“Risca Faca”

Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o “Risca Faca” deixou saudades!

Jardim América em 1974… Algumas ruas ainda não haviam sido traçadas. O Bar do Onir, que virou Boate Risca Faca, é essa ultima construção na esquina da Rua Republica da Colombia. Dali pra baixo continuou um pasto ermo por muitos anos. O grande espaço mais branco cortando o bairro Jardim Noronha é a avenida Artur Ribeiro Guimarães. Nos anos 79 ela terminava ali, na Republica do Uruguai.

Foi a segunda construção, no meio da encosta Oeste do bairro Jardim América, em 1970 – A primeira, na mesma rua, uma casa de ‘meia-água’ nos fundos, era residência do casal Dita & Joel. Foi levantada com dois pavimentos e dois objetivos distintos: o porão, com acesso pela rua lateral, servia de residência. A parte superior ao rés da rua República da Colômbia, começou como um discreto boteco pra vender cachaça, guaraná e pão com mortadela para os operários que desciam das obras do Colégio Polivalente.

 

De boteco passou a venda e daí a armazém. Assim, metade do salário dos serventes e pedreiros da empreiteira “Miranda Correia” ficava ali mesmo no bairro, em troca do ‘mercado’ da semana. Com o final das obras a clientela até então formada por peões de obra foi aos poucos sendo substituída por estudantes do novo colégio estadual da cidade.

 

Era pouco. Crianças, estudantes de escola publica nos anos 70, tinha pouco mais do que moedas para comprar lápis, borracha, doces e guaraná tubaína. Era preciso fisgar os adultos, aqueles que depois da terceira dose de cangibrina perde a noção de limites e gasta até o último centavo e manda ‘pendurar’.

 

O Jovem ‘Onir’ tinha tino comercial. Sabia que era preciso diversificar. Comprou uma vitrola e, além da água que passarinho não bebe e pão com mortadela, passou a oferecer também excelentes tira-gostos e… músicas apaixonadas.

 

A música atraiu também algumas donzelas da Davi Campista em seus ‘dias de folga’. A presença das mariposas banhadas em perfume barato, quase sempre exibindo ‘seus dotes físicos’, atraiu mais e mais clientes em busca de um ambiente mais ‘caliente’.  Havia entre eles aqueles que se despediam de suas namoradas na porta de casa e iam terminar a noitada no bar boêmio, onde poderiam fazer com as mademoiselles de ‘vida fácil’, o que era proibido fazer com as futuras esposas. Com isso nasceu, ainda nos anos 70, a “Boate Risca Faca”.

 

Como toda boate, a do Onir era noctívaga! Suas atividades boêmias começavam sempre depois que os outros bares fechavam. E o show não tinha hora para acabar. Não raro os últimos clientes só iam embora quando galo cantava ou o sol colocava os bigodes pra fora! Até meados de 1980 eu dormi ouvindo Valdique Soriano cantando a plenos pulmões na vitrola do Risca Faca. Quanto mais tarde, quanto mais silenciosa a madrugada ficava, mais o som se propagava e mais saliente ficava o som vindo do Risca Faca. Morando na encosta leste do vale do ribeirão Santa Barbara, ou seja, no bairro Jardim Europa, eu era ‘privilegiado’ com a música que vinha de lá. Voltava do colégio Comercial São Jose por volta de dez e meia da noite e desde a igreja de Santa Luzia já podia entrar no embalo do som do Risca Faca. Às cinco e meia da manhã subindo a rua Ametista para pegar o ônibus que me levaria à Alpargatas, até a virada da Tijuca eu seguia no clima de boemia e orgia que brotava na boate do Onir e inundava todo o vale.

 

Esse tipo de ambiente, de prazeres fáceis, de traições, de pecados, de amor comprado, era também ambiente de confusão, de violência, de desacertos, de perturbação do sossego dos moradores que rapidamente haviam transformado o loteamento numa grande colmeia residencial.

 

Muitos desses desacertos eram resolvidos no plantão da delegacia de polícia no meio da madrugada.

 

Se a clientela exaltada e mamada da boate, ‘batia’, Onir tinha que ‘assoprar’! Para isso era fundamental manter um bom relacionamento com a polícia civil. Tinha que fazer um agrado…

 

Durante vários anos o Risca Faca recebeu um seleto grupo de clientes especiais. Clientes sisudos, caras fechadas. Clientes vestidos de preto… Clientes levando na cinta um trezoitão. Clientes que bebiam, comiam e não pagavam!

 

Durante muitos anos nossas rondas noturnas semanais – obrigatórias – terminavam no Risca Faca. Por volta de três e meia da madrugada a velha patrulheira preto e branco encostava na porta da Boate e cinco detetives entravam para comer galinha, quero dizer, … canja de galinha!

 

E assim o Risca Faca, nascido como uma simples bodega no meio de loteamento chamado Jardim América, se tornou a mais famosa e caliente boate de Pouso Alegre no final do século passado. Nos anos 90, já famosa, com a morte precoce do seu intrépido criador o Risca Faca fechou suas portas.

 

       Apesar do incômodo que causou na vizinhança, o Risca Faca deixou saudades!

1 thought on ““Risca Faca”

  1. O Onir, mineiro de Uberaba, era meu amigo. Infelizmente, da última vez que estive no risca, estava em companhia do saudoso Jorge Pardal que mandou o canivete na bunda do Joãozinho, garçom, devido desavença antiga havida entre os dois.

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