Fonte onde os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime!

O Capim Gordura virou zona residencial… Mas não chegou – e nem chegará a ter um ambiente familiar!
Não se sabe ao certo quando começou a prostituição no mundo. Mas pode-se afirmar que foi logo depois que Eva comeu a maçã. Não com Adão exatamente, mas, com os que vieram de suas costelas!
Amores e coitos furtivos, sem o fito de reprodução da espécie, mas simplesmente pelo prazer da carne, sempre existiram mundo afora. Os primeiros registros citam o ano 2.400 a.C.
Em Pouso Alegre, cujas primeiras concentrações de pessoas de famílias diferentes se deram muito antes da historia oficial, lá pelo inicio do século 18 quando os caçadores de ouro vindos de Vila Rica para São Paulo paravam para repousar, já existiam os amores proibidos, amores carnais, amores vendidos por mulheres que precisavam alimentar seus filhos, sem maridos. Assim, com o passar do tempo, para generalizar o comercio e atender a demanda, as vendedoras de prazer se agruparam numa só casa, com o nome de “Zona Boêmia”, caracterizada pela luz vermelha.
Em Pouso Alegre, embora não se tenha um registro preciso, em 1920 a Zona Boêmia já estava instalada nas rebarbas da cidade, no logradouro que seria chamado mais tarde de Rua David Campista.
Inicialmente, com uma população de pouco mais de 10 mil habitantes, era um local pouco habitado, distante do centro. Como a cidade crescia como cresce abobrinha verde, em pouco tempo o antro de prostituição – chamado pelas beatas de antro de perdição -, já estava no centro da cidade. A Zona não saiu do lugar. Foi o crescimento inevitável da cidade que levou a população para a Zona, para perto das prostitutas. Quando a sociedade e as autoridades perceberam, a rua inteira já era dedicada à prostituição. A quinhentos metros da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre, a três quarteirões do velho Mercado Municipal, a um quarteirão do Santuario do Imaculado Coração de Maria, no coração de Pouso Alegre, ficava a famosa “Rua da Zona”, “Zona de baixo meretrício” ou simplesmente: “Zona Boêmia”. Era ali que o amor livre, desde que fosse pago, é claro, acontecia. A rua toda exalava o cheiro de álcool, em todas suas variações: cachaça, cerveja, whisky barato, rum, Campari e, perfumes baratos. Quem passasse algumas horas ali levava um pouco daquele cheiro para casa, impregnado na roupa, nos cabelos, nas narinas… Os casados, não raro, entravam na manguara das esposas ciumentas!
Embora execrada pela maioria da sociedade moralista, a prostituição era aceita e defendida por boa parte da sociedade, inclusive alguns figurões abastados e autoridades. Apesar dos pesares, “a prostituição é um mal necessário”, diziam figuras graúdas da sociedade.
Urgia, no entanto, retirar a Zona do centro da cidade.
Em 1969, com a população batendo nos 40 mil, teve início a pendenga para acabar com a prostituição, ou ao menos tirá-la da vista das crianças inocentes … e dos maridos puladores de cerca! Dentre os defensores das mulheres que viviam no pecado, vendendo prazeres e promovendo a discórdia nos lares, havia advogados, juízes, delegados… Uns brigando quase com unhas e dentes. Outros, fazendo vista grossa. Por conta disso a pendenga Sociedade x Prostitutas se arrastou por mais de dez anos.
A luta travada entre beatas, padres, advogados, vereadores, juízes, ministério publico, delegados, nos púlpitos e tribunais – e entre quatro paredes – naqueles treze anos de pendenga, daria um livro.
As beatas finalmente venceram. O golpe final – literalmente – foi dado por um gigolô. O assassinato de Margarida Leite, a mais poderosa cafetina da cidade, em 1982, foi a pá de cal que faltava para sepultar a Zona Boêmia da Rua David Campista.
O comercio do prazer carnal a pouco mais de cem metros da igreja do santuário, acabou. Mas não acabou na cidade. Apenas mudou de endereço. Com terrenos facilitados pela prefeitura, a “Zona” mudou-se para o Jardim Aeroporto. O espaço, inicialmente de apenas uma rua larga e comprida (depois foram surgindo os puxadinhos nas ruelas laterais), ganhou o meloso nome de Capim Gordura (alusão ao capim cheiroso, colorido e meloso que campeava o local até então).

A mudança da Zona do centro para um local distante da cidade, trouxe prejuízos para o comercio local e para os frequentadores de modo geral. Para se chegar à zona, só de carro, particular ou de taxi! Quem mais perdeu com a mudança foram os charreteiros. Eles faziam ponto na Avenida Duque de Caxias e muitos deles tinham hora marcada para buscar suas clientes na zona, para fazerem compras no mercado e nas lojas do centro. Morando agora distante oito quilômetros, as mademoiselles do sexo, para virem à cidade, tinham que chamar um taxi, através do telefone fixo (único que havia) com três dígitos.
Mas nem todos perderam.
A distância do centro da cidade selecionou a clientela das vendedoras de prazer. Quem tinha carro ou tinha dinheiro para contratar taxi para ir à zona, tinha dinheiro para gastar com elas, num local mais discreto e planejado. As casas do Capim Gordura, todas novas, foram construídas com certo planejamento, com vários quartos, um amplo salão com barman ou ‘bargirl’, onde as vendedoras de prazer seminuas assanhavam, assediavam e fisgavam seus clientes. Mudou-se o ‘status’. Antes as casas da Zona eram identificadas pelos nomes de suas donas: ‘casa da fulana ou sicrana’. No Capim Gordura ganharam o pomposo nome de “Boates” da fulana!
Quem mais ganhou com a mudança da Zona para o Capim Gordura, foram os policiais civis! Era na zona boêmia, infindável poço de prazeres carnais, que os bons policiais bebiam as melhores informações sobre o crime na cidade, na região e além dela.
Não sei se Freud chegou a estudar ou mencionar alguma coisa sobre essa parte do comportamento do homem. Mas é fato, o homem precisa contar seus segredos, suas façanhas, seus crimes!…
Nos anos 80 o banditismo urbano começava a ganhar projeção. Assaltos de porte médio a bancos, postos de gasolina, supermercados, carros pagadores, cargas de cigarros, ganhavam espaço. Eram comuns esses crimes nas estradas federais, notadamente no Vale do Paraíba. Assaltos que envolviam milhões de cruzeiros, cometidos por bandos de três a cinco assaltantes. Bem-sucedidos ou não, os assaltantes que sobreviviam às balas dos policiais ou escapavam das suas pulseiras de prata precisavam dar um tempo, sair de cena, esperar a poeira baixar, serem esquecidos. O melhor esconderijo era a zona boêmia das cidades crescentes como Pouso Alegre. Ali, além de escapara dos braços da lei, eles poderiam unir “o útil ao agradável” nos braços das sensuais mariposas!
É aí que entra a teoria que o grande medico e psicanalista austriaco não chegou a estudar! O homem, tanto quanto a mulher, precisa falar dos seus amores! Das suas façanhas, contar suas bravatas, exibir seu poderio, sua superioridade, seu machismo. Depois de dois ou três dias na Zona, apenas bebendo e comendo… com ou sem tempero, os bandidos começavam a dar com a ‘língua nos dentes’, começavam a se abrir, a contar suas façanhas. É claro que eles confiavam nas suas amantes e pediam – alguns exigiam! – absoluto segredo, como se pedir segredo a uma mulher tivesse alguma relevância!
Mas como esses segredos chegavam aos policiais?
Bem, isso passava por todo um processo.
Mulheres de vida fácil sempre tiveram vida difícil. Vistas como meros objetos de prazer, as prostitutas viviam no limiar da violência… e da honestidade! Viviam ao sabor do humor dos seus clientes, a maioria sem eira e nem beira. Por muito pouco elas entravam na manguara dos guampudos mal-humorados. Depois de usufruir do ‘bembom’, mediante promessa tácita de pagamento, os trogloditas pagavam com sopapos e bolachas. E as pobres donzelas, ao invés do seu suado dinheirinho, recebiam apenas arranhões, hematomas e olho roxo.
É aí que entravam os policiais, os bravos paladinos da lei! Só os policiais, os bons policiais, conseguiam domar os garanhões, chamá-los na chincha, colocar-lhes os bridões e colocar ordem no galinheiro, quero dizer, dominar o território sem lei do Capim Gordura.
Atender aos chamados e intervir em brigas e pequenos furtos em um ambiente imoral, à margem da lei, não era prioridade da polícia. A menos que houvesse uma compensação. Foi nesse contexto que “juntou-se a fome com a vontade de comer”! As prostitutas precisavam dos policiais para protegê-las… Os policiais, aos menos aqueles mais sacudidos, aqueles que iam muito além do ‘cumprir o expediente’, precisavam dos ‘segredos’ das prostitutas. Assim, os melhores serviços da polícia civil nasciam de informações plantadas no Capim Gordura. Dessa relação promiscua das prostitutas com seus amantes, e de amizade e proteção com os detetives, nasceu o casamento perfeito. E gerou muitos frutos.

De 1982 a 1985 a Zona Boêmia do Capim Gordura, local árido e pedregoso, donde se produzia pouco mais do que o capim meloso, mandou para trás das grades dezenas de assaltantes de todas as plagas e perfis, e colocou a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre no mapa estatístico da criminalidade em Minas, como a delegacia mais produtiva do Estado. São desse período áureo da PCMG/Pouso Alegre os casos:
– O “Ladrão do Bagdá e seus quase 40 ladrões”, 1982!
O insuspeitável e sorrelfo dono do famoso restaurante instalado no prédio do DA/FDSM – frequentado por acadêmicos, professores e magistrados – mantinha uma extensa e rotativa equipe de ladrões que, nas horas mortas da noite ‘visitavam’ sítios e residências na região. Quando finalmente o sorrelfo comerciante – amigo de gente graúda – enroscou-se nas malhas da lei, mais de quarenta dos seus furtos sorrateiros, centenas de “res furtiva”, foram colocadas pelos abnegados policiais sobre a mesa do Homem da Capa Preta. Uma dessas “res furtiva”, ironicamente, já estava lá, no pescoço de um magistrado! (Monteiro e os quase 40 ladrões do Bagdá – “Meninos que vi crescer”).
– Assalto ao carro pagador da Alpargatas, 1983.
A ação planejada e executada pela quadrilha liderada pelo agricultor “Zé do Cano”, culminou com o latrocínio do bancário Moacir, na Perimetral. Com as informações levantadas na zona, nos dias seguintes foram presos o mentor do assalto, quatro assaltantes de São José dos Campos e dois policiais militares que atuaram como informantes.
– “300 carros roubados”, 1984.
A investigação, municiada com informações colhidas pelo quarteto de Detetives no Capim Gordura, revelou um intrincado esquema criminoso que envolvia ‘puxadores’ de carros, intrujões acima de qualquer suspeita, e até um delegado ‘graúdo’ que ‘esquentava’ os documentos dos veículos roubados. Nas semanas seguintes, mais de 300 carros roubados foram localizados e apreendidos.
Graças a essa promiscua – e perigosa – relação entre um impetuoso e assanhado quarteto de Detetives e as prostitutas do Capim Gordura – Poço de amores proibidos! Fonte onde bebiam os bons policiais – a 13ª Delegacia Regional de Pouso Alegre manteve-se, por vários anos na crista de produtividade no Estado.
A parceria Polícia Civil/Capim Gordura poderia ter ido mais longe, não fossem dois fatores. O referido quarteto de policiais – detentores dos arquivos vivos da Zona… e das atividades ‘informais’ de alguns chefes – sabia demais, por isso foi desfeito. Em 85 cada Detetive seguiu um rumo diferente. O outro fator seria ainda mais fulminante. Em poucos anos o capim Gordura morreu. Morreu a golpes lentos e certeiros… Foi assassinado pela famigerada Sida… Quero dizer, pela AIDS. Mas aí, já daria outro livro!
O “Capim Gordura” marcou a vida de muita gente…