Tia Silveria e o Mini Buggy

Min BuggyComo todo homem que nasce, cresce e amadurece, sempre guardei boas e saudosas lembranças da infância e dos tempos idos. Dentre elas, tem uma que certamente vai acompanhar-me até a despedida quando eu for chamado a prestar contas ao criador.

Ao criar a coluna Cotidiano neste Blog, vi a oportunidade de falar um pouquinho de uma pessoa bela e dadivosa que conheci desde que me percebi gente, a qual prestou contas há alguns anos, cuja lembrança estará sempre comigo. Ainda posso vê-la na janela da casa amarela, com seu sorriso despretensioso acenando com o braço e dizendo:

– Chega pra cá. Vem contar umas mentiras da cidade pra gente…

Na minha mais tenra infância morava eu com meus pais e minhas dez irmãs numa casa grande de pau-a-pique, um metro acima do chão, no local denominado ‘Vargem do Coqueiro’, cerca de quinhentos metros distante da estrada principal do bairro. A casa mais próxima era a da tia Silvéria, a cinqüenta metros da estrada. Caminho inevitável para se chegar ao centro do bairro. Até a casa dela se chegava pela estrada. A partir daí havia apenas um trilho batido. O acesso era somente à pé ou a cavalo. Carro só existia um mesmo no bairro… Logo, ir de minha casa para a dela era ir para a civilização. Da dela para a minha era voltar para o mato.

Mas não foi este divisor geográfico de sentimentos e comportamentos que isoladamente marcou minha infância, adolescência e maturidade. Se tia Silvéria não tivesse recebido do Pai os dons que recebeu e distribuiu, sua casa seria apenas um caminho por onde passar. O que ficou guardado e merece ser sempre retirado do baú da memória é o que a boa e obesa senhora levava no peito e expressava sempre no seu cotidiano; alegria, muita alegria! Contagiante alegria e bom humor. Era bom demais chegar à casa de tia Silvéria, vindo do mato ou da civilização. Afastar de lá, o fazíamos com aperto no peito e saudade precoce. E olhe que a casa dela era uma casinha de cangalha, paredes de pau-a-pique pintadas com tabatinga e fogão a lenha, composta de  quatro cômodos de dois metros e meio por dois.

Quando nos mudamos pra cidade e ficávamos às vezes  semanas sem nos ver, a efusão com que ela nos recebia era redobrada. Embora houvesse no bairro outros parentes do mesmo grau e afinidade e até minha querida avó, eu somente “chegava” realmente ao bairro depois de visitar tia Silveria! Ela também se mudou para outra casa perto dali. Para se chegar a casa de minha avó Ana, prédio conservado até hoje tal como foi construído, existe um atalho que leva direto a ela, bem mais curto. Mas eu ia primeiro ver tia Silveria, para depois visitar minha avó!

Toda vez que ali chegava, nosso diálogo se repetia. Quando eu empurrava a porteira do curral ela aparecia na janela da casa alta e simples como ela e perguntava;

– Porque não trouxe o resto da bagaceira?

Sem responder sobre o resto da bagaceira – minha família – eu perguntava como estavam as coisas por ali. E ela dava a resposta que carrego e uso até hoje;

– Aqui está tudo uma prata preta!

Não sei se existe prata preta. Talvez a prata escura seja mais pura e valiosa e ela usasse o termo para deixar claro que a vida era muito valiosa e, à sua volta estava tudo bem. Esta era a sua maneira de dar as boas vindas. Com descontração, alegria e otimismo. Jamais se queixava de qualquer incomodo. E depois do tradicional ‘entra pra dentro’, entre um gole de café, que jamais esfriava na chapa do fogão à lenha e umas mordidas no tradicional e delicioso bolo de fubá, em poucos minutos ela me punha a par de tudo que acontecera no bairro na minha ausência. E naturalmente ficava sabendo das novidades que eu levava da ‘praça’!

O tempo passou e a casa velha amarela que pertencera ao meu tio André foi demolida. Outra de alvenaria foi construída em seu lugar. Pouco depois de se casar, seu filho caçula pediu que ela se mudasse e ocupou a casa dela. Voltando a morar na casa em que nascera, com o filho mais velho e sua família, tendo como privados apenas o quarto de dormir e uma cozinha no quintal, tia Silveria mudou muito seu jeito de ser. Tornou-se doentia e amarga. Diante da costumeira pergunta…

– Como vai, tia?

Ela respondia sempre;

– Não estou boa hoje, não… – E enumerava seus males na mesma intensidade que anos antes jogava alegria pela janela da casa de assoalho alto.

Mas a chorumela era passageira. Depois de colocar para fora suas dores e anseios não revelados ela voltava a ser a Silveria dos meus sonhos, cuja presença e convivência queríamos que durasse para sempre.

Tia Silveria continuou sendo referencia para mim em minha terrinha amada até o fim de sua caminhada terrena. Em 1996 tive a benção de morar na mesma casa que foi dela, há menos de cinquenta metros de sua cozinha e pude desfrutar, ao menos nos finais de semanas, de sua alegre companhia.

Naquele ano aconteceu um fato inusitado que fez reviver tia Silveria dos meus tempos de criança. No inicio de uma ensolarada tarde de sábado, meus filhos e o amigo Marquinhos estavam aprendendo dirigir um mini- bug cor de rosa em volta da casa, quando tia Silveria chegou e pediu-me para leva-la à casa da tia Rosina,  um quilometro distante dali. Naturalmente me dispus a fazê-lo, mas antes, de brincadeira, sugeri que ela fosse no carrinho com os meninos. Para minha surpresa, tia Silveria simplesmente empurrou o Diego do assento do passageiro com um porretinho que levava para se apoiar, dizendo;

– Chega pra lá menino… – e sentou-se espremida no único banco do buguinho, ao lado do Marcelo! E seguiram estrada afora até a localidade do Mourão Furado!

Para ilustrar um pouquinho mais a cena, o buguinho era tão minúsculo que eu o havia levado de Silvianópolis para o sitio, montado, no porta malas do meu Escort!

Quem passou pela estrada alegre e poeirenta do bairro dos Coutinhos naquela tarde, com certeza viu uma cena inesquecível; uma velhinha beirando os 80 anos, espremida entre três garotos de treze e catorze anos num buguinho barulhento cor de rosa, com o vento espatifando o coque dos longos cabelos cinzas!

Uma foto desta cena hoje certamente correria o mundo pelo You Tube.

Assim era tia Silveria. Não fazia graça. Era a graça. Não ria. Fazia-nos rir. Era generosidade, otimismo e alegria em pessoa. Viveu 79 eternas primaveras com Deus e para ele se foi. E a saudade…

 

* Post publicado no dia 03 de setembro de 2011.

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