Cheguei! Foi ao pé de uma noite morna de principio de julho. Cheguei com varias semanas de antecedência, com metade do peso para a idade, mas já era esperado. Aliás, como era esperado!!!

De repente senti uma quente e estranha mão puxando minhas pernas, meu bumbum, minha costela, tronco, pescoço… Em segundos me puxaram para fora e me levantaram no ar. Que frio! Imediatamente me passaram de mão em mão como uma bola de handebol e fui parar numa bacia ao lado, numa sala cheia de luzinhas coloridas e pessoas sem rosto. Abri a boca a chorar. Para onde eu me virava uma luz forte e irritante me acompanhava piscando a cada segundo. Não consegui abrir os olhos mas pude perceber que apesar da tensão na sala, todos ficaram alegres e aliviados quando eu chorei, especialmente o fotógrafo… meu pai. Depois de embrulhado num pano grosso e aquecido, percebi que me aproximavam de um rosto que eu ainda não tinha visto mas pelo calor e pelo sorriso senti que me era muito conhecido… era minha mãe. Todo embrulhado fui levado para outra sala onde havia mais 5 crianças como eu, e fui colocado numa casinha de vidro bem iluminada e quentinha. Que delicia! Passei a noite de ‘diboinha’, mas sem entender muito bem o que estava fazendo ali. Logo descobri que era uma UTI-Neonatal. Pela manhã me deu um sufoco danado! Comecei ficar roxo! Antes que eu parasse de respirar colocaram um tubo plástico na minha garganta. Fiquei vários dias com aquilo me incomodando. Quando tiraram aquele, colocaram outro, e com ele veio um liquido amarelado meio sem gosto que inundou meu estomago. Ouvi comentarem que eram três ml de um tal de ‘colostro’. Meus companheiros de UTI começaram me abandonar no dia seguinte. Logo ficamos só eu e a Isabelly, tão frágil quanto eu. Uma semana depois começou encher de novo. Primeiro veio a Maria Eduarda, de Conceição dos Ouros, depois a Marina de Pouso Alegre, depois o Celso Joaquim, de Silvianópolis, a Chiara, de Ouro Fino, o Gabriel e os gêmeos de Guaxupé; Lailson e Lailton. Fiquei triste pelos gêmeos, pois a mãe deles voltou para casa e eles ficaram ali mais de uma semana sem ninguém da família.

Na UTI Neonatal, entre tubos, estufas, ordenhadeira mecânica e luzes piscantes a gente ouve e aprende muita coisa. Uma delas é que adolescente, loira ou não, além de viver num mundo distante do nosso, pode também ser hilária. Minha irmãzinha de catorze anos ficou decepcionada com meu porte físico ao me ver na incubadora com as costelinhas à mostra. Interrogada pelo vovô Julio sobre o que tinha achado, respondeu economicamente fazendo fusquinha;
– Ele é horroroso, né?… ”.
E o avô espirituoso como sempre não deixou por menos:
– Também achei, igualzinho a você quando nasceu!
Eu não fiquei magoado e dias mais tarde quando ela me pegou no colo, já vestido e embrulhado, toda cheia de dedos, como se pegasse um copo de cristal, dei uma gostosa espreguiçada. Ela toda apavorada me devolveu para a mamãe dizendo;
– Ai, ele ta mexendo!!!
No dia em que os gêmeos desceram, tio Helio ficou eufórico. Quando nossos pais chegaram para a visita noturna ele os recebeu na porta da UTI cantarolando e plagiando locutor de circo;
– A UTI Neonatal orgulhosamente apresenta a dupla sensação do momento; Lailson & Lailton, os Gêmeos de Guaxupé…!
Mas nem tudo na UTI é engraçado e alegre. Às vezes a agente dá susto em nossos pais, pois nosso corpinho ainda não faz tudo que um corpinho de 36 semanas faz. É exatamente por isso que estamos aqui na UTI. Quando a enfermeira diz para uma mãe que o médico quer falar com ela, já é o suficiente para seus olhos começarem a nadar e seu coração querer saltar fora do peito.
Uma manhã eu estava no gostoso colinho da mamãe tentando sugar meu lanche, quando comecei sentir uma bambeza nas pernas, uma falta de ar… Parei de respirar!!! Mamãe manteve o controle. Massageou meu peito, devolveu-me à minha casinha, e comunicou o médico, que me socorreu. Mas quando ela saiu lá fora abriu o bocão. Coitada!

O caso mais comovente foi o da amiguinha Maria Eduarda. Ela chegou com menos de um quilo e três dias depois, ainda mais leve, passou por uma cirurgia. Seus pais a visitavam todo santo dia, de manhã, de tarde e de noite, por muitos dias. Mas ela não conseguiu se alimentar e crescer. Se foi sem ter sentido o calor do colo dos pais.
Nestas quatro semanas e meia conheci também a solidariedade. UTI não escolhe cor, religião ou classe social. Todo bebê prematuro tem que fazer estágio aqui para completar o que o parto antecipado interrompeu. Os pais dos gêmeos de Guaxupé não tinham sequer um enxoval. Sua mãe veio buscá-los de carona e sem nenhuma mala. Mas a graciosidade e estripulia dos meninos contagiou o ambiente, a começar pelo tio Hélio… Eles foram para casa muito bem agasalhados, levando na bagagem quase um caminhão de fraldas, roupinhas e leite, doados por nossos pais, pelas enfermeiras, médicos e todos que souberam das carências dos pequenos. A jovem e humilde mãe verteu lagrimas de alegria.
O objetivo desta crônica no entanto vai além de mostrar o cotidiano dos nossos primeiros passos de vida. Eu disse passos? Eu quero também dar um puxão de orelha em alguns dos profissionais que cuidam de nós. Na UTI nós pacientes, vivemos exatamente no meio do caminho entre o paraíso terreno e o celeste… Nossos pais vivem com a emoção à flor da pele, com o coração na mão, agarrados na barra da saia dos santos e anjos, implorando para que eles nos deixem ficar aqui. A mais insignificante e invisível das bactérias pode encerrar a esperança deles e decidir em qual paraíso ficaremos. Além da higiene asséptica que deve ser impecável, não basta aos médicos e enfermeiras a excelência do conhecimento técnico ou cientifico profissional; é preciso ir além, é preciso ser também humano – quase todos são assim – e tratar a todos com carinho, com paciência, com bondade, com caridade e com igualdade. Sem preconceitos sociais. Não estou queixando por mim, pois recebi tratamento profissional e humano nota dez. Mas vi funcionário entrar na UTI com a roupa do corpo, que vem da rua, da academia, do consultório sem sequer lavar as mãos. E na hora de discutir nossas patologias e prognósticos com nossos pais, não dar o devido valor a eles ou ‘falar demais’… Eu gostaria que todos meus colegas de UTI e seus pais tivessem o mesmo tratamento que eu tive.
Voltemos à parte alegre.
… Bem, se no jardim havia alguns espinhos, gravetos ou quem sabe algumas árvores apenas fora da estação, ainda assim era um belíssimo jardim onde aspirei o delicado e suave perfume do amor fraterno de médicos e enfermeiras. Uns mais, outros mais ainda, você foram maravilhosos comigo e com meus pais. Sou eternamente grato por isso. Quero estender minha gratidão também a todos os demais funcionários – recepcionistas, copeiras e faxineiras – do Hospital Renascentista, onde nasci e fiz meu primeiro ‘estágio’ neste belo mundo de Deus.
Não sei ainda o que esperar das pessoas, mas, por estas, linhas acho que as pessoas sabem o que esperar de mim…
Hoje estou completando dois aninhos. Já fiz estripulias do ‘arco da velha’… Ainda bem que ‘mamã’ o ‘babai’ tem muita paciência!!! Só não entendo porque eles insistem que eu chame “aboba” de banana e “ovo”, de morango!!
… É só o começo. Me aguardem!!!

*Este jovem cronista que vos escreve é filho do colunista policial e blogueiro Airton Chips e de Tatiana e nasceu no inicio de julho de 2010.