Baixada do Pinheiro

… Época de pinhoes!

Era mês de abril, início de outono… frio de oito graus.

O sol tímido, ainda criança, tateava o cume das montanhas tentando avistar e espalhar sua luz dourada para os vales e prados ainda orvalhados.

A geada fina e branca só chegaria no final do mês seguinte deixando russos os pastinhos de capim picua… Por ora era apenas o orvalho do sereno que caíra na madrugada.

 

Sair da cozinha, de perto do fogão a lenha, com os bracinhos desnudos e os pés no chão, só se tivesse um motivo muito forte. E tinha! Era preciso chegar cedo aos pés dos pinheiros à duzentos metros dali. Se o pássaro madrugador pegava as melhores minhocas, os meninos que chegassem primeiro pegavam os pinhões que haviam caído durante a noite. Pior! Quem chegasse tarde, ficaria apenas com as ‘faias’! Sim, os vizinhos poderiam chegar antes!

 

Saímos em fila. Eu e três das irmãs mais velhas. As maiores na frente e as menores atrás, tentando pisar no rastro das maiores… para sentir menos o orvalho gelado nos pés descalços. Enquanto seguíamos em silencio amassando as ervas daninhas, torcendo para que o sol se levantasse rápido para esquentar o frio, íamos sentindo o cheiro da resina dos pinheiros, o cheiro de pinhões recém caídos, o cheiro da florada de ervas daninhas que cresciam tenras na soqueira de feijão… o cheiro das manhãs. As manhãs de outono de 1964 na Baixada do Pinheiro eram frias e perfumadas!

 

Havia, agrupados, quatro pinheiros gigantes. Na verdade, era apenas um pinheiro. As demais arvores roliças, marrons, com os braços abertos quase tocando o céu, eram ‘pinheiras’! Eram elas que davam pinhão. Mas não produziriam sem o pinheiro e sem as abelhas e maribondos que espalhavam o polem por ali.

 

Os pinheiros centenários, que deram origem ao nome do lugar, eram gigantescos. Sua copada, com quinze ou vinte galhos abertos na horizontal eram inalcançáveis. Nem com um bambu açu era possível cutucar as pinhas e apressar a colheita. Até nisso a natureza era sábia. Se fosse possível colher a pinha inteira, antes da hora, certamente comeríamos os pinhões todos de uma vez, até ficar enfastiados… e passaríamos fome o restante do outono!

 

Havia outras pinheiras ali na Baixada do Pinheiro. Algumas na beira de córregos ermos, outras dentro das matas onde teríamos que dividir os pinhões com roedores… e estes com peçonhentas rastejantes! Que talvez se sentissem incomodadas com nossa presença. Era a lei do mais forte pela sobrevivência. Por isso, catar os graúdos pinhões no auge da maturação, no local limpo onde há poucas semanas havia sido colhido o feijão, era mais seguro. Mas tinha que chegar cedo, pois a família vizinha tinha as mesmas necessidades que a nossa!

 

Alheios aos nossos desejos, os pinhões não tinham pressa de madurar e cair. Cada pinha soltava seus frutos de acordo com a maturação natural. Às vezes dois ou três por noite, sem pressa.

O homem tem pressa.

A fome tem pressa.

A natureza não tem pressa! E passava todo o mês de abril assim, alimentando as crianças aos poucos, a conta-gotas!

Às vezes era necessário juntar a colheita de vários dias para dar uma cozinhada. No sábado à noite a mãe reunia a renca de meninas em volta do caldeirão de ferro na cozinha para saborear a guloseima catada durante a semana. À medida que os pinhões cor de pinhão iam abrindo o bico, já se podia retirá-los do caldeirão e colocá-los na gamela de madeira para esfriar. Minha mãe usava um macete de madeira, talvez um pedaço de galho do próprio pinheiro, para macetar o pinhão ainda quente. Não sabíamos porquê, mas, macetado era mais gostoso! Enquanto saboreávamos a iguaria ofertada gratuitamente pela natureza, o restante continuava dançando na água fervente no caldeirão de ferro preto em cima da chapa.

 

Pra nós, aquele gesto rotineiro todo outono, era só o momento de alimentar. No entanto, ficaria marcas… e lições!

 

Os pinhões de hoje, colhidos em pinhas inteiras sem granar, não tem o mesmo gosto. Mas a memória ainda conserva o cheiro. O cheiro do pinhão, o cheiro da água vermelha que cozinhava o pinhão, o gosto do pinhão cozido saindo quente da casca macetada…

 

Ficou mais…

Ficou a lembrança da mãe brava, disciplinadora, educadora, organizando pacientemente a distribuição dos pinhões na beira do fogão caiado de branco, de boca preta e língua vermelha na cozinha simples da casa de pau-a-pique da Baixada do Pinheiro…

Ficou a saudade dos pais, que muitas vezes, quase salivando, entregavam o último pinhão à criança mais nova…

Ficou a saudade da infância…

Ficou a saudade da Baixada do Pinheiro…

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