Estou numa nova missão: escrever livros!

Olá, meus estimados leitores!

     Fiquei muito lisonjeado com os comentários e felicitações em relação à postagem “Execução na Baixada do Mandu”. Em menos de vinte e quatro horas já passam de 40 mil visualizações, centenas de comentários e dezenas de compartilhamentos.

     Apesar da alegria pelo reconhecimento do meu trabalho de cronista policial, devo esclarecer:

– Não estou reativando o Blog de noticias policiais. Esse foi um caso esporádico que me chamou a atenção.

     Estou numa nova missão: ser escritor! Desde 2019, quando parei de cobrir o noticiário policial na região para me dedicar aos livros, é o que tenho feito. Desde então publiquei 03 livros, – um de Crônicas Policiais vivenciadas no Sul de Minas, um romance policial (ficção) ambientado na Serra da Mantiqueira, e um romance biográfico que conta histórias de dezenas de pets que fazem parte da minha vida.

     Continuo, portanto, escrevendo mais do que nunca. Porém assuntos mais leves e enriquecedores, assuntos que falam de lutas e fé, com o bom humor de sempre, procurando levar uma mensagem otimista, construtiva à vida das pessoas. Não escrevo mais sobre ‘pessoas que recebem as pulseiras dos homens da lei’. Escrevo histórias que prendem o leitor… aos meus livros!

     “Chico Luca & Mariana … e as 10 filhas”.

     Este é o título do meu próximo livro que está sendo editado. Uma linda história de uma família que é obrigada a abandonar sua terra e se mudar pra cidade em meados do século passado. O lançamento está previsto para o final do mês que vem, ao custo de R$ 64,90.

     Se você gosta do meu jeito de contar histórias, vá pensando em adquirir o seu exemplar.    

Execução na Baixada do Mandu

Matador atirou em um carro no Aterrado em Pouso Alegre…

e matou uma mulher em São Paulo!

O alvo da execução era ela mesmo. Julia, 29 anos, era ‘Job’ numa boate nas margens da BR 459 em Pouso Alegre.

O crime, uma execução possivelmente por motivos passionais, aconteceu no início da madrugada deste domingo, 02, na Av. Vereador Antônio da Costa Rios no Aterrado.

O modus operandi do crime lembra um daqueles clássicos crimes de execução por desacerto de drogas. O carro, um Corolla, seguia sereno pela avenida até que uma dupla de motoqueiros se aproximou, o garupa sacou o trezoitão e descarregou o trabuco na direção do alvo sentado no banco de trás. Quatro balaços atingiram não letalmente o passageiro. Dois tiros atingem fatalmente a passageira ao seu lado. Ambos foram imediatamente socorridos ao Hospital Regional Samuel Libanio. A jovem, no entanto, não resistiu aos ferimentos e morreu ao dar entrada no nosocômio.

Segundo o rapaz, ferido em regiões não vitais do corpo, sua namorada se chama Julia Becker, 21 anos, natural do Rio de Janeiro.

Conforme dispõe a Lei, seu corpo seria levado para o IML ali ao lado, para ser submetido à exames de necrópsia. Seria! Para isso é necessário a identificação do corpo para a expedição de Guia.

Seguindo as informações constantes no BO que narra os fatos, ao consultar o SUS a administração do nosocômio responsável pelo preenchimento do Atestado que antecede a Guia, chegou facilmente até a família de Julia na cidade de São Paulo. Até aí nenhuma surpresa. Afinal, o ‘sistema’ está aí para isso. Surpresa – e muito brava – ficou a mãe da Julia Beker ao ser informada que sua filha havia sido assassinada!

– Que brincadeira é essa? Quem é você? Você está tentando me passar um golpe? Minha filha Julia está sentada no sofá aqui ao meu lado!

Bem, diante desse pequeno impasse, o corpo da Julia Beker passou o dia esfriando no necrotério do hospital. Até que a médica de plantão, incomodada com a demora para a liberação para poder exercer seu mister, foi ao hospital buscar o corpo que, por força de lei, pertence ao Estado, ao IML. Ao tomar conhecimento do imbróglio, a legista iniciou suas investigações. Uma hora depois tudo estava em pratos limpos. Julia Beker, na verdade se chamava Julia Conceição Oliveira, tinha 29 anos, uma extensa e movimentada rede social, dada à sua profissão, e morava numa boate nas margens da BR 459 onde exerce seu ‘Job’. Sua família residente no Rio de Janeiro recebeu a triste notícia e está a caminho de Pouso Alegre para transladar seu corpo.

Se o imbróglio não tivesse sido esclarecido, teríamos duas situações no mínimo constrangedoras.

Primeiro: o corpo da garota de programa Julia Conceição Oliveira, por falta de identificação formal, iria congelar na geladeira do IML até ser enterrada como indigente.

Segundo: quando a Julia Beker paulistana necessitasse usar os serviços do SUS, iria descobrir que estava morta há muito tempo.

Mas nem todo o imbróglio está esclarecido! O alvo da execução na madrugada no velho Aterrado não era o passageiro do banco de trás, mas sim a passageira! Até onde a polícia já chegou nas investigações, a execução teria sido cometida por motivos passionais! E teria sido cometida a mando da ex-namorada do passageiro do banco de trás!

Os dois motoqueiros executores do nefasto crime já sentiram o frio das pulseiras de prata, sentaram ao piano do paladino da lei e foram se hospedar no Hotel do Juquinha.

A PC agora vai se debruçar sobre o caso para apontar a causa real, e apresentar o mandante ao Homem da Capa Preta.

LEMBRANÇAS DOS ANOS 70!

Corria o ano de 1975.

“Rinha” e seus Rodeios, no centro de Pouso Alegre, nos anos 1970.

Na praça Senador José Bento os homens ainda circulavam no jardim, em duplas ou turmas, sempre da direita para a esquerda, sentido anti-horário… As mulheres, da mesma forma, circulavam ao contrário, da esquerda para a direita, aos pares ou pequenos grupos, fingindo timidez, flertando com os homens com os quais cruzavam no passeio!
Muitos destes flertes terminaram na cama… depois de dois anos de noivado e do “sim” diante do padre!
Na Dr. Lisboa, fechada para o trânsito de veículos desde o início da noite até às dez e meia, ficavam os ‘riquinhos’, em grupos nas calçadas, no meio da rua. Os que tinham dinheiro iam para os bares e barzinhos por ali: Vila Rica, Uirapuru, Tamandaré, Motão, Bug Dinks, Papillon… Quem tinha carro fazia vaquinha com os amigos para a gasolina e iam para a boate Shadows na Fernão Dias.
O ponto alto da Avenida acontecia aos domingos exatamente às nove e quinze da noite. Naquele momento o Muroni abria a porta da sua loja, virava uma TV em cores 20 polegadas (ainda novidade) para a avenida e ligava na Globo, para mostrar os Gols do Fantástico. Eram 15 minutos de bola balançando as redes por todo canto do Brasil.
A diversão maior da juventude, no entanto, acontecia durante o dia de domingo… a sete quilômetros do centro da cidade, no bairro Ipiranga… Era ali que ficava o Lago Caiçara! Desde as dez da manhã filas de ônibus da Cipatur faziam o trajeto, levando gente para nadar no lago. Cobrava-se dez cruzeiros de cada pessoa para nadar o dia inteiro.
Não havia salva-vidas.
Todo moleque de qualquer idade naquela época sabia nadar. As mulheres nem tanto. Mas havia, do lado esquerdo do lago, próximo à lanchonete, uma extensa praia artificial mesclando concreto com areia. Além do mais, os primeiros três ou quatro metros lago adentro ‘davam pé’.
Nós, garotos, é claro, queríamos aventuras perigosas. Queríamos nadar no fundo. Pular do trampolim de madeira na extremidade mais profunda do lago, paralela à BR 459, de frente para a plateia, era o auge. Ninguém sabe a profundidade do lago nesse trecho… Pois ninguém nunca tocou no fundo!
Havia constantes disputas de saltos ornamentais, para ver quem saltava mais alto, mais longe, mais bonito, mais esquisito… quem ficava mais tempo submerso!
Havia uma disputa ainda mais desafiadora… e arriscada! Todo domingo formava-se um pequeno grupo de aventureiros corajosos – ou sem juízo! – para atravessar o lago de uma extremidade à outra, na parte mais longa. A chegada era justamente ao lado do trampolim, onde era muito mais profundo e arriscado, pois o nadador chegava ali no limite das forças! Se tivesse cãibra durante a travessia, no dia seguinte uma guarnição do Corpo de Bombeiros de Varginha viria procurar o corpo no fundo lodacento do lago.
Mas havia algo ainda mais divertido do que nadar no lago caiçara naqueles belos e ensolarados domingos dos anos 70! A melhor parte da diversão … eram as viagens para o local!
Os ônibus, colocados pela empresa especificamente para atender esse filão, saiam da Avenida Getúlio Vargas (hoje Lojas Cem) desde o final da manhã. Iam e voltavam sempre lotados! Era no interior dos ônibus que mais se davam risadas! Invariavelmente em todos os carros tinha alguém que levava um gravador cassete (do tamanho de dois tijolos juntos). Fitas cassete não faltavam.
Apesar do sucesso das músicas românticas que marcaram a década – e fazem sucesso até hoje – a mais tocada daquele meio de década, e cantada pelo povo em todo canto, foi uma música irritante e enfadonha da dupla Amado & Antônio. A dupla caipira, que parodiava Jacó & Jacozinho, ficou famosa com: “A música do pepino”! Essa virou hit! Era tocada à exaustão muitas vezes por dois ou mais gravadores no interior dos ônibus com mais de 60 pessoas se acotovelando, balançando, rindo, imitando a voz infantil e caricaturizada da dupla de caipiras.
O melhor da música era o irritante refrão!
Ficava mais enfadonho ainda cantado em coro por metade dos passageiros dentro do ônibus, imitando a voz de criança desafinada, manhosa, chorosa e desacorçoada da dupla…
“Eu não quero mais pipino, nem do grosso, nem do fino… eu sofro do intestiiiino, Deeeeeus nos livre de pipiiiiiiiiiiiiiiiiii Antoiiiiiiiiiiiiinnnnn!
Para quem não cantou, ou quer relembrar, eis a letra completa da música mais cantada de 1975!
“Arei à terra, um terreno genuíno,
Preparei pra melancia porque o preço está subindo
Gastei a grana, fiquei duro até tinindo,
Mandaram a semente errada, só nasceu pé de pepino.
Eu não quero mais pepino…
Eu não quero mais pepino nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestino, Deus nos livre de pepiiiino Amado!
Eu namorei a filha do seu Guerino
O casamento marcado para as festa do Divino.
Um certo dia o velho falou sentindo
Só posso vestir a noiva na colheita do pepino.
Eu não quero mais pepino
Eu não quero mais pepino, nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestino… Deus nos livre de pepiiiino Antônio!
Essa verdura andava me destruindo
Fiz exame, me operaram, deram alta eu vinha vindo.
Cheguei em casa, a mulher falou sorrindo
Me abraçou e disse benzinho: tem sopinha de pepino.
Eu não quero mais pepino…
Eu não quero mais pepino, nem do grosso e nem do fino
Eu sofro do intestiiiino, Deus nos livre de pepiiiino Amado!”

Padre é preso depois da missa!

Alheio aos ritos cerimoniais, ele estava misturando Jesus com Genésio!

Você já pensou em ser artista de teatro no cotidiano? Se passar por outra pessoa?

Já pensou em se apresentar numa delegacia de polícia dizendo que é delegado e assumir suas funções?

Ou então se apresentar no fórum da Comarca dizendo que é o novo promotor de justiça e ter acessos aos processos, participar das audiências e até mesmo convocar e participar de diligências policiais?

E Padre?

Já pensou em ser padre de mentirinha? Celebrar missas, ouvir confissões, ganhar presentes das beatas, dar a benção para fiéis, ser reverenciado na rua e morar de graça na casa Paroquial? E, quem sabe, até dar assistência… digamos, ‘calientes’ à algumas beatas ‘pouco católicas’ e fogosas?

Este parece ser o melhor personagem, não é?

Pois foi o personagem que Fabrício G.M., 35 anos escolheu. Ele se apresentou na igreja de São Pio, no bairro Quitandinha, na cidade de Araraquara como Padre Fabrício e passou a celebrar missas e outras cerimonias. Tratado pelos fiéis com o devido respeito e crédito que merece um emissário de Deus, ‘padre’ Fabrício foi até uma livraria católica e comprou cerca de R$ 2 mil reais em livros e artigos religiosos…. e mandou ‘pendurar’ na conta da paróquia, naturalmente.

O falso padre estava ‘vivendo no céu’! Só tinha um problema: como ele nunca foi um assíduo frequentador de igreja, e não fez nenhum curso preparatório, ele não estava sabendo celebrar direito as missas. Na verdade, ele ‘não sabia da missa o terço’! e passou a misturar os ritos e santos, além de confundir Jesus com Genésio.

Alguns fiéis, percebendo que o novo padre não era muito católico, resolveram pedir ao padre da matriz de Araraquara para ajudá-lo…. E foi aí que o santo mostrou as ‘solas dos pés sujos’! Era um tremendo picareta, infiel, tentando levar a vida de bem-bom da batina.

Constatando que o padre era bem menos padre do que o sacristão, o vigário da paroquia, sem estardalhaço, levou o fato ao conhecimento dos homens da lei. Consultando sua capivara, descobriu-se que Fabricio era figurinha fácil no álbum da polícia paulista pelos crimes de falsidade ideológica e furto.

Ao interpretar mal o papel de padre, o palco do Fabricio caiu, e ele finalmente se enroscou nas malhas da lei. Na sua última missa celebrada na capela da Vila Quitandinha, havia dois beatos a mais na plateia de fieis. No final da missa os dois se aproximaram com cara feia, sacaram da algibeira um “mandamus” do Homem da Capa e disseram aquela velha frase que faz gelar a espinha:

– “Teje preso”! – E lhe mostraram as pulseiras de prata.

Embora cultue a arte da representação teatral, Fabricio, de 35 anos, não leva jeito para a vida artística. Na capital paulista e arredores ele já foi “advogado” e “Delegado Federal”, mas nunca recebeu aplausos e sempre teve que sair pela porta dos fundos!

Se Deus perdoou Fabricio pela farsa da batina, não sabemos. A justiça, não! Depois da missa ele recebeu as pulseiras de prata da lei, como qualquer mortal pecador, e foi se hospedar no hotel do Juquinha de Jaboticabal.

    *** O falso padre conseguiu enganar os fiéis do bairro Quitandinha por apenas duas semanas. Em Pouso Alegre, no final dos anos 80, um cidadão serio e bem trajado se apresentou no Fórum da Comarca dizendo que era Promotor de Justiça. Assumiu o cargo e durante quase três meses acompanhou audiências e falou em processos. Como ele gostava mesmo era do trabalho policial, acompanhou dezenas de blitz e rondas policiais pela cidade. Era tão Promotor de Justiça quanto o padre Fabricio. Mas ele foi mais bem sucedido do que o padre. Quando percebeu que a casa iria cair, o falso promotor desistiu da promissora “carreira’ e dobrou a serra do cajuru!

Tragédia na Serra Gaúcha

Enterrados sem velório…

Não tem como esquecer aquela noite de fim de maio!

A noite estava mais escura do que qualquer outra. Das encostas e colinas as pessoas viam apenas as luzes tremeluzentes dos poucos carros que se arriscavam a subir ou descer a serra pela serpenteante estradinha para cruzar o caudaloso Rio das Antas. Aos poucos a estrada foi ficando deserta, até que ninguém mais passou por ali. Agora a ponte, as águas vermelhas e agitadas do rio, o cume das montanhas de todos os lados e parte do vale só apareciam quando os relâmpagos cortavam o céu. Era nesse momento também que as pessoas viam o tamanho do pavor: uma nuvem gigantesca pairava no alto, no nível dos cumes das montanhas que cercam o vale e o rio. Parecia uma nave gigantesca, do outro mundo, que as vezes se deslocava seguindo o curso natural do rio parecendo que ia seguir para o mar distante. Do nada, ao sabor do vento, a nuvem amedrontadora voltava para a escuridão da serra. De repente a nuvem começou a desintegrar … e o gigantesco diluvio caiu sobre o rio, sobre a serra, sobre as casas! Não só molhando, mas quebrando arvores, deslocando pedras, destruindo!…

A primeira vítima foi a energia elétrica. E o vale ficou totalmente no escuro. E ficaria assim durante 41 dias!

A segunda vítima da tempestade foram os cumes das montanhas. Arvores centenárias, gigantes, pedras há milênios intocadas se desprenderam dos cumes, das encostas e desceram montanha abaixo arrastando impiedosamente tudo que encontrava pelo caminho.

A terceira vítima foram os moradores daquelas encostas. Pessoas que estão ali há décadas, nos pequenos sítios, nos comércios de beira de estrada…

Só ali no Distrito de Tuiuti, no Vale do Rio das Antas, duas dezenas de vidas foram levadas ou soterradas pelos deslizamentos de terras.

O caso mais comovente aconteceu no alambique de um amigo meu, fincado ali na encosta do Vale do Rio das Antas desde o início do século passado.

Uma família, cuja casa corria rico de ser arrastada pela fúria da tempestade, abandonou a moradia e foi se abrigar no alambique, do lado de cima da estrada. Uma garotinha de 4 anos, que não tivera tempo de se agasalhar, passava frio. A funcionária do alambique se ofereceu para buscar um agasalho para ela em sua casa, a cem metros dali. O marido quis ir com ela pela trilha escura. Mas foi o pai, que também morava com eles, que a acompanhou. E foram ambos, a jovem e o pai buscar os agasalhos a poucos metros dali. Passados alguns minutos as pessoas que estavam no abrigo ouviram mais um estrondo. Correram na direção da casa a tempo de presenciar parte da tragédia. Um pedaço do cume da montanha havia se despregado e descera a encosta arrastando pedras, arvores, canaviais, cafezais e tudo que havia em seu caminho. A casa dos funcionários, a poucos metros do alambique estava no seu caminho. Os patrões e o marido da jovem chegaram a tempo de ver a casa ser moída e arrastada pela avalanche como se fosse um pedaço de cana. Em segundos a casa e tudo que havia nela desapareceu em meio à montanha de entulhos e escorregou para o traiçoeiro rio poucos metros abaixo da estrada. Os corpos da jovem esposa e do seu pai nunca mais foram encontrados.

Os proprietários do alambique e o marido viúvo continuam lá, tocando o centenário alambique artesanal, tocando a vida. Do canavial, do alambique, das janelas de suas residências ao lado, do deck, da porta da loja, de qualquer lugar se pode ver as cicatrizes na terra, o rio que continua seu destino silencioso, às vezes sereno, às vezes caudaloso escondendo seus segredos. Nalgum lugar do seu leito repousam os corpos da jovem esposa e seu pai. As águas seguem, a vida segue… mas nunca mais serão as mesmas!

Sete meses depois da revolta da natureza e da tragédia que ceifou vidas e sonhos, a vegetação rasteira começa cobrir de verde as chagas vermelhas da montanha ferida… Mas a cicatriz ficará para sempre, na montanha… e nalguns corações!

O melhor da viagem… É o caminho

Se for para o Sul… melhor ainda!

Garibaldi…

Dois mil e vinte quatro foi (mais) um ano abençoado! Voltei para minha terrinha, para meu habitat…

Tatiana deu uma guinada na carreira e vem se projetando numa nova atividade profissional…

Meu caçula fez uma transição perfeita da infância para a adolescência, conquistando seu espaço, novas amizades… Cresceu sem perder a pureza!

Publiquei meu quarto livro – Cachorradas da Minha Vida -, cada vez mais lido. E conclui o quinto para publicar este ano… Sim, um ano para brindar!

E se é para tilintar taças nada melhor do que um bom vinho! Então, fomos para o Sul… nosso velho roteiro de férias!

Primeira parada: Bar do Alemão – uma mistura de castelo com barracão rústico no centro histórico de Curitiba. Parada obrigatória de quem desce do Sul de Minas para o Sul do Brasil. Lugar meio mágico, místico, bem frequentado e barato!

Destino final – e estratégico: Farroupilha.

De Farroupilha se vai para uma dúzia de cidades e uma centena de vinícolas num raio de trinta quilômetros – meia hora de viagem – tais como Garibaldi, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Pinto Bandeira, Flores da Cunha, Caxias do Sul…

Do centro de Farroupilha ao Vale dos Vinhedos, onde em cada encruzilhada tem uma nova vinícola brotando a cada ano, são menos de trinta minutos. Ali estão as vinícolas Aurora, Miolo, Casa Madeira, Casa Valduga, Dom Candido, Carrara e tantas outras.

A bucólica Casa da Erva Mate, a Casa da Ovelha e outros endereços tradicionais, acolhedores, bucólicos e cheios de saudosismo estão no “Caminho de Pedra”, a menos de 15 quilômetros do centro de Farroupilha.

Se, no final do dia, a gente quiser dedicar uns minutos para afagar a religiosidade e apascentar o espírito, o Santuário de Caravaggio, através de uma estradinha florida, está a dez minutos de viagem. O Por do sol, em qualquer estação do ano, entre os braços da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, não cobra nada, mas vale o ingresso!

O “Natal dos Vinhedos”, realizado na sexta e no sábado que antecede o Natal, é o ‘cartão de visitas’ para quem desce para o Sul nessa ocasião. Regada a muuuuiiiito vinho, churrasco e boa música temática, ao vivo, a festa acontece desde o crepúsculo até a madrugada no pátio da vinícola Miolo, em Bento Gonçalves. Criada pelos produtores de uvas da região para ressuscitar o turismo pós-Pandemia, a festa encanta, contagia, emociona e nos renova.

E Gramado?

Ir à Serra Gaúcha e não visitar Gramado e Canela… é como ir à Roma e não visitar o Coliseu!

É linda, colorida, mágica, encantadora… e cara! E basta um dia e uma noite. Programa ideal é o passeio no ônibus turístico (vermelho, de dois andares e teto solar) pelos principais pontos turísticos de Gramado e Canela, cerca de duas horas de passeio, de preferência pela manhã. Depois do almoço o turista volta de carro aos pontos que mais agradou. Foi o que fizemos em 2016. À noite, o jantar na Rua Coberta completa o sonho de conhecer a Serra Gaúcha.

Depois dos fermentados de uva da Serra Gaúcha, era hora de degustar fermentados de cevada em Blumenau, a capital nacional da cerveja. E de degustar também alguns destilados de cana produzidos ali nas imediações. A Cachaçaria Moendão, uma das mais premiadas nos concursos de Bruxelas fica na beira da estrada em Gaspar. A Bylaardt de Luiz Alves, não menos laureada, tem uma loja só dela no centro comercial de Pomerode, a cidade mais alemã fora da Alemanha.

De Blumenau para… Rio de Janeiro!

Afinal, a maior queima de fogos do Reveillon – no Rio e Niterói – pode ser vista da casa da sogra no Aterro do Flamengo, rsrsrs. Terminamos o ano velho e começamos o ano novo com o pé na estrada. Sim, 2024 foi fantástico. 2025, com as bênçãos de Deus, vai pelo mesmo caminho.

Meu novo livro chega no começo de março…

A você que acabou de ler este post, espero que seu 2024 tenha sido tão bom quanto o meu. E desejo que 2025 seja ainda melhor.

Deus te abençoe!

Policial é vitima do Homem Aranha

A pistola do policial foi parar na cueca do gatuno…

Madrugada fria e silenciosa de finados no bairro Lagoinha. Um soturno lombrosiano se aproxima da grade que circunda o prédio, joga cobertores velhos e trapos sobre a afiada e ameaçadora concertina, neutraliza suas garras e a cerca elétrica, escala a grade e pula para o pátio do pequeno condomínio. Seu alvo é o terceiro andar do predinho de apartamentos cuja cortina balança suavemente ao sabor da brisa que entra pela janela aberta. Pacientemente ele coloca seus talentos aracnídeos em ação… E escala o prédio usando as janelas e as sacadas até chegar ao apartamento da sua escolha. Silencioso como um gato, ele desfila pelo apartamento, escolhe pacientemente a res furtiva e, tão sorrateiro quanto entrou, sai de fininho sem ser percebido.

O morador continua solenemente nos braços de Morfeu. Tem o sono pesado. Sonha, talvez, com uma promoção no trabalho ou, quem sabe, com os meliantes que prendeu no dia anterior.

– Esse foi o crime perfeito! Digno de Oscar’. Meus ‘parças’ de caminhada vão me respeitar. Já o tira vacilão, quando acordar de manhã e descobrir a ‘parada’, vai ter um mistério para investigar!  – Pensa o homem aranha descendo sorrateiramente as escadas internas do predinho.

Seria mesmo um crime perfeito!… e misterioso!

Mas…

Eram as primeiras horas do Dia de Finados… Havia muitos espíritos desencarnados fazendo festa por ali, comemorando seu dia. Mas foi um encarnado que casualmente saia para o trabalho que o surpreendeu. Quando o gatuno descia a última escada para chegar à garagem, onde pegaria a principal rês furtiva cuja chave levava na algibeira, o morador apareceu no seu caminho e colocou a boca no trombone! Em segundos o prédio todo foi sacudido pela desafinada sinfonia do morador do primeiro andar:

– “Pega ladrão”!…

Metade dos moradores do prédio saltaram dos braços de Morfeu e desceram a escada para ajudar o vizinho… inclusive o dono do apartamento invadido e furtado!

Em poucos minutos o gatuno foi dominado pelos moradores e entregue aos homens da lei que não tardaram a atender ao chamado…

Ao deter o gatuno, o morador do apartamento invadido minutos antes, sem saber que ele havia sido a vítima da vez, reconheceu o meliante. Duas semanas antes, ele, o morador, havia detido o mesmo gatuno – sem convite – no interior do condomínio e o havia entregado à polícia militar. Por isso mesmo ele fez questão de ir à delegacia acompanhar a lavratura do flagrante. – Quem sabe desta vez o meliante criasse raízes no hotel do contribuinte.

– Que ousadia! Entrar no mesmo prédio uma semana depois de ter sido preso! – pensava o morador revoltado.

Mais surpreso ele ficou quando adentrou seu apartamento para pegar os documentos e as chaves do carro. Não estavam onde ele costumava deixar! Bastou uma rápida procura para chegar à conclusão: ele fora o premiado com a visita sorrateira do gatuno da madrugada! O lombrosiano havia furtado roupas, as chaves do carro e…pasmem!!! sua pistola Glock, carregada até a boca de azeitonas.

Sim, a vítima – escolhida – do furto do terceiro andar é policial! O meliante roubou sua ferramenta de trabalho e pretendia roubar também sua caminhonete que estava na garagem!

As surpresas não param por aí!

Ao chegar à delegacia – em tempo recorde – o policial constatou que sua pistola ainda estava na cueca do gatuno! Felizmente ele usava pulseiras de prata e não pôde exibir a pistola. Além da arma, que não teve oportunidade de usar, o meliante usava calça, camiseta e tênis furtados do policial enquanto ele dormia. As chaves da caminhonete estavam na algibeira da calça de camuflagem …

O ousado gatuno ladrão de policial – e dublê de Peter Parker – é figurinha fácil no álbum da polícia. Seu currículo é recheado de 33, 157 e 155 como esse. Se ele tivesse conseguido levar a caminhonete e a pistola do policial, por um bom tempo seus ‘parças’ de caminhada o tratariam como a ‘última batatinha do pacote’! Ganharia status no submundo do crime…

Metade da façanha ele conseguiu, mas… “Perdeu gatuno”!

Ah, no momento da prisão, o ‘homem aranha de araque’ portava na canela um famoso ‘adereço’, também conhecido como: ‘passaporte para cometer novos crimes’! Aliás, passaporte muito comum entre os meliantes – e políticos – hoje em dia:  uma ‘tornozeleira eletrônica!

Não basta ter fé…

… É preciso fazer escolhas!

     Catolicindo Fervoroso morava sozinho no meio da baixada, a poucos quarteirões da praia. A casa já velha era média, sem luxo e carente de conforto. O quintal, no entanto, era grande, muito grande, com um grande e malcuidado pomar. Apesar do desleixo, todo ano, por conta própria, a natureza cuidava de produzir muitos frutos. Laranja, abacate, manga, guabiroba, pitanga, goiaba… Tinha até Lichia, rosada e doce, a qual atraia centenas de abelhas e marimbondos toda safra entre dezembro e janeiro.

 

Apesar da grande produção de frutas – que definhava ano a ano por falta de cuidados -, Catolicindo não auferia nenhum tipo de lucro ou boa ação com isso. Não colhia, não comia, não vendia, não doava. Excetuando uma ou outra fruta que as vezes comia no pé, toda sua produção ao longo do ano era consumida por aves e insetos, ou então apodrecia no chão forrado de folhas secas no quintal. Altruísmo em deixar as frutas para as aves? Não. Pelo contrário. Irritava-se com a algazarra que estas faziam nos momentos de banquete. Herdara a casa com o pomar já pronto e torcia para que as fruteiras morressem e parassem de produzir … e pusesse fim à balbúrdia dos passarinhos.

 

Catolicindo não tinha os olhos arregalados, as sobrancelhas grossas e a cara feia e fechada dos ranzinzas. No entanto, não abeirava a casa de ninguém e também não recebia visitas. Era indiferente com os vizinhos e com as crianças que corriam barulhentas para a praia. Era um homem. Correto, trabalhador e cumpridor dos seus deveres sociais. Especialmente o religioso. Ia todo domingo à missa na igrejinha do bairro, sempre bem-vestido, reparando nos malvestidos, levando sua surrada bíblica debaixo do braço. Quando interpelado respondia com pouca saliva aos vizinhos, mas nunca esticava a conversa. Assim vivia num bairro populoso, sem contato com ninguém.

Certo dia a baixada passou por uma tormenta. A rádio local avisou que cairia uma grande tromba d’água que alagaria todo o bairro. E aconselhou que as pessoas deixassem suas casas. Catolicindo viu as pessoas passando, indo embora apreensivas, mas continuou impassível na sua casinha!

– “Vamos embora Catolicindo! Tudo será inundado!” diziam os vizinhos.

Ele nada respondia. No máximo conversava com sua bíblia.

A aguaceira, sacudida pelo vento, desabou e alagou toda a parte baixa do bairro. Quem ‘não tinha bíblia’ acatou o conselho da defesa civil e tratou de deixar suas casas. Quem não teve tempo, foi resgatado pelos bombeiros e pela defesa civil. Cotolicindo continuou lá… com a água subindo pela canelas finas e brancas, subindo, subindo até que ele também subiu… no telhado! Um barco da defesa civil passou por lá oferecendo ajuda, mas ele respondeu:

– Não se preocupem comigo. A chuva vai parar, a enchente vai baixar, Deus proverá!

Apesar da fé – e da teimosia! – de Catolicindo, a enchente continuou subindo. Em pouco tempo as águas chegaram ao cume do telhado. Um helicóptero dos “anjos laranja” se aproximou e tentou ajudá-lo. Catolicindo segurou firme a bíblia contra o peito e respondeu:

– Deus proverá!

No instante seguinte a casa desabou! Cotolicindo – e sua bíblia – afundou! Afundou e desencarnou! Como não estava preparado para morrer, seu espírito ficou por ali, tentando achar sua bíblia, tentando entender por que a providência divina não o salvou.

Dias depois, quando a enchente baixou deixando a mostra apenas os escombros da casa, confuso e sem ter onde morar, finalmente o espírito de Catolicindo saiu vagando desnorteado e perdido e acabou sendo resgatado por um grupo de espíritos socorristas. Afinal, ele não era uma pessoa má. Mesmo tendo passado pela vida sem produzir nada que não fosse para o seu próprio sustento; mesmo não tendo repartido nada do que lhe sobrava; mesmo não tendo distribuído sequer um sorriso para as crianças que passavam correndo felizes e barulhentas em frente sua casa, ele nunca fez maldades.

E assim Catolicindo Fervoroso chegou ao Centro de Triagem de São Pedro. E chegou fervendo, bravo, revoltado com a divina providência. O próprio São Pedro, chefe do Centro de Triagem, que atende somente os casos mais complicados e dá o destino final a cada espírito que passa por ali, teve que ser chamado para acalmar Catolicindo. Já no seu gabinete, o paciencioso santo alisou as longas barbas brancas e disse:

– Então sr. Catolicindo, conte-me sua história e os motivos da sua insatisfação com Deus.

– Eu fui um bom homem, cumpri minhas obrigações, servi o exército, sempre pensei muito antes de votar, trabalhei mais de trinta anos na mesma empresa, nunca discuti com ninguém, sempre paguei minhas contas em dia, frequentei religiosamente a igreja, sempre acreditei e manifestei minha fé na providência divina…

Recostado na grande cadeira forrada com uma colcha branca para esconder o couro puído de tanto uso, São Pedro alisava pacientemente o fio mais longo da barba quase no peito enquanto ouvia Catolicindo desfiar seu rosário de realizações. Finda a chorumela São Pedro falou:

– Além de cumprir suas obrigações como cidadão, o que mais você fez na sua missão na terra?

– Missão!!! Que missão? – estranhou Catolicindo.

– Você passou um período na terra para crescer, para evoluir…

– Ninguém me falou nada sobre isso. O que eu tinha que fazer?

– Você dedicou parte do seu tempo a alguém?

– Não…

– Você tinha um bom emprego, tinha casa confortável e dinheiro recebidos de herança! Você ajudou alguém necessitado?

Catolicindo desviou o olhar pensando no baú de dinheiro que mantinha escondido no sótão, levado pelas águas. São Pedro continuou.

– Você deu o ombro a alguém que chorava?

– Você alguma vez emprestou seu ouvido a quem precisava falar?

– Você alguma vez levou uma palavra de alento para alguém que sofria?

– Você levou uma palavra de esperança para alguém que não via saída?

– Você deu ao menos um sorriso para as crianças que passavam correndo…

Catolicindo estava atordoado com tantas indagações. Gaguejou …

– Mas eu …

São Pedro o interrompeu, com um tantinho de impaciência.

– Eu, eu, eu… Tudo eu. Tem muita gente na Terra olhando somente o ‘eu’. Quase metade só enxerga o ‘eu’. Quase metade não enxerga o ‘outro’. Tudo bem, Catolicindo. Você tem o livre arbítrio para escolher crescer ou não. Só não pode reclamar! Não pode culpar ninguém pela sua estagnação… ou sua involução! Voltemos ao questionamento que o trouxe aqui tão revoltado. Você disse que confiou na Divina Providencia e foi traído, não é?…

– Sim – respondeu Catolicindo rapidamente, aproveitando o gancho que o interessava. – No momento em que eu mais precisava a providência divina não apareceu! E me deixou morrer afogado!

São Pedro fixou seu olhar manso nos olhos inquietos de Catolicindo antes de prosseguir.

– A divina providência nunca falha. Está sempre pronta para intervir em benefício daquele que a pede. Mas é uma ação de mão dupla… É preciso que o interessado faça sua parte.

– Mas eu fiz minha parte. Já falei. Deus não fez a dele. Eu estava com a bíblia na mão, esperando até o último instante, confiando. Mas Deus não mandou a divina providência…

– Catolicindo, preste atenção. Deus jamais te abandonou. Veja bem: quando a chuva começou a se formar sobre a serra e o vale, a Defesa Civil divulgou um alerta através do rádio. Mas você continuou lá…

– !!!

– Antes da tempestade desabar as autoridades enviaram sinais sonoros na região e mensagens pelo WhatsApp. Mas você ignorou.

– !

– Quando a chuva caiu, os caminhões dos Bombeiros passaram ajudando na retirada dos flagelados antes do desastre…

– !

– Quando a enchente começou, os barcos da defesa civil passaram oferecendo ajuda.

– !

– Quando você subiu no telhado, a defesa civil enviou até um helicóptero para resgatá-lo… Observe que em todos estes momentos, Deus agiu.

– Mas eu esperei a providência, a bíblia… – tentou argumentar Catolicindo.

– A bíblia, Catolicindo, te esclarece, te orienta… Mas ela não age. Cada um tem que agir. Por isso Deus deu a cada um o livre arbítrio. Para que cada um aja de acordo com sua consciência e necessidades … e arque com suas consequências! – concluiu São Pedro com mansidão.

Catolicindo ia retrucar, mas, parou, pensou, juntou no ar tudo que havia acabado de ouvir, segurou o queixo com uma mão, juntou as duas mãos em concha na testa e assim ficou por alguns instantes até que voltou a falar:

– Quer dizer que, como eu fui ‘chamado de volta’ antes da hora, e como eu não fiz nenhum mal na terra, eu vou ficar morando aqui no céu?

– Não é bem assim… Lembra do que eu falei alguns parágrafos atrás! “Você passou um período na terra para crescer, para evoluir” … E o que você fez, além de sustentar o seu corpo, para crescer e evoluir? – perguntou São Pedro abrindo largamente os braços com as mãos espalmadas!

Sem respostas Catolicindo soltou o corpo na cadeira, desacorçoado, vencido. Depois de alguns instantes de reflexão, perguntou com voz sumida, muito diferente de quando chegara ali meia hora antes.

– Mas então, o que vai ser de mim?

São Pedro, com o mesmo olhar complacente de sempre, inclinou seu corpanzil avantajado para a frente, apoiou os dois braços sobre a mesa, tomou as mãos de Catolicindo e falou paternalmente.

– Como você não fez escolhas danosas, você vai voltar para uma escola no seu nível de aprendizado por aqui e entrar na fila da reencarnação. Tem pouco mais de 13 bilhões de espíritos na fila aguardando uma nova chance de reencarnar…

A piscina da Lili…

A mesma fonte que abastecia a piscina da Lili, hoje abastece o lago do Fórum!

Media quinze metros de largura por 25 metros de comprimento. Tanto o piso quanto as paredes laterais eram de cimento queimado, rústico, da cor de cimento queimado. A água, portanto, era turva. Quem abrisse os olhos no fundo enxergava apenas escuridão. A água batia no peito dos adultos e no pescoço dos adolescentes e das mulheres sempre mais baixas do que os homens. Do lado de baixo da piscina havia apenas um cimentado, também rústico, onde as garotas estendiam as toalhas para se bronzear. Do lado de cima dois lances de uma mureta. Era de onde os garotos mais afoitos pulavam espatifando água pra todo lado fora. Uma casinha de cangalha medindo quatro por quatro, dividida ao meio por uma parede, servia de vestiário. Uns deixavam suas roupas lá, penduradas num cabide cheio de pregos numa tábua. Outros preferiam levar suas roupas consigo para a beira da piscina – para evitar furtos.

Apesar do tamanho bem diminuto, não havia limite de lotação. As vezes tinha 40 pessoas. As vezes tinha 90.

Apesar de tão pouco espaço para tanta gente, sempre aparecia alguém com uma bola… e jogavam algo parecido com polo aquático!

Não havia salva-vidas. E muitos não sabiam nadar e, embora não houvesse salva-vidas, nunca teve acidente, pois a ‘fundura’ da piscina era toda do mesmo nível, bastava ficar em pé. Mesmo assim os mais medrosos não se afastavam da margem.

Para nadar na Piscina da Lili, todos pagavam o mesmo preço: Cr$ 5. O regulamento para frequentar a piscina era simples. Bastava pagar a entrada e usar maiô ou biquíni (mulheres) e calção (homens).

Funcionava apenas no domingo, pois toda a clientela da Lili trabalhava até sábado à tarde. Só sobrava o domingo para se divertir.

Dona Lili ficava na portaria, ou seja: no portão lateral da casa que ficava na beira da estrada, cobrando o ingresso, em cash naturalmente, a única forma de pagamento naquela época. Não havia ‘cano’, pois ninguém passava pelo portão sem deixar uma nota de cinco cruzeiros!

Além do Status de nadar na Piscina da Lili, para os homens havia uma diversão a mais, uma diversão perigosa e proibida: espiar as mulheres quando elas entravam no vestiário!

Os meninos faziam escadinha entre si e se revezavam para vê-las trocar de roupa – por cima da parede que dividia a casinha! Nunca viam nada, pois elas, acanhadas, ficavam sempre encostadas na parede e na maioria das vezes colocavam as roupas por cima do maiô ou biquíni sem tirá-los.

Mesmo assim aquela sensação de estar tão perto – e furtivamente! – de uma mulher seminua, era excitante para aqueles garotos cheios de espinhas no rosto. Mas tinham que conter a excitação e fazer silencio. Se fosse percebido seria punido. Dona Lili era chamada e mandava o ‘assanhadinho’ se retirar imediatamente. A punição durava duas ou três semanas, o tempo necessário para dona Lili esquecer o rosto do assanhado!

Era o ano de 1974…  

No ano seguinte uma nova opção de lazer surgiu na cidade… e levou à falência a Piscina da Lili.  


Falando em mazelas e carências da policia!…

     Conheço esse filme!

Outro dia, vendo uma entrevista com o delegado (aposentado) Altair Machado, no Mandu Cast, falando sobre a escassez de policiais até para escoltar presos, lembrei de alguns casos que eu protagonizei ao longo da carreira!

 

Nos anos 80, a delegacia Regional de Pouso Alegre, uma das maiores do Estado, tinha 4 viaturas oficiais. Uma Veraneio (para rondas noturnas e viagens), um fiat 147 e uma Caravan (para diligências, campanas, investigações…) e outro Fiat 147 à disposição da Perícia. Algemas tinha dois pares – exclusivamente para transporte de presos para a capital ou para outro estado. Revolver? Cada um se virava com o seu. Tinha policial que possuía apenas um Rossi 32. Trabalhei com um carcereiro que impunha sua autoridade com uma faca ‘peixeira’!

 

* Certo dia, descendo a Bueno Brandão voltando do almoço para a Delegacia, esbarrei num conhecido meliante procurado pela polícia. Japão era figurinha fácil no nosso álbum por pequenos furtos e uso de maconha – quando uso de maconha era crime previsto no artigo 16 da lei 6368/76. Eu, jovem policial, empolgado com a carreira que acabara de abraçar, não tive dúvidas! Enquadrei o meliante e disse-lhe a famigerada frase:

– “Teje preso”!!!

Sozinho, a pé, desarmado e sem as “pulseiras de prata”, atravessei a cidade conduzindo o preso numa ‘chave de braço’ até chegar à delegacia de polícia.

 

** Em 93 trabalhava eu na Delegacia de Silvianópolis quando recebi a missão de recambiar um notório condenado para nossa Comarca. O meliante havia cometido um furto anos antes numa fazenda no município de São João da Mata e dobrado a serra do cajuru. Dias depois ele cometeu outro crime e caiu nas malhas da lei  de São João da Boa Vista. Extinta sua pena lá em terras paulistas e à pedido’ cá em terras mineiras, ele foi  “extraditado” até a vizinha Poços de Caldas. O indigitado era “Peixinho”, meu velho conhecido. Velho mesmo. Velho e malvado. Na década de 70, quando eu vendia sorvetes nas ruas de Pouso Alegre, ele, mais velho e mais forte do que eu, costumava encostar no meu carrinho, chupar meia dúzia ou mais de picolés e sair sem pagar! No início da década de 80 eu o havia prendido na cidade de Campinas – Essa história, bem-humorada, está no livro “Meninos que vi crescer”! Mais bem-humorada foi nossa viagem de Poços de Caldas para Silvianópolis. Apenas nós dois na viatura. Eu atrás do volante e ele meio embodocado no porta-malas(destampado) do Uno, imobilizado por um par de pulseiras de prata.

 

*** No final de 2004, prestes a me aposentar, recebi outra missão; recambiar um preso da penitenciaria de Nova Serrana para Monte Sião, onde eu trabalhava. A missão era como tantas outras, mas tinha um ingrediente a mais. O Fiat Elba de Monte Sião não tinha condições de fazer uma viagem tão longa. Achamos a solução. Embarquei no ônibus da Gardênia (naquela época, a Gardênia não deixava ninguém na estrada! Rsrsrs…) e desci na rodoviária de BH. Cheguei de manhazinha, atravessei a famigerada “Guaicurus” ainda com cheiro de perfume barato das mariposas, peguei a Contorno, sai na Avenida dos Andradas, a pé naturalmente, e meia hora depois cheguei ao Departamento de Transportes. Lá peguei um Palio Weekend e fui buscar meu preso na ‘penita’ de Nova Serrana. Chegamos a Monte Sião no final da tarde, eu atras do volante, e meu preso, que atendia pelo epiteto de “Cafarnaum”, no banco de trás com os braços atados por dois pares de algemas na barra de proteção atrás dos bancos.

Nossa viagem de mais de 400 quilômetros foi tranquila. Viemos contando história um para o outro, estreitando laços. Ficamos quase amigos. Tão amigos que um mês depois livrei Cafarnaum de uma enrascada amorosa. Durante os meses que havia morado em Monte Sião, onde cometera diversos crimes, Cafarnaum arrumou uma namorada e foi morar com ela – meliantes são como soldados na guerra! Tem uma facilidade incrível para arrumar namoradas! Mas meu preso não era livre. Ele tinha mulher e filhos na Bahia, sua terra Natal. Tão logo ficou sabendo que o marido havia sido transferido para Monte Sião, a esposa veio visitá-lo – mulher de preso adora visitar marido na cadeia! Tudo bem. Cada um com seu cada um. O problema é que a amasia de Monte Sião não perdia uma visita de quarta-feira. Chegava sempre de mãos cheias, trazendo frutas, comidas, cigarros e chamegos! O encontro entre ‘matriz’ e ‘filial’ poderia resultar em barulho e “quebrar a rotina” do hotel do contribuinte da bucólica Monte Sião. Para evitar que a simplória cadeia e o silencioso cemitério – que ficam defronte um ao outro – aumentassem seus hospedes, caso as duas se encontrassem, barrei a visita da mineira…

– Seu ‘marido’ cometeu um ‘ilícito administrativo’ e está de castigo. Ele só poderá receber visitas na emana que vem – disse eu à jovem amante, quero dizer, amasia!

Como costumam zombar os policiais do próprio fadário, “policial ganha mal, mas as vezes se diverte”!

 

Sou – quase – da época em que os policiais eram “pegos a laço”. No início dos anos 80 era comum o Inspetor entregar três Mandados de Prisão a uma dupla de Detetives e dizer:

– Deem uma volta aí pela cidade… Tragam ao menos um desses três procurados!

– Em qual viatura a gente vai?

– Vejam se tem alguma disponível. Se não tiver, vão a pé mesmo!

 

Muita coisa mudou desde então. Hoje, para ser Detetive, tem que ter curso superior. A maioria dos policiais passam o dia – cumprem expediente – navegando… na ‘proa’ de um computador!