Chiquinho… Um hóspede do barulho!

Corriam os anos da década de 1920!

Certamente poucos sabem, mas os anos 1920, a década que marcou o primeiro centenário da Independência, foi também marcante em fatos históricos para o Brasil. Foi naquele período, 1922, que aconteceu a Semana de Arte Moderna, marco de tantas transformações político-culturais. No mesmo ano do centenário, surgiu o “Tenentismo”, movimento que mais tarde daria sustentação a Getúlio Vargas para tomar o poder e iniciar um era de desenvolvimento para o país. Naquele ano também foi fundado o PCB, inaugurando portanto o comunismo no Brasil. Em seguida aconteceu a “Revolta Paulista de 1924”; o surgimento da Coluna Prestes;  o declínio da República Velha; a fim da velha política do “Café com Leite”; a “Grande Recessão de 1929” onde se jogou fora ou queimou toneladas de café sem mercado e, finalmente, o golpe de Getúlio Vargas, que mesmo tendo ficado em segundo lugar na eleição nacional, depôs Whashington Luiz e impediu a posse do eleito Júlio Prestes e assumiu o governo dando início a histórica Era Vargas.

 

Neste mesmo período, em 1921, a primeira fábrica da Ford no Brasil, inaugurada dois anos antes, passou a produzir em serie o Ford T, conhecido como “Ford Bigode”!

 

Pouso Alegre, desde criança com vocação para o progresso, sempre na vanguarda das transformações, também vivia suas mudanças.

 

Uma delas foi a consolidação do transporte ferroviário a partir de 1920, fazendo da estação de trem da Avenida Brasil com Doutor Lisboa o coração do desenvolvimento econômico da região, facilitando o escoamento da produção cafeeira e agropecuária, sua maior riqueza.

 

Para cá vieram imigrantes de todos os cantos do velho continente. Dentre eles, dois portugueses: Alberto e Manoel.

 

Inicialmente os patrícios desceram para a Argentina. Mas, seduzidos pela alegria brasileira e promessa de grandes ganhos, subiram para Santos-SP. Atraídos pelas benfazejas terras mineiras, subiram um pouco mais e chegaram à promissora cidade batizada – quase que com um suspiro pelo Conde de Sarzedas – com o nome de Pouso Alegre.

 

Foi aqui, em terras manduanas, local de transformações, que os amigos Alberto e Manoel começaram a transformar seus sonhos de riquezas em realidade! Começaram com um caminhãozinho Ford T, (Ford Bigode), com carroceria de madeira adaptada.

 

Um dos amigos d’além mar, apesar da rasteira que tomou do sócio, sacudiu a poeira, deu a volta por cima, e, algumas décadas depois colocou seu nome na história de BORDA DA MATA … e do VATICANO!

 

Alberto e o amigo Manoel (que se revelaria um amigo da onça), se instalaram num quartinho de fundos da “Pensão da Vovó”, na esquina da rua Bueno Brandão com Silviano Brandão, na porta do Santuário. Dispostos a ganhar dinheiro, compraram então um desses fordinhos com carroceria de madeira e foram à luta. Começaram comprando galinhas, patos e marrecos nas cercanias de Pouso Alegre para vender em São Paulo. De quebra ainda faziam pequenas mudanças na cidade e região.

 

Os negócios estavam indo de vento em popa. Estavam ficando ricos, afinal, nessa terra abençoada pelo São Bom Jesus, em se vendendo, transportando e “plantando tudo dá”, teria dito Pero Vaz de Caminha quatro séculos antes.

 

Foi aí que o amigo cresceu o olho no negócio e resolveu dar o chapéu no sócio. Urdiu um plano e ficou na espreita, esperando o momento certo para dar o golpe. Certa noite, após voltar de uma rendosa viagem, Manoel levou duas “Severina do Popote” para o muquifo, para comemorar. Embebidos em paixões diversas tais como a saudade da terrinha querida, o cansaço do trabalho, a alegria do sucesso financeiro em terras estranhas, rapidamente enxugaram as duas garrafas. Manoel, como parte do plano, servia a ambos e fingia beber. No entanto, sorrateiramente jogava fora a estonteante bebida. Em poucas horas embebedou o amigo até que ele ficou entregue às baratas e caiu no sono. Quando Alberto acordou pela manhã, com a boca grossa e a cara inchada de ressaca, só o pó!!! Manoel já estava longe… levando com ele o saco de dinheiro que ficava guardado embaixo da cama. Devia ser muito dinheiro, pois o caminhãozinho Ford Bigode, veículo ainda raro no país, ele deixou para trás.

 

Jurando esganar o socio e amigo da onça, Alberto continuou suas atividades comerciais com o charmoso Fordinho. Tempos depois, já capitalizado, comprou uma fazenda no recém-criado município de Borda da Mata e foi plantar milho, feijão e criar gado. Em poucos anos ficou rico.

 

Ninguém sabe ao certo como Alberto, com meia dúzia de filhos imberbes, conseguiu ficar rico. As más línguas dizem que ele teria feito um pacto com o capeta!

 

Pode ser… Pois anos depois, o capeta veio cobrar a dívida! Ele atendia pelo nome de “Chiquinho”, mas ficou conhecido na fazenda da Ponte de Pedra pelo epíteto de… “Coisa Ruim da Borda”.

 

O jovem padre Pedro Cintra, que fez o exorcismo do Chiquinho, não esclareceu os motivos que levaram o Coisa Ruim a arranchar na fazenda do ‘portuga’, mas escreveu e manteve em segredo durante décadas no Livro do Tombo da paroquia que:

 

“Notei na família (do Sr. Alberto) um certo afastamento dos deveres religiosos. O casal havia tempo não fazia a pascoa. Os filhos, alguns já moços, ainda não haviam feito a primeira comunhão”.

 

 

Essa história que moveu metade (ou mais!) da imprensa do Brasil e pesquisadores do Vaticano, aconteceu de fato. Nos primeiros meses do ano de 1953, o português Alberto S. de Carvalho – que morou na Pensão da Vovó no centro de Pouso Alegre nos anos 20 – teve um hospede do barulho em sua fazenda em Borda da Mata!

 

 

O que você acabou de ler é só o aperitivo. A história completa sobre a hospedagem do Chiquinho na Fazenda da Ponte de Pedra – minuciosamente investigada em 2010 – começa na página 235 e termina na página 268 do livro “Meninos que vi crescer”.  

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