A criminalidade chegou ao bairro dos Coutinhos

Nem a garrafa de Casa dos Ventos que eu trouxe de Pouso Alto para o escrivão escapou da sanha dos ladrões de sitio dos Coutinhos...!

Nem a garrafa de “Casa dos Ventos” que eu trouxe de Pouso Alto para o escrivão escapou da sanha dos ladrões de sitio dos Coutinhos…!

Segundo o professor, historiador e escritor Hilario Coutinho, o bairro banhado pelo Ribeirão Santo Antônio e suas dezenas de nascentes, tem seu primeiro registro como “Bairro Coutinhos” lá pelos idos de 1786. O patriarca da família Coutinho, meu deca-avô João Coutinho Portugal, instalou sua primeira moradia no aconchegante local em 1814. Por isso, o livro de sua lavra em parceria com o primo Celso Coutinho, “A Família Coutinho no Sul de Minas”, foi lançado no dia 14 de novembro de 2014.

      Nestes dois séculos de existência o famoso e hospitaleiro bairro viu muita transformação. Todas benéficas, acompanhando a evolução do homem e da sociedade.

      As duas ultimas mudanças no bairro foram o êxodo rural, há cinco décadas, em busca de melhores perspectivas de trabalho e de vida… E agora o inverso; o ‘êxodo urbano’ para o bairro, porém por motivo diverso… Por lazer! Enfim, são muitas as mudanças de comportamento, de politica, de religião, de hábitos… E de valores!

      Dentre as peculiaridades dos Coutinhos está o fato de que, em duzentos anos, jamais houve um homicídio por qualquer razão no bairro. – Este dado pode mudar a qualquer momento! – Furtos no bairro, também sempre foi coisa rara. Ladrões mais raro ainda! Ou pelo menos era raro até pouco tempo atrás.

     Há cerca de cinco ou seis anos um cidadão – novo no bairro – dono de um sitio foi vitima de furto. Durante conversa informal num balcão de boteco ele teria comentando com amigos para moradores do bairro ouvir:

– Comprei a chácara no bairro dos Coutinhos depois de ser informado que aqui não há ladrões…

      A resposta veio de chofre, por um morador que ouvia a conversa na outra ponta do balcão…

– É verdade. Até agora não tinha mesmo ladrões no bairro. Mas eles estão começando a chegar…!

     A resposta curta e grossa do meu conterrâneo encerrou prematuramente a critica. Porém, talvez o sitiante tivesse razão. De uns tempos para cá o hospitaleiro bairro tem sido palco de furtos. E o pior…! Os mãos leves, ao que parece, são criados no próprio bairro!

     Recentemente aconteceu no bairro dos Coutinhos e adjacências furtos de gado. A policia não descobriu quem eram os ladrões. Mas as vitimas de furtos receberam de volta sua ‘res’ furtiva – que no caso eram ‘reses’ bovinas! O pai de um dos ladrãozinhos, abastado e honesto fazendeiro que trabalha de sol-a-sol, envergonhado pela conduta do filho, ressarciu o prejuízo dos vizinhos para que o caso não chegasse à justiça. Ficou barato! No Texas, quem fosse pego roubando gado, era pendurado na primeira arvore que a patrulha encontrasse no pasto!

      Meu conterraneo Joel, contemporâneo do meu pai, mudou-se como nós para Pouso Alegre há cerca de 40 anos. Mas nunca deixou seu pedacinho de chão no bairro dos Coutinhos. Nas horas de folga cultiva café, banana, feijão, cascavéis, cutias, tatus e até lobos…! Seu sitio é de fato um pedaço de paraíso. Mas fica muito distante do centro do bairro, ao pé da serra. Por isso Joel resolveu comprar um pequeno sitio mais perto da ‘civilização’ do bairro, na localidade que chamamos de “Onças”! Outro dia ele estava angelicalmente nos braços de Morfeu no seu rancho quando a luz forte de uma lanterna o fez despertar. Ao lado da cama singela estavam dois guampudos; um segurando a lanterna acesa e outro um pedaço de pau! Haviam arrombado a porta…

– Queremos a chave do cadeado da porteira e do cadeado da casinha da picadeira… – disse um deles ameaçadoramente.  

      … E levaram a picadeira de capim, deixando a vaquinha Jersey do Joel sem comida no dia seguinte.

     Todo mundo no bairro sabe quem são os três ladrões que roubaram a picadeira do Joel. São nascidos e criados ali mesmo. Há duzentos anos, meu deca-avô João Coutinho Portugal teria cortado pessoalmente os ladrõezinhos na guasca, até o couro cru de boi berrar!

     Coisa bem pior do que esfolar a pele de ladrõezinhos na guasca, pode acontecer a qualquer momento!

     Durante a madrugada deste sábado, 30, ladrões – provavelmente do próprio bairro – voltaram a atacar. Entraram em duas casas de sitio na mesma localidade das “Onças”. No sitio do Marcos e na chácara do Edgar! Levaram camas, colchão, bomba d’agua, botijão de gás, roupas de camas, panelas, talheres e até galão de plástico!

– O que me deixou mais aborrecido foi o fato de terem levado minhas cachaças que eu estava guardando para uma ocasião especial! Inclusive uma é aquela que você me deu há dois anos, lembra? – Comentou Edgar.  

     Todo cidadão tem o “direito” de investigar e tentar prender quem o roubou…! Todo policial tem o “dever” de investigar e prender quem o roubou! O difícil é investigar e “apenas” prender!

– Estou torcendo para não encontrar o ladrão, Chips… Senão quem vai cometer um crime maior sou eu! – Desabafa Edgar!

      Há quase vinte anos na policia civil, o escrivão chefe do cartório da Delegacia Regional de Pouso Alegre, é muito mais do que um policial burocrático. Tem policia e tino policial no sangue. Desde o inicio da carreira, há quase vinte anos, sempre participou das operações de campo. Apaixonado por armas de fogo, fez todos os cursos e treinamentos no gênero. Fez inclusive o ultimo treinamento há dois meses com submetralhadora…!  Os ladrões que arrombaram seu sitio e levaram suas panelas, pratos, talheres e sua garrafa de “Casa dos Ventos” correram e estão correndo um serio risco! A batata dos ladrõezinhos de sitio pode queimar!

     O bicentenário Bairro dos Coutinhos não é mais o mesmo!

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