Quem matou o ciclista?

A bala cravada em seu cérebro havia saído do seu próprio revólver!

 

Note criança e fresca de primavera.

Tereza acabou de assistir ao filme, desligou a tv e foi ao quarto do filho verificar se ele havia chegado. Não estava no quarto. Foi ao banheiro.

– “Deve estar tomando banho”, pensou ela.

Não estava no banho. Tereza saiu ao quintal dos fundos, onde ele costumava guardar suas bikes. A bicicleta verde com detalhes pretos estava lá, pendurada.

– “Ele deve ter ido com a preta com detalhes verdes”! “Mas porque não chegou? Ele sempre chega perto das oito da noite”, conjecturou a mãe acostumada com a rotina do filho.

Ele chegava do trabalho por volta das seis da tarde, fazia um lanche leve, montava uma das bikes e saia para pedalar, sempre assim, de segunda à sexta. Dava uma volta na lagoa e antes das oito estava de volta. Entrava pelo portão lateral, guardava a bike, as vezes limpava quando pegava ciclofaixa molhada, tomava seu banho, aparecia na sala onde ela sempre estava diante da tv, depois jantava e seguia para o quarto, onde ficava no computador até a hora de dormir. Durante a semana raramente fugia dessa rotina. O que teria acontecido hoje? Bem, não precisava descabelar. Afinal, Bedeu era adulto, bem adulto! Havia completado 40 anos na semana passada.

– “Deixe estar. Deve ter ido visitar um amigo. Ou talvez arrumou uma namorada”, pensou Tereza com seus botões.

Tentando afastar qualquer preocupação, Tereza voltou para a sala e religou a tv. “Brasil visto de cima”, seu seriado favorito, começaria dali a minutos. A cada intervalo se levantava, ia ao quintal verificar se a bicicleta preta estava fazendo companhia para a verde. Nada. Voltava para a sala e pregava os olhos na tv. Mas já não estava vendo mais nada. Tudo que via era o filho cabeça baixa, metódico, pedalando rápido sua magrela na lagoa.

– “Será que ele foi atropelado? Assaltado? A lagoa é um lugar tranquilo para pedalar. Tem um clima bom, uma energia positiva… ali quase nunca há crimes! Ele pode ter sido atropelado! Mas ele é sempre tão cuidadoso, anda sempre na ciclofaixa! … Às vezes algum doido irresponsável invade a pista de ciclistas! Há casos. – Pensava a mãe visivelmente preocupada.

A neve invadiu a tela da sua TV. Uma bandeira branca com uma folha vermelha de plátano balançando na ponta de um mastro apareceu num canto da tela. Era a bandeira do Canadá. O programa agora era “Mundo visto de cima”. Passava de dez e meia da noite. Seu filho nunca ficava na rua às dez e meia da noite. Ela nunca ficava em pé depois de dez e meia da noite durante a semana. Ela deveria estar na sua cama àquela hora. Seu filho deveria estar no quarto ao lado diante da luz branca do computador. A preocupação aumentou. Onde estaria seu filho? O que fazer? Desde que ficara viúva, há dez anos, nunca tivera sequer uma nesga de preocupação com o filho. Nunca precisava questioná-lo… Ele sempre avisava aonde estava indo e quando voltaria. O que teria acontecido? Porque estava tão fora da rotina sem avisá-la. Só então lembrou de ligar pra ele. O aparelhinho respondeu tummmm dez vezes e depois mais dez, e a voz do filho, que quase desconhecia através do aparelho, não foi ouvida. O que fazer? Esperar mais… ou ligar para alguém? Ligou para o filho mais velho, o qual morava no bairro vizinho. Meia hora depois Tadeu chegou. Chegou emburrado. Tinha bom, porém curto relacionamento com o irmão. Sua rotina era diferente. Não tinha um emprego tão bom quanto ele. Tinha que dormir cedo para levantar antes do sol e pegar o busão para a fábrica. Já estava nos braços de Morfeu quando a mãe ligou. Não tinha tempo para pajear o irmão solteirão que não tinha sequer um passarinho para tratar. Por isso, não obstante nutrir imenso respeito e carinho pela mãe, tratou-a com rispidez.

– Você já ligou para o celular dele?

– Sim, duas vezes. Ele não atendeu… Ele nunca se atrasou sem avisar… – disse Tereza com os olhos começando a marejar.

– Pronto socorro, policia, casa de amigos… – falou Tadeu com certa irritação. Tereza levou a mão à boca antes de falar.

– Você acha que pode ter acontecido alguma coisa grave, atropelamento… um assalto!

– Alguma coisa aconteceu, né mãe! – retrucou Tadeu impaciente.

– Ai meu Deus!

– Ele não costuma ir na casa de amigos, uma namorada…

– Não, durante a semana, não. Ele não tem namorada. Ele trouxe uma moça bonita aqui uma vez… Mas disse que era amiga, colega de trabalho… Eu não sei nem o nome dela. Não tenho contato de nenhum amigo dele…

– Precisa ter, né mãe! É nessas horas que servem os amigos… Pra espalhar informação, pelo menos.

– Seu irmão nunca me deu preocupação…

– Sempre tem uma primeira vez, ‘dona’ Tereza! – retrucou Tadeu apimentando o ‘dona’ com uma pitada de sarcasmo.

– E agora? O que a gente vai fazer?

– Deixa eu pensar… Você sabe onde ele costuma pedalar?

– Ele sempre pedala na lagoa!

– Vou ligar no Samu e na delegacia… pra saber se atenderam alguma ocorrência ali hoje a noite.

Não. Não havia nenhum registro de ocorrência de qualquer espécie no entorno da lagoa nas últimas vinte e quatro horas. O ‘oficial de dia’ da guarda municipal, no entanto, foi bastante solícito.

– Tem uma equipe na rua, contornando a lagoa… Vou pedir ao cabo para observar qualquer intercorrência. Vou anotar seu número e daqui a quinze minutos farei contato.

Cinco minutos depois o celular de Tadeu tocou.

– Nós o encontramos Sr. Tadeu…

– Graças a Deus! Onde ele está? Ele está bem?… – Perguntou apreensivo o filho mais velho de Tereza.

– Bem… na verdade… não sabemos… ele … – gaguejou o sargento tentando encontrar palavras para explicar como encontrara o ciclista.

Tadeu, pressentindo notícia ruim, se afastou da mãe e baixou o tom.

– Aconteceu alguma coisa grave com ele? Acidente…

– Na verdade ele parece bem. Está sentado ao pé de uma arvore na ciclofaixa. Mas não reage… parece gelado… já chamamos o SAMU… – respondeu sem esclarecer, o sargento.

Tadeu chegou ao local indicado pelo Sargento junto com os ‘anjos das ruas’. Chegou a tempo de contemplar curioso a cena. Bedeu estava sentado em um tronco seco ao pé da gigantesca Sapucaia cheia de flores roxas e lilás. Ao seu lado, encostada na lateral do mesmo tronco, estava sua bike preta com detalhes verdes. Apesar de noite alta, ele mantinha os óculos de proteção cobrindo o rosto, o que impedia de ver seus olhos. Era como se tivesse parado ali, para descansar encostado na arvore e tivesse adormecido… mas o corpo estava frio, gelado!

– Sargento, – falou o socorrista – pode chamar a funerária, ou Pericia da PC, se quiser. Ele está morto… Pela temperatura e rigidez, já tem algumas horas. Pode ter parado para descansar e morreu de um mal súbito. Aparentemente não há lesões externas. No entanto, como não há nada que possamos fazer em termos de socorro, seria prudente que o perito fizesse o seu trabalho.

 

 

A funerária estava quase vazia. Menos de vinte pessoas conversavam amenidades no velório. Pouco mais do que mulheres, vizinhas de Tereza.

– “Que coisa, né! Tão saudável! Acostumado a pedalar todo dia, de repente, do nada, senta para descansar e morre” – comentava uma.

– “Nunca sabemos o dia de amanhã”… – filosofava outra.

– “Ele foi a única companhia da Tereza nos últimos dez anos”! – choramingava uma terceira.

Tereza estava sentada numa cadeira ao lado do caixão aberto quando uma moça bonita e bem-vestida, perto dos quarenta anos, se aproximou. Depois de um minuto contemplando o corpo inerte estendido dentro do caixão de madeira escuro, a jovem se inclinou sobre Tereza e lhe deu um abraço dizendo.

– A senhora lembra de mim? Eu sou a Vania… Uma vez eu fui à sua casa com o Bedeu. Eu gostava muito dele. Ele era meu melhor amigo no trabalho. A gente almoçava junto, conversava sobre trabalho, sobre sua paixão pelo pedal. Mas ele nunca me falou que tinha algum problema de saúde! – disse a jovem.

– Eu lembro quando você foi na minha casa. Pensei que vocês fossem namorados… depois o Bedeu não me falou mais nada. Mas ele não era doente, não…

Conversaram mais alguns minutos como se fossem amigas. Até que Vania se levantou, se despediu e, antes de sair voltou a contemplar o corpo inerte do amigo. Da contemplação passou a gestos. Tocou suas mãos frias cruzadas sobre o peito, levou a mão ao seu rosto, fez-lhe uma caricia. Gostava de Bedeu muito mais do que se gosta de um amigo. Demorou na caricia no rosto frio. Aquele rosto bonito e suave que ela não teve coragem de acariciar enquanto estava quente. Sim, amava Bedeu desde que o conhecera. Tinha medo de declarar seu amor, e perdê-lo. Era amor platônico. Saber que ele não tinha uma namorada, e ter sua amizade já era o suficiente. Quem sabe um dia ela se declarasse. Agora, embora não adiantasse mais, seria o momento. Inclinou-se e disse baixinho em seu ouvido agora surdo:

 

– “Eu te amo Bedeu”!

 

Foi nesse momento, bem próximo da cabeça do amado, que algo lhe chamou a atenção. Os bastos cabelos castanhos de Bedeu tinham uma minúscula mancha mais escura. Passou o dedo, levemente, sobre a mancha. A pele sensível do dedo não acusou a presença de nenhuma alteração no couro cabeludo. Mas a mesma pele branca e delicada da ponta do dedo ganhou uma cor vermelho-escuro. Seria sangue? Explorou a mancha afastando o cabelo grosso do amigo morto até chegar ao couro cabeludo. Parecia uma minúscula ferida, uniforme. Aguçou a vista. Sim, havia um minúsculo ferimento no couro cabeludo. Quase imperceptível. Mas era um ferimento.

 

Aquele imperceptível ferimento no couro cabeludo do amado, que morreu sem saber que era amado, acompanhou Vania de volta ao trabalho.

– “Mas eles disseram que Bedeu morreu sentado, na beira da ciclofaixa! Ele nem tirou o capacete de proteção! Será que foi no transporte para a funerária? Ou será que o agente funerário que lhe deu o banho o feriu sem querer?”, pensava Vania.

– “Que falta de empatia, de respeito com o corpo”, concluiu Vania tentando retomar sua rotina no trabalho.

Retomou. Mas o ferimento no couro cabeludo de Bedeu, aqueles cabelos que ela fez tanto esforço para conter o desejo de acariciar e chamar de seu, continuou ao seu lado o resto do dia. No final do expediente, quando as cortinas do escritório se fecharam, Vania procurou seu chefe para compartilhar sua descoberta, sua inquietação, sua angústia.

– Isso está me martelando a tarde inteira! Você acha que ele pode ter sido ferido e isso causou sua morte? – perguntou.

– Olha, eu não vi o ferimento. Não tenho como avaliar, opinar… Mas muitas pessoas viram o corpo. Os GMs viram, os policiais viram, os socorristas do Samu viram. Ninguém percebeu nada suspeito… O ferimento deve ter sido causado no manuseio na funerária.

– Era noite. E se o ferimento já estava lá e ‘passou batido’?

– Como eu disse, pouco provável. Se houvesse alguma suspeita de crime, o corpo teria sido levado para o IML, para exames. Se o corpo foi liberado para a família, é porque os profissionais não viram nada suspeito.

– Eu não vou conseguir dormir com esse ferimento na cabeça. Recentemente eu li um livro de crônicas policiais em que um corpo encontrado pendurado numa corda, no mato, foi dado como suicídio. Depois de enterrado, um investigador aposentado entrou na história e descobriu que o rapaz havia sido assassinado e pendurado na ponta da corda.

– Que livro é esse?!

– “Quem Matou o Suicida”.

– Ora, Vania, isso é ficção!

– Olha, a trama é tão bem-feita, tão bem contada, com tantos detalhes, que parece mesmo contos de Agatha Christie… Mas a história é verdadeira, acontecida no Sul de Minas! Será que se eu contar isso pra polícia, agora que o corpo já foi sepultado, a polícia vai investigar?

– Eu não entendo de assunto de polícia. Mas tenho um amigo delegado que joga futebol com a gente no clube toda quarta-feira. Se você quiser trocar umas ideias com ele, eu posso te apresentar.

 

Três dias depois o corpo de Bedeu emergiu da terra. Já conhecendo a suspeita, a médica legista foi ‘direto ao ponto’.

– Merda! Isso está parecendo orifício de entrada de projetil. Esse cara tomou um tiro na cabeça!

A necropsia de Bedeu foi rápida. O aparelho de raio-x no IML mostrou a localização exata do projétil estacionado no seu crânio. Dias depois o setor de balística do Instituto de Criminalística afirmou que o projetil encontrado no cérebro de Bedeu havia saído do cano de um Magnum 357.

Teria sido assassinato?

“Bala perdida”?

Suicídio?

 

Embalada pela empolgação com a descoberta da polícia a partir das suas suspeitas e do remorso do amor tardiamente confesso pelo colega de trabalho, Vania queria saber a resposta.

O jovem delegado responsável pela investigação, jovem na idade e na carreira, cheio de ilusões, vaidades e soberba, além de uma pilha de homicídios relevantes para investigar, não deu muita importância ao caso.

– Desculpe Sta. Vania, não podemos interromper as investigações que temos em andamento para nos dedicar a um caso de provável suicídio ou bala perdida! – falou o delegado, jogando um balde de água fria nas pretensões da ‘viúva virgem’.

Desiludida com a má vontade do delegado, Vania perdeu o pique. No entanto não desistiu de procurar respostas. No dia seguinte foi atrás da médica legista que havia feito a necropsia e descoberto a causa mortis do seu amado. Leticia, tão apaixonada quanto Sherlock Holmes por investigação criminal, abraçou sua causa.

– Suicídio? Impossível! Os policiais que encontraram o corpo não relataram nenhum vestígio de pólvora ou marca de tiro à queima roupa. Para suicidar sem deixar marcas, só se Bedeu tivesse montado uma geringonça para atirar de longe nele mesmo! Além do que, uma bala de Magnum 357 disparada de perto não pára no cérebro. Além de traspassar a cabeça, ela deixa um orifício de saída do tamanho de uma azeitona, das grandes. Não. Bedeu foi vítima de bala perdida.

– Mas bala perdida também é crime, não é? – questionou Vania.

– Sim. É um crime ‘culposo’, de menor potencial punitivo para o descuidado assassino, mas é crime. No entanto, com tantos BOs para investigar, poucos delegados se dedicam a apurar um crime sabidamente culposo.

– Mas então… o que fazer? O crime vai ficar sem solução? Ninguém será punido por isso? – perguntou desconsolada Vania.

– Bem, o delegado pode não dar prioridade ao caso, mas ele não pode impedir uma investigação paralela, particular… – conjecturou a jovem médica legista.

– Você está dizendo que eu posso contratar um detetive particular?

– Se você quiser… Tudo depende do quanto você quer esclarecer esse crime. Você está disposta?…

Vania se ajeitou na cadeira. Seus olhos cor de mel estavam fixos na legista à sua frente. Mas enxergavam outra pessoa, noutro lugar. Seus olhos viam a figura serena e amável do seu amado Bedeu, ora concentrado na sua mesa de trabalho, ora sentado à sua frente na mesa do restaurante comendo delicadamente e conversando amenidades. Viu também o amado passar pedalando rápido e concentrado pela ciclofaixa da lagoa. Sim, às vezes, quando se sentia mais carente, mais apaixonada, ela pegava um Uber e ia para a lagoa. Sentava no deque ao lado da Casa do Baile e ficava ali solitária esperando para vê-lo passar. As vezes tinha vontade de entrar na sua frente, atrapalhá-lo, derrubá-lo … e depois curar seus ferimentos. Ou então ser atropelada por ele, ser carregada em seus braços… mas nunca teve coragem. Estendia seu olhar lânguido na figura amada curvada sobre a bike e ficava olhando até que ele diminuía e sumia lá longe na curva do Iate Clube. “Quem sabe da próxima vez eu crio coragem”, pensava, enquanto embarcava no Uber de volta para casa. Agora nem isso podia mais fazer.

– E então? Você pretende contratar um detetive particular?

A voz inquisitiva da legista trouxe Vania de volta ao consultório.

– Ah, sim! Mas eu não conheço ninguém. A senhora que é policial pode me indicar alguém? Estou pensando em um detetive que desvendou um suicídio… num livro. Meu chefe disse que isso é ficção… – falou Vania, com uma ponta de timidez, ou vergonha.

– Qual livro?

– “Quem matou o suicida”.

– Eu também li esse livro. Ganhei de uma amiga legista do interior. São crônicas policiais, casos verdadeiros. Eu não conheço o detetive que desvendou o caso, mas minha amiga conhece. Ele mora no interior… Não sei se ele aceitaria vir para a capital investigar o caso.

 

Aceitou!

Três dias depois Matinhos deu uma volta na lagoa, refazendo o percurso tantas vezes feito por Bedeu. Embora estivesse de carro, seguiu lentamente, tentando imaginar como teria sido o último pedal do amigo da sua cliente, até que chegou ao local indicado pelos GMs. O tronco sem vida do jacarandá rosa, onde Bedeu se sentou para morrer em silencio e sem reclamar, não lhe disse nada. Não disse nem mesmo a direção de onde poderia ter vindo a bala assassina. Poderia ter vindo do parque municipal à direita… ou do quintal de uma daquelas mansões ou sítios à esquerda. Dependia de qual direção Bedeu estava seguindo. Será que ele recebeu a bala naquele exato local, ou pedalou alguns metros antes de se sentar para morrer?

Mais tarde o experiente detetive reuniu-se com Vania e a médica legista.

     – O primeiro passo é checar a possibilidade de suicídio. Começando por saber se ele tinha arma…

– Suicídio? Impossível. Suicídio com arma de fogo deixa marcas de pólvora na entrada… e um estrago enorme na saída. – Reafirmou a legista apaixonada pela sua profissão.

– Ainda assim é necessário saber se ele tinha arma.

– E se ele tinha, alguém poderia tê-lo assaltado, tomado seu revólver e atirado nele! – concluiu apressadamente, Vania.

– Não por isso… o ferimento seria muito diferente, como já disse a doutora – rebateu Matinhos.

– Sim… ainda que o tiro tivesse sido disparado a alguns metros, o projetil teria arrancado um tampo da sua cabeça. Teria corrido muito sangue e ele não teria sentado pra morrer naquele toco! Teria despencado da bicicleta no ato – apressou-se Leticia.

– Mas então… – falou Vania abrindo as duas mãos espalmadas como se deixasse ir embora as últimas hipóteses.

– Vania, numa investigação, não se pode desprezar nenhum detalhe. Quem possui uma arma… tem muito mais chances de morrer baleada! – filosofou rasteiro o Detetive.

– Espere… Deixe-me ver os dados dele. Vou consultar… vejamos: Bedeu, filho de… Ele possui uma arma… registrada! E não há registro de furto! – falou Leticia com os olhos negros grudados na tela do computador consultando o REDS.

– Que tipo de arma? – quis saber Matinhos.

     – É um Magnum 357! – respondeu Leticia com os olhos exclamativos olhando para o velho detetive.

– Ainda que tenhamos que descartar totalmente a hipótese de suicídio, é importante saber se a sua arma está em sua casa. Vou usar minha credencial de advogado para pedir ao delegado do caso um Mandado de Busca. Mas antes vamos dissecar todas as possibilidades.

 

       O Mandado de Busca cumprido na casa do morto aguçou a euforia da investigação. A arma, um belo Magnum 357 niquelado que aparecia no folder junto ao registro do mesmo, não estava na caixa muito bem guardada entre livros na sua estante. Dona Teresa desconhecia que o filho tivesse arma. O mistério ficou ainda mais intrigante quando os policiais encontraram uma nota fiscal da última aquisição de munição, feita a cerca de três semanas. A caixa estava pela metade. Mesmo descartando a probabilidade de suicídio, o projetil encontrado pela amante platônica no crânio do pretenso namorado, poderia, ironicamente, ter sido adquirido pelo próprio Bedeu! Mas quem teria apertado o gatilho?

 

– Para chegar ao autor do disparo, qualquer que seja a causa, é preciso saber de onde partiu o tiro. Você disse que a bala penetrou num dos vãos de respiro do capacete de proteção… – perguntou Matinhos.

– Sim. Sem danificar o capacete. E na direção perpendicular, de cima para baixo. O que significa que o projetil veio de longe e o atingiu quando já estava caindo… – explicou a legista com um movimento de mão.

– Bem… Isso diminui muito a probabilidade de um tiro planejado, disparado de longe. Seria quase impossível disparar com tal precisão – arguiu o detetive.

– Isso quer dizer que elimina a possibilidade de crime premeditado? – interagiu Vania.

– Sim. Até porque, é certo que o projetil veio de longe e foi perdendo força. Caso contrário teria trespassado o crânio.

– Bedeu costumava pedalar quase sempre no sentido horário da lagoa. – Informou Vania, sem revelar que às vezes assistia incógnita e solitária aos seus pedais.

– A bala atingiu o lado direito do crânio… Isso significa que o tiro veio do parque municipal! O que dificulta muito a investigação… – concluiu pensativo Matinhos.

– A Vania disse que ele ‘quase’ sempre pedalava no sentido horário da lagoa. E se nesse dia ele fez o inverso? – arguiu a legista.

– É uma possibilidade…

– Mas então… – falou Vania abrindo as mãos num gesto de desanimo.

– Precisamos achar testemunhas que o tenham visto naquele início de noite e nos informem qual sentido ele seguia.

– Isso é difícil. Tanta gente pedala na lagoa! Especialmente nesse horário – falou Leticia.

– Nem tanto. Os bikers que pedalam na lagoa são sempre atenciosos e solidários. Eles sempre se cumprimentam quando se cruzam ou se ultrapassam. Isso gera empatia, intimidade, cria laços, se tornam conhecidos. Embora Bedeu pedalasse sozinho, ele tinha muitos conhecidos que pedalavam por ali. Alguém pode tê-lo visto naquele dia. – Informou Vania.

– Então vamos vazar o caso do Bedeu para a imprensa, de preferência sites de amantes do pedal e sites policiais, pedindo esse tipo de informação. Para isso precisamos de uma foto dele com as roupas e a bike daquele dia. Você pode conseguir isso, Vania?

 

Quatro dias depois Matinhos recebeu um telefonema. Um rapaz tinha informações a dar.

– Eu estava correndo com minha aluna quando ele passou por mim, pedalando normalmente. De repente, do nada, parou… perecia meio tonto. Encostou a bicicleta e sentou-se no tronco. Segundos depois passamos por ele e perguntei se estava tudo bem. Ele acenou com o polegar esquerdo enquanto, com a outra mão, parecia procurar o celular na pochete… Eram umas seis e pouco da tarde. Sim, nós seguíamos sentido inverso do relógio… – informou o personal trainer.

Saber a direção de onde viera o tiro fatal podia ser o fio da meada para a elucidação do crime. Para chegar ao autor, no entanto, seria necessário desenrolar todo o novelo. Ainda sem a pista que pudesse levar ao dedo assassino, Matinhos continuou seu périplo nas imediações do sinistro. Agora, sabia ao menos, a direção de onde viera a bala sem rumo.  Nos dias seguintes ele concentrou sua atenção no lado direito da extensa avenida de dezoito quilômetros que circunda a lagoa da Pampulha, cartão postal da capital. O local tão cheio de verde, de vida, de pessoas alegres exalando vida, havia misteriosamente encerrado uma vida, sem alarde, deixando o corpo do jovem Bedeu inerte, contemplando o silencio da noite pouco iluminada, na extensa avenida que margeia bosques e matas habitadas por jacarés, capivaras e outros bichos que dão vida à lagoa. O lado oposto do parque, naquele trecho, era cheio de mansões circundadas por palmeiras, coqueiros e outras arvores frondosas, floridas e cheirosas que começavam ao rés da avenida e subia uma encosta levemente inclinada, formando uma colina, até divisar com o bairro ao norte. Matinhos sentou-se no mesmo tronco seco e sem vida onde Bedeu respirou pela última vez, virou-se para a larga avenida de mão dupla e ficou tentando imaginar o trajeto da bala assassina.

– “Um projetil desse calibre, dependendo da qualidade da munição, da polegada do cano da arma, da perpendicularidade do disparo e até da densidade do ar no momento, pode chegar com letalidade a cerca de seiscentos metros. Logo, o tiro foi disparado além dessas mansões, da rua ou do quintal de uma casa no outro bairro”… – concluiu para si mesmo.

Ainda pensativo, sentado no tronco que testemunhou o esvair de uma vida, o detetive, bem vivo, traçou seus próximos passos. Manteria um olho na casa da mãe de Bedeu, buscando filtrar a rotina da rua, da sua casa. O outro olho vagaria pelo bairro paralelo, de onde parecia mais provável ter partido o tiro irresponsável que matou o ciclista solitário.

No dia seguinte travestiu-se de funcionário do Censo e bateu na porta de cada residência da Avenida Portugal, entrevistou cada família tentando identificar o perfil de quem, por uma razão ou outra, pudesse ter se apossado do Magnum de Bedeu e o baleado enquanto praticava seu hobby nas proximidades da lagoa.

Numa destas noites em que um olho estava voltado para a casa da mãe de Bedeu, há poucos bairros dali, Matinhos presenciou uma visita à casa da idosa solitária e chorosa. A figura de um rapaz alto, magro, esportivamente vestido, sem o saber, posou para a câmera do seu celular. O moço aparentando meia idade, permaneceu cerca de meia hora no interior da casa antes de despedir-se da viúva no portão. No dia seguinte sua identidade foi confirmada pela mãe de Bedeu.

– É o Mauro. Ele era amigo do meu filho. De vez em quando ele vinha aqui, as vezes saiam juntos. – Contou Tereza.

– O que ele veio fazer aqui ontem? – indagou Matinhos.

– Ele veio me fazer uma visita… e devolver uns livros que ele havia emprestado do meu filho.

– Livros? Posso ver esses livros?

– Pode. Estão no quarto do Bedeu. Ele mesmo colocou na estante. Eu não entro no quarto do meu filho desde que ele se foi.

– Posso dar uma olhada nos livros?

Ao entrar no quarto de Bedeu, pela segunda vez em poucos dias, Matinhos sentiu uma certa euforia. Encheu-se de expectativa. Foi direto para a estante esperando encontrar um certo estojo de arma, desta vez mais pesado… ou não encontrar nem o estojo! Decepção! O estojo do Magnum estava no mesmo lugar, tão leve quanto antes, contendo apenas os documentos da arma e parte da munição.

A decepção de não encontrar nada de novo após a visita de Mauro, no entanto, não arrefeceu o ânimo investigativo do velho detetive.

Mauro, contemporâneo de Bedeu, era uma das dezenas de pessoas que moravam no bairro Céu Azul, na rua paralela com a avenida onde o ciclista sentou-se com uma bala ainda quente na cabeça e ali ficou, inerte, até esfriar. O amigo do morto merecia um dossiê mais detalhado. Matinhos consultou sua prancheta de ‘funcionário’ do IBGE.

Dois dias depois Mauro recebeu uma visita dos homens da lei. Os detetives traziam consigo uma ‘carta branca do homem da capa preta’. Após ler o Mandado de Busca e Apreensão, o detetive que conduzia a diligência adiantou:

– Sr. Mauro, temos indícios de que o Sr. andou fazendo disparos de arma de fogo no seu quintal, por isso buscamos especificamente armas e munições. Se você os entregar espontaneamente, facilitará nosso trabalho … e poupará aborrecimentos pra você!

Apesar da surpresa da visita da policia, Mauro não titubeou.

– Tranquilo Sr. Inspetor. Eu sou CAC. Tenho toda documentação exigida – disse o moço levando os policiais para o escritório. De um pequeno cofre atrás de livros numa estante de alvenaria planejada ele tirou duas caixas e colocou sobre a mesa. Numa delas havia uma pistola Taurus .40 e seus respectivos documentos. Na outra surgiu um Magnum 357.

– Posso ver o registro do Magnum? – perguntou o Inspetor.

– Esse é de um amigo. Eu peguei para experimentar. Se gostar vou comprar dele e fazer a transferência.

Matinhos, que acompanhava a diligência, pegou a arma com um lenço, verificou o tambor, abriu, aproximou o cano do nariz, sentiu o cheiro e falou:

– Foi usada recentemente …

– O Sr. Costuma praticar tiros com frequência? – Perguntou o Inspetor.

– Só quando tenho munição…

– Somente nos clubes de tiros ou pratica também em alvos aleatórios!

– Raramente disparo fora do Stand – respondeu receoso o CAC.

Quando esteve ali dias atrás fazendo o “levantamento demográfico” Matinhos percebeu que a casa não era tão grande para os padrões do bairro, mas tinha um grande quintal com pomar que terminava num barranco na direção da lagoa.

– O sr. costuma guardar as capsulas usadas para recarregar? Posso vê-las? – perguntou Matinhos fingindo pouco interesse enquanto olhava através da janela para o quintal dos fundos onde se via frondosas mangueiras, fruteira típica naquela quente região da capital.

– Sim, claro… – respondeu Mauro pegando outra caixa menor no fundo do cofre.

Matinhos pegou a capsula vazia, examinou-a, entregou ao Inspetor e tornou a perguntar.

– Essa arma e essas munições pertencem ao seu amigo Bedeu Joanel de Almeida, não é? – perguntou outra vez Matinhos.

Mauro teve um sobressalto. Como eles sabiam do Bedeu? O que teria a investida dos policiais na sua casa àquela hora da manhã com a morte do seu amigo? De repente um frio desceu pela espinha! Matinhos percebeu o desconforto de Mauro e voltou a interpelá-lo:

– Quando você usou esse revólver pela última vez?

– Umas duas ou três semanas atrás, eu acho … – respondeu já sem segurança.

– Mais precisamente no início da noite da quarta-feira, 30 de setembro!

– Trinta de setembro!? Pelo cheiro da pólvora dá para saber a data exata que a arma foi usada?

– Não. É que no dia 30 de setembro alguém foi atingido na cabeça com um tiro de Magnum na orla da lagoa…

– O que aconteceu com ele? Quem é o pobre infel… – Antes de completar a frase um nome lhe veio à mente. Apoiou-se à mesa.

– Seu amigo Bedeu… o dono da arma – completou o Inspetor, que o tempo todo mantinha os olhos grudados em Mauro observando suas reações.

Mauro deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa. Seu rosto estava lívido.

– Você consegue se lembrar os detalhes; quantos disparos você fez; tinha mais alguém com você?…

– Eu estava com um primo meu, do interior… Eu queria mostrar a ele como se usa o revólver, mas não havia tempo para ir ao clube. Cada um deu três tiros intercalados…

– Todos os tiros foram no mesmo alvo imóvel, no barranco no fundo do quintal?

Mauro titubeou. Mas não tinha mais controle emocional para fugir de qualquer resposta óbvia.

– Nalgum momento entre os disparos… uma ave noturna assustada levantou voo da mangueira … tentei alvejá-la… – falou finalmente.

– Foi esse tiro que saiu para o alto? – indagou Matinhos.

– Sim… foi o único… tentando alvejar a ave…

– … Mas acertou seu amigo Bedeu enquanto pedalava, a seiscentos metros daqui! – falou Matinhos pausadamente.

– Não estou acreditando… Eu matei meu amigo com a própria arma dele! – concluiu Mauro desolado com o rosto entre as mãos.

Após um breve instante para que o empresário processasse os fatos, o Inspetor falou:

– Sr. Mauro, o sr. terá que nos acompanhar à delegacia.

– Eu estou preso?

– Não. O sr. não está em estado de flagrância. Seu crime, a princípio, se enquadra no delito culposo. Já puxamos sua capivara… Sabemos que o sr. não tem antecedentes criminais e, portanto, não se justifica prisão preventiva. Mas será indiciado em Inquérito Policial. Seu vacilo comporta no mínimo 4 anos de cana.  – Respondeu o Inspetor.

– O sr. vai precisar de um advogado… – acrescentou Matinhos.

 

Um ano depois o homem da capa preta proferiu a sentença contra Mauro. Com base no artigo 18 do Código Penal (que trata do dolo eventual), e na Lei da Gravidade (tudo que sobe, desce), o douto juiz entendeu que Mauro ao atirar para o alto, embora não quisesse, assumiu o risco de matar alguém com uma bala perdida. Por isso o condenou, por homicídio doloso, a oito (8) anos e meio de reclusão em regime fechado.

 

      A prisão do CAC descuidado não ressuscitou o ciclista Bedeu. Apenas preencheu o espaço que cabe à justiça. O vazio do amor nunca declarado continuou latente no peito de Vania. Apesar disso, ela encontrou um alento. Grata ao detetive Matinhos, Vania tornou-se assídua leitora de romances e crônicas policiais.      

Chico Luca & Mariana… e as 10 filhas

Um amor que resistiu as transformações socioculturais do final do século XX.

Meu quinto livro…

A história se passa longe dos grandes centros, com sotaques, ritmos, cheiros e paisagens que representam o interior brasileiro. É um tributo ao Brasil da roça, das festas, das tradições e das pequenas revoluções do dia a dia.

Uma história com gosto de pinhão assado na brasa, com cheiro de terra molhada! Uma história raiz, cheia de afetos… Uma história que nos remete à brisa suave da noite.

Se você ainda não tem o hábito de ler livros, depois de ler Chico Luca & Mariana, você vai viciar…

Você vai perceber que sua vida também daria um belo romance!

Você vai querer escrever sua própria história!   

Chico Luca & Mariana é um livro ideal para presentear alguém… Seu pai, sua mãe, sua filha, seu namorado!

“Você tem histórias pra contar”?

Casa onde nasceu Chico Luca…

Todo mundo tem histórias para contar… Mas nem todos contam!

Cada um tem seus motivos para não contar suas histórias.

Alguns acham que elas não valem a pena serem contadas.

Muitos tem vergonha de contar suas histórias!

Alguns acham que as pessoas irão rir das suas histórias.

Outros não querem que suas histórias caiam na boca do povo!

Tem aquelas pessoas que querem levar suas histórias para o tumulo!

Tem até aquelas que não contam sua história ‘nem morta’!

Mas a maioria das pessoas não contam suas histórias por quê …

Porque não sabem contar!

 

Sim… contar histórias “não é pra qualquer um”!

Contar histórias requer talento. Requer conhecimento básico do vernáculo. Requer conhecimento da história, requer cultura. Não a cultura fria dos livros, mas a cultura ‘caliente’ da vivência, da percepção do momento, da percepção dos sentimentos dos personagens! Requer acima de tudo um bom ouvido … e uma boa memória!

 

Foi com base nesses preceitos que escrevi essa história.

A começar pela memória, que me leva quando quero aos dois anos e meio de idade, na casa grande cheia de meninas.

Conhecimento da história é fácil! Eu estava lá, vivi a história, senti a história, sou parte da história.

Quanto ao talento, se de fato tenho, fica por conta de você, leitor!

 

Vamos conhecer a história?

Belo Horizonte está em festa!

Seu mais ilustre morador está soprando velinhas!

Cavucada saiu de casa logo de manhã nesta quarta-feira de “cumpleanos”, para cumprimentar os amigos. Essa selfie, comigo, foi feira às dez e meia da manha na pracinha atrás da igreja do bairro.

“Ele nasceu no dia 28 de maio de l969 mas diz que tem 17 anos e se comporta como se tivesse sete… No entanto anda por todos os cantos da cidade sem comprometer sua segurança e não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário… deixa um rastro de alegria e pureza por onde passa. Cumprimenta e conversa com todos, sempre alegre e sorridente, pergunta dos parentes quando os conhece, toca em qualquer assunto, fala de política a futebol passando pelos últimos fatos que foram notícias no país… É só puxar o assunto que ele tem alguma coisa para comentar. Para ele, este ano o Palmeiras será campeão!!!
Assim é o nosso amigo… Cavucada!
Conheço-o desde sua infância, há muitos anos, embora ele nunca tenha saído dela.
Numa ensolarada manhã de sábado nos preparávamos para mais uma pelada de futsal na extinta quadra Poliesportiva Julio Pereira Neto – construída pela administração Simão Pedro em 84 e destruída pela administração Jair Siqueira em 99, para dar lugar a uma rua paralela à outra -, no bairro da Saúde, quando Cavucada chegou e “pediu beira”…
– Eu também quero jogar Marcelo, vou lá em casa pegar a chuteira – Disse o garoto ao meu filho e saiu correndo em direção à sua casa a poucos metros dali.
Voltou instantes depois já com as chuteiras nos pés. Chuteiras mesmo!!! De travas altas, para campo de grama!! No primeiro chute que tentou dar na pelota, caiu de costas. Tentou dar outros chutes, mas acabou desistindo. Tirou as chuteiras, colocou na arquibancada e jogou descalço como sempre fazia, até o fim da pelada…
No ano seguinte uma notícia triste abalou a cidade…
Cavucada morreu!!!!!!!!!!
Como????
Ninguém sabia ao certo!
Uns diziam que ele havia sido atropelado lá pelas bandas da Serrinha de Bela Vista…
– Mas o que o Cavucada estaria fazendo por aquelas bandas, vinte quilômetros longe de casa?
Ninguém sabia explicar.
Tinha versão ainda pior: Ele havia sido assassinado no Chapadão!!!
Mas por quê??? Ele é inofensivo. Cavucada não diz nem palavrão!!!
Com o passar dos dias a notícia só se espalhava. Chegaram a sepultá-lo no cemitério Jardim do Céu!
Como policial, jornalista e amigo do Alexandre Cavucada, fui investigar sua morte. Não tive muito trabalho. No final da tarde de uma terça feira morna, encontrei o garoto, belo e formoso, alegre e sorridente como sempre, tomando sol preguiçoso na porta de sua casa, ao lado de sua mãe, no bairro Belo Horizonte.
Na ocasião eu apresentava o programa “Direto do Esporte” na rádio Difusora de Pouso Alegre, das seis às sete da noite. Naquele dia Cavucada fez o programa na rádio comigo. Depois da entrevista sobre sua suposta morte, para mostrar à população com sua própria voz que ele estava vivinho da silva, e nem ligava para os boatos, ele continuou comigo no estúdio, falando de futebol, de polícia, de bandido, de amizades… de linguaruuuuudos!
Cavucada falava com tanta desenvoltura, clareza e conhecimento do assunto que nem parecia que sua mente não havia acompanhado o desenvolvimento do seu corpo. Nosso Cavucada parecia um adulto!
Ainda bem que apenas parecia… Ainda bem que ele continua uma criança inocente, pura…”

Essa crônica foi publicada no dia 28 de julho de 2012, no meu Blog, dois meses depois que ele completou 43 anos. Desde então Cavucada se tornou figurinha carimbada nas minhas páginas sociais quando faz aniversário.
Hoje, 28 de maio, o menino Alexandre “Cavucada” Reis Assunção está completando 56 anos de vida.
Continua um menino… Menino alegre, cheio de carisma, cheio de sorrisos e de histórias pra contar!
Parabéns Cavucada!
Deus te abençoe!

A enchente das goiabas…

 

E o ultimo mergulho do Catimbau

A chuva caiu mansa a semana inteira. Lentamente as águas frias e sujas foram enchendo o leito do rio Mandu e subindo até sair penas margens ribeirinhas, preenchendo os espaços vazios, os buracos, as depressões, a várzea. Na madrugada do sábado finalmente a chuva parou de cair. Agora só rolava. Rolava lentamente procurando lugares que ainda não haviam sido alcançados. Tudo em redor da cidade estava alagado. A vargem do Aterrado parecia um mar. Até a chácara do Pedro Artur, à esquerda, na direção da Vigor, a qual havia recebido centenas de basculantes de terra anos antes, estava ilhada. Para se chegar às fazendas ao sul da cidade, depois da vargem, só de canoa. As famílias que moravam no Aterrado e na vargem haviam sido retiradas de lá dias antes, pelos caminhões do exército e da prefeitura. Estavam alojadas na Rinha. Demorariam dias para voltar para casa. O sábado amanheceu ensolarado e fresco. A tarde esquentou. Alguns nadadores de rio foram até a ponte do Aterrado nadar como sempre faziam por ocasião das enchentes. Desta vez, no entanto, nenhum deles se arriscou. O movimento lento das águas era assustador. Levados pelas águas serenas, de vez em quando passava por ali, boiando sob a flor d’agua um tronco de arvore podre, um pedaço de armário, um trapo qualquer, um cavalo ou um porco sem vida dividindo o espaço com as goiabas parcialmente comidas por passarinhos. Era a última enchente do ano, a famosa “enchente das goiabas”! Os jovens acostumados a belos saltos ornamentais de cima da ponte formavam grupinhos, conversavam, comentavam, desafiavam, ensaiavam, mas ninguém se aventurava a entrar na água.

Em dado momento perceberam a figura do Catimbau …

O moço surgiu do nada, entre as pessoas que contemplavam a enchente, com seu jeito sempre taciturno e calado. Decerto viera da cidade, da Rinha onde devia estar arranchado desde o meio da semana. Caminhou lentamente até metade da ponte. Apesar de solitário e discreto, não conseguiu evitar os olhares curiosos.

– Será que ele iria nadar naquela enchente? Será que ele teria coragem de saltar naquele dia? – interrogavam-se as pessoas com uma ponta de inveja.

Catimbau olhou para o oeste, de onde surgia o rio Mandu algumas braças atrás do campo do Vasquinho. Atravessou a pequena ponte… olhou para o leste, para onde ele descia reto até fazer a curva no fundo da Vigor. Olhou para a chácara ilhada mais à direita. Lentamente tirou a camisa de tergal esverdeada, pendurou na mureta da ponte, verificou se não se aproximava numa canoa, afastou-se de costas até a outra extremidade, tomou posição de largada, correu, saltou para a mureta, encostou os dois pés, aproveitou o embalo e… saltou no espaço! Saltou mais para a frente do que para o alto. Saltou longe de encontro às águas amarelas do rio mandu… As pessoas – naquele sábado ainda não eram tantas como de costume por ocasião das enchentes – e os nadadores de rio ficaram olhando, alguns admirados, outros perplexos com a coragem; outros com olhar de censura pela irresponsabilidade! Alguns torcendo para o aventureiro se dar mal! Outros torcendo para que os anjos o protegessem … E catimbau desapareceu!

Ele havia pulado contra a correnteza. Era natural que submergisse rio abaixo, debaixo da ponte, ou do outro lado. Algumas pessoas correram do lado de baixo esperando vê-lo surgir ofegante e buscar a margem.

Mas… nada!

De repente… aplausos!

Catimbau surgiu longe dali. Surgiu a poucos metros da margem direita do rio, quase no quintal da chácara do Chiquinho de Freitas. Saiu à rua, voltou para a ponte, caminhou até sua camisa, jogou-a no ombro e foi embora, tão solitário quanto chegou, deixando atrás de si um emaranhado de minhocas tontas zanzando na cabeça das pessoas.

Quase nada se sabia sobre Catimbau. Certo dia um rapazinho pardo, franzino, média estatura apareceu na Olaria do Chico Derige. Chegou ressabiado, sondando à distância. Sentou-se num toco podre de um ingazeiro ali perto e ficou um longo tempo observando os oleiros trabalharem até que se aproximou de Chico Derige e perguntou:

– Precisa de camarada?

Chico não precisava de empregado. Muito menos de um garoto franzino que certamente não teria força para misturar uma masseira de argila. Aquele menino com certeza não conseguiria virar uma forma de tijolo cru sobre a bancada. Ele, no entanto, havia notado a presença do menino sentado no tronco observando de longe a rotina. Quem sabe o menino não seria útil nas pequenas tarefas? – pensou. Sem tirar os olhos dos tijolos que empilhava começando a base da caieira que teria que queimar na noite seguinte, perguntou:

– Onde você mora, menino?

– Se o sr. der emprego, vou morar aqui.

A resposta surpreendeu Chico. Ele interrompeu por um instante o que fazia, percorreu o garoto de cima a baixo, olhou ao seu redor e tornou a perguntar.

– Sua família… de onde você vem? Já passou pelo Regimento?

– Não. Não tenho idade… Mas eu não vou servir a pátria. Família tenho não.

Chico Derige continuou seus afazeres como se não tivesse ninguém ali. Quando terminou de trançar os tijolos queimados na base da caieira, voltou a perguntar:

– Qual o seu nome?

– Catimbau.

– Catimbau de que?

– Só catimbau… minha mãe falou.

O velho oleiro coçou a cabeça branca, ajeitou o chapéu de palha e falou:

– Pago três cruzeiros por semana. Se quiser ficar aqui vai ter que fazer o seu rancho e a sua comida.

Catimbau descontraiu o rosto pardo e magro, esboçou um sorriso e falou fazendo uma ligeira mesura:

– Deus lhe pague, patrão.

Estava empregado.

Os anos passaram. Muitas enchentes das goiabas haviam se passado. Catimbau continuava o mesmo. Estava mais alto e mais encorpado. Mas só. Pardo, olhos escuros, fundos, cútis queimada pelo sol. Cabelos lisos e longos escorridos, cortados por ele mesmo com faca. Parecia um ‘indinho’! No entanto os traços fisionômicos: queixo, nariz, boca, sobrancelhas delicadas eram de branco, filho de branco… ou branca, europeu.

Essa era, talvez, a sétima ou oitava enchente das goiabas que expulsava Catimbau do seu ranchinho na olaria do Chico Derige. A mudança para a Rinha era fácil: saía de casa com a água pelas canelas e uma pequena trouxa de roupas nas costas. Só isso. Enquanto esperava a enchente baixar, de manhã, andava taciturno pela cidade. Perambulava pelo mercado. Era comum vê-lo sentado no fundo da catedral do São Bom Jesus com os olhos pregados na cruz. À tarde passava horas sentado na grama no Alto das Cruzes olhando de longe os movimentos da enchente, esperando o momento de voltar para casa. Dali podia avistar apenas a comunheira da olaria onde morava, mergulhada imóvel no mar da baixada do Mandu. Quando a chuva parava e o sol abria a porta ele descia para nadar na enchente, na ponte. Era ali que dava seus shows de saltos ornamentais nas águas amarelas que desciam das serras da Borda para se unirem ao Rio Sapucaí. Ninguém saltava tão alto, com tanta desenvoltura. Parecia parar no espaço. Ninguém ficava tanto tempo submerso quanto ele. Às vezes saltava para longe, as vezes para o alto… as vezes mal tocava a água e tornava a emergir tal qual uma tabarana em dia de Piracema! Às vezes desaparecia nas águas e ficava uma eternidade submerso, causando tensão e suspense até surgir distante do local onde mergulhara. Mulheres, sempre mais sensíveis, com a demora do nadador, levavam a mão à boca e exclamavam já com os olhos nadando:

– Ohhh… desta vez ele morreu!!!

No domingo seguinte Catimbau voltou à ponte do Mandu. Não chovia há mais de trinta horas. As águas haviam parado de subir. Mas não baixara. Demoraria mais de uma semana para voltar ao nível normal deixando apenas o cheiro indelével de sua passagem. O entorno da ponte estava abarrotado de gente. Pessoas nas janelas vizinhas, na sombra da arvores nas margens. Muitas se protegendo do sol sob suas coloridas sombrinhas. Era dia de festa, festa de gala. Muitos homens usavam ternos… mulheres desfilavam seus vestidos longos. Vários barcos de aluguel levavam quem quisesse para passear na enchente. Nadadores de todos os cantos da cidade estavam ali, dispersos ou em grupinhos, usando trajes de banho, buscando coragem para saltar na água, para exibir seus dotes.

Catimbau chegou discreto como sempre. Usava a costumeira indumentária: bermuda de brim cru da cor da terra com a qual fazia tijolos, cortada a faca nas canelas, e camisa verde-água, encardida. Os pés, que nunca foram apresentados a nenhum tipo de sapato, com as solas grossas e calejadas, tocavam livremente o concreto sujo da ponte. Parou à distância olhando para a plateia. Talvez buscasse alguém! Caminhou lentamente para o vão da ponte. Alheio aos olhares curiosos se dirigiu até a mureta do lado de baixo, observou o movimento das águas, o entorno rio abaixo, atravessou os poucos metros e parou na mureta do lado de cima. Tornou a observar. Seus movimentos estavam mais lentos e pausados naquela tarde. Parecia estar se despedindo… À sua esquerda os galhos dos chorões brincavam com a correnteza. Catimbau olhou para aqueles galhos que resistiam à força das águas. Ele e aqueles galhos tão pequenos e frágeis tinham algo em comum: podiam brincar o quanto quisessem com a correnteza que jamais seriam vencidos… A menos que quisessem se deixar levar! Virando-se para sua direita pousou seus olhos tristes na imensa plateia nos barrancos, nas janelas… Homens, mulheres, donzelas… Todos estavam ali para apreciar o espetáculo da natureza… a natureza dos homens! Apoiado na mureta da ponte, Catimbau deixou os olhos vagarem na plateia… Parecia procurar alguém, talvez um rosto conhecido. Ou então… se despedir daquela gente, daquela enchente, daquele rio que tão bem conhecia. Nesse momento recuou de costas até a mureta de baixo… alongou os braços, as pernas, o tronco… parecia que ia saltar. Caminhou decidido até a mureta de frente, parou, olhou para as águas, recuou novamente, aqueceu, tomou posição de corrida, atravessou a ponte e subiu com um movimento só na mureta, juntou os pés e … saltou no espaço! Saltou muito alto. Mais alto do que jamais havia saltado. Parecia que ia subir para o céu. De repente, quando o impulso acabou, Catimbau dobrou o corpo, por um instante ficou na horizontal, depois tornou a esticar e desceu quase reto em direção às águas. Desceu quase tão lento quanto havia subido! E com os braços estendidos tocou na água. E desapareceu!

Durante vários minutos a plateia permaneceu imóvel… esperando ver Catimbau surgir nalgum ponto do rio, no meio da enchente. Mas ele não surgiu. Seu corpo nunca mais foi visto.

Uma semana depois os desabrigados da enchente das goiabas, a maior daquela década, começaram a voltar para casa.

Um dos moradores da baixada do Mandu não voltou. No casebre de um cômodo só, habitado por Catimbau, preso à linha do telhado Chico Derige encontrou um minúsculo saco plástico amarrado pela boca. Dentro dele havia uma fotografia, aliás, duas… uma colada no verso da outra. Ambas as fotos eram de mulheres, ambas lindas, apaixonantemente lindas, brancas. Uma, séria, aparentava uma senhora de meia idade. Outra, sorrindo, uma menina na adolescência.

O detetive que investigou o caso do sumiço de Catimbau, com base nos seus parcos conhecimentos freudianos, sugeriu que a bela mulher madura poderia ser sua mãe. A outra, de sorriso doce e angelical, inatingível, deveria ser um amor platônico… causa do seu último mergulho na enchente das goiabas no Rio Mandu.

Mauritana Furtado… meu anjo da Borda!

Naquela noite fiz o melhor banquete da minha vida: arroz, feijão e bife… servido em um prato de louça, raso, com garfo e faca! 

Passava pouco de 13h quando encontrei meu amigo Rui de Paula em frente o Palácio do Bispo em Pouso Alegre.

– Está tendo festa na Borda! Vamos vender pipoca lá? – convidou ele.

– Vamos … – respondi eu, sem pensar duas vezes… e sem ter a menor ideia de onde ficava essa tal Borda!

Como se estivéssemos indo ao bairro vizinho iniciamos a caminhada. Pegamos a Silviano Brandão, a Alferes Gomes de Medela, passamos pela Remonta, passamos pela entrada da Vendinha e pegamos a estrada. No meio da tarde estávamos na baixada do bairro Anhumas. Aquele carrinho branco todo enfeitado de pipocas coloridas empurrado por dois garotos, passando lentamente pela estrada, atraiu a atenção de uma dúzia de lavradores numa plantação ali na várzea. Eles pararam de capinar o arrozal e vieram até a beira da estrada, curiosos, querendo entender o que era aquilo! Alguns deles tinham dinheiro na algibeira … e todos comeram pipoca doces coloridas e amendoim torrado coberto com chocolates!

 

Às sete da noite entramos na rua principal de Borda da Mata, bastante cansados, empurrando o carrinho de guloseimas. Quinze minutos depois entramos numa ruazinha transversal onde algumas crianças brincavam. Ali o carrinho de doces começou a esvaziar.

 

Foi ali naquela ruazinha transversal que eu a conheci.

 

Atraída pelo burburinho da criançada ‘que nem formiga no doce’, ela apareceu no portão de uma casa com grades na frente. Era a senhora Mauritana Lopes Furtado. Na verdade, eu só guardei o sobrenome “Furtado”. Mas nunca esqueci o gesto daquela senhora. Muito menos o que ela nos ofereceu!

 

Curiosa para saber de onde vinham aqueles dois meninos franzinos empurrando aquele vistoso carrinho de doces, ela se aproximou e puxou prosa. Minutos depois, quando a criançada se afastou lambuzada e feliz, a bela senhora morena, de meia idade, apareceu com o nosso jantar. Sentados no passeio defronte sua casa, eu e o Rui, degustamos o banquete! Não me lembro de ter comido, até então, uma comida tão chic e gostosa: arroz, feijão e bife em um prato raso de louça branco, com garfo e faca. Até aquele dia eu só conhecia prato fundo esmaltado… e colher! Não foi somente o prato de comida deliciosa que a boa e linda senhora morena nos deu. Deu também um pouco de carinho, de afeto… de amor. Depois de seis horas empurrando o carrinho de pipocas pela estrada, precisávamos de tudo isso. Minutos depois chegamos à praça central da cidade, completamente lotada, comemorando o dia da padroeira N.S.do Carmo. Era dia 16 de julho de 1971. Eu já era um mocinho… tinha 13 anos!

 

No dia 17 de setembro de 2014, um mês depois de publicar meu primeiro livro de crônicas policiais, voltei à Borda da Mata. Desta vez fui sozinho, de carro. Fui visitar meu anjo da Borda e pagar aquele jantar com um presente. Dei-lhe um exemplar do livro “Meninos que vi crescer”, no qual eu citava seu nome naquele longínquo ano de 1971. Mauritana morava na mesma casa onde fiz a melhor refeição da vida, 43 anos atrás! Não era hora de jantar, mas não saí de lá sem mimos e o afeto da senhora Mauritana Furtado, já octogenária.

Entre nós foram apenas estes dois encontros… o suficiente par fazer morada em meu peito.

Nesta terça-feira, 08 de abril, Mauritana foi chamada se volta à Casa do Pai. Voltou para os braços do Criador, onde sempre teve lugar cativo.

Boa viagem meu anjo Mauritana.

Indignação!!!

Mesmo identificado, processo e condenado, talvez o agressor nem venha a conhecer o Hotel do Juquinha por dentro!

A brutalidade aconteceu numa rua paralela à Vicente Simões na noite de sexta-feira,28.

É o mínimo que se pode dizer para expressar os sentimentos dos familiares – e da sociedade – com as agressões sofridas pelo adolescente no bairro Guanabara, região central da cidade na primeira noite de carnaval em Pouso Alegre! Uma agressão selvagem, à traição, desproporcional a qualquer ato que, porventura, tenha ocorrido antes! Atitude covarde, dada a desproporção física da vítima, dada a total impossibilidade de fuga ou de defesa! Apesar disso, a ação não exigiu nenhuma reação das pessoas que assistiram passivamente a brutalidade. Talvez paralisadas pelo medo, ou acostumadas com a violência das ruas, nada fizeram para intervir ou deter o agressor. Ele, no entanto, não escapou do olhar frio e inerte do “olho vivo” que a cada dia mais toma conta das nossas ruas, mostrando para a polícia a cara de quem faz feiura!
                                      “Eu, como mãe de adolescente, fico indignada”! – escreveu uma leitora do meu blog nesta segunda-feira.
                                      “Vai fazer duas semanas e o vagabundo anda todo, todo por aí. … E Até agora ninguém, fez nada” – diz a leitora!

Mesmo após jogar o adolescente na lona, o agressor continuou batendo…

Desacorçoada com a impunidade que campeia solta na cidade – e no país, a sociedade tem dado sua contribuição ao Estado, instalando câmeras de segurança nas suas residências e empresas, o que possibilita, ao menos, mostrar para a justiça a cara do infrator! – Coisa que, aliás, as determinações do CNJ, atendendo à ‘sensibilidade’ dos Direitos Humanos, não permite.
A prefeitura de Pouso Alegre, através do CIDS também implementou recentemente medidas nesse sentido buscando auxiliar a polícia no combate à criminalidade no município, instalando dezenas de câmeras pela cidade. Graças a essas câmeras que buscam ao menos inibir um pouco o insolente meliante, o autor da barbárie cometida contra o garoto na noite ainda criança de carnaval, foi identificado!
Mas e agora?
O que acontecerá com o selvagem agressor?
Saber quem é o autor da agressão não muda muito o status quo da conjuntura. Aliás, piora um pouco! Aumenta a indignação da família e da sociedade. Sim. Pois não há lei para punir o agressor à altura do seu crime!
A sociedade, ao instalar câmeras fez sua parte contribuindo com a identificação do agressor. A polícia militar, que não pode ser onipresente, registrou o fato e tomou as demais providências para o seu esclarecimento.
A polícia civil, a quem cabe investigar o crime, neste caso, dentro de 30 dias colocará o agressor, seja ele quem for, e todos os subsídios para o seu julgamento, sobre a mesa do Homem da Capa Preta.
E o que irá acontecer com o agressor?
Será julgado de acordo com a lei.
E o que diz a debochada lei?
O que vimos nas imagens, salvo melhor juízo, se enquadra em lesões corporais (art.129 CP), cuja pena varia de três meses a 01 ano de cana. Dependendo da gravidade e consequências das lesões, a pena pode chegar a oito anos!
Se o zeloso RMP enxergar e o douto Homem da Capa Preta se convencer de que houve tentativa de homicídio, a pena pode ir de 6 a 20 anos com redução de um a dois terços, ou seja: o brutamontes pode pegar 2 anos de cadeia. Dependendo de algumas variáveis, com uma pena dessas o cidadão que aparece nas imagens espancando o adolescente diante de dezenas de olhares assustados e impassíveis em plena via pública, talvez nem venha a conhecer o Hotel do Juquinha por dentro!
“… Juro que se fosse com meu filho ele (agressor) já estaria morto”! – desabafa a mesma leitora… indignada.
Enfim…
Sem lei severa, não há punição!
Sem punição… não há por que NÃO cometer crimes!
Sem punição para o criminoso, o trabalho da polícia não passa de “enxugar gelo”!
A sociedade paga, merece, precisa e quer mais do que isso!

Meu vizinho Japão

Ele costumava ‘passear’ na viatura da polícia!

Quando fui morar no alto da Rua da Biquinha, ele já morava lá! Morava com um irmão mais velho e sua mãe, já velhinha. Nunca o vi trabalhar. Passava os dias sentado no passeio na beira da rua, na esquina. As vezes nalgum boteco… ou numa ‘quebrada’! A mãe o sustentava. Era amigo da polícia. Quase toda semana a polícia o levava pra passear. Dois ou três dias depois ele voltava… a pé! Eu não entendia uma coisa: na viatura da polícia cabiam dois no banco da frente e três no banco de trás, mas o Japão ia sempre no porta-malas!!! Certo dia os policiais o chamaram no portão. Quando ele apareceu um deles fez cara feia e falou: – Japão, o delegado quer falar com você. Nós vamos levá-lo pra delegacia. Japão olhou meio desconfiado para os policiais e, com cara de pelamordedeus, perguntou: – Vocês não vão judiar de mim não, vão? – Não. Nem vamos colocar as pulseiras de prata – Respondeu o policial, abrindo a porta do ‘forninho’. E foram embora. Do portão da casa dele até a esquina tinha pouco mais de 50 metros. Só neste trechinho o soldado Vianei deu uns quatro trancos na viatura. Arrancava e freava bruscamente. Do portão da minha casa dava para escutar o barulho na traseira do forninho. Parecia uma abóbora solta na carroceria de um caminhão! Tempos depois Japão sumiu da rua. Ninguém sabia por onde ele andava. Vários meses depois voltou pra casa. Gordo, porém com a pele muito branca… parecia que não andava tomando sol! – O que aconteceu Japão. Onde você esteve? – perguntou um vizinho. – Eu estava de férias… – De férias?! Onde? – No velho hotel da Silvestre Ferraz! – respondeu, pouca prosa. – Quem te prendeu? Ninguém viu viatura da polícia aqui na sua casa! – Foi o Chips. Eu estava subindo a Bueno Brandão, quase chegando em casa, quando encontrei com ele na rua. O Chips falou que eu estava na lista negra da polícia e me levou em cana. Pior de tudo é que ele me levou a pé, do quarteirão de baixo até a delegacia, sem algemas, numa chave de braço… Cheguei lá cansado e com cãibra – choramingou ele. Japão não trabalhava, mas tinha dois vícios: Fumava uns baseados e quando não tinha maconha, se amarrava num pé de cana. Para sustentar esses dois vícios, adquiriu um terceiro… Passou a cometer pequenos furtos para comprar maconha e suco de gerereba! Rádio, bujão de gás, galinha, cachorro… qualquer coisa que pudesse render uns trocados. Por isso sempre recebia a visita dos homens da lei. Certa manhã a polícia bateu na sua porta. – Japão, dona Miquelina disse que você roubou a televisão dela ontem à noite. Onde está a TV? – Tá aqui na sala. Mas eu não roubei não. Ontem ela me convidou para assistir um filme na casa dela. Antes de acabar o filme ela dormiu… Daí eu trouxe a TV pra minha casa para acabar de assistir o filme. Agora de manhã eu ia devolver… Já que vocês vieram, podem levar! – Falou o gatuno… sem ficar vermelho! Depois que o irmão e a mãe – que vivia de Pensão – morreram, a fonte de renda do Japão secou. Entrou numa tremenda pindaíba! Começou a vender tudo que havia em casa para comer… e beber. Não demorou ficou sem gás, sem água e sem luz! Sem a mãe para sustentá-lo, e puxar-lhe as orelhas, passou a levar os amigos pra casa. Os amigos traziam cachaça, baseados e… mantimentos. Tudo ‘cabritado’ nas redondezas. O banho, tanto ele quanto os amigos, tomavam num tambor no quintal, com água acumulada da chuva. Entravam pelados no tambor, se esfregavam e saiam. Certa vez quase deu tragédia. Um dos parceiros de infortúnio, mais chapado, tentou lavar apenas da cintura para cima… Caiu de ponta cabeça no tambor e ficou e começou a se debater! Quase morreu afogado. Certa noite Japão saiu pela vizinhança pedindo uma vela, emprestado. Bateu em várias portas até que o vizinho do lado, o qual ele não ‘abeirava’ muito, lhe deu uma vela. Embalado pelo suco de gerereba, Japão esqueceu a vela acesa ao lado da cama. Quando os vizinhos perceberam a fumaça e chamaram os Bombeiros, já era tarde. Japão dormiu nos braços de Severina do Popote e acordou nos braços de São Pedro! Nunca mais os homens da lei levaram Japão para passear de viatura!

Impunidade

… PORTA ABERTA PARA O CRIME!

Em 2009, quando se mudaram do Velho Hotel da Silvestre Ferraz, os meliantes da cidade eram 350! Hoje, só no Hotel do Juquinha estão hospedados cerca de 1.300… sem falar uns 250 na APAC e outros tantos em penitenciarias do Estado!

Embora não esteja mais cobrindo o noticiário policial, estou sempre antenado no assunto. Afinal, como cidadão, também estou sujeito à insegurança que reina na cidade e no país! E tenho visto diariamente nos sites locais como a violência tem aumentado! Todos os dias – e noites! – temos arrombamentos, furtos e roubos na cidade. Isso para focar apenas nos crimes contra o patrimônio, sem falar dos crimes contra a vida, contra os costumes, do tráfico de drogas!…

Tendo ingressado na polícia em 1980, acompanhei de perto a transição, a transição da criminalidade tolerável para a criminalidade intolerável, que chegou aos nossos dias. Sim, em 1980, com um efetivo razoável de policiais, conhecíamos cada meliante da cidade. Conhecíamos cada movimento do meliante. Sabíamos quando ele estava de ‘biboinha’, e quando tinha culpa no cartório.

Mas aí veio a famosa “Constituição Cidadã” do Ulisses Guimarães!

Até então, o sujeito que havia se bandeado para o crime, tinha vergonha de ser criminoso, de ser “marginal”! Ele vivia à margem da sociedade e era facilmente identificado. Todo mundo na rua, no bairro, sabia quem era o meliante. E não raro o ‘caguetava’! Afinal, qualquer um poderia ser sua próxima vítima!

A Constituição Cidadã igualou todo meliante ao cidadão. Desde então o meliante passou a andar todo garboso por aí, de peito estufado, nariz empinado – e impune!

Nos anos seguintes à Constituição Cidadã, notadamente na última metade da década de 90, com o surgimento do ‘crack’, uma droga barata, acessível à classe baixa, a criminalidade desandou de vez, e desceu ladeira abaixo… sem breque! Hoje, ainda dá, mas está difícil segurar a criminalidade!

Não quero com isso dizer que a Constituição Federal não deva defender, indistintamente, todo e qualquer cidadão. Mas temos que manter sempre à tona o velho jargão:

“É preciso separar o joio do trigo”!

Lugar de quem comete crime é na prisão!

Somente a privação da liberdade, seu maior bem, fará o cidadão mudar de atitude!

O problema está aí: as leis não estão mais punindo o criminoso!

E sem punição, não há por que deixar de cometer o crime!

Por isso temos tantos crimes acontecendo na cidade e no país.

E não adianta culpar a polícia! A polícia não tem culpa no crescimento da criminalidade. Ela tem feito sua parte.

A polícia tem se aprimorado cada vez mais para prevenir e combater o crime.

Mas a lei é frouxa…

A lei é maleável…

A lei é flexível!

A lei é humana demais com o meliante! … Enquanto o meliante é desumano com a vítima!

A polícia hoje… o juiz manda soltar na audiência de custodia amanhã!

A polícia prende de manhã… a lei solta de tarde!

O juiz condena… a lei manda o juiz soltar!

A justiça condena o meliante a seis anos de prisão… Mas a lei diz que ele pode voltar pra rua 7 vezes por ano… na tais “saidinhas”!

… E depois de um ano atrás das grades, nem precisa voltar mais pra lá!

Mas então, diante desse quadro caótico que se encontra a segurança, quem poderá nos salvar? O Batman? O Homem Aranha? O Chapolin Colorado?

Não. As leis!

E quem faz as leis?

Essa pergunta toda pessoa, desde o ensino médio ao menos, sabe responder.

Quem faz as leis é o Poder Legislativo – são os deputados, escolhidos por nós, eleitos por nós, pagos por nós para cuidar dos ‘nossos’ interesses. Inclusive para cuidar da nossa segurança enquanto cidadãos.

Não temos que cobrar segurança da polícia. Temos que cobrar segurança dos nossos políticos!

A lei penal precisa ser consertada.

Sem consertar a lei penal… a criminalidade não tem conserto!

 

OBS: essa é uma abordagem rasa sobre os efeitos da impunidade no país. Se formos aprofundar um pouco mais o assunto, teremos que ir além do Poder Legislativo. Teremos que visitar também os poderes Executivo e Judiciário. Dá livro… best-seller!

Geraldo “Pão”… o ultimo homem da ‘roça’!

O homem no colo da figueira!

 

    

          Outro dia, depois de registrar os últimos lampejos do sol se deitando atrás do Morro das Onças, me despedi da bucólica vista da varanda do sítio, atrás da igreja, e rumei para casa. Ao ganhar a estrada vicinal, deserta àquela hora, parei por uns instantes olhando para o passado. Levado pela nostalgia, guinei à esquerda e segui na direção contraria da cidade, na direção ao interior do bairro dos Coutinhos. Segui lentamente, sem rumo, ouvindo uma ave aqui, outra ali, procurando um ninho para dormir, até que cheguei à encruzilhada da Tiririca! Eu pretendia ia mais adiante, quem sabe até o Canto do Mato conversar um pouco com o passado, mas, uma cena na encruzilhada da Tiririca me chamou a atenção. Já no crepúsculo da noite que turvava tudo à sua volta, vi a figura de um homem sentado no colo de uma figueira. No colo mesmo! As raízes rasas da jovem figueira formavam uma poltrona natural. O homem, grande, forte e sem camisa, usava apenas a calça ainda suja de terra da lida desde as primeiras horas do dia, arregaçada até as canelas. Na cabeça ostentava o velho e inseparável chapéu de palha de aba larga. Era o primo Geraldo. Parei para um centavo de prosa. A conversa esticou. Passou de um tostão, e logo a noite nos transformou em sombras na encruzilhada.

Geraldo “Pão” havia se levantado, como de hábito, no momento em que a corruíra, pulando de galho em galho na roseira abaixo da sua janela, começou a reclamar da claridade… por volta de cinco da manhã! Levantou-se, acendeu o fogão à lenha, fez o café, tratou das galinhas que já ameaçavam invadir a varanda em busca de milho, ajeitou algumas coisas no terreiro, juntou umas ferramentas de esticar cerca, colocou no embornal e voltou pra cozinha. Tomou uma caneca de café com leite, comeu bolo de fubá, acendeu o cigarro de palha e saiu empurrando a bicicleta morro acima em direção às Areias… Tinha que tratar de um gado de corte e curar bicheiras nalguns garrotes no mesmo pasto. Nesse dia não levou marmita, pois voltaria mais cedo para outra tarefa no lado oposto do bairro. Algumas horas depois voltou para casa, almoçou, tirou uma pestana na varanda da casa, fumou mais um cigarro, pegou o embornal de ferramentas e seguiu para o Córrego do Sapo. Passou o resto do dia consertando cerca de arame farpado.

Ao chegar em casa junto com o pôr do sol, bebeu uma caneca d’água, bebeu café morno na mesma caneca, pegou uma espiga de milho no paiol, descascou, debulhou, assanhou as galinhas, colocou a palha na algibeira e foi para a encruzilhada, se despedir de mais um dia.

Essa é a rotina do Geraldo “Pão”! Faz isso desde molecão… nos últimos cinquenta anos. Geraldo mora no que é seu, cercado de uma dúzia de galinhas, dois galos carijós e cinco cachorros de porte médio, todos adotados nas imediações.

Na juventude Geraldo frequentava a “Arvinha”, ponto de encontro dos homens do bairro, para atualizar os fatos do dia a dia. Por uns tempos frequentou também a “Vendinha do Vilino”, onde além do bate papo com os parentes – todos no bairro são parentes – tomava uns goles da cangibrina. Desde que se casou, há mais de trinta anos, o lazer mais longe que busca é na beira da estrada por onde passam poucos conhecidos…

Anos atrás, seguindo os passos da esposa, – é sempre assim: os homens vão aonde suas mulheres querem ir – mudou-se para Congonhal. Casa boa, moderna, bem localizada, cheia de plantas no quintal, invadindo a varanda. Faltava espaço para os bichos. Toda manhã depois do café com leite e bolo de fubá Geraldo montava uma bicicleta e ia trabalhar… na roça! nos Coutinhos e imediações, nos mesmos afazeres de sempre: consertar cerca, curar bicheiras de gado, roçar um pedaço de pasto…

Mais de uma década depois, levado de volta pela esposa, voltou a morar na roça… No bairro dos Coutinhos, há poucos metros do local onde nasceu, onde pode despertar toda manhã com o cantar do galo carijó.

     À direita da encruzilhada da Tiririca, seguindo para a Grota Funda, tem poucos moradores. À esquerda são dezenas de casas e de moradores. A maioria é de descendentes de antigos fazendeiros. No entanto, hoje são urbanos, tem hábitos urbanos, trabalham na cidade e ‘apenas moram’ ali. Quase todos passam de carro, de moto, e nem notam a presença do homem sentado no colo da figueira! Ninguém tem tempo para conversar… para um centavo de prosa. E nem assunto. Todos têm uma mulher e dois ou três filhos em casa e uma tv na sala… ligada na novela!

Há poucos metros da encruzilhada, na beira da estrada, uma bela e moderna casa com alpendre na frente e varanda nos fundos, cercada de horta, galinheiro e pomar, sua esposa – quituteira de mão cheia – está sentada diante de uma moderna TV 40 polegadas vendo novela. Ele, no entanto, prefere estar ali, na beira da estrada, até o sol se deitar atrás do pasto do Zé Gominho, ouvir o canto triste dos grilos, ver a noite estender lentamente seu manto negro e esconder até as sombras. Se tiver sorte pode ser que o curiango, curioso, pouse a poucos metros dele e caminhe apressado, fingindo medo, na estradinha poeirenta até levantar voo novamente!

Entrado na casa dos setenta, Geraldo talvez o último homem da roça, tira da roça o seu sustento. Sustento para o corpo… para a alma!

Geraldo precisa ver o sol nascer lá no espigão…

Precisa mexer com bichos… – vaca, boi, cavalo, porco, galinhas, cachorros, gatos, paca, tatu. As vezes precisa dar um chega pra lá numa jararaca… ou pisar no pescoço de uma cascavel…

Geraldo precisa limpar o suor da testa com as costas da mão, sentar num toco qualquer, empurrar o chapelão para trás, sacar da cinta o canivete de cabo de osso, picar o fumo de rolo e fazer ele mesmo o seu cigarro de palha…

     Por isso fica ali… até a noite esconder sua figura no colo da figueira. Até sua presença ser notada apenas pela luz tênue do seu cigarro de palha, qual vaga-lume no final do outono, e, talvez, pelo cheiro adocicado do fumo de rolo…

Geraldo precisa da poesia do entardecer… do frescor da noite… do cheiro da poeira da estrada… de alguém para conversar…

As pessoas pouco vão à casa dele… e ele pouco vai à casa delas. Mas pode ser que alguém passe a pé na estrada. Por isso ele senta no colo da figueira no fim da tarde, para ver as pessoas passarem, e quem sabe, trocar um dedinho, ao menos um dedinho de prosa, mesmo que seja apenas um:

– “Tarde”…

– “Noite”…

– “Bão”…

Esses são os curtos diálogos que travam, entre uma tragada e outra do cheiroso cigarro de palha, na beira da estrada.

Nosso encontro ali na encruzilhada foi uma mera casualidade. Depois de três anos morando em Belo Horizonte, absorto em saudosas lembranças, eu andava a esmo pela estrada da minha infância até esbarrar no raro espécime! Geraldo Pão ganhou o dia – e eu também! Conversamos até as estrelas dominarem o céu.

 

O personagem no colo da figueira não é ficção. Ele é de carne e osso… e de sentimentos puros, em sintonia com a natureza! Meus netos um dia saberão – através dos livros – que homens com esse perfil existiram até o apagar das luzes do século XX. Existiram. Não existem mais. Geraldo Pão é uma exceção. Nascido em meados da década de 1950, Geraldo, o último homem da roça, é feliz vivendo no século XX, sentado no colo da figueira. Ele não precisa do século XXI…