À Cezar o que é de Cezar…

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Desde que voltei a morar em Pouso Alegre há dois anos e meio, ganhei um novo amigo que me visita toda semana. A primeira vez que o interfone buzinou eu fui ao portão para ver quem era e o que a pessoa queria… Era o Cezar! Vestia uma bermuda que não foi comprada pra ele, uma camiseta velha estampada lavada sem amaciante, chinelos de dedo e um bonezinho de propaganda. Ele queria um ‘ajutório’.

– Eu moro na Faisqueira e estou desempregado… Será que o senhor não pode me arrumar ‘alguma coisa’…? – disse ele timidamente com os olhos fundos no rosto magro de barba por fazer…!

– O que senhor puder arrumar… Arroz, feijão, leite. Se tiver uma roupa que o senhor não usa, também…

Entendi. Disse a ele que iria fechar portão por causa da Lessie e fui lá dentro. Voltei minutos depois com uma sacolinha e alguns mantimentos, incluindo o leite. Pronto! Conquistei o Cezar! A partir daquele dia tornou-se um visitante assíduo. Toda semana, sempre no meio da tarde, o interfone buzina…

– Quem é?

– É o Cezar…

– O que você precisa Hoje, Cezar?

– O que o senhor puder, seu “Amilton”… – Por alguma razão que desconheço, ele não consegue falar Airton! – Se o senhor puder arrumar um leite…! Vou esperar do outro lado da rua… Por causa da cachorra!

Quando saio com a sacolinha, às vezes ‘leve’, outras mais pesada, lá está o Cezar sentando no passeio do meu vizinho. A maioria das vezes está roendo um pão seco e às vezes traz uma sacolinha com alguma coisa na mão.

– Obrigado seu ‘Amilton’… Deus abençoe o senhor e sua família.  – E vai embora roendo o pão amanhecido.

Não sei nada sobre ele. Onde mora, que idade tem, quantos filhos, se tem alguma enfermidade…! Acho que eu deveria fazer alguma coisa por ele, mas o comodismo não deixa. O mínimo que ele recebe o deixa feliz e grato. E o “obrigado seu ‘Amilton’ e o Deus abençoe sua família” me bastam.

Semana passada ao entrar na DP esbarrei no cabo Marcos entrando na sala de Reds da PM. Ao cumprimenta-lo percebi que havia um detido na cela de triagem. Ao olhar para o interior do cubículo retangular sujo e escuro levei um susto! Era o Cezar…!

Com os mesmos trajes e trejeitos simplórios de sempre; bermuda surrada, camiseta larga, barba por fazer acentuando sua magreza, lá estava ele sentado no banco de concreto rabiscado e frio atrás das grades, enquanto o soldado redigia o BO. Havia sido detido na rua com três minúsculas pedrinhas bejes fedorentas…!

– Olha seu, ‘Amilton’ o que aconteceu comigo! Mas eu não uso ‘isso’, não! ‘Os ‘rapaiz’ que pediram pra mim levar pra eles’… Eu nem sabia o que era!

Não voltei mais à DP para saber o desfecho do BO, mas fiquei pensando no Cezar… Será que o meu visitante semanal ‘assinou o 28’ pelas três pedrinhas que ele jurou de pés juntos que não eram para ele? Mas se estava levando para os “rapaiz” então era um ‘formiguinha’! Será que foi fritado no 33 e subiu para o Hotel do Juquinha?

E agora? O que eu faria com as ‘coisas’ incluindo o litro de leite que eu separo toda semana para ele…?

No inicio da tarde de sábado meu interfone buzinou… Fui correndo fazer a pergunta de sempre;

– Quem é…?

– “Sou eu, o Cezar…”

Ah, que alivio! Ele não ficou preso!

– O que você precisa hoje, Cezar?

– O que o senhor puder… Pode ser um leite.

Ao abrir o portão lá estava ele, trajado como de costume, com a mesma barba de alguns dias, magro e talvez um pouco mais triste. Eu falei primeiro;

– Ué, Cezar, o delegado soltou você?

– Tá loco seu ‘Amilton’… Eu não fiz nada errado, não! Nem sei o que era aquilo, os rapaiz pediram pra levar pra eles. Eu não mexo com essas coisas não…!

Entreguei a ele a sacolinha com o leite e outras ‘coisas’, ele repetiu a frase de sempre; “Obrigado seu ‘Amilton’, Deus abençoe o senhor” e já se afastando disse:

– Não põe a minha foto no jornal não, seu ‘Amilton’…!

Por um instante fiquei parado no portão olhando a figura humilde do meu visitante semanal virar a esquina. Confesso que não sei onde a sacolinha de leite e ‘outras coisas’ irá parar. Mas sei o que vou fazer… Vou continuar dando “a Cezar o que é de Cezar”!

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