O Crime do Sargento Queiróz

O desaparecimento de Edinho seria mais um caso que ficaria sob sete palmos de terra. Mas havia no caminho da investigação espíritos desencarnados que queriam que o corpo viesse à tona.

Edinho recem-casado…

Ao longo de 27 anos de investigações policiais como Detetive da Polícia Civil Mineira em Pouso Alegre e região, e outros tantos anos investigando como repórter policial, me deparei com muitos casos misteriosos. Muitos ficaram sem respostas. Outros foram esclarecidos por nós ou por si mesmo.

* O primeiro caso que parou na minha prancheta na Delegacia de Polícia de Silvianópolis em 1986, foi esclarecido por si só. Seis semanas depois de desaparecer o meliante mão leve Jose Gonçalo Alves reapareceu. Salinho, figurinha carimbada no álbum da polícia da pacata Santana, teve apenas duas pessoas preocupadas com seu sumiço: sua mãe e seu irmão mais velho. A mãe, porque mãe é mãe. O irmão, que duas vezes por semana chegava ressabiado à porta da delegacia para saber se “por acaso, ele não estava preso”, o fazia a pedido de sua mãe! Um belo dia, ao passar por uma restinga de mato, um pescador que voltava do Ribeirão Santa Barbara encontrou Salinho. Ele foi reconhecido pelas roupas, pelo porte físico e pelos cabelinhos lisos escorridos! Seus ossos estavam esparramados pelo chão.

* Zé Marruco também foi encontrado. Aliás, ele encontrou quem o procurava. Uma semana depois de movimentar familiares, amigos e metade da polícia de Pouso Alegre vasculhando cada palmo por onde ele teria passado, Marruco voltou para casa. Havia feito uma caminhada solitária para Aparecida, em busca de soluções para os problemas financeiros.

* O sacristão da minha cidade, também voltou pra casa, depois de uma semana. Seu sumiço foi motivado por um breve conflito existencial! Dias depois de desaparecer durante uma caminhada matinal ele ligou pra casa dizendo que estava a duzentos quilômetros dali, meio desnorteado.

* Renato “Peregrino” desapareceu quando dobrava, sozinho, a Serra da Mantiqueira, a caminho de Aparecida. Foi encontrado dez anos depois. Estava casado com uma linda jovem de metade da sua idade. Sua história deu o romance “Uma viagem que não chegou ao fim”.

Mas nem todos os desaparecidos são encontrados… Nem todos voltam para casa.

Um moço jovem, forte, atarracado, usando apenas uma bermuda jeans e uma caixa de fósforo Ipiranga na algibeira, nunca mais voltou. No sábado de carnaval de 1981 eu ajudei a enterrar seu corpo em cova rasa no cemitério da pequena São Sebastião da Bela Vista. Ninguém nunca reclamou disso! Todos estes casos estão nos meus livros de crônicas e romances policiais publicados nos últimos anos.

Edson Faria da Silva, o “Edinho” foi procurado. Foi muito procurado. Pressionado pela família, pela sociedade e pela OAB, o sumiço do advogado movimentou quase todo o efetivo da PC de Pouso Alegre para tentar encontrá-lo. Foi além, literalmente, movimentou até espíritos desencarnados para levar um abnegado delegado até o seu paradeiro.

Edinho era um bom moço. Jovem. bonito, bem-sucedido. Era casado com uma bela mulher e tinha quatro saudáveis filhos ainda impúberes. Formado em Direito, ele atuava como Representante Comercial, profissão na qual começou a trabalhar ainda menino, nas lojas da cidade. Seu trágico destino começou a ser traçado quando ele foi contemplado em um consórcio de veículos meses antes. Sem carteira de motorista e, pensando em construir uma casa nova em um terreno recém-adquirido, ele foi convencido pelo amigo Edson Queiroz, Sargento reformado do exército, com quem tinha negócios e amizade, a trocar o carro e o terreno numa casa já pronta no bairro Primavera. Depois de entregar o carro, o negócio realizado “na base de fio de bigode”, empacou! E se arrastou durante meses.

No começo de dezembro de 93, ao voltar de uma viagem à praia com a família feliz com o que a vida lhe dava, Edinho recebeu a visita de Cacilda, esposa de Queiroz e amiga da família, prometendo finalmente uma solução para a pendenga. O encontro para definir a negociação envolvendo o carro do consorcio, o terreno, a casa do bairro Primavera e uma dívida anterior entre eles, foi marcado para o sítio no qual eles estavam morando no bairro Jardim Aeroporto. Na terça-feira, 07, Edinho saiu de casa a pé, pois sua moto estava no concerto, e foi de ônibus para o encontro fatal… E nunca mais voltou!

O primeiro passo da polícia ao iniciar a investigação, como de praxe, foi traçar o perfil do desaparecido. Edinho não era sequestrável. Não era demente. Não sofria distúrbios psicológicos ou emocionais. Não tinha dívidas. Não tinha amantes. Não “saiu pra comprar cigarros”! Onde estaria o jovem marido e pai de 33 anos? Nos dias seguintes hospitais, necrotérios, “debaixo da ponte do Mandu”, ‘hotel do contribuinte’, Capim Gordura, Bar do João Natal… enfim, todo e qualquer lugar onde um homem, por alguma razão, pudesse ter sido ‘retido’, receberam a visita dos homens da lei.

O fato de ter negócios pendentes com Edinho colocou o Sargento Queiroz e sua esposa Cacilda no radar da investigação. No entanto, excetuando a informação de que ele saíra de casa na manhã de terça-feira para se encontrar com o casal a afim de resolver o imbróglio que se arrastava há meses, nenhuma pista, nenhum indício apontava para o casal. Afinal, além de amigos, o sargento e a esposa eram pessoas acima de qualquer suspeita. A polícia tinha na mão o novelo… mas não tinha o fio da meada! Em suas declarações, Queiroz e Cacilda responderam com naturalidade, frieza e disfarçada preocupação, como quem fala de um amigo que vai voltar para o almoço no dia seguinte.

– Ele esteve aqui mesmo, no meio da manhã. Tomou café com a gente na cozinha, conversamos e ele foi embora. O que será que aconteceu com ele? – comentou laconicamente o casal.

Foram dias, semanas de investigações até que o caso foi esfriando e caminhando lentamente para o arquivo dos casos insolúveis. E teria sido sepultado debaixo de sete palmos de papel empoeirado se não fosse por alguns detalhes.

 

O corpo foi enterrado onde está, hoje, essa varanda!

Com quase dez anos de carreira, o delegado Antonio Camilo encarregado do caso, além de possuir grande tirocínio policial, era um recém-convertido ao espiritismo, e deu asas à sua intuição mediúnica! Camilo usou aquela regrinha básica: se você perde um objeto, comece a procurá-lo pelo local onde ele foi visto pela última vez! Mesmo não encontrando indícios que incriminassem de alguma forma o militar reformado, o delegado não saiu da sua sombra. Continuou focado no sítio, indagando vizinhos sobre a rotina do sítio, como era antes, até que percebeu que em um canto do terreno havia sido construído um ‘puxado’ ainda sem cobertura, uma extensão da cozinha, pavimentado com uma grossa camada de concreto.

“Por que uma camada tão espessa de concreto”? – se perguntou.

Na ocasião dos fatos, onde estáa esse piso branco, havia apenas um oiso rústico com uma espessa camada de concreto. O corpo estava sob mais de dois metros de terra e concreto.

Embora construções tenham direito de brotar em qualquer lugar todos os dias, para melhor alojar ou acolher seus donos, aquela poderia ter o objetivo de ‘ocultar’ alguém! pensou o delegado. Se “debaixo de angu pode ter caroço”, era possível que debaixo daquele concreto tivesse um advogado silenciado para sempre. No entanto, sem poder ‘apalpar’ a construção com base apenas na intuição, o sumiço do Edinho continuou sem nada palpável.

Local exato onde foi encontrado o corpo, visto por outro angulo.

Nesse interim, comentando aleatoriamente o caso do sumiço do advogado com o mecânico que fazia manutenção nas viaturas da delegacia, este reforçou sua intuição:

– O João também era espírita, trabalhador do Centro Espírita Vinhas do Senhor. Ele era uma pessoa muito amável e boa prosa. Toda vez que eu chegava na sua oficina, antes de começar o serviço, ele me levava para tomar um café e trocar amenidades do cotidiano. Certo dia, em meio a nossa conversa sobre o andamento da investigação, ele colocou a mão na testa, fechou os olhos e falou:

– “Doutor, meus ‘amigos espirituais’ dizem que o senhor pensou bem. Continue seguindo sua intuição. O sr. está no caminho certo”.

Camilo contou-me que, a princípio, não deu muita importância ao comentário do amigo mecânico. No entanto, dias depois durante outra visita à oficina, ele tornou a repetir o conselho:

– “Doutor Camilo, meus amigos insistem em dizer que o senhor deve prosseguir, o senhor está certo em ter pensado aquilo…”.

A afirmação do mecânico veio corroborar comentários e boatos que diziam que a família de Edinho estava buscando respostas em centros espíritas da cidade. Alguns diziam, inclusive, que um médium havia incorporado o espírito do advogado desaparecido e ele teria dito que “estava em um buraco escuro”!

– Eu não segui os boatos. Mas segui minha intuição. Além das palavras do mecânico, eu sentia que Edinho estava morto e enterrado debaixo do concreto daquela área de lazer ao lado da cozinha da casa do Sargento – afirma ainda hoje o delegado aposentado.

A revelação mediúnica, no entanto, não tinha, não tem valor jurídico comprobatório em nenhum tribunal. Sem provas ou indícios concretos, o homem da capa preta não autorizaria a polícia a remover a espessa camada de concreto da cozinha gourmet construída de inopino, é verdade, no sítio do suspeito, para buscar a prova do crime. Além disso, na ausência do delegado Camilo em viagem, semanas antes, outro delegado já havia revistado o sítio sem nada encontrar.

Não autorizaria mas, escudado inclusive na ‘pressão’ da OAB local que cobrava uma solução para o caso do advogado, o homem da capa preta autorizou!

– Eu dei a última cartada! Arrisquei minha carreira! Pedi novo Mandado de Busca para o sítio. Muito a contragosto o juiz autorizou – conta Camilo.

“Você é louco! Vai cavar um buraco na cozinha do suspeito pra procurar um cadáver com base na sua intuição! Você sabe que pode não encontrar nada? Vou assinar o Mandado, mas o risco é seu! – falou o magistrado Antônio Crepp Filho.

Na manhã do dia 03 de março, quase três meses depois do sumiço do advogado, o delegado ‘intuitivo’ voltou ao sítio para a decisiva e arriscada operação. Levava com ele máquinas da prefeitura e um batalhão de presos albergados como operários. Foram muitas horas de trabalho duro com picaretas, pás e até uma escavadeira mecânica estourando concreto à procura do corpo. A escavação durou o dia inteiro. Já no final da tarde, depois de remover o concreto de mais de quinze centímetros de espessura e toneladas de terra, enfim… encontraram a prova do crime!

– Fomos abrindo valetas pequenas, aos poucos, com cuidado para não danificar o ‘corpo de delito’, apalpando o terreno com uma barra de ferro pontiaguda, tentando encontrar algo sólido. Depois de mais de um metro de profundidade, um dos operários apalpou com a lança e tocou algo diferente.

“Acho que encontramos, doutor”! – falou o operário.

– O objeto sólido era a sola do sapato do Edinho. Ele havia sido enterrado na vertical… de cabeça para baixo! – conta o delegado Camilo.

Edinho estava envolto em uma colcha de tecidos e tinha um saco plástico na cabeça. Devido ao piso úmido e lamacento do local o corpo estava bem conservado. O bigode, peculiar ao advogado, estava inalterado.

O exame de necropsia revelou que Edinho foi morto com um tiro na cabeça, cujo projétil 45 atravessou e saiu na nuca. Antes do tiro de misericórdia, enquanto Cacilda o distraia na mesa de café na cozinha, Queiroz deu-lhe um golpe traiçoeiro com uma barra de ferro na cabeça!

O sítio, local do sinistro, era cercado de mato por todos os lados. Queiróz assistiu de longe, toda a operação de busca no seu quintal.

– Nalguns momentos era possível vê-lo de longe, no mato, as vezes acompanhado do seu advogado. Quando achamos ao corpo, ele desapareceu – contou Camilo.

Encontrada a prova do macabro crime, imediatamente o paladino da lei solicitou o mandado de prisão dos assassinos. Horas depois outra equipe de policiais civis cumpriu o mandamus do Homem da Capa Preta. Na mesma noite em que o corpo do advogado emergiu do charco frio do quintal dos assassinos, Queiroz e Cacilda sentiram o frio das pulseiras de prata da lei.

 

‘Suicidamento’ do pedreiro

No decorrer das investigações sobre o paradeiro do advogado, a polícia registrou a morte de um pedreiro que trabalhava para o Sargento Queiróz e morava nas imediações do sítio. Seu corpo foi encontrado ali perto, com uma corda no pescoço, aparentando suicídio. O médico legista, veterano, Jose Ricardo Martins Bernardes, duvidou de suicídio. Mas o caso foi para o arquivo.

Semanas depois, com a prisão dos assassinos e a inevitável confissão do assassinato do advogado Edinho, a polícia concluiu que o suicídio do pedreiro, na verdade, foi “queima de arquivo” praticado pelo casal Queiróz & Cacilda, para evitar que ele ‘desse com a língua nos dentes’!

– “Depois do fato ele ficou desnorteado e começou a beber demais. Antes que ele contasse para alguém o que nós fizemos – no verão passado – resolvemos silenciá-lo” – admitiu extraoficialmente Queiroz.

Pelo assassinato e ocultação de cadáver, Edson Queiroz e Cacilda foram condenados a 33 anos de hospedagem gratuita no Velho Hotel da Silvestre Ferraz. Cacilda, no entanto, conseguiu ludibriar parcialmente a lei. Depois de cinco anos vendo o sol nascer quadrado, alegando câncer terminal, ela conseguiu respirar o benfazejo ar da liberdade. Nunca mais pisou em terras manduanas. Queiróz não teve a mesma habilidade da mulher. Pagou seu múnus social. Cumpriu a pena prevista no CPP na Penitenciária de Ribeirão das Neves. Morreu há cerca de oito anos em lugar incerto e não sabido. Seu corpo já sem vida desceu à terra como convém a um cristão. Seu espírito, no entanto, continuou preso pelas grades da justiça divina.

 

*** O macambuzio assassinato do jovem advogado e pai de família, que só queria receber o que era seu, causou comoção e revolta na sociedade. E deixou profundas sequelas emocionais na família. Os quatro filhos imberbes sofreram muito mais do que a simples orfandade. Isso é assunto para uma delicada abordagem oportunamente.

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