Tardes da Rua São Pedro…

Reduto da minha infancia!

Nero é testemunha dessa história…

Cinco da tarde de sexta-feira. O vento gelado sopra do Leste para o oeste. Mariazinha está na porta da direita da vendinha. Atrás do balcão duro de madeira está seu filho Zé da Mariazinha. Baixote atarracado, careca, quarenta e poucos anos e cara de poucos amigos, ele está alheio ao burburinho que vem da rua empoeirada.

– O que você quer, moleque – pergunta ao garotinho de aparente seis anos que acabou de atrapalhar a leitura da sua revistinha branco & preto, do Zorro ( não o Zorro Dom Diego de La Vega, capa & espada, da Califórnia, mas sim o Zorro de uniforme cinza e lenço preto no pescoço, o qual vira máscara para esconder sua identidade de estranhos. O Zorro do velho oeste, que cavalga o garanhão Silver (Aiou Silver! Avante!), acompanhado do índio Tonto, de uniforme marrom), caçando ladrões de cavalos nas pradarias do Arizona.

Antes de entregar quatro balas ‘chita’ para os dois garotos que haviam colocado uma nota de cruzeiro amassada sobre o balcão, entram outros dois garotos de dez ou doze anos, suados, pedindo pão com mortadela e guaraná Tubaína. Para não perderem o movimento da rua, os garotos comem e bebem o guaraná em copos da Nadir Figueiredo em pé na outra porta da vendinha. Os mesmos copos nos quais seus pais irão tomar um lavrado de Pirassununga dali a meia hora, para abrir o apetite pra janta.

O movimento da rua São Pedro está no auge. O sol acabou de se deitar atrás do Cemitério velho do Alto das Cruzes. Quase em frente a vendinha, na esquina da Tupinambás por onde vai passar daqui a pouco o irmão do Corpo Seco ( ninguém ali sabe que o Mario do Custodinho é irmão do Corpo Seco), um grupo de garotos só de short ou calça arregaçada nas canelas, sem camisa e pés no chão, joga futebol de meia. Os gols, distantes trinta metros um do outro, são dois pares de chinelas havaianas!

Mais adiante, desde a frente da casa do Elias, funcionário da loja B. Pacheco, até a esquina da rua Xavantes, está o grupo mais animado da rua. Àquela hora, aproveitando o vento do fim da tarde, uma dúzia de moleques entre dez e quinze anos promovem a maior competição esportiva do trecho, quiçá da cidade! É o campeonato informal de pipas & papagaios!

A competição não tem regra. Ninguém precisa se inscrever. Basta chegar, colocar a pipa no ar, desafiar o adversário e começar a caçada. Ou seja, laçar a pipa do adversário e destruí-la no ar, ou fazê-la descer na sua rua!

A competição reúne anualmente, no inverno, dezenas de empinadores de pipas. Os adversários são sempre os mesmos: moradores da “Rua de Cima” (Rua São Pedro) X moradores da “Rua de Baixo” (Dom Lafaiete Libânio, ou “Vilinha”).

Os gritos provocativos das duas torcidas chegam a vários quarteirões!

– Dá liiiiiiiiinnnnnha Viiiiilaaa! Tá com medo! – gritam os de cima.

– Dá você! – respondem os de baixo.

Ou:

– Vem buscar!! – desafiam os laçadores da Vilinha, fazendo suas pipas e jaús dançarem no ar!

A competição é desigual. A Rua de Cima tem dez vezes mais laçadores de pipas e dez vezes mais torcida. É como se a Vilinha fosse o Cruzeiro e a Rua São Pedro fosse o Atlético, rsrsrsrs… Além do mais, o vento sopra quase sempre do Leste para o Oeste, fazendo as pipas da Vilinha planarem, arriscadamente, no ‘quintal’ de cima!

Cortar a linha do adversário no ar e ver a pipa ‘inimiga’ descer sem rumo sobre os telhados leva a torcida ao delírio. O auge da competição no entanto, é quando o empinador consegue enrolar e subjugar a linha do adversário e, em movimentos alucinantes, usando carretilhas artesanais de madeiras, às vezes, de quase um metro, fazê-la descer na sua própria rua. Antes da presa chegar ao chão já tem uma dezena de garotos suados correndo descalços, olhando pra cima pra ver quem pega a pipa primeiro. Geralmente o troféu feito de plástico ou de papel colorido e varetas de bambu derrete nas mãos dos moleques. Nada se aproveita! Mas o que importa é derrotar o adversário! Se fosse futebol seria ‘três pontos’ na tabela de classificação!

Mas não é somente o torneio de pipas e papagaios que anima, que dá vida à rua Rua São Pedro. Depois da esquina da Rua Xavantes, tem outro ‘campo de futebol’. Os gols são os mesmos: dois pares de chinelos havaianas. Mas ali o nível técnico é outro! É nível de Seleção. Canelas e pés empoeirados disputam as peladas com bolas de borrachas, até o anoitecer. Ou então até que um craque arranque a tampa do dedão numa pedra intrometida e desfalque o time!

Mais adiante, depois da esquina da Adolfo Olinto, há pelo menos três campos de “bolinhas de gude”! Ali a competição exige mais concentração, é mais silenciosa, mas não menos empolgante. Nessas brincadeiras e competições predominam os moleques.

No entanto, a palavra machismo nunca passou por essa rua. Ali também as meninas com suas saias rodadas e cabelos presos em Marias Chiquinhas, jogam peteca, queimada, pulam amarelinha e outras brincadeiras delicadas que roubam olhares languidos daqueles garotos que já se incomodam com as calças curtas!

Nessa rua nasceram muitos romances. Lembram da trágica história do Beco do Crime? Jesus & Jacira se conheceram nessa rua quinze anos antes!

Os moradores da rua São Pedro, especialmente os do lado de cima da rua, assistem de camarote… das janelas de suas casas! Das mesmas janelas também se pode ver grande parte da cidade até a vargem do Aterrado, que meses depois irá se transformar em mar.

O tempo, malvado, passou e deixou saudades.

Aristóteles, o “Nero”, como foi carinhosamente chamado pelos colegas de trabalho da Casa Andare, onde trabalhou de 1947 a 1974, não me deixa sentir saudades sozinho! Ele mora na rua São Pedro, na mesma casa, desde menino. Ele viu tudo isso acontecer. Hoje, aos 95 anos, aos cuidados do filho Marcão, ele passa os dias tomando sol na rua defronte sua casa… lembrando o passado festivo, rico, glorioso da Rua São Pedro.

 

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