Geraldo “Pão”… o ultimo homem da ‘roça’!

O homem no colo da figueira!

 

    

          Outro dia, depois de registrar os últimos lampejos do sol se deitando atrás do Morro das Onças, me despedi da bucólica vista da varanda do sítio, atrás da igreja, e rumei para casa. Ao ganhar a estrada vicinal, deserta àquela hora, parei por uns instantes olhando para o passado. Levado pela nostalgia, guinei à esquerda e segui na direção contraria da cidade, na direção ao interior do bairro dos Coutinhos. Segui lentamente, sem rumo, ouvindo uma ave aqui, outra ali, procurando um ninho para dormir, até que cheguei à encruzilhada da Tiririca! Eu pretendia ia mais adiante, quem sabe até o Canto do Mato conversar um pouco com o passado, mas, uma cena na encruzilhada da Tiririca me chamou a atenção. Já no crepúsculo da noite que turvava tudo à sua volta, vi a figura de um homem sentado no colo de uma figueira. No colo mesmo! As raízes rasas da jovem figueira formavam uma poltrona natural. O homem, grande, forte e sem camisa, usava apenas a calça ainda suja de terra da lida desde as primeiras horas do dia, arregaçada até as canelas. Na cabeça ostentava o velho e inseparável chapéu de palha de aba larga. Era o primo Geraldo. Parei para um centavo de prosa. A conversa esticou. Passou de um tostão, e logo a noite nos transformou em sombras na encruzilhada.

Geraldo “Pão” havia se levantado, como de hábito, no momento em que a corruíra, pulando de galho em galho na roseira abaixo da sua janela, começou a reclamar da claridade… por volta de cinco da manhã! Levantou-se, acendeu o fogão à lenha, fez o café, tratou das galinhas que já ameaçavam invadir a varanda em busca de milho, ajeitou algumas coisas no terreiro, juntou umas ferramentas de esticar cerca, colocou no embornal e voltou pra cozinha. Tomou uma caneca de café com leite, comeu bolo de fubá, acendeu o cigarro de palha e saiu empurrando a bicicleta morro acima em direção às Areias… Tinha que tratar de um gado de corte e curar bicheiras nalguns garrotes no mesmo pasto. Nesse dia não levou marmita, pois voltaria mais cedo para outra tarefa no lado oposto do bairro. Algumas horas depois voltou para casa, almoçou, tirou uma pestana na varanda da casa, fumou mais um cigarro, pegou o embornal de ferramentas e seguiu para o Córrego do Sapo. Passou o resto do dia consertando cerca de arame farpado.

Ao chegar em casa junto com o pôr do sol, bebeu uma caneca d’água, bebeu café morno na mesma caneca, pegou uma espiga de milho no paiol, descascou, debulhou, assanhou as galinhas, colocou a palha na algibeira e foi para a encruzilhada, se despedir de mais um dia.

Essa é a rotina do Geraldo “Pão”! Faz isso desde molecão… nos últimos cinquenta anos. Geraldo mora no que é seu, cercado de uma dúzia de galinhas, dois galos carijós e cinco cachorros de porte médio, todos adotados nas imediações.

Na juventude Geraldo frequentava a “Arvinha”, ponto de encontro dos homens do bairro, para atualizar os fatos do dia a dia. Por uns tempos frequentou também a “Vendinha do Vilino”, onde além do bate papo com os parentes – todos no bairro são parentes – tomava uns goles da cangibrina. Desde que se casou, há mais de trinta anos, o lazer mais longe que busca é na beira da estrada por onde passam poucos conhecidos…

Anos atrás, seguindo os passos da esposa, – é sempre assim: os homens vão aonde suas mulheres querem ir – mudou-se para Congonhal. Casa boa, moderna, bem localizada, cheia de plantas no quintal, invadindo a varanda. Faltava espaço para os bichos. Toda manhã depois do café com leite e bolo de fubá Geraldo montava uma bicicleta e ia trabalhar… na roça! nos Coutinhos e imediações, nos mesmos afazeres de sempre: consertar cerca, curar bicheiras de gado, roçar um pedaço de pasto…

Mais de uma década depois, levado de volta pela esposa, voltou a morar na roça… No bairro dos Coutinhos, há poucos metros do local onde nasceu, onde pode despertar toda manhã com o cantar do galo carijó.

     À direita da encruzilhada da Tiririca, seguindo para a Grota Funda, tem poucos moradores. À esquerda são dezenas de casas e de moradores. A maioria é de descendentes de antigos fazendeiros. No entanto, hoje são urbanos, tem hábitos urbanos, trabalham na cidade e ‘apenas moram’ ali. Quase todos passam de carro, de moto, e nem notam a presença do homem sentado no colo da figueira! Ninguém tem tempo para conversar… para um centavo de prosa. E nem assunto. Todos têm uma mulher e dois ou três filhos em casa e uma tv na sala… ligada na novela!

Há poucos metros da encruzilhada, na beira da estrada, uma bela e moderna casa com alpendre na frente e varanda nos fundos, cercada de horta, galinheiro e pomar, sua esposa – quituteira de mão cheia – está sentada diante de uma moderna TV 40 polegadas vendo novela. Ele, no entanto, prefere estar ali, na beira da estrada, até o sol se deitar atrás do pasto do Zé Gominho, ouvir o canto triste dos grilos, ver a noite estender lentamente seu manto negro e esconder até as sombras. Se tiver sorte pode ser que o curiango, curioso, pouse a poucos metros dele e caminhe apressado, fingindo medo, na estradinha poeirenta até levantar voo novamente!

Entrado na casa dos setenta, Geraldo talvez o último homem da roça, tira da roça o seu sustento. Sustento para o corpo… para a alma!

Geraldo precisa ver o sol nascer lá no espigão…

Precisa mexer com bichos… – vaca, boi, cavalo, porco, galinhas, cachorros, gatos, paca, tatu. As vezes precisa dar um chega pra lá numa jararaca… ou pisar no pescoço de uma cascavel…

Geraldo precisa limpar o suor da testa com as costas da mão, sentar num toco qualquer, empurrar o chapelão para trás, sacar da cinta o canivete de cabo de osso, picar o fumo de rolo e fazer ele mesmo o seu cigarro de palha…

     Por isso fica ali… até a noite esconder sua figura no colo da figueira. Até sua presença ser notada apenas pela luz tênue do seu cigarro de palha, qual vaga-lume no final do outono, e, talvez, pelo cheiro adocicado do fumo de rolo…

Geraldo precisa da poesia do entardecer… do frescor da noite… do cheiro da poeira da estrada… de alguém para conversar…

As pessoas pouco vão à casa dele… e ele pouco vai à casa delas. Mas pode ser que alguém passe a pé na estrada. Por isso ele senta no colo da figueira no fim da tarde, para ver as pessoas passarem, e quem sabe, trocar um dedinho, ao menos um dedinho de prosa, mesmo que seja apenas um:

– “Tarde”…

– “Noite”…

– “Bão”…

Esses são os curtos diálogos que travam, entre uma tragada e outra do cheiroso cigarro de palha, na beira da estrada.

Nosso encontro ali na encruzilhada foi uma mera casualidade. Depois de três anos morando em Belo Horizonte, absorto em saudosas lembranças, eu andava a esmo pela estrada da minha infância até esbarrar no raro espécime! Geraldo Pão ganhou o dia – e eu também! Conversamos até as estrelas dominarem o céu.

 

O personagem no colo da figueira não é ficção. Ele é de carne e osso… e de sentimentos puros, em sintonia com a natureza! Meus netos um dia saberão – através dos livros – que homens com esse perfil existiram até o apagar das luzes do século XX. Existiram. Não existem mais. Geraldo Pão é uma exceção. Nascido em meados da década de 1950, Geraldo, o último homem da roça, é feliz vivendo no século XX, sentado no colo da figueira. Ele não precisa do século XXI…

Estou numa nova missão: escrever livros!

Olá, meus estimados leitores!

     Fiquei muito lisonjeado com os comentários e felicitações em relação à postagem “Execução na Baixada do Mandu”. Em menos de vinte e quatro horas já passam de 40 mil visualizações, centenas de comentários e dezenas de compartilhamentos.

     Apesar da alegria pelo reconhecimento do meu trabalho de cronista policial, devo esclarecer:

– Não estou reativando o Blog de noticias policiais. Esse foi um caso esporádico que me chamou a atenção.

     Estou numa nova missão: ser escritor! Desde 2019, quando parei de cobrir o noticiário policial na região para me dedicar aos livros, é o que tenho feito. Desde então publiquei 03 livros, – um de Crônicas Policiais vivenciadas no Sul de Minas, um romance policial (ficção) ambientado na Serra da Mantiqueira, e um romance biográfico que conta histórias de dezenas de pets que fazem parte da minha vida.

     Continuo, portanto, escrevendo mais do que nunca. Porém assuntos mais leves e enriquecedores, assuntos que falam de lutas e fé, com o bom humor de sempre, procurando levar uma mensagem otimista, construtiva à vida das pessoas. Não escrevo mais sobre ‘pessoas que recebem as pulseiras dos homens da lei’. Escrevo histórias que prendem o leitor… aos meus livros!

     “Chico Luca & Mariana … e as 10 filhas”.

     Este é o título do meu próximo livro que está sendo editado. Uma linda história de uma família que é obrigada a abandonar sua terra e se mudar pra cidade em meados do século passado. O lançamento está previsto para o final do mês que vem, ao custo de R$ 64,90.

     Se você gosta do meu jeito de contar histórias, vá pensando em adquirir o seu exemplar.    

Execução na Baixada do Mandu

Matador atirou em um carro no Aterrado em Pouso Alegre…

e matou uma mulher em São Paulo!

O alvo da execução era ela mesmo. Julia, 29 anos, era ‘Job’ numa boate nas margens da BR 459 em Pouso Alegre.

O crime, uma execução possivelmente por motivos passionais, aconteceu no início da madrugada deste domingo, 02, na Av. Vereador Antônio da Costa Rios no Aterrado.

O modus operandi do crime lembra um daqueles clássicos crimes de execução por desacerto de drogas. O carro, um Corolla, seguia sereno pela avenida até que uma dupla de motoqueiros se aproximou, o garupa sacou o trezoitão e descarregou o trabuco na direção do alvo sentado no banco de trás. Quatro balaços atingiram não letalmente o passageiro. Dois tiros atingem fatalmente a passageira ao seu lado. Ambos foram imediatamente socorridos ao Hospital Regional Samuel Libanio. A jovem, no entanto, não resistiu aos ferimentos e morreu ao dar entrada no nosocômio.

Segundo o rapaz, ferido em regiões não vitais do corpo, sua namorada se chama Julia Becker, 21 anos, natural do Rio de Janeiro.

Conforme dispõe a Lei, seu corpo seria levado para o IML ali ao lado, para ser submetido à exames de necrópsia. Seria! Para isso é necessário a identificação do corpo para a expedição de Guia.

Seguindo as informações constantes no BO que narra os fatos, ao consultar o SUS a administração do nosocômio responsável pelo preenchimento do Atestado que antecede a Guia, chegou facilmente até a família de Julia na cidade de São Paulo. Até aí nenhuma surpresa. Afinal, o ‘sistema’ está aí para isso. Surpresa – e muito brava – ficou a mãe da Julia Beker ao ser informada que sua filha havia sido assassinada!

– Que brincadeira é essa? Quem é você? Você está tentando me passar um golpe? Minha filha Julia está sentada no sofá aqui ao meu lado!

Bem, diante desse pequeno impasse, o corpo da Julia Beker passou o dia esfriando no necrotério do hospital. Até que a médica de plantão, incomodada com a demora para a liberação para poder exercer seu mister, foi ao hospital buscar o corpo que, por força de lei, pertence ao Estado, ao IML. Ao tomar conhecimento do imbróglio, a legista iniciou suas investigações. Uma hora depois tudo estava em pratos limpos. Julia Beker, na verdade se chamava Julia Conceição Oliveira, tinha 29 anos, uma extensa e movimentada rede social, dada à sua profissão, e morava numa boate nas margens da BR 459 onde exerce seu ‘Job’. Sua família residente no Rio de Janeiro recebeu a triste notícia e está a caminho de Pouso Alegre para transladar seu corpo.

Se o imbróglio não tivesse sido esclarecido, teríamos duas situações no mínimo constrangedoras.

Primeiro: o corpo da garota de programa Julia Conceição Oliveira, por falta de identificação formal, iria congelar na geladeira do IML até ser enterrada como indigente.

Segundo: quando a Julia Beker paulistana necessitasse usar os serviços do SUS, iria descobrir que estava morta há muito tempo.

Mas nem todo o imbróglio está esclarecido! O alvo da execução na madrugada no velho Aterrado não era o passageiro do banco de trás, mas sim a passageira! Até onde a polícia já chegou nas investigações, a execução teria sido cometida por motivos passionais! E teria sido cometida a mando da ex-namorada do passageiro do banco de trás!

Os dois motoqueiros executores do nefasto crime já sentiram o frio das pulseiras de prata, sentaram ao piano do paladino da lei e foram se hospedar no Hotel do Juquinha.

A PC agora vai se debruçar sobre o caso para apontar a causa real, e apresentar o mandante ao Homem da Capa Preta.

LEMBRANÇAS DOS ANOS 70!

Corria o ano de 1975.

“Rinha” e seus Rodeios, no centro de Pouso Alegre, nos anos 1970.

Na praça Senador José Bento os homens ainda circulavam no jardim, em duplas ou turmas, sempre da direita para a esquerda, sentido anti-horário… As mulheres, da mesma forma, circulavam ao contrário, da esquerda para a direita, aos pares ou pequenos grupos, fingindo timidez, flertando com os homens com os quais cruzavam no passeio!
Muitos destes flertes terminaram na cama… depois de dois anos de noivado e do “sim” diante do padre!
Na Dr. Lisboa, fechada para o trânsito de veículos desde o início da noite até às dez e meia, ficavam os ‘riquinhos’, em grupos nas calçadas, no meio da rua. Os que tinham dinheiro iam para os bares e barzinhos por ali: Vila Rica, Uirapuru, Tamandaré, Motão, Bug Dinks, Papillon… Quem tinha carro fazia vaquinha com os amigos para a gasolina e iam para a boate Shadows na Fernão Dias.
O ponto alto da Avenida acontecia aos domingos exatamente às nove e quinze da noite. Naquele momento o Muroni abria a porta da sua loja, virava uma TV em cores 20 polegadas (ainda novidade) para a avenida e ligava na Globo, para mostrar os Gols do Fantástico. Eram 15 minutos de bola balançando as redes por todo canto do Brasil.
A diversão maior da juventude, no entanto, acontecia durante o dia de domingo… a sete quilômetros do centro da cidade, no bairro Ipiranga… Era ali que ficava o Lago Caiçara! Desde as dez da manhã filas de ônibus da Cipatur faziam o trajeto, levando gente para nadar no lago. Cobrava-se dez cruzeiros de cada pessoa para nadar o dia inteiro.
Não havia salva-vidas.
Todo moleque de qualquer idade naquela época sabia nadar. As mulheres nem tanto. Mas havia, do lado esquerdo do lago, próximo à lanchonete, uma extensa praia artificial mesclando concreto com areia. Além do mais, os primeiros três ou quatro metros lago adentro ‘davam pé’.
Nós, garotos, é claro, queríamos aventuras perigosas. Queríamos nadar no fundo. Pular do trampolim de madeira na extremidade mais profunda do lago, paralela à BR 459, de frente para a plateia, era o auge. Ninguém sabe a profundidade do lago nesse trecho… Pois ninguém nunca tocou no fundo!
Havia constantes disputas de saltos ornamentais, para ver quem saltava mais alto, mais longe, mais bonito, mais esquisito… quem ficava mais tempo submerso!
Havia uma disputa ainda mais desafiadora… e arriscada! Todo domingo formava-se um pequeno grupo de aventureiros corajosos – ou sem juízo! – para atravessar o lago de uma extremidade à outra, na parte mais longa. A chegada era justamente ao lado do trampolim, onde era muito mais profundo e arriscado, pois o nadador chegava ali no limite das forças! Se tivesse cãibra durante a travessia, no dia seguinte uma guarnição do Corpo de Bombeiros de Varginha viria procurar o corpo no fundo lodacento do lago.
Mas havia algo ainda mais divertido do que nadar no lago caiçara naqueles belos e ensolarados domingos dos anos 70! A melhor parte da diversão … eram as viagens para o local!
Os ônibus, colocados pela empresa especificamente para atender esse filão, saiam da Avenida Getúlio Vargas (hoje Lojas Cem) desde o final da manhã. Iam e voltavam sempre lotados! Era no interior dos ônibus que mais se davam risadas! Invariavelmente em todos os carros tinha alguém que levava um gravador cassete (do tamanho de dois tijolos juntos). Fitas cassete não faltavam.
Apesar do sucesso das músicas românticas que marcaram a década – e fazem sucesso até hoje – a mais tocada daquele meio de década, e cantada pelo povo em todo canto, foi uma música irritante e enfadonha da dupla Amado & Antônio. A dupla caipira, que parodiava Jacó & Jacozinho, ficou famosa com: “A música do pepino”! Essa virou hit! Era tocada à exaustão muitas vezes por dois ou mais gravadores no interior dos ônibus com mais de 60 pessoas se acotovelando, balançando, rindo, imitando a voz infantil e caricaturizada da dupla de caipiras.
O melhor da música era o irritante refrão!
Ficava mais enfadonho ainda cantado em coro por metade dos passageiros dentro do ônibus, imitando a voz de criança desafinada, manhosa, chorosa e desacorçoada da dupla…
“Eu não quero mais pipino, nem do grosso, nem do fino… eu sofro do intestiiiino, Deeeeeus nos livre de pipiiiiiiiiiiiiiiiiii Antoiiiiiiiiiiiiinnnnn!
Para quem não cantou, ou quer relembrar, eis a letra completa da música mais cantada de 1975!
“Arei à terra, um terreno genuíno,
Preparei pra melancia porque o preço está subindo
Gastei a grana, fiquei duro até tinindo,
Mandaram a semente errada, só nasceu pé de pepino.
Eu não quero mais pepino…
Eu não quero mais pepino nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestino, Deus nos livre de pepiiiino Amado!
Eu namorei a filha do seu Guerino
O casamento marcado para as festa do Divino.
Um certo dia o velho falou sentindo
Só posso vestir a noiva na colheita do pepino.
Eu não quero mais pepino
Eu não quero mais pepino, nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestino… Deus nos livre de pepiiiino Antônio!
Essa verdura andava me destruindo
Fiz exame, me operaram, deram alta eu vinha vindo.
Cheguei em casa, a mulher falou sorrindo
Me abraçou e disse benzinho: tem sopinha de pepino.
Eu não quero mais pepino…
Eu não quero mais pepino, nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestiiiino, Deus nos livre de pepiiiino Amado!”

Padre é preso depois da missa!

Alheio aos ritos cerimoniais, ele estava misturando Jesus com Genésio!

Você já pensou em ser artista de teatro no cotidiano? Se passar por outra pessoa?

Já pensou em se apresentar numa delegacia de polícia dizendo que é delegado e assumir suas funções?

Ou então se apresentar no fórum da Comarca dizendo que é o novo promotor de justiça e ter acessos aos processos, participar das audiências e até mesmo convocar e participar de diligências policiais?

E Padre?

Já pensou em ser padre de mentirinha? Celebrar missas, ouvir confissões, ganhar presentes das beatas, dar a benção para fiéis, ser reverenciado na rua e morar de graça na casa Paroquial? E, quem sabe, até dar assistência… digamos, ‘calientes’ à algumas beatas ‘pouco católicas’ e fogosas?

Este parece ser o melhor personagem, não é?

Pois foi o personagem que Fabrício G.M., 35 anos escolheu. Ele se apresentou na igreja de São Pio, no bairro Quitandinha, na cidade de Araraquara como Padre Fabrício e passou a celebrar missas e outras cerimonias. Tratado pelos fiéis com o devido respeito e crédito que merece um emissário de Deus, ‘padre’ Fabrício foi até uma livraria católica e comprou cerca de R$ 2 mil reais em livros e artigos religiosos…. e mandou ‘pendurar’ na conta da paróquia, naturalmente.

O falso padre estava ‘vivendo no céu’! Só tinha um problema: como ele nunca foi um assíduo frequentador de igreja, e não fez nenhum curso preparatório, ele não estava sabendo celebrar direito as missas. Na verdade, ele ‘não sabia da missa o terço’! e passou a misturar os ritos e santos, além de confundir Jesus com Genésio.

Alguns fiéis, percebendo que o novo padre não era muito católico, resolveram pedir ao padre da matriz de Araraquara para ajudá-lo…. E foi aí que o santo mostrou as ‘solas dos pés sujos’! Era um tremendo picareta, infiel, tentando levar a vida de bem-bom da batina.

Constatando que o padre era bem menos padre do que o sacristão, o vigário da paroquia, sem estardalhaço, levou o fato ao conhecimento dos homens da lei. Consultando sua capivara, descobriu-se que Fabricio era figurinha fácil no álbum da polícia paulista pelos crimes de falsidade ideológica e furto.

Ao interpretar mal o papel de padre, o palco do Fabricio caiu, e ele finalmente se enroscou nas malhas da lei. Na sua última missa celebrada na capela da Vila Quitandinha, havia dois beatos a mais na plateia de fieis. No final da missa os dois se aproximaram com cara feia, sacaram da algibeira um “mandamus” do Homem da Capa e disseram aquela velha frase que faz gelar a espinha:

– “Teje preso”! – E lhe mostraram as pulseiras de prata.

Embora cultue a arte da representação teatral, Fabricio, de 35 anos, não leva jeito para a vida artística. Na capital paulista e arredores ele já foi “advogado” e “Delegado Federal”, mas nunca recebeu aplausos e sempre teve que sair pela porta dos fundos!

Se Deus perdoou Fabricio pela farsa da batina, não sabemos. A justiça, não! Depois da missa ele recebeu as pulseiras de prata da lei, como qualquer mortal pecador, e foi se hospedar no hotel do Juquinha de Jaboticabal.

    *** O falso padre conseguiu enganar os fiéis do bairro Quitandinha por apenas duas semanas. Em Pouso Alegre, no final dos anos 80, um cidadão serio e bem trajado se apresentou no Fórum da Comarca dizendo que era Promotor de Justiça. Assumiu o cargo e durante quase três meses acompanhou audiências e falou em processos. Como ele gostava mesmo era do trabalho policial, acompanhou dezenas de blitz e rondas policiais pela cidade. Era tão Promotor de Justiça quanto o padre Fabricio. Mas ele foi mais bem sucedido do que o padre. Quando percebeu que a casa iria cair, o falso promotor desistiu da promissora “carreira’ e dobrou a serra do cajuru!

Tragédia na Serra Gaúcha

Enterrados sem velório…

Não tem como esquecer aquela noite de fim de maio!

A noite estava mais escura do que qualquer outra. Das encostas e colinas as pessoas viam apenas as luzes tremeluzentes dos poucos carros que se arriscavam a subir ou descer a serra pela serpenteante estradinha para cruzar o caudaloso Rio das Antas. Aos poucos a estrada foi ficando deserta, até que ninguém mais passou por ali. Agora a ponte, as águas vermelhas e agitadas do rio, o cume das montanhas de todos os lados e parte do vale só apareciam quando os relâmpagos cortavam o céu. Era nesse momento também que as pessoas viam o tamanho do pavor: uma nuvem gigantesca pairava no alto, no nível dos cumes das montanhas que cercam o vale e o rio. Parecia uma nave gigantesca, do outro mundo, que as vezes se deslocava seguindo o curso natural do rio parecendo que ia seguir para o mar distante. Do nada, ao sabor do vento, a nuvem amedrontadora voltava para a escuridão da serra. De repente a nuvem começou a desintegrar … e o gigantesco diluvio caiu sobre o rio, sobre a serra, sobre as casas! Não só molhando, mas quebrando arvores, deslocando pedras, destruindo!…

A primeira vítima foi a energia elétrica. E o vale ficou totalmente no escuro. E ficaria assim durante 41 dias!

A segunda vítima da tempestade foram os cumes das montanhas. Arvores centenárias, gigantes, pedras há milênios intocadas se desprenderam dos cumes, das encostas e desceram montanha abaixo arrastando impiedosamente tudo que encontrava pelo caminho.

A terceira vítima foram os moradores daquelas encostas. Pessoas que estão ali há décadas, nos pequenos sítios, nos comércios de beira de estrada…

Só ali no Distrito de Tuiuti, no Vale do Rio das Antas, duas dezenas de vidas foram levadas ou soterradas pelos deslizamentos de terras.

O caso mais comovente aconteceu no alambique de um amigo meu, fincado ali na encosta do Vale do Rio das Antas desde o início do século passado.

Uma família, cuja casa corria rico de ser arrastada pela fúria da tempestade, abandonou a moradia e foi se abrigar no alambique, do lado de cima da estrada. Uma garotinha de 4 anos, que não tivera tempo de se agasalhar, passava frio. A funcionária do alambique se ofereceu para buscar um agasalho para ela em sua casa, a cem metros dali. O marido quis ir com ela pela trilha escura. Mas foi o pai, que também morava com eles, que a acompanhou. E foram ambos, a jovem e o pai buscar os agasalhos a poucos metros dali. Passados alguns minutos as pessoas que estavam no abrigo ouviram mais um estrondo. Correram na direção da casa a tempo de presenciar parte da tragédia. Um pedaço do cume da montanha havia se despregado e descera a encosta arrastando pedras, arvores, canaviais, cafezais e tudo que havia em seu caminho. A casa dos funcionários, a poucos metros do alambique estava no seu caminho. Os patrões e o marido da jovem chegaram a tempo de ver a casa ser moída e arrastada pela avalanche como se fosse um pedaço de cana. Em segundos a casa e tudo que havia nela desapareceu em meio à montanha de entulhos e escorregou para o traiçoeiro rio poucos metros abaixo da estrada. Os corpos da jovem esposa e do seu pai nunca mais foram encontrados.

Os proprietários do alambique e o marido viúvo continuam lá, tocando o centenário alambique artesanal, tocando a vida. Do canavial, do alambique, das janelas de suas residências ao lado, do deck, da porta da loja, de qualquer lugar se pode ver as cicatrizes na terra, o rio que continua seu destino silencioso, às vezes sereno, às vezes caudaloso escondendo seus segredos. Nalgum lugar do seu leito repousam os corpos da jovem esposa e seu pai. As águas seguem, a vida segue… mas nunca mais serão as mesmas!

Sete meses depois da revolta da natureza e da tragédia que ceifou vidas e sonhos, a vegetação rasteira começa cobrir de verde as chagas vermelhas da montanha ferida… Mas a cicatriz ficará para sempre, na montanha… e nalguns corações!

O melhor da viagem… É o caminho

Se for para o Sul… melhor ainda!

Garibaldi…

Dois mil e vinte quatro foi (mais) um ano abençoado! Voltei para minha terrinha, para meu habitat…

Tatiana deu uma guinada na carreira e vem se projetando numa nova atividade profissional…

Meu caçula fez uma transição perfeita da infância para a adolescência, conquistando seu espaço, novas amizades… Cresceu sem perder a pureza!

Publiquei meu quarto livro – Cachorradas da Minha Vida -, cada vez mais lido. E conclui o quinto para publicar este ano… Sim, um ano para brindar!

E se é para tilintar taças nada melhor do que um bom vinho! Então, fomos para o Sul… nosso velho roteiro de férias!

Primeira parada: Bar do Alemão – uma mistura de castelo com barracão rústico no centro histórico de Curitiba. Parada obrigatória de quem desce do Sul de Minas para o Sul do Brasil. Lugar meio mágico, místico, bem frequentado e barato!

Destino final – e estratégico: Farroupilha.

De Farroupilha se vai para uma dúzia de cidades e uma centena de vinícolas num raio de trinta quilômetros – meia hora de viagem – tais como Garibaldi, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Pinto Bandeira, Flores da Cunha, Caxias do Sul…

Do centro de Farroupilha ao Vale dos Vinhedos, onde em cada encruzilhada tem uma nova vinícola brotando a cada ano, são menos de trinta minutos. Ali estão as vinícolas Aurora, Miolo, Casa Madeira, Casa Valduga, Dom Candido, Carrara e tantas outras.

A bucólica Casa da Erva Mate, a Casa da Ovelha e outros endereços tradicionais, acolhedores, bucólicos e cheios de saudosismo estão no “Caminho de Pedra”, a menos de 15 quilômetros do centro de Farroupilha.

Se, no final do dia, a gente quiser dedicar uns minutos para afagar a religiosidade e apascentar o espírito, o Santuário de Caravaggio, através de uma estradinha florida, está a dez minutos de viagem. O Por do sol, em qualquer estação do ano, entre os braços da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, não cobra nada, mas vale o ingresso!

O “Natal dos Vinhedos”, realizado na sexta e no sábado que antecede o Natal, é o ‘cartão de visitas’ para quem desce para o Sul nessa ocasião. Regada a muuuuiiiito vinho, churrasco e boa música temática, ao vivo, a festa acontece desde o crepúsculo até a madrugada no pátio da vinícola Miolo, em Bento Gonçalves. Criada pelos produtores de uvas da região para ressuscitar o turismo pós-Pandemia, a festa encanta, contagia, emociona e nos renova.

E Gramado?

Ir à Serra Gaúcha e não visitar Gramado e Canela… é como ir à Roma e não visitar o Coliseu!

É linda, colorida, mágica, encantadora… e cara! E basta um dia e uma noite. Programa ideal é o passeio no ônibus turístico (vermelho, de dois andares e teto solar) pelos principais pontos turísticos de Gramado e Canela, cerca de duas horas de passeio, de preferência pela manhã. Depois do almoço o turista volta de carro aos pontos que mais agradou. Foi o que fizemos em 2016. À noite, o jantar na Rua Coberta completa o sonho de conhecer a Serra Gaúcha.

Depois dos fermentados de uva da Serra Gaúcha, era hora de degustar fermentados de cevada em Blumenau, a capital nacional da cerveja. E de degustar também alguns destilados de cana produzidos ali nas imediações. A Cachaçaria Moendão, uma das mais premiadas nos concursos de Bruxelas fica na beira da estrada em Gaspar. A Bylaardt de Luiz Alves, não menos laureada, tem uma loja só dela no centro comercial de Pomerode, a cidade mais alemã fora da Alemanha.

De Blumenau para… Rio de Janeiro!

Afinal, a maior queima de fogos do Reveillon – no Rio e Niterói – pode ser vista da casa da sogra no Aterro do Flamengo, rsrsrs. Terminamos o ano velho e começamos o ano novo com o pé na estrada. Sim, 2024 foi fantástico. 2025, com as bênçãos de Deus, vai pelo mesmo caminho.

Meu novo livro chega no começo de março…

A você que acabou de ler este post, espero que seu 2024 tenha sido tão bom quanto o meu. E desejo que 2025 seja ainda melhor.

Deus te abençoe!

Policial é vitima do Homem Aranha

A pistola do policial foi parar na cueca do gatuno…

Madrugada fria e silenciosa de finados no bairro Lagoinha. Um soturno lombrosiano se aproxima da grade que circunda o prédio, joga cobertores velhos e trapos sobre a afiada e ameaçadora concertina, neutraliza suas garras e a cerca elétrica, escala a grade e pula para o pátio do pequeno condomínio. Seu alvo é o terceiro andar do predinho de apartamentos cuja cortina balança suavemente ao sabor da brisa que entra pela janela aberta. Pacientemente ele coloca seus talentos aracnídeos em ação… E escala o prédio usando as janelas e as sacadas até chegar ao apartamento da sua escolha. Silencioso como um gato, ele desfila pelo apartamento, escolhe pacientemente a res furtiva e, tão sorrateiro quanto entrou, sai de fininho sem ser percebido.

O morador continua solenemente nos braços de Morfeu. Tem o sono pesado. Sonha, talvez, com uma promoção no trabalho ou, quem sabe, com os meliantes que prendeu no dia anterior.

– Esse foi o crime perfeito! Digno de Oscar’. Meus ‘parças’ de caminhada vão me respeitar. Já o tira vacilão, quando acordar de manhã e descobrir a ‘parada’, vai ter um mistério para investigar!  – Pensa o homem aranha descendo sorrateiramente as escadas internas do predinho.

Seria mesmo um crime perfeito!… e misterioso!

Mas…

Eram as primeiras horas do Dia de Finados… Havia muitos espíritos desencarnados fazendo festa por ali, comemorando seu dia. Mas foi um encarnado que casualmente saia para o trabalho que o surpreendeu. Quando o gatuno descia a última escada para chegar à garagem, onde pegaria a principal rês furtiva cuja chave levava na algibeira, o morador apareceu no seu caminho e colocou a boca no trombone! Em segundos o prédio todo foi sacudido pela desafinada sinfonia do morador do primeiro andar:

– “Pega ladrão”!…

Metade dos moradores do prédio saltaram dos braços de Morfeu e desceram a escada para ajudar o vizinho… inclusive o dono do apartamento invadido e furtado!

Em poucos minutos o gatuno foi dominado pelos moradores e entregue aos homens da lei que não tardaram a atender ao chamado…

Ao deter o gatuno, o morador do apartamento invadido minutos antes, sem saber que ele havia sido a vítima da vez, reconheceu o meliante. Duas semanas antes, ele, o morador, havia detido o mesmo gatuno – sem convite – no interior do condomínio e o havia entregado à polícia militar. Por isso mesmo ele fez questão de ir à delegacia acompanhar a lavratura do flagrante. – Quem sabe desta vez o meliante criasse raízes no hotel do contribuinte.

– Que ousadia! Entrar no mesmo prédio uma semana depois de ter sido preso! – pensava o morador revoltado.

Mais surpreso ele ficou quando adentrou seu apartamento para pegar os documentos e as chaves do carro. Não estavam onde ele costumava deixar! Bastou uma rápida procura para chegar à conclusão: ele fora o premiado com a visita sorrateira do gatuno da madrugada! O lombrosiano havia furtado roupas, as chaves do carro e…pasmem!!! sua pistola Glock, carregada até a boca de azeitonas.

Sim, a vítima – escolhida – do furto do terceiro andar é policial! O meliante roubou sua ferramenta de trabalho e pretendia roubar também sua caminhonete que estava na garagem!

As surpresas não param por aí!

Ao chegar à delegacia – em tempo recorde – o policial constatou que sua pistola ainda estava na cueca do gatuno! Felizmente ele usava pulseiras de prata e não pôde exibir a pistola. Além da arma, que não teve oportunidade de usar, o meliante usava calça, camiseta e tênis furtados do policial enquanto ele dormia. As chaves da caminhonete estavam na algibeira da calça de camuflagem …

O ousado gatuno ladrão de policial – e dublê de Peter Parker – é figurinha fácil no álbum da polícia. Seu currículo é recheado de 33, 157 e 155 como esse. Se ele tivesse conseguido levar a caminhonete e a pistola do policial, por um bom tempo seus ‘parças’ de caminhada o tratariam como a ‘última batatinha do pacote’! Ganharia status no submundo do crime…

Metade da façanha ele conseguiu, mas… “Perdeu gatuno”!

Ah, no momento da prisão, o ‘homem aranha de araque’ portava na canela um famoso ‘adereço’, também conhecido como: ‘passaporte para cometer novos crimes’! Aliás, passaporte muito comum entre os meliantes – e políticos – hoje em dia:  uma ‘tornozeleira eletrônica!

Jó…

 É uma dessas pessoas que deixaram rastros na minha terra!

 

Jó… quando ainda rachava lenha para ganhar um prato de comida!

Ninguém sabe ao certo quando elas pararam no bairro pela primeira vez! Quando os moradores perceberam, elas estavam acampadas sob uma caneleira na beira da estrada. Dormiam sob arvores e sobre trapos! Quando se deslocavam carregavam as tralhas em sacos nas costas. Pediam o almoço aqui, o jantar ali e tornavam a arranchar sob frondosas arvores nativas. Quando chovia, dormiam na beira de ranchos ao longo da estrada. Ficavam uns dias por ali nessa rotina até que desapareciam. Cavaleiros ou carreiros de boi que levavam mercadorias ou gado de Congonhal para Pouso Alegre diziam tê-las visto caminhando ou arranchadas ao longo do caminho. Alguns meses depois voltavam a arranchar no bairro dos Coutinhos. Vinham sempre pelo bairro dos Macacos, dobravam o morro das onças e chegavam ao centro do bairro. Inicialmente eram duas: Bastiana ‘velha’ e a filha Bastiana ‘nova’. Depois vieram os filhos da Bastiana nova: Dito e Jó.

Jó cresceu andando pelas estradas quase desertas da região, andando lentamente atrás da mãe e da avó. Andava lentamente porque elas, carregando as tralhas ajoujadas nos ombros, não conseguiam andar rapidamente. E não havia pressa. Não tinha uma tarefa para tirar. Não tinha um destino aonde chegar. A única coisa que os esperava no final do caminho era uma sombra de arvore para descansar. E a sombra não ia sair do lugar ou reclamar se eles atrasassem.

A hospitalidade peculiar dos descendentes de João Coutinho Portugal, pôs fim à vida nômade da família da Bastiana. Inicialmente faziam paradas mais longas ali no bairro do que em qualquer outro trecho da região. No seio daquele povo alegre, compassivo e ordeiro – e religioso – era fácil conseguir comida. Depois de anos andando pelas estradas com as tralhas em sacos ajoujados nos ombros, no final dos anos 50, finalmente fixaram residência ali, onde construíram uma choça na beira da estrada. Era uma choça mesmo. Feita de bambus inteiros e coberta com sapé. Apenas o lado interno das paredes era preenchido com barro, para evitar a entrada do vento. Juntando pedras e barro construíram também um fogãozinho no chão na entrada da morada. A utilidade maior do fogão era esquentar água e… esquentar os pés, antes de dormir! A choça foi construída embaixo de uma moita de bambu, entre a BR 459 que seria asfaltada e a estrada Velha que levava quem quisesse para Congonhal. A água corrente ficava há cerca de cem metros abaixo no Ribeirão Santo Antônio que corta em toda extensão o bairro.

Jó era saudável e tinha braços fortes, mas tudo que aprendeu na vida durante suas andanças, era rachar lenha, carpir horta, limpar curral, atividades que não exigiam nenhuma habilidade construtiva, ferramenta especial ou apego à terra. Jamais plantou um pé de milho, jamais tirou uma tarefa de quinze braças, jamais fincou mourões e esticou uma cerca de arame farpado, jamais tangeu ou ordenhou uma vaca Jersey cor de caramelo. Aprendera desde pequeno, com a avó e a mãe, que para conseguir um prato de comida bastava rachar um monte de lenha na casa do ‘patrão’. A cachaça que ele bebia de vez em quando na vendinha do Vilino, essa custava menos. Era só pedir que alguém pagava. – Nas vendas de beira de estrada na roça, nunca faltou alguém que pagasse uma pinga para quem pedisse!

– “Cê pode dá um gole de cachaça pra mim”? – dizia Jó se aproximando do balcão de madeira da vendinha do Vilino.

Assim Jó e as Bastianas viveram no – quase – paraíso chamado bairro dos Coutinhos. Até que tempo e natureza cobraram seu preço pela vida singela e quase primitiva que levavam. O primeiro a desfalcar a família foi o Dito, o mais soturno e calado. Não muito tempo depois Bastiana velha sumiu da porta da choça, da beira do fogãozinho a lenha…

Alguns anos depois foi a vez da Bastiana nova se despedir. Morreu vítima da mesma enfermidade do filho Dito: pneumonia. Trazido para o velório na casa do padrinho, sem saber que era o da própria mãe, quando parou na beira do caixão no centro da sala, Jó tirou o boné da cabeça como era costume entre os cristãos, contemplou o rosto sereno, inerte… e limpo! da mãe, e se limitou a dizer, sem alterar a voz lenta e rasgada:

– Tá boniiiiita!

Da sala se dirigiu para a cozinha, sentou-se num banquinho na taipa do fogão como se fosse sua casa e falou:

– Tem café?

Tão solitário quanto o tamanho do seu nome, ficou Jó. E foi morar numa casinha construída pelo padrinho na beira da estrada no centro do bairro. A casinha de um cômodo só, media três por quatro metros. A mobília se resumia a uma cama e uma mesinha de madeira rústica. Um bambu sustentado por dois pedaços de arame que desciam do teto servia de guarda-roupa. Havia também, dentro da casinha, um pequeno fogão à lenha, pois Jó, como todo homem da roça, cultivava o hábito de esquentar os pés enquanto fumava seu cachimbo antes de dormir. A historia não acaba aqui.

Jó… seus últimos dias no asilo…

Jó nada produziu! Não plantou arvores; não teve filhos; não escreveu livros; mas ainda vive … na memória de alguns. O ‘bugre’ Jó é uma destas pessoas que deixaram rastros, muitos rastros, na minha terra!

 

Policia prende… e paga pra soltar!

     Os policiais estavam cumprindo a ‘lei do desarmamento’…

Passava pouco de três da tarde quando a viatura dos Homens da Lei embicou na entrada do sítio do Nicolau, ao pé da Grota do Monjolo no município de Toledo. O sargento desceu preguiçosamente do Palio, abriu a porteirinha de quatro tábuas, fechou e andou os poucos metros atrás da viatura até a porta da casinha branca de alpendre azul. Depois de acalmar ‘Gigante’, o cãozinho malhado pouco maior do que um Pinscher, o sargento fez o levantamento visual do entorno da casinha branca: um pomar e uma horta à direita, um capão de capim Napier ao lado do curral à esquerda, um pequeno ribeirão encachoeirado ao fundo, um chiqueiro com meia dúzia de porquinhos grudados na barriga de uma porca carioca e algumas galinhas ciscando aqui e ali no terreiro vigiadas de perto por um galo carijó dourado. Do rancho ao lado do curral, Nicolau, que estava apartando uma vaquinha Jersey do bezerro, se apressou para vir receber os homens da lei. Se aproximou sorridente, limpando as mãos na calça e abrindo o diálogo:

– Boa tarde sargento, boa tarde seu cabo! Que bons ventos os trazem?

– Visita de rotina, sr. Nicolau – respondeu o sargento, querendo esticar o assunto.

– Mas então vamos entrar… Vamos tomar um cafezinho – emendou o sitiante.

Os dois PMs fingiram relutância, mas, no minuto seguinte estavam na pequena, porém arejada cozinha da casa de onde exalava um delicioso cheiro de bolo de fubá. Enquanto conversavam amenidades da roça ouvindo o chilrear dos passarinhos no pomar, o café da dona Guilhermina, feito no fogão à lenha, ficou pronto. O Sargento até então nunca havia estado ali. Conhecia Nicolau apenas de vista, mas sabia da sua hospitalidade, comum a todo homem – raiz – da roça. Aliás, ele e o cabo haviam planejado chegar ao sítio exatamente por volta de três e meia da tarde… para garantir a merenda.

Como diz o velho ditado, “barriga cheia, pé na areia”. Após encher o pandu de bolo e café quente, era hora de entrar no assunto que levara a dupla de policiais ao sítio do Nicolau: ‘denúncia de porte de arma de fogo’!

– O senhor tem arma de fogo em casa? – perguntou o cabo à queima roupa.

– Tenho sim, senhor… Mais quem contou procêis?

– Ah, foram alguns amigos ocultos da lei – respondeu o sargento dando pouca importância ao ‘detalhe’. E emendou:

– O sr. pode nos mostrar a arma?

– Posso sim. Guilhermina, pega a espingardinha lá na parede do quarto… – ordenou ele.

No minuto seguinte a prendada dona de casa – aquela mesma que fizera e servira o bolo de fubá ainda morno com café quente – ‘serviu também’ a espingarda na mesa.

– O senhor tem o registro da arma?

– A espingarda tem registro não, sargento. É uma espingarda veinha, veinha…

– De quem o senhor comprou a espingarda?

– Comprei, não… É lembrança do meu saudoso avô Neco. Faz 20 anos que ele morreu. Ô saudade! Eu era o neto preferido dele, por isso ele me deu a espingardinha para guardar de recordação…

– Sinto muito seu Nicolau, mas vamos ter que levar a espingarda para a delegacia… E o senhor também!

– Mas… com que eu vou afugentar os ladrões de madrugada?…  Com que arma eu vou espantar lobos, onças e cachorros do mato que aparecerem para comer galinhas aqui no sítio!? – argumentou o sitiante.

– Sinto muito seu Nicolau, mas … “Dura lex, sed lex…” – disse o cabo gastando seu latim.

– Ô, diacho, então vamos… fazê o que, né? – concordou resignado o simplório velhinho.

Toledo, cidadezinha de 7 mil habitantes encravada nas escarpas da Serra da Mantiqueira, pertinho das nuvens, como a maioria das cidades desse porte em Minas Gerais, não tem um delegado de polícia para chamar de seu. Casos de flagrante de ‘porte de arma’ como esse são levados para a delegacia da Comarca.

E lá foi nosso “Winchester Jack” e sua espingarda de espantar gavião predador de galinhas para a delegacia de polícia de Extrema. Viagem modorrenta, já perto do crepúsculo, pela estradinha estreita e cheia de curvas. Quando chegaram a Extrema a delegacia já estava fechada. Fecha às dezoito. O jeito então foi levar o perigoso caubói do pé da Grota do Monjolo para Pouso Alegre.

Como a Regional atende 35 cidades, seu Nicolau entrou na fila. Noite já alta, ele sentou-se ao piano do paladino da lei, assinou o 14 da 10.826 e teve sua fiança – como prevê a lei – arbitrada em R$ 700. A esta altura do sacolejar da carruagem os dois policiais já estavam redondamente arrependidos de terem prendido o velhinho. Agora ao menos, era só pagar a fiança e poderiam dar-lhe uma carona de volta para casa.

– O senhor tem dinheiro para pagar a fiança? – indagou o sargento.

– Tenho não sinhor… eu nem sabia que ia ser preso!!

– Tem parente aqui que possa emprestar o dinheiro da fiança?

– Conheço ninguém nesta cidade, não senhor…

– Bom, então o senhor liga para sua casa e pede para fazer um deposito…

– Tem telefone em casa, não sinhor…

– … Tem filhos nalgum lugar que possam pagar a fiança…?

– Tenho três filhos. Todos moram na roça, tem telefone, não sinhor…

Com uma tonelada de peso na consciência por terem tirado o velhinho do conforto do seu habitat, os dois PMs se transportaram pra lá. Viram a casinha na sombra das mangueiras e abacateiros; viram as galinhas chitas, os frangos das canelas amarelas e o garboso galo carijó dourado ciscando no terreiro; viram o ribeirão cantando dolente por entre as pedras na grotinha; sentiram o cheiro do bolo de fubá da Guilhermina… Foram além! Viram o bezerro gabiru berrando de fome no cercadinho na manhã seguinte, a vaquinha malhada mugindo no pasto com a úbere cheia… Quem iria ordenhá-la? Tudo por causa de uma espingarda velha!… Tudo por causa da famigerada “lei do desarmamento”!

Andaram para lá, andaram para cá no corredor da delegacia, coçaram a cabeça, e concluíram: “Dura lex, sed lex”. Mas eles não podiam ser tão duros. Eles não podiam deixar o velhinho atrás das grades a cento e cinquenta quilômetros de casa, entregue à própria sorte. Tinham que levar Nicolau de volta para casa.

– Nos dê quinze minutos. Espere aqui que nós vamos buscar o dinheiro da fiança – disseram ao delegado e ao sitiante.

Foram a um caixa eletrônico, sacaram trezentos e cinquenta reais das suas próprias contas, pagaram a fiança do velhinho e o levaram de volta para a casinha branca na beira do ribeirão ao pé da Grota do Monjolo…

Quase tudo voltou ao normal no sítio do Nicolau. Só uma coisa mudou. Agora, se alguma raposa sorrateira abeirar o galinheiro das galinhas chitas, sem a velha espingarda de estimação para afugentá-la, só penas…