
A bala cravada em seu cérebro havia saído do seu próprio revólver!
Note criança e fresca de primavera.
Tereza acabou de assistir ao filme, desligou a tv e foi ao quarto do filho verificar se ele havia chegado. Não estava no quarto. Foi ao banheiro.
– “Deve estar tomando banho”, pensou ela.
Não estava no banho. Tereza saiu ao quintal dos fundos, onde ele costumava guardar suas bikes. A bicicleta verde com detalhes pretos estava lá, pendurada.
– “Ele deve ter ido com a preta com detalhes verdes”! “Mas porque não chegou? Ele sempre chega perto das oito da noite”, conjecturou a mãe acostumada com a rotina do filho.
Ele chegava do trabalho por volta das seis da tarde, fazia um lanche leve, montava uma das bikes e saia para pedalar, sempre assim, de segunda à sexta. Dava uma volta na lagoa e antes das oito estava de volta. Entrava pelo portão lateral, guardava a bike, as vezes limpava quando pegava ciclofaixa molhada, tomava seu banho, aparecia na sala onde ela sempre estava diante da tv, depois jantava e seguia para o quarto, onde ficava no computador até a hora de dormir. Durante a semana raramente fugia dessa rotina. O que teria acontecido hoje? Bem, não precisava descabelar. Afinal, Bedeu era adulto, bem adulto! Havia completado 40 anos na semana passada.
– “Deixe estar. Deve ter ido visitar um amigo. Ou talvez arrumou uma namorada”, pensou Tereza com seus botões.
Tentando afastar qualquer preocupação, Tereza voltou para a sala e religou a tv. “Brasil visto de cima”, seu seriado favorito, começaria dali a minutos. A cada intervalo se levantava, ia ao quintal verificar se a bicicleta preta estava fazendo companhia para a verde. Nada. Voltava para a sala e pregava os olhos na tv. Mas já não estava vendo mais nada. Tudo que via era o filho cabeça baixa, metódico, pedalando rápido sua magrela na lagoa.
– “Será que ele foi atropelado? Assaltado? A lagoa é um lugar tranquilo para pedalar. Tem um clima bom, uma energia positiva… ali quase nunca há crimes! Ele pode ter sido atropelado! Mas ele é sempre tão cuidadoso, anda sempre na ciclofaixa! … Às vezes algum doido irresponsável invade a pista de ciclistas! Há casos. – Pensava a mãe visivelmente preocupada.
A neve invadiu a tela da sua TV. Uma bandeira branca com uma folha vermelha de plátano balançando na ponta de um mastro apareceu num canto da tela. Era a bandeira do Canadá. O programa agora era “Mundo visto de cima”. Passava de dez e meia da noite. Seu filho nunca ficava na rua às dez e meia da noite. Ela nunca ficava em pé depois de dez e meia da noite durante a semana. Ela deveria estar na sua cama àquela hora. Seu filho deveria estar no quarto ao lado diante da luz branca do computador. A preocupação aumentou. Onde estaria seu filho? O que fazer? Desde que ficara viúva, há dez anos, nunca tivera sequer uma nesga de preocupação com o filho. Nunca precisava questioná-lo… Ele sempre avisava aonde estava indo e quando voltaria. O que teria acontecido? Porque estava tão fora da rotina sem avisá-la. Só então lembrou de ligar pra ele. O aparelhinho respondeu tummmm dez vezes e depois mais dez, e a voz do filho, que quase desconhecia através do aparelho, não foi ouvida. O que fazer? Esperar mais… ou ligar para alguém? Ligou para o filho mais velho, o qual morava no bairro vizinho. Meia hora depois Tadeu chegou. Chegou emburrado. Tinha bom, porém curto relacionamento com o irmão. Sua rotina era diferente. Não tinha um emprego tão bom quanto ele. Tinha que dormir cedo para levantar antes do sol e pegar o busão para a fábrica. Já estava nos braços de Morfeu quando a mãe ligou. Não tinha tempo para pajear o irmão solteirão que não tinha sequer um passarinho para tratar. Por isso, não obstante nutrir imenso respeito e carinho pela mãe, tratou-a com rispidez.
– Você já ligou para o celular dele?
– Sim, duas vezes. Ele não atendeu… Ele nunca se atrasou sem avisar… – disse Tereza com os olhos começando a marejar.
– Pronto socorro, policia, casa de amigos… – falou Tadeu com certa irritação. Tereza levou a mão à boca antes de falar.
– Você acha que pode ter acontecido alguma coisa grave, atropelamento… um assalto!
– Alguma coisa aconteceu, né mãe! – retrucou Tadeu impaciente.
– Ai meu Deus!
– Ele não costuma ir na casa de amigos, uma namorada…
– Não, durante a semana, não. Ele não tem namorada. Ele trouxe uma moça bonita aqui uma vez… Mas disse que era amiga, colega de trabalho… Eu não sei nem o nome dela. Não tenho contato de nenhum amigo dele…
– Precisa ter, né mãe! É nessas horas que servem os amigos… Pra espalhar informação, pelo menos.
– Seu irmão nunca me deu preocupação…
– Sempre tem uma primeira vez, ‘dona’ Tereza! – retrucou Tadeu apimentando o ‘dona’ com uma pitada de sarcasmo.
– E agora? O que a gente vai fazer?
– Deixa eu pensar… Você sabe onde ele costuma pedalar?
– Ele sempre pedala na lagoa!
– Vou ligar no Samu e na delegacia… pra saber se atenderam alguma ocorrência ali hoje a noite.
Não. Não havia nenhum registro de ocorrência de qualquer espécie no entorno da lagoa nas últimas vinte e quatro horas. O ‘oficial de dia’ da guarda municipal, no entanto, foi bastante solícito.
– Tem uma equipe na rua, contornando a lagoa… Vou pedir ao cabo para observar qualquer intercorrência. Vou anotar seu número e daqui a quinze minutos farei contato.

Cinco minutos depois o celular de Tadeu tocou.
– Nós o encontramos Sr. Tadeu…
– Graças a Deus! Onde ele está? Ele está bem?… – Perguntou apreensivo o filho mais velho de Tereza.
– Bem… na verdade… não sabemos… ele … – gaguejou o sargento tentando encontrar palavras para explicar como encontrara o ciclista.
Tadeu, pressentindo notícia ruim, se afastou da mãe e baixou o tom.
– Aconteceu alguma coisa grave com ele? Acidente…
– Na verdade ele parece bem. Está sentado ao pé de uma arvore na ciclofaixa. Mas não reage… parece gelado… já chamamos o SAMU… – respondeu sem esclarecer, o sargento.
Tadeu chegou ao local indicado pelo Sargento junto com os ‘anjos das ruas’. Chegou a tempo de contemplar curioso a cena. Bedeu estava sentado em um tronco seco ao pé da gigantesca Sapucaia cheia de flores roxas e lilás. Ao seu lado, encostada na lateral do mesmo tronco, estava sua bike preta com detalhes verdes. Apesar de noite alta, ele mantinha os óculos de proteção cobrindo o rosto, o que impedia de ver seus olhos. Era como se tivesse parado ali, para descansar encostado na arvore e tivesse adormecido… mas o corpo estava frio, gelado!
– Sargento, – falou o socorrista – pode chamar a funerária, ou Pericia da PC, se quiser. Ele está morto… Pela temperatura e rigidez, já tem algumas horas. Pode ter parado para descansar e morreu de um mal súbito. Aparentemente não há lesões externas. No entanto, como não há nada que possamos fazer em termos de socorro, seria prudente que o perito fizesse o seu trabalho.
A funerária estava quase vazia. Menos de vinte pessoas conversavam amenidades no velório. Pouco mais do que mulheres, vizinhas de Tereza.
– “Que coisa, né! Tão saudável! Acostumado a pedalar todo dia, de repente, do nada, senta para descansar e morre” – comentava uma.
– “Nunca sabemos o dia de amanhã”… – filosofava outra.
– “Ele foi a única companhia da Tereza nos últimos dez anos”! – choramingava uma terceira.
Tereza estava sentada numa cadeira ao lado do caixão aberto quando uma moça bonita e bem-vestida, perto dos quarenta anos, se aproximou. Depois de um minuto contemplando o corpo inerte estendido dentro do caixão de madeira escuro, a jovem se inclinou sobre Tereza e lhe deu um abraço dizendo.
– A senhora lembra de mim? Eu sou a Vania… Uma vez eu fui à sua casa com o Bedeu. Eu gostava muito dele. Ele era meu melhor amigo no trabalho. A gente almoçava junto, conversava sobre trabalho, sobre sua paixão pelo pedal. Mas ele nunca me falou que tinha algum problema de saúde! – disse a jovem.
– Eu lembro quando você foi na minha casa. Pensei que vocês fossem namorados… depois o Bedeu não me falou mais nada. Mas ele não era doente, não…
Conversaram mais alguns minutos como se fossem amigas. Até que Vania se levantou, se despediu e, antes de sair voltou a contemplar o corpo inerte do amigo. Da contemplação passou a gestos. Tocou suas mãos frias cruzadas sobre o peito, levou a mão ao seu rosto, fez-lhe uma caricia. Gostava de Bedeu muito mais do que se gosta de um amigo. Demorou na caricia no rosto frio. Aquele rosto bonito e suave que ela não teve coragem de acariciar enquanto estava quente. Sim, amava Bedeu desde que o conhecera. Tinha medo de declarar seu amor, e perdê-lo. Era amor platônico. Saber que ele não tinha uma namorada, e ter sua amizade já era o suficiente. Quem sabe um dia ela se declarasse. Agora, embora não adiantasse mais, seria o momento. Inclinou-se e disse baixinho em seu ouvido agora surdo:
– “Eu te amo Bedeu”!
Foi nesse momento, bem próximo da cabeça do amado, que algo lhe chamou a atenção. Os bastos cabelos castanhos de Bedeu tinham uma minúscula mancha mais escura. Passou o dedo, levemente, sobre a mancha. A pele sensível do dedo não acusou a presença de nenhuma alteração no couro cabeludo. Mas a mesma pele branca e delicada da ponta do dedo ganhou uma cor vermelho-escuro. Seria sangue? Explorou a mancha afastando o cabelo grosso do amigo morto até chegar ao couro cabeludo. Parecia uma minúscula ferida, uniforme. Aguçou a vista. Sim, havia um minúsculo ferimento no couro cabeludo. Quase imperceptível. Mas era um ferimento.
Aquele imperceptível ferimento no couro cabeludo do amado, que morreu sem saber que era amado, acompanhou Vania de volta ao trabalho.
– “Mas eles disseram que Bedeu morreu sentado, na beira da ciclofaixa! Ele nem tirou o capacete de proteção! Será que foi no transporte para a funerária? Ou será que o agente funerário que lhe deu o banho o feriu sem querer?”, pensava Vania.
– “Que falta de empatia, de respeito com o corpo”, concluiu Vania tentando retomar sua rotina no trabalho.
Retomou. Mas o ferimento no couro cabeludo de Bedeu, aqueles cabelos que ela fez tanto esforço para conter o desejo de acariciar e chamar de seu, continuou ao seu lado o resto do dia. No final do expediente, quando as cortinas do escritório se fecharam, Vania procurou seu chefe para compartilhar sua descoberta, sua inquietação, sua angústia.
– Isso está me martelando a tarde inteira! Você acha que ele pode ter sido ferido e isso causou sua morte? – perguntou.
– Olha, eu não vi o ferimento. Não tenho como avaliar, opinar… Mas muitas pessoas viram o corpo. Os GMs viram, os policiais viram, os socorristas do Samu viram. Ninguém percebeu nada suspeito… O ferimento deve ter sido causado no manuseio na funerária.
– Era noite. E se o ferimento já estava lá e ‘passou batido’?
– Como eu disse, pouco provável. Se houvesse alguma suspeita de crime, o corpo teria sido levado para o IML, para exames. Se o corpo foi liberado para a família, é porque os profissionais não viram nada suspeito.
– Eu não vou conseguir dormir com esse ferimento na cabeça. Recentemente eu li um livro de crônicas policiais em que um corpo encontrado pendurado numa corda, no mato, foi dado como suicídio. Depois de enterrado, um investigador aposentado entrou na história e descobriu que o rapaz havia sido assassinado e pendurado na ponta da corda.
– Que livro é esse?!
– “Quem Matou o Suicida”.
– Ora, Vania, isso é ficção!
– Olha, a trama é tão bem-feita, tão bem contada, com tantos detalhes, que parece mesmo contos de Agatha Christie… Mas a história é verdadeira, acontecida no Sul de Minas! Será que se eu contar isso pra polícia, agora que o corpo já foi sepultado, a polícia vai investigar?
– Eu não entendo de assunto de polícia. Mas tenho um amigo delegado que joga futebol com a gente no clube toda quarta-feira. Se você quiser trocar umas ideias com ele, eu posso te apresentar.
Três dias depois o corpo de Bedeu emergiu da terra. Já conhecendo a suspeita, a médica legista foi ‘direto ao ponto’.
– Merda! Isso está parecendo orifício de entrada de projetil. Esse cara tomou um tiro na cabeça!
A necropsia de Bedeu foi rápida. O aparelho de raio-x no IML mostrou a localização exata do projétil estacionado no seu crânio. Dias depois o setor de balística do Instituto de Criminalística afirmou que o projetil encontrado no cérebro de Bedeu havia saído do cano de um Magnum 357.
Teria sido assassinato?
“Bala perdida”?
Suicídio?
Embalada pela empolgação com a descoberta da polícia a partir das suas suspeitas e do remorso do amor tardiamente confesso pelo colega de trabalho, Vania queria saber a resposta.
O jovem delegado responsável pela investigação, jovem na idade e na carreira, cheio de ilusões, vaidades e soberba, além de uma pilha de homicídios relevantes para investigar, não deu muita importância ao caso.
– Desculpe Sta. Vania, não podemos interromper as investigações que temos em andamento para nos dedicar a um caso de provável suicídio ou bala perdida! – falou o delegado, jogando um balde de água fria nas pretensões da ‘viúva virgem’.
Desiludida com a má vontade do delegado, Vania perdeu o pique. No entanto não desistiu de procurar respostas. No dia seguinte foi atrás da médica legista que havia feito a necropsia e descoberto a causa mortis do seu amado. Leticia, tão apaixonada quanto Sherlock Holmes por investigação criminal, abraçou sua causa.
– Suicídio? Impossível! Os policiais que encontraram o corpo não relataram nenhum vestígio de pólvora ou marca de tiro à queima roupa. Para suicidar sem deixar marcas, só se Bedeu tivesse montado uma geringonça para atirar de longe nele mesmo! Além do que, uma bala de Magnum 357 disparada de perto não pára no cérebro. Além de traspassar a cabeça, ela deixa um orifício de saída do tamanho de uma azeitona, das grandes. Não. Bedeu foi vítima de bala perdida.
– Mas bala perdida também é crime, não é? – questionou Vania.
– Sim. É um crime ‘culposo’, de menor potencial punitivo para o descuidado assassino, mas é crime. No entanto, com tantos BOs para investigar, poucos delegados se dedicam a apurar um crime sabidamente culposo.
– Mas então… o que fazer? O crime vai ficar sem solução? Ninguém será punido por isso? – perguntou desconsolada Vania.
– Bem, o delegado pode não dar prioridade ao caso, mas ele não pode impedir uma investigação paralela, particular… – conjecturou a jovem médica legista.
– Você está dizendo que eu posso contratar um detetive particular?
– Se você quiser… Tudo depende do quanto você quer esclarecer esse crime. Você está disposta?…
Vania se ajeitou na cadeira. Seus olhos cor de mel estavam fixos na legista à sua frente. Mas enxergavam outra pessoa, noutro lugar. Seus olhos viam a figura serena e amável do seu amado Bedeu, ora concentrado na sua mesa de trabalho, ora sentado à sua frente na mesa do restaurante comendo delicadamente e conversando amenidades. Viu também o amado passar pedalando rápido e concentrado pela ciclofaixa da lagoa. Sim, às vezes, quando se sentia mais carente, mais apaixonada, ela pegava um Uber e ia para a lagoa. Sentava no deque ao lado da Casa do Baile e ficava ali solitária esperando para vê-lo passar. As vezes tinha vontade de entrar na sua frente, atrapalhá-lo, derrubá-lo … e depois curar seus ferimentos. Ou então ser atropelada por ele, ser carregada em seus braços… mas nunca teve coragem. Estendia seu olhar lânguido na figura amada curvada sobre a bike e ficava olhando até que ele diminuía e sumia lá longe na curva do Iate Clube. “Quem sabe da próxima vez eu crio coragem”, pensava, enquanto embarcava no Uber de volta para casa. Agora nem isso podia mais fazer.
– E então? Você pretende contratar um detetive particular?
A voz inquisitiva da legista trouxe Vania de volta ao consultório.
– Ah, sim! Mas eu não conheço ninguém. A senhora que é policial pode me indicar alguém? Estou pensando em um detetive que desvendou um suicídio… num livro. Meu chefe disse que isso é ficção… – falou Vania, com uma ponta de timidez, ou vergonha.
– Qual livro?
– “Quem matou o suicida”.
– Eu também li esse livro. Ganhei de uma amiga legista do interior. São crônicas policiais, casos verdadeiros. Eu não conheço o detetive que desvendou o caso, mas minha amiga conhece. Ele mora no interior… Não sei se ele aceitaria vir para a capital investigar o caso.
Aceitou!
Três dias depois Matinhos deu uma volta na lagoa, refazendo o percurso tantas vezes feito por Bedeu. Embora estivesse de carro, seguiu lentamente, tentando imaginar como teria sido o último pedal do amigo da sua cliente, até que chegou ao local indicado pelos GMs. O tronco sem vida do jacarandá rosa, onde Bedeu se sentou para morrer em silencio e sem reclamar, não lhe disse nada. Não disse nem mesmo a direção de onde poderia ter vindo a bala assassina. Poderia ter vindo do parque municipal à direita… ou do quintal de uma daquelas mansões ou sítios à esquerda. Dependia de qual direção Bedeu estava seguindo. Será que ele recebeu a bala naquele exato local, ou pedalou alguns metros antes de se sentar para morrer?
Mais tarde o experiente detetive reuniu-se com Vania e a médica legista.
– O primeiro passo é checar a possibilidade de suicídio. Começando por saber se ele tinha arma…
– Suicídio? Impossível. Suicídio com arma de fogo deixa marcas de pólvora na entrada… e um estrago enorme na saída. – Reafirmou a legista apaixonada pela sua profissão.
– Ainda assim é necessário saber se ele tinha arma.
– E se ele tinha, alguém poderia tê-lo assaltado, tomado seu revólver e atirado nele! – concluiu apressadamente, Vania.
– Não por isso… o ferimento seria muito diferente, como já disse a doutora – rebateu Matinhos.
– Sim… ainda que o tiro tivesse sido disparado a alguns metros, o projetil teria arrancado um tampo da sua cabeça. Teria corrido muito sangue e ele não teria sentado pra morrer naquele toco! Teria despencado da bicicleta no ato – apressou-se Leticia.
– Mas então… – falou Vania abrindo as duas mãos espalmadas como se deixasse ir embora as últimas hipóteses.
– Vania, numa investigação, não se pode desprezar nenhum detalhe. Quem possui uma arma… tem muito mais chances de morrer baleada! – filosofou rasteiro o Detetive.
– Espere… Deixe-me ver os dados dele. Vou consultar… vejamos: Bedeu, filho de… Ele possui uma arma… registrada! E não há registro de furto! – falou Leticia com os olhos negros grudados na tela do computador consultando o REDS.
– Que tipo de arma? – quis saber Matinhos.
– É um Magnum 357! – respondeu Leticia com os olhos exclamativos olhando para o velho detetive.
– Ainda que tenhamos que descartar totalmente a hipótese de suicídio, é importante saber se a sua arma está em sua casa. Vou usar minha credencial de advogado para pedir ao delegado do caso um Mandado de Busca. Mas antes vamos dissecar todas as possibilidades.
O Mandado de Busca cumprido na casa do morto aguçou a euforia da investigação. A arma, um belo Magnum 357 niquelado que aparecia no folder junto ao registro do mesmo, não estava na caixa muito bem guardada entre livros na sua estante. Dona Teresa desconhecia que o filho tivesse arma. O mistério ficou ainda mais intrigante quando os policiais encontraram uma nota fiscal da última aquisição de munição, feita a cerca de três semanas. A caixa estava pela metade. Mesmo descartando a probabilidade de suicídio, o projetil encontrado pela amante platônica no crânio do pretenso namorado, poderia, ironicamente, ter sido adquirido pelo próprio Bedeu! Mas quem teria apertado o gatilho?
– Para chegar ao autor do disparo, qualquer que seja a causa, é preciso saber de onde partiu o tiro. Você disse que a bala penetrou num dos vãos de respiro do capacete de proteção… – perguntou Matinhos.
– Sim. Sem danificar o capacete. E na direção perpendicular, de cima para baixo. O que significa que o projetil veio de longe e o atingiu quando já estava caindo… – explicou a legista com um movimento de mão.
– Bem… Isso diminui muito a probabilidade de um tiro planejado, disparado de longe. Seria quase impossível disparar com tal precisão – arguiu o detetive.
– Isso quer dizer que elimina a possibilidade de crime premeditado? – interagiu Vania.
– Sim. Até porque, é certo que o projetil veio de longe e foi perdendo força. Caso contrário teria trespassado o crânio.
– Bedeu costumava pedalar quase sempre no sentido horário da lagoa. – Informou Vania, sem revelar que às vezes assistia incógnita e solitária aos seus pedais.
– A bala atingiu o lado direito do crânio… Isso significa que o tiro veio do parque municipal! O que dificulta muito a investigação… – concluiu pensativo Matinhos.
– A Vania disse que ele ‘quase’ sempre pedalava no sentido horário da lagoa. E se nesse dia ele fez o inverso? – arguiu a legista.
– É uma possibilidade…
– Mas então… – falou Vania abrindo as mãos num gesto de desanimo.
– Precisamos achar testemunhas que o tenham visto naquele início de noite e nos informem qual sentido ele seguia.
– Isso é difícil. Tanta gente pedala na lagoa! Especialmente nesse horário – falou Leticia.
– Nem tanto. Os bikers que pedalam na lagoa são sempre atenciosos e solidários. Eles sempre se cumprimentam quando se cruzam ou se ultrapassam. Isso gera empatia, intimidade, cria laços, se tornam conhecidos. Embora Bedeu pedalasse sozinho, ele tinha muitos conhecidos que pedalavam por ali. Alguém pode tê-lo visto naquele dia. – Informou Vania.
– Então vamos vazar o caso do Bedeu para a imprensa, de preferência sites de amantes do pedal e sites policiais, pedindo esse tipo de informação. Para isso precisamos de uma foto dele com as roupas e a bike daquele dia. Você pode conseguir isso, Vania?
Quatro dias depois Matinhos recebeu um telefonema. Um rapaz tinha informações a dar.
– Eu estava correndo com minha aluna quando ele passou por mim, pedalando normalmente. De repente, do nada, parou… perecia meio tonto. Encostou a bicicleta e sentou-se no tronco. Segundos depois passamos por ele e perguntei se estava tudo bem. Ele acenou com o polegar esquerdo enquanto, com a outra mão, parecia procurar o celular na pochete… Eram umas seis e pouco da tarde. Sim, nós seguíamos sentido inverso do relógio… – informou o personal trainer.
Saber a direção de onde viera o tiro fatal podia ser o fio da meada para a elucidação do crime. Para chegar ao autor, no entanto, seria necessário desenrolar todo o novelo. Ainda sem a pista que pudesse levar ao dedo assassino, Matinhos continuou seu périplo nas imediações do sinistro. Agora, sabia ao menos, a direção de onde viera a bala sem rumo. Nos dias seguintes ele concentrou sua atenção no lado direito da extensa avenida de dezoito quilômetros que circunda a lagoa da Pampulha, cartão postal da capital. O local tão cheio de verde, de vida, de pessoas alegres exalando vida, havia misteriosamente encerrado uma vida, sem alarde, deixando o corpo do jovem Bedeu inerte, contemplando o silencio da noite pouco iluminada, na extensa avenida que margeia bosques e matas habitadas por jacarés, capivaras e outros bichos que dão vida à lagoa. O lado oposto do parque, naquele trecho, era cheio de mansões circundadas por palmeiras, coqueiros e outras arvores frondosas, floridas e cheirosas que começavam ao rés da avenida e subia uma encosta levemente inclinada, formando uma colina, até divisar com o bairro ao norte. Matinhos sentou-se no mesmo tronco seco e sem vida onde Bedeu respirou pela última vez, virou-se para a larga avenida de mão dupla e ficou tentando imaginar o trajeto da bala assassina.
– “Um projetil desse calibre, dependendo da qualidade da munição, da polegada do cano da arma, da perpendicularidade do disparo e até da densidade do ar no momento, pode chegar com letalidade a cerca de seiscentos metros. Logo, o tiro foi disparado além dessas mansões, da rua ou do quintal de uma casa no outro bairro”… – concluiu para si mesmo.
Ainda pensativo, sentado no tronco que testemunhou o esvair de uma vida, o detetive, bem vivo, traçou seus próximos passos. Manteria um olho na casa da mãe de Bedeu, buscando filtrar a rotina da rua, da sua casa. O outro olho vagaria pelo bairro paralelo, de onde parecia mais provável ter partido o tiro irresponsável que matou o ciclista solitário.
No dia seguinte travestiu-se de funcionário do Censo e bateu na porta de cada residência da Avenida Portugal, entrevistou cada família tentando identificar o perfil de quem, por uma razão ou outra, pudesse ter se apossado do Magnum de Bedeu e o baleado enquanto praticava seu hobby nas proximidades da lagoa.
Numa destas noites em que um olho estava voltado para a casa da mãe de Bedeu, há poucos bairros dali, Matinhos presenciou uma visita à casa da idosa solitária e chorosa. A figura de um rapaz alto, magro, esportivamente vestido, sem o saber, posou para a câmera do seu celular. O moço aparentando meia idade, permaneceu cerca de meia hora no interior da casa antes de despedir-se da viúva no portão. No dia seguinte sua identidade foi confirmada pela mãe de Bedeu.
– É o Mauro. Ele era amigo do meu filho. De vez em quando ele vinha aqui, as vezes saiam juntos. – Contou Tereza.
– O que ele veio fazer aqui ontem? – indagou Matinhos.
– Ele veio me fazer uma visita… e devolver uns livros que ele havia emprestado do meu filho.
– Livros? Posso ver esses livros?
– Pode. Estão no quarto do Bedeu. Ele mesmo colocou na estante. Eu não entro no quarto do meu filho desde que ele se foi.
– Posso dar uma olhada nos livros?
Ao entrar no quarto de Bedeu, pela segunda vez em poucos dias, Matinhos sentiu uma certa euforia. Encheu-se de expectativa. Foi direto para a estante esperando encontrar um certo estojo de arma, desta vez mais pesado… ou não encontrar nem o estojo! Decepção! O estojo do Magnum estava no mesmo lugar, tão leve quanto antes, contendo apenas os documentos da arma e parte da munição.
A decepção de não encontrar nada de novo após a visita de Mauro, no entanto, não arrefeceu o ânimo investigativo do velho detetive.
Mauro, contemporâneo de Bedeu, era uma das dezenas de pessoas que moravam no bairro Céu Azul, na rua paralela com a avenida onde o ciclista sentou-se com uma bala ainda quente na cabeça e ali ficou, inerte, até esfriar. O amigo do morto merecia um dossiê mais detalhado. Matinhos consultou sua prancheta de ‘funcionário’ do IBGE.
Dois dias depois Mauro recebeu uma visita dos homens da lei. Os detetives traziam consigo uma ‘carta branca do homem da capa preta’. Após ler o Mandado de Busca e Apreensão, o detetive que conduzia a diligência adiantou:
– Sr. Mauro, temos indícios de que o Sr. andou fazendo disparos de arma de fogo no seu quintal, por isso buscamos especificamente armas e munições. Se você os entregar espontaneamente, facilitará nosso trabalho … e poupará aborrecimentos pra você!
Apesar da surpresa da visita da policia, Mauro não titubeou.
– Tranquilo Sr. Inspetor. Eu sou CAC. Tenho toda documentação exigida – disse o moço levando os policiais para o escritório. De um pequeno cofre atrás de livros numa estante de alvenaria planejada ele tirou duas caixas e colocou sobre a mesa. Numa delas havia uma pistola Taurus .40 e seus respectivos documentos. Na outra surgiu um Magnum 357.
– Posso ver o registro do Magnum? – perguntou o Inspetor.
– Esse é de um amigo. Eu peguei para experimentar. Se gostar vou comprar dele e fazer a transferência.
Matinhos, que acompanhava a diligência, pegou a arma com um lenço, verificou o tambor, abriu, aproximou o cano do nariz, sentiu o cheiro e falou:
– Foi usada recentemente …
– O Sr. Costuma praticar tiros com frequência? – Perguntou o Inspetor.
– Só quando tenho munição…
– Somente nos clubes de tiros ou pratica também em alvos aleatórios!
– Raramente disparo fora do Stand – respondeu receoso o CAC.
Quando esteve ali dias atrás fazendo o “levantamento demográfico” Matinhos percebeu que a casa não era tão grande para os padrões do bairro, mas tinha um grande quintal com pomar que terminava num barranco na direção da lagoa.
– O sr. costuma guardar as capsulas usadas para recarregar? Posso vê-las? – perguntou Matinhos fingindo pouco interesse enquanto olhava através da janela para o quintal dos fundos onde se via frondosas mangueiras, fruteira típica naquela quente região da capital.
– Sim, claro… – respondeu Mauro pegando outra caixa menor no fundo do cofre.
Matinhos pegou a capsula vazia, examinou-a, entregou ao Inspetor e tornou a perguntar.
– Essa arma e essas munições pertencem ao seu amigo Bedeu Joanel de Almeida, não é? – perguntou outra vez Matinhos.
Mauro teve um sobressalto. Como eles sabiam do Bedeu? O que teria a investida dos policiais na sua casa àquela hora da manhã com a morte do seu amigo? De repente um frio desceu pela espinha! Matinhos percebeu o desconforto de Mauro e voltou a interpelá-lo:
– Quando você usou esse revólver pela última vez?
– Umas duas ou três semanas atrás, eu acho … – respondeu já sem segurança.
– Mais precisamente no início da noite da quarta-feira, 30 de setembro!
– Trinta de setembro!? Pelo cheiro da pólvora dá para saber a data exata que a arma foi usada?
– Não. É que no dia 30 de setembro alguém foi atingido na cabeça com um tiro de Magnum na orla da lagoa…
– O que aconteceu com ele? Quem é o pobre infel… – Antes de completar a frase um nome lhe veio à mente. Apoiou-se à mesa.
– Seu amigo Bedeu… o dono da arma – completou o Inspetor, que o tempo todo mantinha os olhos grudados em Mauro observando suas reações.
Mauro deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa. Seu rosto estava lívido.
– Você consegue se lembrar os detalhes; quantos disparos você fez; tinha mais alguém com você?…
– Eu estava com um primo meu, do interior… Eu queria mostrar a ele como se usa o revólver, mas não havia tempo para ir ao clube. Cada um deu três tiros intercalados…
– Todos os tiros foram no mesmo alvo imóvel, no barranco no fundo do quintal?
Mauro titubeou. Mas não tinha mais controle emocional para fugir de qualquer resposta óbvia.
– Nalgum momento entre os disparos… uma ave noturna assustada levantou voo da mangueira … tentei alvejá-la… – falou finalmente.
– Foi esse tiro que saiu para o alto? – indagou Matinhos.
– Sim… foi o único… tentando alvejar a ave…
– … Mas acertou seu amigo Bedeu enquanto pedalava, a seiscentos metros daqui! – falou Matinhos pausadamente.
– Não estou acreditando… Eu matei meu amigo com a própria arma dele! – concluiu Mauro desolado com o rosto entre as mãos.
Após um breve instante para que o empresário processasse os fatos, o Inspetor falou:
– Sr. Mauro, o sr. terá que nos acompanhar à delegacia.
– Eu estou preso?
– Não. O sr. não está em estado de flagrância. Seu crime, a princípio, se enquadra no delito culposo. Já puxamos sua capivara… Sabemos que o sr. não tem antecedentes criminais e, portanto, não se justifica prisão preventiva. Mas será indiciado em Inquérito Policial. Seu vacilo comporta no mínimo 4 anos de cana. – Respondeu o Inspetor.
– O sr. vai precisar de um advogado… – acrescentou Matinhos.
Um ano depois o homem da capa preta proferiu a sentença contra Mauro. Com base no artigo 18 do Código Penal (que trata do dolo eventual), e na Lei da Gravidade (tudo que sobe, desce), o douto juiz entendeu que Mauro ao atirar para o alto, embora não quisesse, assumiu o risco de matar alguém com uma bala perdida. Por isso o condenou, por homicídio doloso, a oito (8) anos e meio de reclusão em regime fechado.
A prisão do CAC descuidado não ressuscitou o ciclista Bedeu. Apenas preencheu o espaço que cabe à justiça. O vazio do amor nunca declarado continuou latente no peito de Vania. Apesar disso, ela encontrou um alento. Grata ao detetive Matinhos, Vania tornou-se assídua leitora de romances e crônicas policiais.
Muito bom, todavia, para que a bala penetrasse num dos vãos de respiro do capacete de proteção, sem danificar o capacete, seria necessário que o Bedeu estivesse pedalando de “ponta-cabeça”.
Bom dia Gilson!
Os vãos de respiro ficam na parte superior do capacete. Por baixo, como você sugere, o capacete é totalmente aberto. Caso contrario, o capacete não entraria na cabeça!
Abraços.