo pessoal, muitos anos depois, conheceu detalhes da passagem do Chiquinho pela Borda. Monsenhor Alderigi Maria Torriani – considerado santo e milagreiro pelo povo de Santa Rita de Caldas, onde serviu à Deus e aos pobres de 1927 até sua morte em 1977, atualmente em processo de canonização pelo vaticano – compôs o batalhão de padres que subiu a serra da Ponte de Pedra a fim de expulsar o Coisa Ruim. A.M. disse-me que o “padre dos pobres” contava dando risada – aliás, o bom humor lhe era peculiar – da destreza verbal e cultural do Chiquinho.

– Quando o padre começava rezar os ritos do exorcismo, Chiquinho terminava na frente dele rezando em português, latim, grego ou qualquer língua que o padre rezasse – disse ele. Se este fato era mentira, ele não mentia sozinho. Sabe o G., aquele amigo do J.B. que mandou o telegrama para a revista Cruzeiro, chamando a imprensa para cobrir as diabruras do Chiquinho? Pois é. Ele acompanhou uma das sessões de exorcismo no Casarão da fazenda do Portuga e ficou impressionado com a cultura do tal Capeta que ele não viu, mas ouviu a voz cavernosa imitando os padres. Em qualquer língua que o Capuchinho Belchior falasse, Chiquinho respondia sem titubeio. Isso os fez ter certeza de que não se tratava de nenhum embuste de Donzela ou de qualquer outra pessoa do lugar. Ninguém poderia ter mais conhecimento e cultura do que Frei Belchior, que nascera na Itália e já fizera outros exorcismos por lá. Aproveitando o ensejo, façamos justiça. O exorcismo do Chiquinho da Borda foi feito pelo Frei Belchior, o qual vivia no mosteiro de Ouro Fino, com ajuda do Monsenhor Cintra que ficou com toda a fama, por razoes obvias. 

        É indiscutível que o padre Cintra saiba mais e tenha um relato mais fiel, honesto e enxuto sobre o Chiquinho da Borda. Mas convenhamos que ele visitou a fazenda, a família e conversou com o capeta meia dúzia de vezes, ao passo que Chiquinho esteve hospedado nos porões do Casarão por vários meses. É natural que ele não saiba tudo sobre as peraltices do espírito brincalhão e que não tenha  contado tudo que sabia em seu relatório no Livro do Tombo da Basílica do Carmo. Uma delas é que em seu dialogo, o ‘bode velho’ tenha dito que voltaria para buscar sua noiva e assombrar a família do Portuga, quando ele morresse.  

       O benzedor contou-me então que de fato foi procurado por Donzela pouco tempo depois da morte do Monsenhor. Ela estava casada com P.G.L, tinha filhos e uma vida completamente normal, mas…..diante da conjuntura, como todo simples mortal, tinha medo que Chiquinho cumprisse o prometido. Mas não. Donzela morreu aos 70 anos sem nunca mais ter visto ou ouvido a voz rouca e cavernosa ou o estridente assovio do Chiquinho…. o noivo que seu pai arranjou para ela no final da década de 30, caso enriquecesse.

        Quanto à sua volta…. Ao travar a batalha com o Coisa Ruim da Borda, Padre Pedro Cintra, Frei Belchior, Padre Jose Oriolo, Padre Alderigi e vários outros menos graduados na hierarquia dos anjos, travaram a batalha do bem contra o mal. Ao vencê-lo – o que era lógico – não se limitaram a ‘extraditar’ Chiquinho de volta para a Europa ou para o inferno. Negociaram com Chiquinho, mostraram a ele a luz e o mandaram para um lugar tão iluminado que nem mesmo o mais estúpido dos capetas consegue sair… porque deixa para sempre de ser capeta. Não foi uma batalha para derrotar o capeta, mas sim para mudar sua essência, sua alma. E ainda que assim não fosse, Chiquinho veio visitar a fazenda do Portuga na Colina dos Cães Uivantes em 53, não por caso, mas, ou a convite do Portuga ou pela conveniência da estadia, devido ao “afastamento da família das coisas de Deus”, como deixou claro o Monsenhor. Portanto, senhores familiares e curiosos, Chiquinho não voltará para a Fazenda da Ponte de Pedra, pois os motivos não existem mais. Ou existem…..???

        Bem, como o leitor pode perceber, estamos cercados de anjos e demônios. Aceitar a companhia de um ou de outro é uma opção pessoal. O capeta pode até assediá-lo, mas aceitar sua companhia só depende de você.

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23 respostas em “O Misterio do Coisa Ruim da Borda

    • Olá irmão Rodney, feliz ano novo!!!
      Tenho uma foto melhor do casarão, que deixei em casa num CD, tirada no ano passado, de pertinho, quando fui tomar café com irmão da “prometida”. É assustadora…. mas é so aparencia. Esta que postei agora, tirada semana passada, tirei da estrada, não assusta muito. De qualquer forma Rodão, O Chiquinho da Borda foi embora dali no dia 23 de abril de 1953, a “pedido” do padre Cintra e nunca mais ‘atentou’ ninguem por lá. No entanto, se voce passar por perto e ouvir algum assovio… é melhor ficar atento!!!!!

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  1. Gostei da matéria, sou de Sta Rita do Sapucaí e estou morando em Tocos do Mogi a 8 meses, ouço essa história desde que nasci, claro que tem muito confete nisso tudo, foi muita bagunça pra pôca coisa, manifestações espirituais sempre existiram e continuaram a existir.
    Um abraço!

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    • Pois é Jacqueline, eu poderia ter me limitdo a transcrever apenas o relato do padre Cintra, no entanto fiz questão de investigar os fatos e falar sobre o comportamento das pessoas da epoca e das consequencias de se supervalorizar um fato na verdade bastante corriqueiro hoje em dia. Estamos cercados de ‘coisa ruim’ da borda, de Tocos, de Pouso Alegre ou Congonhal. A ciencia, como faz questão de frisar o padre Quevedo, bem como o Espiritismo, tira a mascara de qualquer capeta…

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  2. O Rodney disse que não viu nada, claro que não. Nem o monsenhor viu, apenas ouviu a voz cavernosa do chiquinho.

    Airton, agora, estamos no aguardo da história do corpo sêco, que vc prometeu contar e até agora nada.

    Sdçs!

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    • Abraços, Paulo. Feliz ano novo…
      Olha, ha meses tenho a historia do Corpo Seco quase pronta. Por motivos que não posso dizer aqui no blog, ‘dei um esfriada’, mas brevemente estarei publicando no blog ou no jornal impresso, ou em ambos. Só estou aguardando algumas definições mas terei muito prazer em contá-la, pois viví parte dela. Aguarde, Paulo…

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  3. MUITO INTERESSANTE A HISTORIA DA PEQUENA CIDADE DE BORDA MATA DA SUAS LENDAS COSTUME E CONTOS POPULARES. Estive nessa cidade a 2 meses atras por motivo de encontro familiar , onde dois irmão não se via a 55 anos , que legal pisei na terra que meu pai nasceu pode conhecer meus tio e primos e muita historia bonita dos antepassado quando ainda pequeno lembro das historia que meu pai contava do tal chiquinho e o corpo seco era historia para dormir com a cabeça coberta , lendo essa matéria me recordei das historias que meu pai contava e conta até hoje , Parabens pela matrias

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    • Olá geremias,
      Seu comentario me remeteu de volta à Borda da Mata, desde os meus tempos de adolescente, até os dias que voltei à cidade para investigar a estoria do Chiquinho. Passei momentos de medo e suspense nesta investigação.
      A proposito, Geremias, vejo que seu sobrenome é Coutinho… o meu embora seja Matos, sou Coutinho da gema, descendente de Joao Coutinho Portugal, que aportou em nossa região nos idos de 1750. Estamos escrevendo um livro para contar nossa historia.
      Meu email é airton.chips@yahoo.com.br, mantenha contato… Vamos trocar informações sosbre nossa numerosa familia.
      Abraços.

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    • Olá Fernando…
      Adoro esta cidade e sua gente!
      Estive na ‘casa’ do “Chiquinho da Borda” duas vezes. Na verdade, uma na casa e outra nas imediações. Na primeira vez fiz uma bela foto da assustadora da casa e prometi à con-cunhada do Capeta da Borda, nao divulgar. Guardei no meu arquivo e nao sei onde está. Se a encontrar publicarei no aniversario da ultima apariçao do “Chiquinho” , no dia 23 de abril proximo.
      Abraços.

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  4. Airton,
    Sou neto de Carlos Quintino e de Filomena Martons sobrinhos do Tio Alberto, e ouvimos essa história várias vezes, e o Tio Alberto se mudou para Barboza Ferraz. Sempre que essas história vem a tona em reuniões de família, ela serve para renovar a fé daqueles que duvidam da existência desses fatos. Eu não tive oportunidade de conhecer o Alberto obviamente, mas minha avó conta que o Alberto foi um homem sério e religioso, que falava e cumpria não falava da boca pra fora, o que consequentemente lhe trouxe esse fato. A história revelada pelo.padre foi bem resumida, na época a mãe do meu Avô Carlos visitou a família e muita história foi ocultada pelo padre a pedido da igreja e dos outros padres. Airton parabéns pela coragem de lidar com coisa séria, sua simplicidade é respeito pela história. Grande abraço, vou mostrar a carta do padre para minha avó Filomena Martins que hoje acredito ser a mais próxima sobrevivente do caso qu eu conheço, pois a tia Marta Irmã do Alberto, irmã do meu falecido avô Carlos também já e falecida.

    Se podemos escolher, que caminhemos então ao lado dos anjos do senhor.

    Abrsss
    Tony Soto

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  5. Procuro informações sobre a fundação do seminário dos capuchinhos. Alguém pode passar algumas informações, por gentileza?…Estou trabalhando em um livro sobre o assunto. Parece que Frei Belchior estava por aí, expulsando o capeta. Tenho notícias que o seminário foi fundado em 1952. Grato!

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    • Olá Laercio…
      Não tenho informações sobre o Frei Belchior. Sei apenas que ele fez parte do ‘time’ de padres que tentaram exorcizar o capeta da Borda, junto com o padre Pedro Cintra, Padre Oriolo, padre Alderige e outros… No entanto, dada a insistência do Chiquinho da Borda em permanecer na fazenda do portuga, na companhia da sua “prometida”, todo o time saiu de campo, ficando apenas o padre Cintra, que era o pároco da local, para convencer Chiquinho peralta a ir embora, – o que de fato conseguiu no dia 23 de abril! – e entrar para a historia da Borda. Padre Alderige, que ficou 50 anos em Santa Rita de Caldas, virou santo – não por isso – e está em processo de canonização no Vaticano. Quanto a Belchior e aos demais ‘exorcistas, nada sei…!

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  6. Airton ; conta a história da escrava Policena. Viveu na rua José Lino Simões 84 Ouro Fino. Tem um igrejinha com uma placa. Fica na saída para Inconfidentes, estrada velha. Existe uma mina d’água onde os viajantes do caminho da fé apanham água. A escrava foi morta por pegar água em uma mina de uma fazenda. No lugar onde ela morreu, brotou uma nova mina e a da fazenda secou. Dizem que a água é milagrosa.

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