O velho cão foi a peça chave para a apuração do assassinato do Pastor!
Eram nove da manhã de um ensolarado domingo de abril quando o telefone tocou na delegacia de policia. Do outro lado da linha uma voz de mulher disse apenas:
– “Tem um homem morto no mato ao lado da Vigor”!
Era meu plantão naquele dia. Como manda o bom senso que norteia a boa investigação, acompanhei o perito Praxedes ao local do crime. A informação anônima era verdadeira. Havia ali um corpo estendido no chão… sem lenço, sem documentos e sem vida! Pior! Sem um rosto que pudesse identificá-lo. O pobre homem de meia idade tinha o rosto completamente desfigurado por golpes de pedras e tijolos. Os toscos objetos do crime com as marcas da violenta agressão estavam espalhados ao lado do corpo no terreno baldio.
O corpo, que aparentava ter cerca de quarenta anos, foi levado para o IML e depois de necropsiado passou o resto do dia ali como indigente. No final daquela mesma tarde recebi uma mulher na DP para registrar um desaparecimento. Quando levantei o fantasmagórico lençol branco no IML, a mulher desandou a chorar. Era quem ela procurava! O morto era F.A.S., conhecido pela alcunha de “PASTOR”, com quem ela havia vivido maritalmente por dois anos na Baixada do Mandu. Segundo a mulher, Pastor, 38 anos, vivia de catar recicláveis e não fazia mal a uma mosca.
Apesar da vida de provações e escassez de dinheiro o rapaz era frequentador do FORRÓ DO PREGUINHO nos finais de semana. Aquela semana havia sido produtiva. Naquela noite de sábado ele estava endinheirado. Levava na algibeira pouco mais de 80 reais. Isso despertou a cobiça de lombrosianos que estavam nas imediações do forró… Foi sua sentença de morte!
As investigações do brutal assassinado nos levaram, como sempre, ao local do crime. No terreno baldio, permeado de mato, vegetação rasteira e entulho havia duas barracas velhas de camping, improvisadas. Uma delas estava vazia. Na outra havia um andarilho sem eira e nem beira. Na iminência de assinar um 121, ele nos contou – quase – tudo que sabia:
– Eu não vi nada, não, mas eu escutei. No meio da madrugada eu acordei com os latidos de um cachorro… Ele latia sem parar… aí o dono dele saiu da barraca e fez ele calar a boca – disse o mondrongo.
As informações eram poucas, mas foram o suficiente para nos levar aos assassinos. Bastava pensar. E pensamos:
– Se o cão vira-latas latiu… é porque presenciou o crime!
– Se o dono saiu da barraca para ralhar com o cão… ele também presenciou o crime!
– Se ele abandonou a barraca logo nos primeiros clarões da manhã… é porque ele não queria dar ‘entrevistas’ aos homens da lei!
As investigações nos mostraram que quem estivera abrigado na tosca e encardida barraquinha no palco do covarde assassinato do Pastor, eram M.T. e sua jovem amásia. O fato de ele ter deixado a barraca ao pezinho da manhã do crime, levando consigo o cão delator, fazia dele o principal suspeito. Por isso, não foi difícil fazer com que ele apontasse os autores… para livrar sua própria cara!
As informações de Miltinho foram confirmadas no passo seguinte. Levantamos que o telefonema recebido na manhã de domingo, partira de um orelhão instalado ao lado da casa dos assassinos!
Em seu mais célebre romance – Crime e Castigo – o grande escritor Fiódor Dostoievski traça, com muita assertiva, o perfil de todo assassino:
“O criminoso não se contenta em cometer o crime… ele quer saber o que a polícia sabe sobre o crime que ele cometeu… e se a policia vai chegar até ele”!
Ou seja: “quando o assassino não volta à cena do crime”, ele deixa pistas…
Desvendado o mistério, com a carta branca do homem da capa preta, apresentamos as pulseiras de prata aos algozes do Pastor. Os dois assassinos, bem como aquela mulher que ligou do orelhão para denunciar o crime, sentaram ao piano do paladino da lei e assinaram o latrocínio – matar para roubar.
O assassinato do Pastor nas margens da Perimetral naquela madrugada fria de abril de 2004, foi um dos casos mais fáceis e rápidos que apuramos. No entanto, toda a investigação resultaria infrutífera se o velho cão não tivesse colocado a boca no trombone, obrigando seu dono a ralhar com ele.
O cão responsável pelo esclarecimento do assassinato do Pastor por causa de 80 reais, era um ilustre desconhecido que perambulava pela cidade na companhia de um casal de moradores de rua. Depois de aparecer nas páginas do jornal FOLHA, como herói, ele ganhou holofotes e visibilidade. Principalmente depois de ser abandonado pelo dono. Miltinho era figurinha carimbada no álbum da policia e cliente antigo do Velho Hotel da Silvestre Ferraz, por uso de drogas, brigas e outros delitos menores. Moradores de rua, Miltinho e a namorada – e o cão adotivo – passavam os dias nas imediações da pracinha atrás da Catedral e dormiam em qualquer lugar que os protegesse do sereno da noite. O relacionamento do ‘casal 20 das ruas’ era, no entanto, estilo tapas & beijos! As brigas constantes do casal rendiam frequentes hospedagens gratuitas a Miltinho no Velho Hotel da Silvestre Ferraz. O pote tanto foi à fonte que o Homem da Capa Preta resolveu separar o casal. Miltinho ganhou uma estadia prolongada no hotel do contribuinte.
Sem o casal de briguentos para lhe dar um centavo de carinho e uma nesga de comida, o cão – auxiliar da lei – voltou a perambular solitário e cabisbaixo pelas ruas.
O ‘cão detetive’ atende pelo nome de TIBÉRIO. É branco encardido, tem entre dez e doze anos de idade e visíveis marcas do tempo e de maus tratos pelo corpo. Numa versão menos romântica do filme “Akita”, cujo cão passa anos esperando seu dono – Richard Gere – na estação, Tibério passou longo tempo tentando reencontrar seu dono. Passa boa parte do dia nas imediações da catedral – onde Miltinho e a namorada costumavam ficar – e à noite ronda o Velho Hotel da Silvestre Ferraz e a delegacia de polícia, onde Miltinho foi visto pela última vez… em busca de carinho e comida!
Sorrateiro, arredio e orgulhoso, não aceita agrado de qualquer um. Foi difícil fazer essa foto quando ele se aproximava para o jantar servido quase diariamente por dona Vera, na porta da sua casa defronte a delegacia. Se devemos respeitar todos os animais, certamente devemos muito mais ao Tibério, o ‘cão detetive’ que ajudou a esclarecer o fútil e bárbaro assassinato do Pastor!