Um banho de lama… Que levou 20 anos para secar!

Era uma segunda feira modorrenta e quente de carnaval. Havia caído uma pancada de chuva de verão e antes mesmo de a enxurrada escorrer, o sol voltou a castigar a tarde. Embora fosse carnaval e o serviço ficasse restrito ao plantão da delegacia, seguíamos, eu e o detetive Mauricio Conceição para o bairro Faisqueira a fim de localizar testemunhas de um furto que estávamos investigando…

Não tínhamos pressa. Seguíamos devagar pela avenida Antonio Scodeler, na velha Brasília verde, com as janelas abertas, braços para fora… As ruas do loteamento Monte Azul haviam sido rasgadas por aqueles dias. A enxurrada ainda descia do loteamento trazendo a terra solta, formando um mar de lama na estradinha que liga um extremo a outro do velho bairro. Fui passando na enxurrada com todo cuidado, para não enlamear a Brasília e evitar encalhar no barro… De repente surgiu um fusca e passou à toda velocidade ao nosso lado, jogando água vermelha e lama dentro do carro! A Brasília verde ficou cor de abóbora e nós… Qualquer porco fuçando na lama estava mais limpo do que nós! Nosso ímpeto foi de descarregar nossos trabucos no motorista do fusca. Pisamos fundo e fomos atrás. Eu com a cabeça para fora da Brasília, pois o barro no para-brisas tirava toda visão e Mauricio com metade do corpo na janela gritando e brandindo o revolver na mão. Seguimos esbravejando uns trezentos metros, até que na reta antes do matadouro consegui obrigar o piloto do fusca a encostar. Descemos os dois de armas em punho, querendo esfolar o motorista trapalhão, imaginando que se tratava de um moleque irresponsável qualquer. Para nossa surpresa o motorista do fusca era um cidadão maduro, serio, com jeito de caipira. Quando olhei seus documentos lembrei-me dele. Era o Sinésio Rodrigues. Eu o conhecia de vista há muitos anos, desde a campanha política de 72. Ele fora candidato a vereador e mesmo não tendo sido eleito continuou a ‘representar’ os moradores do bairro do Cristal onde morava. Era um sujeito muito correto e respeitado tanto no bairro quanto fora dele.

Mas o que fez passar nossa ira não foi o currículo de cidadão de Sinésio e sim sua reação! Ao ver que eu e Mauricio estávamos enlameados da cabeça aos pés, com os trabucos reluzindo em nossas mãos, Sinésio pediu mil perdoes. Só faltou ajoelhar a nossos pés. Ainda bem! Qualquer outra atitude dele poderia desencadear uma arbitrariedade de nossa parte. Sua humildade nos desarmou. Não havia o que fazer. O banho de lama que ele nos dera, ainda que tivesse sido uma atitude insensata, não era crime. Não podíamos prendê-lo e muito menos agredi-lo.  Depois de uns três minutos de desculpas de Sinésio e de inevitáveis palavrões de nossa parte, guardamos as armas, e voltamos p’ra delegacia… Para tomar banho.

Sinésio retomou o volante do seu fusca e seguiu seu caminho em direção ao Cristal cabisbaixo e tremulo do susto que passara diante dos dois trabucos. Toda vez que eu o via passar na rua ou na estrada, eu me lembrava do episodio. Porém, ele nunca me dirigiu a palavra e nem eu a ele.

Em 2004 em estava assistindo a um comício político em um bairro da cidade quando avistei Sinésio. Pensei com meus botões: “vou conversar com o Sinésio… Quero ver se ele se lembra daquele episodio do Faisqueira. Me aproximei com naturalidade  e puxei prosa.

– Boa noite. Voce é o Sinésio Rodrigues, não é? Lembra-se de mim?

– Nunca te esqueci, Chips… – Respondeu ele bem humorado, como se durante os últimos 20 anos tivéssemos mantido freqüentes diálogos.

– Eu sempre tive vontade de me aproximar de você para comentar aquele episodio da estrada do Faisqueira, lembra…?

– Lembro como se fosse hoje, Chips… – Tornou ele com vivacidade e franqueza, sem saber qual era minha intenção.

– Lembra que você deu um banho de lama em mim e no meu parceiro Mauricio…?

– Lembro demais… – Tornou ele, de braços cruzados, desta vez baixando os olhos para o chão, talvez pensando; “onde essa conversa vai dar?”

– Pois é Sinésio, eu não guardei magoa daquilo, pelo contrario, acho que nós exageramos na bronca que demos em você! Eu gostaria de te pedir desculpas…

Sinésio deu uma ajeitada na cabeça sobre o pescoço, ajeitou a gola da blusa de frio e falou com certo alivio e firmeza.

– Pois então, Chips, aquele dia eu fui pra casa aborrecido! Passei o resto do dia agitado. Demorei dormir de noite. No outro dia eu coloquei um revolver debaixo do banco do carro. Aonde eu ia o revolver ia junto. Durante muitos anos carreguei o revolver debaixo do banco… Não deu certo de nos encontrarmos. Tá fazendo uns dois anos que eu vendi o revolver…

Eu esperava qualquer reação, menos aquela revelação. Enquanto eu buscava palavras para remendar, Sinésio emendou, estendendo a mão para selar a paz…

– Agora já esqueci tudo, mas foi bom você ter falado comigo. Agora estou em paz…

Mauricio aposentou-se uns anos antes de mim e embora eu o veja de vez em quando, nunca tive oportunidade de comentar o fato com ele. Ele ainda não sabe que durante quase vinte anos nós dois estivemos com a vida por um fio, na mira de um cidadão honrado que ouviu calado nossos desaforos naquela tarde de segunda feira de carnaval no Faisqueira…! Há trinta anos!

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5 respostas em “Um banho de lama… Que levou 20 anos para secar!

  1. Boa historia …
    Coisa mais normal do mundo é o cidadão comum ( errado ou não) criar uma certa raivinha , odio ( vontade de vingança ) da autoridade que o aborda com certa disciplina !!!
    Mas 20 anos é mto tempo … rs !!
    Teve sorte hein Chips !!!!

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  2. Olá Airton…
    pois é meu caro, você também está sendo humilde ao reconhecer os “desaforos” que vocês fizeram, mas saiba que vocês não são os primeiros e nem os ultimos “da lei” a praticar não só apenas desaforos… infelismente a maioria dos policias se julgam os donos da verdade, não estou generalizando, mas inflismente é assim que acontece!
    abraços…

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  3. Poie é Chips… já viu algum dos comerciais da Record “Uma palavra pode fazer a diferença” ?

    Neste caso, umas duras palavras quase fizeram a diferença pra família de dois policiais. Uma terrível diferença.

    Mas… com outras boas palavras, a diferença foi feita da melhor maneira possível. Para ambos os lados.

    Abraços,
    Silas

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