Outro dia na DP, precisei de uma informação corriqueira que não estava disponível nos canais habituais. Pedi ao Pedrinho e ele prontamente acessou o sistema e mandou imprimir. No meio da impressão Pedrinho foi interpelado pelo “Zeca” e tomou uma tremenda bronca em publico, daquelas do estilo:
– Com ‘ordem de quem’ você está usando o meu computador para fornecer informação a particulares!?
Desenxabido diante da bronca injusta e desnecessária, em publico, Pedrinho se recolheu na sua subordinação e nada respondeu. Zeca então foi até a sala contígua onde a impressora vomitava o impresso de duas paginas, apanhou o papel, rasgou com fúria em dezenas de pedaços e jogou no lixo. A poucos metros, no corredor, ainda pude ouvir o ‘raasssg’, ‘raasssg’ do papel mormo sendo rasgado e atirado no cesto de lixo. Zeca voltou para onde estávamos e vendo que eu continuava ali folheando um jornal à espera da informação, debruçou-se no balcão, cruzou os braços e ficou aguardando desafiador que um ou outro de nós dissesse a alguma coisa!

Não. Não dissemos! Terminei de folhar meu jornal e saí dali. Não havia o que dizer. O gesto de Zeca encerrava qualquer argumentação. A estupidez, a maldade, o rancor de Zeca não deixava margem para um dialogo saudável. Fui buscar minha informação em outra fonte. Isso não impediu que a matéria de cuja informação eu precisava fosse publicada.
Mas não pude deixar de pensar no gesto do Zeca…
Ele não é um jovem impetuoso em começo de carreira. ‘Tem muitos anos de janela’ na policia. Está prestes a se aposentar. Parece perfeitamente equilibrado. Se veste bem. Parece tratar bem o publico… Socialmente então, passa a imagem de um ótimo cidadão. Religioso quase ao extremo… Acompanha missas e terços pela televisão diariamente no seu local de trabalho. Às vezes o cidadão que chega à DP em busca de informação tem que esperar um minuto ou dois até que ele sussurre o sinal da cruz e desfaça as mãos postas diante da TV! Ou então rezar com ele, antes de pedir a informação que foi buscar! É ‘Ministro da Eucaristia’ na igreja católica! Em toda festa beneficente promovida pela paroquia, lá está ele trabalhando de voluntario; vendendo cartelas de bingo, servindo mesas, sorrindo pras pessoas… É a figura perfeita do Bom Samaritano… Quase puro! É no mínimo ‘jardineiro do céu’… Esta bem perto de Deus! É assim que as pessoas o veem…!
Por que será que o Zeca tem um coração tão duro comigo!? Porque será que ele me trata assim como se eu fosse um ‘totó’…!? Ou uma erva daninha!?
Desconfio que o problema seja comigo…!
Eu devo ter feito alguma coisa muito grave para o Zeca nutrir tanta raiva assim! Por isso que quero pedir desculpas ao Zeca…
Me perdoe, Zeca. Me perdoe inclusive por não saber o que foi que fiz de mal para você ou para os seu amigos. Nos conhecemos desde que éramos crianças nas ruas do bairro da saúde, muito antes de pensarmos em ser colegas de trabalho… Me perdoe!
Ao chegar em casa e acessar o ‘face’ como faço sempre que chego da rua, coincidentemente no alto da tela estava a mensagem:
“O melhor indicador de caráter de uma pessoa, é como ela trata as pessoas que não podem lhe trazer beneficio algum”.
Bem, caso o problema seja o Zeca, vou pedir desculpas por ele também.
Há muito, muito tempo atrás um jovem de 33 anos, barbudo, cabeludo, cansado, ferido, agonizante, com dificuldade para levantar a cabeça, levantou os olhos ao céu e pediu ao Pai… “Perdoa, pai… Eles não sabem o que fazem…”
Vou plagiar “Meu Amigo Cabeludo”… Perdoa o Zeca Pai, ‘acho’ que ele não sabe o que faz!