Carlinhos Blau Blau…

Se correu… Tem culpa no cartório!

O Artigo 144 da C.F. deixa claro que a atribuição de policiamento ostensivo nos municípios, compete exclusivamente a Polícia Militar. Nos anos 80, no entanto, a Policia Civil tinha o hábito de roubar essa função. Ao menos uma vez por semana, em dias incertos, ou melhor, em noites incertas, saíamos pela cidade, com caras de maus, caçando alguém, ou simplesmente inibindo a prática de crimes.

Nossas rondas começavam sempre depois da dez da noite e seguiam madrugada adentro, até por volta de quatro da manhã. A veraneio deslizava suavemente pelas ruas, parecendo um barco levado pela correnteza, em silencio, vidros abaixados, detetives sisudos encarando através das janelas…

Quando voltávamos os botecos já estavam baixando as portas! Quem ainda insistia em tomar mais um gole da agua que passarinho não bebe, era abordado, tomava uma geral e, mesmo não tendo cometido ou não estando cometendo nenhum crime, recebia as pulseirporta-malas, embarcava no … ‘porta malas’ do taxi do contribuinte e ia dormir no Velho Hotel da Silvestre Ferraz.

Mas podia ser preso sem ter feito nada?

Podia!

Quem estava na rua ‘a essa hora’ se enquadrava no artigo 59 da LCP: “Vadiagem”!

Depois da segunda volta da barca, quem quisesse poderia desfilar pela cidade “nu, pelado e com a mão no bolso”, pois não havia mais uma viva alma na rua!

Um ou outro gato pingado que encontrássemos na rua depois da meia noite, sem uma justificativa convincente, fatalmente amanheceria vendo o sol nascer quadrado!

Mas havia os ‘gatunos’ sorrateiros – e descuidados -, que nunca sabiam quando seria a próxima ronda! Esses quebravam a rotina e davam emoção às nossas rondas!

Quando eles se deparavam com a barca corintiana ou atleticana, imediatamente passavam sebo nas canelas e tentavam dobrar a serra do cajuru! Alguns mais ousados enveredavam por becos e vielas, pulavam muros e quintais, subiam em telhados… mas sempre caiam nas malhas da lei!

Carlinhos Blau Blau era um desses pequenos meliantes que desfilavam sorrateiros pelas madrugadas atrás de um toca-fitas TKR cara preta, de um ‘balão apagado’, ou de uma janela mal fechada…

Baixinho, fortinho, queixudo, com cara de pelamordedeus, ele não dava muito trabalho nas perseguições… Logo caía – literalmente – nos braços dos homens da lei.

Nesse momento ele desfiava seu rosário de justificativas. Era capaz de jurar de pés juntos que estava voltando da igreja no outro extremo da cidade… às duas horas da madrugada! ‘Mentia e nem sentia’. Contava histórias da carochinha e nem ficava vermelho. Essa sua peculiaridade, esse jeito, mentiroso, choroso e somongó de tentar engabelar os policiais com historietas improváveis; esse seu blau, blau, blau lhe rendeu o epíteto de … Carlinhos Blau Blau!

Figurinha fácil no álbum da polícia e hospede assíduo do Velho Hotel da Silvestre Ferraz, Blau Blau era manso de gaiola. Mas nunca criava raízes. Já naquela época, a douta e cega justiça tinha processos mais importantes pra julgar. Não podia gastar seu precioso tempo com pequenos roubos cometidos atrás de um canivete! Ou de arrombamentos de veículos que dormiam no sereno na calada da noite! Por isso, os BOs do nosso ilustre ‘menino que vi crescer’ no bairro da Saúde, andavam a passos de tartaruga no Palácio da Justiça. E foram se avolumando. No entanto, pote que tanto vai à fonte, um dia volta quebrado. Uma hora a casa cai, a conta chega! É como a justiça… “tarda, mas não falha”! Um dia a conta chegou!  O homem da capa preta finalmente expediu a carta branca autorizando a prisão do Carlinhos Blau Blau. No entanto, como bom somongó que era, ele estava antenado.  Antes de receber as pulseiras de prata, Carlinhos dobrou a serra do cajuru! Dobrou também a da Mantiqueira e foi fazer feiuras no estado vizinho. Acabou caindo nas malhas da polícia no interior de São Paulo. Saiu de cena… ficou muitos anos sem beber água do Mandu!

Em 2006, voltando de Santa Rita, esbarrei com ele na rodovia BR 459 …

Passava eu pelo trecho entre os bairro dos Chaves e Portal do Ipiranga quando avistei meu velho ‘amigo’ caminhando com ‘pinta de Somongó à margem da via, pensando na morte da cabritinha. Parei, manobrei e, pela primeira vez na vida Carlinhos Blau Blau não correu!

Será que estava limpo?

Segundo ele, sim.

– Estou diboinha, Chips. Paguei tudo que eu devia. Faz dois meses que eu saí da tranca em Mogi Guaçu. – Contou ele com a mesma cara de pelamordedeus dos anos 80, apoiado na porta da viatura!

– Que bom, Carlinhos! Folgo em vê-lo. De onde você está vindo para onde vai?

– Tô morando no Cidade Jardim… Estou indo encontrar um amigo em Cachoeira… – respondeu ele no mesmo jeitão choroso de sempre.

Enquanto dobrava o morrinho do Portal do Ipiranga para o Cidade Jardim, olhando a figura jongolhó do Carlinhos sumindo no retrovisor, lá embaixo na curva, pensei mil coisas. Uma delas foi:

– O filho do humilde violeiro dublê de Jacó & Jacozinho, ‘menino que vi crescer’ no bairro da saúde, dizendo que vai fazer uma caminhada de 25 quilômetros no final da manhã de uma terça-feira gorda, para se encontrar com um amigo em Cachoeira de Minas! … Ele continua o mesmo Carlinhos blau blau blau de sempre!

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