Carta de um idoso abandonado

Enquanto eu tentava entender que lugar era aquele, meu humano entrou no carro e partiu! Fiquei parado no meio da estrada escura tentando entender que tipo de brincadeira era aquela! Em menos de um minuto as luzes vermelhas da perua sumiram na curva da estradinha. De repente eu estava ali na estrada deserta, no meio do nada… eu e o breu!

Éramos cinco irmãos gêmeos. Três meninas e dois meninos. Eu era o mais forte e mais bonito da família. Vivemos poucas semanas juntos. Com cinco semanas de vida fomos separados. Primeiro meu irmão foi embora. Na semana seguinte as três irmãzinhas também se foram, uma de manhã e duas no final da tarde, cada uma com um casal diferente. Fui o último a me separar dos meus pais.

Naquela manhã chuvosa, lembro de ver o humano que cuidava da gente com um sorriso no rosto, colocar um pacote de dinheiro no bolso e me entregar a um jovem casal. Durante a minha primeira viagem de carro eu fui no banco traseiro, ao lado de um garoto loiro de uns oito anos. O menino falava comigo, mas quando eu tentava brincar, ele me repelia! Acho que ele tinha medo de mim.

Cresci numa casa nos arredores de uma cidade grande. Parece que era grande porque havia muito barulho, e à noite tinha tantas luzes que nem dava para ver a lua no céu. Cresci muito rápido. Com cinco meses eu já pesava quase quarenta quilos. O garotinho loiro parou de brincar comigo. Eu gostava de brincar com ele e queria sempre abraçá-lo. Um dia quando tentei lhe dar um abraço, ele não suportou meu peso e caiu de costas. Desde desse dia ele não saiu mais no quintal. Só saia quando eu ia para minha casinha lá no fundo…

A partir desse dia eu passava mais tempo na casinha do que solto pelo jardim. Fui ficando triste e carrancudo. Até que um dia mudei daquela casa. Fui colocado na carroceria de uma caminhonete e levado para um sítio longe da cidade. Tinha o lado bom. Havia muito espaço. Mas tinha o lado ruim… era um local solitário. Não tinha ninguém por perto. Só um rapaz que vinha trazer minhas refeições todo dia.

Desconfio que aquela casa não era exatamente meu lar. Era meu emprego. Eu estava ali para cuidar da segurança do sítio. Desde então passei a levar uma vida de cachorro! Só servia para vigiar, e afugentar estranhos. Eu até que tentava conversar com as pessoas que passavam na estradinha, que se aproximavam do portão, mas elas tinham medo de mim, me ameaçavam e iam embora resmungando, com pedras na mão.

Nos finais de semanas meus humanos vinham para o sítio e traziam vários convidados. Antes deles chegarem, aquele vizinho que me dava comida, me trancava no cercadinho. Ele sempre me enganava… Na noite anterior ele me dava apenas metade da refeição. Na manhã seguinte eu estava com a barriga roncando de fome. Então ele colocava comida na minha tigela e trancava o portão. Eu passava o dia todo ali, fechado num canto do quintal, vendo tudo de longe sem poder participar da alegria das pessoas.

Passei muito anos solitário ali naquele sítio, trabalhando de vigia… em troca de uma tigela de comida por dia! Fiquei ainda mais carrancudo, estressado… Pra piorar, comecei a sentir uma dor tremenda no quadril. Andar era um sacrifício danado. Eu andava todo torto… parecia que estava rebolando. Por isso eu só queria ficar deitado. Mal me levantava para cumprimentar meus humanos quando eles chegavam no final de semana.

Certo dia meus humanos trouxeram um pastor pra passar o dia comigo no sítio. Como eu quase não me movimentava mais, eles me deixaram solto no quintal com o novo, aliás, único companheiro que tive durante toda a vida.  Ele era pouco mais do que um adolescente. Agitado, imperativo, inconsequente, corria pra lá e pra cá. Cheio de energia queria brincar o dia inteiro! Eu até que tive vontade de brincar com ele, mas me doía o corpo todo. Acho que eu já estava velho!

No final da tarde comecei a pensar com meus botões: será que eles vão deixar esse molecão morando aqui comigo?

Deixaram.

Quem foi embora fui eu.

No final do dia, já no lusco-fusco me colocaram no porta-malas do carro e pegamos a estradinha sacolejante. Depois de uns vinte minutos o carro parou. Abriram o porta-malas e me mandaram descer…

– Uai… Será que já chegamos em casa? Mas não tem nada aqui! Está tudo escuro! – pensei.

Enquanto eu tentava entender que lugar era aquele, meu humano entrou no carro e partiu! Fiquei parado no meio da estrada escura tentando entender que tipo de brincadeira era aquela! Em menos de um minuto as luzes vermelhas da perua sumiram na curva da estradinha. De repente eu estava ali na estrada deserta, no meio do nada… eu e o breu! Fiquei um longo tempo parado, travado, olhando na direção que o carro havia sumido, esperando o meu humano voltar para explicar que brincadeira era aquela.

Ele não voltou.

Começou fazer frio.

Começou ventar.

Começou chover!

Meus olhos foram se acostumando com a escuridão. Eu já conseguia enxergar o cascalho pardo da estrada. Olhei para trás, olhei para frente… era tudo igual. Não havia nenhuma casa por perto. Nenhum abrigo. Agucei meu faro… Quem sabe eu sentisse o cheiro dos meus humanos… ou quem sabe o cheiro do caminho de volta pra casa! A chuva havia apagado tudo. Só senti cheiro de poeira molhada. Cheiro de mato molhado. Senti meu próprio cheiro molhado – Não sei quando foi que eu senti meu cheiro a última vez. Eu nunca tomava banho!

A perua não voltou.

Compreendi: eu havia sido abandonado!

Esfriou mais. Comecei a andar. Segui na direção que a perua sumiu. Começou a doer o quadril. Mas eu tinha que continuar. Tinha que encontrar um abrigo. Não podia ficar parado no meio da chuva. No meio do frio. No meio da noite. Continuei andando torto, lento, com dificuldade, com dor.

Quando a noite começou a desmaiar, e eu também, avistei as luzes pálidas de uma casa, de mais outra, de mais outra… Eu estava chegando a uma cidade. Foi ali que vivi durante muito tempo. Vivi nas ruas.

Apesar de ter chegado cedo à cidade, a primeira refeição que comi foi perto do meio-dia. Quase vinte e quatro horas depois do almoço no sítio do meus antigos humanos. Sim, eles ‘economizaram’ minha refeição antes de me abandonar na estrada deserta! Atraído pelo cheiro de alguma coisa de comer me deitei quase na porta de uma padaria. Não tive forças nem para entrar e pedir comida. Alguém da padaria, por conveniência, me deu um salgado! Pra ver se eu ia embora de lá, pois estava afugentando seus clientes!

Assim fui ficando na velha cidade. Velha mesmo, mas bastante charmosa. Ela se chama Sabará. Fome só passei no primeiro dia. Logo as pessoas se acostumaram comigo. Velho, fraco lento… balançando o quadril, manquitolando pelas ruas a procura de comida e de uma sombra pra deitar. Totalmente inofensivo apesar da carranca. A vida até que estava boa. Melhor que no sítio deserto. Nas ruas de Sabará eu tinha comida e carinho dos turistas, das crianças e dos velhos… como eu.

Bem, eu estava, doente, mas ainda estava vivo. Arranjei uma namorada. Quase isso…  uma ficante! Menos ainda… Uma ‘pireguete’ no cio! Me arrependi amargamente de ter ficado com aquela cadela! Peguei doença venérea! Agora, além de velho, da ‘situação’ de rua e da displasia eu tinha tumor venéreo transmissível!

Foi uma jovem estagiária de uma clínica veterinária, carinha de menina, que me tirou das ruas e mudou o meu destino. Compadecida, ela fez meu book, colocou nas redes sociais e alguém acabou me adotando. Me lembro com detalhes daquele dia. Era o primeiro sábado de 2023. Eu estava tirando uma pestana na sombra de um casarão centenário, perto de uma padaria – pra variar – no centro velho da velha cidade, quando um carro parou ali perto. Acordei com a voz doce e os cafunés de uma linda jovem me chamando de ‘tigrão’.  O marido dela, um bonitão de cabelos grisalhos ficou à distância, morrendo de medo da minha cara quadrada e carrancuda. Uma hora depois eu estava morando numa mansão na Pampulha. Era a vida que pedi a Deus! Eu dormia num colchonete na varanda e a dona abria a casa toda manhã. Eu e a Puma passávamos o dia inteiro dentro de casa, recebendo carinho e mimos… e fartas tigelas de ração e alguns petiscos!

Infelizmente minha saúde já estava muito comprometida. Apesar de todo conforto e carinho que recebi naquela casa, eu definhava dia a dia. Minha humana – essa era humana de verdade! – me levava toda semana ao hospital para tomar medicação na veia. Ela me levava até ao seu salão de beleza perto da sua casa. Só pra ouvir a cabeleireira e suas clientes falarem sobre mim. Ela se divertia com o medo que elas tinham de mim! Rsrsrs…

Muitos meses depois, sempre capenga, fiz nova viagem. Quando me colocaram no porta-malas do carro senti um pavor! Será que iriam me abandonar numa estrada deserta outra vez? No meio do caminho paramos em um restaurante na beira da estrada. Lembro que havia uma ‘vaquinha’ jérsei dentro do restaurante! Desci do carro tremendo de medo. Agora seria ainda pior, pois eu estava muito mais doente, mais velho e mais fraco. Mas não aconteceu o que eu temia. Ao contrário: me deram água, comida e dignidade. Meia hora depois voltamos para o carro e retomamos a viagem. Fomos parar numa aconchegante casa em Pouso Alegre. Era uma casa menor, mas o conforto e o carinho eram o mesmo. Até mais. Pois eles sabiam que eu não ia ficar muito tempo com eles.

Naqueles últimos meses de 2023, fizemos várias curtas viagens até a clínica veterinária de um tal Hélio. Até que um dia não voltei mais da clínica! Foi aquele bonitão que um dia ficou com medo de mim perto da Padaria na cidade de Sabará que tomou meu corpo ossudo e cansado nos braços e o sepultou em um sítio em Congonhal. Era o penúltimo dia de 2023. Faltava uma semana para completar um ano na companhia daquela família de verdade. Até hoje sou lembrado pela família, não pela minha última morada, mas pelas histórias que proporcionei.

Não sei muito sobre outras vidas! Será que vou voltar a encontrar a bela garota que me chamava de Tigrão e o bonitão de olhos cor de mel que cuidaram de mim?

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