Herói sem medalha!

….

Jose Maria Feliciano

José Maria

Zé Gordo

‘Seu’ Zé do Juventus…

 

Era assim que os moradores do bairro N.S. de Fatima se referiam a ele. Era assim que seus atletas o chamavam. Assim ele foi chamado durantes décadas pelos boleiros na cidade. Era assim que nós, diretores da Lepa e árbitros o chamávamos…

Na juventude Zé Maria trabalhou em qualquer emprego que exigisse pouco estudo. Participou inclusive do asfaltamento da rodovia BR 459, no trecho de Pouso Alegre a Ipuiuna. Ainda jovem mudou-se para São Paulo e lá morou e trabalhou por mais de dez anos. Foi lá que tomou gosto pelo futebol. Foi de lá que trouxe o nome do seu time do coração: Juventus. Seu time, sediado no bairro Fatima, marcou época, época pujante do futebol de Pouso Alegre. Seu maior título foi o de campeão municipal de 81, disputado na antiga LEMA.

Poucos desportistas amaram e fizeram tanto pelo seu time como Zé Gordo fez pelo Juventus do Fatima. Nos anos 70 montou sua própria empresa, a Marmoraria São Judas Tadeu… e tornou-se seu próprio patrocinador. O Juventus tinha os mais belos uniformes da cidade. Durantes décadas os calções alvos e camisas grená, impecavelmente limpos, contrastaram com o verde dos gramados dos surrados campos de futebol da cidade e da zona rural. Levando alegria, emoção, paixão e entrelaçando amizades entre jogadores e torcedores do futebol amador. Centenas de meninos cresceram vendo o time do Zé Gordo jogar futebol e levantar canecos. Centenas de meninos nascidos no bairro queriam crescer e jogar no time do Zé Gordo.

No final dos anos 70, aproveitando um pequeno descampado que havia nos fundos da sua casa, resolveu construir ali o campo do Juventus. O grande terreno, inóspito, quase inacessível, tomado pela mata, capituva e outras vegetações de várzea, começava poucos metros abaixo da linha e avançava em direção às lagoas, várzeas e matas do Rio Sapucaí Mirim (mais tarde av. Perimetral). Zé Gordo realizou mutirões, limpou o terreno, aterrou um pedaço e construiu ali, quase na enxada, o campo do Fátima, o Campo do Juventus. Em homenagem a outro velho boleiro do bairro, o campo ganhou o pomposo nome de “Estadio Minduizão”. A arquibancada era o barranco na margem direita do campo. O vestiário era a sombra das arvores num dos cantos do terreno. Mais tarde, na segunda gestão do prefeito Simão Pedro, Zé Maria construiu um vestiário de verdade, de alvenaria, com a estrutura mínima de um vestiário, com espaço para o seu time, para o adversário e para o trio de árbitros. A prefeitura entrou com o material e a mão de obra. Zé Maria cedeu o terreno do seu próprio quintal. Além da prática de futebol, o estádio ‘minduinzão’ tinha outra utilidade esportiva… servia também para natação! Durante algumas semanas do período chuvoso, o estádio alagava, chegava a encobrir o gol do lado leste e virava um grande piscinão!

Ter seu próprio campo no centro do velho e tradicional bairro N.S. de Fatima, aproximou e inflamou ainda mais a torcida bairrista. Zé Maria era o fundador, presidente, patrocinador e técnico do time. Para manter-se em atividade, disputando jogos amistosos, torneios e campeonatos o ano inteiro, como todo clube de tradição, o Juventus tinha muita despesa. Além de bolas, uniformes, manutenção do campo, transporte dos jogadores para outras localidades, muitas vezes era necessário fazer ‘agrados’ a alguns jogadores mais caros, que eram disputados por outros times, especialmente em campeonatos. ‘Cinquentinha’ para um centroavante artilheiro, uma cervejinha para um zagueiro xerife, uma peça de mármore da firma para um jogador que estava construindo, enfim… Zé Maria frequentemente enfiava a mão no próprio bolso para manter o seu time, sua paixão, orgulho dos moradores do bairro Fátima.

Se o Juventus do Zé Maria era referência e orgulho para o bairro Fatima, era motivo de apreensão para os visitantes, especialmente para o trio de arbitragem. Ao saberem que estavam escalados para apitar no Minduinzão, os árbitros ‘’tremiam na base’! Na sexta-feira já começavam a rezar para acertar tudo durante a partida; para não acontecer lances polêmicos contra o time da casa. Jogos decisivos num campo aberto, sem policiamento, sem proteção, exigia muita coragem dos árbitros. O único acesso ao estádio Minduinzão era pela linha férrea paralela à Brito Filho. Os outros lados eram cercados pela mata, lagoas e várzea do Rio Sapucaí Mirim. Se houvesse conflito no campo e fosse necessário fugir, o jeito era correr, literalmente, para o mato! Embora defendesse com unhas e dentes – e cara feia – o seu time, Zé Maria conhecia a severidade das leis desportivas aplicadas pela junta de justiça da liga. Por isso sempre continha seus ímpetos e o dos seus jogadores e até da torcida. Afinal, violência não podiam manchar o brilho das conquistas do seu grande clube Grená!

Zé Gordo era feliz com seu time, com seu estádio, mas nunca desistiu de trazer melhorias. Na verdade, o que ele mais queria era PRESERVAR CAMPO. O estádio ficava num terreno particular. Durante décadas Zé Maria envidou esforços junto à prefeitura municipal para transformar o terreno em bem de utilidade pública. A cada eleição municipal, dezenas de candidatos a vereadores e muitos candidatos a prefeito tomavam café com bolo de fubá feitos pela sua dedicada esposa dona Maria, na cozinha da sua casa, e prometiam desapropriar o terreno e entregá-lo à comunidade. Passada as eleições, os candidatos, eleitos ou não, esqueciam a promessa e sumiam.  Até que um dia o Estadio Minduinzão, o campo do Juventus, do Zé Maria, virou loteamento.

Enquanto sobreviveu a todas as dificuldades, o Juventus do Zé Maria do Fatima, deu grande contribuição aos gestores públicos de Pouso Alegre. Conseguiu, por algumas décadas, manter centenas – senão milhares – de jovens afastados das drogas, praticando futebol.

Zé Maria trabalhou até perto dos oitenta anos. Em 2023, aos 80, sofreu um AVC. Desde então não abeirou mais um campo de futebol. Suas pernas o abandonaram. Elas já não o levam a lugar nenhum. Aos poucos a memória também está indo embora. O Alzheimer está apagando as lembranças de uma vida agitada, dinâmica, profícua e alegre… Não deixa espaço nem para sentir saudades! No começo do ano, quando me sentei para conversar com ele na porta de sua casa, provocado, ele se lembrou de mim. Durante meia hora caminhamos juntos na beira do estádio Minduinzão e de todos os campos varzeanos da cidade e da região, onde seu glorioso Juventus tantas vezes arrancou aplausos da plateia. Agora, nem provocado, Zé Maria não lembra mais quem eu sou. Não lembra nem quem ele é. Já não abre mais os braços e o sorriso alegre como fazia toda vez que me via chegando, para dizer:

– Como vai ‘seu’ Chips?

Zé Maria não terá sua foto e seu nome escrito no panteão dos grandes homens públicos de Pouso Alegre. Mas certamente viverá na memória de cada jogador de futebol do bairro Fatima, mesmo daqueles que não tiveram a honra de jogar no Juventus… no “Juventus do Zé Gordo”.

O título dessa crônica – “Herói sem Medalha” – eu sei, é um velho e batido clichê. Mas não achei título que melhor fizesse justiça ao grande e abnegado desportista Zé Maria Feliciano. Daqui a 100 anos, se alguém escrever a história do futebol de Pouso Alegre e não citar o nome do Zé Maria, estará cometendo uma injustiça.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *