Sua maior tristeza é não poder mais trabalhar!

Nesta quinta-feira, 24 de julho, estive visitando uma pessoa muito especial. Muito especial, mesmo! Não é todo dia que temos a oportunidade de sentar ao lado e conversar com uma pessoa com 107 anos de vida.
Nosso encontro aconteceu no quintal da sua casa, na cidade de Cachoeira de Minas, onde ele mora com a filha. Quando cheguei, às dez da manhã, ele estava ali, tomando um banho de sol. Ali mesmo conversamos durante uma hora e meia.
‘Seu’ Jose Bernardo da Silva, o “Vô” – nascido no município de Cachoeira de Minas, no dia 14 de junho de 1918, está muito bem. Muito bem de saúde física e mental. Uma das pernas não lhe dá segurança para grandes caminhadas, mas permite que ele ande bem no quintal e imediações. Um dos ouvidos obriga a gente a chegar mais perto dele, e falar com mais clareza, para que ele ouça. A memória, embora bem viva, quando se trata de falar do tempo em que trabalhou no Supermercado Center Box em Pouso Alegre, exagera. Ele diz que trabalhou no supermercado, onde nós os conhecemos anos atrás, durante 100 anos! Nada disso, no entanto o impede de recordar fatos da infância, quando ficou ‘órfão’ de pai; da juventude jogando futebol igual Pelé; e de como conseguiu emprego no supermercado. Conta tudo com precisão, como se estivesse revendo os fatos. Conta com alegria, com gratidão. Gratidão primeiro a Deus. Gratidão à sua mãezinha que o criou sozinha desde os 7 anos de idade. Gratidão aos amigos que ajudaram durante sua vida. Gratidão ao patrão que o tirou do sol e da chuva e o levou para trabalhar no supermercado.
– Eu tava trabaiando de gari… Aí o homem passava e falava: “Fica na sombra um pouco, seu Jose”. Quando tava chovendo ela falava: “Esconde da chuva ali embaixo da marquise”. Um dia ele chegou e perguntou: “Voce quer trabalhar pra mim, no mercado? Lá o sr. não precisa ficar no sol, na chuva…”. Eu topei. Fiz os exames, tava tudo certo. E fui trabalhar no mercado. Eu gosto de trabaiá.
Isso aconteceu no começo de 2009. Jose Bernardo estava então com 91 anos. Trabalhou mais 14 anos, até que foi obrigado a se aposentar.
– “Eu tava meio resfriado… de repente deu uma coisa em mim, eu caí lá no mercado… eles me ajudaram, mas falaram que eu não podia mais trabalhar”, conta ele com tristeza!
Com a aposentaria – forçada – Jose Bernardo voltou para perto das suas raízes. Hoje mora com a filha Benedita, 84 anos, em Cachoeira de Minas onde nasceu. Não trabalha mais no Center Box mas não esquece os amigos. E nem os amigos esquecem dele. Todo mês um grupo de funcionários administrativos o visitam. Levam remédios, mantimentos, pastel quentinho… Quando eu estava conversando com ele, chegaram a Renata, o Nâna e o Dadinho. Receberam e distribuíram abraços sinceros e calorosos. A visita não é por obrigação. É por admiração, carinho, respeito e gratidão por uma pessoa humilde que cumpriu tão bem sua missão… e deixou rastros em suas vidas!
Apesar da lucidez, nalguns momentos a memória o trai. Jose Bernardo se refere a Pouso Alegre como se ainda estivesse morando em Pouso Alegre. E sempre que fala do patrão e dos colegas de trabalho no Center Box, se refere ao “mercado”, tal qual ele conheceu na juventude. E fala, com orgulho, que trabalhou no ‘mercado’ durante 100 anos.
Durante nossa longa conversa, entre boas lembranças e risadas, Jose respondeu algumas perguntas, sempre com gratidão, com alegria, com saudade e bom humor.
A.CHIPS: Qual a lembrança mais antiga que o sr. guarda na memória?
J.BERNARDO: Eu era pequeninho… tinha 7 anos, quando meu pai foi embora. Ficou só eu, meu irmão de 5 anos e minha mãe. O irmão morreu. Ficou só nóis dois. Minha mãe trabaiava na fazenda, tirava leite. Aí eu comecei ajudar ela, apartar bezerro, tratar das vacas, tirar leite…
A.CHIPS: Como foi isso? Por que seu pai foi embora?
J.BERNARDO: Um dia ele falô: “Muié, mata um frango, faz uma matula… amanhã eu vou embora”!
A.CHIPS: Embora! Embora pra onde?
J.BERNARDO: Meu pai falou que ia sair pro mundo, pra ganhar dinheiro… Deve estar ganhando até hoje. Deve tá rico!… nunca mais voltou! (responde e dá risada da própria piada)
A.CHIPS: A vida do sr. parece que não foi muito fácil. Qual a parte ‘mais ruim’ da sua vida?
J.BERNARDO: Não lembro… Acho que não teve tempo ruim… Tudo era bom. Tinha que trabalhar, mas tudo era bom. Quando era menino ajudava minha mãe tirar leite, trabalhei na roça. Depois fui carrear, levar mercadoria pra Pouso Alegre. Depois mudei pra perto de Pouso Alegre… trabalhei de tudo. Andei pro mundo todo. Aí voltei pra Pouso Alegre e trabalhei de gari … depois no mercado. Gostava de trabalhar lá. Fazia de tudo. Ninguém precisava mandar. Eu sabia minha obrigação. Eles me tratavam bem… mas tive que parar. A perna tá meio bamba… não posso andar muito mais.
A.CHIPS: Qual a maior tristeza que o sr. teve na vida?
J.BERNARDO: A maior tristeza… é não poder trabalhar mais.
A.CHIPS: Qual a melhor lembrança o sr. guarda da vida? (aqui seu Jose levanta a cabeça, parecendo buscar a resposta no espaço, ou no tempo. E fala com saudade).
J.BERNARDO: Melhor lembrança… era quando carreava carro de boi… trazendo abobora, laranja, milho … de Cachoeira para Pouso Alegre. Depois de fazer a entrega num mercado que tinha perto da ponte na entrada da cidade, eu voltava um pouco e soltava os bois no pasto do Aristeu Rios. Dormia lá mesmo… debaixo do carro de boi. No outro dia juntava os bois e voltava pra Cachoeira…
A.CHIPS: Na juventude, além de trabalhar, o sr. fazia outra coisa, uma diversão?…
J.BERNARDO: Gostava de jogar bola. Eu era bom. Levava a bola pra direita, cortava pra cá e passava para o companheiro, ou senão cortava e chutava de canhota! Eu jogava igual o pelé. Se a gente fosse da mesma época, ia fazer uma dupla no meio-campo na seleção.
A.CHIPS: Se pudesse voltar no tempo, em qual período gostaria de voltar, o que o sr. gostaria de fazer?
J.BERNARDO: queria voltar na juventude… cangar os bois e carrear… Ouvir o canto do carro de boi.
Jose Bernardo tem muito mais histórias simples, puras e saudosas pra contar. Pra mim foi uma manhã histórica. Plagiando Jose Bernardo ao se referir ao seu pai, se eu não tivesse outros compromissos, eu estaria lá, conversando com ele até agora, rsrsrs…
Longa vida ‘Vô’ Jose Bernardo!